terça-feira, 8 de setembro de 2026

Podemos esperar algo das eleições? Por Fernando Gabeira

O Globo

Será preciso reformar o Supremo, a começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos

E essas eleições aí? Nas ruas, já começam a perguntar pelo processo eleitoral e confesso que não tenho resposta fácil. O Brasil anda muito complicado, temos de fazer um esforço permanente para ligar os fios, preencher lacunas, enfim, entender o que se passa.

A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco fez uma palestra interessante no Brasil com o título “Ainda podemos sonhar com outra vida?”. Sinto que as pessoas na rua me fazem precisamente esta pergunta:

— Ainda podemos sonhar com outro país?

Roudinesco faz uma digressão sobre uma famosa ideia popularizada por Gramsci: é preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade. Segundo ela, a inteligência anda junto ao pessimismo porque pressupõe uma distância crítica da realidade para que a gente não se iluda. Parar por aí, porém, pode significar um mergulho na nostalgia, uma recusa a mudar o curso da história.

Todas essas teorias são complexas. No Brasil, às vezes parecem inaplicáveis. A crise é muito profunda, com deputados gastando uma grande parte do Orçamento, ministros do STF associando-se a banqueiros desonestos, escândalos como combustível de campanha.

Ainda assim, precisamos sonhar com outro país. Meus sonhos são modestos. Gostaria de ver o Brasil aproveitando seus recursos naturais de forma sustentável, mantendo sua posição de importante interlocutor ambiental no mundo. Gostaria de ver o país defendendo a paz e a solução dos conflitos pelo diálogo, mas bastante mais preparado para se defender, uma vez que já não se respeitam as leis internacionais.

É preciso completar a transição energética, digitalizar o governo para facilitar a vida de cidadãos e empresas, avançar na educação. Será uma grande felicidade liberar milhões que vivem em áreas ocupadas pelo tráfico ou pela milícia. E também liberar do medo quem caminha pelas cidades.

Não sigo enunciando um programa, pois não sou candidato. É preciso deixar o espaço do outro, para que coloque também seus sonhos na mesa. No fundo mesmo, não acredito numa separação rígida entre inteligência e vontade, razão e emoção.

Sou leitor do neurocientista António Damásio, e ele se ocupa de criticar essa separação. Coração e cabeça andam muito mais próximos do que parece. Mas, para que a gente consiga sonhar com um outro país, será preciso enfrentar esses gargalos.

Não creio que basta punir um juiz que faz acordos milionários com o crime financeiro. Será preciso reformar o tribunal, a começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos ao STF. Isso arruinará a possibilidade de justiça no país. Temos regras descritas na Constituição, mas não as seguimos. A polarização tem sido introjetada no Supremo.

Mesmo com certo desencanto com o processo democrático ao longo desses anos, precisamos insistir nele. Pelo menos, podemos legar algumas pequenas vitórias aos que virão e, quem sabe, o esforço de gerações acabará vingando.

Nenhum comentário: