segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O poder, a glória e o dinheiro, por Demétrio Magnoli

O Globo

Brasil tende a idolatrar a figura do juiz-redentor, como se viu antes, nos casos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro

Em seu esforço para decifrar o capitalismo, Karl Marx imaginou que os indivíduos buscam, acima de tudo, o vil metal. Errou, como mostra a História: o que mais almejam é o poder e a glória. A trajetória de Alexandre de Moraes, que entra em seu outono, evidencia os riscos de atribuir prerrogativas excepcionais a um juiz e, também, de cercá-lo de louros excessivos.

Moraes fez carreira profissional como promotor e lançou-se à política como secretário estadual de Segurança Pública em São Paulo. Quando chegou ao STF, confundiu o papel de juiz com o de acusador — e, talvez por isso, foi escolhido arbitrariamente por seu colega Dias Toffoli para a relatoria de um inquérito de exceção.

Era março de 2019, início do quadriênio de turbulência do governo Bolsonaro. O inquérito das fake news, um anômalo ato de ofício do STF, foi inventado para punir uma revista que publicara reportagem associando Toffoli à delação de Marcelo Odebrecht. Seu ato inaugural foi uma ordem ilegal de censura à imprensa.

Ao longo de sete anos, o inquérito desdobrou-se em várias frentes, englobando desde manifestações retóricas e atos públicos de cunho golpista até meras opiniões políticas discutidas em redes sociais privadas. A emergência nacional provocada por um presidente engajado na destruição das instituições democráticas serviu como pano de fundo e justificativa legitimadora das iniciativas judiciais abusivas. Coletivamente, o STF referendou cada uma das decisões de Moraes, conferindo-lhe um poder similar, ou até maior, que o da Presidência da República.

A glória tende a acompanhar, como sombra, o poder exagerado. Num sinal de desconfiança nos representantes eleitos, o Brasil tende a idolatrar a figura do juiz-redentor, como se viu antes, nos casos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro. A esfera lulopetista saltou da qualificação de “fascista”, aplicada a Moraes nos seus tempos de secretário de Alckmin, para a de herói nacional. Mais grave: jornalistas independentes, formadores de opinião pública, perfilaram-se no coro de louvação do juiz-promotor, justificando cada uma de suas exorbitâncias (inclusive as ordens de censura!) em nome da proteção da democracia.

A submissão voluntária a Moraes fabricou até uma narrativa enviesada da resistência ao golpe bolsonarista. Na prática, a trama golpista foi barrada pela maioria legalista do Alto-Comando das Forças Armadas. Contudo, na história conveniente difundida por tantos áulicos, atribuiu-se ao STF — e, especialmente, ao relator do inquérito de exceção — o malogro da conspirata cívico-militar. Tudo por Moraes era a ordem do dia, até outro dia. Nada aprendemos com as aventuras de Moro no pântano da lei da selva?

Marx não errou tanto assim: o dinheiro conta e, no caso de Moraes, acendeu o pavio do incêndio. A família do juiz, coligada por uma holding, enriqueceu em poucos anos, graças ao contrato fabuloso firmado pelo escritório de advocacia com o Master. Mensagens enviadas por Vorcaro ao juiz nas horas anteriores à prisão do escroque sugerem perigosa conivência. Diz-se que o poder em excesso corrompe excessivamente.

As arbitrariedades do inquérito passaram, num país que tende a ignorar abusos dos poderosos, mas a suspeita do pacto com o bandido implodiu o mito. O STF vendou seus próprios olhos, até a eclosão pública do escândalo. Fachin só resolveu agir quando um precipício abriu-se sob seus pés. Mesmo assim, uma ala dos ministros rejeita investigações, quase declarando explicitamente que a lei só vale para a plebe.

A história de poder, glória e dinheiro já terminou. Antes do posfácio que será escrito na sessão do STF de deliberação sobre investigações, deixa um rastro de ruínas. Os juízes supremos dividem-se em blocos antagônicos, alinhando-se às candidaturas de Lula ou Flávio e convertendo as leis em ferramentas de represálias mútuas. Para júbilo dos Bolsonaros, que tentam esculpir um novo herói na figura de André Mendonça, envenenou-se a credibilidade do julgamento do núcleo golpista e destruiu-se a autoridade moral da Corte suprema. O preço da delinquência dos juízes de capa preta recai sobre todos nós.

 

3 comentários:

Anônimo disse...

Sem o apoio ver mente da imprensa ao ministro Alexandre de Moraes nos seus mais variados atos anti constitucionais criminosos por consequência, não seria possível para o togado conseguir durante sete anos se impor enquanto um juiz autoritário e fora da lei que virou comandante do STF temido por todos
Todo o julgamento do 8/1 vai ser despido e vai se constatar que foi uma grande farsa montada por esse j Falso juiz que o jornalista português Sérgio Tavares muito bem qualificou de psicopata , ele jogou na cadeia sem o devido processo legal centenas de pessoas Inocentes , velhos , mães , doentes , até uma morte Aconteceu na prisão Devido ao perfil perverso e ditatorial do juiz impediu do Cleber de ser tratado em hospital e acabou morrendo naquela cela da masmorra do Moraes
A imprensa fechava os olhos , Felipe Martins foi preso acusado de uma viagem que nunca fez e hoje está provado que a entrada dele foi forjada nos Estados Unidos que está investigando os culpados
Aplausos da imprensa , o homem sendo tratado como muralha defensora da democracia
O monstro cresceu e se mostrou um ditador ordinário ávido por poder fama e milhões de reais
Ou ele é retirado o STF vai morrer num abraço de afogado com o corrupto

Anônimo disse...

O velho espírito brasileiro de passar a mão na cabeça de bandido esse comentário anterior. Demétrius sempre impecável! Quem foi ao 8/1 sabia por que estava indo. Eles, assim como Moraes, devem responder por suas escolhas. O vigarista Daniel Vorcaro não tinha couro grosso suficiente para encarar a galera profissional de Brasília. Pagou uma fortuna por um serviço que não recebeu. Ou ninguém tá sabendo que Vorcaro está preso?

Anônimo disse...

Excelente opinião, além de ser um notável jornalista é também um psicólogo em plena formação, a que eu dou o nome. de “ GÊNIO”