sexta-feira, 21 de junho de 2013

O gigante quer muito mais

Protestos crescem no país, mesmo com reduções de passagens, inclusive em Minas.

Confrontos violentos entre polícia e manifestantes voltam a ocorrer em várias capitais.

Ativistas exaltam símbolos nacionais, como hino e bandeira, e repudiam partidos.

Concentrações populares são usadas para divulgar as mais variadas reivindicações.

A exemplo do que fizeram São Paulo e Rio, as tarifas de transporte público estão sendo reduzidas em vários outros pontos do Brasil. Na Grande BH, os ônibus metropolitanos ficam 3,65% mais baratos em 1° de julho, com a passagem predominante passando de R$ 3,45 para R$ 3,30. Contagem e Ibirité também diminuíram o custo dos coletivos, enquanto a capital e Betim caminham para fazer o mesmo. Entretanto, isso não arrefeceu os protestos de rua, que até aumentaram.

Ontem ocorreram grandes manifestações nas principais capitais brasileiras. Na capital mineira, cerca de 20 mil pessoas se reuniram na Praça Sete, seguindo para a Praça da Liberdade e Câmara Municipal, sem maiores incidentes. Mas houve violentos choques entre militantes e policiais, que dispararam bombas e tiros de borracha, principalmente no Rio, onde um grupo tentou invadir a prefeitura, e em Brasília, com tentativas de invasão ao Congresso e ao Palácio do Itamaraty.

Muita gente, muitos pedidos

No quarto dia de passeatas em BH, 20 mil pessoas se reúnem no Centro e na Câmara Municipal com reivindicações variadas

Tiago de Holanda, Mateus Parreiras, Alice Maciel, Landercy Hemerson e Luciane Evans

Cuidado. Querem tirar nosso foco. O protesto é contra a roubalheira", dizia um dos cartazes expostos ontem na Praça Sete, no Centro de BH, onde se reuniram cerca de 20 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar. Mas no quarto dia seguido de manifestações na capital, mais uma vez ficou claro que as queixas são diversas, incontáveis. Parte delas parece ser unânime, como o combate à corrupção, e outras são bem controversas. Algumas, um tanto imprecisas, exigem mudanças vagas. A variedade de reivindicações pode incomodar, mas muita gente prefere que seja assim. O Brasil, dizem, tem problemas em abundância. Na manifestação de ontem, que passou pela Praça da Liberdade e pela Câmara Municipal, no Santa Efigênia, houve menos incidentes do que nas anteriores. Até a 0h, quatro pessoas haviam sido presas. Uma por furto, uma por uso de maconha, uma por agressão e outra por atirar bomba caseira.

"Tem tanta coisa errada, que nem cabe em um cartaz", lia-se na cartolina erguida por Stephanie Messias, de 18 anos. Ela estava acompanhada de outros sete estudantes de direito. "A grande quantidade de objetivos não é ruim. Não dá para resolver tudo de uma vez, mas aos poucos as coisas mudam. A partir de agora, vamos ficar no pé dos políticos", diz a moça. Os colegas concordam. "A principal meta é reduzir o preço da passagem de ônibus, mas há muita coisa errada. A gente está indignada, por exemplo, com o excesso de dinheiro gasto com a Copa do Mundo", disse Blenda Lopes, de 19. "Na verdade, é a união de tudo: corrupção, falta de saúde e educação. A gente não aguenta mais", opina Luiz Fernando, de 19. Ele carregava cartaz criticando a imensa carga tributária brasileira. "Pagamos um monte de impostos e não temos retorno nenhum", apontou.

Como tantos outros, o cartaz segurado pelo vestibulando Wallaggy Ribeiro, de 22, atacava a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que retira do Ministério Público o poder de investigar crimes. Já o primo dele, o estudante de ciências contábeis Michel Warley, de 26, levantava outra bandeira: "Não à Copa, sim à saúde". "Há uma mês, fiquei um dia inteiro esperando em um centro de saúde e, quando fui atendido, o médico errou o diagnóstico. Disse que eu tinha virose, mas descobri que era princípio de pneumonia", contou.

O cartaz da estudante de publicidade e propaganda Luísa Teles, de 20, tinha dizeres irônicos: "Por uma saúde e uma educação nos padrões Fifa". Apesar disso, a mudança mais urgente que deve ocorrer no país é outra, na opinião dela. "O principal é tirar o Marco Feliciano (deputado federal que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara). Você não constrói uma democracia recriminando as pessoas por causa da opção sexual", alegou. A cartolina exposta por uma amiga, a estudante de direito Luiza Barros, de 20, celebrava a realização dos protestos: "País mudo não muda. O gigante acordou". Para a moça, a meta mais importante é outra: "É diminuir o salários dos políticos, os gastos que eles têm à nossa custa. Esse dinheiro precisa ser investido em saúde e educação", disse Luiza. "A galera percebeu que tem muita coisa para ser corrigida. Não tem como concentrar em um único objetivo", acredita.

Outro dizia que "não está certo o que o governo faz com nosso dinheiro". Havia quem antevisse um promissor futuro, ainda que incerto: "Amanhã vai ser outro dia". E outro ameaçava: "Só sairemos da rua quando o último corrupto cair".

Tensão na praça

Apesar dos poucos incidentes, a manifestação de ontem deu mais trabalho à Polícia Militar para organizar o trânsito. A falta de uma coordenação se refletiu em diversos impasses e desvios de trajeto que dificultaram o esquema de segurança para acompanhar o protesto e provocaram engarrafamentos. A primeira indecisão de percurso ocorreu na Praça da Liberdade, na esquina da Avenida Brasil com Avenida Cristóvão Colombo. Alguns manifestantes queriam descer para a Praça da Savassi e outros ir para a Câmara. Foi preciso retornar para a esquina, onde, depois de alguns minutos, o impasse foi resolvido com uma votação que decidiu por uma caminhada até o prédio do Legislativo municipal.

Ao longo do caminho os manifestantes conclamaram a população a piscar as luzes de casa, buzinar e seguir com a multidão. Chamou a atenção a consciência dos manifestantes, que fizeram silêncio ao passar na área hospitalar, próximo aos hospitais Santa Casa e São Lucas. Ao chegar à Câmara, não havia policiais esperando, uma vez que tropas de choque e outras unidades ficaram presas no trânsito. Mas não houve vandalismo. Os manifestantes cantaram o Hino Nacional, escalaram a laje da entrada do prédio e hastearam uma Bandeira do Brasil nos mastros do edifício.

A onda de manifestações impulsiona protestos paralelos, que começam a ganhar as ruas. Entre eles, o dos alunos do ensino médio da Escola Estadual Ordem e Progresso, no Bairro Gameleira, Região Oeste. Durante a manhã e a noite de ontem, cerca de 500 jovens, em cada turno, fecharam a Avenida Amazonas por mais de uma hora. Os alunos protestam contra o uso de um terreno ao lado para a construção de uma sede administrativa do Samu. Os estudantes imaginavam que ali seria um espaço ideal para a expansão do prédio da escola. "As salas estão superlotadas", reclama Mateus Souza, aluno do 2º ano.

Em nota, a Polícia Civil respondeu que a escola tem laboratório de informática, biblioteca, sala de multimeios, entre outras estruturas. "Além disso, toda a infraestrutura da Academia de Polícia Civil (Acadepol), à qual é vinculada, pode e deve ser usada pelos alunos e professores", diz o texto. Ainda segundo a nota, a Acadepol já está acertando com a escola a oferta de outros equipamentos. (Colaboraram Guilherme Paranaiba e Carolina Mansur)

Ator em passeata

O ator Daniel de Oliveira aderiu à mobilização e saiu em passeata pelo Centro de Belo Horizonte, sua terra natal, na noite de ontem. Acompanhado por um amigo, ele seguiu os manifestantes em protesto. Para ele, passou da hora de o povo se unir e cobrar seus direitos.

Fonte: Estado de Minas

Mais de um milhão de pessoas protestam em 75 cidades do País

Uma morte foi registrada, quando um motorista avançou sobre um manifestante em Ribeirão Preto (SP)

Da redação

Mesmo após a redução das tarifas de transporte público em 12 capitais - e em metade das cidades da Região Metropolitana de São Paulo -, novas manifestações levaram na quinta-feira (20) mais de 1 milhão de pessoas às ruas de 75 cidades do País. E a violência voltou a se destacar: pela primeira vez desde o início das manifestações, há 15 dias, uma morte foi registrada, quando um motorista avançou sobre um manifestante em Ribeirão Preto (SP). Pelo menos outras 77 pessoas ficaram feridas - 55 no Rio.

A cena que mais chamou a atenção, à noite, foi a tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty, em Brasília. A polícia tentou conter os invasores com gás, mas o prédio teve janelas quebradas e focos externos de incêndio. Além disso, a paisagem da Esplanada dos Ministérios foi tomada pelo gás lacrimogêneo e até a Catedral se tornou alvo de vândalos.

Após duas semanas de protestos, foi o ataque mais violento a um centro de poder. Antes, o Congresso Nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, o Palácio dos Bandeirantes e o Edifício Matarazzo (sede da Prefeitura de São Paulo) haviam sido alvo de protestos. Na quinta-feira, com novas bandeiras para o movimento sendo discutidas no Twitter e no Facebook e em meio às reivindicações sociais e políticas diversas que eram ouvidas, um novo grito destacou-se: “sem partidos”. Integrantes dessas agremiações foram proibidos de erguer bandeiras por todo o País e o PT viu fracassar a convocação de sua “onda vermelha”. Houve confronto até entre manifestantes dos “sem partido” e os do “sem fascismo”. Mas o caráter multifacetado do movimento já preocupa especialistas e analistas políticos, que falam em “mal-estar” da democracia no Brasil.

Em São Paulo, a manifestação chegou à Câmara, à Assembleia e a sede da Prefeitura, mas sem confrontos - na Paulista, o tom de festa venceu. No entanto, as consequências da redução de tarifa ainda eram avaliadas por Fernando Haddad (PT), que passou o dia refazendo contas. Há pelo menos três hipóteses para cobrir o déficit financeiro provocado pela revogação do aumento da tarifa incluindo adiar o bilhete único mensal. De certo, o governo municipal aponta que o ritmo dos investimentos na cidade vai cair.

Ainda na quinta-feira, a Justiça de São Paulo mandou soltar os quatro estudantes do Mackenzie e outras dez pessoas presas em flagrante e acusados de atos de vandalismo nos protestos de terça-feira, na região da Avenida Paulista. Eles ainda vão responder por formação de quadrilha, resistência, crime de dano, desacato e incêndio. Já a Prefeitura vai cobrar do estudante de Arquitetura Pierre Ramon Alves de Oliveira, de 20 anos, os danos que confessou ter causado à sede do Executivo municipal, na tentativa de invasão, na terça-feira.

Fonte: O Tempo (MG)

Um gigante fora de controle

Mais de 1,4 milhão de brasileiros saíram às ruas em 111 cidades, numa das maiores manifestações da história do Brasil. Embora a maioria dos protestos tenham sido pacíficos, houve ataques ao patrimônio, saques, acidentes e confrontos com policiais em pelo menos quatro capitais. Em Brasília, 35 mil pessoas ocupavam a Esplanada dos Ministérios sem maiores incidentes até que um pequeno grupo tentou invadir o Itamaraty, apedrejou a Catedral e destruiu equipamentos urbanos. A presidente Dilma convocou uma reunião ministerial de emergência para discutir a crise.

Revolta em rede

Na maior série de protestos feitos em um único dia, desde as campanhas pelas eleições Diretas Já, em 1984, cerca de 1,4 milhão de brasileiros foram às ruas de pelo menos 109 cidades, em quase todos os estados dos país, ontem. Apesar de a maioria dos atos terem sido pacífica, em muitos municípios as manifestações foram marcadas por confusão no fim da noite. Houve pichações, incêndios, saques e agressões. Pelo menos uma pessoa morreu, por atropelamento, em Ribeirão Preto (SP). Para dispersar a multidão, as polícias estaduais e municipais usaram gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha.

São Paulo reuniu o maior número de manifestantes: pelo menos 356 mil foram às ruas. Na capital paulista, os protestos acontecerem sem a violência que havia ocorrido nos eventos dos últimos dias. As marchas no interior do estado foram marcadas por destruição. Vários prédios públicos e comerciais foram depredados. Em Ribeirão Preto, onde 20 mil saíram em passeata, uma pessoa foi morta por atropelamento, quando um carro tentou furar o bloqueio montado pelos manifestantes. O acidente envolveu ainda outras três pessoas. No Rio de Janeiro, alguns participantes da manifestação tentaram invadir o prédio da prefeitura. O grupo também incendiou o carro de uma emissora de tevê. (assista ao vídeo do atropelamento no Correioweb)

Alguns estados, entretanto, seguiram sem confrontos. No Recife, por exemplo, 52 mil pessoas marcharam no Centro da cidade, mas não houve registros de violência. Em Goiânia, os policiais distribuíram rosas brancas ao grupo.

Os protestos no Brasil e no mundo

Manifestantes no país: 1,4 milhão *
* Estimativa

Sem violência
Alagoas
Maceió
Amapá
Macapá
Maranhão
São Luiz
+ 2 municípios
Mato Grosso
Cuiabá
Mato Grosso do Sul
Campo Grande
Paraíba
João Pessoa
Pernambuco
Recife
+ 2 municípios
Rondônia
Porto Velho
+ 2 municípios
Roraima
Boa Vista
Santa Catarina
Florianópolis
+ 5 municípios
Sergipe
Aracaju
Tocantins
Palmas

Confronto
Amazonas
Manaus
Bahia
Salvador
+ 15 município
Ceará
Fortaleza
+ 1 município
Distrito Federal
Brasília
Espirito Santo
Vitória
Goiás
Goiânia
+ 4 municípios
Minas Gerais
Belo Horizonte
+ 8 municípios
Pará
Belém
Paraná
Curitiba
+ 5 municípios
Piauí
Teresina
Rio de Janeiro
Rio de Janeiro
+ 1 município
Rio Grande do Norte
Natal
Rio Grande do Sul
Porto Alegre
+ 5 municípios
São Paulo
São Paulo
+ 34 municípios

Fonte: Correio Braziliense

Dilma convoca reunião de emergência após protestos

Presidente se reunirá com principais ministros para avaliar conduta do governo e medidas como pronunciamento em rede nacional. Em vários pontos do país, manifestações começaram em paz e se encerraram com violência.

Sob chuva, milhares de pessoas foram às ruas em Porto Alegre para novo ato. Em capitais e pelo interior do Brasil, a cena se repetiu em pelo menos 100 cidades.

O Rio, que concentrou 300 mil pessoas em passeata, teve imagens marcantes de mobilização pacífica, mas também confronto de manifestantes com polícia.

Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, teve parte das vidraças quebrada e princípio de incêndio causado por coquetel molotov.

Presidente convoca reunião emergencial

Depois de acompanhar os protestos no Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff decidiu convocar uma reunião de emergência para as 9h30min de hoje com seus principais ministros para discutir os efeitos das manifestações.

No encontro, a presidente avaliará relatos da extensão dos atos. A partir daí, será decidida uma nova conduta de governo, como medidas ao alcance do Ministério da Justiça e um pronunciamento oficial da presidente.

Dilma só fez uma referência pública aos protestos, na terça-feira, durante o lançamento da proposta do Código de Mineração. Disse que apoiava as manifestações pacíficas. Na hora em que Dilma deixava o Planalto, o Itamaraty era atacado pelos manifestantes. O palácio presidencial estava protegido fortemente por policiais e Exército.

Devem participar da reunião de hoje os ministros Gleisi Hoffman (Casa Civil), Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), Aloizio Mercadante (Educação), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Ideli Salvatti (Relações Institucionais). Há a informação de que Dilma poderia ser aconselhada a convocar o Conselho da República, um órgão para assessorar o chefe da nação em momentos de crise, presidido por ele e composto pelo vice-presidente da República, os presidentes da Câmara e do Senado e líderes da maioria e da minoria no Congresso.

Mais cedo, Dilma havia decidido cancelar a visita ao Japão na próxima semana. Ela embarcaria na segunda-feira. A presidente avaliou que não deveria sair do país neste momento de instabilidade tanto no cenário internacional quanto interno.

Ontem, o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PR-PR), comandou uma reunião dos líderes partidários. “O presidente em exercício e os líderes partidários manifestam o reconhecimento da Câmara em relação às manifestações pacíficas que estão acontecendo nos últimos dias no Brasil. Este movimento da cidadania é legítimo e gera esperanças de um revigoramento republicano”, diz a nota dos parlamentares. Líder do PSB, Carlos Sampaio (SP) deixou a reunião sem assinar o texto e disse que os manifestantes não esperam nota oficial e sim “mais postura e uma pauta propositiva de matérias de interesse do povo”.

O presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), se reuniu com três estudantes da Universidade de Brasília (UnB) para tentar mediar um encontro com líderes do movimento. Porém, não houve definição.

– A maior demonstração que o parlamento pode dar como casa do povo é estabelecer uma nova agenda em função das manifestações – disse Renan.

Dilma acompanhou as manifestações do Planalto e decidiu chamar os principais ministros para avaliar medidas

Fonte: Zero Hora (RS)

Aprendizado essencial - Marina Silva

Ninguém deveria estar surpreso, sabíamos que iria ocorrer. A internet ajuda a mudar tudo: a cultura, os negócios, as comunicações. Por que só a política não seria afetada?

Carlos Nepomuceno diz que três fatores ajudaram a transformar o mundo: a impressão em papel, a Revolução Francesa e a independência dos EUA. Eles compuseram a realidade de dois séculos e nos trouxeram até aqui, mas são insuficientes para configurar um mundo com 7 bilhões de pessoas e uma ferramenta que quebra as estruturas convencionais para intermediar a informação, a internet.

Tenho falado, aqui mesmo na Folha, daquilo a que chamo movimentos de borda. Eles se afastam do centro político estagnado, das instituições enrijecidas, das disputas por dinheiro e poder. Neles predomina um ativismo autoral, não mais dirigido por partidos ou lideres carismáticos. A presença destes é residual e produz incômoda sensação de oportunismo. Não há comando único, há relação horizontal e lideranças móveis: hoje lidero, amanhã sou liderado; hoje sou arco, amanhã sou flecha.

Esse ativismo não tem porto, carrega sua âncora e estaciona onde quer. Basta ver quantos sites temporários há na internet, usados numa mobilização ou num momento.

O essencial é perceber o que está latente. Não são os 20 centavos no Brasil, as árvores da praça na Turquia, ou qualquer demanda simbólica visível. O que está em pauta é a democratização da democracia. As pessoas não querem ser meros espectadores, lugar em que foram colocadas pelos partidos que detêm o monopólio da política. Querem ser protagonistas, reconectar-se com a potência transformadora do ato político.

Deve-se reconhecer esse desejo e respeitar o sujeito político que surge. Muitos se apressaram em desqualificar os novos movimentos, os abaixo-assinados, a campanha de defesa das florestas, a solidariedade aos índios, o "Fora Renan". Agora se esforçam para descobrir uma forma de interlocução, mas mantendo a ansiedade de liderar, usurpar, controlar.

Não basta dar 20 centavos para tirar o incômodo da sala. O que está havendo é significativo: no país do futebol, durante a Copa das Confederações, as pessoas protestam contra o custo dos estádios e dizem que queremos nosso dinheiro em saúde e educação.

O Brasil pode aprender a fazer diferente: nem transição eterna e lenta nem ruptura brusca, mas o diálogo produtivo e criativo da democracia ampliada. Temor de vandalismo? Ora, cultivemos uma cultura de paz. Prefiro sentir-me representada pelas pessoas que estão nas ruas, dizendo o que não querem, a exigir que tenham projetos definidos.

Não há salvadores da pátria, há homens e mulheres que trabalham juntos. Que seja este nosso aprendizado essencial, nossa maior mudança.

Marina Silva, ex-senadora

Fonte: Folha de S. Paulo

A estrondosa vaia que tomou as ruas do país - Roberto Freire

O mundo de fantasia edulcorado pela propaganda petista começou a entrar em contato com o Brasil real assim que o nome de Dilma Rousseff foi anunciado aos torcedores que compareceram ao Estádio Mané Garrincha, no último sábado (15), para acompanhar o jogo de abertura da Copa das Confederações, e saudado com uma estrepitosa vaia. Ao contrário do que os entusiastas do PT e da presidente poderiam imaginar, as vaias em Brasília foram sucedidas por protestos e manifestações que ganharam as ruas das principais cidades brasileiras.

A indignação generalizada, tão contundente quanto difusa à primeira vista, tem entre suas múltiplas causas justamente os gastos do governo federal para a realização da Copa do Mundo no Brasil. No mesmo sábado em que a presença de Dilma foi repudiada pelos torcedores no Mané Garrincha, milhares de manifestantes deixaram claro, do lado de fora do estádio mais caro do Mundial de 2014, que não aprovavam o dinheiro público torrado para o evento do ano que vem.

Embora o governo do PT tenha prometido inicialmente que a construção das novas arenas seria viabilizada apenas com investimentos privados, os gastos desmedidos devem ultrapassar a exorbitância de R$ 28 bilhões, segundo estimativa do próprio Ministério do Esporte. Somente nos estádios construídos ou reformados para a competição, a conta chega a R$ 7 bilhões, quantia sete vezes maior do que o valor estipulado em 2007 (R$ 1,1 bilhão), quando o Brasil ganhou o direito de receber a Copa. Desse montante, 97% é dinheiro público.

Além do repúdio aos gastos da Copa, a população brasileira tem ido às ruas para manifestar seu descontentamento com a inflação, atitude simbolizada pelos jovens do Movimento Passe Livre que se revoltaram com o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo e espalharam essa causa, como fagulha, por todo o país. O que começou como uma reivindicação localizada rapidamente ganhou dimensão nacional, com mobilizações organizadas pelas redes sociais e que abriram espaço para que os brasileiros empunhassem outras bandeiras como o combate à corrupção e à violência, mais investimentos nas áreas de saúde e educação e reforma política. Na segunda-feira (17), mais de 250 mil pessoas participaram daquela que já é a maior manifestação popular desde o movimento pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992.

Por mais que a propaganda oficial, tão afeita ao ludíbrio da sociedade, tente minimizar o impacto da onda de protestos que tomou conta do Brasil, é evidente que se trata de mais um sinal do esgotamento de um ciclo de poder cujo legado ao país é institucionalmente precário e moralmente indecoroso. A permanente afronta ao Legislativo, ao Judiciário e à imprensa independente, a cooptação de parlamentares escancarada pelo mensalão, a fisiologia na ocupação de cargos públicos, a corrupção simbolizada por dinheiro na cueca, o uso desenfreado da máquina com fins meramente eleitorais e um completo descompromisso com a liturgia republicana são algumas das marcas deixadas nesses dez anos de governos do PT.

É contra tudo isso que o povo vai às ruas, formando um coro uníssono de milhões de vozes, com diversas causas pelas quais lutar, mas um sentimento comum de indignação que estava represado. A vaia, enfim, tomou conta do país.

Deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Fonte: Brasil Econômico

Partidarismo rejeitado - Merval Pereira

O fato de militantes petistas com suas bandeiras terem sido rechaçados nas manifestações em diversos estados do país ontem é um bom indício de que o movimento que chegou aos corações e mentes da classe média não se deixou contaminar por partidarismos.

Depois de uma reunião da presidente Dilma com o ex-presidente Lula em São Paulo, onde estranhamente estavam presentes o presidente do PT Rui Falcão e o marqueteiro da presidência João Santana, ficou estabelecido que o prefeito Fernando Haddad deveria reduzir os preços das passagens, e o partido entrar nas manifestações ao lado dos movimentos sociais que controla - ONGs de diversos tipos, o MST a CUT, a UNE.

Uma reunião partidária, como se vê, com a presidente da República recebendo instruções de seu tutor político, numa clara demonstração de que depende dele para se posicionar em situações de crise. A desorientação petista é tamanha que há correntes dentro do partido que pressionam o governo a dar uma guinada à esquerda para supostamente se sintonizar com esses movimentos.

Já há movimentos dentro do PT a exigir do governo que deixe de fazer superávit primário para pagar a dívida e use esse dinheiro para investimentos em saúde e educação. Ou então para que o PT deixe de lado as coalizões partidárias com o PMDB e que tais e faça uma ligação direta com as massas. Renasce em alguns setores da esquerda o sonho da democracia direta, tão em voga nos regimes bolivarianos da América Latina.

É difícil saber no que vai dar tudo isso. Não há como definir o que vai prevalecer nessas manifestações. Assim como há baderneiros infiltrados e toda uma gama de manifestantes dispostos ao vandalismo, que consideram a depredação a melhor maneira de enfrentar os governos, há também no próprio movimento do Passe Livre uma predominância de pensamento de esquerda radical. Agora que conseguiram a redução do preço das passagens, querem a tarifa zero e outras reivindicações que não estão na pauta da maioria que foi às ruas.

A tarifa zero é uma utopia do bem, que se pode tentar alcançar, e seria boa para todo mundo, embora me pareça impossível em cidades grandes como São Paulo e Rio. Mas há outras reivindicações que nada têm a ver com a grande massa que participou das manifestações, como o protesto contra o "latifúndio urbano".

E querem introduzir na pauta também a reforma agrária, uma reivindicação bastante discutível hoje no Brasil onde o agronegócio é um dos sustentáculos da economia brasileira e o latifúndio improdutivo praticamente desapareceu. Um processo de modernização agropecuária que, hoje, caracteriza o capitalismo no campo, fez com que nos últimos 30 anos o latifúndio se transformasse em grande empresa rural, tornando-se produtivo.

A maioria não está nem com os baderneiros nem com essa politização que, embora não seja partidária, é política, de grupos que lideram os movimentos. A maioria está nas ruas por causa da melhoria do dia a dia, quer que o dinheiro público seja gasto com transparência e com prioridades claras, esse é o foco central da maioria. E é por isso que as manifestações contra o aumento de ônibus cresceram se ampliaram.

Houve a adesão de um grupo grande da classe média que está sentindo os efeitos da inflação, dos péssimos serviços públicos, da opressão do Estado, que viu nessas manifestações um caminho para extravasar suas frustrações e exprimir suas reivindicações. E eles sabem porque a vida não é melhor: porque o dinheiro público é desperdiçado, roubado; os governos de maneira geral têm projetos imediatistas de poder e não projetos de longo prazo para o país.

Quem quiser levar os protestos para caminhos radicais, vai perder apoio.

Os pontos-chave

1. 0 fato de militantes petistas com suas bandeiras terem sido rechaçados nas manifestações em diversos estados do país ontem é um bom indício de que o movimento que chegou aos corações e mentes da classe média não se deixou contaminar por partidarismos

2. Já há movimentos dentro do PT a exigir do governo que deixe de fazer superávit primário para pagar a dívida e use esse dinheiro para investimentos em saúde e educação. Ou então para que o PT deixe de lado as coalizões partidárias com o PMDB e que tais e faça uma ligação direta com as massas

3. A maioria não está nem com os baderneiros nem com a politização. A maioria está nas ruas por causa da melhoria do dia a dia, quer que o dinheiro público seja gasto com transparência e com prioridades claras, esse é o foco central da maioria se é o foco central da maioria.

Fonte: O Globo

O truque envelheceu - Dora Kramer

A aplicação do velho lema que aconselha adesão ao inimigo que não se pode vencer é o que se evidenciou na convocação da militância petista às ruas feita - e depois negada - pelo presidente do PT, Rui Falcão.

Ousado, foi o primeiro partido a tentar marcar presença nos protestos a despeito do repúdio dos participantes a quaisquer conotações partidárias. "Não temos medo das ruas", disse Falcão.

As ruas, no entanto, não receberam bem essa tentativa do PT de posar de estilingue para se desviar das pedras atiradas nas vidraças. Não as reais, das depredações cada vez mais difíceis de serem qualificadas como atos isolados devido à constância com que têm ocorrido em praticamente todas as manifestações País afora.

As pedras que o PT quer evitar são as simbólicas, atiradas como expressão do descontentamento geral com serviços mal prestados pelo poder público e o mau comportamento de representantes do poder político.

A estratégia é clara e já estava delineada no discurso da presidente Dilma Rousseff logo após reunião de emergência para tratar dos protestos com o ex-presidente Lula, o marqueteiro João Santana, o presidente do PT e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, recentemente levado à condição de eminência parda.

Dilma parou de chamar críticas de "terrorismo" e tratou de demonstrar seu apreço à "mensagem direta das ruas", cuja essência, segundo ela, é "o repúdio à corrupção e ao uso indevido de dinheiro público".

Lula convocou para um encontro as centrais sindicais das quais ouviu - e segundo consta anotou - queixas contundentes aos modos da pessoa que conseguiu eleger convencendo a maioria de que seria a mais preparada para governar o Brasil. Prometeu ajeitar o meio de campo, mas ao que se sabe não defendeu sua criatura.

O partido e o governo fizeram questão de deixar patente a insatisfação com o comportamento do prefeito Fernando Haddad, atribuindo a ele o desgaste por não ter percebido a real dimensão dos movimentos e atuado politicamente no sentido de obter dividendos. Como se qualquer outra autoridade tivesse notado e estivesse preparada para reagir à altura sem prejuízos políticos. Haddad virou o bode expiatório dos companheiros.

Juntem-se esses movimentos e o que se obtém é o desenho de uma manobra na qual o PT é mestre: a transformação do malefício em benefício mediante a manipulação de fatos e falas.

Fez isso diversas vezes ao longo dos últimos dez anos (para não falar da época em que foi oposição na posse da bandeira ética chamada de "udenismo" quando levantada pelos adversários), com destaque para o escândalo do mensalão que conseguiu disfarçar como "defeito do sistema" até o Supremo Tribunal Federal rasgar essa fantasia.

Tentou agora de novo. Em sua nota convocatória, Falcão faz referências à identidade do partido com os "movimentos populares" e diz que a participação do PT impede que a "mídia conservadora" e a "direita" influenciem a pauta das manifestações.

Seria engraçado não fosse mais um exemplo da desfaçatez de um partido que governa o Brasil há dez anos e agora tenta capitalizar insatisfações que ele mesmo transformou em panela de pressão ao obstruir todos os canais de expressão do contraditório mediante o uso abusivo dos instrumentos de poder.

A julgar pela reação das tão queridas ruas, a manipulação encontrou um limite e o velho truque envelheceu.

Que dúvida... O mundo político insiste em dizer que desconhece as causas dos protestos. Recorrendo ao de Nelson Rodrigues: se quem protesta não sabe exatamente no que bate, seus alvos sabem perfeitamente por que apanham.

Fonte: O Estado de S. Paulo

No colo de Dilma - Eliane Cantanhêde

Os governos recuaram, mas a guerra continua, mais forte do que nunca. Os manifestantes se descobrem com imenso poder, multiplicam-se pelo país, desdenham os partidos e, ontem, ameaçaram cercar o Palácio do Planalto.

As tropas fiéis à presidente Dilma Rousseff tiveram de montar duas trincheiras: uma de defesa do Planalto, fisicamente; outra da própria presidente, politicamente.

Enquanto os policiais fazem um cordão de isolamento para evitar que os manifestantes batam às portas ou nas vidraças do Planalto, os (poucos) políticos realmente dilmistas tentam neutralizar a base aliada e buscar um rumo para a presidente. Mas quem está no comando é Lula.

O núcleo do poder já discute a conveniência, ou a emergência, de jogar o ministro Guido Mantega às feras, antes que as manifestações e as notícias desastrosas da economia se embolem numa só bomba e caiam dentro do Planalto, no colo de Dilma.

As ruas do país estão em chamas, enquanto a Bolsa derrete, o dólar dispara e o índice de emprego --que se mantém muito bom-- já não dá para o gasto político. Foi engolido pelas más notícias na economia e pela frustração popular.

O curioso é que, saia Mantega ou não, a protagonista é outra e o filme está ficando repetitivo. Em janeiro, como escrito neste espaço, a ordem de Lula era "destravar" a economia e o governo ou, quem sabe, destravar a própria Dilma. Cinco meses depois, lê-se na própria Folha que agora Lula quer dar uma "chacoalhada" no governo (ou, quem sabe, chacoalhar a própria Dilma?).

De lá para cá, a coisa desandou rápida e surpreendentemente. A acusação a Dilma é que, em dois anos, ela torrou o patrimônio político, econômico e social que herdou de Lula. A família lulista está tão em pé de guerra quanto os manifestantes que, por pouco, não subiram a rampa do Planalto na quinta-feira de fúria. Até o fechamento desta edição.

Fonte: Folha de S. Paulo

Sem favoritos - Denise Rothenburg

Fracassou a ideia do ex-presidente Lula de tentar tirar o PT do sanduíche pela aba das manifestações, misturando os militantes do partido aos sem-bandeiras. Em várias cidades, os defensores partidários foram acuados aos gritos de "mensaleiros". Isso mostra que, pelo menos até aqui, a marca do escândalo de 2005 não saiu, embora os petistas ainda tenham a preferência do eleitorado, de acordo com as pesquisas, e a rejeição não tenha sido privilégio do PT. Todos os partidos que testaram a força nas mobilizações de ontem foram rechaçados. E, se a onda pega, a campanha de 2014 será mais animada do que qualquer outra disputada desde a primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994.

Àqueles carecas de conhecer a história política do Brasil, que me perdoem, mas vale um histórico dos motes eleitorais de lá para cá. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi guindado ao poder no embalo do Plano Real. Depois, com o discurso de que a economia sofria sérios riscos caso não fosse reeleito, o então presidente conquistou mais um mandato. Em 2002, com a economia enfrentando problemas, foi a vez de o PT chegar com o discurso de equilíbrio social. Assim, Lula, em sua quarta eleição presidencial, conquista o poder não sem antes prometer que seria equilibrado na economia.

Se Fernando Henrique Cardoso conquistou a reeleição com o discurso de que era o melhor para conduzir a economia e evitar aventuras, Lula fez o mesmo com a mensagem de que o PSDB não manteria as conquistas sociais de seu governo e ainda faria uma gama de privatização de serviços públicos. Saiu tão popular que fez a sucessora, Dilma Rousseff, até o início deste ano considerada imbatível do ponto de vista eleitoral. Dilma aos poucos superou o próprio Lula em termos de popularidade e intenção de voto. Ganhou apoios na classe média, hoje mais robusta.

Agora — ufa, vamos ao que interessa! — tudo mudou. O repúdio aos petistas e a todos os partidos nos dá um sinal de que esta eleição que vem por aí em 2014 não terá um nome que predomine a anos-luz dos demais. É precipitado, entretanto, dizer que estejamos chegando novamente àquela temporada que resultou na eleição de Fernando Collor de Mello. A única comparação é a de que o país está farto dos políticos tradicionais.

Desta vez, o que os brasileiros reivindicam de maneira geral são serviços com qualidade e competência, e a boa aplicação de seus impostos. Ou seja, o óbvio. Quem conseguir convencer o eleitor de que é capaz de fornecer isso, certamente terá mais chances numa eleição, seja estadual, seja a própria Presidência da República. Num processo eleitoral tão antecipado, essa corrida já está em curso.

Enquanto isso, nos partidos...

Obviamente, quem está no poder sofre mais as consequências e a queda de avaliação. E, no momento, os partidos que têm candidato a presidente da República são poder. O PT está mais exposto por ter a Presidência, mas o PSDB também terá que prestar conta de serviços nos estados que governa, caso de Minas Gerais, São Paulo e Paraná. O PSB também será cobrado. Não por acaso, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, deflagrou ontem obras em emergências de três hospitais públicos do estado. E Marina Silva, que, a princípio, parece mais beneficiada, ainda não tem partido.

Os manifestantes dizem que se os governantes, de um modo geral, perceberem o perigo da exclusão eleitoral e se agarrarem no serviço de realmente melhorar aquilo que afeta a vida das pessoas, a irritação nos olhos causada pelo gás de pimenta ontem à noite já terá valido a pena.

Fonte: Correio Braziliense

Uma saída para qualquer parte - Maria Cristina Fernandes

Foi a CUT que agitou a reunião das centrais sindicais com o ex-presidente Lula no instituto que leva seu nome. Na véspera, a Prefeitura de São Paulo sacudira como uma bastilha. Naquela tarde em que os sindicalistas procuraram o ex-presidente no instituto, a periferia da cidade, longe da moçada da USP e das câmeras de televisão, aderia às manifestações.

A motivação era queremista, mas a quietude do dono da casa não abriu espaço à pauta. Os sindicalistas desfiaram suas queixas costumeiras da falta de interlocução no Planalto e comunicaram sua adesão às manifestações. Com a hostilidade dos manifestantes às suas bandeiras talvez sejam obrigados a recuar.

A Volvo, uma das maiores fabricantes de ônibus do mundo, pagou R$ 30 mil reais aos funcionários em participação nos lucros e resultados. Os motoristas de ônibus em São Paulo tiveram reajuste acima da inflação. A prefeitura participou da negociação temendo greve, mas o barco adernou do outro lado. Nem a Volvo deve pagar mais um PLR desses nem os motoristas, com o recuo na tarifa, deverão ter dissídio tão generoso. Deve ser por isso que querem aderir, mas é outro o tempo.

Partidos e sindicatos penam para voltar às ruas

Já se passaram oito anos desde que Lula ameaçou chamar os sindicatos para defender seu mandato da turbulência do mensalão. Não foi o carro de som que garantiu o segundo mandato de Lula e a eleição de Dilma Rousseff, mas o gasto de governo e consumidores.

Agora a galera não quer só comida, diversão ou arte. Busca saída para qualquer parte que os Titãs, por tiozinhos, não devem mais saber onde fica.

Naquela época Lula defenestrou Antonio Palocci e se resguardou com a turma do carro de som para se manter no poder. Agora são as duas pontas que parecem unidas para levar o homem de volta. Mercado financeiro e sindicalistas talvez acreditem que só Lula conheça a regência dessa orquestra de acordes dissonantes. O problema é que o ruído agora é novo. Ainda não apareceu um diapasão sintonizado. E não há sinais, pelo que se vê e ouve nas ruas, que o tom esteja em São Bernardo.

O discurso que Dilma e seu partido adotaram mostra que governo e PT querem fazer parte da manifestação como se não exercessem os poderes constituídos. É como se dissessem: queremos as mesmas coisas que vocês e, se não o fazemos, é porque o PMDB e os mercados não deixam. Unam-se a nós que juntos chegaremos lá.

Não é só a presença de Guilherme Afif no governo que obstrui os caminhos do PT.

O marqueteiro sopra no ouvido de Dilma e Rui Falcão e o discurso sai arrumado. Mas não resolve. A nota que a juventude do PT soltou se limita à lógica da dualidade de poder com o PSDB. Não surpreende que tenham sido hostilizados ontem na rua.

Os jovens tucanos soltaram nota que os deixa mais grisalhos que Fernando Henrique Cardoso. Os tucaninhos se recusaram a sair às ruas porque veem nas manifestações um instrumento para desgastar o governo Geraldo Alckmin. Em resposta, os petistinhas redigiram uma nota focada na violência da polícia estadual, como se nela se resumissem as manifestações.

A julgar pela citação solitária na entrevista ao Roda Viva de dois jovens do Movimento do Passe Livre, o economista Ladislau Dowbor talvez seja o que há de mais próximo de "ideólogo" do movimento. Em sua página na internet lê-se uma tentativa de explicar o que se passa na cabeça de uma geração criada longe da rua e cujos pais têm carro na garagem, saem de madrugada de casa, voltam à noite, se jogam no computador ou adormecem em frente à TV: "Se todos nós estamos ocupados em ganhar a vida, em subir nos degraus do sucesso, como as crianças vão entender nosso sacrifício como útil?".

Não é fácil perfilar uma manifestação que trocou as bandeiras por cartolinas escritas a mão. Em sua tentativa, Wanderley Guilherme dos Santos assume o risco de ser rotulado de conservador. Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Faculdade Nacional de Filosofia no final dos anos 1950, mandou confeccionar uma faixa giganteë: "Esta faculdade é nacionalista". O embate daqueles dias era a instalação de uma metalúrgica americana no Rio. A faculdade logo ficou repleta de faixas. E o DCE não demorou a descobrir que o engajamento em massa dos estudantes era patrocinado pela concorrente nacional da American Can.

Wanderley Guilherme nunca viu nada igual ao que está nas ruas, mas nesses 60 anos aprendeu a não comprar os fatos pelo seu valor de face. Não se arrisca a dizer onde a coisa vai parar, mas duvida que, pelos elevados custos de participação, os manifestantes prossigam por tempo indeterminado com o mesmo poder de mobilização.

Vê na rápida mudança na estratificação social a criação de um denominador comum para massa tão amorfa de manifestantes. Não é a miséria que gera mobilização popular. A mudança traz expectativas que não param de crescer mesmo quando a situação material, apesar de melhor, já não segue o mesmo ritmo. Fica sempre aquém do que se aspira.

O altruísmo e a juventude sempre andaram juntos bem antes de Wanderley Guilherme chegar ao DCE. Naquele tempo queriam o socialismo, justiça e a África livre do colonialismo. Mas o altruísmo, diz, não basta para fazer dos jovens portadores de futuro. Os jovens altruístas de sua geração construíram o capitalismo brasileiro que está aí sendo contestado pela moçada de hoje.

O futuro é desenhado. E não necessariamente pelas instituições que estão aí. Da diversidade desse movimento talvez surjam novos canais, desde que não se aceite como canalização a depredação de uma assembleia legislativa ou a invasão do Itamaraty.

Está claro que os presidenciáveis de 2014, a começar pela candidata à reeleição, vão mobilizar todos os recursos para canalizar em seu benefício o barulho das ruas.

Se essa moçada busca um jeito novo de fazer a coisa talvez valha procurar perto de casa, na vizinhança que lhes faltou na infância. Carcomidas câmaras municipais, como a de São Paulo, estão para revisar o plano diretor que rege a ocupação urbana. O trânsito por ali é livre, bem como nas audiências públicas que vão discutir o contrato de R$ 46 bilhões para o transporte público. Que levem os cartazes, a irreverência, a persistência e, sobretudo, o altruísmo. Se conseguirem melhorar o ônibus talvez façam uma melhor escolha para presidente.

Fonte: Valor Econômico

A chegada dos bárbaros - Tereza Cruvinel

Até aqui, todas as vozes, a começar pela da presidente da República, reconheceram como legítimo e democrático o movimento social insólito que ontem chegou ao clímax, em número de manifestantes nas ruas e na amplitude geográfica. Ontem, porém, dois traços preocupantes ficaram evidentes: a intolerância dos que protestam e a completa perda de controle por parte das vanguardas, permitindo que a violência e o vandalismo chegassem ao paroxismo. Dezenas de feridos e um morto por atropelamento na confusão, em Ribeirão Preto (SP). Quando a barbárie chega, os Poderes democraticamente constituídos precisam dizer algo mais que palavras de compreensão. É hora de uma palavra da presidente Dilma Rousseff.

Por mais que compreendamos as insatisfações difusas, seja com os serviços públicos ou com os políticos e com as instituições, não podemos transigir com a intolerância, que não combina com a democracia. Ela vem se manifestando no veto à presenças de partidos e organizações e na agressão a jornalistas e a participantes com outras vinculações. O movimento é "horizontal", como dizem, mas tem uma vanguarda, liderada pelo Movimento Passe Livre. Até agora, não deram uma palavra condenando o vandalismo. Depois dos excessos que cometeu em São Paulo, na quinta-feira, a polícia passou a ser por todos satanizada. Mas eu vi ontem, na frente do Congresso, as provocações injuriosas e as agressões físicas, como a cometida contra um PM com o mastro metálico da bandeira arrancada. As depredações do patrimônio, ontem, tiveram como símbolo doloroso a tentativa de incendiar o Itamaraty, joia da arquitetura que Oscar Niemeyer nos legou. A invasão não foi obra de "minoria exaltada", mas da multidão tomada por instintos primitivos. Esses jovens não tinham nascido quando a ditadura acabou, mas têm educação para saber que a democracia nos custou muito. A classe política tem suas culpas em tudo isso, mas é dentro do jogo democrático, por meio das instituições, que as coisas poderão ser resolvidas. E para isso, é preciso negociar. Incendiar não resolve.

O pêndulo

Os estacionamentos dos anexos dos ministérios nunca estiveram tão lotados de carros durante a noite como ontem. Aqui em Brasília, não há dúvida de que se trata de uma reação da classe média, e não das camadas mais pobres. Os governos do PT, em 10 anos, implementaram políticas focadas nos mais pobres e alcançaram resultados na redução das desigualdades. Mas a classe "média-média" mesmo, não a classe C emergente, acumulou ressentimentos com os serviços públicos ruins e com as práticas políticas nefastas. A classe média é o pêndulo do sistema, escreveu Helio Jaguaribe, em texto clássico. Nos últimos 10 anos, foi a maioria mais pobre do eleitorado que decidiu as disputas políticas. A classe média recupera agora seu protagonismo, com bandeiras que expressam anseios muitos amplos e justos. Mas agora, é preciso dar consequência ao movimento. Negociar e conquistar. É para isso, e não para vandalizar, que os movimentos acumulam força.

Uma evidência de que, pelo menos aqui, o movimento é de classe média, foi personificada pelos dois manifestantes que foram ao gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros. Acabaram não sendo recebidos porque o núcleo de estudantes e outros subgrupos da manifestação se recusaram a participar. Renan decidiu aguardar por encontro mais representativo. Francisco Paraíso Ribeiro de Paiva tem 25 anos e é advogado. Kayo José de Miranda Leite, da mesma idade, também é advogado e professor em duas instituições de ensino superior. Bem vestidos, falam com sotaque jurídico. Perguntei se tinham delegação do movimento. Disseram representar um dos muitos "subgrupos". Deram-me cópia do documento que, no dizer deles, "protocolizaram" no Congresso e no Palácio do Planalto, com a lista de reivindicações: mais investimentos em saúde, em educação, em segurança pública, transparência nos gastos com os estádios, reforma política e outras tantas. Que venham, mas sem nos aproximar da guerra civil. Esse "subgrupo", pelo menos, procurou a negociação. À elite política, cabe também sair da defensiva. Ontem, tivemos o Congresso e o Planalto sitiados.

Poesia no incêndio

O Congresso vazio e cercado lembrava muito A chegada dos bárbaros, poema do magistral Konstantin Kavafys: "Dentro do Senado, porque tanta inação?/Se não estão legislando, que fazem lá os senadores?/ É que os Bárbaros chegam hoje./Que leis haveriam de fazer agora os senadores?/Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis." O poema pode ser lido no blog da coluna.

Fonte: Correio Braziliense

Sra. Rousseff, alguma coisa acontecendo - Fernando Gabeira

Alguma coisa está acontecendo e eu não sei exatamente o que é. Antes dos conflitos de mano Brasil, recebi o livro de Manuel Castells-Redes de Indignação e Esperança. Castells é professor numa universidade da Califórnia e dedica-se ao estudo das redes e sua importância neste início do século. Examinou a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o movimento dos indignados na Espanha e o caso da Islândia.

Antes mesmo desses movimentos, Castells via nas redes o caminho por meio do qual uma nova geração de ativistas buscaria mudança política fora do alcance dos métodos habituais de controle político e econômico. Segundo Castells, esses movimentos são mais voltados para explorar o sentido da vida do que para conquistar o Estado capitalista.

Essa observação é, para mim, curiosa. Nos anos 6o, alguns, como eu, transitaram do existencialismo para o marxismo. Agora, o existencialismo parece estar de volta. De novo, uma parcela da juventude sai em busca do sentido: conectar as mentes, criar significados, contestar o poder é a frase que Castells utilizou para sintetizar o programa dessas redes.

Se isso é verdadeiro para o Brasil, os R$ 0,20 de aumento dos ônibus foram apenas um dos pretextos para expressar a revolta. E os grupos da esquerda clássica, apesar de seu estardalhaço, funcionam aí apenas como aquelas lavagens na pedra que dão aparência de velho ao jeans que acaba de ser fabricado.

Criar significados em política significa também colocá-los na mesa para o debate. Não posso, por exemplo, condenar o Movimento Passe Livre porque no passado apoiei a tese do fim do passaporte no mundo. Até que me deparei com a gigantesca realidade da imigração internacional. A inquietação com o transporte coletivo pode ser existencialmente resolvida com a palavra de ordem passe livre. Mas apenas ela não muda a realidade dos que usam ônibus no Brasil.

O preço é amparado no aumento da inflação, que não deveria ser a única referência. Conforto, pontualidade, respeito ao usuário, condições de trabalho dos motoristas, tudo precisa ser monitorado. Mas existe uma cumplicidade histórica de vereadores e deputados com as empresas de ônibus. No Rio de Janeiro, por anos, houve até pagamento mensal na Câmara. Mensalinho, mensalão, olha pro céu olha pro chão.

Lutar só pelo passe livre nos remete a um ônibus utópico. O que fazer com pessoas esgotadas depois de um dia de trabalho? Dizer, ano após ano, “coragem, irmão, o reino de Deus está próximo”?

A única cidade que adotou o passe livre, Porto Real, no Rio de Janeiro, o fez para atrair grandes empresas que queriam se instalar lá: Coca Cola e Citroen Peugeot. Foi um cálculo econômico e eu vou lá para estudar o caso.

Um dos aprendizados mais importantes para a geração que saiu às ruas no passado é o compromisso com a democracia, o que significa rejeitar a tese de que os fins justificam os meios. A violência derruba as melhores intenções. Ela é o inimigo interno que corrói a simpatia popular e acaba esvaziando as ruas. Em alguns lugares do mundo, governos usam provocadores infiltrados para desmoralizar o adversário.

Conselhos são vistos com desprezo num momento como este. Mas a história não começa do zero. Essa presunção é absurda e só tem validade na cabeça do PT, que acredita ter inaugurado o Brasil, em 2003.

Como as inquietações se transformam em mudanças, se a própria timoneira parece perdida? Dilma diz que está tudo maravilhoso, e tome vaia da torcida. O governo trouxe a Copa do Mundo para o Brasil por achar que isso era uma trunfo eleitoral imbatível. Todos os seus defensores afirmam que foi uma condenação da classe média alta. Como se fosse preciso examinar a renda antes de avaliar o peso de um protesto e como se as ruas de todo o País, de São Paulo a São Gonçalo, estivessem tomadas por gente da alta classe média.


É um momento duro para ela. Mas foi o PT que fez baixar o mais pesado manto de cinismo sobre a vida política brasileira. Dilma afirmou um dia que não tem perfil de candidata. Concordo com sua análise. No entanto, foi eleita num período de crescimento econômico, de esfuziantes gastos oficiais e milhões consumidos na máquina de propaganda.

Isaiah Berlin compara as habilidades de um governante às de um motorista que precisa de reflexos porque se vê, constantemente, diante de situações novas e inesperadas. De nada adiantam erudição e conhecimento histórico nem o batalhão de conselheiros. Há uma solidão inescapável do ofício do estadista.

Dilma foi embriagada pela dose de otimismo que o marketing ministrou. Afirma que são terroristas os que alertam para a inflação. Em seguida, diz que o governo vai dar a volta por cima. Segundo a própria canção, só se dá a volta por cima depois de uma queda e de sacudir a poeira.

Ela lançou uma lei de acesso a informações e proíbe os assessores de divulgar dados sobre suas viagens oficiais, hotéis, comitivas, gastos, sobretudo gastos.

Quando a maré baixa, dizem os analistas econômicos, fica evidente quem está nadando nu. Isso vale para os atores políticos nas grandes viradas históricas.

Lula diz que elegeu postes para melhor iluminar o Brasil. Referia-se a Dilma e a Fernando Hadad. E muito poético, até que se descubra a realidade úmida do poste, quando adotado pelos cachorros da vizinhança.

Para mim, o sistema de dominação que transformou a política brasileira num bordel entrou em declínio.

Na Islândia, que é muito pequena para ser um modelo, as revoltas desembocaram numa substituição do governo, numa nova maneira de gastar o dinheiro e numa Constituição moderna, que busca integrar a participação popular, potencializada pela revolução digital.

Alguma coisa está acontecendo no Brasil. Você pode ser contra, a favor ou mesmo ficar em cima do muro. Mas não pode negar a frase de Galileu Galilei: Eppur si miove” (Ainda se move)

Fonte: O Estado de S. Paulo

Por que(m) os jovens protestam - Mércio P Gomes

É evidente que não é (essencialmente) por causa do aumento da passagem de ônibus, nem tampouco contra os pais ou contra as injustiças do país.

Ontem, dia 13 de junho, participei, um dentre algumas dezenas de coroas, da passeata que saiu do Largo da Candelária até a Cinelândia e de lá até a ALERJ e depois pela Presidente Vargas até a Central do Brasil. Participei acompanhando, batendo palmas e observando, em zigue-zague, os milhares de jovens que, auto-conscientes de suas vidas e de suas paixões, marchavam em alegre, mas contida, manifestação a propósito do aumento das passagens de ônibus. No fim da passeata encontrei meu filho de 18 anos, junto com outros colegas, todos em suas primeiras passeatas, já correndo das bombas e balas de borracha da policia. Um deles foi atingido quase no olho, tal qual a jornalista de São Paulo, soube depois.

Em certo momento divaguei que estava na passeata a favor das Diretas Já, em 1984, tal a festiva e distencionada atitude dos manifestantes. Melhor ainda: não havia um político comandando as massas, uma esperança ilusória de mudanças políticas, uma bandeira de fé. Os pequenos partidos políticos de retórica esquerdista estavam por lá, com suas bandeiras e suas tentativas de controlar, mas eram poucos militantes e não comandavam a massa. Todos pareciam saber que estavam tão somente ensaiando para algo que ainda não sabem o quê é e em quê vai dar, mas que almejam alcançar.

Quase todo mundo tinha menos de 30 anos, estudantes universitários e colegiais. Uns engravatados e umas vestidas de executivas desceram dos seus escritórios para acompanhar, meio embevecidos, alguns um tanto emburrados. Não havia corre-corre, nem empurrões, ninguém perdeu um chinelo no meio da multidão, não se bateu carteira, não rolava bebida, apenas um leve cheiro de erva aqui e ali, quase nenhum momento de azaração. Dois casais se beijavam na boca, sendo um de mulheres. Um único cabeção estorou em frente a um banco e alguns soltavam fraquíssimos foguetes de São João e até as infantis estrelinhas. Já se aproximando da Cinelândia, vi alguém embebendo um chumaço com algum liquido, mas logo constatei que estava tão-somente molhando sua máscara cirúrgica com vinagre. Dizem que para amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo.

Caminhavam em grupos de rapazes e moças, certamente colegas, que se abraçavam com outros grupos, de outros colégios ou faculdades, ou conhecidos de redes sociais. Sim, as redes sociais funcionaram no chamamento à passeata.
Tudo parecia improvisado. Os cartazes empunhados por moças e rapazes, alguns com máscaras do farsante, eram de papelão com dizeres em lápis coloridos que mal se enxergava a dez passos de distância. Serviam para os amigos e os fotógrafos documentarem suas ousadias.

Um carro de som se arrastava no meio da multidão puxando as rimas e palavras de ordem. “Se a passagem não baixar, o Rio vai parar”, “Ô, ô, ô, Cabral é ditador”, “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. E o mais esperançoso: “Ô, ô, ô ... o povo acordou”. Em algum momento uma equipe da rede Globo foi encurralada na portaria da Caixa Econômica, e a Globo foi associada, numa rima engraçada, ao seu antigo apoio à ditadura.

Não havia palhaçada, gaiatices, nem palhaços, nem figuras esdrúxulas, como nas passeatas políticas da década de 1980. Nenhuma brincadeira de mau gosto, tampouco. Senti falta das figuras populares, das vestimentas extravagantes, do protesto escrachado; apenas as carrocinhas de cachorro-quente e refrigerante demonstravam que o povão estava presente, a trabalho.

Ao chegar na Cinelândia percebeu-se que a multidão estava compacta e era expressiva, quem sabe umas dez mil pessoas. E não se soube mais o quê fazer, como concluir o acontecimento. Ninguém para fazer um discurso de glória pela manifestação pacífica e orgulhosa, para fazer novos encaminhamentos, para chamar a novos propósitos. Faltou o gozo. O carro de som não podia subir nas calçadas da Praça da Câmara Municipal e virou pela Evaristo da Veiga rumo à ALERJ. Lá deu-se o momento de espetáculo, mas não da glória da passeata, ao subir as escadeiras do Palácio Tiradentes e se agarrar à estátua que adorna a Assembleia Legislativa. Mas nenhuma jovem ousou desfazer-se da blusa e do alto do pedestal empunhar a bandeira da liberdade. Pudor e acanhamento, mas falta muito ainda para a glória ressurgir.

Até aí a policia olhava de uma distância regulamentar, aceitável para todos, que não denotava provocação. Os manifestantes apenas registravam sua presença em fotos, até deles próprios de costas para o símbolo da repressão. Porém, ao se dirigir pela 1º de Maio e dobrar para a Getúlio Vargas, começou a fuleragem. Sacos de lixo foram chutados e rasgados e um grupo de umas 30 pessoas saiu quebrando algumas vitrines, grafitando muros e destroçando as paradas de ônibus. A polícia se eriçou e a porradaria começou.

Foi quando a TV Globo interrompeu sua malsinada novela de fofocas sobre quem é pai de quem, para mostrar as cenas de vandalismo da multidão e demonstrar sua falta de compostura. E provar que tudo não passa de jovens descomprometidos com a realidade do país, sem razão e sem motivos.

Eis o busílis da questão. Há quem ache que tudo não passa de desventuras fúteis o que os jovens estão fazendo. Os noticiários televisivos nos levam a crer que é isso mesmo. Mas uma pesquisa da DataFolha de hoje mostra que mais da metade da população está a favor das manifestações dos jovens indo às ruas. Por que será?

Tem algo no ar que não pode ser desmerecido por comentários derrisórios de jornalistas de plantão e análises superficiais de sociólogos acadêmicos. Uns acham que é ato inconsequente de jovens mimados, falta do quê fazer; outras, que é gente incapacitada para o diálogo. Por que uma comissão de jovens não dialoga com o prefeito? Aos que os jovens desaforadamente respondem: “Como pode haver um diálogo entre o c... e a p...?”

Não se dialoga com a máquina da modernidade líquida, como poderia dizer Zygmunt Bauman. O diálogo sempre é falso e se dá em condições de poder do mais forte e com propósitos farsantes. A máscara do farsante cai bem a propósito da ironia dos jovens.

O Brasil – e alguém diria, o mundo – parece ter virado uma farsa cheia de mentiras, conversa mole, enganações e espetáculos. O derramamento de dinheiro para a Copa, para as Olimpíadas, se contrasta com as ruas esburacadas, com os estádios mal feitos, com as leis ridiculamente draconianas, com as sempiternas filas de hospitais, com a educação às aparências sem sentido, com o trânsito ruim demais, os trens cheios e demorados, com os ônibus – sim, os ônibus e as passagens – para deixar todo mundo revoltado, doente de frustração e de não saber o quê fazer mais. Quase todo mundo já encheu o saco de tudo isso, mas quase ninguém sabe como dizer, agir e mudar. A indiferença prevalece como auto-defesa: “O que se pode fazer, vai tudo continuar do mesmo jeito”, foi o que ouvi de um homem que olhava o acontecimento.

Esta é uma juventude do falso bem-estar brasileiro. Nasceu bem, cresceu sem inflação galopante, sem salários escorchantes, num tempo em que o Brasil foi aos poucos paralisando. Cada um por si, que se dá um jeito. O que está aí é o que é.

Mas, por ironia à modernidade líquida, é uma juventude que quer ao menos cuidar de si. Manifesta-se pelo cuidado com amigos. Os grupos se formam naturalmente, por afinidade ou proximidade, e gostam de estar próximos. Cada grupo cuida de si, mas a inveja ou rivalidade grupal, que já foram tão naturais em outros tempos, não prevalece. Para onde derramar esse amor, ou talvez, carinho, se não há como organizar o mundo de outro modo?

Os garotos das passeatas são condenados ipso facto por serem de classe média. Mas a classe média aí está e crescendo, segundo o governo. Aliás, confundindo classe média com consumo de bens, todos querem ser classe média. Em outros tempos os bem-pensantes diziam que a classe média é quem puxa o povão. Bem que esses garotos gostariam de puxá-lo para a ribalta da luta. Mas o povão não vem porque nada lhes é confiável, ainda, muito menos para protestos contra o preço de passagens e promessas de boa educação para todos.

Os que já passaram do meio caminho da vida também estão frustrados e reclamam pelos cantos como que em desafogo. Perderam a vontade de transformar suas vidas, muito menos as injustiças do país Persistem na farsa do “deixa como estar para ver como é que fica”.

Os jovens haviam se acostumado com isso, mas procuram um meio para sair. Defendem índios e quilombolas, o vetusto Museu do Índio, qualquer pequena causa que lhes traga de volta a identidade de ser no mundo. Não sabem para onde vão, mas quem o sabe?

Quando é a próxima passeata?

Mércio P. Gomes, Antropólogo, professor do HCTE-UFRJ

O governo e o clamor das ruas - Rogério Furquim Werneck

Perplexo, o País tenta entender a onda de manifestações que vem tomando as ruas nas últimas semanas. Há muitas perguntas cruciais sem resposta satisfatória. Como e por que tais manifestações puderam se alastrar por todo o País em tão pouco tempo? Que insatisfações, aparentemente difusas e generalizadas, de fato as inspiram? E por que esse movimento ganhou tanta força logo agora, neste exato momento? São perguntas que o próprio governo deve estar se fazendo.

Três das fontes de insatisfação que vêm sendo apontadas como inspiradoras dos protestos deveriam merecer cuidadosa reflexão em Brasília: a inflação, os reajustes de tarifas de transporte coletivo e os investimentos requeridos para que o País hospede a Copa e as Olimpíadas.

A esta altura está mais do que claro que a presidente Dilma Rousseff mostrou complacência excessiva com a inflação. Basta notar que o Banco Central se dará ao luxo de atravessar todo o atual mandato presidencial com a inflação bem acima do centro da meta. Agora, colhendo o que plantou, o governo constata que uma inflação de 6,5% ao ano já começa a gerar tensões altamente desgastantes.

No vale-tudo em que se converteu a condução da política econômica nos últimos meses, o governo se permitiu tentar conter a inflação por meio de intervenções diretas em preços de maior relevância na composição do índice. No início do ano, desenterrando prática deplorável e oportunista, típica do período de alta inflação, o Planalto pressionou os prefeitos de São Paulo e do Rio para que adiassem o reajuste de tarifas de transporte coletivo por alguns meses.

Fascinado com os supostos benefícios imediatos dessa manipulação, o governo não parece ter dado a devida atenção aos custos do abandono da regra de reajustes de tarifas com periodicidade claramente definida. Quebrando a regra, sinalizou a possibilidade de que a magnitude e o momento do reajuste de tarifas de transporte coletivo passassem a ser objeto de negociação. Possibilidade à qual se agarram, agora, os manifestantes de cada grande cidade do País.

Percebendo afinal as proporções do equívoco, o Planalto deve estar amaldiçoando o momento em que teve a infeliz ideia de abrir essa caixa de Pandora. Se não tivesse "conseguido adiar" os aumentos de tarifas de transporte coletivo em São Paulo e no Rio e os reajustes tivessem sido anunciados normalmente nas datas previstas, no início do ano, é bem possível que os episódios que deflagraram a atual onda protestos não tivessem ocorrido.

Mas a insatisfação com os serviços de transporte coletivo nas grandes áreas metropolitanas do País tem razões bem mais profundas. A ilusão de que boa parte da população urbana poderia continuar para sempre gastando mais de três horas por dia entre a casa e o trabalho, sem maiores protestos, não fazia sentido. Mais cedo ou mais tarde, a conta do vergonhoso descaso com as carências do País em transporte de massa estava fadada a aparecer. Mas o governo tem outras prioridades. Insiste em incentivar a demanda de automóveis e subsidiar gasolina. E, por motivos ideológicos, prefere investir em áreas, como petróleo e energia elétrica, onde a maior parte do investimento poderia perfeitamente ser deixada a cargo do setor privado.

Merece também menção a previsível ressaca de parte da opinião pública com o oba-oba dos custosos investimentos necessários para que o País hospede a Copa e as Olimpíadas. Quanto a isso, parece ter havido cálculo político equivocado em Brasília. "Pão e circo" é uma receita milenar e consagrada de populismo. Mas na Roma Antiga não havia nem Fifa nem Comitê Olímpico. E a entrada no Coliseu era grátis. Já aqui, o povão, visivelmente irritado, ficará de fora do dispendioso circo que está sendo montado. E o governo agora se deu conta de que o público pagante, em eventos transmitidos por televisão a 100 milhões de eleitores, será do tipo que vaia presidente da República. A ideia não era bem essa. Mas agora é tarde.

Economista e professor da PUC-Rio

Fonte: O Globo

Charge do dia - Bora pra rua!!!

Fonte: Jornal O Tempo (MG)

Mariene de Castro - Um ser de luz (Homenagem à Clara Nunes)

Pátria minha - Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."