quinta-feira, 24 de março de 2011

Serra e Aécio divergem sobre sistema eleitoral

Raquel Ulhôa

O ex-governador José Serra, candidato derrotado a presidente da República pelo PSDB, apresentou ontem à bancada do seu partido no Senado proposta de adoção do sistema distrital puro nas eleições de vereador em 2012, nos municípios de mais de 200 mil eleitores. O partido tende e encampar a proposta, assim como já decidiu defender a implantação do distrital misto nas eleições para deputados estaduais e federais.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou ter "simpatia" pela proposta de Serra de adoção do distrital puro nos municípios com mais de 200 mil eleitores, mas não se comprometeu. Ele lembrou que a comissão da reforma política está discutindo "o sistema geral". Nesse caso, a comissão ainda não faz distinção entre eleição proporcional em municípios ou em Estados. Aécio reafirmou que a posição do PSDB foi de defesa do "distrital misto", em que metade das vagas para a Câmara é decidida em votações nos distritos e a outra metade, em lista fechada.

O presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), participou da reunião do seu partido, assim como o líder na Câmara, Duarte Nogueira (SP). A ideia, segundo Guerra, é que as bancadas das duas Casas trabalhem em sintonia. "Vamos trabalhar junto, Senado e Câmara, para não ter dispersão. A proposta do Serra será incorporada. Somos contrários ao "distritão". É um retrocesso, porque reduz o valor e o papel dos partidos", disse.

Para Serra, a adoção do voto distrital puro na eleição municipal em 2012 seria simples, exigiria apenas aprovação de projeto de lei - e não de uma mudança constitucional - e poderia servir como um teste para eventual implantação desse sistema eleitoral nos Estados, a partir de 2014, para eleger deputados estaduais e federais. Na comissão, os senadores do PSDB votaram a favor do distrital misto a partir de 2014. Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) chegou a apresentar a mesma sugestão de Serra, para as eleições municipais, mas ela não foi discutida.

"Seria uma experiência, para ver como funciona o voto distrital. Hoje numa cidade como o Rio de Janeiro, que tem mais de 4 milhões de eleitores, um candidato a vereador tem que disputar votos nesse universo todo. Não fica ligado a um lugar específico do Rio. Se a cidade for dividida em distritos, que elegerem seus representantes, eles serão ligados a questões da cidade", disse Serra. "Seria um avanço muito grande e reduziria muito os custos de campanha."

Serra disse que seria uma mudança apenas parcial, já que no Brasil existem cerca de 80 municípios desse porte, mas que abrigam quase 40% da população. Para os Estados, ele defendeu o voto distrital misto, pelo qual os deputados seriam eleitos por distrito e também por uma lista.

"Esse é um sistema que funciona em outros países. Não se trata de inventar pólvora. É um sistema mais barato e melhora a representatividade parlamentar. Tem que ter mecanismos de vinculação maior entre o eleito e o eleitor. No Brasil essa ligação é muito tênue", afirmou.

Ao mesmo tempo em que os tucanos discutiam o assunto com Serra, a mudança do sistema eleitoral era o assunto da reunião do vice-presidente Michel Temer, presidente licenciado do PMDB, com a bancada do seu partido no Senado - e de partidos com os quais forma bloco no Senado (PP e PV). Temer foi reforçar a campanha pela aprovação do sistema majoritário (ou "distritão") nas eleições de deputados estaduais e federais e vereadores, em substituição do atual sistema proporcional.

A proposta - combatida pela oposição e pelo PT - tem apoio do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e do senador Francisco Dornelles (PP-RJ), presidente da comissão especial do Senado criada para discutir e propor uma reforma política.

Pelo sistema majoritário, os candidatos mais votados são eleitos, o que nem sempre acontece no modelo atual, em que as vagas dos partidos são calculadas em função dos votos obtidos pela legenda - o que faz com que um candidato muito bem votado ajude a eleição de colegas de partido ou coligação cuja votação não seria suficiente para levá-lo ao parlamento.

Temer saiu da reunião do PMDB otimista com o apoio à sua proposta. Segundo ele, a população entenderá melhor o sistema majoritário, pelo qual o candidato mais votado é eleito, independentemente do cálculo da proporcionalidade adotado hoje.

"O voto majoritário é uma indicação minha baseada no texto constitucional, que diz que todo poder emana do povo", disse. Satisfeito, Dornelles afirmou que Temer "foi muito competente" ao defender o voto majoritário. Esse modelo também está sendo chamado de "distritão", porque, na prática, o território todo (Estado ou município) seria tratado como um distrito.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Aliado de Alckmin lidera ação judicial contra o PSD

Fernando Taquari

Aliado de primeira hora do governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), o deputado estadual Campos Machado (PTB) lidera a iniciativa de contestar na Justiça o uso da sigla PSD (Partido Social Democrático). A movimentação é vista com bons olhos pelo Palácio dos Bandeirantes, que está preocupado com uma possível debandada de tucanos e aliados na Assembleia Legislativa.

O PSD foi criado duas vezes. A primeira pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1945. Durou até 1965 quando foi extinto pela ditadura militar. Em 1980, depois que o regime liberou a criação de partidos, a sigla foi novamente registrada até ser incorporada pelo PTB, em 2003. Uma de suas principais lideranças era o deputado estadual Nabi Abi Chedid, que morreu em 2006.

Campos Machado promete recorrer à Justiça assim que chegar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o registro da nova sigla. "Na época, assumimos até os compromissos financeiros do PSD, que seguem pendentes", disse.

Além de frear o ímpeto de parlamentares interessados em migrar para a nova legenda, a iniciativa do petebista favorece Alckmin na medida em que contribui para esvaziar o palanque de Kassab, interessado em disputar o governo paulista nas eleições de 2014. O tucano deve concorrer à reeleição. Campos Machado, no entanto, nega que a ideia de contestar o uso da sigla tenha relação com a amizade ao governador.

"Somos muito amigos e eu vou acompanhá-lo sempre, mas não falei com o Geraldo (Alckmin) sobre isso", disse o deputado. A relação entre dois cresceu a partir de 2000, quando formaram uma chapa para disputar a prefeitura de São Paulo. A dobradinha foi repetida em 2008, quando tentaram, em vão, pela segunda vez chegar ao comando da capital paulista. O PTB estadual também ficou ao lado do tucano na corrida pelo Palácio dos Bandeirantes em 2010.

A iniciativa ainda pode atrapalhar os planos dos futuros filiados do PSD que pretendam disputar as eleições de 2012, já que a ação deve postergar o registro da sigla. Advogado do PTB, Itapuã Messias ressaltou que o TSE nunca julgou uma situação similar. Mesmo assim, está otimista. Alega que ao invés da fusão, quando uma legenda se une a outra e cria um terceiro partido, a incorporação envolve a adoção do estatuto e do programa partidário da sigla incorporadora. Já os aliados do prefeito afirmam que o PSD deixou de existir e por isso não haveria impedimentos à sua criação.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Sirkis: ''Há um clima quase de ódio contra o grupo da Marina''

Alfredo Junqueira

Alfredo Sirkis, deputado e presidente do PV no Rio de Janeiro

Presidente do diretório estadual do PV do Rio e um dos assessores mais próximos da ex-senadora Marina Silva, o deputado federal Alfredo Sirkis (RJ) confirma que há um clima beligerante que divide a legenda e que pode culminar na criação de um novo partido.

O parlamentar, que integra o grupo Transição Democrática - que pede mudanças internas na sigla -, afirma haver boicote da atual direção contra pessoas ligadas a Marina. Para o verde, o clima é de "quase ódio" em relação a Marina e seus aliados.

Ele cita como exemplo a inviabilização da filiação de uma das filhas da ex-senadora ao diretório do Distrito Federal. Para Sirkis, é inaceitável que o deputado federal José Luiz Penna (SP) seja presidente nacional da legenda por 12 anos.

Quais são os principais pontos práticos de discórdia no PV?

A ideia de um presidente por tempo indeterminado, podendo até ser vitalício, é totalmente inaceitável. Acho que o presidente do PV tem que ter um mandato de dois anos, não ser reelegível. Tem que ser um coordenador, e não exercer o poder de forma vertical. O Penna preside o PV nos últimos 12 anos. Não existe nenhum outro partido - com exceção do partido do Eymael - que tem um único presidente há tanto tempo. Já foi o suficiente.

Há pressão para aceitar políticos sem identidade com a sigla?

Ele comentou na última reunião da Executiva que tinha feito um grande esforço para trazer o prefeito de Salvador (João Henrique Carneiro), o que era contrário à vontade do partido na Bahia. E trata-se de um prefeito completamente desmoralizado e queimado, que colocou a cidade num estado deplorável. Houve época em que ele defendeu a fusão do PV com o PSC. Ali há, de fato, uma divergência. O partido deve crescer necessariamente na cidadania e atrair políticos com mandato que tenham uma profunda afinidade ideológica e programática conosco. É melhor ser um partido menor e coerente do que um partido dentro da matriz tradicional da política brasileira.

A ex-senadora Marina Silva e seu grupo estão representados no comando do PV?

Houve um crescimento da Executiva, que está gigantesca, com 58 pessoas. O poder de fato é exercido por um grupo quase secreto em torno do presidente. A Executiva ficou quase cinco meses sem se reunir.

E a situação nos Estados?

Houve muitos problemas. Em alguns lugares houve até boicotes a pessoas que entraram com a Marina no partido. Situações muito sérias aconteceram no Amazonas, em Mato Grosso, e em outros Estados. Em Brasília, a filha da Marina, segundo ela, não conseguiu se filiar. As coisas nunca são colocadas explicitamente. São sempre uma névoa, um fog burocrático. Em vários lugares pessoas não conseguiram se filiar. Órgãos de reunião não se reúnem há muito tempo e decisões são tomadas de forma totalmente solitária por presidentes estaduais que fazem parte Executiva Nacional. Há uma certa clientela que se cria como base de sustentação do atual presidente.

Existe ou não a possibilidade de se criar um novo partido?

Não diria que é impossível. Mas não estamos trabalhando com essa hipótese nesse momento. Trabalhamos com a hipótese de diálogo. O problema é que criou-se uma coisa que nunca existiu dentro do PV. Há um clima de intimidação, gente que tem medo de se posicionar porque acha que pode sofrer represálias. Vejo um clima que eu nunca imaginei no PV, quase de ódio em relação a gente. Uma coisa muito radicalizada.

Cultura Política (PCB): Marcha da Questão Agrária no Brasil (jan./fev. 1964):: Caio Prado Junior

Já têm sido salientadas, embora não se tenham ainda suficientemente compreendido, a significação e importância que têm no Brasil a legislação rural-trabalhista e sua efetiva aplicação para a solução do problema agrário e a reforma de nossa economia rural. Esse aspecto da reforma agrária tem sido subestimado, inclusive e particularmente pelas correntes políticas de esquerda que acentuam quase unicamente o outro aspecto dessa reforma que vem a ser o parcelamento da propriedade rural e a eliminação do latifúndio. Costuma-se mesmo, freqüentemente, reservar a esta última categoria de medidas, a qualificação de “reforma agrária”, excluindo dela expressa ou implicitamente a aplicação da legislação trabalhista que é relegada a um papel secundário e apagado. Haja vista os pronunciamentos a respeito das reformas de base, e da agrária em particular, onde se trata sempre do combate ao latifúndio, da divisão das terras, e não se toca senão incidentemente nas medidas de proteção do trabalhador rural e reguladoras das relações de trabalho no campo. É sintomático desse descaso o fato de ter passado a um primeiro e quase exclusivo plano dos debates em torno do assunto, a questão da desapropriação das propriedades rurais para o fim de loteamento e distribuição aos trabalhadores. É essa inclusive a posição dos comunistas que desde sempre se colocaram e ainda se colocam na liderança da questão. No documento mais recente em que definem sua posição em frente às reformas de base (a posição dos comunistas diante das Reformas de Base, Abril de 1963, publicado em Novos Rumos, 1 a 9 de Maio de 1963) o ponto relativo à legislação trabalhista não é incluído no texto que se ocupa da reforma agrária propriamente e das medidas destinadas à promovê-la. E sim é arrolado entre as “medidas parciais que melhorem a situação das massas camponesas, incrementem a produção de gêneros alimentícios e matérias-primas”. E assim mesmo essa inclusão é feita em último e mais que apagado e discreto lugar.

Nada justifica essa subestimação, e pelo contrário, os últimos desenvolvimentos da questão, particularmente no Nordeste onde o problema agrário se apresenta de maneira mais aguda, vêm em confirmação da outra tese, a saber, que é na aplicação efetiva da legislação trabalhista, sua ampliação e necessária correção em muitos pontos em que se vem mostrando insuficiente e defeituosa, bem como na adoção de providências complementares destinadas a consolidar e tirar todos os efeitos econômicos e sociais da nova situação criada pela melhoria das condições de vida do trabalhador obtidas com a aplicação daquela legislação trabalhista, é nisso sobretudo que deve consistir, no momento atual, a luta pela reforma e renovação de nossa economia agrária. É daí que se poderão esperar os melhores e mais profundos e imediatos reflexos de ordem econômica e social, e mesmo política, no conjunto da situação brasileira. O que vem ocorrendo no Nordeste constitui experiência preciosa e evidencia que a frente decisiva da luta pela reforma agrária se situa hoje sobretudo na implantação geral e definitiva, no campo, das normas reguladoras do trabalho. Pode-se dizer que aí reside o centro nevrálgico e ponto principal de partida da reforma que deve ser imediata e intensamente atacado. Não é por certo o único, mas sem dúvida o essencial e que oferece melhores perspectivas para a ação reformadora e seu sucesso.

Quais são esses fatos recentemente ocorridos no Nordeste, e particularmente em sua região de maior expressão econômica que vem a ser a área açucareira de Pernambuco? Um amplo e poderoso movimento dos trabalhadores da cana, movimento esse amparado e estimulado pelo governo do Sr. Miguel Arraes, governador do Estado, que assim mostra bem claramente sua inspiração democrática e renovadora da obsoleta estrutura das relações econômicas e sociais imperantes no campo brasileiro, logrou obter no correr do ano findo completa vitória no que diz respeito a pelo menos um dos ítens essenciais da legislação rural-trabalhista que são os níveis de remuneração do trabalhador. Hoje, a totalidade dos trabalhadores da cana que há menos de ano se contavam entre os setores mais explorados e miseráveis dessa já em conjunto tão miserável população rural brasileira, estão percebendo uma remuneração que, embora não tenha em si nada de extraordinário (se bem que ultrapasse o mínimo legal), representa para eles mais ainda que uma simples melhoria quantitativa, pois assume caráter de verdadeira transmutação em suas condições de vida. Basta citarmos os dados: há menos de um ano, percebiam de 80 a 120 cruzeiros diários. Hoje estão recebendo 900!

A explicação desse considerável progresso e magnífica vitória obtida em tão curto lapso de tempo e que subverteu por completo os tradicionais padrões e a escala de valores do interior pernambucano se encontra, a par do fator político que em outras áreas do país não foi ainda devidamente aproveitado e mobilizado para o mesmo fim, encontra-se na rapidez e eficiência com que os trabalhadores pernambucanos lograram se organizar e sindicalizar. É quase um milagre essa pronta e larga mobilização de trabalhadores rurais somente possível porque nela se concentrou a ação e direção política, o que mostra o grave erro de não se conceder a esse propósito, em outros lugares, a primazia no plano político da reforma agrária, em benefício de outros propósitos no momento ainda de remotas possibilidades práticas, como sejam a abolição do latifúndio e a divisão da grande propriedade rural. Conhecemos o interior pernambucano de longa data, e ainda em maio do ano passado, quando lá estivemos, nada fazia crer que de um momento para outro aqueles humildes e submissos trabalhadores da cana, jungidos à sua miserável existência de verdadeiros párias sociais e inteiramente passivos em frente aos usineiros e senhores de engenho seus patrões, fossem capazes de levantar a cabeça e levar de vencida os seus exploradores.

Mas assim foi, e mudou com isso a fisionomia da região pelos efeitos diretos e indiretos da brusca elevação dos padrões de vida da população local constituída em sua maioria de trabalhadores da cana e suas famílias. Modificou-se não apenas a existência dos trabalhadores diretamente beneficiados pela melhoria dos salários, e que começavam já a apresentar os primeiros sinais visíveis, embora ainda muito débeis, de sua integração nos padrões de vida de uma sociedade civilizada – o que não ocorria anteriormente –, mas já se estão sentindo os efeitos da nova situação criada com a brusca elevação do poder aquisitivo dos trabalhadores, nas atividades comerciais da região. Em dezembro do ano passado estivemos entre outros lugares em Palmares, centro da região canavieira sul do Estado e obtivemos aí informações concludentes a respeito em inquérito a que procedemos junto ao comércio local. Não encontramos duas opiniões nem informações divergentes. Grandes e pequenos comerciantes – tivemos contato com muitas e variadas pessoas, inclusive o gerente de uma agência bancária local –, foram unânimes em reconhecer e proclamar que o comércio e a cidade em geral se estão largamente beneficiando com o grande afluxo de seus novos consumidores que são os trabalhadores da cana com seus salários valorizados. O movimento comercial cresceu de várias vezes, e o fato se vem acentuando de mês para mês, não podendo, pois, ser atribuído simplesmente às festas de fim de ano. Está-se vendendo em Palmares – e trata-se evidentemente aí somente de uma amostra, pois o fato é geral em toda zona canavieira –, como nunca se vendeu antes. Não foi possível naturalmente, dada a rapidez da visita e sua improvisação, recolher dados precisos. É, aliás, de estranhar que as agências e organismos oficiais voltados para os problemas de desenvolvimento do Nordeste, como em especial a Sudene, não se tivessem, até agora, mostrado particularmente interessados no assunto, e não procurassem acompanhar atenta e sistematicamente a sua evolução. Encontra-se aí uma experiência evidentemente da maior importância e significação para a análise e interpretação dos problemas de desenvolvimento econômico, e que mereceria por isso uma atenção que infelizmente ainda não lhe foi concedida. Faltam por isso dados quantitativos precisos do fenômeno. Mas o fato aí está para quem quiser observá-lo: o interior pernambucano passa indubitavelmente por transformação de grande alcance no que se refere à vida local, graças ao consumo crescente, pelos trabalhadores rurais, de artigos que até há pouco ignoravam completamente ou adquiriam em quantidades mínimas, como sejam camas, colchões, tecidos, calçados (na zona rural pernambucana era excepcionalíssimo encontrar alguém calçado), artigos de toucador, louça, até mesmo pequenos rádios de pilha. O comércio não tem mãos a medir para atender a esse brusco aumento de sua clientela e os pedidos que lhe vem de um setor até ontem praticamente ausente do mercado, embora constituísse o maior contingente demográfico local.

Trata-se por certo de um processo ainda em começo, e demorará ainda algum tempo – mesmo porque depende também de outros fatores mais complexos – até que a massa rural pernambucana se integre efetivamente e por completo na vida normal de uma sociedade civilizada de que na realidade sempre viveu praticamente afastada. Mas os primeiros sintomas e índices do que significa o processo em início já são suficientes para alcançar algumas conclusões de ordem econômica, social e mesmo política, da maior relevância.

A ampliação do mercado que resulta da irrupção nele de um considerável contingente de novos consumidores antes dele afastados, constitui sem dúvida um poderoso estímulo às atividades produtivas, em particular da indústria. Já se fala em Palmares na eventualidade da transformação do insignificante centro urbano que é hoje a cidade, em importante praça comercial e centro de grande atividade econômica e vida social. Verifica-se com isso que um dos principais, e podemos dizer que fundamentalmente o principal ponto de estrangulamento da economia nordestina e grande responsável do subdesenvolvimento da região, começa a apresentar as primeiras perspectivas de solução. É possível prever o rompimento do tão conhecido círculo vicioso do subdesenvolvimento, que consiste na deficiência de iniciativas e de atividades produtivas por efeito da insuficiência de estímulos num mercado restrito; restrição essa por seu turno decorrente da falta daquelas mesmas iniciativas e baixo nível de atividades econômicas.

De outro lado, o encarecimento da mão-de-obra rural terá necessariamente por efeito – trata-se de uma lei invariável da economia capitalista – estimular a produtividade agrícola pela introdução de melhoramentos tecnológicos (mecanização, adubação, etc.) Ao mesmo tempo esse encarecimento da mão-de-obra e aumento de custos contribuirá para a concentração da lavoura canavieira nas áreas mais favoráveis para essa cultura, liberando-se por essa forma as áreas menos favoráveis que poderão ser aproveitadas para outras atividades produtivas. É graças principalmente ao baixo custo da mão-de-obra que até hoje sempre prevaleceu no Nordeste, que foi possível à cana absorver e monopolizar a quase totalidade das terras, com todas as nefastas conseqüências de ordem econômica e social que daí decorrem. A liberação de áreas deixadas pela cultura canavieira constituirá inclusive estímulo para o parcelamento de grandes propriedades que se mostrarem menos propícias à grande lavoura. Note-se que já começam a aparecer algumas das primeiras iniciativas particulares de loteamento para venda de grandes propriedades. Essas iniciativas poderão e deverão ser estimuladas através de medidas fiscais e outras a fim de se incrementar esse processo de divisão expontânea de grandes propriedades, o que por certo constituirá importante fator do outro objetivo da reforma agrária que vem a ser proporcionar ao trabalhador rural que puder e quiser fazê-lo, maiores oportunidades de acesso à propriedade da terra.

Em suma, as conseqüências da valorização do trabalho rural observado nesta principal zona agrícola do Nordeste que vem a ser a da lavoura canavieira, são multiformes e se projetam em futuro mais ou menos próximo em transformações consideráveis e profundas da economia nordestina em geral. Não pode haver dúvidas que o Nordeste está ingressando agora, e graças sobretudo à elevação dos padrões de vida do trabalhador rural, em nova fase de desenvolvimento bem distinta do passado.

Evidencia-se nesse exemplo concreto que nos oferece o Nordeste e que aí está em pleno desenvolvimento para quem quiser observá-lo e dele extrair as lições que proporciona, a grande força potencial renovadora da economia agrária brasileira e estimuladora do processo de reforma agrária que se encerra na luta dos trabalhadores rurais pelas suas reivindicações imediatas e melhores condições de vida. O que plenamente confirma a tese a que nos referimos no início deste artigo, contra aqueles que teimam em acentuar quase unicamente o aspecto da reforma agrária que diz respeito à divisão de terras. Tem sido esta última, infelizmente, a posição dominante das forças de esquerda, como já notamos, com grande prejuízo, sem a menor dúvida, para a marcha da reforma agrária. Apegando-se unicamente a um aspecto dessa reforma que apresenta menores perspectivas de ação prática no momento, os seus defensores vêm contribuindo, embora inconscientemente no mais das vezes, para fazer da palavra de ordem da reforma cada vez mais um simples pretexto de agitação política de cúpula, traduzida em slogans que não atingem a massa trabalhadora rural (como sejam “reforma agrária radical”, “eliminação do latifúndio”, “terra para quem a trabalha”, etc.), e que se oferecem algum rendimento demagógico em restritos setores completamente afastados dos problemas do campo, pouco ou nada tem dado de prático no terreno da luta efetiva pelas reformas. Para comprová-lo é bastante observar a diminuta audiência e receptividade que tais slogans têm na massa dos trabalhadores rurais que deveriam naturalmente ser os primeiros a ouvi-los e os entender. Isso apesar de não faltar aos mesmos “slogans” a mais aparatosa orquestração, inclusive de círculos oficiais e do próprio Presidente da República. De efetivo e concreto, a campanha em favor da divisão da terra pouco ou nada tem produzido, nem despertou maior atenção da massa rural, circunscrevendo-se até hoje a luta pela terra quase unicamente a regiões e situações excepcionais, como é o caso dos posseiros das zonas pioneiras (oeste paranaense, Goiás...) e dos foreiros de algumas restritas zonas de importância secundária do Nordeste. Nas regiões de real e fundamental expressão na economia agrária brasileira, e onde se concentra a larga maioria da população trabalhadora rural – na lavoura canavieira do Nordeste e do Centro Sul, nos cafezais de São Paulo e Paraná, nos cacauais da Bahia, etc. –, nessas regiões e reivindicação da terra não encontra eco, e não se esboçou aí, em proporções dignas de nota, nenhum sintoma de luta social. O que contrasta vivamente com a agitação, luta e abertura de amplas perspectivas de reforma e renovação econômica, social e podemos até dizer política, que se apresentam no setor das reivindicações trabalhistas. Contraste que ainda seria maior se nesta última direção se tivesse acentuado e concentrado a ação das forças políticas de esquerda, seja através da propaganda, organização e mobilização dos trabalhadores, seja na luta parlamentar pelo aperfeiçoamento e ampliação da legislação social-trabalhista aplicável ao campo; bem como pela adoção de medidas legais complementares destinadas a facilitar e estimular a organização dos trabalhadores rurais, promover e consolidar o novo estatuto material e social deles.

Em vez disso, as forças políticas de esquerda, inclusive os comunistas, se desgastam em estéril agitação que serve muito mais os propósitos do carreirismo político que os verdadeiros interesses das camadas trabalhadoras do campo e os objetivos econômicos e sociais da revolução brasileira. Na raiz dessa falseada orientação política está a incompreensão da realidade brasileira e do sentido profundo do nosso processo revolucionário, o que leva a distorções produzidas por erradas concepções teóricas que consiste ou inconscientemente se inspiram em situações econômicas e sociais completamente estranhas ao Brasil e aqui inexistentes. Decalcou-se simplesmente e sem maior espírito crítico e científico, o inaplicável modelo da reforma e revolução agrária dos países europeus. E se transportou para cá, encaixando arbitrariamente na evolução histórica brasileira, a situação da Europa egressa da Idade Média e do feudalismo cuja economia agrária, tão distinta da nossa, se caracterizava essencialmente pela presença de uma economia e classe camponesa, isto é, uma estrutura econômica e social de pequenos produtores individuais constituída de unidades familiares voltadas essencialmente para a produção de subsistência e onde o mercado representava papel secundário e subsidiário. Essa economia camponesa dos países europeus se encontrou até os tempos modernos – e na Europa oriental, inclusive na Rússia tzarista, até o séc. XX – oprimida, explorada e sufocada pela grande propriedade fundiária de origem feudal. Propunha-se assim a reforma agrária em termos de libertação dessa economia e classe camponesa. Isso se traduzia, em termos sociais, na abolição das restrições de ordem pessoal que pesavam sobre os camponeses e que nos casos extremos consistiam na servidão da gleba; restrições essas que em maior ou menor grau lhes tolhiam a liberdade jurídica e a livre disposição dos produtos de que dependia sua subsistência. E significava, no plano econômico, abrir passo no campo para uma economia mercantil, isso é, de produção para o mercado; bem como para o estabelecimento de relações capitalistas de produção e trabalho, o que representava condição necessária, no momento, para o progresso e desenvolvimento das forças produtivas da agricultura.

Completamente distintas, como logo se vê, são as condições brasileiras, tanto no que se refere à formação histórica de nossa economia, como em conseqüência, no que diz respeito à situação nos dias de hoje. A economia agrária brasileira não se constituiu na base da produção individual ou familiar, e da ocupação parcelária da terra, como na Europa, e sim se estruturou na grande exploração agrária voltada para o mercado. E o que é mais, o mercado externo, o que acentua ainda mais a natureza essencialmente mercantil da economia agrária brasileira, em contraste com a dos países europeus. Não se constituiu assim uma economia e classe camponesa, a não ser em restritos setores de importância secundária. E o que tivemos foi uma estrutura de grandes unidades produtoras de mercadorias de exportação trabalhadas pela mão-de-obra escrava. Situação essa que no fundamental se conservou até hoje. Manteve-se praticamente intacta a grande exploração agrária, operando-se nela, com a abolição da escravidão, a substituição do trabalho escravo pelo livre sem afetar com isso a natureza estrutural da grande exploração. Até mesmo, em alguns e importantes casos, a grande exploração se ampliou e integrou ainda mais. É o que se deu recentemente com a lavoura canavieira no Nordeste onde os antigos engenhos foram sendo progressivamente absorvidos e concentrados e pela usina; bem como em São Paulo, onde a produção açucareira se vem aceleradamente desenvolvendo a ponto de constituir hoje o Estado o principal produtor do país, e onde essa produção se acha altamente concentrada.

Nessa perspectiva da economia do açúcar é muito fácil observar as incoerências e inconseqüências das interpretações mais em voga acerca da economia agrária brasileira difundidas nos meios de esquerda. Segundo essas interpretações, o latifúndio constituiria uma sobrevivência “arcaica” de natureza “feudal ou semifeudal”, hoje inteiramente obsoleta e ultrapassada pelas exigências do desenvolvimento econômico. No entretanto no caso da economia açucareira que constitui sem dúvida um dos principais setores da agricultura brasileira, e certamente aquele em que se encontra a maior concentração fundiária, observa-se, sem margem para dúvidas, que essa concentração, nas proporções em que se verifica e continua se ampliando, representa fato recente e da maior atualidade, nada tendo de “arcaico” e “obsoleto”. Bem pelo contrário, ela não somente tem por estímulo fatores de natureza essencialmente capitalista (em que sobrelevam as exigências dessa grande unidade industrial moderna que é a usina de açúcar), mas ainda proporcionou e foi mesmo condição necessária do aumento de produtividade verificado e do desenvolvimento econômico. Como se enquadraria esse fato tão notório e tão fácil de ser observado e analisado, nos esquemas teóricos correntes acerca da natureza da economia agrária brasileira? É claro que tal enquadramento somente se faz e pode fazer à custa de uma completa distorção dos fatos reais, e mesmo desconhecimento e desprezo dos de maior relevo. E teremos então, como era fatal, erros grosseiros nas conclusões práticas derivadas de tal interpretação falseada, acerca do sentido das reformas propostas. Como exemplificação, lembremos o mesmo documento acima citado, a posição dos comunistas diante das Reformas de Base, onde num capítulo especial acerca da política de desenvolvimento do Nordeste se propõe como meta da luta pela reforma agrária, a “desapropriação das terras dos latifúndios na faixa úmida do litoral (isto é, zona açucareira) e a distribuição das terras aos camponeses”. O que se está efetivamente verificando na prática é coisa muito diferente; mas nem por isso os próprios autores do documento em questão porão em dúvida, estamos seguros, o considerável impulso no sentido da reforma e renovação da economia agrária verificado na zona açucareira do Nordeste, embora isso se esteja dando por vias que a interpretação teórica e a orientação prática deles não previra nem propusera.

Nesse caso da lavoura açucareira do Nordeste, uma falseada concepção teórica não impediu, embora tenha por vezes embaraçado o progresso realizado. De um comunista local ouvi a afirmação que não concordava muito com o caminho que estava seguindo a luta dos trabalhadores da cana porque isso os desviava do objetivo que devia teoricamente ser o seu, a saber, a “reforma agrária radical” nos termos propostos pelo documento e programa comunistas que citamos. Eis aí como uma errada teoria pode desorientar a prática e embaraçar com restrições descabidas e hesitações a marcha da reforma. Não houve, contudo, no caso que estamos considerando, maior prejuízo, porque na situação particular do Nordeste era tal a pressão das contradições presentes – a que se aliou a circunstância particularmente favorável de um governo estadual que deu seu apoio à luta dos trabalhadores –, que foi possível superar quaisquer insuficiências teóricas que se supriram com o empirismo da ação prática. Em outros lugares, todavia, onde tais estímulos e fatores favoráveis à reforma não ocorreram, ou não lograram se manifestar de maneira tão forte, o erro teórico e a desorientação conseqüente da prática deram como resultado o esmorecimento da ação. Não pode ser contestado que nas condições altamente favoráveis do momento presente, tanto no que respeita à situação econômica, social e política geral, como no que se refere à compreensão e ânimo de luta dos trabalhadores rurais brasileiros, a questão agrária marcha muito lentamente na generalidade do País. E continuará assim por muito tempo, até que as forças políticas populares e de esquerda se decidam intervir acertadamente no assunto, deixando de lado a estéril agitação por objetivos que se acham no mais das vezes, na situação do país e no momento que atravessamos, muito além e mesmo inteiramente fora do realizável, a fim de se concentrarem naquelas tarefas da reforma que efetivamente respondem à sua fase e etapa atuais. Essa é a condição para o apressamento da transformação e renovação da economia agrária brasileira, preliminar necessária de novo Brasil de amanhã que se está construindo.

Revista Brasiliense, n. 51, jan/fev., 1964. (último número da revista)

Adoniran Barbosa e Elis Regina

Aula de português ::Carlos Drumonnd de Andrade

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, seqüestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Reflexão do dia - Armênio Guedes (Cultura Política, PCB)

Antes de tudo, para evitar qualquer passo em falso, é preciso analisar e avaliar com precisão o caráter opressivo do regime. A resistência das forças democráticas, quando bem orientada, tem, em muitas ocasiões, atrapalhado a estratégia do regime, ajudando a avançar o processo de abertura.

De qualquer forma, os dados de que se dispõe indicam que o período de transição, longe de ser linear, tende a continuar em ziguezague e pode se prolongar por um tempo mais longo do que seria desejável. As forças democráticas, para avançarem, precisam estar bem conscientes das possibilidades de recuo — de fechamento e de volta aos tempos do AI-5 — que o momento e as tensões atuais encerram. É uma situação que exige firmeza, habilidade e prudência. E em que as convergências e a unidade das oposições são indispensáveis.

Mas esse esforço de unidade e convergência não deve, na conjuntura presente, limitar-se ao universo das oposições. Tem que ir mais longe e, num trabalho paciente e prolongado, abarcar correntes, grupos e pessoas que, apesar de ainda permanecerem no sistema de forças do governo, começam a questionar o autoritarismo do regime e a exigir a ampliação das liberdade públicas.

GUEDES, Armênio. O impasse político e a saída democrática. Voz da Unidade, 31/12/1980.

A favor da democracia: Gilvan Cavalcanti

Muitas das idéias expostas a seguir tiveram forte influência do pensamento do sociólogo Luiz Werneck Vianna, nas suas análises de conjuntura. Vamos a elas:

Seria bom recordar nossa história recente. O governo de FHC era mais refratário à política patrimonialista. Sua ênfase inicial era o fim da Era Vargas. Não esquecer que o PT surgiu com a mesma linha: todo poder à sociedade civil.

Na vida real o PT renegou essas idéias e iniciou o caminho de volta ao velho patrimonialismo das antigas classes e grupos que dominaram o Estado. Transformaram o Estado em o único protagonista político. Trouxeram para dentro dele os distintos agrupamentos sociais – as facções dos empresários industriais, comerciais, financeiros, agrários, os sindicalistas urbanos e os intelectuais do MST. Essa é a base ministerial dos governos Lula/Dilma. Desde então, formou-se um governo pluriclassita de compromisso entre interesses contraditórios, sem intermediação da política, logo dos partidos.

A primeira tentativa de envolver os partidos políticos nesse projeto ficou bem conhecida com o episódio do mensalão.

A chave do modelo petista de governar foi a criação de um tipo “Parlamento paralelo” dentro do governo em contraposição ao parlamento real. No paralelo se discute e se toma as decisões entre os interesses distintos, firma-se o compromisso e é levado para homologação do parlamento real. Construiu-se um atalho para subordinar o sistema político partidário e o legislativo. Sua arma principal é a cooptação. Com tal movimento o Estado trás para si as responsabilidades e funções da sociedade civil, inclusive dos movimentos sociais, etnias, gênero, etc. Tudo que tem vida social ou de interesse tem que passar por dentro governo.

A relação política se dá através da formação de uma vontade majoritária que fica na dependência da divisão das posições ministeriais e de outros cargos na máquina pública. Tudo isso em nome do “presidencialismo de coalizão”. Os partidos políticos passam a viver uma lógica que diminui suas relações com a sociedade e ficam longe de suas demandas. Transformam-se em partidos de Estado, como se expressou o filosofo alemão, Habermas, giram em torno dele e tendo à sua disposição os recursos de poder para sua reprodução nas competições eleitorais.

Como se observa, a dupla representação política e administrativa, usando sempre a cooptação, o Executivo cria e amplia sua autonomia e de seus integrantes, ademais dos poderes constitucionais de legislar através de medidas provisórias. Tudo isso aumenta sua autonomia em relação à sociedade e, ao mesmo tempo, cria correias de transmissões que só funcionam em um único sentido:de cima para baixo. Nessa situação fechada a circulação da política e sua prática são reduzidas ao mínimo. Deixa de circular na sociedade, limitando-se ao protagonismo do Estado.

Por que reafirmo essas questões? Simples. Esse modelo resumido acima, se amplia, isto é, de cima para baixo. E, independente das forças políticas, ele é usado nos principais estados da federação, principalmente pelos partidos que participam da base aliada no nível do governo federal.

A relação dos governadores com as sociedades dos seus respectivos estados é uma cópia fiel, com matizes diferentes e particulares, da utilizada no governo federal. Não podemos esquecer de que em muitas cidades capitais esse modelo também é seguido. Isso aumenta o grau de perigo que sofre a democracia política, o esvaziamento dos partidos políticos, a subordinação dos legislativos, inclusive os estaduais e municipais aos poderes executivos.

A pergunta que fica é: os defensores convictos da democracia vão reagir? Ou vamos repetir já que “todo mundo faz” e por que não deixarmos de ser oposição? Abandonar as convicções de ampliar os nexos com a sociedade e acreditar que só se faz política via Estado? Ou a pior das perguntas: para que ser oposição?

Considero o debate uma boa prática democrática. Com certeza iremos encontrar as melhores respostas às nossas inquietações e aos anseios de mais democracia, mais autonomia ao novo ente federativo, os municípios. Mais descentralização, como argumentava nosso primeiro americanista e estudioso de Tocqueville: o alagoano Tavares Bastos.

Gilvan Cavalcanti é membro da direção nacional do PPS

Agora é defender a política:: Raulino Oliveira

A Política está em crise no Brasil. O resultado das últimas eleições abateu as organizações partidárias que fazem oposição ao estilo petista de governar.

O modelo de governo do Partido dos Trabalhadores é todo baseado na apropriação das máquinas públicas e empresas estatais para sustentação do Poder. O poder a qualquer preço independente de quaisquer princípios.

Os procedimentos de coligações eleitorais e logo depois transformadas em alianças de Governo são de submissão dos Partidos e organizações sociais que aderem ao esquema de Poder do Partido dos Trabalhadores. O silêncio e a obediência são conseguidos através de distribuição do dinheiro público de forma absolutamente irresponsável e em total desrespeito à Democracia.

O projeto de partido único engendrado pelo líder do distrito de Caetés poderia se chamar “Mexicanização ao Agreste”, onde o populismo aliado ao patrimonialismo consolidado pelo assalto à coisa pública são as suas grandes marcas. Marcas sim, porque o líder máximo do petismo se diz e quer ser o grande marketeiro deste projeto.

Os partidos políticos são hoje instituições em profunda crise em todo mundo. Aqui no Brasil a crise é agravada pela intenção do petismo de acabar com a Política e cooptar todas as representações da sociedade para dentro da máquina estatal. Não se faz mais Política no país.

Agora se procuram formas de adesão porque “sem a máquina pública as populações mais pobres e carentes não se motivarão”.

A Política em crise coloca em risco a Democracia e desorganiza o tecido da sociedade. É neste quadro que deveremos lutar. O PPS tem que defender a Democracia e a República contra este jogo despolitizante e de falsa gestão da coisa pública.

Estamos em um ano de Congresso. Teremos que colocar estes debates para
todos os nossos militantes, aliados e Partidos com os quais temos nos coligado desde 2005.

O vírus da cooptação já está sendo inoculado em nossa organização.

Hoje já ouvimos alguns membros do PPS argumentando que querer cargos não é crime e que a denúncia de corrupção é cínica porque todos os outros políticos e partidos já participaram do Poder e fizeram as mesmas práticas do petismo. MENTIRA! Pobre tática de coloração marrom
que quer colocar todos num mesmo saco até o momento em que tiverem força para iniciar a depuração dos “deformados de diferentes credos”.

Não queremos pertencer a nenhuma Confederação de Interesses e vamos lutar no Congresso do PPS para derrotar esta infeliz proposta encharcada de oportunismo de quem não sabe conviver com as dificuldades das derrotas e abdica da oposição democrática que o país precisa. Queremos ser oposição porque o Brasil precisa dela. A Democracia e a República estão em jogo neste perigoso projeto do Partido dos Trabalhadores.

Vamos todos os membros filiados participarmos do XVII Congresso Nacional do PPS e lá lutaremos contra as posições capitulacionistas que só enxergam o futuro, se submissos ao PT e aos grandes malandros nacionais que hoje constituem o PMDB, uma sigla que abdicou de tudo
para participar do botim do Estado brasileiro.

Queremos discutir a reforma do sistema político brasileiro. É pouco discutir a chamada Reforma Política, que na verdade é uma arrumação de reforma eleitoral para preservar o “status quo”. E temos propostas para esta proposição; somos parlamentaristas. Sabemos que esta luta será árdua e longa, mas a partir desta posição poderemos sugerir mudanças em direção ao parlamentarismo que modifiquem o atual presidencialismo chamado de coalizão, mas que na verdade funciona como um presidencialismo de manipulação, (esta é uma bela tirada do companheiro Givaldo).

O processo congressual já está em curso. Os desesperados pela derrota eleitoral sabem disso e querem precipitar decisões de capitulação diante dos adversários que nos derrotaram nas urnas. O tema é decisivo e só o Congresso com a ampla discussão e a participação de todos poderá dizer se devemos procurar alianças em Governos do Partido dos Trabalhadores e do PMDB.

Vamos usar as redes tecnológicas para conversarmos com o povo brasileiro as alternativas que o país pode ter para uma melhor representação política e seu exercício de forma transparente e democrática. Aqui poderemos ter uma oportunidade muito rica para trazermos pessoas para o projeto do PPS. Um recrutamento de novo tipo!

Os Estados da Federação e os Municípios têm autonomia para decidir suas coligações eleitorais livremente, dentro dos princípios democráticos e republicanos que marcam nossa posição. Entretanto, decidir por co-gestão com este projeto petista que precisa ser derrotado é suicídio e levará junto com nossa desmoralizada morte a Política e a Democracia.

Raulino de Oliveira é economista e menbro da Direção Nacional do PPS

Mais Justiça :: Merval Pereira

Mais um exemplo do gigantismo do Estado brasileiro está revelado na pesquisa "O Supremo em números", realizada pela Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getulio Vargas (FGV), coordenada por Pablo Cerdeira, Diego Werneck e Joaquim Falcão: o Executivo é o maior usuário do Supremo, tanto como autor quanto como réu.

Temos, portanto, uma Suprema Corte envolvida em questões do Estado, pois o seu maior usuário é o setor público, que representa a origem de 90% de todos os processos.

O Poder Executivo Federal, com 68%, é o maior usuário. Além disso, dos 12 maiores litigantes do Supremo, nada menos que 10 são estatais, à frente a Caixa Econômica, com 16%, e a União, com 14% dos processos.

Um dado em especial chama a atenção e demonstra, segundo Falcão, diretor da Escola de Direito da FGV do Rio, a grave deformação existente no sistema recursal no Brasil, responsável pela lentidão da Justiça e sobrecarga sobretudo do Supremo: entre os tribunais de origem dos processos, os Juizados Especiais aparecem com 5% dos casos que vão parar no Supremo, mais de 57 mil casos.

Proporcionalmente é pouco, mas é o símbolo da deturpação absoluta de sua função, exemplo do que Joaquim Falcão chama de "cultura da processualização".

Um tribunal criado para agilizar as decisões acaba entrando no mesmo sistema protelatório que marca nosso sistema judicial.

Para superar esse problema o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Cezar Peluso, está propondo que as decisões dos tribunais locais, estaduais ou federais, sejam não mais execuções provisórias, mas definitivas.

Ele alega que 90% dos processos que chegam ao Supremo já tiveram, pelo menos, duas decisões em instâncias inferiores e estima em mais de 30% o ganho de tempo dos processos.

O vice-presidente Michel Temer, que é advogado, colocou algumas ponderações no debate ocorrido na FGV do Rio, a respeito do risco de um tribunal estadual tomar uma decisão, que será imediatamente executada enquanto os recursos continuam.

Se a execução acaba e o réu ganha o recurso da última instância, como fazer? Pagar uma multa, uma indenização?

O problema maior seria se for uma questão penal, se o réu já foi condenado e cumpriu ou cumpre pena. O presidente do Supremo rebate lembrando que mais de 80% dos recursos são recusados no Supremo.

O risco de uma eventual injustiça seria recompensado com a melhoria do sistema, o que evitaria protelações e mais injustiças que já ocorrem em decorrência.

Joaquim Falcão diz que se o Supremo não criar diques, qualquer processo "só para na mesa do Cezar Peluso". Ele, aliás, comentou que houve dia em que teve que dar 900 despachos negativos porque as alegações de inconstitucionalidade "eram absurdas".

Falcão diz que uma das paralisias do sistema judiciário é a excessiva processualização. E exemplifica com a questão da Ficha Limpa, que se perdeu em questões processuais, e o que o povo queria saber é se valeria ou não para a eleição, que passou sem que uma decisão final fosse tomada.

Somente hoje, com o voto do novo ministro do Supremo Luiz Fux, vai ser definida a questão.

A Proposta de Emenda Constitucional do ministro Peluso vai ser discutida pelos três Poderes, e a ideia é ter um debate, a nível técnico, com o Ministério da Justiça representando o Executivo, até que se chegue a um consenso, e a partir daí criar um pacto em torno da aprovação.

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A presença do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, tema das colunas de fim de semana com base em um estudo do diplomata Eugênio Vargas, e ponto central da visita do presidente dos Estados Unidos Barack Obama ao país, ganha mais um reforço histórico.

Reafirmando o fato de que o presidente Franklin Roosevelt chegou a sugerir que o Brasil fosse o sexto membro permanente, ao lado do próprio Estados Unidos e Inglaterra, China, Rússia e França - os cinco que até hoje têm poder de veto -, há um registro em uma edição do "O Cruzeiro do Sul", jornal editado e impresso na Itália pelo Serviço Especial da FEB.

Na edição do dia 10 de janeiro de 1945, está reproduzido o discurso feito por Roosevelt no Congresso americano, após ser eleito pela quarta vez presidente dos Estados Unidos, fazendo um relato das operações na Itália, onde destaca a atuação da Força Expedicionária Brasileira, citando o Exército brasileiro entre os 23 países aliados.

Diz o presidente americano a certa altura do discurso: "Sobre um terreno difícil e em condições de tempo adversas, o nosso 5º Exército e o 8º Exército britânico - reforçados por unidades de outras Nações Unidas, inclusive o valoroso e bem equipado Exército brasileiro, avançaram no ano passado para o Norte, através da sanguinolenta batalha de Cassino, da cabeça de ponte de Anzio, e através de Roma, até ocuparem as altas posições do Vale do Pó".

A coleção completa do "O Cruzeiro do Sul" foi lançada em novembro do ano passado pela Leo Christiano editorial, e a primeira edição se esgotou.

A segunda edição sairá em abril, com um documentário de Jorge Ileli "O Brasil na guerra contra o nazi-fascismo".

FONTE: O GLOBO

Rápido e rasteiro:: Dora Kramer

A comissão especial do Senado já aprovou cinco pontos da assim chamada reforma política: mandato de cinco anos para presidente, governador e prefeito; fim da reeleição; permanência do voto obrigatório; redução de dois para um suplente de senador; mudança da data de posse dos chefes dos poderes executivos federal, estaduais e municipais.

Isso no tempo recorde de 15 dias e duas sessões de reunião. Eficiência? Depende do ponto de vista.

Se o ângulo de visão for o do Congresso, vale dizer partidos e políticos, o trabalho resulta assaz produtivo. Mas, se a perspectiva for a do lado de fora, vale dizer a da sociedade, estamos diante daquelas soluções rápidas e, senão erradas, ao menos questionáveis.

Na próxima reunião suas excelências pretendem discutir mudanças no sistema eleitoral para o Legislativo. Vão debater propostas de voto majoritário em contraposição ao atual voto proporcional.

Muito provavelmente de novo aprovarão algo. Não necessariamente alguma coisa que realmente corrija as distorções e principalmente aproxime o Congresso da sociedade.

Até agora o que se tem visto é muita correria e nenhuma atenção com o interesse do eleitor. O único ponto que atende a uma demanda da realidade é a mudança das datas de posse de 1.º de janeiro para o dia 10, no caso de prefeitos e governadores, e 15 de janeiro para o presidente da República.

Tudo o mais foi decidido de maneira a privilegiar o cálculo de custo-benefício feito por quem tem a faca, o queijo e a firme disposição de não dividir poder com seus representados.

Parte-se do princípio de que quem entende de política são os políticos e a sociedade não está interessada no assunto.

O interesse despertado pelo debate sobre a Lei da Ficha Limpa e o aguçamento das críticas à criação de novos partidos resultante do “aperto” dado pelo Supremo Tribunal Federal na fidelidade partidária desmentem o preceito a partir do qual o Congresso toca a reforma.

Um exemplo é a posição do colegiado a respeito do voto obrigatório. O senador Aécio Neves reconhece que o voto facultativo é “mais palatável” à sociedade. Ou seja, sabe melhor ao paladar do eleitorado.

Mas chama atenção para o risco de os governantes eleitos não terem suficiente legitimidade para exercer as funções para as quais foram eleitos. Subjacente a esse “alerta” está a suposição de que o brasileiro não esteja “pronto” para exercitar seu direito na acepção da palavra.

Na amplíssima maioria das nações vigora o voto facultativo e nem por isso as altas abstenções, quando ocorrem, deixam de validar as eleições ou declaram os eleitos ilegítimos. Pelo menos não nos países civilizados.

Ora, se o voto facultativo é mais “palatável” à sociedade, por que não deixá-la experimentar? Ou, por outra, por que não abrir a discussão e até levar a questão a plebiscito?

A qual tribunal caberá proferir a sentença sobre o momento em que o brasileiro estará “pronto” para decidir se vai ou não às urnas? Daí o odor de entulho autoritário que exala essa decisão da comissão de reforma política do Senado.

Algo parecido poder-se-ia dizer a respeito do fim da reeleição e consequente ampliação do mandato de presidente, governadores e prefeitos de quatro para cinco anos.

Há dois argumentos em defesa da revogação da norma, ambos pífios. Uns alegam que a reeleição “não funcionou” e outros justificam que o governante que concorre no cargo usa a máquina pública em seu favor.

Esse último Lula derrubou na eleição de outubro último, na qual não era candidato e para a qual exorbitou no uso privado do patrimônio público. Ademais, essa prática viciada não surgiu no Brasil com o instituto da reeleição, datado de 1997.

E justamente por ter tão pouco tempo é que sofisma quem argumenta que, testado, o sistema não foi aprovado. Na realidade, não funcionou para os políticos, pois o fato de a população ter o direito de renovar um mandato torna mais vagaroso o andar da fila de pretendentes às chefias de Poderes Executivos.

Se o foco dessa reforma não for invertido em atendimento ao interesse do público teremos um trabalho rápido, porém rasteiro.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O tempo voa:: Fernando Rodrigues

Dilma Rousseff igualou o recorde de popularidade de Lula em um terceiro mês de mandato. É um momento muito especial, mas tem prazo de validade.

O ciclo político no Brasil tem algumas idiossincrasias. Embora o mandato seja de quatro anos, só em parte do primeiro ano (até agosto) o presidente desfruta de uma força quase total. Pode adotar medidas arrojadas e polêmicas.

É fácil entender a razão. Quando setembro chegar, começam todas as articulações políticas visando a eleição dos quase 5.600 prefeitos em 2012. O prazo legal para estar em um partido é de 12 meses antes da disputa. Deputados e senadores sabem que o prefeito eleito em 2012 será o cabo eleitoral de 2014.

Todos então se engajam no processo.

Em 2012, há a eleição propriamente. Em 2013, o primeiro semestre servirá para curar as feridas abertas no ano anterior. Bastará a poeira abaixar e só vai se falar da sucessão presidencial de 2014.

Dilma e seus assessores conhecem esse ciclo. Se quiser aprovar alguma reforma relevante para o país, a presidente terá de aproveitar o atual embalo. Nada a impede de esperar pelo segundo semestre -exceto o risco de ficar sem tempo suficiente dentro do Congresso.

Há sinais no Planalto de que o plano de erradicação da miséria sai até maio. De outras ações, não se sabe. Numa entrevista a Claudia Safatle, do "Valor", Dilma foi indagada sobre algo essencial para o Brasil, a regulamentação dos fundos de previdência para servidores públicos. Sua resposta: "Não estamos ainda discutindo isso".

Dezenas de milhares de funcionários públicos são admitidos todos os anos. Colocam o pé na função e já são donos do "direito adquirido": aposentadoria com o salário integral. Dilma pode consertar essa e outras iniquidades na organização do Estado. Agora, sua popularidade serve de lastro. Mas o tempo está passando. Voando. Quando agosto chegar, tudo ficará mais difícil.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dois fatos reais numa grande farsa:: Rosângela Bittar

Aquele pobre marciano das inspeções a estranhos fenômenos nacionais veria uma situação política ímpar no Brasil dos últimos dois meses. Há, por aqui, teria anotado, partidos políticos com doutrina, princípios e convenções. O quadro partidário é amplo, mas isso se deve a nuances imperceptíveis tal a sofisticação das inclinações político-ideológicas dos brasileiros. Relatório esse que não sobreviveria à farsa por dois minutos.

Logo se daria conta da realidade: Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, a maior cidade do país, saiu do DEM para fundar o PSD pela mesma razão que uma das maiores críticas desse quesito, Luiza Erundina, ex-prefeita da mesma maior cidade, saiu do PT para ingressar no PSB.

Não foi outra a razão o esperneio do também crítico Gabriel Chalita, que deixou o PSDB para ingressar no PSB; ou que o ex-ministro, ex-governador e ex-candidato a presidente Ciro Gomes deixou a Arena, o PDS, o PSDB, o PPS, para matricular-se no PSB.

Por que um grande grupo saiu do PMDB para fundar o PSDB? Que razões ideológicas levaram o PT, parte dele à esquerda, vá lá, a admitir a saída de companheiros para fundar o P-SOL? E a estar agora seriamente ameaçado pela saída do festejado ex-prefeito de Recife, João Paulo? Por que José Sarney saiu do PDS? Por que o PT alia-se aos direitistas do PP e do PR e ao sortido PMDB para firmar as bases de sua aliança nacional e recusa esses parceiros em alguns Estados?

A definição de partido político dos dicionários inexiste no Brasil. Por aqui há o partido-sigla, partido-rótulo, que recebe a entidade-candidato para que se apresente aos eleitores e consiga um mandato.

O resto é fingimento, coreografia em torno de apenas dois fatos reais, concretos e inquestionáveis em toda esta movimentação: Gilberto Kassab quis sair do DEM, onde não tem mais espaço político, por quinhentas razões, sendo a principal delas a necessidade de armar uma sucessão viável para seu cargo. Pelo menos estar em um barco que possa navegar em algum rumo, e o DEM é um partido "onde ninguém mais entra".

Se o PSD está ficando robusto, tanto melhor para o líder, mas não era necessário. Poderia ficar apenas normal. Seu horizonte é 2012, a eleição municipal. Depois disso já é o tempo real do segundo fato: entra em negociação com as demais letrinhas para tentar um lugar nas eleições de 2014. Em que situação o PSD vai estar nesse momento é uma construção a se acompanhar daqui para a frente.

Os sinais emitidos agora são isso, apenas sinais, até para dar robustez aos considerandos em torno da sua criação. Uma conversa com o PMDB já houve, logo engavetada tendo em vista a realidade do partido em São Paulo, com seus destinos totalmente amarrados ao PT: ou há dúvidas sobre o que Michel Temer quer em 2014? Continuar sendo vice-presidente na chapa de reeleição da presidente Dilma Rousseff, claro. Com oito ministérios em lugar dos seis atuais.

Os partidos da aliança, ou os chamados independentes, o que mais querem é desalojar o PMDB dessa posição, para tomar seu lugar, ou não ficarem atados desta forma ao PT para se viabilizarem à presença na mesa principal.

Melhor conversa que a do PMDB o PSD ouviu do presidente do PSB, Eduardo Campos, governador de Pernambuco, que tem um plano estratégico para a ampliação do seu partido e consolidação rumo ao Sul e Sudeste.

Questões de ordem ideológica estiveram ausentes no diálogo de preliminares. E não são obstáculo à ampliação dessas conversas em torno da expansão, nunca foram. Quando Miguel Arraes foi convidado pelos quatro redatores do manifesto de criação do PSB a assinar seu ingresso no Partido Socialista Brasileiro ele só fez uma perguntinha: "E existe socialista no Brasil?"

Não foi por essa razão que se travou temporariamente a conversa entre Campos e Kassab, nem pela reação dos neossocialistas. A continuidade virá, a seu tempo certo, com certeza mais perto de 2012 e 2014. O diálogo não se desgasta mais em torno de fusões ou alianças, agora.

À frente, essa conversa encontrará seu tom. E não há como duvidar que esses dois fatos - o PSD e o PSB - são a grande novidade que surgiu para o futuro próximo. O PSB não arredou um milímetro de suas intenções e iniciativas. Considera que aproveitou-se de um momento oportuno, o de definição de Kassab, que tem um eleitorado grande num colégio em que pretende entrar de vez.

A reação principal à expansão do PSB, fora aquelas individualidades que temem concorrência pessoal, está no PT e PSDB. Incomoda-os o fortalecimento do PSB, sua entrada no Sul e Sudeste. O partido fez, em 2010, seis governadores de Estado, aumentou suas bancadas na Câmara e Senado. Fora o Nordeste, elegeu o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, o menor Estado do Sudeste. Tem o vice-governador do Rio Grande do Sul, Beto Grill; o prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda; o prefeito de Curitiba, Luciano Ducci.

Considera que já tem esses pontos dos quais irradiar uma imagem, reverberar o nome. Seu diagnóstico justifica a estratégia de crescer mais, de se colocar como um partido de dimensão nacional. Por que não, uma alternativa ao PT, como líder de um projeto de poder, ou uma alternativa a deslocar o PMDB da aliança estratégica com o PT.

Ao PT e PSDB interessa manter a disputa entre os dois, e apenas entre eles. O PSB deixou, em 2010, de ser nanico, e agora quer ser grande. E como um partido cresce? Seus dirigentes aprenderam, na prática, que é levando novos quadros, por suas ideias e sua história, ou por composição, adesão de quadros insatisfeitos em outras legendas.

Interessa ao PSB e ao PSD aprofundar as conversas iniciadas agora com Kassab. Se elas vão prosperar ou não, é algo que só o tempo dirá, porque depende dos chamados "outros atores da cena política".

A presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Lula, o centro de decisões deste governo, foram todos informados sobre tudo, por Eduardo Campos. O PSB não vê como a movimentação de fortalecimento do partido pode desagradar a presidente. É algo que, no mínimo, se for um projeto de sucesso, poderá livrá-la do jugo do PMDB e do PT.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Vale estatal :: Míriam Leitão

A conversa entre o Bradesco e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com o pedido para retirar o presidente da Vale é um dos mais indecorosos sinais de retrocesso da economia brasileira. O banco certamente vai ceder, porque o Bradesco não é lá de querer briga com governo. O espantoso é o sinal dado de estatização e a interferência do ministro da Fazenda.

Roger Agnelli é um executivo com defeitos e qualidades, que está há muito tempo no cargo, e se os acionistas quiserem podem e devem tirá-lo; nenhum problema. O que assusta é a forma, o motivo e os objetivos da ação de degola. O jeito certo de fazer isso é na reunião do conselho da Valepar, que é o grupo controlador da Vale. Lá, o governo como um dos acionistas, através do BNDES, pode propor a alteração, e os fundos de pensão, também. Uma conversa do ministro da Fazenda pedindo a cabeça do principal executivo de uma empresa privada é absurdo. O Tesouro tem golden share, mas essa ação especial tem função específica e não é para administrar a companhia.

A Vale tem estatuto, tem reuniões programadas dos seus acionistas, e seus executivos têm mandato e planos a cumprir. Mesmo com os votos do banco estatal e dos fundos de pensão não se consegue a proporção de dois terços necessária para interromper um mandato no meio e aprovar outra diretoria. O Bradesco tem percentual suficiente para bloquear a ação. Por isso é que houve a conversa entre Mantega e Lázaro Brandão, do Bradesco. Mas ela é inconveniente. Ministro da Fazenda não tem essa função; o local é inadequado porque tem que ser discutido pela assembléia de acionistas; o motivo é indecoroso: o governo vem tentando capturar a Vale para a roda das nomeações políticas. É uma reestatização, na prática.

Todo mundo acompanhou o passo a passo dessa intervenção governamental porque ela foi explícita; feita de críticas e reclamações públicas. O pretexto foi que o ex-presidente Lula não gostou quando pediu que a Vale construísse siderúrgicas no Brasil. A empresa não atendeu inicialmente às pressões. Há razões empresariais. Hoje, o Brasil tem capacidade ociosa em aço; em 2009, chegou a desligar seis altos-fornos. Ao mesmo tempo, há mercado abundante no mundo para matérias-primas como o minério de ferro e outros minérios produzidos pela Vale.

Roger Agnelli já foi tratado com tapete vermelho no governo, depois passou a ser alvo das reclamações públicas do ex-presidente. E começou o disse-me-disse. Isso atrapalha a companhia. Essa intervenção, se for consumada, vai mostrar que a empresa tem um gravíssimo problema de governança, já que voltará na prática a ser estatal. Se o governo for bem sucedido no primeiro momento, depois virão os outros cargos, as chefias intermediárias e aí a Vale vai se tornar um bom e apetitoso pasto para os indicados políticos como são algumas estatais brasileiras como os Correios, as empresas do sistema Eletrobrás, principalmente Furnas. Para quem ainda tem dúvidas das motivações do governo é bom lembrar o tamanho do lucro que a empresa deu no último exercício: R$30,1 bilhões. Definitivamente, a cobiça não tem bons propósitos.

No meio dessa briga, Agnelli tentou agradar o governo. Convidou o ex-presidente Lula para acompanhá-lo na viagem à África, entre outros salamaleques. Estratégia equivocada. O que ele tem a fazer é tratar da questão com a máxima transparência. O Bradesco deveria pedir que a questão seja levada ao local adequado, que é a reunião de acionistas. Os minoritários deveriam exigir que isso deixe de ser tratado intramuros, como um acerto entre ministro da Fazenda e um banqueiro, porque a Vale é uma empresa de capital aberto que tem contas a prestar aos seus acionistas. Tudo nesse caso é inaceitável. Não pelo Roger Agnelli em si. Ninguém é insubstituível. O que não é substituível é o processo de governança transparente, o cumprimento das normas, estatutos e acordos de acionistas da companhia.

Se o governo quer reestatizar a Vale que o diga, defenda seu ponto de vista, compre as ações dos acionistas - quem sabe, a Mitsui na crise japonesa tenha interesse em vender - e assuma os riscos do retrocesso. A ação furtiva é fora de propósito.

Nos últimos anos houve um aumento inequívoco da presença do Estado na economia, não apenas na multiplicação dos casos de compra de ações de grandes empresas - e grandes devedores - pelo BNDES. Alguns casos foram operação salvamento, outros foram intervenção no mercado. Os grandes projetos hidrelétricos têm grande presença estatal. Belo Monte é totalmente estatizado. Basta fazer uma conta de aritmética para ver quem é o dono da obra. Aliás, o governo é o dono, o financiador e o avalista do empréstimo. Se algo der errado, quem paga a conta é o contribuinte.

Por ser mineradora, a Vale tem grande impacto sobre o meio ambiente e tem direito de lavra concedido pelo governo. A pressão deveria ser em mais prestação de contas e mais transparência das ações de proteção ao meio ambiente e ressarcimento à sociedade. Mas o que o governo quer é um assalto à Vale.

FONTE: O GLOBO

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Comissão aprova fim de coligações proporcionais

Proposta mantém coalizão para presidente, senador e governador; decisão sobre sistema eleitoral é adiada

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA. A Comissão de Reforma Política do Senado aprovou ontem o fim das coligações para eleições proporcionais (deputados federais, deputados estaduais e vereadores), mas não conseguiu chegar a um consenso sobre o sistema eleitoral para esses cargos. Pela proposta, que ainda depende de votações no Senado e depois na Câmara, ficam mantidas as coligações para as eleições majoritárias: presidente da República, governadores, prefeitos e senadores. Com os partidos divididos, os senadores decidiram adiar para a próxima terça-feira a decisão sobre o sistema eleitoral, já que nenhuma das três propostas em discussão conseguiu maioria absoluta.

Criticado por especialistas e preferido da cúpula do PMDB, o chamado "distritão" recebeu quatro votos, entre eles dos ex-presidentes Itamar Franco (PPS-MG) e Fernando Collor (PTB-AL) e do presidente da Comissão, senador Francisco Dornelles (PP-RJ). O "distritão" propõe a eleição majoritária para deputados e vereadores.

Mas a proposta que mais recebeu votos na comissão - um total de cinco - foi a do sistema proporcional, como é hoje, mas com a adoção de lista fechada, pela qual os partidos escolhem a lista de candidatos, e o eleitor vota nessa lista e não mais diretamente nos candidatos.

Assim como o "distritão", também recebeu quatro votos o modelo conhecido como distrital misto, com lista fechada - metade das cadeiras é preenchida por parlamentares eleitos diretamente e metade pelas listas partidárias. Essa proposta foi adotada pelo PSDB, sendo defendida primeiro pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), que foi acompanhado pelos tucanos Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Lúcia Vânia (PSDB-GO).

- É um debate muito acalorado. Minha proposta é que metade das vagas seja por eleição majoritária, em votação nos distritos, e a metade restante pelo critério da lista fechada - disse Aécio.

Já o PT ficou com a proposta mais votada: sistema proporcional, mas com adoção de lista fechada.

- Não é verdade que a lista fechada (onde os partidos escolhem os candidatos numa lista de preferências) irá fortalecer as oligarquias partidárias. Uma legislação eleitoral irá fiscalizar a formação dessas listas - defendeu o líder petista Humberto Costa (PE).

Ao final da sessão, Dornelles admitiu que o assunto é polêmico, e afirmou:

- Sou favorável ao "distritão" porque, neste modelo, quem tem mais votos se elege. Quem não tem votos, não se elege.

Já o senador Itamar Franco reclamou da decisão da comissão de realizar um "segundo turno" em torno de três propostas, alegando que os senadores não vão mudar de posição:

- Isso é um absurdo (fazer nova votação). Cada um pensa de um jeito. É por isso que essa reforma nunca se vota. Eu sou a favor do "distritão" e contra a lista fechada, que significa a ditadura partidária.

FONTE: O GLOBO

Bancada e Executiva do PPS fecham proposta de reforma política

foto Tuca Pinheiro
Proposta prevê 2º turno em cidades com mais de 50 mil eleitores

Valéria de Oliveira

Em reunião realizada na manhã desta terça-feira, a bancada federal e a Executiva do PPS aprovaram os principais pontos que o partido vai defender na reforma política: fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos; fim das coligações para eleições proporcionais; adoção do sistema de voto distrital misto e financiamento público de campanha, dentre outros pontos.

De acordo com a proposta do PPS, o número de deputados federais vai variar, porque serão computados também os votos dos candidatos que concorrem pelos distritos. Cada estado será dividido em distritos, em número total da metade das cadeiras a que tem direito na Câmara. Além dos votos dos distritais, serão contados os votos em lista fechada. Estes, por sua vez, obedecerão à lógica do voto proporcional, feita sobre a base total do eleitorado, para aferir o quociente e conhecer os eleitos.

Domicílio e filiação

O deputado Roberto Freire (SP), presidente do PPS, disse que o partido vai propor ainda que o prazo exigido de filiação partidária e para domicílio eleitoral com vistas à disputa eleitoral seja definido pelos partidos e não mais pela Justiça Eleitoral. O PPS vai apresentar uma proposta de emenda constitucional e um projeto de lei que contemplam todas as suas proposições.

O partido não pretende fechar questão em torno de suas propostas, embora já as tenha submetido à bancada de deputados federais e convidado o senador Itamar Franco (MG) para o debate. Na reunião desta terça, o colegiado analisou a PEC elaborada pelo PPS, sugeriu mudanças que foram votadas e agrupadas ao texto quando aprovadas.

PEC

O deputado Sandro Alex (PR) leu o texto sobre o qual a bancada já havia discutido e, a partir dele, foram acrescentadas mais ideias, como a que prevê segundo turno eleitoral nas cidades com mais de 50 mil eleitores, em vez de apenas naquelas com mais de 200 mil eleitores, como é atualmente. A tese foi aprovada. O partido apresentará, também, proposta para acabar com a figura do senador sem votos. O substituto só assumirá em caso de vacância e até a próxima eleição – seja ela em que nível for – para que um novo titular seja escolhido.

Às críticas sobre o fim das coligações, Freire respondeu que ela deverá mesmo ser derrubada e que o novo quadro trará oportunidade de apresentar boas chapas próprias para deputado. “Precisaremos também avaliar, ter ideias sobre federação, fusão para enfrentar esse desafio, se for o caso; já temos nos preparado para apresentar chapas”.

A respeito de questionamento sobre a opinião pública e o financiamento das campanhas políticas com dinheiro público, o presidente do PPS disse que não se pode ficar preso a ela. “Estamos muito presos ao que ela pensa. Temos que mostrar que é o sistema atual o danoso ao país, não a mudança dele”.

FONTE: PORTAL DO PPS

Governo já assedia o novo PSD

Vaccarezza diz que não fala em "coerência ideológica", mas em formar base

Isabel Braga e Gerson Camarotti

BRASÍLIA. As declarações amistosas do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em relação ao governo Dilma Rousseff abriram caminho para o assédio do PT ao PSD, partido que está sendo criado pelo prefeito. Ontem, o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse que vai procurar o deputado Guilherme Campos (DEM-SP), um dos aliados de Kassab, para buscar essa aproximação. Enquanto isso, do outro lado, a debandada do DEM atingiu um dos principais redutos do partido, o Rio, com a saída anunciada de pelo menos dois agora ex-aliados do ex-prefeito Cesar Maia.

Sobre a tentativa de ter o novo partido na base aliada, o petista Vaccarezza minimizou o fato de Kassab ter afirmado que continuará apoiando o governo do tucano Geraldo Alckmin e que manterá parceria com José Serra.

- Eu quero discutir e fortalecer os laços com o novo partido. Não estamos falando de coerência ideológica, mas de base de governo. Se o Kassab e o PSD defendem o governo Dilma, quero incorporá-los à base.

Segundo o deputado Guilherme Campos, Vaccarezza e Kassab já conversaram. Mas afirmou:

- O partido nasce com o espírito independente.

Integrante da Executiva Nacional, a ex-deputada Solange Amaral comunicou ao presidente do partido, senador José Agripino Maia (DEM-RN), a decisão de deixar a legenda. Também ontem, o ex-deputado Indio da Costa, que foi candidato a vice-presidente, criticou pelo Twitter o que classificou de cartório da família Maia, numa clara sinalização de que deve deixar o DEM. A insatisfação é com Cesar Maia, que decidiu comandar o diretório municipal, sendo que o presidente é Paulo Cerri.

- O Cesar Maia não lidera o partido. Ele impõe a sua vontade. Isso que o Cesar está fazendo não vai levar o DEM a lugar nenhum - disse Solange.

FONTE: O GLOBO

Rebelião à vista por emendas

BRASÍLIA. O chefe da Casa Civil, ministro Antonio Palocci, foi acionado para apagar uma rebelião da base governista no Congresso - que ameaça paralisar votações, caso não seja fixado novo prazo para o cancelamento de pagamentos de emendas parlamentares já empenhadas e prometidas no governo Lula, os chamados restos a pagar. A tentativa do governo é encontrar um entendimento até amanhã, quando acontece a primeira reunião do Conselho Político com a presidente Dilma Rousseff.

Os líderes e presidentes de partidos aliados avisaram que vão alertar Dilma sobre as consequências do que chamam de "calote dos restos a pagar". Dilma estava disposta a enfrentar a ameaça dos aliados e até reclamou da entrevista do ministro de Relações Institucionais, Luiz Sérgio, que reconhecia o problema. Mas a rebelião cresceu e Palocci foi acionado para tentar uma solução.

Há uma insatisfação quanto ao decreto que prevê, a partir de 30 de abril, cancelamento de restos a pagar de 2007, 2008 e 2009 não processados, no total de R$18 bilhões, segundo o Planejamento, se contabilizados pagamentos pendentes de 2010.

FONTE: O GLOBO

Marina quer ‘democratizar' PV, mas pode criar partido

Parlamentares e líderes do PV, entre eles a ex-senadora Marina Silva, iniciaram um movimento para mobilizar as bases verdes e cobrar a democratização do partido. Eles querem a realização de uma convenção nacional e a convocação de eleições diretas para escolher novos diretores. Não está descartada a criação de um novo partido.

Marina cria grupo para ‘democratizar’ PV, mas não descarta criar nova sigla

Terceira colocada na eleição presidencial, ex-senadora está sem espaço na legenda e encabeça dissidência que, a partir desta quinta, percorrerá o País pregando renovação; se ação fracassar, ela já cogita fundar um partido

Roldão Arruda


Dois dias após o prefeito Gilberto Kassab ter anunciado a criação de seu PSD, um expressivo grupo de parlamentares e líderes do PV, entre eles a ex-senadora Marina Silva, decidiu por na rua um movimento destinado a mobilizar as bases verdes para cobrar a democratização do partido. Eles querem a realização de uma convenção nacional, no prazo de seis meses, e a convocação de eleições diretas para a escolha de novos diretores. A médio prazo, se a ação não funcionar, o grupo não descarta a hipótese de o movimento, denominado Transição Democrática, desaguar no surgumento de um novo partido.

O primeiro ato político do grupo está programado para quinta-feira, 24. Líderes de diferentes regiões do País devem se reunir em São Paulo para o lançamento de um manifesto com as teses do movimento. Segundo um dos organizadores, o presidente do diretório paulista, Maurício Brusadin, na terça-feira, 22, já estava confirmada a presença de sete deputados federais - o equivalente a metade da bancada verde.

Marina Silva, terceira colocada na eleição presidencial do ano passado com quase 20 milhões de votos, é aguarda, mas até o início da noite desta terça seus assessores diziam que ela ainda estava com problemas de agenda. A ex-senadora terá um papel importante na segunda missão da Transição Democrática, que é a organização de debates políticos com militantes verdes e simpatizantes por todo o País.

A principal meta é a renovação do partido. Quando Marina Silva se desligou do PT e desembarcou com seu grupo no PV, em 2010, ficou combinado que seriam realizadas no primeiro semestre deste ano a convenção nacional e a eleição interna, precedidas de debates sobre democracia. Isso valeu até quinta-feira da semana passada, quando a direção nacional se reuniu na sede do partido, na região do Lago Sul, em Brasília.

Acatando proposição do deputado Zequinha Sarney (MA), a maioria dos participantes daquele encontro votou pelo adiamento da convenção até 2012. Com isso, o atual presidente, o também deputado José Luiz Penna (SP), ganhou mais um ano de mandato - o 13.º.

Como ninguém acredita que se promovam convenções e eleições partidárias no ano que vem, por causa das eleições municipais, é provável que Penna atravesse o 14.º aniversário no poder. Seus críticos já o chamam jocosamente, nos bastidores, de ‘Penna Mubarak’, em referência ao ex-ditador do Egito.

O adiamento irritou Marina Silva. Ela tem dito que os 19,6 milhões de votos dados em 2010 à sua candidatura, identificada com a questão da sustentabilidade, devem ser vistos como um legado político, tanto no plano nacional, no sentido da valorização da temática, quanto no plano interno, provocando a democratização na estrutura do PV.

No mesmo diapasão, a deputada fluminense Aspasia Camargo (RJ), que confirmou presença no encontro de amanhã, diz que seu partido vive um momento crítico, no qual deve fazer a transição democrática e incorporar "o legado da campanha".

O adiamento também deu origem a uma crise que expõe as fissuras internas do PV e a resistência de alguns setores à presença de Marina no partido. Para esses grupos, mais próximos do presidente Penna, considerado um dirigente pragmático, a candidatura de Marina não trouxe tantos benefícios ao PV como se imaginava. Citam o fato de a bancada federal continuar com as mesmas 14 cadeiras que tinha antes.

"Quem diz isso não vê como a base do partido foi ampliada na eleição passada", observou Brusadin. "O que há por trás desses comentários é o medo de que a renovação dos quadros leve o PV a um papel de protagonista, em vez de se resignar ao papel de coadjuvante, servindo aos partidos maiores."

Na própria Transição Democrática existem diferenças. Enquanto o deputado Alfredo Sirkis (RJ), do núcleo de assessores mais próximos de Marina, eleva o tom e fala abertamente na possibilidade de novo partido, o amigo e ex-deputado Fernando Gabeira baixa o volume. Ele acredita que o debate produzirá um acordo interno. Essa também é a opinião do ex-candidato a governador de São Paulo em 2010 pelo PV, Fábio Feldman.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Tucanato se move para reduzir impacto da ação de Kassab

Enquanto PSDB espera intervenção do DEM no diretório paulista, Planalto tenta atrair novo partido para base aliada

Julia Duailibi


No dia seguinte ao lançamento do PSD (Partido Social Democrático), tucanos paulistas começaram a se articular para diminuir o impacto eleitoral da legenda recém-anunciada pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, enquanto o Palácio do Planalto se prepara para trazer a nova legenda para a base aliada do governo.

"Quero reunir os integrantes do PSD para discutir a entrada deles na base do governo, inclusive a tática em plenário", disse o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT), que pretende chamar o deputado Guilherme Campos, que assinou a ficha de inscrição no PSD, para conversar ainda nesta semana.

O PT municipal, no entanto, não quer uma aproximação com Kassab. "O diretório estadual formalmente endossou a postura de oposição. O nacional, informalmente. Não temos motivo para sair da oposição", afirmou o vereador Antonio Donato.

Tucanos paulistas conversaram com lideranças do DEM nacional na expectativa de que haja uma decisão pró-intervenção no diretório estadual do partido, do qual Kassab ainda detém controle. Na quinta-feira, 24, haverá reunião da executiva nacional do DEM, em Brasília para discutir a questão.

O deputado Rodrigo Garcia (DEM-SP), que resolveu ficar no partido, tem mantido pontes com o Palácio dos Bandeirantes e é uma das alternativas para tocar a legenda no Estado, embora haja tucanos que vejam com desconfiança a indicação dele, em razão da amizade com o prefeito. Na semana passada, ele esteve com Alckmin para falar da decisão de ficar no DEM. Na segunda-feira, 21, reuniu-se com o secretário da Casa Civil, Sidney Beraldo, e com deputados estaduais: dos oito parlamentares do DEM, sete devem ficar no partido.

Em almoço com a bancada paulista do PSDB nessa terça-feira, 22, deputados fizeram o balanço do lançamento da nova legenda. "Não sabemos ainda a extensão disso, quem irá acompanhá-lo, quais serão as alianças", afirmou o líder do PSDB, Duarte Nogueira.

Apesar de o vice-governador, Guilherme Afif Domingos, ter dito que no PSD pretende marchar junto com os tucanos na eleição de 2012, as declarações de Kassab falando de aproximação com o governo federal aumentaram a apreensão no Palácio dos Bandeirantes sobre os rumos da sigla.

Aliado de Geraldo Alckmin, o deputado estadual Campos Machado (PTB) pretende questionar o uso da sigla PSD na Justiça. Ele alega que uma legenda com o mesmo nome foi incorporada pelo PTB em 2003 e que aspectos fiscais e contábeis não foram resolvidos e seguem pendentes.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PMDB: Mandatos renovados até 2013

Temer é reconduzido à presidência do PMDB, assim como toda a Executiva Nacional

Denise Rothenburg

Quem esperava ver o vice-presidente da República, Michel Temer, como mera figura decorativa no PMDB e no governo a partir de 2012 terá que rever sua estratégia. Temer teve ontem o mandato como presidente do partido renovado até março de 2013, assim como todos os demais integrantes da Comissão Executiva Nacional, estaduais e municipais. Significa que Temer é quem dará as cartas na hora de definir as alianças que o PMDB fará nas eleições municipais do ano que vem e também o espaço do partido no governo, dividindo o comando com o presidente interino, senador Valdir Raupp (RO), e o grupo de José Sarney e Renan Calheiros.

A reunião da Comissão Executiva Nacional foi marcada para o dia da festa de 45 anos do PMDB, ontem à noite num hotel de Brasília. E vem ainda num momento em que o PMDB aguarda as nomeações de segundo escalão, algumas anunciadas e ainda não efetivadas, e outras que estão ainda em banho-maria.

O encontro ontem no Congresso, antes da festa, foi rápido, mas não a ponto de evitar que o PMDB mandasse seus recados aos demais aliados do governo, em especial o PT. Foi aprovada, por exemplo, uma recomendação para que o PMDB lance candidato próprio em todos os municípios em 2012. “A intenção é fortalecer o partido”, afirma Raupp, citando especialmente as cidades com mais de 200 mil habitantes.

A decisão tem um significado: o PMDB é aliado, mas não ficará subordinado ao PT na hora de concorrer às prefeituras das capitais e grandes cidades brasileiras. Nos bastidores, há quem diga que o PMDB dificilmente apoiará um nome petista à prefeitura de São Paulo, por exemplo. Até porque, avaliam os peemedebistas, se a ordem é fortalecer o partido, seria natural concorrer a cargos majoritários, especialmente, prefeituras das capitais, deixando possíveis alianças para o segundo turno. Foi assim que o PT chegou à Presidência da República.

Sondagem

Em outras palavras, o PMDB deixou explícito que, se o PT quiser o apoio do PMDB em capitais estratégicas, como São Paulo, terá que dar ao partido alguma compensação em outros estados ou mesmo no governo. Foi diante dessa perspectiva de fortalecer o partido desde já para negociar com o governo e o PT que os mandatos foram prorrogados. Afinal, recentemente, o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) entrou em contato com alguns peemedebistas para sondar as suas chances de sair candidato a presidente do partido no segundo semestre. Setores do governo chegaram a ensaiar uma espera da troca de comando para, depois, decidir alguns pontos pendentes, como cargos-chaves de segundo escalão.

Agora, com a recondução, em vez de perder tempo nas discussões internas sobre quem serão os futuros comandantes, o PMDB preferiu amortecer esses movimentos e deixar na liderança partidária aqueles que já estão embalados na negociação com a presidente Dilma Rousseff no quesito espaços de poder e daqueles que também conversam com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, sobre as futuras alianças. E, nos dois casos, o nome que continua com essa função é Michel Temer. Por mais dois anos.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Rio: Empregos e apoios

Lembra daquela Secretaria da Mulher que Eduardo Paes, ainda na campanha eleitoral, prometeu criar? Vai, enfim, sair do forno. Será ocupada por Ana Rocha, presidente do PCdoB no Estado.
Outro integrante do partido, o ex-deputado Edmilson Valentim, que não conseguiu se reeleger, será alojado pelo governador Sérgio Cabral numa secretaria dedicada à articulação política.
O PPS não deve aderir ao governo estadual, mas pensa em aceitar os calorosos acenos do prefeito.

FONTE: O DIA – INFORME DO DIA.