O Globo
Sete de setembro mostrou o afastamento das
Forças Armadas das eleições, enquanto templos religiosos ainda são usados como
currais eleitorais
Não se ouve mais barulho vindo dos quartéis, ao contrário do que ocorreu nas eleições de 2018 e de 2022. Não é por acaso. Nos últimos quatro anos comandantes militares fizeram um trabalho silencioso, mas determinado, para corrigir a rota na qual Jair Bolsonaro havia colocado as Forças Armadas. Algumas decisões foram públicas, como a de proibir manifestação do pessoal da ativa em redes sociais. Outras foram bem mais discretas e exigiram dos comandantes muitas conversas internas e viagens pelos estabelecimentos militares em todo o Brasil.
Jair Bolsonaro havia feito uma mobilização deliberada para envolver as tropas na disputa eleitoral brasileira. Começou anos antes de sua eleição e foi escancarada durante seu mandato. Oficiais voltaram a participar da disputa de poder no Brasil, depois de terem estado alheios durante todos os outros governos após a redemocratização.
Os acampamentos nas portas dos quartéis não
surgiram por acaso. Foram estimulados por Jair Bolsonaro. Nos anos em que
governou o Brasil, ele dedicou inúmeros fins de semana em visitas nas quais
estimulava as tropas à politização. Por outro lado, insuflava seus seguidores a
pedir coisas como “intervenção militar com Bolsonaro”. O antídoto a esse desvio
institucional tem sido aplicado de 2023 para cá. É um persistente trabalho de
convencimento dos militares de que eles devem ficar longe de disputas
eleitorais e focados na sua missão constitucional.
Mas há problemas concretos apontadas pelos
presos aos atuais comandantes. O ministro Alexandre de
Moraes foi o relator do processo que julgou e condenou
oficiais, entre eles, generais, almirante e coronéis. Eles hoje cumprem pena
nos estabelecimentos militares, como têm direito – o único que está em prisão
domiciliar é o general Augusto
Heleno – e se queixam de que Moraes foi o juiz da condenação e
também é o juiz da execução penal, o que seria um erro processual.
Evidentemente os advogados que defendem os militares presos seguem com
interesse cada vez maior a crise na qual Alexandre de Moraes está envolvido,
buscando brechas para a anulação das condenações.
O silêncio dos militares nos últimos anos
teve o efeito de reduzir os números de quadros das Forças Armadas e das PMs em
disputa eleitoral. Havia muita torcida entre os comandantes para que fosse
aprovada a PEC que obriga o militar a ir para a reserva quando assume um cargo
político ou disputa um mandato eletivo. Hoje ele pode voltar para a ativa caso
perca a eleição. Entre os favoráveis à despartidarização dos militares é
considerada essencial a aprovação desta proposta para criar um cordão
sanitário, que impeça no futuro contaminações como a que houve durante o
governo passado. A PEC permanece parada no Senado.
Neste sete de setembro não houve qualquer
fala convocando as Forças Armadas a escolher um lado político, como era comum
quando Jair Bolsonaro usava a expressão “o meu Exército”. Em Brasília houve o
tradicional desfile e não um ato de campanha. O clima entre Lula e
os chefes das Três Forças é considerado de confiança mútua. O 7 de setembro foi
um teste deste afastamento militar, nem eles foram invocados pelos
bolsonaristas, nem a data cívica foi usada pelo governo com discurso
eleitoreiro.
No entanto, o país continua a ver as cenas
lamentáveis de manipulação da fé dos evangélicos. Neste fim de semana, Flávio
foi incensado numa denominação criada em março de 2026, chefiada por um
influencer que se diz profeta. Em outra igreja, Flávio
Bolsonaro foi ao púlpito e fez um discurso inteiramente
eleitoral apresentado-o como se fosse uma “oração”. Michelle
Bolsonaro fez uma postagem de mãos dadas com André
Mendonça dizendo ter orado três noites para ele fosse aprovado
pelo Senado, quando teria tido uma “visão” da sua aprovação como obra divina. O
próprio André Mendonça não fez qualquer esforço para neutralizar esse
movimento. Ele gravou vídeo, na sexta-feira, agradecendo pelas orações, que
circulou pelas redes bolsonaristas. De novo enfrentamos uma eleição em que há
abuso do poder religioso por parte de líderes evangélicos.
Se os templos continuam sendo usados como
currais eleitorais, é um alívio constatar que, independentemente do que pense
cada militar, e como ele vote como cidadão, já se pode sentir o resultado do
trabalho de afastamento das Forças Armadas da disputa eleitoral no Brasil. Deu
muito errado usar a instituição como um ativo eleitoral da extrema direita.

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