quinta-feira, 20 de junho de 2013

Manda quem pode - Dora Kramer

No primeiro momento a tendência do governo federal foi a de espetar na conta do governador Geraldo Alckmin o prejuízo político dos protestos. Houve até quem no PT reclamasse que o prefeito Fernando Haddad não fora contundente o bastante nas críticas à atuação truculenta da polícia de São Paulo no enfrentamento de quinta-feira passada.

No segundo momento, porém, as antenas mais sintonizadas do Palácio do Planalto começaram a perceber que a parte gorda da fatura recairia sobre a presidente Dilma Rousseff. Não por uma questão de antipatia pessoal, mas porque é sempre assim: a conta é cobrada de quem tem a responsabilidade de pagar.

Brasília percebeu isso. E, na falta de formuladores, reagiu como sempre: por orientação do marqueteiro João Santana, cujas digitais são nítidas na construção do discurso da presidente que tenta se dissociar dos protestos, dizendo que as vozes das ruas "precisam ser ouvidas". Como se não fosse ela a representante máxima da legião de surdos à qual se dirigem os manifestantes.

Se não estivesse no comando da Prefeitura e caso os protestos se restringissem a São Paulo, talvez fosse bem-sucedida a tentativa de empurrar o problema para o alheio. Os tucanos são governo e é de cobrança ao poder público que cuidam os manifestantes.

No Rio, a passeata "dos cem mil" na segunda-feira se ocupou por longo tempo em insultar o governador Sérgio Cabral Filho. Em uníssono, a multidão o mandava àquele desconfortável lugar. Nessa hora não dá para cobrar bons modos de quem aguentou calado os maus-tratos.

O movimento se espalhou, tomou conta de todas as regiões do País, foi ao interior e ao exterior. Na última terça-feira, uma semana depois dos primeiros protestos inicialmente vistos como atos isolados de bagunça, foram 11 capitais. Para hoje, esperam-se manifestações em 21 dos 27 Estados, 15 capitais e 71 municípios.

Diante da adesão crescente, vislumbrado o tamanho oceânico da encrenca, autoridades de todos os matizes correram para tentar amenizar os danos: prefeitos reduziram simbolicamente os preços das passagens (entre 0,05 e 0,10 centavos), os governadores (Alckmin e Cabral) que inicialmente falaram grosso passaram a falar fino transmitindo seu apreço aos movimentos, a presidente cerrou fileiras ao lado da "mensagem direta das ruas".

Fez isso quatro dias depois de ter afirmado mais uma vez que corria tudo bem no Brasil e que as críticas eram produto de um "estardalhaço" promovido pelo "terrorismo informativo" sobre a situação econômica do País.

Tudo certo que a presidente, governadores, prefeitos e políticos em geral tenham adaptado o rumo de suas ideias ao itinerário e dimensão dos protestos. Ótimo, não brigam com os fatos nem negam o fato de que a sociedade quando quer e se empenha faz valer seu poder de mando, obrigando o poder público a ouvi-la.

Resta uma questão a ser resolvida: se na visão da presidente da República as ruas têm razão, se há consistência em suas reclamações, então quem não tem razão é o governo, que procura iludir ao pintar um cenário paradisíaco.

Em seu pronunciamento, Dilma Rousseff avisou que está ao lado da população "no repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público".

Pois quem tem os instrumentos para corromper? Quem recebeu delegação para usar dinheiro público? A quem cabe dar uma solução para a inflação? Quem gastou a rodo com os estádios da Copa?

Certamente não foram os marcianos nem a oposição. O discurso manipulador não é só insuficiente, pode ser também contraproducente. Se a revolta alcança partidos e políticos de uma forma geral, a cobrança é em particular ao governo, que tem a responsabilidade, os meios, a delegação e, sobretudo, a obrigação de oferecer as soluções.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Exaustão - Eliane Cantanhêde

Condenados pelo Supremo têm mandato de deputado e, não bastasse, viram membros da Comissão de Constituição e Justiça.

Um pastor de viés racista e homofóbico assume nada mais, nada menos que a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Um político que saíra da presidência do Senado pela porta dos fundos volta pela da frente e se instala solenemente na mesma cadeira da qual havia sido destronado.

O arauto da moralidade no Senado nada mais era do que abridor de portas de um bicheiro famoso. E o Ministério Público, terror dos corruptos, é ameaçado pelo Congresso de perder o papel de investigação.

A chefe de gabinete da Presidência em SP usa o cargo e as ligações a seu bel-prazer, enquanto a ex-braço direito da Casa Civil, afastada por suspeita de tráfico de influência, monta uma casa bacana para fazer, possivelmente... tráfico de influência.

Um popular ex-presidente da República viaja em jatos de grandes empreiteiras, intermediando negócios com ditaduras sangrentas e corruptas.

Um ex-ministro demitido não apenas em um, mas em dois governos, tem voz em reuniões estratégicas do ex e da atual presidente, que "aceitaram seu pedido de demissão".

Ministros que foram "faxinados" agora nomeiam novos ministros e até o vice de um governador tucano vira ministro da presidente petista.

Na principal capital do país, incendeiam-se dentistas, mata-se à toa. Na cidade maravilhosa, os estupros são uma rotina macabra.
Enquanto isso, os juros voltam a subir, impostos, tarifas e preços de alimentos estão de amargar. E os serviços continuam péssimos.

É por essas e outras que a irritação popular explode sem líderes, partidos, organicidade. Graças à internet e à exaustão pelo que está aí.

A primeira batalha foi ganha com o recuo dos governos do PT, do PSDB e do PMDB no preço das passagens. Mas, claro, a guerra continua.

Fonte: Folha de S. Paulo

Para onde eles irão agora? - Tereza Cruvinel

A elite política devia tentar fazer deste limão uma limonada, produzindo medidas para resgatar a confiança na política e na democracia representativa

Chegamos a um divisor de águas na evolução dos protestos que vêm revelando o que havia abaixo da superfície aparentemente satisfeita da sociedade brasileira. Concedido o recuo no aumento das tarifas de transportes coletivos em São Paulo e no Rio, à custa de subsídios governamentais que sacrificarão alguns investimentos, e já tendo isso ocorrido em diversas capitais, resta saber como se comportará o movimento em relação às bandeiras difusas porém essencialmente políticas: todas as palavras de ordem indicaram uma profunda descrença nas instituições da democracia representativa, como os partidos, o Congresso Nacional e os Legislativos estaduais. Atendido o pleito de natureza econômica, as manifestações vão prosseguir ou refluir, como aconteceu mundo afora com movimentos semelhantes? Venha o que vier, as elites políticas, se entenderam o recado, devem aproveitar a demonstração de vigor democrático para oferecer respostas no sentido de resgatar a confiança na política.

Ora, dirão alguns, o que os protestos mostraram foi desprezo pela política e pela representação. "O povo unido não precisa de partido", dizia uma faixa. Militantes de siglas de ultraesquerda, como PSTU e PCO, foram proibidos de levantar bandeiras. Jovens petistas e tucanos também participaram das manifestações, mas sem camiseta ou bandeira, quase clandestinamente. É compreensível que os movimentos sociais, em sua eclosão, contenham superdoses de utopia e certa irracionalidade, afora a violência e o vandalismo das minorias infiltradas com propósitos pouco claros. Mas, separado o que era reivindicatório — a suspensão dos aumentos — do que é político, acabarão compreendendo que a democracia que dizem defender (e que nem sabem como foi construída), não funciona sem a política, sem os partidos, sem a representação pelo voto. Talvez saibam que a democracia direta, a grega, não é mais possível, é só um eco romântico, embora alguns pensadores digam que a internet será a nova ágora. O que eles disseram, ainda que enviesadamente, é que não estão contentes com o funcionamento do sistema, com o modo de fazer política, como se ela fosse apenas uma sociedade de eleitos, que, uma vez mandatados pelos eleitores, passam a cuidar dos próprios interesses e a servir às conveniências do sistema.

Esse é, pois, o desafio que devia ser agora enfrentado pelos integrantes da elite política: produzir medidas para o resgate da confiança na política. Vale para todos os partidos, pois todos foram alvo dos protestos. Basta ver que o anúncio do recuo nos aumentos, ontem, envolveu governantes do PSDB, do PT e do PMDB. E, país afora, do PPS e do PSB. Se quiserem, talvez consigam fazer deste limão uma limonada, enfrentando, com respostas que certamente não são fáceis, alguns dos pontos que o movimento colocou na agenda. O primeiro deles é a reforma do sistema político-eleitoral. Aí está o PT, com milhares de assinaturas coletadas para a retomada da tramitação da matéria, mas, para ser uma resposta eficaz, a reforma política terá que ser discutida e pactuada com a sociedade. Teria que garantir transparência no financiamento das campanhas, mecanismos de maior controle dos eleitores sobre os eleitos, adotando talvez a revogabilidade dos mandatos, o "recall", e coisas assim, que modernizem nossa democracia.

Alguns políticos falavam ontem da necessidade de serem usadas com mais frequência as consultas populares previstas pela Constituição, o plebiscito e o referendo. O deputado Márcio França, do PSB, já dizia que essa será uma bandeira de Eduardo Campos. Miro Teixeira lembrava sua emenda, parada em alguma gaveta da Câmara, convocando a Constituinte exclusiva, para reformar os sistemas político e tributário. Mas estarão os altos cardeais dispostos a dar esse passo? Até agora, não se viu nenhuma proposição, mas ainda estamos sob o calor da erupção do vulcão adormecido. A lava certamente deixará um bom legado. Talvez melhor que o da Copa.

Os erros e os custos

Um outro legado dessas manifestações será o ingresso dos problemas de mobilidade urbana no centro da agenda. Para suprimir os aumentos, os governantes terão que aumentar os subsídios estatais. Em outros países, o subsídio é bem maior que o praticado aqui. Se a questão já tivesse adquirido maior relevância, os governantes envolvidos teriam evitado alguns erros.

O governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad não teriam viajado para Paris, é verdade que em missão oficial, logo depois de decretado o aumento. O governador teria evitado que sua polícia fizesse uso de tanta violência na quinta-feira passada, bem como as prisões e processos por formação de quadrilha. A criminalização do movimento social revoltou outros segmentos e engrossou as manifestações seguintes, que se espalharam e estão se interiorizando.

O prefeito, ao voltar e enfrentar o furacão, sentiu-se pessoalmente injustiçado. Afinal, ele atendeu ao pedido da presidente para adiar o aumento, que deveria ter ocorrido em janeiro, contribuindo para o controle da inflação. Prometeu aumento menor que a inflação e honrou a promessa. Mas na vida pública, estar com a razão não basta. É preciso criar tal percepção externa, e isso ele não conseguiu. 

Fonte: Estado de Minas

Encurralados – Miriam Leitão

Se ficarmos só no gatilho que levou o povo às ruas, há motivo de sobra para a insatisfação: O colapso da mobilidade urbana estressa diariamente as pessoas. Encurralou-se o direito de ir e vir. De 2008 até agora, o governo federal deixou de arrecadar, de quem abastece os carros com gasolina, R$ 22 bilhões. O destino desse dinheiro seria investimento em infraestrutura de transporte.

Os motivos são muitos, o desconforto é difuso, mas esta é a hora de pensar em todos os recados da rua. O transporte público é caro, e o serviço prestado pelos ônibus, péssimo. Isso vem de muito tempo. Mas piorou. O governo estimulou de forma exorbitante o uso do carro particular, o que ajudou a entupir as ruas. Abriu mão de recursos que, se bem usados, beneficiariam a todos.

Não há um culpado só. É impossível separar a violência da Polícia de São Paulo da escalada das manifestações. As cenas que chocaram o Brasil e o mundo da última quinta-feira foram gasolina em fogo já aceso. O governo de Geraldo Alckmin foi inepto ao lidar com a crise.

A crise da mobilidade urbana foi sendo aprofundada aos poucos. No Brasil, o transporte público foi sempre negligenciado, mas o governo federal escolheu um caminho insensato, que apertou o nó que sufoca os transeuntes das cidades brasileiras.

Foi eliminada a Cide e reduzido o IPI, para beneficiar o automóvel. Desta forma, foi incentivada a compra do carro particular e subsidiado o seu combustível. Duas das funções da Cide, de acordo com a lei de 2001 que a criou, eram investir em infraestrutura do transporte e atenuar os efeitos da poluição dos combustíveis. O imposto começou a ser reduzido em janeiro de 2008 e foi zerado em meados do ano passado. Segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), nesse tempo, o governo deixou de recolher, só com a gasolina, R$ 22 bilhões.

Não está nessa conta o que deixou de ser arrecadado com as reduções do IPI que estimularam a compra de carro particular. O subsídio à gasolina, através do congelamento do preço por muito tempo, causou prejuízo à Petrobras, déficit na balança comercial e desorganização da cadeia produtiva do etanol. Com mais carros na rua e investimentos insuficientes na infraestrutura, a mobilidade urbana, que já era ruim, entrou em colapso.

A compra do carro foi incentivada para o país crescer e isso não ocorreu. O preço da gasolina foi subsidiado para conter a inflação, e ela subiu. O reajuste do ônibus foi adiado para administrar os preços e aconteceu justamente neste junho em que a inflação está de novo estourando o teto.

Outro problema ronda a economia: o dólar. Ele também já começa a afetar os preços. Ontem, a entrevista do presidente do Fed, Ben Bernanke, dando o sinal de que os estímulos à economia serão reduzidos, no futuro, provocou imediata alta da moeda americana, e ela chegou a bater R$ 2,22. Fechou em R$ 2,21. É mais um complicador.

A presidente Dilma Rousseff tem estado em reuniões com a presença de seu marqueteiro, João Santana, e feito pronunciamentos com a sua supervisão. Parece mais preocupada com o efeito que a crise das ruas terá em suas chances eleitorais do que em entender e corrigir os erros que levaram à eclosão dos protestos.

Governantes de outros partidos e de outros níveis de governos desdizem de tarde o que disseram de manhã. O prefeito Fernando Haddad, ontem de manhã, garantiu que não reduziria a passagem de ônibus para, no fim da tarde, anunciar junto com o governador Geraldo Alckmin o recuo dos reajustes de ônibus e metrô. No Rio, Cabral não esteve ao lado do prefeito Eduardo Paes. A crise não é apenas econômica, mas a economia tem dado motivos de sobra para a insatisfação.

Fonte: O Globo

Algaravia nas ruas em busca de proposta - Marco Antonio Rocha

Tudo já foi dito. Tudo que era possível entender para se poder dizer, até agora, já foi dito. Com menor ou maior verve e estilo, conforme o autor; E, no entanto, nada foi esclarecido: as causas, o porquê, as consequências continuam em busca de explicação: quais são? Quem as deslinda? No meio das manifestações, das passeatas, das turbulências e dos protestos, e para quem assistia a tudo pelas TVs, uma coisa, ao menos, parece fora de dúvida: os manifestantes não queriam saber da presença de nenhum político conhecido nem de nenhum partido político, "da base" ou "da oposição" Os poucos que se arriscaram a tentar se imiscuir nas manifestações foram vaiados e expulsos, em alguns casos de forma truculenta. A "voz das ruas" não quer saber dos cochichos da politicalha.

Nossa presidente nos disse que é preciso ouvir "a voz das ruas". Mas ela também não tem a menor ideia do que é que a "voz das ruas" está dizendo. Na juventude ela pegou em armas pensando que estava atendendo à "voz das ruas". Enganou-se. As ruas não estavam pedindo para ninguém pegar em armas na ocasião. Deve estar equivocada de novo, se pensa que está ouvindo e entendendo direito o que as ruas estão dizendo.

Na verdade, o que se ouviu nas mas até agora é pura algaravia. Altíssonante, ensurdecedora, ameaçadora para muitos ouvidos, mas algaravia. Só o primeiro grito desencadeador é que foi claro: queremos passe livre (no transporte público). Depois, repórteres de todos os veículos se puseram em busca de um discurso inteligível, em vão.

É relativamente fácil adivinhar o que é as ruas não querem: não querem a soberba, a displicência, a negligência, o despudor, a corrupção e os desmandos que a classe política brasileira vem descaradamente praticando há anos, desde que conseguiu ocupar o lugar dos militares, que, aliás, com o torniquete na imprensa, nas escolas e na opinião pública em geral, abriram caminho para a impunidade e o descaramento civil dos políticos. A revolta parece dizer com clareza o que não quer,

Mas da revolta, ou das revoltas, não nascem necessariamente propostas de ação prática. Da revolta pode nascer uma revolução quando uma proposta viável precede à revolta e a conduz. Foi o caso das revoluções comunistas do século passado, da Rússia até Cuba. Ou, muito antes, na Revolução Francesa, que nos trouxe os governos "do povo, pelo povo e para o povo", conforme nossas Constituições, em lugar dos governos "do rei, pelo rei e para o rei", de até então. A revolta do povo alemão contra seus governos semimonárquicos e contra os sacrifícios que a derrota na 1ª Guerra impôs só desaguou no regime nazista de Hitler porque havia um partido nazista preexistente e uma proposta nazista que o povo alemão, bem ou mal, aceitou como salvadora.

Portanto, a proposta precisa ter muita credibilidade, força mobilizadora e senso de oportunidade. Nesse caso, ela pode surfar na revolta, tomar conta do movimento e conduzi-lo. O que, por sua vez, exige uma organização, um partido formulador da proposta e promotor da organização.

Por enquanto, as mas querem "mudar tudo isso que está aí". A manchete da Folha de terça-feira sintetizava o querer revoltoso: Milhares vão às mas "contra tudo"... Mas isso não é proposta. É protesto. E esse protesto o PT e Lula já tinham martelado na campanha eleitoral. Tanto não era proposta de verdade que foi esquecida no primeiro mês de governo petista.

" O fato é que o povo purga frustrações acachapantes de esperanças políticas há mais de 60 anos. Desde o suicídio de Getúlio Vargas, seguido pouco depois pela estrondosa vitória e abjeta renúncia de Jânio Quadros, o que iria "Varrer toda a bandalheira". Veio o golpe militar para "acabar com o comunismo e a corrupção". Aniquilou vários comunistas e promoveu a corrupção. Collor arrasou nas rnas combatendo "os marajás", aos quais aderiu gostosamente antes de renunciar para não ser deposto.

Arrisco opinar que esse acúmulo de frustrações levanta a voz das ruas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Sanduíche de PT - Denise Rothenburg

De um lado os manifestantes. De outro, os partidos aliados. Os primeiros querem um pouco de tudo. Os políticos, idem, especialmente, romper o cerco a que foram submetidos pelos petistas. Em outro ângulo, a economia caminha lentamente. Ninguém mais tem dúvidas de que este momento é mais delicado para o PT do que o do mensalão. Em 2005, quando o Partido dos Trabalhadores viu-se acuado pelo escândalo, a resposta de Lula foi voltar-se para as ruas. Com a sua popularidade em alta e a distribuição de alguns cargos no primeiro escalão, ele resolveu o problema. Agora, é diferente. Os petistas não têm o povo na rua para defender seus governos. E nem os partidos estão todos aí para garantir a reeleição de Dilma Rousseff, deixando apenas meia dúzia de gatos pingados no papel de oposição.

Vale relembrar. Naquela temporada, ainda no primeiro governo Lula, os internautas brasileiros ainda não haviam descoberto o poder de mobilização das redes sociais. O PT, a Central Única dos Trabalhadores (CUT), e o PCdoB eram capazes de levar às ruas mobilização em favor do presidente. O "fora Lula" ensaiado por alguns setores mais conservadores não pegou porque o povo estava ao lado dos petistas. Os partidos de oposição refluíram nos projetos de pedido de impeachment.

Da parte dos aliados do governo, o oferecimento de ministérios, como o da Integração Nacional, foi capaz de agregar mais um pedaço do PMDB ao projeto reeleitoral de Lula. Com o grande partido ao seu lado — e mais tarde a promessa de que o PMDB teria a vice-presidência em um projeto petista pós-Lula — o PT seguiu seu destino.

Nas eleições de 2006, com Lula revigorado e as ruas dispostas a sustentar o então presidente, o PT seguiu fazendo o que queria. Agora, entretanto, tudo parece diferente. Daí a reunião em São Paulo entre Dilma, Lula, Fernando Haddad, e o marqueteiro João Santana. Eles tentam bolar uma estratégia no sentido de evitar que o PT seja espremido entre manifestantes, partidos e a economia.

Enquanto isso, em Brasília...

A cúpula do PMDB bem que tentou, mas não conseguiu segurar a autoconvocação da Executiva partidária para a próxima terça-feira, 25. Na pauta, o planejamento eleitoral para os estados. A principal mensagem desse encontro será cavar espaço para os peemedebistas: Ou o PT cede a cabeça de chapa e palanque único para o partido de Michel Temer em praças importantes, ou os votos para reedição da chapa presidencial ficarão comprometidos. Ou seja, aquilo que o PMDB apenas comentava como uma ameaça, sem atitudes, agora ganhará corpo com a reunião da Comissão Nacional Executiva, o grupo que manda.

E em São Paulo...

O recuo tardio do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do prefeito Fernando Haddad, em relação ao aumento das tarifas tira o bode da sala. Mas daí a convencer os jovens de que não há mais motivos para novas manifestações é outra história. Até porque os governantes anunciaram cortes de investimentos simultaneamente à revisão no preço das passagens. Além disso, não houve uma negociação que garantisse o fim dos movimentos de rua. Sem essa contrapartida, a tendência é a continuidade da mobilização, em que as redes sociais funcionam como assembleia geral permanente, dia e noite, e reivindicações não faltam no sentido de obrigar novas ações por parte dos governantes. Pior para quem está no poder.

Agora, na avaliação de muitos, chegou o ponto em que ou os petistas cedem na política a aliados e ao povo na elaboração de uma agenda de obras e serviços (o mesmo vale para os tucanos em relação ao governo de São Paulo), ou podem ver comprometida a manutenção de suas administrações no futuro. No caso do PT, que deseja a reeleição, o efeito sanduíche nunca foi tão forte.

Fonte: Correio Braziliense

Lá Vem o Patto! – Urbano Patto

Há muita gente entusiasmada com as mobilizações populares desta última semana. Só na capital de São Paulo, em plena segunda-feira sem feriadão, estimou-se mais de 65.000 pessoas nas ruas. Tem uns mais exaltados que falam até em revolução, em insurreição.

Muito bom! Muito bem! Mas 65.000 manifestantes, sendo todos eles eleitores e imaginado que votassem em um só candidato, não elegeriam um único deputado federal pelo estado.

Essa observação revela a distância existente entre os mecanismos de institucionalização de parte importante do poder político e o que acontece na vida real e no dia a dia dos cidadãos.

O mesmo pode se dizer das lideranças do movimento que, embora com um discurso que tenta galvanizar a "vontade" popular, também mostra que a mesma distância permanece.

Ou alguém acha que alguns jovens muito bem articulados, audazes, corajosos e com uma linguagem altamente politizada e até mesmo com refinamentos teóricos e intelectuais representam, de fato, a sociedade ou mesmo a massa que supostamente lideram?

Ao contrário, tem grande dificuldade de controlar os grupos, organizados ou desorganizados, que se movem nas franjas das manifestações e que levantam outras bandeiras, ou bandeira nenhuma, e acabam por descambar para a violência. Mas isso não diminui o valor dessas lideranças pois, em sua maioria, sinceramente, tentam inibir e combater essas "distorçöes", embora não consigam fazê-lo.

Na construção de seu discurso hoje estão tentando se manter numa zona de conforto com a seguinte posição: o movimento é justo, tentamos mantê-lo pacífico, é também apartidário e sem definições prévias de roteiros para passeatas. Se há excessos, vandalismo e uso eleitoral é somente por culpa dos outros, dos grupos de vândalos, dos grupos e partidos "infiltrados", da polícia e dos governos que não atendem às reivindicações.

É difícil essa lógica subsistir por muito tempo, logo se precisará assumir um novo patamar de organização, pois ainda não há nas tramas do poder e da negociação com ele a horizontalidade que tentam manter no movimento. Se isso não ocorrer as possibilidade de que o movimento se esvazie, se perca em radicalismo ou seja absorvido pela política tradicional é grande.

Seja como for, toda essa movimentação é extremamente saudável para dar maior consistência à democracia brasileira deixando expostas algumas das entranhas da insatisfação social, dando possibilidade para o surgimento de novas formas de tratamento de conflitos e demandas, ensinando os governos a responderem melhor a suas atribuições, inclusive no exercício do poder de polícia, e forjando novas lideranças que virão a ser dirigentes das instituições políticas em todos os níveis - queiram elas ou não.

A democracia precisa disso para se revigorar e sair da pasmaceira de hoje, quando vemos possibilidades até mesmo de retrocessos significativos, como por exemplo: a PEC 37 que retira do Ministério Público a possibilidade de investigar crimes; a postergação do final do julgamento do mensalão e a punição concreta dos criminosos condenados; a restrição do direito de manifestação das minorias com o tolhimento ao nascimento de novos partidos e a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados aprovando a "cura gay" contrariando a ciência, o bom senso e o direito à diversidade e ao livre arbítrio.

Urbano Patto é Arquiteto-Urbanista, Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional, dirigente do partido Mobilização Democrática - MD (PPS) de Taubaté e do Estado de São Paulo. Comentários, sugestões e críticas para urbanopatto@hotmail.com.

Carminho e Milton Nascimento | Cais

Emoções do dia-a-dia – Graziela Melo

Verdades
que
não foram
ditas,

abraços
que
não foram
dados,

beijos
hipotéticos
apenas
imaginados,

palavras
tantas vezes
repetidas...

Gestos doces
quase tímidos
desarmados...

Figuras
tão sombrias
lembranças
tão tardias...
Saudades tantas!
Agonia...

Emoções
do dia-a-dia!


quarta-feira, 19 de junho de 2013

OPINIÃO DO DIA - Maria Alice Rezende: descrença dos jovens em relação à política

Os partidos viraram máquinas sem vida, interessados apenas na reprodução do poder. Os jovens não acreditam mais neles. Esse movimento é resultado de um abafamento da juventude, que não aguentou mais. Acho que muitas pessoas ainda serão atraídas para as ruas. As manifestações falam de uma nova aventura.

As autoridades precisam encontrar formas de dialogar com esse movimento. Não é tão simples, já que as lideranças não são claras. Mas é preciso cuidado para não afastar esses jovens da política.

Maria Alice Rezende, socióloga da PUC-RJ. In “Especialistas veem descrença dos jovens em relação à política”, O Globo, 18/6/2013.

Manchetes de alguns dos principais jornais

O GLOBO
O Brasil nas ruas: Capitais já baixam tarifas de ônibus; protestos continuam
Comissão da Verdade: Após divergências, Fonteles deixa posto
As mensagens das ruas

FOLHA DE S. PAULO
Ato em SP tem ataque à prefeitura,
saque e vandalismo; PM tarda a agir
Descrença de paulistano na política cresce, diz Datafolha
'Estão entrando', dizia assessora de Haddad no ataque
Teleban aceita iniciar diálogo com EUA e governo afegão

O ESTADO DE S PAULO
Manifestantes tentam invadir Prefeitura; SP tem noite de caos
Alckmin desiste de festa
Dilma e Lula se reúnem para 'salvar' Haddad
Grupo de Feliciano na Câmara aprova projeto da 'cura gay'

VALOR ECONÔMICO
Mau humor atinge mercado e megaoferta é cancelada
Dilma definirá os royalties de mineração
Haddad sofre pressão em SP em dia de saques e incêndios

BRASIL ECONÔMICO
Protesto sem líder único e diversas bandeiras
Inflação é apontada por enquete do iG
Políticos veem crise de representação
Mineração: Pressa para as novas regras

ESTADO DE MINAS
Noite de vandalismo depois de protesto pacífico em BH
Marco eleva arrecadação para Minas
Congresso: Proposta de "cura gay" é aprovada

O TEMPO (MG)
Após protestos pacíficos, grupo destrói agências e lojas no centro da capital
Presidente do Banco Central nega uso do câmbio para estabilizar inflação
Após 5 anos, governo propõe novo código da mineração
Estados pedem auxílio da Força Nacional durante Copa das Confederações
Brasileiros se reúnem em Londres, Barcelona e Copenhague para apoiar protestos
Noticiário internacional destaca protestos e insatisfação da população brasileira

CORREIO BRAZILIENSE
Manifestações desnorteiam a velha política
Crise põe Brasil nas manchetes na imprensa mundial
O vinagre se espalhou pela internet

GAZETA DO POVO (PR)
País rediscute o custo do transporte após protestos
“Não para, não para, não para...”
Comissão de Feliciano aprova a “cura gay”
Corte Suprema derruba a reforma do Judiciário na Argentina

ZERO HORA (RS)
Por dentro do protesto
Com Feliciano: Comissão da Câmara aprova “cura gay”

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Saques e violência em meio a apelos de paz
Cura gay passa na comissão de Feliciano

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

O Brasil nas ruas: Capitais já baixam tarifas de ônibus; protestos continuam

Em SP, radicais e pacifistas medem forças em tentativa de invasão da prefeitura.

Cerca de 15 mil pessoas participaram de ato na capital paulista, mas ação de grupos isolados resultou em saques. Para especialistas, manifestações revelam insatisfação de jovens com corrupção e políticos.

Um dia depois da mobilização que levou 240 mil pessoas às ruas, prefeitos de nove capitais anunciaram redução de tarifas de ônibus ou cancelamento de reajustes. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad (PT) mudou o tom e admitiu que pode derrubar o aumento da tarifa, que este mês passou de R$ 3 para R$ 3,20. Enquanto cerca de 15 mil pessoas caminharam pacificamente da Praça da Sé à Avenida Paulista, um grupo isolado tentou invadir a prefeitura, sendo contido pelos próprios organizadores da marcha. Lojas foram saqueadas. No Rio, onde a manifestação pacífica de anteontem também terminou em depredação, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) fala em negociar. A presidente Dilma Rousseff disse que a voz das ruas é um alerta a todos os governos e que o Brasil tem orgulho dos manifestantes. Novo ato está previsto para amanhã em vários estados.

Em mais um dia de protesto, São Paulo se divide entre paz e atos de vandalismo

Manifestantes agiram para conter grupo que atacou prefeitura e provocou destruição, incêndios e saques na cidade

SÃO PAULO - No dia seguinte à manifestação que registrou como único incidente a tentativa de invasão à sede do governo paulista, São Paulo ficou dividida. De um lado, milhares de pessoas protestaram pacificamente na Praça da Sé, seguindo tranquilamente por avenidas do Centro até chegar à Paulista. Do outro, um grupo de jovens foi às ruas para transformar a cidade em praça de guerra. Sem o aval da liderança do movimento, parte dos manifestantes que estava na Sé seguiu até a prefeitura. Lá, eles quebraram vidraças, picharam o prédio com palavras de ordem, viraram e tocaram fogo em um veículo da TV Rercord e, com rostos tapados, ainda queimaram uma cabine de polícia naquela área. Do outro lado da rua, o grupo destruiu portas e caixas automáticos de um banco privado.

Manifestantes entram em choque

Pelas ruas quase sem a presença de policiais, o grupo seguiu saqueando o comércio local, levando roupas e televisores. Trens foram depredados em uma das linhas da CPTM, fazendo com que o governo suspendesse a operação. Durante a noite, milhares de pessoas ainda se concentravam, pacificamente, na Avenida Paulista e os saques e incêndios prosseguiam na região da prefeitura. Oito pessoas foram presas até o fechamento desta edição.

A confusão começou quando alguns manifestantes romperam o cordão de isolamento do prédio da prefeitura. A fachada foi apedrejada e pichada. Grades que cercavam o local foram atiradas contra a prefeitura e vidraças e holofotes, destruídos. Diante da situação, os próprios manifestantes tentaram conter a ação do grupo mais violento.

Alguns recolocaram as grades de proteção em frente à prefeitura, mas o clima foi tenso durante a noite. Os guardas municipais recuaram e se protegeram dentro do saguão do prédio, enquanto manifestantes jogavam pedras e grades contra o prédio.

Coordenadora de um dos grupos organizados para o protesto, Karen Maria disse que estava na prefeitura durante o quebra-quebra.

- A gente não estava com liderança suficiente para segurar todo mundo. A primeira vez que pegaram uma grade eu tentei impedir. Mas o número de pessoas que queriam quebrar tudo era muito maior - afirmou.

Muitos manifestantes que estavam na prefeitura seguiram para a Paulista.

- Vim pra manifestação pela segunda vez porque gostei do clima pacífico de ontem (anteontem). Saí da prefeitura porque o clima pesou e fui para a Paulista. Não queremos vandalismo queremos mudar o Brasil - contou o estudante de medicina Carlos Bonasso.

Entre os manifestantes houve briga. Um rojão explodiu, e um mendigo que estava no meio do grupo desmaiou, sendo socorrido por estudantes. Algumas pessoas tentavam expulsar do protesto o rapaz que estava com a bomba. Um carro de uma emissora de TV que estava estacionado em frente à prefeitura foi incendiado por manifestantes, por volta das 20h. Mais cedo, uma repórter da TV Bandeirantes foi agredida.

O prefeito Fernando Haddad (PT) não estava na prefeitura durante os protestos. Enquanto o prédio era alvo de vandalismo, Haddad estava reunido com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula no saguão reservado às autoridades no aeroporto de Congonhas. Ninguém divulgou a pauta do encontro. Funcionários públicos ficaram presos dentro do prédio por horas.

Guarda não solicitou apoio da PM

A assessoria do governador Geraldo Alckmin (PSDB) informou ontem que o apoio da PM não foi solicitado pela Guarda Civil Municipal para conter os vândalos. A PM somente chegou ao local quando os manifestantes começaram a depredar o comércio da região. Depois de mais de duas horas de quebra-quebra, a Tropa de Choque foi acionada e, com bombas de gás, os policiais começaram a dispersar os manifestantes.

No outro ponto da cidade, na Avenida Paulista, a multidão tomou conta das pistas. Sem qualquer registro de violência, caminharam pela via fechando os dois sentidos. Algumas pessoas circulavam pela região em clima de festa, dançando e cantando. Por volta das 22h, a Avenida Paulista ainda estava tomada pelo protesto.

Centenas de manifestantes também interditaram a Rodovia Raposo Tavares para protestar, sem tumultos.

Palco do comício da Diretas Já, em 1984, a Praça da Sé começou a ser ocupada pelos manifestantes por volta das 16h. Durante a espera cantaram palavras de ordem e empunharam bandeiras e faixas com reivindicações diversas.

Em nota, o grupo diz que a prefeitura e o governo estadual "continuam a fechar os olhos e os ouvidos para a vontade da população". E ainda: "Mais um dia se passou e o aumento não foi revogado. Mais de 100 mil pessoas foram para as ruas e mesmo assim a Prefeitura e o governo do Estado continuam a fechar os olhos e os ouvidos para a vontade da população. Hoje estaremos novamente ocupando as ruas para barrar o aumento", diz o texto.

Anteontem, a passeata organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL) reuniu cerca de 65 mil pessoas, segundo o Instituto Datafolha, e transcorreu de forma pacífica por vias importantes da cidade. O único episódio de violência foi registrado em frente à sede do Palácio dos Bandeirantes, à noite, quando um grupo tentou invadir a sede do governo e foi reprimido pela polícia.

Temendo problemas, o governo de São Paulo, em nota oficial, já havia convocado as lideranças para que mantivessem "contato contínuo" com oficiais da PM que acompanhariam. O secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, foi quem pediu para que o grupo mantenha o acordo firmado com o governo para evitar problema.

Fonte: O Globo

Ataque à prefeitura e saques a lojas marcam novo protesto em São Paulo

* PM DEMORA 3 HORAS PARA AGIR E DIZ QUE TENTOU EVITAR FERIDOS * GRUPO PACÍFICO TENTA CONTER VIOLÊNCIA E MOSTRA DIVISÃO ENTRE ATIVISTAS * PELA PRIMEIRA VEZ, HADDAD ADMITE REVER REAJUSTE

São Paulo voltou a viver ontem uma noite de caos e protestos violentos. Manifestantes atacaram a sede da prefeitura, saquearam lojas, depredaram prédios públicos e privados e o relógio que faz a contagem regressiva para a Copa, na avenida Paulista.

A confusão começou após milhares de participantes cercarem a prefeitura, no centro. Um grupo tentou invadir o prédio com chutes e pedras e derrubar a porta principal com grades usadas para cercar o local.

Integrantes do Movimento Passe Livre e outros manifestantes tentaram conter o grupo, demonstrando uma divisão entre os participantes dos atos. Servidores que estavam do lado de dentro do prédio acompanhavam apavorados a tentativa de invasão.

No momento do ataque, às 18h50, Haddad estava fora da prefeitura. Ele fora ao encontro da presidente Dilma e do ex-presidente Lula em busca de uma solução para a crise.

Sem conseguir entrar, os manifestantes incendiaram uma van da TV Record e passaram a depredar bancos e a saquear dezenas de lojas de roupas, joias e eletrodomésticos. O Theatro Municipal, onde acontecia um espetáculo, foi cercado e pichado.

A PM demorou cerca de três horas para agir. Segundo a Secretaria da Segurança, isso aconteceu para evitar que pessoas sem relação com os atos de vandalismo fossem feridas. Após a intervenção da polícia, com uso da Tropa de Choque, 30 foram detidos.

O ato seguiu para a avenida Paulista, onde começou pacífico. No fim da noite, porém, houve mais depredação. Na rua Augusta, policiais reagiram com bombas; na Paulista, ficaram imóveis diante de provocações.

De manhã, Haddad admitiu a possibilidade de suspender o aumento da tarifa de R$ 3 para R$ 3,20, mas disse que, para isso, poderia aumentar impostos. Segundo o Datafolha, a descrença dos paulistanos nos Três Poderes é a maior em uma década. O apoio aos protestos cresceu.

Fonte: Folha de S. Paulo

Manifestantes tentam invadir Prefeitura; SP tem noite de caos

Houve confronto com guardas-civis metropolitanos e saques de lojas. Pela manhã, prefeito Fernando Haddad admitia rever aumento da tarifa de ônibus, após reunião do conselho de notáveis. Seis capitais anunciaram redução do preço das passagens.

No sexto dia de protestos organizados pelo Movimento Passe Livre, em SP, um grupo de manifestantes tentou invadir no início da noite a sede da Prefeitura. Com uso de cassetetes e gás de pimenta, guardas-civis metropolitanos impediram a invasão. Dois deles ficaram feridos. Os manifestantes queimaram uma cabine da PM e um furgão da TV Record. Também saquearam lojas. Ao contrário das cenas de vandalismo registradas no centro, a manifestação na Avenida Paulista foi marcada pelo tom pacífico. Segundo a PM, cerca de 20 mil pessoas ocuparam a via. Pela manhã, o prefeito Fernando Haddad (PT) admitiu a possibilidade de rever o aumento da tarifa de ônibus. Seis capitais - Porto Alegre, Cuiabá, João Pessoa, Recife, Natal e Manaus - anunciaram redução do preço das passagens.

Grupo de manifestantes ataca sede da prefeitura de SP e fere 2 guardas-civis

Em mais um dia de protestos contra a tarifa em Sáo Paulo, o prefeito Fernando Haddad (PT) esteve no foco das atenções. Pressionado até pelo seu conselho de notáveis, ele admitiu pela primeira vez a possibilidade de rever o aumento da passagem de ônibus. À tarde, no sexto ato organizado pelo Movimento Passe Livre, os manifestantes cercaram o Edifício Matarazzo, sede do governo municipal, e acuaram os guardas-civis no interior do prédio; dois deles ficaram feridos.

Em dois grupos, os manifestantes se dividiram entre ações pacíficas e violentas. Na Avenida Paulista, novamente interditada, o clima era de tranqüilidade. Já no Viaduto do Chá, a tensão era total: houve tentativa de arrombamento do Edifício Matarazzo, vidraças foram quebradas e a fachada, pichada, sob gritos de "quebrar, quebrar é melhor pra se manifestar". Na seqüência, o grupo colocou fogo em uma cabine da PM e em um furgão da Rede Rccord, por volta das 20h. Tudo isso aconteceu a cerca de 150 metros da sede da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Só após o vandalismo, os bombeiros seguiram para a região, Não havia PMs na área. Alvo das ações anteontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) não se pronunciou ontem nem teve agenda oficial.

Por volta das 18 horas, enquanto 0 grupo de manifestantes atacava a sede de governo - com secretários municipais fechados em uma sala de situação o prefeito estava reunido em um hotel da" zona sul com a presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como revelou o Broadcast Político, primeiro serviço em tempo real dedicado exclusivamente à cobertura política. A ideia era buscar uma saída política. No entanto, para analistas sociais como o professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Lincoln Secco, os efeitos políticos só serão notados a longo prazo.

Durante o dia, quatro capitais anunciaram redução no valor das tarifas, graças à medida provisória assinada no dia 31, que desonerou o setor. A ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, destacou que agora caberá a cada município "saber o quanto ele pode reduzir e o quanto pode se aproveitar da desoneração que o governo federal está fazendo". Haddad deve ir hoje a Brasília, em busca-de apoio no Congresso para novas medidas.

Ontem, voltaram a ocorrer atos em solidariedade aos protestos paulistanos. Apesar de o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), ter recebido manifestantes, o Estado não ficou sem novas mobilizações, com destaque para São Gonçalo. Houve também concentrações no exterior, em .Londres, Barcelona, Copenhague, Sidney, Hamburgo, Berlim, Nova York e Londres. Preocupada com "detenções-arbitrárias", a ONU pediu uma investigação independente.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Noite de vandalismo depois de protesto pacífico em BH

Com os rostos cobertos, baderneiros infiltrados entre manifestantes levam medo às ruas.

No segundo dia de manifestações em BH, cerca de 10 mil pessoas se concentraram à tarde na Avenida Antônio Carlos, em frente à entrada principal da UFMG. De lá, seguiram para a Praça Sete e depois até a Praça da Liberdade, onde os protestos se repetiram, sempre de forma ordeira. Até o início da noite não houve nenhum registro de violência nem de confrontos com a polícia em nenhum ponto da capital. No entanto, depois das 21h, grupos de vândalos, mesmo repreendidos pelos próprios manifestantes, passaram a promover o terror, sem repressão da PM. Eles atacaram a sede da prefeitura, depredando-a e ateando fogo na entrada do edifício. Na Praça da Liberdade, outro bando quebrou o relógio da Copa. Em esquinas próximas e no Centro, ônibus e outros veículos eram apedrejados.

Paz e Guerra

Após protesto pacífico de 10 mil pessoas, vândalos atacam prédios e veículos no Centro de BH e na Praça da Liberdade

manifestação pacífica de cerca de 10 mil pessoas que se reuniram ontem à tarde perto da UFMG, na Pampulha, e seguiram para a Praça Sete, foi manchada por grupos isolados de vândalos à noite, que depredaram a sede da prefeitura, na Avenida Afonso Pena, agência bancária e lojas na Rua Tamoios, no Centro, o relógio de contagem regressiva para a Copa do Mundo, na Praça da Liberdade, e atacaram ônibus e carros particulares nos dois locais. A maioria dos manifestantes tentou impedir os ataques, mas acabou recuando diante da agressividade. Desde o início da tarde, o clima foi de paz entre as cerca de 10 mil pessoas que se concentraram na Avenida Antônio Carlos, na Pampulha e seguiram em passeata pacífica até a Praça Sete, no início da noite, diferentemente do cenário de confronto com policiais e depredação na segunda-feira. Diante da expectativa de novas manifestações hoje e nos próximos dias, a PM informou que poderá triplicar o efetivo para 9 mil agentes nas ruas no sábado, quando México e Japão se enfrentarão no Mineirão. Enquanto isso, 150 homens da Força Nacional de Segurança apoiarão a PM, conforme o governador Antonio Anastasia acertou ontem com a presidente Dilma Rousseff.

A marcha de estudantes da UFMG e outros manifestantes começou no acesso à Antônio Carlos, com cerca de 200 jovens no fim da tarde, mas ganhou força ao sair do câmpus rumo à Praça 7, chegando a juntar quase 10 mil pessoas, segundo o Batalhão de Trânsito (BPTran) da PM, que não levantou bloqueios e acompanhou a distância, enquanto fazia desvios na região. Mesmo assim o trânsito ficou caótico no Anel Rodoviário e no entorno. A fila de veículos na faixa de sentido Pampulha se estendeu por cerca de quatro quilômetros.
Manifestantes que seguiam à frente bloquearam acessos do Anel e da Avenida Bernardo Vasconcelos e motociclistas que tentaram furar o bloqueio foram hostilizados. Os cânticos Em alguns momentos, punks quiseram depredar propagandas, o que gerou atrito com os demais manifestantes. Entre lemas como "Você aí parado, também é explorado" e "ô motorista, ô trocador, me diz aí se o seu salário aumentou", havia gente que levou até os filhos para as ruas. Como a auxiliar de dentista Jussara Nogueira, de 29 anos, que carregava o filho de 4 anos, Felipe Nogueira. Enquanto o menino cantava e dançava, ela protestava contra o salário dos professores. "É por isso que viemos aqui, para ele aprender a lutar pelo que acredita", disse. No caminho mais e mais pessoas desceram de suas casas e até dos ônibus para seguirem com a manifestação.

Quando chegaram ao complexo da Lagoinha, os manifestantes tentaram entrar numa faixa do viaduto que leva para a Contorno. Um ônibus metropolitano acelerou e furou o bloqueio, mas teve os vidros quebrados por pedras. Os manifestantes seguiram para a Praça Sete, que já estava tomada por outras pessoas à noite. Foi então que a partir de atos de grupos isolados, o movimento pacífico de jovens estudantes gritando palavras de ordem ganhou contorno de vandalismo. Por volta das 21h30, um grupo saiu em direção à Praça da Liberdade, mas em frente ao prédio da prefeitura ficaram cerca de 300 pessoas. Em pouco tempo, as palavras exaltadas deram lugar ao vandalismo de cerca de 20 pessoas.
Uma rampa de madeira na escadaria do prédio foi destruída. A explosão de bombas de pequeno potencial começou a dispersar as pessoas que buscavam manifestar de forma pacífica. Um rapaz de 18 anos ficou ferido e foi socorrido por uma equipe do Corpo de Bombeiros. Em pouco tempo, os vândalos jogavam pedras no prédio e, além de quebrar vidraças, investiram contra a guarita de vigilância.

Tentar pôr fogo no prédio várias vezes. A tentativa de outros manifestante em interromper a violência gerou enfrentamentos com agressões físicas entre os envolvidos. Não satisfeitos, os vândalos seguiram até a esquina das ruas Espírito Santo e Tamoios, onde fecharam o trânsito, chegando a fazer barricadas com cavaletes e cones. Alguns subiram no veículo e quebraram vidros. Um motorista chegou abandonar o coletivo. Outros três coletivos também foram alvo dos vândalos, que cobriam o rosto com máscaras e camisas e ainda atacaram uma agência do Banco do Brasil .

A estudante de marketing Rafaella Magalhães, de 23, lamentou:. "É triste ver uma minoria de vândalos está destruindo muito mais do que prédios ou ônibus. Estão destruindo um sonho de sermos ouvidos pelos governantes".

Entre o outro grupo que seguiu para Praça da Liberdade, havia pessoas com rosto parcialmente coberto por camisas e armadas com pedras que atacou o relógio de contagem regressiva para a Copa, apesar de outros manifestantes tentarem evitar a ação. Parte do objeto foi quebrado, inclusive um monitor digital, e pedaços de vidro se espalharam pelo chão. Nas grades do portão do Palácio da Liberdade, foi fixada uma faixa em que se lia: "Não vai ter Copa! O povo decidiu jogar". Também foram colados cartazes, com dizeres como "Brasil, mostra a tua cara! vem pra rua" e "Não queremos mais ser roubados por estes ratos da política".

Na esquina das avenidas Cristóvão Colombo e Brasil, cerca de 200 manifestantes interditaram o cruzamento até por volta das 22h30 e causaram congestionamento. Encapuzados e segurando pedaços de pau, alguns jovens ameaçaram jornalistas e motoristas, além de dar chutes e murros em carros. A equipe mais próxima da PM estava do outro lado, no encontro das avenidas Brasil e Bias Fortes, orientando o trânsito.

Fonte: Estado de Minas

Após protestos pacíficos, grupo destrói agências e lojas no centro da capital

Bruna Carmona e Gustavo Lameira

As manifestações de ontem e da madrugada de hoje em Belo Horizonte foram marcadas por momentos distintos, terminando em um grande quebra-quebra no centro da capital mineira. No início da noite de terça-feira (18), os protestos foram pacíficos na região da Pampulha e também na região central, onde houve inclusive a elaboração de uma pauta de reivindicações por parte dos manifestantes. Cerca de 4.000 pessoas participaram desses dois atos, com início no campus da UFMG e concentração debaixo do viaduto de Santa Tereza.

Por volta de 21h, um outro grupo antes concentrado na praça Sete caminhou pela avenida Afonso Pena em direção à sede da prefeitura. Sem a presença da Polícia Militar, foram atiradas pedras e bombas contra a fachada do prédio. Graciano Ribeiro da Silva, de 18 anos, ficou ferido e foi levado para o Hospital João XXIII. Alguns vidros foram quebrados e a situação só foi contornada com a chegada de homens do Corpo de Bombeiros. Em seguida, uma pequena multidão marchou para a praça da Liberdade. O relógio com a contagem regressiva para a Copa do Mundo foi danificado.

No entanto, o momento de maior tensão ocorreu depois das 22h. Agências bancárias na praça Sete foram depredadas e uma loja da Vivo, perto da igreja São José, foi destruída. Ainda na praça Sete, os manifestantes cercaram um ônibus da linha 4103, e parte dos passageiros, assustada, desceu do coletivo. Três repórteres fotográficos, um deles de O Tempo, ficaram encurralados em uma loja da rede de fast food Habib's, na esquina da avenida Afonso Pena com rua Espírito Santo. Os profissionais subiram até o segundo andar para fazer fotos do protesto, quando foram avistados pelos manifestantes. Eles tentaram invadir a loja, mas a gerência conseguiu fechar as portas. Ainda segundo os fotógrafos, a PM não foi vista no local.

À tarde

Milhares de pessoas saíram da avenida Antônio Carlos no fim da tarde, em direção ao centro da capital, em mais uma manifestação contra o aumento do preço das passagens de ônibus, a corrupção e os gastos com a Copa.

Por volta das 17h45, os manifestantes estavam concentrados em frente à UFMG e bloqueavam os dois sentidos da avenida Antônio Carlos, causando retenção na barragem da Pampulha e reflexos no trânsito da avenida Pedro I e da MG-010.

Gritando palavras de ordem e segurando uma faixa com a mensagem "Não vai ter copa. O povo decidiu jogar", os manifestantes seguem o trajeto em direção ao centro, convocando pessoas que estão nos ônibus e nas ruas para se juntarem ao protesto.

Devido à manifestação, muitos comerciantes fecharam as portas nas proximidades da avenida Antônio Carlos. Pouquíssimos policiais acompanharam o protesto e não foi feito cordão de isolamento. O trânsito no sentido Venda Nova/centro foi desviado para a avenida Abraão Caram, até que a avenida Antônio Carlos fosse completamente liberada, por volta das 21h.

O deslocamento dos manifestantes em direção ao centro da cidade também fechou os dois sentidos do Anel Rodoviário na altura do bairro São Francisco por cerca de meia hora, causando uma retenção de 4 km no sentido Vitória.

Viaduto Santa Tereza

Embaixo do viaduto de Santa Tereza, na região central da capital, cerca de 400 pessoas também se reuniram e, com o apoio de um carro de som, discutiram os temas que irão nortear as próximas manifestações em Belo Horizonte.


O protesto foi promovido por meio do Facebook, e não houve uma liderança direta, por se tratar de um movimento horizontal. O estopim para o início dos protestos foi o aumento das passagens de ônibus e os gastos com as copas das Confederações e do Mundo.


No local, houve presença de pessoas ligadas a partidos políticos, representantes do Movimento dos Sem Terra e Sindicato dos Guardas Municipais de Minas Gerais. A Polícia Militar acompanhou de perto a reunião, que seguiu pacífica.

Os manifestantes seguiram para a avenida Afonso Pena, onde se juntaram aos demais grupos que protestam na cidade.

Fonte: O Tempo (MG)

Manifestações desnorteiam a velha política

A explosão de sucessivos protestos nas cidades brasileiras deixa prefeitos, governadores e autoridades federais perplexos diante de um Brasil até então desconhecido e com o qual ainda não se sabe como lidar. Depois de declarar que o governo está ouvindo as vozes da rua, a presidente Dilma foi se encontrar com Lula e com o prefeito Fernando Haddad, em São Paulo, para avaliar o prejuízo eleitoral dos acontecimentos. Temendo a reação popular, seis outros prefeitos se apressaram em anunciar a redução das tarifas. As passeatas se estenderam a cidades do interior e a oito países.

Protesto na capital paulista reúne mais de 50 mil.

Pela primeira vez, Haddad admite redução da tarifa.

Saiba quais são as principais reivindicações das ruas.

São Paulo

A manifestação nas avenidas da cidade começou pacífica, mas um grupo tentou invadir a prefeitura e deu início à violência: carros foram queimados e lojas, saqueadas.

Rio de Janeiro

O centro de São Gonçalo, perto da capital, foi tomado por 5 mil pessoas.

Houve atos em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Ceará e no Acre.

Pressionados, prefeitos cedem

Chefes do Executivo municipal que passaram os últimos dias agindo de maneira isolada para responder aos protestos nas ruas decidiram se unir. Eles vêm hoje a Brasília para discutir com senadores um projeto para desonerar o diesel, o que pode ajudar na redução do preço das tarifas de ônibus. O presidente da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), José Fortunati (PDT), de Porto Alegre, e o vice-presidente do grupo, Fernando Haddad (PT), de São Paulo, participarão de audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

O governo federal afirmou ontem que apoia outras duas propostas em tramitação no Congresso. Uma delas reduz a incidência de PIS/Cofins no transporte coletivo (leia ao lado), e a outra desonera a folha de pagamento do metrô de São Paulo. De maneira isolada, seis cidades resolveram se antecipar e anunciaram reduções das passagens: Recife, João Pessoa, Cuiabá, Porto Alegre, Pelotas (RS) e Blumenau (SC). Em Brasília, o secretário de Transportes, José Valter, assegurou que as tarifas não serão reajustas até 2014 (leia mais na página 25).

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, provável candidato do PSB à Presidência no ano que vem, declarou que a decisão de diminuir a tarifa de ônibus não tem relação com os protestos ocorridos na noite de segunda-feira na capital pernambucana. "Foi uma decisão unilateral do governo e das prefeituras reunidas aqui hoje (ontem)," disse.

O prefeito de Porto Alegre, o pedetista José Fortunati, também aproveitou a brecha de desonerações em diversos projetos que tramitam nos planos federais e municipais para anunciar a redução das passagens em R$ 0,05. "Assim que o Tribunal de Justiça se pronunciar sobre as nossas propostas, prometo que repassarei os descontos para as tarifas."

Em São Paulo, Haddad se reuniu ontem pela primeira vez com representantes do Movimento Passe Livre, que organiza as passeatas nas ruas da capital paulista. O encontro ocorreu durante reunião extraordinária do Conselho da Cidade. Diante dos manifestantes, ele se comprometeu a examinar a planilha de custos de transporte do município para "refletir no que eu poderia cortar de serviços para viabilizar a redução da tarifa". Ele, no entanto, não revogou o aumento que elevou a tarifa para R$ 3,20.

Ante os protestos, no entanto, o prefeito petista está disposto a negociar. "Temos caminho (para a redução), mas isso passa pela desoneração dos tributos federais e estaduais que incidem sobre o transporte público, como por exemplo o ICMS sobre o diesel, que já seria responsável por R$ 0,07 dos R$ 0,20 do aumento", disse.

Confusão

Os valores, no entanto, são motivo de discórdia, e tanto o governo federal quanto os estaduais têm se desencontrado. Segundo a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, com as desonerações federais, São Paulo poderia reduzir a tarifa em R$ 0,23.

A informação, no entanto, foi contestada pelo prefeito. Haddad disse que o desconto já havia sido aplicado, caso contrário a tarifa seria de R$ 3,47. Logo depois, Gleisi retificou o dado e afirmou que "não é possível calcular em quanto as prefeituras podem reduzir o preço das passagens a partir das medidas federais".

"Temos caminho (para a redução), mas isso passa pela desoneração dos tributos federais e estaduais que incidem sobre o transporte público" Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo
Recuo dos governantes

Ao menos seis cidades anunciaram a redução do valor das passagens cobradas no transporte público:

Município Redução tarifária

Recife R$ 0,10
João Pessoa R$ 0,10
Cuiabá R$ 0,10
Porto Alegre R$ 0,05*
Pelotas (RS) R$ 0,15
Blumenau (SC) R$ 0,12

*O valor oficial da tarifa é R$ 3,05, mas uma liminar judicial fixou a tarifa em R$ 2,85. A ideia inicial é reduzir para R$ 2,80

As redes nos protestos

O uso das redes sociais na orquestração de protestos, Brasil afora, não se explica apenas pela facilidade de comunicação e de compartilhamentos. Assim como a ausência de lideranças claramente instituídas, o recurso também tem raiz em uma crise de representatividade e na tentativa de se estabelecer canais de comunicação, divulgação e articulação menos hierarquizados e mais horizontais.

"Movimentos de 2011, 2012 e, agora, de 2013 tiveram como característica o protagonismo da internet. Assim, consegue-se abalar o papel dos meios de comunicação, que deixa de ser de um para milhões, para ser de milhões para milhões", disse o pesquisador do núcleo de estudos em políticas sociais, do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade de Brasília (UnB), Marcello Barra.

Pelas redes sociais, os ativistas coordenam ações, divulgam datas das manifestações, compartilham fotos e vídeos feitos por quem participou das reivindicações, e estimulam outras pessoas a saírem às ruas. A estratégia, usada nos últimos anos, ganhou, com os atuais protestos, proporção nunca antes vista no Brasil. Um modelo que vem conquistando força e projeção a partir, principalmente, de 2011, com o protesto dos indignados, na Espanha, e com o movimento Occupy Wall Street, nos Estados Unidos.

"É uma ferramenta de comunicação, principalmente, do público jovem. Em um primeiro momento, é usada para a exposição de ideias. Em um segundo momento, de mobilização do digital para o real", disse o especialista em direito digital, Leandro Bissoli.
"Esse é um movimento sem precedentes na história do Brasil. Algo, até agora, muito pouco institucionalizado, que recorre às redes sociais como nunca no país. Há aspectos muito originais nisso, que fazem dele uma novidade muito grande", disse o professor de ciência política da PUC de São Paulo, Lúcio Flávio de Almeida.

Preocupação eleitoral em meio à crise

O governo federal ainda tenta acordar para o tamanho da nova cara do Brasil, que se espalha pelas ruas do país desde a semana passada. Mas, por enquanto, a maior preocupação é meramente eleitoral. Tão logo fez o primeiro pronunciamento oficial sobre o assunto, em cerimônia no Palácio do Planalto ontem, para a apresentação do Código de Mineração, a presidente Dilma Rousseff voou para São Paulo para se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT). Além deles, participaram do encontro o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, o presidente nacional do PT, Rui Falcão e o publicitário João Santana.

Esse grupo em nada se parece com uma força-tarefa formada para discutir crises. Em vez de encontros com os ministros de Estado de setores ligados à Justiça, à Segurança Pública e aos serviços de inteligência, a reunião contou apenas com caciques petistas e o principal marqueteiro do partido atualmente. Lula já tinha reclamado a interlocutores que Haddad estava titubeante diante dos recentes confrontos ocorridos nas ruas de São Paulo. Em seu blog, o ex-ministro José Dirceu afirmou que cabia ao prefeito petista chamar os estudantes para abrir uma mesa de debate sobre a qualidade no transporte público e a militarização das polícias.

A gestão de Haddad se transformou em uma vitrine para o PT e para a reeleição da presidente Dilma. A sensação de que o pupilo de Lula fraquejou na primeira crise passa uma imagem muito ruim para o eleitorado, que escolherá, no ano que vem, o governador do estado — outro objetivo do PT — e decidirá se a presidente terá ou não direito a mais quatro anos de mandato no Planalto.

A percepção de que a situação havia passado totalmente do controle ocorreu na noite de segunda-feira, quando uma perplexa presidente assistia às imagens dos protestos que levaram quase 250 mil pessoas às ruas de 12 capitais. Ela decidiu, então, ligar para os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB); do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB); e do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT). Os dois últimos, ao lado do governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB), enfrentaram os protestos mais violentos de segunda. Anastasia, inclusive, pediu ontem que o governo federal envie a Força Nacional de Segurança ao estado.

Discurso

As conversas telefônicas que Dilma teve serviram para nortear o discurso da manhã de ontem. Até então, mesmo com a presidente tendo sido alvo de vaias durante a abertura da Copa das Confederações, no sábado, em Brasília, governo e petistas tentavam minimizar as manifestações. Ainda na segunda-feira, Dilma se limitou a declarar, por meio da ministra da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas, que as "manifestações são próprias da democracia", e que "é próprio dos jovens se manifestarem". Ontem, Dilma foi mais contundente.

A presidente disse que "as vozes da rua precisam ser ouvidas", e evidenciou a nova natureza dos manifestos das últimas semanas. "Elas ultrapassam, e ficou visível isso, os mecanismos tradicionais das instituições, dos partidos políticos, das entidades de classe e da própria mídia", afirmou. "Os que foram ontem (segunda) às ruas deram uma mensagem direta ao conjunto da sociedade, sobretudo aos governantes de todas as instâncias. Essa mensagem direta das ruas é por mais cidadania, por melhores escolas, melhores hospitais, postos de saúde e direito à participação."

Dilma ainda elogiou os movimentos e afirmou que eles fortalecem o país. "O Brasil, hoje, acordou mais forte. A grandeza das manifestações comprovam a energia da nossa democracia, a força da voz da rua e o civismo da nossa população." Ela também condenou o uso da violência. "O caráter pacífico dos atos públicos evidenciou também o correto tratamento dado pela segurança pública à livre manifestação popular. Conviveram pacificamente", ponderou. Dilma ainda disse que atos isolados de violência não retiram a legitimidade dos movimentos. "Sabemos, governo e sociedade, que toda violência é destrutiva, lamentável e só gera mais violência."

Reforço para a Copa

Quatro estados que sediam os jogos da Copa das Confederações receberão o reforço da Força Nacional de Segurança (FNS) para evitar tumultos durante as partidas de futebol. Ceará, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro receberão o efetivo da corporação. O DF também terá o reforço de homens da FNS, embora a capital federal só tenha recebido a partida inaugural do torneio. Em nota, o Ministério da Justiça afirmou que o envio das tropas está previsto dentro do plano de segurança para grandes eventos.

Fonte: Correio Braziliense

Por dentro do protesto

Não uma, mas muitas razões levam milhares às ruas do país.

* Os personagens da noite que marcou Porto Alegre.
* Copa e transporte público como alvos preferenciais.
* discurso da presidente: "Ouvir a voz das ruas".
* Manifestação e violência em SP, Rio e outras cidades.

Vozes e cartazes

Um protesto, mil razões

As reivindicações dos manifestantes que tomaram as ruas da Capital não se resumem a uma ou duas. São muitas e podem ser percebidas em palavras de ordem e cartazes. É o que conta o repórter de Zero Hora que acompanhou de perto a passeata de segunda-feira.

Sentados no calçamento do Paço Municipal, às 17h de segunda-feira, os primeiros a chegar para a manifestação estendem no piso as folhas de cartolina e hesitam, pensativos. É o momento de explicitar, com tinta ou pincel atômico, por que estão ali e o que querem.

Aos poucos, as palavras vão ganhando contornos no papel, e cada novo cartaz erguido alarga a pauta de reivindicações e revela os motivos para o descontentamento. A tarifa de ônibus é só um, entre tantos: "Não são só R$ 0,20", esclarece, em uma simples folha de ofício, um ativista de flor na boca. Os manifestantes são quase todos muito jovens. Quando o país tomou as ruas pela última vez, para derrubar Fernando Collor, não eram nascidos ou ainda ensaiavam os primeiros passos. Mas alguns pegam emprestadas as palavras popularizadas em outra era, quando o país sofria sob a ditadura militar. Che Guevara ("Hasta la victoria siempre"), Chico Buarque ("Afasta de mim esse cálice") e Geraldo Vandré ("Quem sabe faz a hora, não espera acontecer") se transformam de novo em porta-vozes de uma geração.

Em muitos outros cartazes, a insatisfação expressa à tinta é a de quem não se sente representado, seja por governos, tribunais, partidos, sindicatos ou meios de comunicação. O conteúdo dessas folhas de cartolina e papelão erguidas para o alto – e usado para intercalar os textos deste relato sobre o que foi visto e ouvido no protesto em Porto Alegre – oferece esse testemunho.

SAÚDE (X), EDUCAÇÃO (X), TRANSPORTE (X)

Às 17h15min, um ciclista de barba e cabelos compridos aparece, bandeira do Brasil atada ao pescoço.

– Todos deveriam usar a bandeira, para o mundo ver. Tem uns que são anarquistas, que não a respeitam – critica.

Perto dele, desfila de um lado a outro um rapaz vestido de preto dos pés à cabeça, com capacete e máscara sobre o rosto. Um dos 14 guardas municipais que fazem a segurança da prefeitura saca o celular e passa a captar imagens do manifestante. Ele responde na mesma moeda: desembolsa uma câmera e filma o agente.

É aplaudido.

SENHOR GOVERNADOR, CADÊ O RESPEITO?

O rapaz usando máscara e capacete se aproxima de um pequeno grupo com aparência hippie.

– Ô, cara, tu estás muito armado – comenta uma adolescente com a cara pintada de verde e amarelo.

– Pensa que está em São Paulo? – questiona outra.

Quando ele remove a máscara, revela-se o rosto nada assustador de um jovem de bochechas coradas e barba clara bem aparada.

BRIGADIANO TAMBÉMÉ EXPLORADO

O Paço Municipal começa a encher de manifestantes quando uma garota comenta com um rapaz:

– As pessoas roubam, matam, e não aparece polícia. A polícia só vem contra os manifestantes.

– Tem de entender que a polícia é um instrumento de repressão do povo. Mas agora não tem jeito, porque a internet bombou de uma forma... O problema é que na quinta-feira dispersou demais.

– Essa dispersão é que não pode acontecer hoje – defende a garota.

– Eu faço Ciências Sociais. Tive de dizer: "Professora, lamento, mas hoje não vai dar. Está acontecendo uma coisa que talvez não vá acontecer nunca mais".

O universitário se interrompe para conferir o celular e fazer um anúncio de forma entusiasmada:

– Meu Deus! Um amigo está vindo com mais 10 pessoas!

FAÇA AQUI OSEU CARTAZ. GRÁTIS

– São Paulo inteira na rua, não é, velho? – comemora um jovem, encontrando o amigo.

Então, exibe os dizeres em seus cartaz:

– O que tu achas?

– Massa! – avalia o outro.

Do lado, já espremida pela multidão, uma manifestante desabafa ao namorado:

– Se eu tivesse cartolina, também escrevia. Acho muito legal o que está acontecendo. Os jovens estavam muito acomodados. Agora, não. Espero que todo mundo que veio aqui esteja pensando em um futuro melhor. Porque tem gente que aparece só para se promover.

O diálogo termina em beijo.

NENHUM PARTIDO ME REPRESENTA

Pouco antes das 18h, horário marcado para o protesto, chegam dois agrupamentos partidários, com suas bandeiras, tentando se inserir no movimento: integrantes do PSTU e do PSOL. Durante toda a noite, terão de suportar o mesmo slogan, entoado pelas milhares de vozes que os cercam:

– Sem partido! Sem partido! Sem partido!

CONSTITUIÇÃO FEDERAL FIFA

Ao lado da Fonte Talavera, uma roda reúne três rapazes e uma garota.

– Não sou contra Copa. Não sou contra nada. Mas do jeito que fizeram... – diz um dos jovens.

– ... é, esse monte de estádios – completa um amigo.

– O problema aqui é que tem muito protesto junto, muita coisa.

– Mas é válido. É um momento histórico. Tem de participar.

– Pois é. Mas a mídia não divulga nada.

– Divulga, sim – contesta a garota.

– Mas o histórico é esse acompanhamento vivo, não-tendencioso, feito pela internet – devolve um manifestante.

– É, a internet – concordam todos.

NÃO FALTAM MOTIVOS PARA PROTESTAR

Pouco depois das 18h, os manifestantes começam a gritar suas palavras de ordem, de frente para o prédio da prefeitura. O coro vem alternadamente de diferentes lados da praça e manifesta os variados pontos de vista ali reunidos:

– Um, dois, três, quatro, cinco mil! Abaixa a passagem ou paramos o Brasil!

– Da Copa eu abro mão! Queremos é dinheiro para saúde e educação!

– Prefeito, elite, o povo te demite!

– O povo, unido, governa sem partido!

QUANDO SEU FILHOFICAR DOENTE...

Por entre os grupos, um rapaz circula, propagandeando com panfletos uma das múltiplas causas da noite. Seu folheto divulga uma caminhada em defesa da queda do presidente da CBF, José Maria Marin, de um novo modelo de campeonato gaúcho e de ingressos mais baratos no Gauchão.

– O presidente da CBF é o cara que está fazendo a Copa. É uma roubalheira. Por isso, estamos convidando para um movimento contra ele – explica, para um trio de garotas adolescentes.

– Minha mãe nem queria que eu estivesse aqui – desculpa-se uma das meninas.

– Bom, estou divulgando para vocês.

– Parabéns – elogia a garota.

Vendo que o diálogo é observado e registrado, o manifestante faz um apelo:

– Só peço que você fale bem da manifestação no jornal. Tem uns caras que exageram, mas a maioria é da paz.

DILMA, PARA QUE TANTO IMPOSTO?

Uma jovem chega, abraça o amigo, e avisa:

– Não vou poder ficar muito. Só vim dar uma passadinha.

O clima geral é de orgulho. Há um sentimento de entusiasmo, de estar em massa na rua para exigir alguma coisa. Muitos pedem para ser fotografados pelos amigos na condição de manifestantes. O rapaz diz à amiga:

– Estava olhando a internet e tinha 240 mil confirmações de presença. E a Dilma não se pronuncia.

– Se ela não se pronunciar, a situação só vai piorar.

– Legal é que aconteceu bem na Copa das Confederações.

– Demais, não é? Dá visibilidade.

NÃO À PEC 37

Às 19h, a massa começa a se mover Borges de Medeiros acima. Uma mulher arrisca sua interpretação:

– Sarney, mensalão. Acho que foi tudo se acumulando.

– É. E esse monte de estádios. Tem de ir para a rua – diz uma amiga.

Ao longa da Borges e da Salgado Filho, a multidão recebe o apoio de quem está nos prédios. Quando atingem um ponto mais alto da Borges ou mais baixo da Salgado Filho e conseguem ver a massa a espraiar-se por centenas de metros, os participantes se emocionam, se abraçam, parecem a ponto de chorar.

– Meus Deus! Tem muita gente.

DE UM LADO ESTE CARNAVAL, DO OUTRO...

Um novo tipo de manifestante começa a ganhar protagonismo quando a marcha ingressa na Avenida João Pessoa. Eles escondem o rosto debaixo de máscara e panos, empunham pedras e pedaços de paus e tomam a dianteira da caminhada. Picham, quebram, incendeiam e explodem, para revolta dos que vêm logo atrás e tentam impedi-los.

As depredações culminam no cruzamento das avenidas Azenha e Ipiranga, onde o punhado de arruaceiros depreda uma revenda de motos, dando origem a uma violenta reação da Brigada Militar, que transformou Porto Alegre em campo de batalha.

– Vandalismo é anti-imperialismo – bradam.

É um momento de desilusão para muitos dos que foram às ruas:

– Aqui o protesto perdeu a razão – diz uma garota.

– Vocês estragaram tudo, seus ignorantes.

As duas têm lágrimas nos olhos.

Fonte: Zero Hora (RS)