quarta-feira, 5 de maio de 2010

MG emperra a aliança entre Dilma e PMDB

DEU EM O GLOBO

Sem acordo com o PT nos palanques de vários estados, como Minas Gerais, o PMDB adiou para junho o anúncio de seu vice na chapa da petista Dilma Rousseff para disputar o Planalto. O PMDB quer o apoio a Hélio Costa para o governo de Minas, mas o PT tem candidato. O PP, partido da base de Lula, anunciou neutralidade na disputa.

Impasse em alianças estaduais faz PMDB adiar anúncio de vice de Dilma

Petista suspende convite que faria a Temer para integrar chapa

E PP, cortejado pelos tucanos, decide ficar neutro na disputa presidencial

Gerson Camarotti e Maria Lima

BRASÍLIA. Apesar de ter feito ontem forte ofensiva para manter os aliados em seu palanque, a pré-candidata petista a Presidência da República, Dilma Rousseff, viu os seus planos frustrados. Primeiro, foi informada de que o PP deverá mesmo ficar neutro na disputa presidencial. No início da noite, o PMDB, principal aliado governista, comunicou que cancelou o encontro que faria no dia 15 de maio para consolidar a aliança nacional do partido com o PT, o que só fará agora na convenção nacional de 12 de junho.

Dilma jantou ontem com o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), para convidá-lo a ser o candidato a vice em sua chapa. Mas, pouco antes, o PMDB desmarcou o encontro do partido previsto para o dia 15. A alegação é que há ainda problemas regionais em 14 estados entre PMDB e PT. Entre as pendências, está o apoio do PT ao PMDB em Minas. O PMDB quer quer o apoio dos petistas a Hélio Costa, mas o PT escolheu Fernando Pimentel como candidato. Também há conflitos na Bahia, Pará, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Ceará.

- Ainda há muitos problemas entre PT e PMDB - reconheceu o vice-líder do governo no Congresso, senador Waldir Raupp (PMDB-RO), que quer o apoio dos petistas em Rondônia.

A primeira dificuldade de Dilma, ontem, ocorreu durante o almoço, quando o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), disse a ela que a tendência da legenda era ficar sem candidato presidencial, mesmo integrando o governo Lula. A campanha petista está preocupada com o avanço do PSDB na tentativa de atrair o PP.

No almoço com o PP, estavam o ministro das Cidades, Márcio Fortes (PP), o presidente do PT, José Eduardo Dutra, além o deputado Antonio Palocci (PT-SP) e do ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Dilma lembrou que o PP integrao governo e perguntou se ela e o PT podiam trabalhar para reverter os que estavam contrários à coligação. Segundo relatos, Dornelles disse que sim, mas alertou:

- Cuidado, porque, se pressionar muito e houver disputa na convenção, pode sair um resultado contrário - disse Dornelles, indicando que poderiam aprovar aliança com Serra.

PP consulta diretórios sobre adesão a petista

Dornelles afirmou que no último levantamento no PP, o apoio a Dilma tinha a adesão de 20 dos 27 diretórios regionais. Mas que esse levantamento foi feito em dezembro. O partido está fazendo nova consulta:

- Uma das características desse pleito é que a questão estadual é mais importante que a nacional. No PP, cada filiado é livre para conversar com quem quiser e desejar. Esse foi um almoço normal de presidente do partido com uma candidata, como também posso almoçar com a Marina (Silva) ou o (José) Serra - disse Dornelles.

- A tendência do partido é ficar neutro como ficou nas últimas eleições presidenciais. O que queremos é aumentar o numero de senadores e crescer nossa bancada na Câmara - disse o vice-presidente do PP, deputado Ricardo Barros (PR), que deve concorrer ao Senado.

- A prioridade é a eleição em Santa Catarina. Não tenho compromisso com a chapa nacional. Estarei próximo de quem for parceiro - disse a deputada Ângela Amin (PP-SC), candidata ao governo catarinense.

Na noite de segunda-feira, na reunião de integrantes do conselho político da campanha de Dilma com o marqueteiro João Santana, ficou claro que os aliados decidiram ignorar os erros da candidatura e esperar o grande trunfo petista: a entrada do presidente Lula na campanha. De acordo com os aliados, a expectativa é que Lula será o verdadeiro candidato e que terá condições de mudar o jogo assim que entrar, junto com os sindicatos. Eles avaliam que o presidente irá agregar, a partir de julho, 10 pontos na pesquisa.

- O grande diferencial será Lula e a militância, com os sindicatos 100% fechados com a campanha. Dilma terá que ser empurrada, ou rebocada. Nos primeiros 30 dias, Lula e a militância agregarão de 10 a 15 pontos de largada. Dilma crescerá com cenários que não dependem dela. Serra não, é ele sozinho - disse um integrante do comando da campanha.

- É possível que o presidente Lula se afaste para entrar na campanha de cabeça, mas primeiro ele quer sentir o desempenho de Dilma - disse o representante do PR, deputado Luciano Castro (RR).

No Ceará, disputa pelo Senado está complicada

A situação no Ceará está muito complicada por causa da disputa pelo Senado. O PMDB não quer um nome da própria base aliada concorrendo com o deputado Eunício Oliveira, presidente estadual do partido, escolhido para concorrer ao cargo.

A indicação do PT é o ex-ministro da Previdência José Pimentel. A intenção é impedir a reeleição do senador Tasso Jereissati (PSDB), para enfraquecer a oposição no Senado. A escolha desagradou ao governador Cid Gomes, que não endossou o nome do petista e só declarou apoio a Eunício.

Serra no RS, descontração e otimismo

DEU EM O GLOBO

Momentos de libido em alta

No RS, Serra diz que tesão ajuda a administrar; ao "CQC", que aprecia "pescoço de mulheres"

Sérgio Roxo e Márcia Abos Enviado especial

SANTA MARIA (RS) e SÃO PAULO. Em um discurso recheado de críticas ao PT, o pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra, disse ontem, em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul, que é preciso ter “tesão” para resolver os problemas que podem emperrar a continuidade do crescimento da economia brasileira.

— Vão me perguntar: você está pessimista? Não. Se couber a mim, podem estar certos que vamos enfrentar e manter o bom desempenho econômico.

Mas exige conhecimento, cuidados e muito tesão, muita vontade de consertar essa situação — disse Serra, em encontro do Fórum das Entidades Empresariais de Santa Maria.

Segunda-feira, confrontado com questões delicadas no humorístico “CQC”, da “TV Bandeirantes”, Serra já se mostrava confortável em temas picantes: falou sobre sua primeira vez, o gosto por “pescoços de mulheres” e traição. A entrevista, ao quadro “O povo quer saber”, foi na casa de Serra e respondeu perguntas dos telespectadores.

O tucano só se mostrou contrariado com uma pergunta sobre a exvereadora Soninha Francine e sobre que cargo ela teria em seu governo.

Serra disse não lembrar muito bem como foi sua primeira vez, nem sua segunda: — Olha, faz muito tempo, não lembro direito.

Mas lembro que queria ter um bom desempenho.

O tucano confessou ter “um certo medinho” de tomar injeção. Achou graça ao perguntarem se era um vampiro: — Aprecio muito pescoços de mulheres, mas não a ponto de morder para tirar sangue.

Perguntaram se Serra “já fez um rala e rola na areia”. Ele olhou para a equipe do programa, querendo saber o significado da expressão, e respondeu: — Acho que sim, mas faz tanto tempo que não lembro direito.

O tucano não respondeu se já teve uma relação extraconjugal, limitou-se a chamar a atenção do telespectador: — Mas que pergunta, hein? Como você é xereta, hein? A última pergunta foi qual das outras pré-candidatas, Marina Silva (PV) ou Dilma Rousseff (PT), Serra “pegaria”.

O tucano perguntou à equipe do “CQC” se Marina é casada. Depois de ouvir que sim, respondeu: — Não pegaria nenhuma das duas, até porque sou casado. E a Marina também. Seria uma confusão muito grande.

Um telespectador perguntou: — Se você for eleito, que cargo vai dar para a Soninha? — Qual Soninha? Eu tenho uma secretária Soninha. Tem a Soninha que era subprefeita, foi vereadora. Tem mais umas três ou quatro Soninhas. A pergunta é provocativa — reagiu.

Lembrando que Dilma já fez cirurgia plástica, um telespectador quis saber se Serra faria um implante capilar.

Ele disse que não.

— Não gosto de ser careca, mas não vou mudar meu rosto. Além do mais, não tem matéria-prima para fazer implante — brincou, mostrando as laterais de sua cabeça.

Em Santa Maria, Serra citou a taxa de juros como “a maior do mundo”; a carga tributária, “a maior dos países em desenvolvimento”; o baixo investimento em infraestrutura, a “segunda menor taxa de investimentos governamentais em proporção ao PIB”; e o déficit nas contas externas como “problemas sérios” que podem interromper o ciclo de crescimento do país.

Serra disse que o PT ao chegar ao poder tirou proveito de conquistas, como a Constituinte, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e o Plano Real, criticadas pelos integrantes da sigla no momento da implantação.

Sobre a batalha judicial de representações entre PT e PSDB no período de pré-campanha eleitoral, respondeu que há transgressões nos dois lados da disputa, mas disse que são desiguais: — Não há essa igualdade em ambos os lados em matéria de transgressão (à legislação eleitoral). Seria injusto dizer que, no atacado, estamos fazendo o mesmo tipo de coisa.

Serra ganha mais 22s de tempo na TV

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Aliança com PSC, da base aliada de Lula, deixa acordos estaduais de fora e exclui apoio a Joaquim Roriz ao governo do Distrito Federal

Christiane Samarco

BRASÍLIA – O PSC fechou aliança nacional com o PSDB para apoiar a candidatura do tucano José Serra à Presidência, sem dar chances à petista Dilma Rousseff para qualquer apelo em contrário. Foi o que o presidente do PSC, pastor Everaldo Pereira, comunicou ontem ao presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

A coligação só será oficial após passar pelo crivo da direção do Partido Social Cristão. Na conversa com Guerra, porém, o pastor Everaldo assegurou que a Executiva Nacional do PSC está decidida a apoiar Serra.

Com isso, o tucano passa a contar com mais 22 segundos em cada um dos dois blocos diários do programa eleitoral gratuito no rádio e na TV. Além de ganhar o tempo do PSC, Serra evita que a adversária petista incorpore a seu tempo de propaganda eleitoral os segundos de um partido aliado do presidente Lula.

Um dirigente do PSDB afirma que a negociação com o partido da base lulista não incluiu palanques estaduais e que o acordo não estabeleceu condições. A tradução eleitoral do acerto é que o PSC não condicionou o apoio a Serra ao apoio à candidatura de Joaquim Roriz ao governo do DF.

A notícia agradou setores do tucanato que querem Roriz fora do palanque de Serra, por conta de denúncias de corrupção. Setores mais pragmáticos do partido argumentam que a parceria com Roriz pode render a Serra cerca de 1 milhão de votos na periferia de Brasília.

Na maior parte dos Estados, o PSC está aliado aos tucanos e a direção partidária avalia que esse é o melhor caminho para o crescimento da legenda no País.

"Tesão". Em discurso a empresários e líderes comunitários de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Serra disse ontem que enfrentará os problemas econômicos do País com "muito tesão". Segundo ele, o que foi feito até agora dá ao Brasil "boas condições" de garantir o crescimento para o futuro, mas apontou alguns problemas que ainda persistem, segundo sua ótica.

Entre eles, citou o superávit comercial em declínio, enquanto o Brasil precisa de investimentos do exterior. "É um assunto que tem de ser enfrentado." Para Serra, a questão da infraestrutura precisa de solução urgente. Por fim ponderou que a União faz poucos investimentos, deixando 70% deles para Estados e municípios que, por lei, não podem fazer déficit. Ele já havia criticado o tratamento dado pelo governo federal à saúde, segurança e educação.

"Acho sinceramente que dá pra gente enfrentar. Se couber a mim, pode estar certo que vamos manter o bom desempenho econômico, mas exige conhecimento, cuidados e tesão, muita vontade de consertar essa situação."/ COLABOROU EVANDRO FADEL, ENVIADO ESPECIAL A SANTA MARIA

PP deve ficar neutro na corrida presidencial

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Eugênia Lopes, Vera Rosa

BRASÍLIA – Nem Dilma, nem Serra. A tendência do PP é ficar neutro nas eleições sem se coligar formalmente com a candidata do PT à Presidência ou com o tucano José Serra.

Na tentativa de atrair o partido do deputado Paulo Maluf (SP), Dilma Rousseff entrou ontem na operação política, sem resultado. Um fato, porém, animou os petistas: diminuíram as chances de o PP apoiar o PSDB depois que a parceria entre os dois partidos naufragou no Rio Grande do Sul. "Até a última semana de maio, vamos ter um posicionamento de todos os Estados sobre a aliança nacional" , afirmou o presidente do PP, senador Francisco Dornelles (RJ).

Cortejado para a vaga de vice na chapa de Serra, Dornelles almoçou ontem com Dilma, acompanhado do ministro das Cidades, Márcio Fortes, o único representante do partido na Esplanada.

"O importante é que a direção do PP autorizou seus integrantes a continuarem no conselho político da campanha de Dilma e a reforçarem os comitês de apoio a ela", disse o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha.

Levantamento preliminar feito pelo PP indicou a preferência do partido pela candidatura de Dilma com 20 Estados favoráveis à petista e sete pró-Serra.

Minas. Dilma jantou ontem com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), cotado para vice em sua chapa. Hoje, PT e PMDB se encontram na Câmara. A reunião terá as presenças do senador Hélio Costa (PMDB), candidato ao governo mineiro, e do ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT), um dos coordenadores da campanha de Dilma.

Serra receita "tesão" na economia, mas nega "virada de mesa"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Tucano critica "entraves" ao crescimento, como câmbio, juros e deficit externo, mas promete solução "gradual"

Tucano aproveita giro pelo Rio Grande do Sul para fazer críticas ao MST e costurar apoios do PMDB e do PP no Estado à sua candidatura


Catia Seabra
ENVIADA ESPECIAL A SANTA MARIA (RS)
Graciliano Rocha
DA AGÊNCIA FOLHA EM SANTA ROSA (RS)

O candidato do PSDB e líder da disputa pela Presidência, José Serra (PSDB), disse ontem que não pretende "virar a mesa" na economia, mas apontou "entraves" ao crescimento do país: deficit externo, alta taxa de juros, carga tributária e a carência de investimentos.

As críticas foram sempre pontuadas com ponderações, para não dar margem a críticas do governo e do PT. Ele disse que não está pessimista e que dá para "enfrentar" esses problemas mantendo um bom desempenho econômico.

"Exige conhecimento, cuidados e muito tesão, muita vontade de consertar a situação", discursou, durante almoço em Santa Maria, parte de seu roteiro no Rio Grande do Sul.

Serra disse que a questão do câmbio tem de ser "enfrentada", mas negou que vá fazer mudanças radicais: "Ajudei a botar a mesa de pé no Brasil. Não vou virar a mesa. Mas temos que ter consciência de que esse [o câmbio] é um problema e ver as formas de enfrentamento gradual e responsável".

Repetindo que não aposta "no quanto pior melhor", Serra reconheceu avanços no governo Lula. "Isso é uma coisa. Outra é achar que o Brasil está pronto ou não tem problemas."

Questionado se tanto ele quanto Dilma Rousseff (PT) teriam antecipado a campanha, Serra admitiu que a lei eleitoral cria um "hiato" entre a desincompatibilização e o início da corrida sucessória.

Ele disse que "não tinha ideia a respeito de ajuda" de administrações tucanas ao evento evangélico do qual participou no sábado, Santa Catarina, mas que, se soubesse, "provavelmente não teria deixado de ir". "Não houve nenhum uso [eleitoral]. Eu não disse nada a respeito da eleição diretamente".

MST

Em outro evento, em Santa Rosa, Serra disse que o MST usa a reforma agrária como pretexto para "invasões políticas" e afirmou que, se eleito, vai cortar as fontes de financiamento federal do movimento.

As declarações foram dadas quando o tucano visitava a 18ª Fenasoja (Feira Nacional da Soja), um dos principais eventos do agronegócio gaúcho.

"Tem financiamento indireto na esfera federal, isso é óbvio", disse, numa referência aos convênios que permitem ao governo repassar verbas para cooperativas ligadas ao MST.

Palanque duplo

Serra deixou claro que subiria "com muito gosto" em dois palanques no Estado, deixando claro que a governadora Yeda Crusius (PSDB), desgastada após uma crise política, não terá exclusividade. Ele negocia ter o apoio do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça (PMDB), adversário da tucana.

Além do PMDB, investiu sobre o PP gaúcho. "Temos interesse em compor com o PP, inclusive no cenário nacional. Precisamos desses segundos", orientou, numa roda.

Serra troca afagos com PMDB gaúcho

DEU NO ZERO HORA (RS)

Pré-candidato do PSDB à Presidência recebeu elogios do prefeito de Santa Maria e retribuiu com aceno a José Fogaça

Em sua primeira incursão em terras gaúchas como pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra conversou com eleitores e trocou afagos e elogios com peemedebistas do Estado – ainda que o partido, formalmente, deva integrar a aliança da principal adversária, Dilma Rousseff (PT). O tucano, que passará hoje por Porto Alegre, foi recebido com entusiasmo em Santa Maria.

Além de líderes do PSDB gaúcho, esperava por ele na pista do aeroporto da cidade o prefeito santa-mariense Cezar Schirmer (PMDB). Em almoço com autoridades e empresários locais, Schirmer chamou Serra de “querido presidente”, corrigindo o tratamento em seguida para “querido amigo”. O peemedebista não poupou elogios ao ex-governador paulista:

– Serra é homem dotado de experiências indiscutíveis para ser presidente da República.

Serra disse ter “muito tesão” para enfrentar problemas

Em um discurso de 53 minutos, o tucano afirmou que o país construiu uma boa base para seguir na trilha do crescimento e disse estar com “muito tesão” para enfrentar os problemas econômicos do país.

Em seguida, a bordo de uma van, Serra foi para o calçadão principal da cidade para cumprimentar eleitores.Sobre as chances de reeleição da governadora Yeda Crusius (PSDB), Serra se esquivou de comentar, mas no que se refere a um possível apoio do candidato do PMDB, José Fogaça, disse:

– É óbvio que eu gostaria de ter uma grande proximidade na campanha.

Depois de Santa Maria, Serra esteve em Santo Ângelo e Santa Rosa, onde visitou a Fenasoja. Nas duas horas em que esteve na feira, Serra criticou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e voltou a tirar fotos e a brincar com eleitores. Preocupado em não fazer campanha antecipadamente, Serra criou novo significado para o gesto do “v” da vitória:

– Isso quer dizer viva a soja.

Às vésperas de anunciar a decisão, Jarbas elogia Serra

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Antes de anunciar amanhã sua decisão, se disputa ou não o governo do Estado, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) conversa, hoje, em Brasília, com o senador Sérgio Guerra (PSDB), mais uma vez. Ontem, eles se reuniram, na sede do PSDB, para buscar o consenso sobre a composição da chapa majoritária das oposições. Quando saiu, Jarbas disse à Agência O Globo que não estaria animado para enfrentar as urnas, mas, ao mesmo tempo, reconheceu que essa é uma missão. “Se depender de mim, não sou candidato. Mas na política as coisas não são assim”, desabafou. Nos bastidores, comenta-se que a opinião do tucano não mudou. Teria desistido de vez de renovar o mandato e reeditar a chapa de 2002, como Jarbas pretendia.

Guerra prefere lançar sua pré-candidatura a deputado federal. Assim, poderá ser o coordenador-geral da campanha do presidenciável José Serra (PSDB). E participar ativamente da sucessão estadual.

Para motivar Jarbas, Serra disse que Pernambuco é uma prioridade. Por isso, precisa de um palanque no Estado. Jarbas revelou à Agência O Globo que está confiante com os rumos da pré-campanha de Serra. “Estamos assistindo a uma campanha sem erros. O PT não esperava por isso. Ele foi surpreendido pela postura impecável de Serra”, falou. Segundo Jarbas, “se o vento soprar muito para Serra”, a dissidência no PMDB vai aumentar – a legenda está no palanque da presidenciável Dilma Rousseff (PT).

Politicamente, Jarbas não conta com o apoio de nenhuma máquina pública forte. Os governos federal, estadual e do município do Recife estão ao lado do governador Eduardo Campos (PSB), que trabalha para ficar mais quatro anos no Palácio. Em função disso, financeiramente, não será fácil conseguir “estrutura” para enfrentar o atual chefe do Executivo estadual. No entanto, em 2006, Eduardo começou sua trajetória vitoriosa fazendo comícios em cima de um caixote e caminhando sozinho nas comunidades.

No caso de Jarbas aceitar a “missão”, resta saber quem vai substituir Guerra na majoritária. Um grupo defende que a vaga para o Senado permaneça com os tucanos. Outro, que o PSDB abra espaço para uma segunda legenda, já que o seu líder maior desistiu. O problema é encontrar alguém que tenha boa votação.

Guerra ainda precisa convencer Jarbas de que vai “segurar” os seus prefeitos. Muitos deles já desembarcaram no palanque de Eduardo. Tudo ainda está no campo das especulações. Até porque Jarbas, se for candidato, não vai anunciar amanhã a majoritária completa, como se previa. Com isso, teoricamente, a oposição tem tempo para encontrar uma alternativa.

Gabeira é Marina, PSDB/PPS/DEM apoiam Serra

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Por telefone, Marina pede que Gabeira explique mal entendido

A candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, cobrou terça-feira explicações do deputado Fernando Gabeira, pré-candidato da legenda governo do Rio de Janeiro. Logo após de formalizada a coligação PV-PPS- DEM-PSDB, foram veiculadas notícias de que Gabeira apoiaria, no primeiro turno, os dois candidatos à sucessão presidencial das legendas: ela e o tucano José Serra. Terça-feira, em seu blog, o pré-candidato verde fez questão de negar a informação.

Alguns jornais online afirmam que apoiarei as candidaturas de Marina e Serra no primeiro turno e se equivocam. O acordo feito em nível nacional e estadual era de que apoiaria Marina e a coligação dos três partidos apoiaria Serra (...). Sou candidato da coligação no sentido de que não farei distinção entre candidatos a cargos proporcionais do PV e dos partidos aliados escreveu Gabeira.

Gabeira explicou que, em função da coligação, o tucano José Serra deverá aparecer em seu programa eleitoral. Mas apenas para pedir votos ao verde. Uma coisa é ele pedir votos para mim. O contrário não vai ter, garantiu.

Sirkis diz que está tudo bem

Afirmando que a candidatura de Marina Silva está sendo alvo de um conluio de setores da imprensa que querem a bipolarização da sucessão presidencial, o presidente do PV no Rio de janeiro, Alfredo Sirkis, também recorreu à internet para evitar rusgas na relação entre os pré-candidatos da legenda.

O Gabeira não falou que apoiaria o Serra, eu estava ao lado dele. Não falou e nem falaria.

Ele apoia a Marina destacou. O que aconteceu foi uma pegadinha: perguntaram para ele se ele recusaria apoio de Serra, e ele disse que não atestou.

Sirkis garante que no encontro para formalizar a coligação entre os partidos, o tema eleição presidencial não foi debatido.

Menos ainda falou-se sobre segundo turno. Até lá, muita água vai rolar e a Marina tem todas as condições para estar nele. Já liquidaram o Ciro (Gomes), mas não vão fazer isso com a Marina, porque ela tem o apoio do partido disparou.

Na coligação formada na chapa de Gabeira, a candidata do PV ao Senado, Aspásia Camargo, foi excluída. Ela vai concorrer à vaga, mas de maneira isolada. Com isso, terá menos tempo na propaganda eleitoral. Os candidatos oficiais de Gabeira serão o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM) e o advogado Marcelo Cerqueira (PPS).

Gabeira diz que estará só com Marina

DEU EM O GLOBO

Verde agora afirma que não fará campanha para Serra no Rio; tucanos insistem no palanque duplo

Cássio Bruno e Rafael Galdo

Mal resolveu o imbróglio em torno do nome do ex-prefeito Cesar Maia (DEM) na disputa pelo Senado, a coligação formada por PV-PSDB-DEM-PPS está envolvida em outra polêmica. Ontem, a direção nacional do PV divulgou nota dizendo que o apoio de Gabeira no Rio será exclusivo para a candidata do PV ao Planalto, Marina Silva, e não dividido com o tucano José Serra. Subindo o tom da discussão na nota “Gabeira apoia Marina e só Marina”, o partido diz ser “totalmente descabida a afirmação atribuída ao ex-deputado Márcio Fortes” de que Gabeira apoiaria os dois candidatos à Presidência.

Gabeira agora nega que fará campanha do tucano e afirma que caminhará apenas com Marina.

Mas o provável vice da chapa, Márcio Fortes (PSDB), insiste que o deputado pedirá votos para Serra e Marina.

Gabeira tenta acalmar os ânimos e, apesar da divergência, diz não haver crise na coligação.

Segundo ele, suas negociações com os tucanos foram cristalinas: para que ele faça campanha com Marina, e para que o PSDB, o PPS e o DEM apoiem Serra. Anteontem, porém, após um encontro das legendas para formalizar a pré-candidatura do verde, Fortes afirmara que Gabeira faria campanha para ambos. E o próprio Gabeira havia dito que os dois presidenciáveis estariam na convenção da aliança, em junho.

Um dia depois, no entanto, o deputado desmentiu o palanque duplo, suposição que gerou respostas da campanha de Marina e do PV.

— Serei candidato da coligação.

Mas o entendimento é de que farei a campanha da Marina.

O vice e os outros três partidos (PSDB, PPS e DEM) fazem para o Serra — disse Gabeira.

— Uma vez superado esse problema com o Cesar Maia, estão tentando que entremos numa outra crise. Só que esta não existe.

Gabeira teria telefonado ontem para Marina para dar explicações sobre o episódio.

Fortes repetiu o discurso de que Gabeira “não é candidato do PV, mas de uma coligação” que tem dois postulantes à Presidência.

Para o ex-deputado, independentemente dos acertos iniciais, apenas o curso da campanha vai mostrar o comportamento dos candidatos: — Pela primeira vez, temos uma coligação que apoia dois candidatos à Presidência. Por isso, são comuns as dificuldades iniciais— disse Fortes.

Alfredo Sirkis, presidente regional do PV, afirmou que, pelo que foi decidido, Serra apoia Gabeira, mas não há reciprocidade.

E acrescentou que as afirmações de Fortes provocaram constrangimento.

— Evidente que cria um mal-estar. Mas não é um problema do arco da velha, sem solução — disse Sirkis. — Claro, no entanto, que os tucanos têm interesse de gerar essa ambiguidade (sobre o apoio de Gabeira).

Câmara dá 7 ,7% a aposentados e decisão de vetar será de Lula

DEU EM O GLOBO

A Câmara aprovou reajuste de 7,7% para aposentados que ganham acima do mínimo e o fim do fator previdenciário - que retarda aposentadorias precoces. O impacto na Previdência é de R$ 15 bilhões. O reajuste era de 6,14%, e o governo avisara que aceitaria 7%. Antes da votação, o ministro Paulo Bernardo reafirmou que o governo vetaria um valor "insuportável". Mas, em ano eleitoral, todos os partidos da base e da oposição votaram a favor. O PT liberou a bancada. O governo deve perder no Senado e o ônus do veto será de Lula.

Um rombo para Lula administrar

Câmara aprova 7,7% para aposentados, criando impacto estimado em R$ 15 bilhões

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA - Em uma das maiores derrotas políticas do governo Lula, a Câmara aprovou ontem dois projetos que ampliam o rombo nas contas da Previdência: o reajuste de 7,7% para os aposentados que ganham acima do salário mínimo, retroativo a janeiro; e o fim, a partir de 2011, do fator previdenciário, em vigor desde 1999 como mecanismo de cálculo para retardar aposentadorias precoces.

Sob aplausos, a proposta de reajuste de 7,7% foi apoiada por todos os partidos, da base aliada e da oposição.

Nem o PT ficou ao lado do governo, preferindo “liberar” a bancada. O governo era contra o aumento, aceitando um reajuste máximo de 7%. A medida provisória 475, em vigor desde janeiro, fixava em 6,14% o aumento dos aposentados nessa faixa. Em ano eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante da previsão de rombo, deverá se ver obrigado a vetar o texto.

No Senado, a maioria dos partidos também já avisou que vai aprovar os 7,7%. Ao longo das negociações, que duraram meses, Lula ameaçou vetar aumento superior a 7%, mesmo diante da possibilidade de um desgaste político em ano eleitoral. O aviso de que Lula vetará um reajuste “insuportável” para as contas da Previdência foi reforçado ontem pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo: — Sei que o presidente Lula já me disse que, se o índice exorbitar muito o acordo, ele vai vetar.

Relator da MP 475, o líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), ficou isolado na defesa de um reajuste de 7%. Segundo dados do próprio governo, o aumento de 7,7% causará um rombo adicional ao INSS de pelo menos R$ 1,6 bilhão em 2010, em comparação aos R$ 6,7 bilhões que custam os 6,14%, que já são pagos desde janeiro.

“Um pepino para ir ao Senado”

Vaccarezza criticou o comportamento dos colegas. Para ele, o resultado foi influenciado pela eleição. Ele estimou em R$ 15 bilhões em 2010 o impacto nas contas da Previdência das duas medidas aprovadas ontem.

— Estamos com esse pepino para ir ao Senado. É tão absurdo. O impacto vai ser de R$ 15 bilhões. Não é valor, chama-se eleição.

O destaque aprovado, prevendo os 7,7%, foi apresentado pelo deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical, e aliadíssimo de Lula e da presidenciável petista Dilma Rousseff. O aumento será retroativo a janeiro, quando o benefício começou a ser pago, e é o resultado da concessão da inflação do período mais 80% do PIB de 2008.

A MP 475 havia fixado como grande conquista para os aposentados os 6,14%, que eram o resultado da inflação do período mais 50% do PIB. O governo argumentou que já tinha dado, pela primeira vez, reajuste acima da inflação, que foi de 2,55% dos 6,14%.

Mas desde fevereiro, os aposentados e seus defensores no Congresso estão em intenso lobby por reajuste maior.

Ontem, os aposentados ocuparam mais uma vez as galerias do plenário, depois de fazerem uma passeata pela Esplanada dos Ministérios.

— Todos votaram a favor dos 7,7%, e tenho certeza de que o Senado vai votar isso por unanimidade. E tenho certeza de que o presidente Lula não vai vetar. O governo vai se dar conta do componente político — disse Paulo Pereira da Silva.

Maior bancada da Câmara, o PMDB foi fundamental para a costura do acordo em torno dos 7,7%.

— Com muito orgulho, votamos em 7,7% — disse o líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (RN), que já tinha informado que acompanharia a posição do PMDB no Senado, que antecipara compromisso com esse percentual.

Na barulhenta votação na Câmara, coube ao deputado José Genoino (PT-SP) encaminhar o voto pelo PT.

Ele disse que acompanhava o líder do governo, contra os 7,7%, mas que liberava a bancada.

Temor sobre Espanha derruba bolsas

DEU EM O GLOBO

Os rumores de que a crise da Grécia teria contaminado a Espanha e de que já estaria sendo elaborado um pacote de socorro de € 280 bilhões derrubaram os mercados globais. A Bolsa de Madri caiu, 5,41% e em Atenas, 6,68%, enquanto em Nova York a queda foi de 2,02%. No Brasil, a Bovespa recuou 3,35% e o dólar subiu 1,66%, para R$ 1,761. O euro perdeu 1,52% frente ao dólar. O presidente do governo espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, desmentiu os rumores, classificando-os como "absoluta loucura".

Ameaça agora vem da Espanha

Rumor de que Madri receberia socorro de G 280 bi derruba bolsas mundiais. FMI desmente

Bruno Villa Bôas*
NOVA YORK, BRUXELAS e RIO

Os mercados viveram ontem um dia de caos arrastados por rumores de que a crise fiscal da Grécia teria contaminado a Espanha e que inclusive já estaria sendo elaborado um pacote de ajuda de C 280 bilhões ao governo de Madri. O impacto no mercado e o pânico dos investidores levaram o presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a desmentir os rumores, classificando-os como uma “absoluta loucura”. Mesmo assim, o euro caiu pela primeira vez desde abril de 2009 para abaixo de US$ 1,30, e os principais índices de ações de Europa e EUA despencaram.

Também pesou nos mercados as incertezas sobre a sustentabilidade do plano de corte de custos anunciado pelo premier grego, George Papandreou, e até mesmo a dúvida se o pacote de C 110 bilhões à Grécia, aprovado no fim de semana pela União Europeia (UE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI), será suficiente para evitar o colapso da economia do país.

A Bolsa de Madri caiu 5,41% e em Atenas, a queda foi de 6,68%. Frankfurt, principal pregão da Europa, recuou 2,60%. A crise europeia repercutiu do outro lado do Atlântico e o Dow Jones, principal índice da Bolsa de Nova York, teve queda de 2,02%, para 10.926,77 pontos, sua menor pontuação desde 7 de abril. No Brasil, a Bolsa recuou 3,35%. Já o euro perdeu 1,52% frente ao dólar, fechando a US$ 1,2991.

Impacto em bancos europeus preocupa

Apesar de a situação fiscal da Espanha ser ligeiramente melhor do que a Grécia, a economia espanhola tem um peso muito maior para a Europa e para o mundo. Enquanto o PIB grego é de apenas US$ 342 bilhões, o espanhol é de US$ 1,47 trilhão e, considerando a paridade do poder de compra, o país é a 12amaior economia mundial. A dívida pública da Espanha hoje supera o meio trilhão de euros, contra C 273 bilhões do endividamento grego e, por isso, se Madri precisar de socorro, a ajuda terá que ser significativamente maior.

Em uma entrevista, o espanhol Zapatero mencionou os rumores de contágio grego na economia espanhola e do suposto pacote de ajuda ao país: — Falaram-me desse boato, e a verdade é que não dou ouvidos. É uma absoluta loucura — afirmou Zapatero. — O que me preocupa é que um boato dessa natureza, que é um despropósito descomunal, provoca um efeito imediato nas nossas bolsas. É intolerável e causa prejuízo à Espanha.

Horas mais tarde, o FMI também desmentiu um suposto resgate da Espanha.

— Não há qualquer verdade nesses boatos — disse o porta-voz do Fundo, Bill Murray.

As agências de classificação de risco Fitch e Moody’s, por sua vez, desmentiram outro rumor que rondou os mercados, de que rebaixariam o rating da Espanha.

Um porta-voz das duas agências disse que elas manterão a nota AAA para o país, mas acrescentou que não especula sobre o futuro.

Para analistas, um agravamento da crise espanhola desestabilizaria a economia europeia.

— Se houver de fato um risco para a Espanha, isso afetará todos os bancos multinacionais — disse Uri Landesman, presidente do Platinum Partners.

— O que está acontecendo na Europa eventualmente vai terminar em calote — disse, por sua vez, Jeffrey Saut, chefe estrategista da corretora Raymond James. — Eles colocaram um band-aid na situação, e eu acho que vai ser muito ruim para o complexo bancário europeu.

Embora os outros 15 países da zona do euro e o FMI tenham concordado conceder à Grécia C 110 bilhões num período de três anos, os investidores veem com ceticismo a aplicabilidade do plano de austeridade anunciado por Atenas. Ontem, centenas de manifestantes gregos tomaram as ruas da capital grega para protestar contra as medidas de corte de custos, que incluem o congelamento de salários e aumento de impostos, para cortar os gastos em C 30 bilhões até 2012. Várias categorias profissionais, sobretudo do setor público, iniciaram greves de 48 horas em todo o país. Hoje, entram em greve trabalhadores de transportes públicos.

Já manifestantes do Partido Comunista grego estenderam uma faixa gigantesca, com os dizerem em inglês: “Povo da Europa, erga-se”, no Pathernon, no topo da Acrópole de Atenas, o mais famoso monumento do país, para protestar contra as políticas defendidas pela UE e o FMI. A polícia não inteveio.

— Essa é uma mensagem para o povo da Europa — disse Panagiotis Papageorgopoulos, dirigente do Partido Comunista, referindo à faixa na Acrópole. — As pessoas estão vivendo o mesmo problema em todos os lugares.

Podemos assumir o controle de nosso destino com protestos organizados, de modo que nossas vidas não sejam dirigidas pela UE e o FMI.

Bancos e seguradoras alemãs prometeram reforçar o socorro à Grécia, principalmente mantendo abertas linhas de crédito para os bancos gregos.

Os bancos também concordaram em comprar títulos emitidos pelo banco estatal alemão KfW, que vai participar diretamente do socorro, como forma de financiar o resgate. O anúncio foi feito em coletiva da qual participaram o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, e o diretorexecutivo do Deutsche Bank, Josef Ackermann.

‘Commodities’ caem e Bovespa perde 3,35%

No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou 3,35%, aos 64.869 pontos pelo Índice Bovespa (Ibovespa), influenciada pela crise europeia e também pela queda de 3,37% nas ações PN da Petrobras. Com isso, a Bolsa recuou ao menor patamar desde 24 de fevereiro. O aumento da aversão ao risco elevou o dólar em 1,66%, para R$ 1,761. Foi a maior alta do dólar em três meses.

— A situação é preocupante. A Espanha precisará honrar o pagamento de C 24 bilhões em títulos em julho e ainda lida com uma taxa de desemprego acima de 20% — disse Leonel Pitta, da Lopes Filho & Associados.

No setor de commodities, o dia foi ainda de ajustes ao aperto monetário da China, que anteontem anunciou um aumento nos compulsórios bancários do país. Recuaram Vale PNA (4,85%), MMX ON (5,50%) e CSN ON (5,04%).

Dos 63 papéis que compõem o Ibovespa, apenas Braskem (1,41%) e Ambev (0,87%) fecharam em alta.

Segundo Fabio Silveira, da RC Consultores, a tendências das commodities permanece de instabilidade nos próximos meses.

— Pequim deve promover novas medidas para desacelerar a economia da China para evitar uma aceleração da inflação.

(*) Com “New York Times”, “El País” e agências internacionais

"Ó o auê aí, ó" :: Vinicius Torres Freire

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Crise greco-europeia afeta Bolsas, que "desabam", e chama a atenção "pop". Mas o que entendemos disso tudo?

O TUMULTO europeu ficou mais "pop" ontem. Meios de comunicação "pop" puderam tratar da crise de modo "gráfico", para usar o anglicismo e até porque TVs e on-lines puderam publicar aquelas ilustrações com bandeirinhas nacionais e setas para baixo, a indicar a queda de cada mercado, sob o título "Bolsas desabam".

Mas crises do gênero sempre serão incompreensíveis para a maioria dos cidadãos, que mal entendem o que sejam Bolsas, muito menos porque elas "desabaram pelo mundo" devido à pindaíba da obscura Grécia.

Talvez alguns noticiários fossem mais prestantes se dissessem apenas, como o surfista carioca da piada, "ó o auê aí, ó" ("olha o auê aí, olha": "deu confusão"). Ou, como meteorologistas, "frente fria deve provocar chuvas e trovoadas", embora tampouco saibamos bem o que sejam frentes frias. Ou se vai chover.

Foi mais ou menos assim também na crise financeira iniciada em 2008, que passou a causar alguma sensação quando "Bolsas desabaram pelo mundo", crise que no entanto nada tinha a ver, a princípio, com o valor das ações em Bolsas.

E daí? O que isso teria a ver com economia? Não tem a ver. Tem a ver com política. Como habitantes de cidades remotas das Províncias de antigos impérios, apenas sentimos bestificados o efeito de decisões inaudíveis ou incompreensíveis tomadas em Roma, Persépolis, Constantinopla ou Alexandria. A consciência vem tarde, apenas quando as hordas inimigas nos atropelam.

Os governos das Províncias que habitamos -Beócia, Capadócia ou Brasil- reagem como podem, quando podem, e mistificam a patuleia, nós, tentando faturar como obra sua o vento da sorte ou se absolvendo do tsunami de más novas, ambos vindos do exterior. Quando em campanha eleitoral, tratam de tampar a última réstia de luz, furtando o público da discussão das medidas que ainda podem ser tomadas autonomamente pelas Províncias. Sobrou pouco a fazer, e nem isso discutimos.

Mudanças geopolíticas, como a entrada na China na Organização Mundial do Comércio e o "segundo grande salto capitalista adiante" decidido pelo Politburo chinês, acabaram por inflacionar o preço dos nossos recursos naturais e nos permitir alguns anos de largueza de consumo e aumentos de salários.

Aqui, isso aparece como "governo de sicrano criou 10 milhões de empregos", como se nada tivesse dependido das decisões do Império do Oriente, o chinês. E como se, de resto, governos "criassem" empregos.

No Império do Ocidente, os EUA, as elites americanas debatem as liberdades da grande banca de criar intricados produtos financeiros que levaram o mundo à breca em 2008, além da liberdade de manipular mercados com esses monstrengos.

Trata-se do famoso caso dos CDOs do Goldman Sachs, produtos financeiros montados a partir de seguros de crédito cujo valor dependia de pacotes de dívidas imobiliárias securitizadas. Não, não é para entender. Mas é isso que faz o mundo rodar, nos dois sentidos de "rodar".

Podemos saber em "tempo real" de detalhes da crise dos derivativos, da dívida grega ou da política monetária chinesa, que definem mais nossa vida que as "rebolations" de Serra ou de Dilma. Mas não adianta nada.

Honduras divide Unasul e ameaça cúpula de Madri

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Correa diz que, além de Lula, outros presidentes de países do bloco podem boicotar reunião com europeus por causa de convite a líder hondurenho

Ariel Palacios, Marina Guimarães
ENVIADOS ESPECIAIS/ CAMPANA

O presidente do Equador, Rafael Correa, declarou ontem que "não se pode ocultar o mal-estar majoritário" com o convite da Espanha para que o novo líder de Honduras, Porfirio Lobo, participe da cúpula de países da União Europeia e da América Latina. "Muitos presidentes da Unasul podem não comparecer (ao encontro que começa no dia 18, em Madri)", alertou Correa, que ocupa a presidência rotativa da União das Nações Sul-Americanas.

"Em Honduras há um conflito latente. O país está fora do sistema latino-americano. É uma leviandade convidar um governo que não é reconhecido por outros países", disse Correa, ao lado da presidente argentina, Cristina Kirchner.

Fontes diplomáticas envolvidas com a reunião em Campana revelaram ao Estado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva informou aos colegas da Unasul que não pretende comparecer à cúpula de Madri, caso Lobo esteja presente.

As mesmas fontes indicaram que o presidente chileno, Sebastián Piñera, apresentou uma proposta conciliadora. Ele teria concordado com Lula sobre Lobo, mas sugeriu que não era conveniente continuar criticando o novo presidente hondurenho por seu passado, mas sim "olhar para frente". Segundo as fontes, apenas Colômbia e Peru não seguiriam a posição de Lula.

Lobo tomou posse em janeiro, mas a maioria dos países da Unasul não reconhece sua eleição, que ocorreu após a destituição do presidente Manuel Zelaya, em 28 de junho.

Segundo Correa, Lula apresentou uma moção para que Zelaya possa voltar ao país e ter restituída a totalidade de seus direitos políticos. O líder equatoriano, que mantém uma relação tensa com a imprensa, propôs ? e obteve respaldo ? que jornalistas fossem impedidos de acompanhar boa parte da reunião da Unasul.

A organização sul-americana também criticou a criminalização de imigrantes ilegais no Estado do Arizona, nos EUA. Segundo a Unasul, a lei permite a detenção de pessoas por considerações raciais e idiomáticas e pode legitimar atitudes racistas.

A Unasul também manifestou sua "solidariedade" ao presidente do Paraguai, Fernando Lugo, que enfrenta nas últimas semanas uma escalada de ataques da suposta guerrilha Exército do Povo Paraguaio (EPP), que atua em cinco regiões do país - hoje, sob estado de exceção.

Segundo a Unasul, a "violência criminosa" ameaça a população e o Estado paraguaio. A organização ressaltou que respaldará as medidas tomadas por Lugo "dentro do respeito aos direitos humanos e os valores democráticos".

Encontro bilateral. Depois do encontro da Unasul, Lula foi para Montevidéu, onde se reuniu com o presidente uruguaio, José Mujica. Ambos discutiram acordos nas áreas de transporte e energia e anunciaram que estudam o uso das moedas locais no comércio bilateral. / COLABOROU ELDER OGLIARI, DE MONTEVIDÉU

Ação do Planalto faz País perder chance de pôr fim a impasse

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Roberto Lameirinhas

A ameaça do presidente Lula de não comparecer a uma reunião de cúpula na Espanha, caso o hondurenho Porfirio "Pepe" Lobo seja convidado, deve pôr o Brasil de novo na contramão de União Europeia e EUA, que se dispõem a reinserir Honduras no sistema internacional.

No Itamaraty, não são poucos os que defendem a revisão da posição sobre o país - pobre e de reduzida importância geopolítica. Lobo, desde o golpe contra Manuel Zelaya, manteve-se discreto, evitou defender publicamente o regime de facto de Roberto Micheletti e ganhou a eleição de forma limpa, ainda que sob a égide do regime de facto.

A eleição teria sido o pretexto ideal para pôr fim à crise. Aparentemente, porém, o Planalto assumiu a condução diplomática do tema, negando o reconhecimento sob o argumento de que isso incentivaria novos golpes na região.

Ahmadinejad agradece a Lula por apoio

DEU EM O GLOBO

Presidente iraniano diz não ter medo de sanções e afirma que isolamento fortaleceu o país

Marília Martins / Correspondente

NOVA YORK. O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, advertiu ontem que a aprovação de sanções contra o Irã na ONU vai desmoralizar as intenções de Barack Obama em mudar a imagem americana no Oriente Médio e acabar com esperanças de sucesso da política dos Estados Unidos no Iraque, no Afeganistão e na Palestina. Ahmadinejad reuniu um pequeno grupo de correspondentes internacionais para dizer que não teme o agravamento de sanções e agradeceu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além do premier turco, Recep Erdogan, pelos esforços de negociar uma saída para o impasse atual: — O presidente Lula e o primeiroministro da Turquia têm sido amigos, vão visitar Teerã, e esperam abrir um caminho para a negociação. Mas é preciso que haja sinceridade do outro lado, do lado dos americanos, o que não está acontecendo. Nós não desejamos mais sanções, mas não temos medo delas. Há 30 anos, o país vem convivendo com sanções americanas e isto só nos fortaleceu e nos uniu — disse o iraniano.

Ahmadinejad afirmou que seu país tem 800 mil pessoas dependentes de tratamento médico à base de urânio enriquecido e que “até por motivos humanitários” os americanos deveriam atender aos pedidos de colaboração que já foram feitos. Ele acusou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, de ter usado “um tom de advertência” contra o Irã quando “deveria ter usado este tom contra os EUA”.

— Este Tratado de Não-Proliferação está sendo usado para impedir países em desenvolvimento de ter acesso à energia nuclear. O TNP não tem a mesma ênfase em supervisionar o desarmamento das grandes potencias como tem para supervisionar a tecnologia dos países em desenvolvimento e impedir que eles desenvolvam suas pesquisas.

Nós pedimos o urânio que precisamos para a ONU, mas alguns países impõem précondições que estão impossibilitando a troca de combustível, porque não estão sendo sinceros e suspeitam que estamos secretamente desenvolvendo armas — acusou Ahmadinejad.

O iraniano considerou positivo o fato de que os EUA revelaram o número de ogivas nucleares de seu arsenal, mas disse que isto não é o bastante: — Os EUA são o único país do mundo a ter usado a bomba atômica.

O que adianta dizer que eles têm cinco mil ogivas? Por acaso este número é pequeno? Este arsenal é menos poderoso do que os anteriores? Não. E como podemos saber se eles dizem a verdade? Eles esperam aplausos, mas a verdade é que deveriam submeter-se a um controle internacional e ter seu arsenal contado por países independentes — disse ele, acusando os EUA de terem usado armas químicas contra seu país na Guerra Irã-Iraque.

Para presidente, Irã trata as mulheres melhor

Ahmadinejad qualificou o discurso da secretária Hillary Clinton como “muito agressivo” e disse que temia que grupos radicais de direita pressionassem Obama para chegar a um ponto irreversível de aprovação de sanções, o que levaria a um afastamento definitivo de qualquer engajamento diplomático.

O presidente iraniano terminou a entrevista dizendo que seu país não apenas respeita os direitos humanos como trata as mulheres muito melhor do que o Ocidente: — O que resta da dignidade feminina no mundo ocidental? No Irã, as mulheres são tratadas com respeito e admiração.

Elas estão em postos do governo, estão nas universidades, são altamente consideradas.

Mas não queremos para nossas mulheres o mesmo tratamento que é dado às mulheres no mundo ocidental. Isto não serve para nós, e a comunidade internacional deveria respeitar as diferenças entre as culturas e sociedades. Isto para nós é respeito aos direitos humanos — avaliou o presidente Ahmadinejad.

CHARGE: Lula pelo "Times"

DEU NO DIÁRIO DO NORDESTE (CE)

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Pavarotti- La Traviata- Brindisi

Vida fugidia :: Graziela Melo



Fugindo
se vai
a vida!!!

Perdida
nos meus
descaminhos,

encontrá-la
já não
consigo!

Deixa-me
ficar
contigo

esbanjando
meus
carinhos

que trago
guardados
na alma...

Pois,
ao fim
da tarde
calma

não
estarás
mais
comigo!

O último
instante
é o agora

e é minh' alma
que te implora:

Deixa-me
Ficar
contigo!!!!



Rio, 04/05/10

terça-feira, 4 de maio de 2010

Reflexão do dia – Luiz Werneck Vianna


A democracia de massas não pode abdicar da república, uma vez que, sem ela, é presa fácil para intervenções messiânicas, quando a decisão de um pode se justificar em nome do interesse geral de que ele seria o intérprete privilegiado. As eleições que se avizinham, mais uma vez, vão confrontar programas dos candidatos em torno de questões substantivas de relevância indiscutível, como educação, saúde, emprego e renda, mas a eles não pode faltar mais, como nas eleições anteriores, o tema da república e da auto-organização da cidadania. Já são décadas de modernização, chegou a hora do moderno.


(Luiz Werneck Vianna, no artigo, “Direito, democracia e república”, publicado, ontem, no jornal Valor Econômico)

Querer é poder?:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A grande incógnita dessa eleição é o alcance do poder de influência do presidente Lula sobre os eleitores. A se levar em conta suas atitudes públicas e notícias que saem em pílulas sobre seu estado de espírito, ele parece convencido de que tem força suficiente para fazer o que quiser, mesmo chegando ao fim do mandato, o que aliás não está lhe fazendo muito bem. O presidente Lula, que prometera voltar para São Bernardo do Campo quando saísse da Presidência da República, já está anunciando que continuará na política, e parece disposto a tudo para fazer sua sucessora.

Agora mesmo, na comemoração sindical do 1° de maio, onde mais uma vez afrontou a Justiça Eleitoral, Lula fez questão de ressaltar que os trabalhadores sabiam quem ele quer para suceder-lhe.

Ora, ao contrário do dito popular, querer não é poder.

Lula no máximo pode achar que Dilma é mais talhada para o cargo, e indicá-la como a melhor opção, mas não pode dar uma ordem ao eleitorado; no máximo, pode tentar convencê-lo de que ela é a candidata ideal para continuar seu projeto.

Mas impô-la como sua escolha, basta o que já fez com o PT, que teve que engolir sua decisão imperial. Levar para o palanque essa mesma determinação pode não dar resultado, porque do outro lado há eleitores que têm que ter o direito de escolher recebendo as informações corretas, e não ordens de um guia político que tudo sabe.

Além do mais, as pesquisas indicam que os membros das classes emergentes são conservadores e pragmáticos, e votarão no candidato que considerarem mais capaz de continuar as políticas que os levaram a melhorar de vida, e não por mero agradecimento.

Partiram, por mera coincidência, de dois músicos as explicações mais plausíveis para a eleição estar como está, equilibrada, mas com a oposição consistentemente na frente nas pesquisas eleitorais.

O compositor Guarabira comentou que não há nenhum incoerência no fato de Lula ter 80% de aprovação e o candidato oposicionista Serra continuar na frente.

Segundo ele, muitos desses 80% que consideram o governo Lula ótimo ou bom são eleitores tucanos, que gostam de ver que Lula prosseguiu as políticas econômica e social do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Por sua vez, Chico Buarque declarou que votará em Dilma porque gosta de Lula.

Mas fez uma ressalva: Dilma ou Serra, dá no mesmo.

É esse sentimento de que qualquer dos dois candidatos pode prosseguir no projeto de Lula, que é uma continuação do projeto de FH, que permite um ambiente tranquilo, quase modorrento na eleição, e dá margem a que o candidato oposicionista consiga fazer a comparação entre ele e Dilma, e não entre Lula e FH, como querem os petistas.

Ao atuar como um candidato que não confronta sua adversária, e muito menos o popularíssimo presidente Lula, o candidato tucano José Serra desmobilizou, pelo menos no momento, a expectativa governista de radicalizar as posições para colocá-lo no córner, caracterizando-o como o representante do retrocesso.

Ao contrário, ele se coloca como o mais capacitado para dar continuidade ao projeto, e somente os militantes petistas e tucanos são capazes de levar a campanha para comparações desqualificantes, ou agressões radicais.

Atribui-se a Lula a decisão de assumir a tarefa de “desconstruir” Serra e mostrar aos seus seguidores que o candidato oposicionista não pode ser sua continuidade.

Vai ser difícil Lula atacar Serra gratuitamente, ainda mais que o tucano não perde ocasião para elogiá-lo. Dilma tentou o confronto com aquela história de “lobo em pele de cordeiro”, mas não deu muito certo.

A face radical dessa eleição está na internet, enquanto os dois candidatos comem feijoada juntos na mesma mesa em Uberaba.

O sociólogo Rudá Ricci considera que analisar as diferenças e proximidades entre gestões FHC e Lula pode ser útil para ter-se “uma visão mais clara da trajetória e tendência que o país vem adotando”.

A análise tem que ser feita, porém, “não pelo foco dos resultados, como pretendem os petistas”, ressalva Ricci, mas pelos conteúdos.

Nessa perspectiva, a política econômica foi similar, diz ele. Já a política social, na sua visão, foi apenas uma vertente da política econômica de Lula.

A questão central, para o sociólogo Rudá Ricci, foi apenas a ampliação do mercado interno — salário mínimo, o Bolsa Família e o crédito consignado — enquanto as políticas de educação e saúde “foram muito marginais e quase insignificantes, erráticas para ser mais preciso, nas gestões Lula”.

Os quatro pilares das gestões Lula, principalmente a segunda, foram, segundo o sociólogo: política econômica (com base monetária monitorada pelo BC); orientação para o desenvolvimento não sustentável (PAC e BNDES); ampliação do mercado interno (também não sustentável, ou seja, a ausência da ação de Estado não garante minimamente a permanência dos emergentes de classe média ou sua projeção social), e fortalecimento do presidencialismo de coalizão (a política, dentre todas, diretamente administrada por Lula).

Rudá Ricci lembra que Fernando Henrique Cardoso também se concentrou na política econômica e, talvez, um pouco mais em saúde e educação, com Paulo Renato à frente.

Ele considera o ex-ministro da Educação injustiçado, “já que Serra apareceu mais que ele, embora tenha feito muito mais que o candidato a presidente”.

O sociólogo Rudá Ricci considera que Fernando Henrique “foi muito frágil na construção de um projeto de poder, além de não ter tido tempo para definir uma orientação para o desenvolvimento”.

Pelo que conhece e leu de FHC, se recusa a aceitar a tese de que que ele “teria se jogado nos braços do liberalismo clássico”.

Nos temas mais sensíveis, como reforma agrária, “os dois tergiversaram, justamente porque refutam esta política.

Eles são muito iguais”, finaliza Rudá Ricci, que considera que nos próximos dez anos haverá uma união de forças de PT e PSDB.

Egotrip presidencial:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva pede calma aos correligionários prometendo entrar em campo depois da Copa do Mundo para dar uma "virada" na campanha de Dilma Rousseff e passa a ordem unida a milhares de trabalhadores reunidos para comemorar o 1.º de Maio: "Vocês sabem quem eu quero."

Não obstante o discurso ao molde de código para fugir à vigilância da Justiça Eleitoral - em tempos distantes Lula nessa data afrontava a durindana -, chama atenção nos dois atos descritos acima a centralidade exclusiva que o presidente atribui ao seu papel no resultado dessa eleição.

Substituindo-se à candidata e ao livre arbítrio de seus admiradores. "Eu quero" tanto pode ter sido uma licença inadequada de linguagem como uma manifestação até involuntária daquela viagem aludida por Ciro Gomes quando, no auge da irritação por ter sido preterido sem aviso prévio, disse que o presidente navegava "na maionese", se sentindo o "todo-poderoso", capaz de simplesmente ungir sua escolhida.

Não há novidade no comportamento autorreferido do presidente Lula, cujo bordão "nunca antes neste País" não só foi incorporado à cena como, a julgar por seus altos índices de popularidade, é muito bem aceito pela maioria.

Isso diz respeito a Lula e ao exercício de seus dois mandatos presidenciais. Um sucesso de bilheteria, nem tanto de crítica, mas questão vencida e resolvida.

O ponto em aberto passou a ser a sucessão. Como Lula escolheu disputar de novo por intermédio de candidata sem histórico político, eleitoral ou partidário, o problema posto inicialmente foi a sua capacidade de transferir votos para Dilma Rousseff.

Lula precisou tomar a frente do processo a fim de transmitir ao eleitor o recado de que era ela a escolhida. Fez isso durante dois anos, desde fevereiro de 2008 quando do batizado da "mãe do PAC", e conseguiu tirar Dilma de 2% para a casa de 30% de intenções de votos nas pesquisas.

Não adianta discutir os métodos. Nessa altura trata-se de examinar os fatos. E estes expõem o seguinte: a oposição à frente nas pesquisas, com uma situação política mais favorável inicialmente, sem que isso tenha tido reflexo comprovado nas intenções de voto. Ainda não saíram novas pesquisas.

Portanto, a vantagem que se observa agora para a oposição pode ou não ter ultrapassado do campo político para o terreno eleitoral.

Ou seja, o presidente se baseia na realidade quando pede que seus correligionários não se deixem tomar pela ansiedade.

Conviria, porém, que ele também contivesse a ânsia do ego inflado e deixasse algum espaço para que as qualidades de Dilma Rousseff aparecessem.

Evidente que o presidente como principal arquiteto da própria sucessão precisa ter papel ativo na campanha. O problema é a calibragem. Saber o momento em que essa atividade ultrapassa o limite e passa a ser uma arriscada hiperatividade.

Por exemplo, quando diz que depois da Copa do Mundo ele entra em campo e tudo se resolve, Lula praticamente está dizendo que Dilma sozinha não dá conta do recado.

Outro exemplo: no afã de ganhar terreno em relação ao adversário - contrariando o apelo à serenidade - acaba criando oportunidades, como aconteceu no 1.º de Maio, de a oposição recorrer à Justiça Eleitoral. E é claro que o risco para o governo é sempre maior, porque se de um lado em tese a posse da máquina pública possa favorecê-lo esse é um fator que o deixa mais vulnerável nos julgamentos do Tribunal Superior Eleitoral.

Esse tipo de contestação na fase atual, se aceita, no máximo rende multa. Depois do início oficial da campanha pode significar cassação do registro de candidaturas.

Além disso, há carência de celebração à candidata. Até agora não se ouviu de Lula uma explanação séria e fundamentada sobre as razões pelas quais os brasileiros deveriam escolher Dilma para presidir o Brasil.

Seu último pronunciamento sobre isso foi artificial - "se eu soubesse antes que ela era tão boa não teria sido candidato" -, quase jocoso. Seria um bom começo: parar de falar de si, que deixará a Presidência e logo será passado, e começar a falar dela que sinaliza uma representação do futuro.

Dono da bola ::Fernando de Barros e Silva

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - "Se eu for multado, vou trazer a conta para vocês. Quem é que vai pagar a minha multa? Levanta a mão aí, que eu vou cobrar". Adivinhe quem foi que falou isso? Acertou. Foi "o cara".

Dias antes de brincar desse jeito com o público, no final de março, em Osasco, na Grande São Paulo, Lula já havia sido multado em R$ 5 mil por fazer propaganda antecipada de Dilma Rousseff. Naquele mesmo dia, receberia a notícia de outra multa, desta vez no valor de R$ 10 mil, pela mesma razão.

As multas da Justiça Eleitoral não constrangeram o presidente. Pelo contrário, parecem ter lhe servido como desafio. No mês passado, ele disse que "nós não podemos ficar subordinados a cada eleição a um juiz que diga o que a gente pode ou não pode fazer".

Neste fim de semana, no 1º de Maio, voltou a tratar a legislação no registro da galhofa.

A lei eleitoral em vigor tem sérios problemas, é fato. Ela é um convite à hipocrisia quando diz que os candidatos estão proibidos de pedir votos antes das convenções partidárias, em junho. Da data de desincompatibilização, no início de abril, até lá, criou-se um vácuo, como se não existissem campanhas.

Sabemos que Dilma estava atrás de votos quando participou da festa do Dia do Trabalho; sabemos também que Serra não estava exatamente interessado em orar com os evangélicos em Santa Catarina.

Sabemos, portanto, que Lula não é o único político a infringir as leis. Todos fazem ou tentam fazer isso. Mas, sendo quem é, quando zomba das multas ou desafia a competência do juiz, Lula talvez seja o único a mandar descaradamente às favas as regras do jogo. Parece sugerir ao país que as leis são menores, ou valem menos, do que ele próprio.

Lula prestou um grande serviço à democracia quando rejeitou a tentação do terceiro mandato. Os tucanos fizeram o oposto ao inventar o casuísmo da reeleição. Mas Lula presta um desserviço à democracia quando age como se mandasse no jogo só porque é o dono da bola.

SIMONE - Gonzaguinha - É

Tão iguais, tão diferentes:: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O que Lula, Michelle Bachelet e Alvaro Uribe têm em comum? Lula é classificado como "de esquerda" e seu governo vive alfinetando os EUA. Bachelet é de "centro esquerda" e convivia razoavelmente bem com Washington. E Uribe é "de direita" e dependia de Bush como depende de Obama.

Mas os três têm altos índices de popularidade, mais de 70%. Quando o candidato de Uribe, Juan Manuel Santos, é ultrapassado pelo adversário Antanas Mockus a um mês das eleições do dia 30, na Colômbia, isso remete ao que ocorreu no Chile e projeta ainda mais dúvidas na sucessão no Brasil.

Santos era ministro justamente da Defesa num país em que o combate às Farc é quase uma obsessão e catapultou Uribe à condição de um dos presidentes mais populares da região. Apesar disso, quem dispara é Mockus, do PV, matemático, filósofo, ex-reitor de universidade e duas vezes prefeito de Bogotá.

Repete-se assim, mas com sinal trocado, o que aconteceu com Bachelet, que era a queridinha do Chile, mas não fez o seu sucessor. Eduardo Frei, ex-presidente da República, perdeu para o grande empresário Sebastián Piñera. E Lula? Vai eleger sua ex-ministra Dilma Rousseff ou passar a faixa para José Serra ou Marina Silva?

Petistas e agregados têm certeza de que a popularidade de Lula fará o que a de Bachelet não fez e a de Uribe não está sendo capaz de fazer, porque Lula é Lula. E os tucanos creem que a eleição brasileira vá seguir o rastro das do Chile e da Colômbia, porque Dilma é "pesada", como Frei e como Santos, e os mais de 70% do presidente contam, mas não definem.

Depende.

Nem Bachelet nem Uribe, apesar de igualmente aprovados, chegam a ser tão endeusados quanto Lula se faz no Brasil. E nenhum dos dois mergulhou na campanha como Lula na de Dilma. Logo, há traços coincidentes e práticas diferentes. O que ocorre lá pode até se repetir aqui, mas não necessariamente.

O fator Dilma :: Almir Pazzianotto Pinto

DEU NO CORREIO BRASILIENSE

Diz a sabedoria mineira que “eleição, como mineração, somente depois da apuração”. São comuns os casos de eleições surpreendentes, cujos resultados desmentem reputados institutos de pesquisa, autorizados analistas e doutores em ciências políticas.

Getúlio Vargas foi deposto pelos militares em 29 de outubro de 1945. À frente dos sediciosos encontrava-se o general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra durante o Estado Novo. O ex-presidente viu-se remetido à estância da família, em São Borja, onde permaneceu confinado.

Como candidatos à Presidência da República, se apresentaram dois nomes, com chances de sucesso. Pela UDN, concorreu o brigadeiro Eduardo Gomes, herói da Força Aérea e de quem a propaganda dirigida ao eleitorado feminino dizia: “Vote no brigadeiro; é bonito e é solteiro”. Como adversário, o próprio Dutra, do PSD. Outros dois surgiram, mas na posição de figurantes: Yedo Fiúza, do PCB, e Rolim Telles, pelo PAR (Partido Agrário Nacional).

Contra o general dizia-se ter sido coautor do golpe de 37 e ministro da Guerra de Getúlio. Não bastasse, Dutra era calado e não irradiava simpatia. Logo estava convertido em motivo de desespero para desanimados companheiros de campanha.

A eleição de Eduardo Gomes parecia inevitável, e a UDN já se considerava detentora do poder. Em 27 de novembro, contudo, no derradeiro comício realizado no Rio de Janeiro, cinco dias antes das eleições marcadas para 2 de dezembro, foi lida breve mensagem de apoio de Getúlio a Dutra, em nome da defesa dos direitos outorgados às classes trabalhadoras. A carta, conhecida como “ele disse”, conseguiu o que parecia impossível: a súbita transferência de milhões de votos, que deram a vitória ao general, tido, até então, como derrotado.

Em lance marcado pela ousadia, o presidente Lula assumiu a paternidade da candidatura de Dilma Rousseff. A confiança ilimitada — para não dizer arrogante — na vitória resultaria não do perfil da ex-ministra-chefe da Casa Civil, pouco conhecida e inexperiente em disputas eleitorais, mas da presença de Lula à frente do governo; da aliança celebrada com o PMDB (a quem foi ofertada a Vice-Presidência); do Bolsa Família; da melhoria da qualidade de vida das camadas populares; e, sobretudo, da capacidade do presidente de se conservar ligado às massas, dizendo-lhes aquilo que esperam ouvir, com palavras simples.

Em artigo anterior, previ a vitória de Dilma. Deixei, todavia, a ressalva de que o prognóstico poderia ser invalidado pela ocorrência de fato novo, capaz de neutralizar o capital político acumulado pelo presidente. Lembro-me das eleições municipais de 1988, quando candidatos dos grandes partidos foram derrotados por integrantes do PT, em consequência da morte de metalúrgicos confrontados com soldados do Exército, durante movimento grevista em Volta Redonda. Cidades como São Paulo, Campinas, Porto Alegre, tornaram-se palcos de repentinas guinadas do eleitorado, indignado com aquilo a que a imprensa denominou de massacre.

Pois bem, reconhecidas as diferenças entre personagens, situações e circunstâncias, em 2010 o fator determinante da mudança, no cenário eleitoral, tem o nome Dilma. Dilma Rousseff. Tão logo deixou a Casa Civil, para empreender carreira solo distante do padrinho, a candidata passou a dar demonstrações de não estar à altura do desafio representado pela disputa da Presidência da República, sobretudo tendo por adversário político experiente como José Serra.

A bipolaridade do pleito desfavorece a representante do Planalto e do PT, cujo atestado de pobreza política teria sido passado pelo próprio presidente que, segundo se divulga, recomendou-lhe a redução das aparições públicas, enquanto permanece imersa no aprendizado de construção de frases, articulação de raciocínio, clareza de exposição e postura diante das câmeras de televisão.

Como a excelente candidata Marina Silva não dispõe, até onde se sabe, de meios para enfrentar as gigantescas despesas impostas por disputa de caráter nacional, e o independente Ciro Gomes viu-se privado, por razões metapartidárias, de concorrer à Presidência, a eleição caminha, de maneira inexorável, para a bipolaridade. O fator Dilma poderá determinar a eleição de José Serra. É aguardar e ver se Lula conseguirá, em cinco meses, repetir o prodígio realizado por Vargas, em cinco dias.


Almir Pazzianotto Pinto foi ministro do Trabalho e presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST)

O ''sequenciamento'' de Lula:: Editorial

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Para atrair multidões às festas do 1.º de Maio, centrais sindicais promovem sorteios, contratam cantores populares e animadores carismáticos. É bem verdade que o fazem sobretudo com dinheiro alheio, desembolsado por estatais como Petrobrás, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, BNDES e espertas empresas privadas. Ainda assim, em retrospecto, pode-se argumentar que o gasto foi em ampla medida desnecessário. Afinal, quem conta com um dos maiores artistas de palanque do mundo, o presidente Lula, no auge da forma, tem sucesso assegurado, com a vantagem de que ele não cobra cachê ? apenas pede votos.

Desde que ascendeu ao Planalto, esta foi a primeira vez que Lula resolveu abrilhantar os shows do sindicalismo cujos resultados, por sinal, podem ser medidos pelo número de companheiros premiados com empregos na máquina federal. Mas este não é um ano igual aos outros. Em 2010, a prioridade confessa do presidente, "a coisa mais importante do meu governo", como não se pejou de dizer no congresso do PT, é fazer da ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff a sua sucessora. Para tanto, ele irá a todos os palanques que estiverem disponíveis e aos muitos mais que continuarão a ser erguidos somente com essa finalidade. Trata-se, invariavelmente, de uma operação em dois tempos encadeados.

Um é o da autolouvação, encarnada no mote do "nunca antes na história deste país". O exemplo da hora é o de sua fala no espetáculo da Força Sindical, o primeiro dos quatro a que compareceu no sábado. "Eu duvido que em alguma parte do mundo um presidente depois de sete anos teve coragem de ir a um ato encarar os trabalhadores", vangloriou-se. O segundo tempo é o da pregação da continuidade, agora rebatizada de "sequenciamento", como disse no evento da CUT, logo se voltando para a candidata, num tom que escancarou a relação hierárquica entre criador e criatura: "Dilma, você ouviu o que eu disse?"

Ele se dá a requintes de atrevimento quando desmoraliza em sequência a legislação eleitoral, fazendo campanha antecipada com os meios ao alcance do seu cargo, pelo que já foi multado duas vezes ? outro ineditismo de Lula. "Quero que quem venha depois, e vocês sabem quem eu quero, saiba que vai ter de fazer mais e melhor", discursou na festa da Força, como se a omissão do nome não servisse de deixa para o coro entrar com o hit da temporada, "olê, olê, olá, Dilmaaa, Dilmaaa". Em outro momento, lembra que "a legislação não me permite falar de candidatos" ou que "só posso falar de candidato depois de julho". É uma fraude rudimentar. Lula age como o jogador que passa uma rasteira no adversário e de imediato ergue as mãos em sinal de inocência.

Já no pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, que antecedeu as comemorações do Dia do Trabalho, ele saiu-se com isso: "Algo me diz que este modelo de governo está apenas começando. Algo me diz, fortemente, em meu coração, que este modelo vai prosperar. Sabe por quê? Porque este modelo pertence ao povo brasileiro, que saberá defendê-lo e aprofundá-lo, com trabalho honesto e decisões corretas." O problema de Lula é que a sua escolhida não tem se mostrado capaz de induzir parcelas crescentes do eleitorado a tomar as tais "decisões corretas".
A dependência do padrinho-presidente só aumenta a propensão dele para o vale-tudo.

A citação do nome é o de menos. O que a lei visa a coibir, em defesa do princípio da oportunidade de igualdades entre os candidatos, é a subordinação das instituições políticas aos interesses eleitorais dos seus titulares e partidos. Isso inclui o chamado capital simbólico dos ocupantes de funções executivas: não é por deter o recorde brasileiro de popularidade política que Lula desfrutaria de uma atenuante para os seus delitos; ao contrário, a exploração eleitoral do seu prestígio agrava a transgressão. A oposição pode ficar rouca de tanto protestar. Mas ou o Tribunal Superior Eleitoral aplica ao presidente sanções proporcionais ao seu desdém pelas regras do jogo ou contribui para o escárnio.

D. Marisa usa avião oficial para campanha

DEU EM O GLOBO

A primeira-dama Marisa Letícia usou um avião da Presidência para ir a um encontro da Associação das Mulheres Rurais (Amur) de Uberaba na 1ª ExpoZebu. No evento feminino, a presidenciável petista, Dilma Rousseff, fez discurso de candidata. Auxiliares justificaram o uso do avião dizendo que dona Marisa fora homenageada pela Amur e, depois, que estava representando Lula na ExpoZebu. Presente à exposição, o vice José Alencar falou em nome do presidente.

D. Marisa usa avião oficial para ajudar Dilma

Primeira-dama viaja em aeronave reserva da Presidência para participar de feira com a candidata

UBERABA (MG). A primeira-dama, Marisa Letícia, usou um Embraer 190, um dos aviões reservas da Presidência da República, para participar de um encontro promovido pela Associação das Mulheres Rurais de Uberaba (Amur), numa das barracas da 76 ª ExpoZebu, ao lado da ex-ministra e presidenciável petista Dilma Rousseff. O encontro, no qual Dilma fez discurso de candidata, se transformou num ato de apoio à pré-candidata petista. Auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se confundiram no momento de justificar a viagem da primeira-dama, acompanhada apenas de alguns seguranças, num avião de alto custo.

Primeiro surgiu a explicação de que dona Marisa Letícia viajou de São Paulo a Uberaba apenas para receber uma homenagem da Amur. Em seguida, assessores do Palácio do Planalto divulgaram que a primeira-dama estava em Uberaba como representante do presidente Lula. Ela iria entregar uma carta do presidente aos dirigentes da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), patrocinadora da exposição. Mas, logo depois da explicação, o vice-presidente José Alencar fez um discurso no palco central da exposição para dizer que ele estava ali como representante do presidente.

- Esta questão do uso do avião está definida desde os tempos de dona Ruth Cardoso. O uso do avião faz parte dos critérios de segurança e transporte do presidente e de seus familiares - disse um dos auxiliares da Presidência.

De olho no voto feminino, a ex-ministra Dilma destacou, no encontro, as ações do governo Lula em prol da mulher e enalteceu as qualidades femininas. Segundo Dilma, muita gente diz que as mulheres não sabem tomar decisões. Mas, de acordo com ela, isso é um tremendo equívoco. Numa referência indireta a si mesma, a pré-candidata disse que as mulheres estão prontas para o poder.

- Aprendi que as mulheres estão prontas para governar o Brasil. Não porque uma ou outra mulher só se destaca. Mas, sobretudo, porque o Brasil tem um conjunto de mulheres de expressão na sociedade. Acho que não só as mulheres estão preparadas para governar o Brasil como o Brasil está preparado para ser governado por mulheres em todas as instâncias - afirmou Dilma para uma plateia de aproximadamente cem mulheres.

De acordo com dados da última pesquisa Datafolha, o pré-candidato tucano, José Serra, tem vantagem em relação a Dilma junto ao eleitorado feminino - 35% a 25% das intenções de votos das mulheres.

Durante a reunião, a mulher do prefeito Anderson Adauto (PMDB), Ângela Mairink, declarou apoio a Dilma. Ela disse que trabalhará em favor da ex-ministra durante a campanha eleitoral. Dona Marisa não falou na solenidade.

Já o candidato tucano José Serra, depois de participar da abertura da ExpoZebu e do almoço coletivo numa fazenda, se reuniu a portas fechadas com um grupo de dirigentes da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu. (Jailton de Carvalho, enviado especial)

Comparar Serra com Dilma é inevitável:: Orestes Quércia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Os petistas insistem tanto em falar de FHC e Lula porque sabem que é um risco insuportável instalar Dilma na Presidência

O presidente Lula e o PT pretendem que as próximas eleições sejam uma comparação entre Lula e FHC.

É curioso como, na ânsia de ganhar a eleição e manter o padrão de vida conquistado, dirigentes e parlamentares do PT parecem se esquecer de que sua candidata se chama Dilma Rousseff. Nem sequer citam a ex-ministra em artigos e declarações.

Essa omissão poderia ser considerada uma descortesia com Dilma, mas, na verdade, revela o terror dos petistas: a comparação realmente inevitável é entre Serra e Dilma, que são os candidatos à Presidência.

E não há dúvida de que essa comparação é francamente favorável ao ex-secretário do Planejamento, ex-deputado federal, ex-constituinte, ex-senador, ex-ministro do Planejamento e da Saúde, ex-prefeito e ex-governador José Serra.

Política, como toda atividade humana, precisa ser desenvolvida com o sentido de carreira. As pessoas precisam aprender em níveis de responsabilidade menor para que possam desempenhar satisfatoriamente desafios maiores. Caso contrário, o risco do desastre é grande.

Esse raciocínio é elementar. Nenhum alpinista começa pelo Everest, a maior montanha do mundo.

Senti isso com clareza na minha própria carreira. A experiência de vereador foi fundamental para o sucesso da minha gestão como prefeito de Campinas. Desta, amadureci na política para representar São Paulo no Senado num momento de luta intensa pelas liberdades democráticas.

Do Senado, parti para ser vice-governador, onde aprendi como se comanda uma estrutura como o governo de São Paulo, que desempenhei com forte aprovação popular no momento seguinte. A vida é assim, etapa por etapa, aprendendo sempre para errar pouco e acertar muito.

Na política, a experiência é ainda mais importante. É fundamental disputar eleições, ganhar e perder, pois apenas assim se aprende a liderar, construir maiorias, vislumbrar consensos, arbitrar conflitos, persuadir, fazer impor o interesse público e administrar crises.

É desnecessário ressaltar a dimensão da Presidência. O presidente tem como primeira responsabilidade a garantia da governabilidade num ambiente adverso: dezenas de partidos, ausência de fidelidade, tendência à dispersão. A liderança de quem ocupa a Presidência é essencial para impor o interesse público.

Da mesma forma, o presidente tem a responsabilidade de manter a inflação sob controle e fazer a economia crescer mais, gerando mais emprego e renda para as pessoas.

E há muitas outras responsabilidades, como melhorar a saúde e a educação, aumentar o investimento na infraestrutura, melhorar a segurança.

O presidente tem que ter, obrigatoriamente, visão, liderança, ascendência, respeitabilidade, experiência, interlocução, preparo e vivência.

A Presidência da República não é local para amadores ou novatos em eleição. O país não pode pagar o preço, na melhor das hipóteses, do aprendizado do novo líder. No pior cenário, o país não pode cair na crise causada pela falta de liderança, de visão e de capacidade de seu presidente.

Os petistas insistem tanto em falar de FHC e Lula porque sabem, e toda a sociedade começa a perceber, que é um risco insuportável para o Brasil instalar Dilma Rousseff na Presidência.

Com todo o respeito à ex-ministra, falta-lhe tudo em experiência política, pois ela não disputou até agora uma única eleição e não exerceu nenhum mandato popular.

Percebe-se claramente, em sua fala belicosa e na completa ausência de tato na abordagem de questões políticas, que faltam eleições e mandatos em sua biografia.

Essa falta de experiência seria fatal na hora de construir maiorias, administrar interesses, formar consensos, administrar crises e fazer preponderar o interesse público.

Todos sabem que o presidente Lula contava para a sua sucessão com outros nomes mais qualificados, mas o PT perdeu esses quadros por conta dos muitos escândalos em que se meteu, em especial no célebre mensalão.

Dilma é o nome que sobrou, uma mulher trabalhadora e íntegra. Mas querer que sua primeira experiência como mandatária popular seja a Presidência da República é um desacato ao Brasil.

O eleitor, que não é bobo, já começa a perceber que Serra é infinitamente mais preparado para ocupar a Presidência. Daí o PT querer esconder Dilma atrás de Lula.

Evidentemente, não vai dar certo, pois os candidatos são Serra e Dilma.

É essa a comparação inevitável que o eleitor fará, para desespero dos petistas.

ORESTES QUÉRCIA é presidente estadual do PMDB de São Paulo. Foi governador do Estado de São Paulo (1987-91), senador pelo MDB de São Paulo (1975-83) e candidato à presidência da República nas eleições de 1994.

Do Nordeste para o Brasil

DEU EM O GLOBO

Em entrevista em seu site sobre o filme “Vidas Secas”, a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, cometeu mais uma gafe: falou do Nordeste como se a região fosse fora do Brasil. ”Em ‘Vidas Secas’ tá retratado o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil, disse.

Nordeste no exterior

Ao falar de filme que trata de retirantes, Dilma comete gafe

Maria Lima

BRASÍLIA. Criado para treinar a candidata diante das câmeras, o programa de entrevistas inaugurado no site da petista Dilma Rousseff provocou nova polêmica. Numa entrevista sobre cultura, Dilma, ancorada pelo coordenador de internet da campanha, Marcelo Branco, e pela apresentadora Carla Bisol, cometeu mais uma gafe: ao citar o filme “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos, Dilma falou como se o Nordeste não fizesse parte do Brasil. O filme, baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, retrata uma família de retirantes em luta constante contra os donos das terras e fugindo da seca.

A resposta foi a uma pergunta de Marcelo Branco sobre a experiência da pré-candidata nos cineclubes, em Belo Horizonte.

Depois de hesitar um pouco, ela respondeu que era ousado e até subversivo naquela época discutir sobre a pobreza retratada no filme.

— Você imagina as discussões que saíam, porque em Vidas Secas está retratado todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil.

Para passar informalidade, Dilma é mostrada de forma relaxada, com postura pouco elegante. As respostas eram ensaiadas, sobre temas como cinema, música e programas do governo para incentivar o setor.

A entrevista foi dividida em dois blocos.

Nas primeiras perguntas, Dilma parece que está lendo as respostas no teleprompter. Ao seu lado, Marcelo Branco aparece pronunciando baixinho, com movimentos labiais e de cabeça, as palavras que Dilma diria em seguida. Ao final das perguntas, ele acompanhava as respostas rindo. A certa altura, o coordenador pergunta se o vale cultura pode ser usado em lan houses: — Pode sim, aliás, é muita rica a experiência das lans houses — responde Dilma, escorregando no plural.

— Boa notícia! — responde Branco.

Na entrevista, que promete ser semanal, com temas variados, Dilma diz que o governo Lula elevou o orçamento da cultura de antigos R$ 300 milhões para R$ 2,2 bilhões.

Presidente é popular mas tem limites: Raymundo Costa

DEU NO VALOR

Além de escalar a equipe jurídica da campanha da ex-ministra Dilma Rousseff a presidente, o advogado Márcio Thomaz Bastos será o consultor especial de Lula nas eleições. Ele já dá pitacos no conteúdo dos programas de tevê da candidata do PT, mas sua principal missão será a blindagem da participação do presidente na campanha eleitoral de Dilma, que deve ser intensificada nos 45 dias de propaganda gratuita no rádio e na televisão.

Thomaz Bastos e Lula formaram uma parceria de sucesso no primeiro mandato do presidente.

O advogado foi decisivo em alguns dos principais percalços legais do governo. Lula, por exemplo, queria recusar a renovação do visto no passaporte do jornalista Larry Rother, correspondente do The New York Times, o que na prática correspondia à expulsão do repórter do país e um ataque à liberdade de expressão assegurada pela Constituição. Os argumentos de Thomaz Bastos foram decisivos para Lula recuar da decisão.

O criminalista também deu o tom da reação do governo ao escândalo do mensalão. Thomaz Bastos releva sua participação na operação em que o governo classificou o mensalão dos pecados veniais. Segundo alegava, qualquer advogado de porta de cadeia não teria dificuldade para explicar a dinheirama que circulou entre os partidos como um esquema de caixa 2, prática "comum" aos partidos a qual sucumbiu também o PT, como diria mais tarde o próprio presidente da República.

Na prática, Thomaz Bastos teve um papel no mensalão que transcendeu a simples consultoria jurídica. É do conhecimento público que o advogado serviu como mediador entre Lula e os principais líderes da oposição, na crise de 2005. Menos conhecida é sua articulação com os líderes partidários no Congresso para evitar a convocação de testemunhas para depor nas CPIs.

Thomaz Bastos ficou conhecido mais como advogado do que como ministro da Justiça do governo. Por isso é importante precisar agora por que Lula recorre novamente aos serviços de um advogado que conhece como poucos os meandros do poder em Brasília.

Uma explicação é que o presidente da República está preocupado com a condenação que sofreu do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por fazer campanha eleitoral antes do prazo permitido pela legislação eleitoral (a oposição, aliás, prepara outra enxurrada de ações). Preocupado, na realidade, é pouco para descrever a reação do presidente à decisão do TSE. Ele parou de reclamar publicamente, diante da condenação geral, mas em particular não poupa adjetivos poucos lisonjeiros aos juízes eleitorais. Lula acha que está sendo usado como "exemplo pedagógico" pelo TSE. Se já é multado agora ao apenas "insinuar" que sua candidata é Dilma, como será quando entrar pra valer na campanha?

O fato é que Lula está prestes a se envolver mais ainda na campanha de sua ex-ministra. O presidente deixou sua candidata solta durante quatro semanas, e o PT não gostou do que viu e se convenceu de que será preciso o presidente empenhar sua gigantesca popularidade, "entrar de cabeça" na campanha para assegurar a transferência de votos para uma candidata que, a menos de seis meses da eleição, não superou a barreira dos 30% do eleitorado, como era esperado de alguém com um padrinho tão forte.

Entre os conselheiros mais próximos de Lula também formou-se o consenso de que o presidente não aceita a ideia de perder a eleição de outubro e está disposto a fazer o que for preciso para eleger Dilma. Essa é a questão: até que ponto é conveniente e legítimo o envolvimento do presidente da República na campanha eleitoral, um ambiente de normal exacerbação de ânimos, sem que isso leve à divisão do país. Lula é presidente do Brasil. Do PT, é apenas o presidente de honra. E ninguém imagina que seja algo mais que figura de retórica ele dizer que não aceita perder as eleições de outubro.

Existe ainda a questão do uso da máquina. O pronunciamento que o presidente fez no 1º de Maio, em cadeia nacional de rádio e televisão, pouco ou quase nada difere dos discursos pelos quais foi repreendido pela Justiça Eleitoral. Contornando as bordas da lei, sem muita sutileza, Lula pediu para a população tomar "decisões corretas" para manter o atual "modelo de governo". O poder de Lula hoje no PT é ilimitado. Politicamente falando, porque como presidente, mesmo popular como nenhum outro, no país seu poder tem o limite da lei.

Pode ser que o PSDB veja fantasmas ao estranhar que o pronunciamento de 1º de Maio, no rádio e na TV, tenha ido ao ar no dia 29 de abril, o dia em que se divulgou que ele era um entre os 25 principais líderes mundiais, de acordo com pesquisa da revista Time. O PT também estranhou as vinhetas do 45º aniversário da TV Globo, que pareciam remeter ao número do PSDB na urna eletrônica. Ossos do ofício. Esse é o clima de campanha eleitoral, e ela nem sequer começou oficialmente.

Lula e José Serra, o candidato tucano que ameaça a eleição de Dilma, têm um histórico exemplar de campanha. Em 2002, emissários do petista procuraram o então candidato tucano para saber se ele usaria um suposto material sobre a vida pessoal de Lula que chegara ao PSDB. Serra ainda não sabia do material, mas se declarou ofendido com a simples suposição dos emissários de que ele pudesse usar acusações pessoais contra Lula na campanha, sem falar que se tratava de denúncia de origem duvidosa.

Na campanha de 2006 para o governo de São Paulo, Serra ficou sabendo que a campanha de Aloísio Mercadante (PT) armara um falso dossiê sobre irregularidades em sua gestão no Ministério da Saúde.

Por meio de um amigo comum, Serra fez chegar a Mercadante o seguinte raciocínio: Ele perdeu em 2002 para Lula e aceitou o resultado sem criar confusão. Por que então Mercadante não poderia perder uma eleição para ele, José Serra, sem causar problemas? Ficou sem resposta, o suposto dossiê foi publicado e os advogados tiveram muito trabalho. O que se espera agora é que a campanha não chegue a esse extremo.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras