sábado, 21 de outubro de 2023

Oscar Vilhena Vieira* - E quando o Supremo erra?

Folha de S. Paulo

Ministros vêm, contrariamente aos seus próprios precedentes, anulando decisões dos tribunais do trabalho

Thurgood Marshall foi o mais importante advogado norte-americano do século 20. Também foi o primeiro juiz negro nomeado para a Corte Suprema, em 1967, por Lyndon Johnson. Em Brown v. Board of Education, que determinou o fim da segregação racial nas escolas norte-americanas, em 1954, Marshall foi responsável por provocar a reversão de uma das mais ignóbeis decisões da história da Suprema Corte.

Em 1979, Marshall estava proferindo uma palestra para os juízes de uma corte de apelação quando perguntou: "como esse tribunal se saiu na Suprema Corte este ano?". Sob o olhar lívido dos magistrados, Marshall explicou que dos nove casos analisados, seis haviam sido reformados pela Suprema Corte.

Hélio Schwartsman - Argentina à beira do abismo

Folha de S. Paulo

Candidatos que prometem 'quebrar o sistema' vendem ilusões perigosas

Os argentinos poderão colocar Javier Milei na Presidência da República.

Confesso que meu coração é anarquista. Eu gostaria de viver numa sociedade sem Estado ou, evocando os escritos de Pierre Clastres, até em uma contra o Estado. Mas o mundo é um lugar complexo. O fato de termos simpatia por uma ideia não significa que ela vá funcionar.

A natureza humana tem seus anjos bons. Nem toda comunidade hippie fracassa, o que nos permite manter a esperança de que um dia o anarquismo seja viável. Mas ela também tem muitos anjos maus. É só olhar ao redor para entrevê-los.

O Estado liberal democrático, que comporta variações mais à esquerda (social-democracia) e mais à direita (individualismo norte-americano), é a melhor forma que encontramos para nos equilibrar entre as duas tendências inscritas em nossa natureza, preservando o máximo de liberdade.

Dora Kramer - Mais dinheiro no cofrinho

Folha de S. Paulo

Enquanto olhamos para a guerra, partidos trabalham para triplicar valor do fundo eleitoral

O mundo atemorizado com o Oriente Médio e por aqui suas altezas parlamentares quedam-se empenhadas em como solapar o Orçamento da União para financiar a eleição de prefeitos e vereadores no ano que vem.

Enquanto olhamos para o horror, os partidos aproveitam o momento de desatenção para o que se passa no Congresso Nacional para tocar adiante a ideia de triplicar o montante do fundo eleitoral em relação ao que receberam em 2022 —em muitos casos com mau uso que, depois, para todos se pede anistia.

No último pleito municipal foram R$ 2 bilhões, algo já exorbitante quando se trata da transferência de dinheiro público para associações de direito privado que deveriam buscar formas lícitas de se sustentar. Pois agora pretendem obter três vezes aquela soma.

Alvaro Costa e Silva - A guerra virou divertimento nas redes

Folha de S. Paulo

Não importa a verdade e sim xingar o outro time, como nas arquibancadas

Poupado pela base lulista, Bolsonaro não mostrou a cara na CPI do 8 de janeiro. Mas seu nome aparece 835 vezes no relatório da senadora Eliziane Gama. Tantas citações podem até ter sido motivo de alegria para quem, apesar de todos os esforços inconstitucionais, perdeu a eleição. Colecionador de crimes, entre os quais a falta de combate à pandemia, o ex-presidente ficará na história da República como o campeão das tentativas de golpe fracassadas.

A senadora defende que o capitão foi o cabeça do plano golpista. Ainda há a indicação de que Bolsonaro agiu como "mentor moral" dos ataques à democracia. A escolha do adjetivo me soou estranha e trouxe à lembrança outro capitão do Exército, Cláudio Coutinho, técnico da seleção na Copa de 1978, na Argentina. Terceiro colocado, o Brasil foi considerado o "campeão moral".

Aos olhos de parte da população, o ambiente político é semelhante a um jogo, com grupos idiotizados se enfrentando na defesa de posições ideológicas. Ganhou o bolão da rodada aquele que apostou nos militares que serviram a Bolsonaro (e dele se serviram). Foram indiciados os generais Augusto Heleno, Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos, Paulo Sérgio Nogueira. Perdeu quem jogou suas fichas na tese dos infiltrados na invasão das sedes dos Três Poderes.

Demétrio Magnoli - Punição coletiva

Folha de S. Paulo

Tanto Hamas quanto Israel trilham a estrada da lógica bárbara

Punição coletiva é o corolário lógico da noção de responsabilidade coletiva, que imputa a uma sociedade inteira a culpa por atos de um Estado ou governo. Os atentados de 7/10 que deflagraram o atual conflito e a represália militar na Faixa de Gaza inscrevem-se nessa lógica bárbara.

A operação do Hamas não teve nenhum objetivo militar. O massacre deliberado de 1.300 civis israelenses, inclusive crianças, numa orgia macabra de violência, desnuda a alma da organização terrorista. Do ponto de vista dela, inexiste diferença entre civis e militares, pois todos seriam "soldados da ocupação".

Na guerra de independência da Argélia (1954-62), a Frente de Libertação Nacional promoveu ataques a civis, lembram vozes prontas a oferecer uma justificativa anticolonial para o terror do Hamas. O argumento, em si mesmo problemático, delineia um paralelo falso –e, por isso, revelador.

Marcus Pestana* - Fernando Pessoa: seu universo, seus heterônimos

Poesia, a uma hora dessas? Tudo que o mundo mais precisa! Gullar desvendou essa demanda existencial: “A arte existe porque a vida não basta”. Não basta e às vezes sufoca. “A gente se acostuma, mas não devia”, advertiu Marina Colasanti. Como banalizar as cenas que chegam da Ucrânia, de Gaza e de Israel? Fingir que tudo está bem e vida que segue? 

A cada vez que vejo Javier Milei e sua motosserra, mais vontade tenho de rever Elis & Tom. A cada bravata de Trump, bate saudades de Guimarães e Drummond. Diante de cada nada edificante bate-boca entre extremistas brasileiros, repleto de xingamentos onde ecoam: “fascistas”, “comunistas”, “canalhas”, “ladrões”, mais atraente se torna o universo de Paulinho da Viola e seus oitenta anos.  Dos olhos dos emigrantes famintos e desesperançados ao encontrar uma cerca de arame farpado ou uma barreira policial na fronteira de um país rico, nasce a fome de uma tela de Picasso ou um filme de Chaplin.

Poesia | Tabacaria - Fernando Pessoa (Narração de Mundo dos Poemas)

 

Música | Beth Carvalho - O que é o que é (Gonzaguinha)

 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Brasil conduziu com competência negociação na ONU

O Globo

Mesmo que resolução tenha sido rejeitada no Conselho de Segurança, esforço diplomático não foi em vão

Os ataques do grupo terrorista Hamas e a subsequente reação de Israel ocorreram no momento em que o Brasil ocupa a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A coincidência histórica deu à diplomacia brasileira a oportunidade — e a responsabilidade — de assumir o protagonismo nas negociações em torno do conflito. A primeira resolução proposta pelo Brasil foi rejeitada na última quarta-feira, em razão do veto dos Estados Unidos. Mas o esforço diplomático brasileiro não foi em vão.

A resolução brasileira foi uma contraproposta à formulação da Rússia, que manifestava preocupação com o agravamento da situação humanitária na Faixa de Gaza, mas nem mencionava os ataques do Hamas que mataram mais de 1.400 pessoas na semana anterior ou os quase 200 reféns que os terroristas haviam capturado em Israel. Os termos eram obviamente inaceitáveis para os integrantes do Conselho. O Brasil tomou a iniciativa de produzir um texto alternativo que contemplasse três pontos. Primeiro, condenasse explicitamente o terrorismo do Hamas. Segundo, exigisse libertação imediata dos reféns. Terceiro, mantivesse foco na questão humanitária em Gaza.

Flávia Oliveira - Impasse inaceitável

O Globo

Conselho de Segurança da ONU tornou-se anacrônico

O Direito humanitário internacional agoniza, e o multilateralismo fenece, enquanto ao menos 5 mil pessoas, a maioria civis, já perderam a vida no mais recente conflito bélico mundial, a contraofensiva de Israel ao terror do Hamas. São ambos — o Direito e o multilateralismo — reféns de um modelo, daqui a pouco centenário, de negociação global em que um punhado de países manda muito, e um monte apita quase nada. O poder de veto torna as votações de mentirinha. Aconteceu mais uma vez nesta semana, quando a oposição solitária dos Estados Unidos escanteou no Conselho de Segurança da ONU uma resolução articulada pelo Brasil, que teve, na prática, sinal verde de 14 dos 15 membros.

O ataque terrorista em Israel, que vitimou mais de 1.400 pessoas, incluindo três brasileiros, e fez quase duas centenas de reféns, em 7 de outubro, se deu dias depois de o Brasil assumir por um mês a presidência do conselho. A primeira providência do Itamaraty foi convocar uma reunião de emergência, no dia seguinte à barbárie. O encontro, tão breve quanto esvaziado, não resultou sequer em nota conjunta dos países. Nem houve consenso sobre condenação ao Hamas. Sandra Coutinho, correspondente da TV Globo em Nova York, notou que o governo Joe Biden, democrata, se fez representar pelo embaixador Robert Wood, quinto na hierarquia da missão americana na ONU, liderada por Linda Thomas-Greenfield. Sinal de falta de apreço ao colegiado e de alinhamento total — e declarado — à posição israelense.

Bernardo Mello Franco - Biden tenta salvar reeleição e se associa a crise humanitária em Gaza

O Globo

Após bloquear resolução brasileira na ONU, presidente americano reforça apoio incondicional a Israel e pede mais dinheiro para guerras

Os Estados Unidos vetaram a proposta brasileira para frear a guerra no Oriente Médio. O texto recebeu apenas um voto contrário: o americano. O suficiente para impedir a aprovação no Conselho de Segurança da ONU.

A resolução condenava os ataques terroristas do Hamas, cobrava a libertação de todos os reféns e pedia “pausas humanitárias” nos bombardeios de Israel.

Ao justificar o veto, a embaixadora Linda Thomas-Greenfield criticou a ausência de menção ao “direito de defesa” israelense. Na prática, isso equivaleria a reconhecer um direito de ataque a Gaza, onde extremistas dividem espaço com civis inocentes.

O texto barrado pelos EUA não falava em cessar-fogo generalizado. Tampouco proibia Israel de usar força militar contra os terroristas. Limitava-se a exigir acesso “rápido, seguro e sem obstáculos” aos comboios de ajuda humanitária. O objetivo era proteger funcionários da própria ONU, da Cruz Vermelha e de outras organizações imparciais, que tentam levar água, comida e assistência médica aos palestinos.

Luiz Carlos Azedo – Biden, Netanyahu e Putin são senhores da guerra

Correio Braziliense

A crise humanitária em Gaza solidificou posições enraizadas no mundo em desenvolvimento quanto ao conflito israelense-palestino. A maioria apoia a criação do Estado da Palestina

O jornalista Henry Foy, correspondente do Financial Times em Bruxelas, instiga a reflexão sobre a nova conjuntura internacional a partir da guerra de Gaza, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ontem, que será de longa duração. Ou seja, não deve se encerrar enquanto Israel não invadir a Faixa, eliminar o Hamas e restabelecer seu controle sobre toda a região, a exemplo do que já ocorre na Cisjordânia — apesar da existência de uma enfraquecida Autoridade Palestina.

Segundo Foy, o apoio incondicional do Ocidente a Israel, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, envenenou os esforços para isolar a Rússia e obter apoio dos países em desenvolvimento em favor da Ucrânia. A reação implacável dos israelenses ao ataque terrorista do Hamas, em 7 de setembro, desconstruiu a narrativa do Ocidente em relação às violações de direitos humanos cometidas pela Rússia em Donetsk e outras regiões ocupadas por suas tropas.

José de Souza Martins* - No Brasil, velhice é uma categoria econômica, e não etária

Valor Econômico

O conceito de velho ficou claro quando uma economista do governo anterior comentou que os velhos causavam prejuízo à Previdência Social

Neste mês de outubro, completo 85 anos de idade. Sou de uma classe social de origem em que meus avós não sabiam a própria idade nem sabiam para que servia sabê-la. Preocupei-me pela primeira vez com idade no dia em que o médico olhou os exames que eu havia feito e comentou: “Pra sua idade, você está muito bem!”. O acento em “na sua idade” parecia indicar uma anomalia e, nesse sentido, não estava bem.

O conceito de velho ficou claro quando uma economista do Ministério da Economia, no governo anterior, comentou, e vazou, que os velhos causavam prejuízo às contas da Previdência Social. Ou seja, um trabalhador viver mais e melhor não é um prêmio por uma vida de trabalho, é um crime de lesa-economia. Velho é, portanto, quem se aposenta e prejudica o sistema previdenciário. Senhor de escravos tinha mais generosa concepção da velhice de seus cativos.

César Felício - Lobbies em ação na reforma tributária

Valor Econômico

Proposta já recebeu 545 emendas, das quais 444 estão protocoladas

Até terça-feira estavam protocoladas 444 emendas à reforma tributária no Senado. Em um dia, entraram mais 78. Só um senador, o presidente da Comissão de Assuntos Econômicos Vanderlan Cardoso (PP-GO), apresentou 25. No começo da tarde dessa quinta-feira o relator da matéria, senador Eduardo Braga (MDB-AM), comentava já existir 545 propostas de alteração, embora nem todas apareçam registradas na tramitação da PEC disponível na internet.

A avalanche é um indicativo de duas coisas: uma é que deve se repetir no Senado o script da Câmara em julho, com mudanças no texto até o momento do placar eletrônico ser liberado e o resultado da votação proclamado. A segunda é que se chegou a uma espécie de última chamada para o embarque de setores que buscam tratamento especial.

Claudia Safatle - Governo e mercado seguem distantes na questão fiscal

Valor Econômico

No governo, acha-se bastante ‘conservadora’ a projeção da média do mercado, que estima déficit de 0,8% do PIB para 2024

Continua grande a distância entre as expectativas do mercado e as pretensões do governo na política fiscal, seja no resultado primário, seja na trajetória da dívida pública. Esse tema não é novo para quem acompanha o dia a dia das contas públicas, mas ele impõe um custo que não existiria se houvesse uma convergência entre o que o mercado espera e o que o governo se propõe a fazer: não só atrasa a velocidade de queda da taxa de juros, mas eleva a curva da taxa de juros futura e encarece o financiamento da dívida pública.

No governo, acha-se bastante “conservadora” a projeção da média do mercado, que consta do relatório Focus, do Banco Central, que estima déficit de 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para 2024, decrescendo muito lentamente até 2026, sem nem sequer chegar à estabilidade da dívida bruta como proporção do PIB.

Celso Ming - Redução da jornada de trabalho

O Estado de S. Paulo

A discussão sobre redução da jornada de trabalho começa a ganhar força no Brasil. Entre seus defensores está o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, para quem a mudança “já passou da hora”.

Este é um tema em alta em todo o mundo, especialmente depois da pandemia, que alterou a percepção das pessoas sobre o trabalho em suas vidas.

Encurtar a jornada em um cenário de intensas transformações no mercado de trabalho requer não só aprofundamento das análises de como a novidade seria aplicada, mas, também, sobre como criar condições para que as empresas adotem o modelo e, ao mesmo tempo, garantam seu cumprimento pelos trabalhadores que operam fora da chancela da CLT.

Eliane Cantanhêde - Brasil busca consenso, EUA se isolam

O Estado de S. Paulo

Por que o veto dos EUA a uma resolução propondo ‘pausa humanitária’? Vá-se entender...

Os Estados Unidos tinham boas razões para empurrar com a barriga a votação de uma “pausa humanitária” articulada pelo Brasil na guerra de Israel. Com o amplo apoio à proposta de resolução entre os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU, cinco permanentes e dez rotativos, o governo Joe Biden sabia que seria o único voto contrário, ficaria isolado no próprio conselho e atrairia chuvas e trovoadas do mundo árabe e de sociedades mundo afora.

Foi o que ocorreu, depois que o Brasil percebeu a manobra protelatória e submeteu a resolução a voto. Todos os membros rotativos, inclusive o Japão, aliado dos EUA, votaram a favor da pausa para proteger as populações civis que já sofreram tanto nesta guerra. Dos cinco permanentes, dois votaram a favor, França e China, e dois se abstiveram, Rússia e Reino Unido, o que é considerado positivo, pois abstenção não impede aprovação.

Vinicius Torres Freire - Venezuela, Gaza, petróleo e o risco de piora ainda maior na política mundial

Folha de S. Paulo

Mundo anda sobre gelo fino e trincado; horror no Oriente Médio pode ser chance para Trump

Os Estados Unidos suspenderam por seis meses algumas sanções contra a Venezuela. Americanos ou quem faça transações com os americanos vão poder negociar petróleo, gás e ouro venezuelanos e, também, títulos da dívida do país dominado por Nicolás Maduro, em calote desde 2017.

Mas o governo dos EUA não autorizou a compra de dívida nova do país, o que não refresca em nada o financiamento internacional do país.

Quanto ao que interessa aqui e agora, nestas colunas, se e quando a Venezuela conseguir vender mais petróleo e gás haverá um pequeno alívio para a sua economia desgraçada. "Se": a produção de petróleo na Venezuela foi arruinada por sanções, incompetência e fuga de talentos técnicos.

O aumento ora previsível da produção venezuelana não fará coceira na oferta mundial do combustível, que diminuiu basicamente neste ano porque Arábia Saudita e Rússia assim o quiseram.

Hélio Schwartsman - Credencialismo universitário

Folha de S. Paulo

Empresas delegam a instituições de ensino avaliação de candidatos a empregos

Reportagem da Folha mostrou que cinco instituições de ensino superior privadas concentram 27% dos alunos de graduação do país. Elas ganharam espaço com o avanço do ensino a distância.

Por que valorizamos diplomas universitários? Em parte, porque as universidades de fato treinam seus estudantes para determinadas carreiras, notadamente aquelas que exigem conhecimentos técnicos específicos e o desenvolvimento de habilidades. É difícil alguém se preparar para ser médico sem passar por laboratórios, simuladores e estágios supervisionados em hospitais, além, é claro, das aulas teóricas.

Bruno Boghossian - Metralhadoras desviadas abasteceriam shopping center do crime

Folha de S. Paulo

Estrutura do Estado pode ser mercado atraente para facções e agentes que jogam o jogo da corrupção

O shopping center do crime está aquecido. Em setembro, traficantes do Rio receberam uma oferta em vídeo para comprar metralhadoras calibre .50 pela bagatela de R$ 180 mil cada. Policiais apontaram que as armas haviam sido desviadas de uma unidade do Exército em São Paulo.

O sumiço de 21 metralhadoras do arsenal militar mostra como a estrutura do Estado pode ser um bom ambiente de negócios para os criminosos. Há tempos, traficantes e milicianos fazem transações em delegacias e batalhões. Nesta quinta (19), a PF prendeu quatro policiais civis suspeitos de vender toneladas de maconha para o Comando Vermelho.

Marcos Augusto Gonçalves - É preciso também pacificar o Brasil

Folha de S. Paulo

Desvio de metralhadoras do Exército alimenta barbárie de nossa guerra particular

Não sei se o leitor já teve a oportunidade de ver de perto uma metralhadora .50. A máquina impressiona menos pelo porte, de certa forma enxuto, apesar do peso de 34 quilos, e mais pela visão do cinto de munição, com sua série de cartuchos de alto poder destrutivo.

A.50 é um armamento pesado de guerra, usado há décadas por exércitos mundo afora. Dispara mais de 500 tiros por minuto e serve para combates terrestres ou defesa antiaérea. Pode perfurar blindagens e abater helicópteros e outras aeronaves.

Há poucos dias, 13 dessas armas desapareceram de um quartel do Exército Brasileiro em Barueri, no estado de São Paulo. Também deu-se falta de um lote de oito outras metralhadoras, de calibre 7,62.

Ruy Castro - Cadeia para Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Se ele continuasse no poder, a Justiça é que estaria hoje sob o seu senso particular

Bolsonaro pediu a libertação dos extremistas presos pelo 8/1. Disse que eles são inocentes. E muitos talvez o sejam, no sentido de que, pascácios, papalvos e patetas, deixaram-se aliciar pela sua incessante pregação golpista e foram para Brasília como zumbis aparvalhados. Já os que os financiaram, transportaram, alimentaram, abrigaram e organizaram —e isso vai de paisanos a fardados—, não podem ter refresco. Sabiam o que estavam fazendo. Se acha que os baderneiros são inocentes, Bolsonaro deveria oferecer-se como resgate e se trocar por eles no xilindró.

Poesia | O Amor - Vladimir Maiakovsk

 

Música | Beth Carvalho - O Mundo é um moinho & As Rosas não falam (Cartola)

 

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

CNJ revela disposição para aperfeiçoar Justiça

O Globo

Criação de exame para juiz e punição ágil a magistrado que errou são passos na direção correta

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Luís Roberto Barroso, anunciou na terça-feira a criação do Exame Nacional da Magistratura. Só depois de aprovados nesse teste os interessados poderão se inscrever em concursos públicos aos cargos de juiz, aqueles não sujeitos a indicações políticas. As diretrizes do exame serão coordenadas pelo CNJ. A ação foi pensada para diminuir suspeitas de favorecimento de candidatos ligados à cúpula dos tribunais.

A criação do exame não tirará autonomia dos tribunais para organizar seus concursos. Não se trata de uma intervenção. O objetivo é fazer uma prova rigorosa, em escala nacional, que funcione como uma peneira. Uma comissão será formada para definir as diretrizes do teste até novembro. Embora falte determinar quando entrará em vigor, a inovação deverá ser um dos legados de Barroso à frente do Supremo e do CNJ. O exame poderá se tornar um instrumento eficaz para elevar a confiança na Justiça e revela disposição de corrigir as deficiências do Judiciário.

Merval Pereira - Poder contestado

O Globo

Cresce a pressão para que a Suprema Corte dos EUA elabore um Código de Ética interno, para superar as críticas que vem recebendo

A aparente crise entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso é uma disputa de poder que ocorre nas democracias, inclusive nos Estados Unidos, cujos pais fundadores buscaram na teoria da separação de poderes de Montesquieu a base da elaboração da Declaração de Independência de 1776. No momento, cresce a pressão para que a Suprema Corte dos Estados Unidos elabore um Código de Ética interno, para superar as críticas que vem recebendo por atitudes de alguns integrantes.

Essa possibilidade vem sendo discutida há anos, sempre que o Congresso americano ameaça regulamentar as atividades da Suprema Corte a partir de um Código de Ética elaborado pelos parlamentares. Recentemente, a ministra Elena Kagan apoiou a criação de um código, reforçando o grupo de ministros que entendem importante tal conduta diante das acusações que vêm surgindo.

Malu Gaspar - CPI do 8 de janeiro deixa enigmas do golpismo bolsonarista sem solução

O Globo

A sessão da CPI dos Atos Golpistas que aprovou o relatório responsabilizando Jair Bolsonaro e mais 60 pessoas foi palco do teatro que caracteriza eventos do tipo. Aplausos, apupos, agradecimentos emocionados, discursos inflamados e embates duros. Governistas gritavam “sem anistia”, bolsonaristas gritavam “vergonha”.

O líder de Lula no Congresso, Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), agradeceu à oposição por ter insistido tanto para instalar a comissão, enquanto oposicionistas bradavam contra o “relatório do Flávio Dino” e reclamavam do indiciamento de pessoas que nem sequer haviam sido ouvidas.

Respondendo a uma crítica comum ao documento de 1.333 páginas, seu presidente, Arthur Maia (União-BA), reconheceu que “pode ser que [a CPI] não traga nada de novo, mas trouxe a verdade na praça pública, porque aqui não há sigilo”.

Até aí, jogo jogado. Quem já acompanhou uma CPI sabe que é um fórum político por excelência. Por isso mesmo, não é irrelevante que o relatório final tenha recomendado o indiciamento de 29 militares e PMs, incluindo oito generais e dois ex-comandantes das Forças Armadas de Bolsonaro: o almirante Almir Garnier e o general Marco Antônio Freire Gomes.

Nunca houve tantos militares enredados numa CPI na História do Brasil. Não deixa de ser um feito, considerando o esforço de comandantes e parlamentares de todos os matizes para evitar constranger os fardados.

Bruno Boghossian - Excesso de confiança na CPI levou oposição a cair na própria armadilha

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas insistiram em comissão, apostaram em teorias conspiratórias e foram derrotados

Jair Bolsonaro (PL) anunciou que abraçaria a missão quando voltasse ao Brasil depois de uma temporada nos EUA. "Estamos focados na CPI dos atos do dia 8 de janeiro", disse o ex-presidente, no fim de março. "Esperamos muito que haja a CPI para levantar isso aí. Foi uma armadilha feita pela esquerda."

A oposição via a Comissão Parlamentar de Inquérito como uma ferramenta para borrar impressões digitais, espalhar alguma confusão e alimentar teorias conspiratórias que pintavam os ataques golpistas como um trabalho interno da esquerda.

A segurança com que deputados e senadores alinhados a Bolsonaro lideraram a coleta de assinaturas para criar a comissão foi o sinal de que eles acreditavam que seria possível dominar as investigações e provocar desgastes ao governo Lula (PT). Meses depois, os oposicionistas caíram no próprio alçapão.

Míriam Leitão - A bússola dos economistas

O Globo

O mercado errou muito em suas projeções sobre o desempenho da economia brasileira este ano, admite Fernando Honorato, do Bradesco

Os economistas estão errando muito em relação à economia brasileira? Sim, estão. Quem admite isso comanda um dos principais departamentos econômicos do país, o do Bradesco. O economista Fernando Honorato dá até a dimensão do erro. Este ano, o próprio banco teve uma mudança de dois pontos e meio entre o que previa de crescimento do PIB no início e o que prevê agora. O banco projetava 0,5% e está fechando o ano com quase 3%. O mercado errou nas projeções da inflação também. Depois de insistir que o IPCA estouraria a meta, agora a metade dos economistas já aposta que não vai estourar. No FMI, o Brasil foi a maior surpresa, diz Honorato. Em abril o Fundo previa 1% de alta do PIB e em outubro pulou para 3%.

Celso Ming – O que esperar agora?

O Estado de S. Paulo

Fatores novos devem mexer com a economia

A guerra de Israel contra o Hamas tomou conta das apreensões gerais, mas seu impacto sobre a economia global, além da escalada dos preços do petróleo, ainda não está claro. Isso já não é pouca coisa, como parece admitir o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates: “Se a guerra piorar, será a tempestade perfeita”. Mas é cedo demais para levar esse efeito em conta.

Mas há fatores novos que devem mexer com a economia neste resto do ano.

O primeiro deles são as boas surpresas que vêm da China. As últimas informações divulgadas pelo seu Escritório Nacional de Estatísticas dão conta de que o PIB da China cresceu 4,9% no terceiro trimestre deste ano em comparação com o terceiro trimestre de 2022 – acima das expectativas que cravavam um avanço de 4,3%. Ainda não há notícias sobre como o governo de Pequim enfrentará a grave crise da construção civil, mas há indícios de que algum pacote salvador está a caminho. Como o mercado da China é grande absorvedor de commodities, o Brasil poderá tirar bom proveito disso.

Maria Cristina Fernandes - Na ONU, o jogo de um só derrota a paz

Valor Econômico

Só por desconhecimento ou má-fé se pode imaginar que a rejeição da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas tenha sido derrota brasileira

Só por desconhecimento ou má-fé se pode imaginar que a rejeição da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas tenha sido derrota brasileira. Se mal-intencionados não se curam, há um lote de razões para resgatar os primeiros.

Foram 12 votos, com uma folga, portanto, de três para a aprovação, impedida pelo veto americano. Entre os votos favoráveis estão França e China. O primeiro precisa de uma mediação para conter atentados que prosperam no país. O segundo optou por fortalecer uma proposta que teve como principal contendor, os EUA.

Entre os favoráveis à resolução constam ainda dois aliados americanos, Japão e Emirados Árabes, único país árabe no CSNU e signatário do acordo de Abraão, com EUA e Israel.

Reino Unido absteve-se porque sua diplomacia segue o compasso da americana, e Rússia porque revidou a abstenção brasileira em sua proposta a despeito de o Brasil ter apoiado suas emendas nessa quarta.

Luiz Carlos Azedo - Quando uma boa ideia começa a dar errado

Correio Braziliense

"Biden, que enfrenta dificuldades na campanha à reeleição, vem se revelando um falcão com a crise em Gaza", avalia jornalista sobre a atuação do presidente dos EUA na drise humanitária do Oriente Médio

A crise humanitária na Faixa de Gaza, em meio à guerra entre Israel e o Hamas, a organização que assumiu o controle do território quando o Exército israelita dele se retirou, expõe a olho nu a crise que a Organização das Nações Unidas (ONU) atravessa, desde a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003. À época, essa foi uma das respostas do governo norte-americano ao atentado da Al Qaeda às Torres Gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001, a pretexto de que o ditador iraquiano Sadam Hussein estava produzindo armas químicas — cujos laboratórios nunca foram encontrados. Desde então, apesar das sucessivas intervenções militares do Ocidente, os grupos terroristas e fundamentalistas só aumentaram sua influência no Oriente Médio.

Ontem, depois de muitas negociações entre os 15 integrantes do Conselho de Segurança da ONU, os EUA vetaram a proposta de resolução que garantiria ajuda humanitária efetiva à população civil de Gaza, submetida a intensos bombardeios desde o ataque terrorista do Hamas ao território israelense. Foi o único país a se manifestar contra a ajuda humanitária das Nações Unidas.

Míriam Leitão - Veto dos EUA não é derrota do Brasil, é da diplomacia

O Globo

Foi um banho de água fria para quem achava que a diplomacia poderia fazer o seu trabalho nessa guerra entre Hamas e Israel

Os Estados Unidos vetaram a resolução apresentada pelo Brasil no Conselho de Segurança da ONU para o conflito entre Israel e Hamas, em um banho de água fria para quem achava que a diplomacia poderia fazer o seu trabalho nessa guerra. Não é derrota do Brasil, é da diplomacia

Era uma proposta muito equilibrada, que tentou atravessar todas as dificuldades para construir o consenso: condenava os ataques do Hamas, pedia a liberação de reféns e propunha uma pausa humanitária, sem falar em cessar-fogo, o que poderia incomodar os EUA.

Na visão americana, um cessar-fogo significaria não dar a Israel, que foi atacado, o direito de se defender, apesar de já haver seis mil mortos na região dos dois lados.

Eugênio Bucci* - Quando a guerra vira entretenimento

O Estado de S. Paulo

As plateias não se informam sobre os acontecimentos – elas se empanturram e se dopam, insaciáveis

À medida que a tragédia se adensa no Oriente Médio, o destampatório performático triunfa e cega. A cada lance obscuro e trágico, mais se excitam os espectadores, em sua superficialidade chapada e esfuziante. As redes sociais entram em alvoroço, as plateias repetem palavras de ordem lacrimosas e a carnificina se converte em melodrama pungente e barulhento. Essa gritaria feita de platitudes altissonantes e insensíveis é a prova definitiva de que “não há limites para a insânia”, como dizia um velho jornalista. A opinião pública entra em demência.

Um ser racional – esse tipo em extinção – pode até vislumbrar, por teimosia, uma esperança tímida num acordo de paz para a Faixa de Gaza e suas redondezas, mas não terá nenhuma ilusão de que o bom senso terá vez sobre a face da Terra. A guerra avança como um estranho e mórbido entretenimento participativo. Essa é a nossa maior danação.

William Waack - Não há boas opções para EUA e Israel

O Estado de S. Paulo

O que existe são estratégias militares sem estratégias políticas

Joe Biden exortou Israel a não se deixar consumir pela raiva trazida pelas atrocidades terroristas do Hamas. E, assim, evitar “erros” que os Estados Unidos cometeram depois do 11 de Setembro.

Foi um clássico conselho do faça o que eu digo, mas não faça o que eu fiz. O então senador Joe Biden, que presidia a Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, foi um dos 77 que autorizaram o presidente George W. Bush a empregar força militar no Iraque. A invasão de 2003 é considerada um dos maiores desastres estratégicos da história americana, e o preço é pago até hoje.

O problema é que, no momento atual, não há boas opções nem para os Estados Unidos nem para Israel, a quem Joe Biden literalmente abraçou. Os americanos são vistos na região como cúmplices dos israelenses, sem condições de atuar como “mediador honesto”. Mas se dissociar de Israel está fora de cogitação.

Vinicius Torres Freire - Ajuda para Gaza vai criar um campo de refugiados faminto e lotado

Folha de S. Paulo

Caminhões do Egito vão poder levar víveres para palestinos, mas situação seguirá desesperadora

Um grande caminhão-pipa pode carregar 20 mil litros d'água. Em uma situação de "emergência humanitária", um mínimo do mínimo de água tratada por pessoa seria de 7,5 litros por dia, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) —para beber e comer, basicamente.

Dada a população de Gaza, estimada em 2,23 milhões, seriam necessárias 835 viagens de caminhões-pipa, por dia, para que as pessoas tivessem ao menos aquela ração mínima de água para situações de catástrofe —guerra, terremoto, furacão etc.

Essa aritmética rudimentar do horror serve para ilustrar um comentário sobre a possibilidade de que caminhões de ajuda humanitária ora no Egito entrem em Gaza, por permissão de Israel.

A tripa de terra sitiada tira quase toda sua água de poços e de dessalinização, parados porque a única usina elétrica do território parou, por falta de diesel industrial (que vinha de Israel); o fornecimento da empresa de água de Israel obviamente parou também.

Maria Hermínia Tavares - A vitória dos extremistas

Folha de S. Paulo

Uns e outros só se saciarão com o aniquilamento do inimigo

Há uma história por trás do massacre de israelenses pelo Hamas e da guerra terrível que certamente se seguirá à barbárie do 7/10.

É a história do fracasso de uma saída negociada capaz de permitir a convivência de dois povos que consideram seu o mesmo pedaço de terra —uma derrota devastadora para todos quantos por ela se bateram e nela ainda acreditam.

Pelo menos duas oportunidades foram perdidas. A primeira, em 1947, quando os países árabes rejeitaram a proposta de partilha da Palestina. Em consequência, no ano seguinte, tentaram varrer do mapa o recém-criado Estado de Israel. É bom que se diga: os territórios então destinados aos árabes dali eram maiores do que os em disputa hoje.

Ruy Castro - A vida em vão

Folha de S. Paulo

A guerra no Oriente Médio começou como de vida ou morte para os dois lados. Mas ambos já perderam

Perdi quase 20 amigos na pandemia. Tão ruim quanto nunca mais vê-los era pensar que estavam morrendo na época mais triste da nossa história, num Brasil que jamais teriam imaginado chegar àquele ponto ---a caminho de uma ditadura pior que a de Getulio (1937-45) e a dos militares (1964-85).

O país a que dedicaram a vida, certos de que um dia teríamos desenvolvimento com liberdade, riqueza com justiça social e alegria com responsabilidade, não podia ser o de Bolsonaro. A morte naquele momento, e em condições tão cruéis, era a derrota, a sensação de que tinham vivido em vão.

Poesia | História pátria. Ascenso Ferreira. Allan Sales

 

Música | HABANERAS DE CADIZ ( Versión Son Cubano ) Sanamé y su Son