segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Demétrio Magnoli - A surpresa ucraniana

O Globo

Começou, à sombra da noite, nas primeiras horas de 6 de agosto. Ninguém sabia — nem as tropas mecanizadas envolvidas na operação, que receberam o aviso no último minuto, nem os Estados Unidos e os aliados europeus. As forças de elite da Ucrânia, cerca de 10 mil soldados, avançaram sobre a província russa de Kursk e, em duas semanas, ocuparam um saliente de mais de mil quilômetros quadrados e 92 povoados, inclusive a cidade de Sudja.

A ofensiva surpreendente foi descrita por analistas em termos que oscilam entre uma genial manobra tática e uma aventura desesperada. A operação tem uma série de objetivos que podem ser rotulados como propagandísticos, militares e diplomáticos.

Poesia | Marcelo Mário de Melo - O pão

O pão do amor 

não é pré-cozido.

Às vezes sai do forno antes da hora.

Às vezes demora. 

E isso se imprime no seu gosto.


É sempre bom 

tirar o pão do forno 

na hora certa.


Mas no caso do pão do amor 

ele é que pula 

para a degustação. 


Acontece 

de um amor antecipado 

ou demorado 

ser mais saboroso 

do que um pão 

da hora certa.


O pão do amor 

é cheio de manhas 

e incertezas.


E diferentemente 

do pão comum de padaria

ele passa por dois fornos.

O forno da mente 

e o forno do coração. 

Cada um 

com os seus imperativos 

na gangorra.


Assim se põe 

o pão do amor 

diante do amante.

Música | Seu Jorge - Eu sei que vou te amar (Tom Jobim )

 

domingo, 1 de setembro de 2024

Opinião do dia – Antonio Gramsci (utopia)

"Todavia, se também a filosofia da práxis é uma expressão das contradições históricas — aliás, é sua expressão mais completa porque consciente —, isto significa que ela está também ligada à “necessidade” e não à “liberdade”, a qual não existe e ainda não pode existir historicamente. Assim, se se demonstra que as contradições desaparecerão, demonstra-se implicitamente que também desaparecerá, isto é, será superada, a filosofia da práxis: no reino da “liberdade”, o pensamento e as ideias não mais poderão nascer no terreno das contradições e da necessidade de luta. Atualmente, o filósofo (da práxis) pode fazer apenas esta afirmação genérica, sem poder ir mais além; de fato, ele não pode se evadir do atual terreno das contradições, não pode afirmar, a não ser genericamente, um mundo sem contradições, sem com isso criar imediatamente uma utopia. Isto não significa que a utopia não possa ter um valor filosófico, já que ela tem um valor político e toda política é implicitamente uma filosofia, ainda que desconexa e apenas esboçada. Neste sentido, a religião é a mais gigantesca utopia, isto é, a mais gigantesca “metafísica” que já apareceu na história, já que ela é a mais grandiosa tentativa de conciliar em forma mitológica as contradições reais da vida histórica: ela afirma, na verdade, que o homem tem a mesma “natureza”, que existe o homem em geral, enquanto criado por Deus, filho de Deus, sendo por isso irmão dos outros homens, igual aos outros homens, livre entre os outros e da mesma maneira que os outros, e que ele pode se conceber desta forma espelhando-se em Deus, “autoconsciência” da humanidade; mas afirma também que nada disto pertence a este mundo e ocorrerá neste mundo, mas em um outro (— utópico — ). Assim, as ideias de igualdade, liberdade e fraternidade fermentam entre os homens, entre os homens que não se veem nem iguais, nem irmãos de outros homens, nem livres em face deles. Ocorreu assim que, em toda sublevação radical das multidões, de um modo ou de outro, sob formas e ideologias determinadas, foram colocadas estas reivindicações."

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, Volume 1, p. 205. Editora Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Política econômica de Lula volta a perder credibilidade

Folha de S. Paulo

Alta do dólar tem motivo mais amplo que o apontado para intervenção do BC; sem controle de gastos, juros tendem a subir

A nova escalada da cotação do dólar, que atingiu R$ 5,69 na sexta-feira (30) e recuou depois para R$ 5,61 devido à intervenção do Banco Central no mercado, é sintoma de mais um rodada de perda de credibilidade da política econômica.

O BC vendeu US$ 1,5 bilhão à vista, montante anunciado na noite anterior para fazer frente a uma saída pontual de recursos —uma prática que, em momentos assim, nada tem de anormal.

Entretanto, com a insistência da cotação em subir durante a manhã, acabou vendendo mais, o equivalente a US$ 765 milhões em contratos de swap cambial, um tipo de contrato que dá aos compradores proteção ante uma alta da moeda americana.

Não foi apenas o dólar que voltou a assustar. Juros de mercado também dispararam, já incorporando aumento de ao menos 1,5 ponto percentual, para 12% ao ano, da taxa Selic nos próximos meses. Juros de prazos mais longos também continuaram a subir.

A razão de fundo da desconfiança, como sempre, são as contas públicas em descontrole. A economia em ritmo relativamente forte até impulsiona a arrecadação de impostos, mas os gastos públicos crescem ainda mais. Nos últimos 12 meses, a despesa aumentou cerca de 15% acima da inflação, recorde na série histórica.

Dorrit Harazim - Rascunhos

O Globo

Ex-presidente, hoje, é um ser acuado por seus delírios e medos e, por isso mesmo, perigoso

‘Um ser que continua a mudar é um ser que continua a viver’, sustentava a escritora Virginia Woolf em suas infatigáveis, doloridas reflexões sobre a identidade e a natureza humana. Todos sabemos como é difícil alimentar a coragem de descartar ideias que vestimos como segundas peles. A própria noção que cada um faz de si se sustenta no frágil conceito de continuidade. Vivemos numa cultura cujos mitos de heroísmo e martírio valorizam consistência a qualquer custo — esquecendo que somos moldados pelo que queremos, e o que queremos é passível de mudanças à medida que vivemos. O aclamado psicanalista britânico Adam Phillips — editor da obra de Freud na coleção Clássicos da Penguin — dedicou um livro inteiro (“Sobre desistir”, 2024) a nossa perene dificuldade em aceitar chamados novos que exigem renúncias. E são renúncias muitas vezes amargas, cantadas em verso e prosa há milênios, em todas as formas de linguagem. Exceto na política.

Bernardo Mello Franco – Cidade tripartida

O Globo

Nos 30 anos de 'Cidade Partida', um Rio que não aparece na propaganda eleitoral

A ampla vantagem de Eduardo Paes nas pesquisas esvaziou o interesse pela eleição para a Prefeitura do Rio. É pena, porque os cariocas arriscam perder uma chance valiosa de discutir os problemas da cidade. Na semana que passou, um seminário e um novo livro debateram os 30 anos do lançamento de “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura. As conversas iluminaram temas que não devem aparecer na propaganda eleitoral.

O best-seller de Zuenir descreveu uma cidade traumatizada pela violência e anestesiada pela desigualdade. Para produzi-lo, o jornalista frequentou por dez meses a favela de Vigário Geral, palco de uma chacina que matou 21 pessoas em agosto de 1993. Depois do banho de sangue, o autor acompanhou dois movimentos que ensaiaram uma reação à barbárie. O Viva Rio, que mobilizou classe média, empresários e meios de comunicação, e o movimento da comunidade de Vigário, que tentava projetar sua voz além dos becos da favela.

Míriam Leitão - Acertos e desafios de Gabriel Galípolo

O Globo

Novo presidente do Banco Central vai ter que superar a intimidade com o governo para preservar a independência das decisões de política monetária

O próximo mandato na presidência do Banco Central será um novo teste na autonomia. Roberto Campos Neto enfrentou a hostilidade da primeira travessia de governo, Gabriel Galípolo terá que superar a intimidade com o governo do presidente que o escolheu, para preservar a independência das decisões de política monetária. A conjuntura é desafiadora tanto pelos indicadores ruins quanto pelos bons. A inflação está perto do teto da meta e há dúvidas sobre os dados fiscais, mas o país cresce além do previsto e o mercado de trabalho vive seu melhor momento em dez anos, com desemprego baixo e alta de renda. No pano de fundo, a maior economia do mundo prepara uma queda de juros numa conjuntura com dados oscilantes.

Elio Gaspari - 60 milhões de escovas de dentes

O Globo

A repórter Andreza Matais revelou que a Justiça Federal suspendeu a licitação do Ministério da Saúde para a compra de 60 milhões — repetindo: 60 milhões — de kits com escova de dentes, fio dental e dentifrício. Acionado, o Tribunal de Contas da União (TCU) reconheceu que o pregão estava viciado.

Pindorama tem uma estrutura robusta para defender o cofre da Viúva. É o Sistema U. Além do TCU, há a Controladoria-Geral da União (CGU). O TCU barrou a maluquice do trem-bala. Em 2019, a CGU detonou uma licitação de R$ 3 bilhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE, para equipar escolas públicas com laptops e computadores. Nessa festa, uma escola de Minas Gerais que tinha 255 alunos receberia 30.030 laptops.

Infelizmente, não foram responsabilizados os autores da malandragem.

Com o pregão dos 60 milhões de escovas de dentes, a Justiça e o TCU funcionaram, mas não basta.

Luiz Carlos Azedo - Musk fomenta uma crise pós-moderna no Brasil

Correio Braziliense

O magnata da tecnologia acredita que seu poder está acima das instituições brasileiras e que pode se relacionar diretamente com a nossa sociedade

A presença de magnatas na política norte-americana sempre teve forte influência na projeção de poder dos Estados Unidos no mundo, seja por meio de sua política de Estado ou pela presença de suas corporações nos outros países, principalmente onde há petróleo ou um grande mercado consumidor. Historicamente, esse é o caso do Brasil.

Alguns desses magnatas foram “self-made man”, alcançaram sucesso, riqueza e prestígio por conta própria. Andrew Carnegie começou como um operário têxtil e se tornou um dos magnatas do aço mais ricos do século 19; Thomas Edison superou muitos obstáculos como inventor para se tornar um empresário de sucesso.

Merval Pereira - Perdendo a razão

O Globo

Ao determinar a extinção do antigo Twitter no país, colocou-nos ao lado de países como Coréia do Norte, China, Irã, Miamar, Rússia e Turcomenistão. Companhias nada honrosas, não?

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mais uma vez deu um passo maior que suas pernas ao, em vez de punir o X por querer funcionar no Brasil contra as exigências da legislação, passar a perseguir as empresas do mega empresário Elon Musk. Ao determinar a extinção do antigo Twitter no país, colocou-nos ao lado de países como Coréia do Norte, China, Irã, Miamar, Rússia e Turcomenistão.

Companhias nada honrosas, não? Mais de 20 milhões de brasileiros deixarão de usar o X, por determinação do STF, o que não fala bem da nossa mais alta Corte de Justiça, abrindo brecha para que as acusações de bolsonaristas e correlatos ganhem ares de verdade. O ministro Alexandre de Moraes, que atribui a todas as suas decisões o dom de defender a democracia, esquece-se de que a liberdade de expressão é a base dos direitos humanos numa democracia.

Vinicius Torres Freire - Guerra contra Musk, e a plutocracia tecno

Folha de S. Paulo

Reação a abusos e força de redes e ‘big techs’ tem prisão e bloqueios

Pavel Durov, dono do Telegram, passou três dias em uma cadeia da França, em agosto. Está sob vigilância estrita. É acusado, entre tantas outras coisas, de obstruir a Justiça e de administrar plataforma online para facilitar transações de quadrilhas envolvidas em crimes digitais, pornografia infantil, tráfico etc.

Em março de 2022, o STF (Supremo Tribunal Federal) mandou bloquear o Telegram. A ordem durou de uma quinta-feira a um domingo. Cairia antes do vencimento do prazo da suspensão efetiva do Telegram, que acabou por acatar ordens judiciais (o que não fizera até então, dizia, por ter perdido emails do STF).

Bruno Boghossian - As chances que restam a Ricardo Nunes

Folha de S. Paulo

Atropelada por prenúncios de uma tragédia, a candidatura de Ricardo Nunes parece dependente de um episódio ao estilo "deus ex machina". A expressão originada no teatro grego descreve uma intervenção inesperada e de última hora para resolver encrencas.

A campanha na TV vai ajudar o prefeito, mas dificilmente assumirá sozinha a dimensão de milagre. Ainda que Nunes tenha um latifúndio nas telas, a propaganda só será suficiente para mudar o jogo se o candidato for capaz de encaixar uma mensagem forte.

Nunes tem a vantagem de disputar a eleição sentado na cadeira. Ele usará a propaganda para tentar convencer o eleitor de que faz um bom governo e, na sequência, transformar uma avaliação positiva em voto.

Celso Rocha de Barros – Elon Musk e o Twitter

Folha de S. Paulo

Moraes tem bons argumentos, mas golpistas de Musk ganharão pontos

No próximo 7 de setembro, Jair Bolsonaro e seus golpistas protestarão na avenida Paulista. Se o fizerem pacificamente, terão o direito de fazê-lo.

A polícia de São Paulo estará lá para garantir que as coisas não saiam de controle. Se alguém levantar uma bandeira nazista, será preso. Se os manifestantes se virarem para fora da manifestação e passarem a ofender transeuntes com agressões racistas, serão presos. Se ninguém fizer nada disso, todo mundo voltará para casa normalmente.

Agora imagine como seria se um bilionário de extrema direita comprasse a avenida Paulista e decretasse que ela não é mais parte do Brasil. Para satisfazer as preferências ideológicas do bilionário, de agora em diante, seria permitido levantar bandeiras nazistas, discursar por golpe de Estado, chamar os negros paulistanos de macacos ou dizer aos judeus de São Paulo que eles deveriam ter sido mandados para as câmaras de gás. A polícia de São Paulo, os juízes brasileiros, não teriam mais poder de estabelecer qualquer limite, para qualquer manifestante, na nova avenida Paulista.

Muniz Sodré - O futuro é idiota

Folha de S. Paulo

Candidato mostra que idoneidade não atrai eleitores, voto não é selo de verdade, e o futuro é idiota

Ao pedir desculpas por sua postura na campanha pela prefeitura da maior metrópole brasileira, Pablo Marçal oferece uma via de compreensão da atualidade política. Admite ter-se comportado como idiota com o objetivo, vitorioso, de subir nas pesquisas. Sua retratação não é mudança de atitude, mas retrato de uma estratégia: idiotia como caminho para o poder.

Não é demais remontar à origem da palavra. "Idiotes", na Polis grega, eram aqueles centrados em negócios privados, alheios à vida pública, que interessava aos "politikós". Os significados atuais das duas palavras derivam dessa oposição. Mas se tornou pesado o atributo de idiota, pois implica ignorância, estreiteza mental e desconexão com o mundo.

Eliane Cantanhêde - Xandão x rei do universo

O Estado de S. Paulo

Brasil não é ‘casa da mãe Joana’, mas Xandão não pode fazer o jogo do inimigo

Assim como o ditador Nicolás Maduro confrontou e pôs o presidente Lula contra a parede, sem saída, o bilionário Elon Musk peitou o ministro do Supremo Alexandre de Moraes e transformou o Brasil num teste para seu poder mundo afora. A posição de Lula ficou mais complexa, tortuosa, mas a reação de Moraes foi rápida, direta e implacável: a suspensão das operações do X, exTwitter, no Brasil. Uma forma de dizer, interna e internacionalmente, que o País tem Constituição, leis e instituições, não é uma “terra de ninguém” ou “uma casa da mãe Joana”.

Lourival Sant’Anna - O limite entre crime e liberdade

O Estado de S. Paulo

STF deve dosar suas ações para que Brasil não seja confundido com ditaduras

A suspensão do X e a prisão do CEO do Telegram, Pavel Durov, representam uma escalada na guerra entre os Estados nacionais e as grandes plataformas digitais. O alcance supranacional dessas redes representa um desafio à imposição da lei em países democráticos, nos quais o direito à liberdade de expressão entra em choque com a proteção contra discursos de ódio, desinformação, pedofilia e outros crimes.

As acusações contra as plataformas de Elon Musk e de Durov são diferentes. O juiz brasileiro Alexandre de Moraes ordenou a suspensão do X depois que a plataforma se recusou a tirar contas do ar que disseminavam desinformação sobre as eleições de 2022, fechar seu escritório e retirar representantes do Brasil, de modo a não se sujeitar às punições da Justiça, como multa e, potencialmente, prisão.

Já o Telegram é usado para disseminar pornografia infantil, venda de drogas ilícitas e transações fraudulentas, e recusou-se a compartilhar com os investigadores informações e documentos sobre esses crimes, segundo a Justiça francesa.

Victor Missiato - Pablo Marçal e a Ágorapós-moderna

Correio Braziliense

O tempo da política passa a compor outras dimensões sensoriais e participativas, abrindo espaço para lideranças que, inclusive, rechaçam a política

Em entrevista ao projeto Fronteiras do Pensamento, o sociólogo Zygmunt Bauman, em 2011, afirmou que a pós-modernidade é responsável pelo descolamento da relação entre poder e política nas sociedades contemporâneas. Cada vez mais espetaculares e espetaculosos, os discursos políticos e a própria política foram abandonando a dimensão da transformação do poder para centralizar sua estratégia no empoderamento individual em detrimento dos sentidos de povo, revolução ou alargamento de um novo pacto republicano. 

No decorrer do século 20, homens e mulheres de partidos e associações conquistaram o poder por meio de golpes, revoluções e vitórias eleitorais, representadas por partidos que expressavam uma vontade coletiva, criando culturas políticas ligadas a um sentimento de libertação nacional ou um próprio desenvolvimento da cidadania moderna. No Brasil e no mundo, políticos e líderes revolucionários eram confundidos com as próprias causas nacionais que lideravam.

Ivan Alves Filho*- Por um entendimento entre Democratas e Humanistas

O papel das forças democráticas implica a defesa intransigente dos interesses da população, o que significa o reconhecimento sem arestas das instituições da República.

Mas não é difícil constatar a ambiguidade do comportamento de alguns setores se reivindicando do campo progressista quando recorrem à doutrina nacionalista, em período marcado pela globalização, para justificar seus equívocos e crimes. Não há como deixar de lembrar aqui a frase do escritor Samuel Johnson: "O nacionalismo é o último refúgio dos calhordas". Proferida no século XVIII, ela parece manter toda sua atualidade. Já foi dito por um grande estrategista político do século XX: "Não pintemos o nacionalismo de vermelho".

Para algumas instâncias políticas ocorre, visivelmente, um atrito entre  o plano nacional e a questão democrática. A História ensina. Vejamos o caso do governo populista de Getúlio Vargas. Ele subordina a Democracia a um propalado nacionalismo modernizador. Ocorre que a modernização desejada por ele se fazia em detrimento dos direitos humanos. Modernização com recurso sistemático a torturas e carta branca para a polícia política de Filinto Müller não dá. Astrojildo Pereira percebeu isso com muita acuidade à época, valorizando a Democracia entre nós desde os primórdios do movimento dos trabalhadores, nas primeiras décadas do século XX.

Poesia | Saudade, de Pablo Neruda

 

Música | Beth Carvalho - O meu guri ( Chico Buarque)

 

sábado, 31 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Musk deve cumprir ordens, mas STF não pode extrapolar

O Globo

Liberdade de expressão não justifica que redes sociais fujam a suas responsabilidades jurídicas

A reação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), à recusa do empresário Elon Musk em cumprir decisões judiciais para remover contas e publicações ilegais de sua rede social X e em indicar um representante legal para responder por suas decisões no Brasil apresenta pontos extremamente controversos. O primeiro foi notificá-lo por meio de um post em rede social, o próprio X. Que farão agora os oficiais de justiça diante da árdua tarefa de notificar alguém que evita ser encontrado? Usar as redes sociais do cidadão? Cabe tal procedimento em nosso sistema de justiça ou a inovação valerá apenas para ministros do Supremo?

É verdade que Musk acabou dando ciência à notificação, ao respondê-la de modo grosseiro. Mas o certo teria sido enviar uma carta rogatória, a que o comum dos mortais tem de recorrer quando depara com situação semelhante. O segundo ponto, ainda mais heterodoxo e esdrúxulo, foi o congelamento das finanças de outra empresa controlada por Musk, a Starlink, que nada tem a ver com o X e oferece serviço essencial de internet por satélite em regiões remotas — a medida é tida como ilegal por juristas respeitados. É certo que chegar a Musk é difícil, mas, por moroso que seja o processo, ele tem de ser feito dentro da lei. Espera-se que o plenário do STF corrija esses desvios. Nenhum ministro deve ser considerado imune a erros ou dono da palavra final.

Marco Aurélio Nogueira - Sem eleições limpas, a democracia sofre

O Estado de S. Paulo

Candidatos há que costumam fraudar eleições mediante formas ‘discretas’: mentiras, fuga do debate público, ausência de programas e intenções

Eleições são decisivas para o bom funcionamento da democracia. Por meio delas, mostra-se a qualidade da representação, a resiliência da estrutura institucional e o desempenho governamental. Governantes são premiados ou castigados pelos eleitores quando buscam sua reeleição. Políticos insurgentes podem ganhar o palco da política quando reúnem bons votos. Eleitores extravasam nas urnas suas esperanças, seu descontentamento e sua desconfiança nos políticos.

Diferentemente da Venezuela e de outras ditaduras praticantes do autoritarismo eleitoral, o Brasil tem convivido bem com as eleições. Elas foram suspensas e reprimidas durante a ditadura militar, entre 1968 e 1972, mas a queda do regime ditatorial se deu por via eleitoral, mediante a qual preparou-se o caminho para que o regime fosse se desfazendo, primeiro a partir das bordas e, depois, em seu sistema nervoso central.

Carlos Melo – Frentes políticas contra os filhos da fúria

O Globo

Mesmo que formalmente reverencie ex-presidente, ele não é seu discípulo ou fiel a seus interesses

A disputa patrimonial na extrema direita nacional é a sensação da temporada. Está além das eleições municipais. Pablo Marçal ocupou espaço sem pedir licença; contestado, resistiu. Debilitou as forças de Jair Bolsonaro e pôs em dúvida sua liderança. Modelo 4.0 do reacionarismo, reduz o ex-presidente a uma versão beta, ultrapassada, cheia de bugs. Mesmo que formalmente o reverencie, Marçal não é seu discípulo ou fiel a seus interesses. Antes, parece a kryptonita de Bolsonaro.

Mais ousado, de ataques mais baixos, fortes e desconcertantes, o ex-coach se coloca não apenas como empecilho para a reeleição do prefeito Ricardo Nunes, mas também como pesadelo às pretensões do ex-presidente e, talvez, aos projetos de Tarcísio de Freitas, que, ironicamente, passam a ser percebidos como parte do sistema.

Contudo Marçal não é novo, menos ainda surpreendente. Brota da mesma escuridão do presente. Pertence à novíssima geração de extremistas reacionários, antissistema, candidatos a autocratas, montados num pretensioso anarcocapitalismo que confunde esforço pessoal e empreendedorismo com bizarrice, caos e carnificina social.

Pablo Ortellado - Democracia sai derrotada

O Globo

A disputa entre Elon Musk e Alexandre de Moraes tem provocado defesas apaixonadas e unilaterais, alimentadas pela dinâmica polarizada que exige apoio entusiasmado ao adversário do inimigo. Uma análise cuidadosa sugere, porém, que os dois, Musk e Moraes, cada um a sua maneira, contribuem para o enfraquecimento da democracia brasileira.

Os inquéritos dos movimentos antidemocráticos conduzidos por Moraes apresentam problemas de forma, como já discuti noutras ocasiões nesta coluna, mas também de conteúdo. No que se refere às publicações nas mídias sociais com conteúdos ilícitos, Moraes tem adotado uma abordagem mão pesada.

No passado, a punição-padrão para uma publicação considerada ilícita pela Justiça era a exclusão dela especificamente. Considerava-se que a exclusão da conta do infrator configurava censura prévia, uma vez que o impedia de cometer um novo ato ilícito antes mesmo de ser cometido. Os inquéritos do STF, porém, tornaram triviais as suspensões de contas, em vez de apenas das publicações problemáticas.

Eduardo Affonso - Mátria amada, Brasil!

O Globo

Nosso belo hino, decentemente executado por qualquer banda de música, funciona como kryptonita para cantores populares

O Hino Nacional não dá sorte, coitado. É sonoro, poético, arrebatador, mas ele mesmo não se ajuda. A começar pela letra — hermética, quilométrica, redigida na fronteira entre o hipérbato e a sínquise, eivada de proparoxítonas (é provável que, nesse quesito, só perca para “Construção”, de Chico Buarque, e “O drama de Angélica”, de Alvarenga e Ranchinho).

Suas estrofes são intercambiáveis, sem obedecer a uma sequência lógica — e a maior dúvida da nossa literatura não é se Capitu traiu Bentinho, mas se o “sonho intenso” vem antes ou depois do “amor eterno”. (Repare: sempre haverá uma pausa dramática ao fim do refrão Ó Pátria amada,/Idolatrada,/Salve! Salve!, e nos quedamos em obsequioso silêncio, à espera de ver — ouvir — para onde vai aquela minoria que inventou uma fórmula mnemônica para não se perder.)

Há quem diga que a melodia foi inspirada em obras de Beethoven, Rossini, Liszt, Paganini, Neukomm e do padre José Maurício — mas ninguém sabe ao certo, nesse caso, quem é o ovo, quem é a galinha.

Carlos Alberto Sardenberg - Prejuízos à vista

O Globo

A despesa do INSS cresce pela concessão de novos benefícios, em número bem superior ao que será eliminado

INSS deve gastar neste ano cerca de R$ 900 bilhões em benefícios previdenciários, como aposentadorias, pensões, auxílios-doença, e outros pagamentos obrigatórios, que compõem 33% das despesas totais do governo federal. Para 2025, a previsão é de R$ 1 trilhão. Menos uma economia de R$ 7 bilhões que o governo pretende obter passando um pente-fino nos benefícios.

Ridículo, não é mesmo? Um corte de 0,7%.

A redução foi anunciada nesta semana, quando o governo também informou que ampliará o programa vale-gás a partir do próximo ano. A ideia é distribuir um botijão a cada dois meses para 20 milhões de famílias. O custo final será de R$ 13,5 bilhões anuais, ante os R$ 3,5 bi gastos atualmente.

Dora Kramer - Discurso caduco

Folha de S. Paulo

PT paga o preço da falta de renovação, atrelado à visão passadista de Lula

A interdição ao crescimento de novas lideranças com obediência cega e longeva aos ditames de um só líder cobram um preço alto ao PT. Atrelado a uma visão passadista de seu comandante, tem dificuldade de dialogar com o novo tempo.

As pesquisas indicam que o partido se arrisca na presente campanha municipal a repetir o fracasso de 2020, quando não conseguiu eleger ninguém nas capitais e se viu reduzido a 183 prefeituras no país, numa desidratação e tanto para quem já teve 638. Isso foi há 12 anos.

Pode ganhar em São Paulo? Pode, mas para se tornar competitivo precisou recorrer a alguém de fora de seus quadros, porque é Guilherme Boulos (PSOL) e não um petista, o candidato em condição de colocar a esquerda na disputa.

Alvaro Costa e Silva - A moda 'fofa' dos pets nas campanhas políticas

Folha de S. Paulo

Novos cabos eleitorais miam, latem e abanam o rabinho

Em contraponto ao conteúdo sensacionalista e assumidamente picareta das campanhas, o cabo eleitoral da moda são os pets. No país que deu votos de protesto para uma rinoceronte e um chimpanzé —Cacareco na eleição paulistana de 1959 e Macaco Tião na carioca de 1988—, a repórter Fernanda Alves mostrou que os animais de estimação participam de agendas na rua e até de debates. E, claro, são presença incessante nas redes.

É a tática da fofura contra a da baixaria. No Rio, o candidato a prefeito Marcelo Queiroz (PP) tem na pauta animal sua maior bandeira, a ponto de promover "cãominhadas" em Copacabana. Tarcísio Motta (PSOL) é um orgulhoso pai de pets (um gato e um cão). Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) abriga quatro cachorros da raça spitz e Tabata Amaral faz questão de lembrar que adotou sete animais.

Hélio Schwartsman - Desespero ambiental

Folha de S. Paulo

Aquecimento global vai criar tentação de recorrer às geoengenharias; seria bom acordar desde já regras para isso

Cedo ou tarde vai acontecer. A crise climática veio para ficar. Algumas nações sofrem bem mais do que outras. É mais ou menos inevitável que em algum momento algum país ou bloco de países se sinta tentado a apelar para medidas drásticas. Na prancheta, elas existem.

Geoengenharia é o termo guarda-chuva para descrever intervenções humanas com o objetivo de conter o aquecimento global. Ela abarca desde técnicas pouco polêmicas de sequestro de CO2 atmosférico, como o reflorestamento, já amplamente utilizado, até ideias mais ousadas, como a fertilização de oceanos com compostos de ferro, a fim de estimular a produção de fitoplâncton, que também fixa carbono. O problema é que isso nunca foi tentado em grande escala e poderia gerar efeitos adversos dos quais nem desconfiamos.

Demétrio Magnoli - Ser e não ser

Folha de S. Paulo

Os 3 principais candidatos em São Paulo encaram uma versão aditiva da encruzilhada clássica

Ser ou não ser? O dilema envolve uma alternativa implacável: a morte ou, talvez pior, uma vida de dor. Diferentemente de Hamlet, os três principais candidatos à prefeitura paulistana encaram uma versão aditiva da encruzilhada clássica: ser e, simultaneamente, não ser. Ricardo Nunes precisa ser e não ser bolsonarista. Guilherme Boulos está condenado a ser e não ser da esquerda irredutível. Pablo Marçal deve solucionar a equação de ser e não ser o arauto do individualismo antissocial.

Nunes, o vereador cinzento elevado pelo destino à prefeitura, não é nenhum Eduardo Paes. O carioca, com gestão bem avaliada, move-se fora do campo de força da polarização nacional e, por representar a única opção não-bolsonarista viável, recebeu sem contrapartida o apoio de Lula. Já o paulistano, alcaide sofrível, depende do eleitorado bolsonarista para sonhar com o triunfo.

Carlos Andreazza - Xandão censor

O Estado de S. Paulo

A razão para a censura sempre é virtuosa

A Folha tentou entrevistar Filipe Martins e foi proibida por Alexandre de Moraes. Censura prévia. Esqueça Martins e as certezas sobre o ex-assessor de Bolsonaro. A entrevista foi censurada previamente. O Supremo formulando novas restrições à liberdade de imprensa.

Não importa quem seria o entrevistado; tampouco as investigações que correm contra ele. Importa que um jornal está impedido de ouvir sujeito em nada impedido – se válida a Constituição – de falar à imprensa. Censura. Prévia.

Importa também que Martins esteve preso ilegalmente por meses, documentado – provado bem cedo – que as razões para aquela preventiva não se sustentavam. Prisão que Moraes manteve, à revelia das provas e da manifestação da PGR. Revogada apenas no começo deste agosto, impostas medidas cautelares.

Luiz Gonzaga Belluzzo - A economia do gasto e da renda

CartaCapital

Se setor privado e governo cortam gastos, a renda agregada cai e o risco de crédito sobe

Nos tempos da crise financeira de 2008, Paul Krugman discorreu a respeito das relações entre gasto, renda e dívida. Peço licença ao leitor de CartaCapital para relembrar as afirmações do economista americano:

Nossa dívida (privada) consiste principalmente de dinheiro que devemos uns aos outros; ainda mais importante, nossa renda provém principalmente de vender coisas uns aos outros. Seu gasto é minha renda e meu gasto é sua renda. Assim, o que acontece se todo mundo reduzir gastos simultaneamente a fim de reduzir ­suas dívidas? Resposta: a renda cai.

Outro exemplo de inconsistência conceitual está abrigado na separação entre oferta e demanda, apresentada nos manuais de Macroeconomia. A separação – o “lado da demanda” e o “lado da oferta” – não faz sentido para o tratamento da “economia como um todo”, tal como a concebia Keynes, o John Maynard.

Em uma carta endereçada aos assessores de Roosevelt, Keynes desfiou argumentos a respeito das relações oferta e demanda.

Aldo Fornazieri - O custo da omissão

CartaCapital

Os incêndios devastadores provam o fracasso do governo Lula no enfrentamento dos problemas ambientais

O sucesso ou o fracasso do governo Lula no enfrentamento dos problemas ambientais e da crise climática não pode ser medido pelo metro do que tem sido feito em relação à gestão criminosa e devastadora do governo de Jair Bolsonaro nessas áreas. O metro precisa ser definido em relação às urgências e necessidades que esses temas requerem em termos de ações de uma administração com consciência da gravidade desses problemas. E se o metro deve ser esse, não há o que tergiversar: o governo Lula tem fracassado no enfrentamento dos desafios.

No governo Bolsonaro, o negacionismo da crise climática era ideológico. No governo Lula, o negacionismo é omissivo. Isto é, o governo não faz o que deveria ser feito de forma consciente. E aqui não se trata de jogar o peso do fracasso nos ombros do Ministério do Meio Ambiente, do Ibama e demais institutos ou do Ministério dos Povos Indígenas. Bolsonaro deixou o ministério, o Ibama e demais institutos esquálidos. Lula os mantém esquálidos, depauperados, sem recursos e sem meios e condições para agir. Esta é a natureza do negacionismo omissivo que domina a cúpula do atual governo.

Marcus Pestana - O jogo ainda aberto da democracia brasileira

O emocionante jogo entre o legado da redemocratização e os passivos da Nova República chegou ao placar apertado de 4 x 3, a favor de nossa recente democracia construída nos últimos 40 anos. Mas a peleja não havia terminado. E, infelizmente, esse jogo de ida terminou 6 x 4 com a virada feita pelos gargalos e fracassos colhidos. Quais foram os últimos três gols que tomamos?

O primeiro e mais agressivo é a permanência de um quadro inaceitável de desigualdades de renda e riqueza. Segundo o Observatório Brasileiro das Desigualdades, a desigualdade subiu de 2022 para 2023. Em 2023, o rendimento médio dos 1% mais rico da população foi 31,2 vezes superior ao dos 50% mais pobres. Ou seja, o que já era escandalosamente ruim, piorou um pouco. Este quadro de desigualdades de renda é agravado pelas condições sub-humanas de moradia, insuficiência alimentar, falta de coleta de esgoto e água tratada, péssima qualidade do ensino, baixo acesso aos bens culturais, subemprego, qualificação profissional precária, dificuldades de acesso ao SUS, deficiências do sistema de transporte público. Quando se joga o foco para o Nordeste e o Norte do Brasil, os indicadores pioram ainda mais e muito. Não foi esse o sonho acalentado pelos líderes do movimento das Diretas-Já e por nossos Constituintes de 1988. Gol das forças do retrocesso, empate de 4 x 4.

Poesia | Quando me amei de verdade, de Charles Chaplin.

 

Música | Boca Livre - O Trenzinho do caipira, de Heitor Vila Lobos, poema de Ferreira Gullar

 

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Intervenção no mercado de gás traz preocupação

O Globo

Há dúvida sobre a segurança jurídica dos decretos e sobre a capacidade de execução da ANP

Sob o pretexto duvidoso de contribuir para a “transição energética”, o governo anunciou nesta semana medidas destinadas a reduzir o preço do gás. Prometeu que, até o ano que vem, estenderá o vale-gás dos atuais 5,6 milhões de famílias para 20,8 milhões. Ao mesmo tempo, promoveu uma intervenção explícita no mercado de gás natural, na tentativa de aumentar a oferta. Apesar de bem recebida pela indústria consumidora, a última medida deve ser vista com cautela.

Desperta preocupação a aliança entre um governo que acredita na intervenção estatal nos mercados e um setor da economia conhecido pelo poder de pressão política. Há três anos, a Medida Provisória que abriu caminho à privatização da Eletrobras encheu de benefícios as usinas a gás e encareceu a conta de luz de todos. No mandato de Dilma Rousseff, o governo também interveio no setor de energia com consequências desastrosas. O risco é, mais uma vez, a gestão petista repetir erros.