terça-feira, 29 de setembro de 2009

Taxação da poupança pode ser engavetada

Martha Beck e Cristiane JungblutBrasília
DEU EM O GLOBO

A oposição e os aliados - sobretudo o PMDB - já avisaram ao governo que dificilmente o projeto para taxar cadernetas em 22,5% passará no Congresso. A pressão é por engavetar o texto.

Queda de braço na caderneta

Oposição e base aliada pressionam para governo desistir de projeto que cria IR da poupança

A proposta de tributação da caderneta de poupança virou uma verdadeira batata quente entre governo e Congresso. Enquanto a equipe econômica quer enviar aos parlamentares o projeto que institui a cobrança de 22,5% de Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos dos depósitos acima de R$ 50 mil a partir de 2010, a própria base governista pressiona o ministro da Fazenda, Guido Mantega, para que ele seja engavetado ou, pelo menos, alterado. O motivo seria o risco de a tributação da caderneta — assunto extremamente impopular — atrapalhar a tramitação dos projetos relativos ao marco regulatório do pré-sal e dar munição para ataques da oposição ao governo às vésperas do ano eleitoral. O PMDB (principal partido da base) já avisou não há clima para a votação e que, hoje, votaria contra a proposta.

Os técnicos do governo acham que é importante discutir o assunto no Congresso. Por ser polêmico, o tema precisa ser debatido entre os parlamentares de forma que se chegue a uma proposta palatável tanto para a base governista quanto para a oposição. O aviso dos aliados chegou na semana passada ao próprio Mantega, por meio do líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS). Ele explicou que havia resistências e que de nada adiantaria mandar a proposta à casa com Mantega no exterior (o ministro estava nos EUA para a reunião do G-20), sem poder defendê-la.

Os técnicos do governo sempre souberam das resistências à taxação da poupança. O problema é que a redução contínua da taxa básica, a Selic, tem impacto direto sobre o rendimento da caderneta, tornando-a mais atraente que outros investimentos, já que tem garantidos por lei a correção pela Taxa Referencial (TR) mais juros de 0,5% ao mês. O rendimento dos fundos, por sua vez, cai junto com a Selic, já que são compostos por títulos do governo, corrigidos pela taxa.
Atualmente, a caderneta é isenta de IR, enquanto os fundos pagam entre 22,5% e 15% de IR, dependendo do prazo da aplicação. A ideia do governo é evitar uma fuga de grandes investidores para a poupança, o que desequilibraria o mercado. O risco poderia, inclusive, ser um entrave a uma queda maior da taxa básica.

O líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), disse que hoje a bancada do partido é contra a taxação e que não há argumentos atuais que mostrem que houve fuga de ativos dos fundos para a poupança.

— O PMDB não está convencido da necessidade da medida. O sentimento é de o governo nem sequer enviar a proposta. Se não houver argumento, sem dados de convencimento, o PMDB vota contra — disse Alves.

Opção seria adotar percentual da taxa básica

Mexer na remuneração da caderneta também é sensível politicamente, mas pode acabar sendo uma alternativa porque empurra o problema para frente. Várias simulações já foram feitas pelos técnicos do governo e podem acabar voltando à pauta. Uma delas seria manter a correção da caderneta em TR mais 0,5% ao mês caso a Selic fique acima de 8,75% ao ano. Caso ela fique abaixo desse patamar, a remuneração acompanharia a taxa, ficando em torno de 80% da Selic. Se adotada, a medida não chegaria ter impacto em 2010 — pois o mercado financeiro projeta juros mais altos no ano que vem. Outra opção é simplesmente reduzir a tributação dos fundos para que eles se tornem mais atraentes que a poupança e, com isso, não haja migração.

Os próprios parlamentares já apresentam propostas alternativas. O senador Francisco Dornelles (PPB-RJ) defende que o governo mexa na tributação dos fundos de renda fixa, mas diz que, se optar por tributar a caderneta, deve fazer duas coisas: fazer com que ela valha apenas para novos depósitos e aumentar para R$ 100 mil, por exemplo, a faixa de isenção. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), também já disse que deverá apoiar a taxação da poupança, mas só daquelas com valores acima de R$ 100 mil.

Outros aliados, inclusive o vice-líder do governo no Congresso, Gilmar Machado (PT-MG), têm se manifestado contra a proposta. Lembram ainda que outras negociações de Mantega fracassaram e mostram irritação com fórmulas da equipe técnica, sem avaliação do impacto político. Já a oposição diz que taxar seria mexer no princípio de proteção da poupança e que nada garante que no futuro o governo não resolverá taxar valores abaixo de R$ 50 mil.

O líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (SP), disse ontem que a questão da poupança tem que ser discutida com calma. Para ele, não há pressa para tratar do assunto, numa sinalização de resistência, inclusive, entre petistas.

Colaborou: Adriana Vasconcelos

Chávez em foco

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A interferência explícita do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na crise institucional que se abate sobre Honduras, pode influir na decisão da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado que, nesta quinta-feira, examina o convite feito pelo Brasil para a Venezuela entrar no Mercosul.

O relatório do senador Tasso Jereissati está previsto para ser entregue hoje à Comissão de Relações Exteriores.

Se a crise em Honduras já tinha tudo para se misturar com a questão do Mercosul - dada a posição de tutor do presidente deposto, Manuel Zelaya, assumida por Chávez -, essa hipótese torna-se agora mais provável porque o presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo, resolveu fazer uma reunião extraordinária para discutir os acontecimentos em Tegucigalpa, em especial a situação do Brasil como hospedeiro de Zelaya.

"Tranquilo" até a semana passada, confiante na condução do Itamaraty, o senador Eduardo Azeredo mudou de posição.

Por causa do agravamento da situação em si - ameaças de invasão da embaixada brasileira, ultimato por parte do governo de facto, decretação de estado de sítio por 45 dias, posição dos EUA considerando a volta do deposto um ato de irresponsabilidade, transformação da representação do Brasil em "bunker" sob administração de Zelaya - e das conversas que vem tendo nos últimos dias com especialistas no tema e embaixadores veteranos.

"Inicialmente, a comunidade internacional condenou a deposição de Manuel Zelaya e se solidarizou com ele. Pouco a pouco, porém, a história foi ficando mais clara e agora já não permite alinhamentos automáticos, pois há erros graves dos dois lados: se a expulsão do país foi uma quartelada, a ação anterior do presidente quebrou a regra constitucional e desrespeitou decisões do Judiciário e do Legislativo. Agora, um problema que caberia à OEA resolver está nas mãos do Brasil", diz Azeredo.

Nesse quadro, reconhece, não há como o Congresso ficar omisso. Ele não aprova integralmente a decisão da Câmara de mandar uma comissão de deputados a Honduras. Acha que cabe ao Senado um papel preponderante, mas equidistante.

Hoje ele chega a Brasília já com a missão de convocar os líderes partidários e tentar construir um consenso sobre a forma de atuação do Parlamento. "Não podemos ficar só na base do ataque, na oposição, e da defesa, por parte da base de apoio governista, é preciso abordar o assunto com independência e competência."

Grosso modo, o quadro, a contar pelas posições da semana passada, seria o seguinte: o DEM absolutamente contrário à ação do governo, o PT completamente a favor e o PSDB nem lá nem cá.

Padrão

A condescendência do Brasil com países de regimes de força, cuja "soberania" para matar, torturar, cassar, fraudar e calar é plenamente aceita, anula a credibilidade dos ataques do presidente Luiz Inácio da Silva a "usurpadores do poder" e esvazia suas posições em defesa da democracia no mundo em geral, particularmente agora, em Honduras, onde Roberto Micheletti assume sua face mais autoritária.

Governo que reconhece a China como economia de mercado e pede o fim do embargo norte-americano a Cuba sem impor um reparo sequer ao fato de serem, ambos, ditaduras, abre mão das credenciais para cobrar respeito à democracia ou a opinar nos acontecimentos hondurenhos nos termos em que Lula vem fazendo.

Como chefe de governo e de Estado, o presidente dispõe de prerrogativas constitucionais para decidir. Inclusive decidir expor o Brasil ao constrangimento que achar mais conveniente aos seus projetos.

Só não pode é querer ter razão nem que os outros o vejam como ele se vê: dono da sorte e da verdade do universo. Quando Lula desafia as pessoas a cotejarem a palavra dele com a de um "golpista", se esquece de que, como presidente, jamais tomou o cuidado de firmar compromisso pétreo com a palavra dita a respeito de qualquer assunto interno.

Donde subtraiu a si autoridade para cobrar confiabilidade na palavra do presidente.

Coisa e outra

A ministra Dilma Rousseff acerta quando, ao se defender da fama de mal-humorada porque assume as posições sem tergiversar, aponta a falta de assertividade na maioria dos homens públicos.

Erra, porém, quando supõe que a firmeza justifique a falta de educação. Notadamente quando se dá "para baixo". Quem vê a ministra da Casa Civil com o presidente Lula vê outra mulher. Solícita e sorridente. Meiga, até.

Firme e forte

O senador Antonio Carlos Valadares, citado domingo como alvo do lobby em prol de José Antonio Toffoli, informa que não sofre pressão para mudar seu voto, até porque é favorável à indicação do advogado-geral da União para o Supremo Tribunal Federal.

Aliados estranhos

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O presidente Lula joga suas fichas numa proposta jamais testada, a da transferência de votos na área federal. Desde a redemocratização brasileira, os presidentes nem tentaram transferir votos. Mas essa não é a única coisa estranha dessa campanha. O governador José Serra que está há meses à frente nas pesquisas é do único partido que tem mais de um pré-candidato.

Quem transferiu votos numa campanha presidencial? Em 1989, o então presidente José Sarney nem tentou ter candidato. Era tão impopular que todos eram oposição. Em 1994, o então presidente Itamar Franco mal entrou na campanha.

O Plano Real foi o eleitor principal. Em 2002, o ex-presidente Fernando Henrique e o candidato José Serra mantiveram distância, até porque Serra achava que muita proximidade o prejudicaria. De qualquer maneira, com apoio ou sem, ele perdeu. Nem Juscelino fez o sucessor.


Pode-se dizer que ninguém chegou a doze meses das eleições com um índice de aprovação tão alto quanto o presidente Lula. Mesmo assim, a transferência de votos numa eleição é um dos fenômenos mais difíceis de entender, e no âmbito federal não houve desde a redemocratização.

Nossa democracia teve, na atual fase, apenas cinco eleições presidenciais. A que ocorrerá daqui a um ano será a sexta.

Nos governos estaduais e municipais tem havido casos de um governante eleger um sucessor com pouca ou nenhuma experiência nas urnas. Orestes Quércia elegeu Luiz Antônio Fleury, Cesar Maia elegeu Luiz Paulo Conde. Em geral, o escolhido frustra a expectativa do padrinho. Portanto, se Lula pensa em eleger o sucessor numa espécie de mandato tampão para voltar em 2014 entra em outra empreitada arriscada. O presidente Hugo Chávez interpreta que, com Dilma, Lula vai sair sem sair do governo, como fez o presidente Néstor Kirchner.

Dos presidentes desde a democratização, Lula é o único que decidiu se empenhar para fazer o sucessor, a tal ponto que escolheu a candidata Dilma Rousseff sozinho, armou palanque muito antes da hora e tem transformado qualquer evento governamental, do PAC ao pré-sal, numa oportunidade para promovê-la. Lula tem feito campanha extemporânea e usado de forma explícita a máquina pública para fins eleitorais, mas a Justiça Eleitoral não parece se incomodar com nada disso.

Ontem, na posse do novo ministro das Relações Institucionais, Lula defendeu a distribuição de cargos para “unir a base”.

A base do palanque, claro.

O novo ministro começou mal: esqueceu de citar Dilma.

Levou bronca.

A conhecida obsessão do presidente de transformar a eleição num plebiscito entre seu governo e o governo anterior é uma ideia também estranha. Primeiro porque o eleitor médio não tem essa memória e nem está preocupado com esse Fla-Flu; segundo porque ele manteve a política econômica do governo anterior e também várias ideias e projetos da área social; terceiro porque o Brasil tem mais o que fazer do que discutir o passado.

O PSDB criou outra esquisitice da campanha. É o primeiro em todas as pesquisas de opinião — quando o candidato é José Serra —, mas é o único partido que mantém a indefinição sobre quem será o candidato.

Até Marina Silva que foi a última a entrar na précorrida já se define como a “pré-candidata prioritária do Partido Verde”, onde ninguém apareceu para rivalizar com ela. Também não há segundo no PSB para brigar com o deputado Ciro Gomes e nem mesmo no PT, que aceitou a imposição do nome da candidata pelo presidente Lula.

Ideias fora de propósito circulam insufladas pelos assessores presidenciais, ou por livre associação de ideias sem base. Uma que ocupou bastante espaço foi a de que o deputado Ciro Gomes iria, com a ajuda de um GPS, disputar o governo de São Paulo. Por que o deputado faria isso se essa é sua melhor chance numa disputa presidencial? Com recall de outras campanhas, com mais experiência, diante de uma candidata governista inexperiente, com a informação dada pelo eleitor de que não quer fazer um plebiscito, por que ele não atenderia à sua conhecida e legítima ambição de tentar ser presidente? Outra ideia que circula é de que ele é o Plano B do presidente Lula.

Será que o PT aceitaria apoiar um candidato que não fosse do próprio PT? Quando foi que o partido fez isso? Ciro Gomes com declarações fortes contra a aliança entre PT e PMDB neste fim de semana já mostrou que está buscando espaço no meio. Longe de José Serra, que ele acusa de “feio por dentro e por fora”, e da aliança PT-PMDB que ele condena por ser “moral e intelectualmente frouxa”.

Marina Silva tem mais chances do que vários analistas consideraram num primeiro momento. Mas ainda não está claro como o PV pretende superar suas fragilidades: pouco tempo de TV, pouca capilaridade partidária, falta de estrutura para uma campanha presidencial. É bem verdade que o Brasil é tão estranho que o partido com mais tempo de TV e mais capilaridade em todo o território nacional é o PMDB, que não tem candidato à presidência e se divide sobre quem apoiar.

Dividido, o PMDB sempre esteve sobre qualquer assunto, em qualquer votação, em qualquer campanha.

O presidente Lula trabalha para tornar viável a aliança com o PT. Os dois partidos são adversários em vários estados e para ilustrar o clima de entendimento entre eles basta lembrar a natureza exótica da ameaça feita pelo governador do Mato Grosso do Sul, do PMDB, ao ministro Carlos Minc, do PT. Falta muito tempo para eleição, é a temporada das esquisitices.

Com Bruno Villas Bôas

A ponte ruiu

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O Brasil perdeu totalmente as condições de exercer uma de suas especialidades na solução da crise em Honduras: a capacidade de liderança e de mediação.

Ao meter os pés, as mãos e a embaixada em Tegucigalpa na defesa apaixonada de um dos lados, o do presidente deposto, Manuel Zelaya, o governo Lula se colocou num duelo com o presidente golpista, Roberto Micheletti -que, ao mesmo tempo, recusa sistematicamente a participação da OEA (Organização dos Estados Americanos).

Chegou-se assim ao pior dos mundos: Micheletti radicaliza de um lado, Zelaya radicaliza de outro.

Um decreta estado de sítio, põe as tropas na rua, determina a invasão a uma TV e a uma rádio, insiste numa eleição ilegítima desde a origem. O outro usa a embaixada brasileira como "bunker" para instigar a desobediência civil no país. O que cheira a sangue.

Não há, à vista, nenhum escudo ou ponte entre esses dois malucos perigosos. O Brasil se inviabilizou. A OEA é rechaçada por Micheletti.

A ONU limitou-se à de defesa da "extraterritorialidade" e, portanto, da embaixada do Brasil. Os EUA, dúbios estavam, dúbios continuam. Chávez gosta de botar fogo, não de apagar incêndios.

Enfim, a situação é dramática, com o risco real, nada fictício, de que Micheletti continue se deslumbrando no papel de típico golpista bananeiro e acabe por invadir a embaixada brasileira. E que leve o país a uma guerra civil. Isso tudo é improvável, mas não impossível.

Marco Aurélio Garcia, assessor internacional de Lula, tem razão ao dizer que: 1) o Brasil não se meteu, mas sim foi metido nessa enrascada; 2) não havia alternativa se não acolher Zelaya na embaixada.

Mas o Brasil cometeu um grande erro: entrar na linha de frente contra Micheletti. Antes, hospedava um presidente deposto por um golpe militar. Agora, hospeda uma bomba pronta a explodir.

Pede para sair, Zelaya

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Se eu fosse do governo brasileiro, chamaria o capitão Nascimento, o personagem desse excelente ator que é Wagner Moura em "Tropa de Elite", para dizer "pede para sair, Zelaya".

É a única solução para acabar com o esculacho na missão em Tegucigalpa.Tudo bem condenar o golpe contra Manuel Zelaya em Honduras. Tudo bem também com a concessão pela embaixada brasileira de abrigo, hospedagem ou como se queira chamar, ao presidente vítima de um golpe mal disfarçado em ato constitucional.

Mas é demais deixar que o hóspede vire dono da casa, como está demonstrado nos textos desse brilhante repórter chamado Fabiano Maisonnave. Pior ainda é deixar que Zelaya faça, de território brasileiro, convocações para a resistência, o que não viola apenas as normas que caracterizam o asilo (pode não ser tecnicamente asilo o status de Zelaya, mas equivale a ele e o seu comportamento, por extensão, também tem que ser equivalente).

Viola acima de tudo a obrigação de qualquer líder político decente de proteger os seus. É covarde e indecente convocar manifestações refugiado na embaixada brasileira, sabendo que quem ouvir o chamado corre risco até de vida. Um líder político decente tampouco se cerca de ladrões -de celulares e até de toalhas-, como os que se "hospedaram" na embaixada.

Aliás, gente decente não constrange os anfitriões levando uma penca de "convidados" para a casa que lhe abriu as portas.

Zelaya continua sendo o presidente legítimo de Honduras, até porque não consta que a Constituição hondurenha -ou qualquer outra- inclua decência entre as qualidades para ser presidente.

Mas fica a cada dia mais claro que não há no drama hondurenho, agora transformado em ópera-bufa, um só personagem que pessoas decentes gostariam de convidar para o aniversário dos filhos.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Oposição terá batalha dura em 2010, diz Serra

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), afirmou ontem à noite que a oposição ao governo Lula deve se preparar para uma "batalha dura" em 2010. "Não será uma batalha tranquila, vai ser uma batalha dura, difícil, mas nós vamos enfrentá-la", disse Serra, sem, no entanto, assumir que é pré-candidato à Presidência.

O tucano participou do evento de filiação ao PSDB do ex-prefeito de São Bernardo do Campo (SP), William Dib, que deixou o PSB -uma espécie de "troco" pela ida do vereador paulistano Gabriel Chalita para o partido de Ciro Gomes.

Mais cedo, ao discursar na entrega de uma escola técnica em Heliópolis, Serra disse que precisa melhorar ainda mais a divulgação de suas ações. Neste ano, a verba para publicidade oficial do Estado cresceu 43% em relação ao ano passado.

"Antigamente, tinha muito discurso e pouca ação. Hoje, talvez a gente tenha pouco discurso e muita ação", disse, após enumerar obras para a região.

No mês passado, conforme a Folha revelou, o governo Serra iniciou a distribuição de um "boletim mensal" para 52 municípios no Estado divulgando obras e projetos da administração estadual. São 2,3 milhões de exemplares, ao custo anual de R$ 8,2 milhões. A verba publicitária de Serra neste ano é de R$ 227 milhões.

"Acho que tem que intensificar a divulgação. Não se trata de inventar nada. É dizer aquilo que está sendo feito", disse.

Serra aproveitou para fazer críticas indiretas aos seus ex-adversários petistas, sem citar nomes. Primeiro, foi a ex-prefeita Marta Suplicy, sua adversária em 2004. "Quando fui eleito, achei que Heliópolis era um canteiro de obras, pelo que falava na propaganda. Quando cheguei aqui, não tinha nada".

Antes disso, brincou fazendo plágio dos discursos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Como diriam os políticos exagerados: "[vamos] fazer tantas quantas foram feitas desde a época do Descobrimento [risos]", disse, ao citar a ordem de dobrar de 26 para 52 o número de escolas técnicas do Estado.

Em pré-campanha, Aécio vai passar 27 dias fora de Minas até novembro

DEU EM O GLOBO

Hoje, governador recebe Zito, que pode ser o candidato do PSDB no Rio

BELO HORIZONTE. Até novembro, o governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência, Aécio Neves (PSDB), deve ficar 27 dias fora do cargo.

O tucano sai hoje do cenário político para uma viagem de 12 dias aos Estados Unidos, à Itália e aos Emirados Árabes, para representar o estado em eventos ambiental e de busca de investimentos em Minas.

A expectativa é a de que ele esteja de volta ao Palácio da Liberdade no próximo dia 11.

Em seguida, deverá se licenciar por mais 15 dias para se dedicar a seu projeto eleitoral, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

Desde março, Aécio esteve 17 dias fora de Minas. Com a viagem ao exterior, serão 29.

Confirmada a licença, a temporada somará 44 dias em oito meses. A rodada de viagens, que deve incluir Amazonas e Pará, é tida como uma das últimas cartadas do mineiro antes da escolha do candidato do partido ao Palácio do Planalto, em dezembro. Durante as ausências, assumirá o vice, Antônio Augusto Anastasia (PSDB), pré-candidato ao governo de Minas.

Um dos últimos compromissos, hoje, é encontro com o prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito dos Santos (PSDB), que busca apoios à sua pré-candidatura ao governo do Rio.

Tucanos defendem uma aliança com Fernando Gabeira (PV) na cabeça de chapa, mas Zito resolveu se lançar como alternativa depois da filiação de Marina Silva ao PV.

FH rejeita chapa 'puro-sangue' do PSDB em 2010

Letícia Lins
DEU EM O GLOBO


Ex-presidente ressalta que partido já tem aliança com DEM e PPS e critica Lula por lançar Dilma de "forma precipitada"

RECIFE. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso rejeitou ontem a formação de uma chapa “puro-sangue” do PSDB para disputar a sucessão presidencial em 2010. Os tucanos têm dois pré-candidatos que disputam a indicação, os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves. Nos bastidores do partido, há a informação de que Aécio poderia ser vice de Serra, o que o mineiro nega.

— Dentro do PSDB, estamos unidos. Com o DEM, já estamos.

Com o PPS, também. Temos, ainda, fragmentos do PMDB. Mas a nós não interessa uma política à base de alianças moral e intelectualmente frouxa, para repetir uma expressão usada por um aliado do presidente Lula — disse Fernando Henrique, que foi a Recife para prestigiar o lançamento do livro “Política das ideias”, do senador Marco Antônio Maciel (DEM-PE), que foi seu vice-presidente.

FH diz que Serra e Aécio não agem como candidatos

Fernando Henrique também criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e disse que seu sucessor errou ao lançar, de forma “precipitada”, o nome da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à sucessão presidencial: — Foi um erro estratégico.

Não é preciso definir logo o candidato. Ele precipitou isso.

Saiu logo com a candidata dele.

O que aconteceu? Ela não está crescendo, até caiu. Por que vamos arriscar? (lançando um nome). Pode até haver outras razões que desconheço para que ele tenha precipitado a sucessão. Acho que esse não é ainda o momento de falar nisso, mas de trabalhar pelo Brasil — afirmou.

Para Fernando Henrique, os governadores de São Paulo e de Minas Gerais não agem como candidatos ao percorrerem o país: — Isso é normal, mas ainda não é hora de assumir. Pela lei, ninguém pode fazer campanha ainda. Eles estão apenas medindo a popularidade.

Fernando Henrique afirmou que o PSDB não vai precisar articular discurso para desmontar o governo do presidente Lula na campanha de 2010.

— Nem sei se isso vai ser necessário.

Acho que ninguém ganha eleição desmontando outra.

Eleição se ganha olhando para a frente e não para trás.

Serra: 'Tenho mais o que fazer'

DEU EM O GLOBO

Em resposta a Ciro, governador diz que não baixará nível

SÃO PAULO. Ao responder às críticas do deputado federal Ciro Gomes (PSB), pré-candidato à Presidência, que disse na última sextafeira considerá-lo “mais feio na alma do que no rosto”, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), afirmou ontem que não pretende baixar o nível do debate político no país. Também pré-candidato à Presidência, Serra argumentou ter mais o que fazer e que não responderia a Ciro. Disse não acreditar no risco de uma campanha marcada por ataques pessoais na disputa pelo Palácio do Planalto no ano que vem: — Comigo não tem esse risco porque não entro no (debate de) baixo nível. Tenho mais o que fazer, que é trabalhar para corresponder à expectativa de pessoas que me elegeram governador — disse Serra, durante a inauguração de uma escola técnica na favela de Heliópolis, na capital paulista.

Serra procurou ser diplomático também em relação às críticas feitas pelo vereador Gabriel Chalita, que deixou o PSDB após 20 anos no partido para ingressar no PSB. Em entrevistas a jornais paulistas, no último fim de semana, o vereador criticou a política de educação em São Paulo. Chalita foi secretário estadual de Educação na gestão de outro tucano, Geraldo Alckmin. Indagado sobre as declarações do ex-correligionário, Serra foi lacônico: — Tô nem aí — afirmou o governador.

Serra faz crítica indireta a Lula

Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Governador referiu-se ao presidente como "político exagerado" durante evento na capital paulista

Ao entregar a 40ª escola técnica da sua gestão com evento em uma das maiores favelas de São Paulo, o governador José Serra (PSDB) referiu-se indiretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um "político exagerado". A crítica, velada, foi feita enquanto o tucano comentava o plano de expansão de faculdades de tecnologias no Estado. "Quando o (Geraldo) Alckmin foi governador tinham nove Fatecs, ele deixou 26. Eu propus dobrar para 52. Como diriam políticos exagerados, fazer tantas quantas foram feitas desde a época do descobrimento", disse o governador ontem, arrancando risos do público.

A expressão "nunca antes desde o descobrimento do Brasil" é usada com frequência por Lula para exaltar suas realizações. "Nunca, desde o descobrimento do Brasil, se fez tanto pelo Nordeste brasileiro como no meu governo", afirmou o presidente numa dessas ocasiões.

Em entrevista, Serra não negou nem confirmou que estivesse falando de Lula. "Não, especificamente. Mais de um político falou isso", desconversou.

Provável candidato do PSDB à Presidência, Serra mostrou preocupação com a divulgação das ações do governo. Ele cobrou de sua equipe - estendendo o recado à Prefeitura de São Paulo - mais publicidade das obras no Estado. "Na prefeitura e no Estado é muito difícil levantar aquilo que está sendo feito. Tem um fenômeno psicológico qualquer que o pessoal resiste teimosamente em contar o que está fazendo", ironizou.

"O córrego do Sacomã eu não sabia que havia sido canalizado. Tem que intensificar a divulgação. Não se trata de inventar. É dizer aquilo que está sendo feito para que as pessoas saibam", prosseguiu. Serra estava acompanhado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e o secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, na inauguração em Heliópolis - escolas técnicas são vitrines do governo tucano.

A avaliação do tucanato é de que o PSDB ficou muito atrás do PT na divulgação de ações. O próprio Serra já manifestou em público o reconhecimento de que os adversários são melhores na hora de capitalizar politicamente suas realizações.

"Quando fui eleito prefeito, achei que Heliópolis era um canteiro de obras pelo que se falava na propaganda. Cheguei aqui e não tinha nada. Agora, não vou exagerar dizendo que é um canteiro de obras, mas mudou bastante", cutucou Serra, referindo-se à gestão da petista Marta Suplicy na prefeitura paulistana. "Antigamente tinha muito discurso e pouca ação. Hoje talvez a gente tenha pouco discurso e muita ação", emendou.

Serra pediu a uma líder comunitária que leve famílias para conhecer a obra. "Cleide, vale a pena trazer o povo de Heliópolis para ver a escola. Não apenas os estudantes, mas as famílias, mesmo quem tenha filho pequeno. Seria muito interessante."

Ele reagiu a declarações do deputado e pré-candidato do PSB à Presidência, Ciro Gomes (CE). "Comigo não tem risco, porque não entro no baixo nível", disse Serra. "Isso toma tempo e tenho mais o que fazer, que é trabalhar para corresponder a expectativa da população."

Na sexta-feira, Ciro, em discurso a sindicalistas em São Paulo, disse que o governador era "feio para caramba, mais na alma que no rosto". E, depois, acusou Serra de ter "atitude destrutiva" com rivais. "A conduta dele é feia, de não enfrentar o adversário com linguagem civilizada. No meu caso é uma coisa terrível, até minha conta-salário ele conseguiu que um juiz de São Paulo bloqueasse." O deputado foi condenado a pagar indenização de cem salários mínimos por ter chamado Serra de "candidato dos grandes negócios e negociatas".

Ambos são inimigos declarados.

Serra adotou o mesmo tom de desprezo ao se referir ao vereador Gabriel Chalita, que se desligou do PSDB e oficializa hoje a filiação ao partido de Ciro. No sábado, em entrevista ao Estado, Chalita criticou a gestão Serra na educação, área que o vereador chefiou no governo Geraldo Alckmin, e apontou o tucano como responsável por sua saída do PSDB. "Não estou nem aí", disse Serra, a respeito das críticas.

PPS em o Globo

Panorama Político :: Ilimar Franco
DEU EM O GLOBO


“O PPS orgulha-se da filiação do homem em cujo governo foi criado o Real”Programa nacional em rede de TV do PPS, em referência ao ex-presidente Itamar Franco

PV adia decisão sobre candidatura

Ricardo Villa Verde, Rio De Janeiro
DEU EM O DIA

Medida foi anunciada por Sirkis e Marina Silva, apesar das pressões de partidos sobre Gabeira

Rio - O PV vai deixar para o ano que vem a definição sobre a candidatura do deputado federal Fernando Gabeira a governador. Segundo o vereador Alfredo Sirkis, presidente regional do PV, Gabeira só vai decidir se será candidato em maio ou junho de 2010, apesar do PSDB, DEM e PPS, que querem se coligar com o PV, estarem pressionando o político para se decidir agora.

Segundo Sirkis, havia “uma ansiedade do PSDB” para que Gabeira se decidisse até amanhã, mas o PV vai aguardar. “Qualquer decisão agora poderia não durar. Ainda não temos dados necessários para tomar qualquer decisão em relação a coligações e alianças”, justificou Sirkis, durante entrega do título de cidadã carioca honorária à senadora Marina Silva (AC), pré- candidata do PV a presidente.

Sirkis e Marina criticaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela antecipação da campanha de 2010. “Não é correto que a gente antecipe a disputa eleitoral e a eleição de uma forma tão precoce”, disse Marina.

O presidente do Diretório Municipal do PSDB, deputado Luiz Paulo, negou pressão sobre Gabeira. Segundo ele, o PSDB vai aguardar decisão do prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito, sobre a possibilidade dele concorrer a governador.

Lindberg insistirá em candidatura ao governo

Ana Paula Grabois, do Rio
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT), vai insistir na candidatura ao governo do Estado do Rio em 2010. O ex-líder estudantil não mede esforços para driblar a resistência do governador Sérgio Cabral (PMDB) à candidatura petista. Aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Cabral é candidato à reeleição e tenta evitar a entrada de Lindberg na disputa.

O atual governador teria até pedido a interferência do presidente para convencer Lindberg a desistir da ideia. "Ele deveria ficar cuidando do pré-sal, não de mim. Já tomei a decisão. Lula não me chamou para conversar. Se chamar, vou dizer que não dá para abrir mão da candidatura", afirmou Lindberg.

Sua candidatura vai depender principalmente da escolha dos delegados estaduais do partido pelos filiados petistas no fim de novembro. Os delegados votarão em dezembro para presidente regional do partido. Dos três candidatos a presidente, apenas um, o deputado federal Luiz Sérgio, é contra a candidatura própria do PT ao governo do Estado e a favor da aliança com Cabral no primeiro turno. Parte do PT do Rio está fechado com Cabral e possui cargos no governo estadual, como a secretária de Assistência Social e Direitos Humanos, a ex-senadora Benedita da Silva. Lindberg, no entanto, contabiliza apoio de cerca de 60% dos filiados que devem escolher os delegados.

Ao defender a candidatura petista, ele argumenta que o presidente Lula já aceitou palanques múltiplos de partidos da base governista. Cita a Bahia, onde o atual governador, Jaques Wagner (PT), vai tentar a reeleição disputando com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB). "Palanque único é bom para Cabral, mas é péssimo para a Dilma. Quem tem problema no Rio é o Serra. Dilma tem três: eu, Cabral e Garotinho", disse. Avalia ainda que Cabral pode não se firmar como candidato de Dilma. "Nas pesquisas, o Rio é um dos piores lugares para a Dilma. Se Cabral quiser, em defesa do Rio, ele se afasta da candidatura Dilma", aposta.

O prefeito de Nova Iguaçu prevê que a disputa ao governo do Rio vai se dar entre Cabral, o ex-governador Anthony Garotinho (PR) e o ex-prefeito Cesar Maia (DEM). Garotinho já anunciou que apoiará Dilma para presidente. Cesar Maia deve ser a opção de palanque para o candidato tucano à Presidência na coligação estadual PSDB-PV-PPS-DEM. A provável candidatura do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) tende a não se consolidar, diz. "Gabeira deve concorrer ao Senado."

O prefeito de Nova Iguaçu diz contar ainda com o apoio do PDT do Rio. "A experiência de termos todas as escolas municipais de Nova Iguaçu em tempo integral é um atrativo para os pedetistas", afirmou. Diz já ter conversado com o senador Marcelo Crivella (PRB) para uma possível aliança no primeiro turno. Crivella, da base aliada de Lula, poderia escolher Lindberg e não apoiar Cabral nem Garotinho no primeiro turno.

Neste cenário, Lindberg vê mais espaço para aparecer como um candidato diferente aos olhos do eleitor. "Vai haver uma pancadaria entre Cabral, Garotinho e Cesar. Isso abre um espaço para mim como uma novidade", disse. "Sou prefeito de um município da Baixada, nordestino, mais jovem que os concorrentes e tenho discurso de esquerda", disse.

Honduras cede e promete suspender estado de sítio

Ricardo Galhardo
Enviado especial • Tegucigalpa
DEU EM O GLOBO

Sob forte pressão interna e externa, o presidente interino, Roberto Micheletti, recuou, pediu desculpas à população e admitiu a possibilidade de revogar, até o fim da semana, o estado de sítio decretado na véspera, restringindo as liberdades individuais. De manhã, os primeiros alvos do decreto foram a Rádio Globo e a TV Cholusat Sur, o Canal 36, emissoras pró-Zelaya, invadidas e fechadas por militares. Em reunião de emergência do Conselho Permanente da OEA, o embaixador dos EUA, Lewis Amselem, disse que o retorno de Zelaya a Honduras foi “irresponsável e tolo" e pediu que ele pare de tentar chamar a atenção a qualquer custo.

Micheletti vai rever estado de sítio

Governo fecha TV e rádio, mas, após pressão do Congresso, pede desculpas por limitar liberdades

HONDURAS E SEUS DOIS PRESIDENTES

Diante da pressão interna e externa e da possibilidade de que o decreto que instala o estado de sítio fosse derrubado pelo Congresso, o presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, recuou e admitiu a possibilidade de revogar a medida. A decisão não foi suficiente para evitar a invasão e depredação pelas forças de repressão a uma rádio e uma emissora de TV ligadas ao presidente deposto Manuel Zelaya, ontem de manhã. Micheletti convidou ainda os funcionários da OEA que foram expulsos para voltar ao país, lamentando as “distorções” ocorridas.

A resposta de Micheletti veio depois que uma junta eletiva formada pelo presidente do Congresso, Alfredo Zaafreda, e representantes de quatro dos cinco partidos com representação no Congresso foi até a Casa da Presidência pedir que revogasse o decreto.

Segundo parlamentares, o governo estava inseguro e temia que a medida fosse derrubada em plenário. O Partido Nacional e setores do Liberal, as duas principais forças políticas do país, criticaram duramente o ato durante todo o dia. No final da tarde, Micheletti anunciou que vai consultar a Corte Nacional de Justiça e o Superior Tribunal Eleitoral e, no máximo, até o final da semana deve rever a medida.

— Quero pedir desculpas à população por esta decisão (de baixar o decreto) pois o senhor Zelaya estava chamando à violência e à insurreição.

Segundo um participante da reunião, Micheletti deve revogar o decreto amanhã, depois de consultar também o Conselho de Ministros.

Além da pressão do Congresso, o decreto foi criticado internacionalmente e até pelos veículos de comunicação que apoiaram o golpe. A manchete do jornal “El Heraldo” era “Estado de sítio”, em letras garrafais.

‘Forte abraço a Lula’

Outro motivo é a eleição do dia 29 de novembro, considerada a única saída para a crise para o governo. Os líderes do Congresso argumentaram que seria impossível uma eleição nestas condições. O decreto proíbe reuniões não autorizadas, permite a cassação de veículos de comunicação e detenções sem ordem judicial por 45 dias. As medidas são uma prerrogativa do Executivo prevista na Constituição, mas dependem de condições e devem ser submetidas ao Congresso.

Depois de anunciar o recuo, Micheletti mandou um recado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

— Quero enviar a Lula um forte abraço com todo o carinho e dizer a ele que não se preocupe pois jamais nossa polícia vai invadir seu espaço, sua propriedade.

Os primeiros alvos da repressão foram a Rádio Globo e a TV Cholusat Sur, o Canal 36, únicos veículos que divulgavam as manifestações de Zelaya e as ações do movimento de resistência ao golpe. Segundo um jornalista do Canal 36 que pediu anonimato, a emissora foi invadida por militares encapuzados que teriam arrombado a porta, ameaçado jornalistas, desconectado e danificado equipamentos. Micheletti disse ter evidências de que os veículos incitavam a guerrilha.

— Foi um ato de barbárie. Fomos expulsos com fuzis apontados para nossas cabeças — disse o jornalista.

Três jornalistas (dois guatemaltecos e um hondurenho) foram detidos e tiveram equipamentos confiscados quando filmavam o cerco à rádio.

Segundo políticos, o motivo do decreto foi o temor em relação às manifestações agendadas para ontem. Isso não impediu que mil manifestantes se reunissem na Universidade Pedagógica.

Dezenas de policiais da tropa de choque encurralaram os manifestantes, que deitaram na rua. Depois de negociar, a polícia permitiu o protesto desde que não houvesse passeata.

Da embaixada brasileira, onde continua entrincheirado, Zelaya pediu que a ONU adote uma posição firme: — Silenciaram as únicas vozes que o povo hondurenho tinha. Quem tinha dúvida de que aqui se instalou uma ditadura pode esclarecê-la agora.

Golpista fecha rádio e TV em Honduras

Fabiano Maisonnave e Joel Silva
Enviados Especiais a Tegucigalpa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Emissoras transmitiam fala de Zelaya da embaixada brasileira; para EUA, presidente deposto foi "irresponsável"

O governo golpista de Honduras tirou do ar por "ataques à paz" uma TV e uma rádio que apoiam o presidente deposto, Manuel Zelaya, horas após publicar decreto que permitia suspender vários direitos civis.

Mais tarde, porém, a Presidência anunciou que retiraria o decreto "nos próximos dias", depois de ter perdido a maioria no Congresso -fato inédito desde o início do golpe, no final de junho.

A rádio Globo e o canal 36 eram as únicas emissoras a transmitir constantemente declarações de Zelaya na embaixada brasileira, onde ele se refugiou há oito dias.

Em reunião da Organização dos Estados Americanos, o representante dos EUA, W. Lewis Amselem, condenou os golpistas por expulsar diplomatas e chamou o retorno de Zelaya de "irresponsável e tolo".

Golpistas fecham rádio e TV pró-Zelaya

Após perder apoio de Congresso, Micheletti promete, porém, reverter a decretação de estado de exceção em Honduras

Regime golpista impede 2 funcionários hondurenhos da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa de voltar ao prédio após o terem deixado

Soldados cercam sede do canal 36, pró-Zelaya, fechado ontem porordem do governo golpista


O governo interino de Honduras tirou do ar na madrugada de ontem um canal de TV e uma emissora de rádio que apoiam o presidente deposto, Manuel Zelaya, horas depois de publicar um decreto que permitia suspender vários direitos civis. No final da tarde, porém, a Casa Presidencial anunciou que recuaria da medida "nos próximos dias", após ter perdido o apoio da maioria no Congresso -fato inédito desde o início do golpe, há três meses.Por volta das 3h da manhã, dezenas de soldados ocuparam a rádio Globo, que tem um jornalista dentro da embaixada brasileira em Honduras, e o canal 36, de sinal aberto. Já o canal venezuelano Telesur, que também tem uma equipe ao lado de Zelaya e em Honduras é assistido somente por cabo, teve o sinal cortado por vários momentos ao longo do dia.De acordo com o porta-voz da Casa Presidencial, René Zepeda, as emissoras foram retiradas do ar em concordância com o decreto de anteontem, que dá ao presidente golpista, Roberto Micheletti, poderes para agir contra meios de comunicação que "atacam a paz e a ordem pública".

As duas emissoras eram as únicas a transmitir de forma constante as declarações feitas por Zelaya na embaixada brasileira, onde está há nove dias. No sábado, o presidente deposto exortou seus seguidores a promover "uma ofensiva final" contra Micheletti ontem, quando a deposição de Zelaya completou três meses.

Sob forte repressão, os protestos pró-Zelaya foram pequenos. Na maior, cerca de 200 manifestantes se aglomeraram durante a manhã em frente a uma universidade, na praça Miraflores. A polícia impediu a marcha com aproximadamente 500 homens do batalhão de choque da Polícia Nacional, que cercaram o local.

No final da tarde, dezenas de automóveis e motos fizeram uma caravana para o enterro de Wendy Fátima, morta no sábado. Ela era asmática e inalou gás lacrimogêneo na desocupação da entrada da embaixada brasileira, na terça-feira.

Sem apoio

A surpresa veio no meio da tarde, no Congresso. A bancada do Partido Nacional, a segunda maior, e outros partidos menores que têm apoiado Micheletti disseram aos golpistas que rejeitariam o decreto que impôs as medidas de exceção. Pela legislação do país, o Parlamento tem 30 dias para analisar e votar um decreto presidencial.Pela primeira vez sem o apoio do Congresso -que aprovou a deposição de Zelaya, em 28 de junho-, Micheletti disse, em entrevista coletiva, que "discutirá com a Corte Suprema de Justiça o decreto de estado de exceção e sua posterior revogação", o que deve ser feito, segundo ele, nos próximos dias.

Micheletti também recuou com relação à presença da OEA no país. Um dia após ter detido quatro de seus funcionários, a Chancelaria disse que estava convidando uma "comissão de preparativo" da entidade, para a próxima sexta, e uma comitiva de chanceleres, no dia 7.

Em entrevista coletiva às 7h da manhã, Zelaya criticou duramente o fechamento das emissoras de rádio e TV e disse que a embaixada poderia ser invadida "nas próximas horas". À tarde, falou por telefone na Assembleia Geral da ONU, quando pediu apoio para "reverter o golpe" e pediu ajuda para assegurar a segurança das cerca de 60 pessoas abrigadas no prédio.

Pouco antes, por volta das 6h, a maioria das cerca de 60 pessoas que estão na embaixada, entre elas a reportagem da Folha, foi acordada por helicóptero da polícia que sobrevoou o edifício por cerca de meia hora.

Em outra pressão contra a embaixada, militares não autorizaram o retorno de dois funcionários hondurenhos da embaixada. Um é o encarregado da manutenção, e o outro era motorista e ajudava o colega.

"Foi uma surpresa desagradável e uma falta de consideração", disse o encarregado de negócios, Francisco Catunda, que voltou ontem ao prédio após dois dias de descanso -desde sexta, ele divide o "plantão" na embaixada com outro diplomata. "Eles esperaram que os dois estivessem fora para proibir o regresso." Um saíra de folga anteontem e voltaria ontem à tarde, enquanto o outro deixara o prédio na manhã de ontem.

EUA condenam Zelaya e criticam 'os que o ajudaram'

Gustavo Chacra, Nova York
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O retorno de Manuel Zelaya a Honduras foi uma titude "irresponsável" e "idiota", segundo disse o representante dos EUA em reunião na Organização dos Estado Americanos, Lewis Anselem. "Ele deve parar de agir como se estivesse estrelando um filme antigo", acrescentou o diplomata, que também criticou "os que facilitaram sua volta" - a Venezuela ajudou Zelaya e o Brasil o abrigou em sua embaixada em Tegucigalpa. Para Washington, Zelaya só poderia ter voltado se houvesse acordo com o governo de facto, para evitar violência. Ontem, forças hondurenhas, baseadas no estado de sítio, invadiram e depredaram uma emissora de rádio e uma de TV pró-Zelaya, informa a enviada especial Denise Chrispim Marin.

EUA criticam "volta tola" de Zelaya

Embaixador na OEA qualifica retorno de líder deposto de "atitude irresponsável" e ataca "os que o ajudaram"

O retorno de Manuel Zelaya a Honduras foi uma atitude "irresponsável e tola", segundo afirmou o representante dos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA), Lewis Amselem, em uma das declarações mais duras de uma autoridade americana contra o presidente deposto desde o início da crise. Na reunião de emergência da entidade, em Washington, o diplomata ainda classificou como "deplorável" a decisão do governo de facto de proibir a entrada de uma missão mediadora no país.

"A volta de Zelaya sem um acordo é irresponsável e não serve aos interesses do seu povo e daqueles que defendem uma solução pacífica para o restabelecimento da ordem democrática em Honduras. Ele deve parar e desistir de fazer alegações inflamadas e de agir como se estivesse estrelando um filme antigo", disse Amselem. Ele acrescentou que "optando, com ajuda externa, por retornar por seus próprios meios, Zelaya e os que facilitaram sua volta, possuem uma responsabilidade especial pelas ações de seus simpatizantes".

Questionado pelo Estado se o diplomata se referia a países como a Venezuela (que ajudou Zelaya) e Brasil (que o abrigou em sua embaixada), Charles Luoma-Overstreet, responsável por América Latina do Departamento de Estado, disse que não. "Criticamos as ações de Zelaya e do governo de facto. Não mencionamos país algum", afirmou.

Em Brasília, o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, criticou a declaração de Amselem dizendo que ela revela o "caráter ambíguo da diplomacia americana". "Foi uma declaração infeliz", disse Garcia.

O governo de Barack Obama sempre deixou claro ser contrário a um retorno não negociado de Zelaya a Honduras. As tentativas de entrar de avião e por terra receberam críticas de autoridades americanas. Na avaliação dos EUA, a única saída para o impasse seria um pacto negociado pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, ou pela OEA.

Após o retorno de Zelaya, começaram a emergir alguns atritos entre brasileiros e americanos. Inicialmente, a embaixada dos EUA contribuiu com a do Brasil fornecendo ajuda emergencial. A secretária de Estado Hillary Clinton conversou várias vezes com o chanceler Celso Amorim e os dois países aparentavam agir de forma coordenada. Mas a decisão brasileira de enviar uma carta ao Conselho de Segurança da ONU para discutir a questão da segurança da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa não foi bem recebida pelos EUA.

A embaixadora americana na ONU, Susan Rice, expressou a Amorim sua insatisfação com a ação brasileira, afirmando que o conselho não era o fórum apropriado. Mas Overstreet nega que as relações entre EUA e Brasil tenham se deteriorado.

Após dez horas de debate, o Conselho Permanente da OEA não chegou a um consenso de declaração sobre Honduras e limitou-se a pedir o diálogo e a reconciliação no país. Segundo fontes, um desacordo por causa de um parágrafo sobre as eleições previstas para novembro levou ao impasse entre os países-membros.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Dança das cadeiras no cenário político

Ricardo Villa Verde
DEU EM O DIA

Mais de 20 parlamentares e suplentes iniciam troca-troca de partidos. Procuradora estuda se abre ação contra deputados que mudarem

Rio - Apesar da chamada janela, que permitiria políticos trocarem de partido um ano antes das eleições, não ter sido aprovada pelo Congresso, deputados estaduais e federais do Rio devem protagonizar uma farra de troca-troca partidário nesta semana. Mais de 20 parlamentares e suplentes vão mudar de legenda até sábado, dia 3, prazo final definido pelo calendário eleitoral para os que querem disputar as eleições de 2010 se filiarem a um partido.

Wagner Montes admite que recebeu convites de cinco partidos

A lista inclui o deputado estadual Wagner Montes, que vem despontando nas pesquisas para o governo estadual. Ele admite que pode deixar o PDT. “Recebi convites de cinco partidos”, afirma Wagner, que se reúne neste domingo com o presidente do PDT e ministro do Trabalho, Carlos Lupi, para discutir o assunto. Wagner quer que o PDT assuma sua candidatura a governador. “Que o PDT reconheça que tem candidato”, explica ele. Entre os que querem o pedetista está o PP.

O maior troca-troca vai acontecer na Assembleia Legislativa (Alerj). Além de Wagner Montes, outros 10 ocupantes de cadeiras na Casa, e pelo menos cinco suplentes, devem trocar de partido. O caso mais inusitado é o de André Lazaroni, ex-André do PV. Há cerca de dois meses, quando decidiu abandonar o PV, o deputado passou a utilizar o sobrenome de batismo, tirando a sigla partidária do nome pelo qual ficou conhecido desde o início da carreira. André deve ir para o PMDB.

A bancada peemedebista também deve ganhar reforço de Pedro Fernandes e Marcelino D’Almeida, que deixarão o DEM. O PSC, que já perdeu Tucalo para o PP, pode perder ainda Sabino para o PT e Coronel Jairo para o PMDB. Altineu Cortes, ex-PMDB e ex-PT, pode ir para o PR, do ex-governador Anthony Garotinho. Jorge Babu, ex-PT, também estaria analisando seguir Garotinho.

Na bancada federal, o ex-governador já atraiu Geraldo Pudim, que trocou o PMDB pelo PR , e ainda pode atrair Bernardo Ariston, também do PMDB.

O troca-troca vem sendo facilitado pela maioria das direções partidárias, que estão liberando os políticos para deixarem seus quadros. O entendimento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) porém é de que os diretórios de partidos não têm competência para autorizar detentores de mandatos a deixarem seus quadros. A troca de legenda pode caracterizar infidelidade partidária e pode levar à perda do mandato. A procuradora regional eleitoral, Silvana Batini, disse que poderá entrar com ações contra deputados que trocarem de partido. “Vamos analisar caso a caso”, explicou a procuradora.

Disputa muito além dos gramados

O troca-troca na política também chegou ao Vasco da Gama, onde o ex-deputado federal Eurico Miranda (PP) e o presidente do clube, Roberto Dinamite (PMDB), deputado estadual e candidato à reeleição na Alerj, travam briga declarada.

Depois que Romário, antigo aliado de Eurico, trocou o PP pelo PSB, o ex-dirigente deu o troco, chamando Edmundo para ser candidato a deputado estadual. “Com certeza, ele vai tirar votos do Dinamite”, aposta o deputado estadual Dionísio Lins, do PP.

Envolvidos em questões judiciais — Romário com o fisco e pensão alimentícia, e Edmundo, condenado na primeira instância pela morte de três pessoas em acidente — os dois já foram presos. Para o advogado constitucionalista Ivan Ferreira, a imunidade parlamentar só vale no exercício do mandato. Parlamentares eleitos que forem condenados em última instância podem ser presos. “No caso do Edmundo, se a condenação for mantida, perde até o mandato se for eleito”, diz.

Distribuição, repulsa e sossega leão

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


No domingo, 20 de setembro, Vinicius Torres Freire publicou um artigo curioso em sua coluna do caderno "Dinheiro" da "Folha de S. Paulo" ("Paz social: o povo é barato"). Avaliando os dados da Pnad do IBGE, Freire salienta, em contraste com certa excitação resultante de dados anteriores sobre a redução da desigualdade de renda, a "letargia" que seria agora produzida pela "mediocridade sustentável" que estaríamos experimentando ("a isto chegamos"...), consequência de um "pacto social" precário, "nada radical", na verdade um "sossega leão popular": "partidos políticos e movimentos sociais não se interessam em produzir mudança de monta - ou não têm motivos ou capacidade para tanto". E constata, desalentado, que os governos de FHC e Lula foram dos melhores da nossa história - "mesmo com seus defeitos repulsivos"...

Contraposta à desqualificação da política como tal que vemos frequentemente na imprensa, a perspectiva de Freire tem talvez a peculiaridade de que não se trata de apontar política corrupta, sem mais, mas de demandar desenvolvimento social: presumivelmente, um pacto social autêntico e apropriadamente radical. É revelador que Freire não deixe de pagar tributo a um moralismo antipolítico de alcance mais amplo: se se vai falar bem de governos recentes, "dos melhores de nossa história", é preciso advertir para seu lado "repulsivo", nada menos. Nas nossas condições gerais, há talvez algo de saudável em que esse moralismo ganhe um conteúdo especificamente social. Mas qual é mesmo o alcance da denúncia, o que é que se pretende por no lugar de governos repulsivos em que as coisas, bem ou mal (mediocremente), avançam e os avanços se tornam sustentáveis? Qual é mesmo o radicalismo que se deseja?

A indagação remete ao passado recente de um PT de retórica radical em que a expressão "socialdemocracia" era anátema (socialdemocracia que, naturalmente, sempre recebeu o mesmo tipo de crítica dos adeptos de um socialismo revolucionário). Ou permite lembrar que um programa como o Bolsa Família, de clara relevância nos avanços medíocres, foi, e ainda é, objeto de críticas ferozes, não obstante o processo político-eleitoral da democracia ter acabado por fazer dele algo dificil de remover da agenda de qualquer governo que venhamos a ter proximamente. Nessas condições, até que ponto, em vez de denunciar, não caberá festejar, com realismo e talvez certa dose de ironia amarga, a própria "mediocridade" que tanto desgosta a Freire?

Com um pequeno artifício, a perspectiva de Freire pode ser aproximada da visão elitista de nossas dificuldades atuais no campo das relações entre ética e política que as enxerga como decorrência da democratização da sociedade brasileira. Cento e trinta milhões de eleitores num país desigual significam peso político decisivo para os menos iguais e, supõe-se, correspondente deterioração intelectual e ética na qualidade da representação política. Mas, à parte as muitas fantasias sobre a qualidade intelectual e ética de nossa velha representação oligárquica, é clara a distorção envolvida em omitir, a propósito das nossas ruindades ético-políticas de hoje, a longa tradição de estado cartorial, clientelismo e quejandos que vicejava como parte da política oligárquica (e cujos mecanismos subsistem e moldam de muitas formas o presente) e destacar, ao revés, a democratização que solapa essa política. Naturalmente, avaliações como a de Vinicius Torres Freire reclamam avanços que se opõem ao elitismo; mas compartilham com a leitura elitista da democracia política em expansão e seus problemas a deficiência da desatenção para os pesados traços estruturais negativos do ponto de partida e os difíceis constrangimentos impostos ao jogo político como inevitável instrumento de avanços efetivos.

Felizmente, uma linha de trabalhos recentes no estudo da política, que alguns designam como "novo estruturalismo", vem retomando e refinando velhos postulados de maneira que se tem mostrado fecunda. Como apresentado sinteticamente em ensaio que aqui citei há tempos ("Democracy and Capitalism", de Torben Iversen), ela articula as variadas feições assumidas pelo próprio capitalismo como tal a subespécies de democracia e às interdependências e complementaridades institucionais em que se traduzem. A conformação do espaço de construção institucional aparece aí, em ampla medida, como dependente de condições estruturais "pré-estratégicas" (ou pré-políticas) e dos interesses que se associam com elas. Achados particulares de especial relevância para as verificações da Pnad e as insatisfação ao estilo de Vinicius Torres Freire dizem respeito ao papel da classe média e de sua eventual expansão. Constata-se, na síntese de Iversen, que o grau de desigualdade e o tamanho da classe média moldam de maneira poderosa os incentivos dos agentes políticos ao compromisso: "Uma classe média de grandes proporções serve essencialmente como um amortecedor, sob a democracia, contra demandas radicais por redistribuição". Claro, nas circunstâncias do nosso fosso social, a expansão da classe média que os dados apontam, ainda se tomados com todas as reservas, redunda por si só em redistribuição importante.

Não creio que mesmo o ânimo crítico ao estilo de Freire se dispusesse a incluir entre as razões para objetar ao novo "conservadorismo fernandino-luliano" a de que, ao permitir precariamente a expansão da classe média, ele bloqueia as demandas mais radicais.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

O bobo de Chávez

Ricardo Noblat
DEU EM O GLOBO

O que pode ser pior? Acreditar que Lula foi de fato surpreendido com a chegada à embaixada do Brasil em Tegucigalpa do presidente deposto Manoel Zelaya? Ou imaginar que a volta de Zelaya ao seu país foi uma operação do consórcio Brasil-Venezuela? Coube a Hugo Chávez despejar a carga nos jardins da embaixada. A Lula, abrigá-la em segurança.

Ajeita daqui, ajeita dali, ficou assim a história oficial da mixórdia contada com pequenas diferenças por Chávez, Zelaya e porta-vozes informais de Lula. Na manhã da última segunda-feira, Xiomara Castro, mulher de Zelaya, procurou Francisco Catunda, o encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Honduras e única autoridade ali presente.

Por escolha pessoal, Catunda é um diplomata de terceiro escalão que está perto de se aposentar. Poderia ter sido embaixador. O poeta João Cabral de Melo Neto, por exemplo, foi embaixador em Honduras. Catunda, porém, truncou sua própria carreira ao recusar cargos que o levariam a servir em locais distantes do Ceará, onde nasceu. É fissurado em Fortaleza.

Para genuíno espanto de Catunda, Xiomara lhe disse que Zelaya estava dentro de um carro a poucos metros da sede da embaixada. Em seguida, orientou-o a consultar seus superiores sobre o desejo de Zelaya de obter refúgio. Catunda telefonou para Brasília, que por sua vez alcançou Lula voando para Nova Iorque. Depois do susto, Lula respondeu: tudo bem.

A se acreditar na história oficial, portanto, Chávez armou para cima de Lula. Com meios fornecidos por ele, Zelaya tentara antes duas vezes regressar a Honduras. Da primeira só conseguiu sobrevoar o aeroporto de Tegucigalpa em avião cedido por Chávez. Da segunda foi barrado na fronteira com El Salvador. Fez uma graça, tomou uns tragos e foi embora.

Quem anunciou triunfante o paradeiro de Zelaya uma vez instalado na embaixada do Brasil? Chávez, ora. De duas, uma: ou faltou coragem a Lula para dizer algo do tipo “ninguém empurra nada goela abaixo do Brasil” e negar hospedagem a Zelaya, ou ele concluiu rapidamente que seria uma boa virar um dos protagonistas da crise hondurenha.

Por que Chávez não mandou Zelaya para a embaixada da Venezuela? Porque sabe que não conta com a simpatia internacional – Lula conta de sobra. Por que não mandou Zelaya para a embaixada dos Estados Unidos? Porque lá ele só seria acolhido na condição de asilado. E asilado tem de obedecer a regras seculares de asilo. Uma delas: manter o bico fechado.

Zelaya transformou a embaixada do Brasil na casa da mãe Juanita. Um dia depois de sua chegada, a embaixada estava ocupada por cerca de 300 partidários dele, incluídos guarda-costas armados, uma equipe de televisão da Venezuela, outra de uma rádio local e, sim, um blogueiro norte-americano. Blogueiro é uma praga. Está por toda parte.

Lula deu ordem a Zelaya para não fazer conchavos dentro da embaixada. Brincou, não foi? Como não pode fazer do lado de fora, e como está na embaixada justamente para fazer conchavos capazes de lhe restituir o poder, Zelaya ignorou a ordem de Lula. Passou a conceder audiências a quem o procura. E a dar dezenas de entrevistas diárias.

O dono do pedaço é Zelaya. O Brasil emprestou sua soberania para que Zelaya tente derrubar o governo que substituiu o dele. Se a história oficial for mentirosa, se existirem de fato manchas verdes e amarelas na operação de retorno de Zelaya a Honduras, o Brasil deu uma de país imperialista interferindo diretamente nos assuntos internos de outro país.

Mas se a operação carregou com exclusividade as cores da Venezuela, por mais que me doa à alma isso significa dizer que Chávez fez Lula de bobo (nada de inédito). Pois ao fim e ao cabo, o resultado será o mesmo: a interferência nos assuntos internos de Honduras do Brasil candidato a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, o país do “cara”, do pré-sal e da marolinha vencida vapt-vupt.

Despreparo e improviso

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Como já escreveu Janio de Freitas, a partir de agora a crise instalada em Honduras diz respeito à capacidade de os latino-americanos conseguirem ou não ajudar a restaurar minimamente as regras democráticas naquele país. Golpes de Estado devem ser rechaçados. Sem relativização.

Se houve trapalhada na ocupação da Embaixada do Brasil, o mais fácil é apontar o dedo só na direção do governo Lula. Há uma histórica falta de preparo do Estado brasileiro quando se trata de protagonizar certas ações internacionais. Impera um vácuo crônico no serviço público a respeito desse tema.

Os acontecimentos em Honduras são um caso para estudo. A versão oficial é que Manuel Zelaya, presidente deposto, materializou-se em frente à embaixada brasileira. Tudo teria saído da cabeça do hondurenho, com a ajuda prestada pelo venezuelano Hugo Chávez.

A ser verdade tal relato, há então uma triste constatação: a extrema inoperância de diplomatas, assessores presidenciais, congressistas especializados em assuntos internacionais e agentes da Abin. Muitos deveriam acompanhar os passos de Zelaya e de Chávez, mas não foram capazes da apurar a trama -na hipótese, é claro, de o Brasil ter sido apanhado de surpresa.

Há 583.367 funcionários públicos federais no Poder Executivo brasileiro. No Congresso, são 24.608 pessoas à disposição de deputados e de senadores. Ninguém teria sido comissionado para tomar ciência do que se passava e antecipar a montagem da operação.

Completa esse enredo de despreparo e improviso a viagem de uma missão de deputados brasileiros a Honduras. Devem partir na terça-feira. O objetivo é ajudar a resolver o impasse. Essa iniciativa congressual, quase uma peça de humor involuntário, é a ação mais concreta oferecida até o momento pelo Brasil -deputados brasileiros zanzando pelas ruas de Tegucigalpa.

Recuperação econômica - a hora da verdade

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O gráfico neste artigo reproduz o padrão dos indicadores de atividade nos Estados Unidos e na Europa ao longo da crise que vivemos. Nele podemos identificar os três grandes movimentos que ocorreram a partir de julho de 2007, quando a crise do chamado "subprime" começou a ser precificada pelos mercados.

Na primeira etapa- que vai até o inicio de 2008 - o crescimento vigoroso que ocorria no mundo se desacelera e as economias americana e europeia entram em estagnação. Em um segundo momento - a partir de março de 2008 - inicia-se uma contração da atividade que vai até o fim do primeiro trimestre de 2009. A inclinação desta parte da curva acelera-se a partir do colapso do banco Lehman Brothers em setembro.

Finalmente, em abril deste ano, inicia-se uma fase de recuperação, com os indicadores da indústria e do setor de serviços mostrando um crescimento acelerado. O leitor pode identificar claramente que a recuperação segue o padrão em V, tantas vezes citado pela imprensa. Não por outra razão os mercados de ações também apresentam uma recuperação com o mesmo desenho. Nada de bolha especulativa como muitos defendem, mas apenas um movimento racional de resposta ao que ocorreu no lado real da economia.

Temos hoje uma visão clara do que aconteceu com a economia mundial a partir de setembro do ano passado. O setor privado entrou em pânico, mas as ações corajosas da maioria dos governos conseguiram reverter esta situação irracional. O volume de recursos mobilizados pelos bancos centrais mais importantes foi suficiente para evitar que o colapso dos mercados financeiros arrastasse o mundo para uma verdadeira depressão. Da mesma forma, os recursos fiscais liberados pelos governos criaram uma força anticíclica importante para compensar a redução dos gastos privados.

Com esta ação decisiva do setor público, a demanda final ficou acima da que estava implícita nos planos de produção da maioria das empresas. Os estoques caíram a níveis insustentáveis e a resposta racional foi a de voltar a aumentar seus níveis de atividade. O pânico nas empresas foi muito maior do que o vivido pelos consumidores neste conturbado período que vai de setembro de 2008 até março de 2009.

Chamo agora a atenção do leitor do Valor para a parte final do gráfico acima. Ela mostra as três possibilidades que existem hoje para a trajetória futura das economias mais avançadas. Embora ainda seja cedo para identificar com mais clareza qual dos ramos da curva vai prevalecer uma coisa é certa: a recuperação em V já é coisa do passado. Como dissemos anteriormente, a volta da atividade produtiva dos últimos meses esteve diretamente ligada ao descompasso entre a produção e a demanda final que ocorreu no período pós Lehman Brothers. Os gastos do consumidor, a nível global, ficaram praticamente estáveis mas empresas privadas agiram como se o mundo tivesse acabado. Cortaram agressivamente a produção e reduziram seus estoques a níveis muito baixos, o que as obrigou depois a aumentar o ritmo de produção.

Nos próximos meses viveremos uma situação diversa, com a atividade produtiva correndo de forma mais alinhada à demanda. Nada mais natural que ocorra uma redução no ritmo de crescimento da produção, ou mesmo uma pequena queda. Nesta nova dinâmica será o comportamento do consumidor que deve definir o ritmo de atividade econômica em 2010. Por isto os olhos dos analistas estão voltados para o mercado de trabalho, principalmente os dados de emprego e de renda dos salários. Será fundamental que ocorra uma estabilização do emprego até o fim deste ano e até o momento os dados caminham nesta direção.

Também serão importantes as informações relativas ao mercado imobiliário, pois o valor das residências representa parte importante no equilíbrio financeiro das famílias americanas. Nos últimos meses houve estabilização dos preços das casas e uma incipiente retomada de vendas que, se continuada, seria um forte elemento estabilizador.

Do lado monetário será preciso que ocorram sinais mais claros de um crescimento sustentado do multiplicador bancário. Até agora a expansão monetária provocada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) permitiu a redução dos spreads e a volta das emissões de títulos de dívida privada. Mas o financiamento bancário permanece restrito tanto para consumidores e para empresas. Sua normalização é importante para que a economia volte a funcionar de maneira sustentada. Por isto acompanho com cuidado as estatísticas relativas ao M2 americano, que são divulgadas todas as quintas-feiras. De outro lado, o sucesso do Fed em aumentar o multiplicador bancário será acompanhado da intensificação do debate já em curso sobre sua "estratégia de saída", isto é, a retirada do que pode vir a se configurar como um excesso de liquidez no sistema bancário. Certamente este será um desafio capaz de trazer volatilidade aos mercados em 2010.

Por fim, também faz parte desta equação os próximos movimentos do governo em relação aos estímulos fiscais criados durante a crise. Esta transferência fiscal tem sido importante para evitar a redução dos gastos em um momento em que o consumidor está sendo obrigado a reduzir seu endividamento. A possibilidade ou não de um segundo pacote fiscal vai fazer parte da agenda do mercado nos próximos meses. Sem uma ação mais decisiva, até o final de 2010 deve ocorrer um aperto fiscal por conta do término de vários programas de redução de impostos, inclusive os criados no início do governo Bush.

Ainda não tenho segurança para fazer uma escolha final da trajetória de crescimento. Minha intuição é que teremos uma inclinação compatível com um crescimento de 1,5% a 2% para o ano de 2010 nas economias dos EUA e da Europa. Neste cenário, o mundo emergente teria condições para continuar a crescer a taxas próximas a 5% ao ano. No momento adoto um viés de alta para estas projeções, mas sua realização depende dos fatores acima chegarem a bom termo nos próximos meses.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

Individualismo feroz

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A resistência enfrentada por Barack Obama reflete uma elite que busca substituir a fraternidade pela caridade

A DIFICULDADE que o presidente Barack Obama está enfrentando para aprovar legislação universalizando os cuidados de saúde é tão surpreendente quanto previsível. É surpreendente porque é inconcebível que o país com a maior renda do mundo por habitante não garanta atendimento de saúde gratuito a todos os seus habitantes, enquanto países com renda per capita menor, inclusive o Brasil, asseguram esse direito. Em relação a outros bens públicos como educação universitária, prestígio social, número de amigos, e mesmo na graça divina, é razoável que os indivíduos que revelam maior aptidão ou maior interesse tenham maior participação.

Não há, porém, teoria de justiça que justifique que os mais ricos tenham acesso a melhores cuidados de saúde do que os pobres. Os países que dispõem de sistemas universais de atendimento de saúde estão longe desse ideal de justiça, mas deram um passo importante nessa direção. Surpreendentemente, não é o caso dos Estados Unidos.

O fenômeno, entretanto, é previsível quando consideramos que a existência de um sistema universal de saúde assegurado pelo Estado pressupõe certo grau de fraternidade -virtude incompatível com o individualismo feroz que prevalece naquele país. Condições históricas favoráveis, principalmente a colonização da Nova Inglaterra por puritanos que puderam reproduzir a sociedade inglesa sem suas graves desigualdades sociais, permitiram que os EUA se desenvolvessem de forma extraordinária até a Segunda Guerra.

Aquele, porém, foi um momento de auge; foi provavelmente o limite a que pode chegar uma sociedade baseada em individualismo tão forte. Desde então, enquanto os países europeus e alguns países em desenvolvimento reorganizaram suas sociedades em nome tanto do desenvolvimento econômico como da solidariedade e montaram um Estado social ou do bem-estar, os EUA perdiam gradualmente poder e influência.

O colapso da União Soviética representou uma retomada para os EUA, mas, à medida que se baseou em uma ideologia, o neoliberalismo, que radicalizava o individualismo, foi uma retomada com voo curto.

O presidente americano e muitos dos seus concidadãos reconhecem a injustiça envolvida na falta de um regime universal de saúde, e querem resolver o problema. A resistência que enfrentam, entretanto, reflete uma elite que não quer pagar mais impostos e busca substituir a fraternidade estatuída na lei pela caridade.

Reflete também o atraso democrático de um país que admite como "natural" que as empresas de seguro e de convênios médicos, que defendem seus interesses privados, sejam vistas pela imprensa como detentoras da mesma legitimidade que os cidadãos que discutem em nome do interesse público.

Essa incapacidade de distinguir a natureza dos debatedores é o resultado de um individualismo neoliberal que rejeita a ideia de interesse público ou de bem comum e afirma que apenas existem interesses privados. Estes competiriam pelas políticas públicas de forma muito semelhante àquela através da qual as empresas competem no mercado por lucro. A sociedade transforma-se assim em mercado, com uma diferença: enquanto que para este funcionar bem basta o preço definido na concorrência, para que a sociedade funcione bem a concorrência pelo poder não basta: é necessária também a solidariedade. As dificuldades que o presidente Obama está enfrentando para aprovar a universalização dos cuidados de saúde indicam quanto o individualismo feroz é ainda forte em seu país.

Luiz Carlos Bresser-Pereira, 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Chávez torce por Dilma

Jailton de Carvalho
DEU EM O GLOBO

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que a ministra Dilma Rousseff é sua candidata para 2010 e que ela será a "próxima presidente do Brasil". Lula disse que ele foi gentil e lamentou o fato de Chávez não ser um eleitor no Brasil.

"Minha candidata é Dilma", afirma Chávez

Lula diz que foi só "gentileza" do presidente da Venezuela declarar publicamente seu apoio à candidatura de ministra

ISLA DE MARGARITA, Venezuela. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, manifestou apoio irrestrito à chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, afirmando que a ministra é a sua candidata nas eleições presidenciais de 2010 no Brasil.

- Dilma será a próxima presidente do Brasil - afirmou em seu discurso, anteontem, durante a abertura da 2ª Cúpula América do Sul-África, realizada em Isla Margarita, na Venezuela.

Chávez fez a declaração depois de mencionar seu bom relacionamento com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, mentor e padrinho da candidatura.

O venezuelano disse ainda que sabia estar correndo o risco de ser acusado de intromissão nos assuntos internos do Brasil. No entanto, afirmou, não poderia deixar de fazer a declaração, porque estava agindo "com o coração".

- Sei que vão me acusar de ingerência, mas meu coraçãozinho é que está falando. Minha candidata é Dilma.

O líder venezuelano também lamentou, diversas vezes, que o presidente brasileiro esteja em fim de governo. Para ele, o consolo é que Dilma ganhará as eleições.

E completou:

- Mas Lula não se vai. Ele fica, assim como Néstor Kirchner (ex-presidente da Argentina), que se foi, mas não se foi - afirmou Chávez, em referência à eleição da presidente Cristina Kirchner como sucessora do marido.

Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comentou a declaração de apoio do colega à provável candidatura da ministra. Segundo Lula, Chávez apenas tentou ser gentil com ele e com a Dilma.

- Acho que o Chávez fez um gesto de gentileza. Só lamento que ele não seja eleitor para ir votar lá (no Brasil) - disse Lula, pouco antes de deixar a Venezuela e retornar a Brasília.

Marina critica governo em ato do PV no Rio

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Embora insista que somente em janeiro se posicionará sobre a disputa pelo Planalto, senadora é saudada nas ruas como candidata e cobra postura clara do governo sobre questões ambientais

RIO - Em clima de campanha, a senadora Marina Silva (AC), provável candidata do PV à Presidência da República, participou ontem do primeiro ato público desde sua filiação ao partido, após a saída do PT. A caminhada “Brasil no clima” foi organizada pelo PV com o pretexto de cobrar do governo federal uma posição mais clara em relação às mudanças climáticas, mas foi marcada por gritos de “Brasil Urgente, Marina presidente”, base do slogan da campanha de Lula em 1989.

Debaixo de sol forte, cerca de 400 pessoas participaram do ato, entre militantes do PV e banhistas que se juntaram à caminhada, do Leblon ao Arpoador. Em meio a bandeiras do PV, e como centro das atenções, a senadora evitou falar nas eleições presidenciais. Quando perguntada sobre o assunto, repetia que a candidatura só será definida em 2010. Assumiu, no entanto, que é “pré-candidata prioritária” da legenda. “O PV honrosamente me colocou nessa condição”.

Em relação às mudanças climáticas, a senadora e ex-ministra do Meio Ambiente cobrou do governo federal uma postura ousada e transparência em relação à posição que o Brasil levará para a reunião de Copenhague, em dezembro, que vai estabelecer um novo tratado mundial para redução das emissões de carbono. “Quando eu era ministra, já havia posições refratárias em relação às mudanças climáticas. Mas não podemos ser surpreendidos em cima da hora com uma proposta do governo brasileiro, pois isso tem que ser feito com a população”, advertiu.

A senadora passou a caminhada ao lado do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) e do vereador Alfredo Sirkis (PV). Gabeira é o provável candidato do partido ao governo do Rio. O PV vive impasse com o PSDB sobre uma possível coligação das duas legendas no Rio. Gabeira disse que há reunião marcada para outubro entre PV, PSDB, DEM e PPS para definir as candidaturas. “A dificuldade com o PSDB é que são dois palanques. Eles vão apoiar Serra e eu, Marina”, disse.

CLIMA QUENTE

Na Venezuela, ainda sem saber das críticas de Marina Silva, Lula defendeu que a existência de florestas nos países tropicais seja usada como trunfo nas negociações do novo acordo do clima. “Quem tem novidade para oferecer ao mundo são exatamente os países do sul (África e América do Sul). Precisamos fazer disso uma vantagem comparativa”, afirmou Lula, após reunião de cúpula com presidentes dos dois continentes. O presidente apoiou a ideia de países ricos criarem um fundo para ajudar a combater o desmatamento, mas cobrou ação direta. “Eles não estão assumindo o compromisso de quanto vão deixar de emitir de gases de efeito estufa”, concluiu.

Ciro quer dar vaga de vice em sua chapa para o PDT

Christiane Samarco, Brasília
DEU EM O ESTDO DE S. PAULO

O pré-candidato do PSB à Presidência, deputado Ciro Gomes (CE), cogita oferecer o posto de vice em sua chapa ao ministro do Trabalho, Carlos Lupi, do PDT. O objetivo do PSB é aumentar o tempo na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O desafio é montar seu palanque sem ferir a aliança com o governo, da pré-candidata Dilma Rousseff (PT).

Ciro deve oferecer vice ao PDT para ter tempo na TV

Posto seria destinado ao ministro Carlos Lupi e garantiria maior espaço no horário eleitoral gratuito

O pré-candidato do PSB à Presidência, deputado Ciro Gomes (CE), tem um trunfo para fechar a aliança com o PDT do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, e viabilizar sua candidatura com maior espaço na propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. Um aliado de Ciro que acompanha as negociações da corrida sucessória informa que o pré-candidato deve oferecer o posto de vice em sua chapa justamente ao ministro Lupi, que é presidente licenciado do PDT.

Além dessa oferta aos pedetistas, o PSB de Ciro trabalha para reeditar o bloquinho que funcionou na Câmara com o PDT e o PC do B porque só tem garantido 1 minuto e 11 segundos em cada um dos dois blocos diários de 25 minutos de propaganda eleitoral na TV. O tempo pode dobrar com a divisão da sobra dos minutos que couberem aos partidos que não apresentarem candidatos a presidente. Ainda assim é pouco.

O desafio de fortalecer o palanque eletrônico não é o único que ocupa os aliados de Ciro. O PSB não pode confrontar com o PT da pré-candidata e ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) e tem de contar com a "compreensão" do governo para fechar as alianças com partidos aliados ao presidente Lula.

"Temos de montar o palanque do Ciro sem desmontar o palanque da Dilma", resume o senador Renato Casagrande (PSB-ES), certo de que é possível manter um bom relacionamento na base governista para que os aliados estejam juntos no segundo turno da corrida presidencial. "Mesmo com duas candidaturas teremos diálogo nos Estados." Casagrande é um dos que veem no PDT um bom parceiro para compor a vice com os socialistas. Adverte, porém, que por enquanto não existe uma proposta oficial de seu partido à direção pedetista.

Um interlocutor comum de Ciro e Lupi aposta que o ministro aceitaria o convite e acrescenta que ele tem autonomia para fazê-lo, na condição de presidente nacional licenciado do PDT. Pondera, no entanto, que Lupi precisará obter o aval de Lula para fechar o acordo. O mesmo interlocutor explica que o ministro do Trabalho não faria nada que contrariasse uma determinação presidencial.

Em qualquer cenário, Ciro terá de enfrentar a resistência de alguns setores do PDT. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) é um dos que admitem que a parceria "faz sentido" dentro do processo eleitoral, mas diz que tem dificuldades para compreender a candidatura Ciro como uma alternativa progressista para o País. Ele defende a tese de que a melhor opção para fortalecer o partido seria o lançamento de um nome próprio para disputar a Presidência, em vez da candidatura a vice.

Vários pedetistas também se queixam de que a experiência da última eleição não foi boa e dizem que Ciro anunciou apoio a Lula no segundo turno de 2002 sem antes consultar os companheiros. "O discurso dele passa a ideia de um homem conservador e emocionalmente instável", diz Cristovam. "É um discurso sobre taxa de crescimento que faz com que ele passe a ideia de candidato a ministro da Fazenda, e não de um estadista que defende uma inflexão na história do Brasil."