terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Cresce pressão sobre Serra no último dia para inscrição nas prévias tucanas

Carmen Munari e Raphael Di Cunto

SÃO PAULO - Termina hoje o prazo para a inscrição às prévias que vão determinar o candidato do PSDB na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Apenas os tucanos que se inscreverem poderão disputar a escolha da militância agendada para 4 de março.

Quatro nomes estão devidamente inscritos e o suspense cabe ao ex-governador José Serra, que dizia até janeiro, por meio de interlocutores, que estará fora da corrida. Neste grupo está incluído Alberto Goldman, ex-vice-governador de SP pelo PSDB.

Essa postura não impede que correligionários defendam sua candidatura e venham conversando com ele para que mude de ideia. Serra tem ouvido o chamamento. Este é um dos principais ingredientes que leva em consideração, como em outras campanhas, segundo tucanos.

"Conversei com ele há cerca de dez dias. Só eu ele. Disse que ele deveria sair candidato. Ele ouviu com paciência e respeito", disse ao Valor o deputado Duarte Nogueira, ex-líder da bancada na Câmara. "Não emitiu opinião", completou, ou seja, não negou a proposta.

O ex-presidente do diretório paulistano do PSDB e ex-secretário de Serra, José Henrique Reis Lobo, levantou bandeira contra a realização das prévias. Publicou artigo na semana passada, tuitou 28 mensagens nesta segunda e avisa que não se importa se o identificam com Serra. "É dele a decisão, mas acho que ele deveria reconsiderar", disse Lobo.

Lobo diz não se importar se pensam que ele está a serviço de Serra, mas defende a candidatura do ex-governador como o nome capaz de dar "perspectiva de sucesso nas eleições" para o PSDB. "Serra é o nome mais competitivo, que traz perspectiva de vitória para o PSDB. É decisão dele, mas acho que ele deveria reconsiderar. Lideranças mais experientes acham isso. Ele sabe", afirmou ao Valor.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), inclui-se o grupo que quer convencer Serra.

Duarte Nogueira, ligado a Alckmin, afirma que se Serra se candidatar em São Paulo, vai sensibilizar os quatro pré-candidatos, "levando-os a declinar". Outro argumento pró-Serra é sua capacidade de atrair a adesão do prefeito Gilberto Kassab, presidente do PSD, prestes a realizar aliança com o PT do pré-candidato Fernando Haddad.

Apesar de muito próximo de Alckmin, o deputado estadual Pedro Tobias, presidente do diretório paulista da legenda, saiu em defesa das prévias. "É o fim do mundo vir a público e ser contra as prévias. Não tem volta. Desmoraliza", disse Tobias.

Sobre a postura de Lobo, Tobias se pergunta porque o ex-dirigente não levou sua posição ao comando da sigla quando o tema foi discutido em 2011. "Onde ele estava na época?"

Concorrem às prévias o deputado federal Ricardo Tripoli e os secretários Bruno Covas (Meio Ambiente), José Aníbal (Energia) e Andrea Matarazzo (Cultura).

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Serra negocia com tucanos condições para se candidatar

Após dizer que não seria candidato a prefeito de São Paulo, José Serra agora negocia com Alckmin condições para entrar na disputa. O tucano quer que o governador costure as alianças.

No PT, Fernando Haddad tenta viabilizar acordo com Kassab e sugere Henrique Meirelles como vice.

Serra negocia com tucanos condições para ser candidato

Aliado apresenta a Alckmin pedidos do ex-governador para entrar na campanha pela Prefeitura de São Paulo

Namoro de Kassab com o PT foi decisivo para que ex-presidenciável passasse a reavaliar candidatura a prefeito

Vera Magalhães, Daniela Lima

SÃO PAULO - O ex-governador José Serra já negocia com o governador Geraldo Alckmin condições para se candidatar a prefeito de São Paulo pelo PSDB.

Serra, que antes dizia não ter interesse em disputar novamente a prefeitura nas eleições deste ano, conversou com Alckmin na semana passada e afirmou que estava reconsiderando sua decisão.

Depois dessa conversa, o ex-vice-governador Alberto Goldman foi ao Palácio dos Bandeirantes para levar a Alckmin as condições de Serra para aceitar entrar no páreo.

O ex-presidenciável tucano quer que o governador mobilize sua tropa para "aparar as arestas" internas com os quatro pré-candidatos inscritos para a prévia do partido, marcada para 4 de março.

Quer, ainda, garantia de que o governador atuará para costurar um consistente arco de alianças que dê suporte à sua postulação.

Tucanos que acompanham as negociações acreditam que a aproximação entre o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o PT foi determinante para que o ex-governador passasse a avaliar a candidatura.

Há pelo menos três semanas, emissários de Alckmin e aliados do próprio Serra tentam persuadi-lo a ser o candidato do PSDB.

A avaliação no entorno de Alckmin é que a decisão de Serra tem de ser rápida, porque a realização das prévias levaria a um fato consumado, que seria difícil reverter sem desmoralizar o partido.

Um dos argumentos usados para convencer o ex-presidenciável a reavaliar a candidatura foi que o maior derrotado de uma eventual aliança entre Kassab -sucessor do tucano na prefeitura- e o PT seria o próprio Serra.

Além disso, a saída do PSD da órbita dos tucanos seria um revés importante para as pretensões que Serra ainda alimenta para a eleição presidencial de 2014.

Enquanto trabalhava para convencer Serra, Alckmin passou a atuar para garantir um arco de alianças que sustentasse outra candidatura tucana menos robusta.

Na quinta-feira, por exemplo, será anunciada a entrada do PDT no governo.

O deputado Paulinho da Força, presidente do PDT paulista e que tem se apresentado como pré-candidato, passou a não descartar apoio ao PSDB no primeiro turno.

O PSB também negocia com os tucanos, a partir da promessa de apoio do PSDB ao seu candidato em Campinas, Jonas Donizette.

Serra e Alckmin atuaram para que o PSDB desistisse de ter candidato na cidade.

A eventual reviravolta no PSDB paralisaria as negociações entre Kassab e o pré-candidato do PT, Fernando Haddad, que ganhavam corpo.

O prefeito tem reiterado que não teria como não apoiar Serra, de quem herdou a prefeitura, caso ele se candidatasse. Kassab vê a segunda semana de março como prazo-limite para que Serra tome uma decisão.

O maior entrave a um consenso pela candidatura de Serra são os quatro pré-candidatos tucanos -Andrea Matarazzo, Bruno Covas, José Aníbal e Ricardo Trípoli.

Desses, os mais resistentes a abrir mão das prévias seriam Aníbal e Trípoli. Para dissuadi-los, aliados de Serra avaliam que seria necessária ação direta de Alckmin.

Isso levaria para o governador, dizem os céticos quanto à possibilidade de acordo, o ônus de ter tratorado o partido no momento em que o processo já foi deflagrado.

Alckmin, no entanto, deu garantias de que está disposto a comandar a operação, por acreditar que Serra é, hoje, o nome mais competitivo para vencer as eleições.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

PTB pressiona Planalto

Paulo de Tarso Lyra

Depois de PDT e PR, agora é a vez do PTB ter a certeza de que está sendo perseguido pelo Palácio do Planalto. O partido reclama que todos os seus filiados estão sendo exonerados do Executivo Federal sem qualquer justificativa. O líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO), defende que o partido tenha uma reunião com a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti. "Precisamos conversar para ver se somos ou não aliados. Até para dar tranquilidade nas próximas votações", alertou Jovair.

O líder petebista, inclusive, seria um dos que estão na mira do governo. Na semana passada, Jovair perdeu a vaga na Presidência da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com a demissão de Evangevaldo Santos, como adiantara o Correio há duas semanas. O novo presidente da Conab é João Bona Garcia, ex-diretor financeiro da autarquia.

A vítima da vez seria o presidente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Luciano Portal Santanna. Segundo fontes do governo, também estaria na cota de afilhados do líder do PTB na Câmara, Jovair Arantes (GO). "É um técnico com excelentes qualidades, mas não foi indicado por mim," ressaltou. Assessores palacianos negam que o governo esteja perseguindo o PTB. A avaliação é de que a presidente Dilma Rousseff resolveu mexer definitivamente no segundo escalão e que as mudanças serão feitas com base em critérios de eficiência e não, amparados por indicações políticas.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Rival de Chávez quer aliança com Brasil

Vencedor das primárias da oposição diz que é possível atrair investimentos e diminuir déficit comercial da Venezuela

Lourival Sant"Anna

CARACAS - Uma eventual derrota do presidente Hugo Chávez na eleição de outubro deve introduzir uma mudança de estilo nas relações entre Brasil e Venezuela, mas não um afastamento.

Definindo-se como um "seguidor do modelo brasileiro", o candidato único da oposição, Henrique Capriles Radonski, disse ontem que pretende atrair mais investimentos brasileiros na Venezuela, tornando mais vantajosas as relações bilaterais para seu país. Capriles venceu as primárias da oposição no domingo com 1,8 milhão de votos, 62% do total.

Em entrevista coletiva, respondendo a uma pergunta do Estado, o candidato lembrou a proximidade de Chávez com o PT brasileiro, e o apoio público de Lula ao presidente venezuelano na última eleição presidencial, em 2006. "Estou seguro de que teremos as melhores relações com o Brasil", disse Capriles.

"Hoje a balança comercial é favorável ao Brasil, mas, se tivermos um país aberto, com segurança para os investidores, quanto investimento brasileiro não poderá vir à Venezuela?", questionou Capriles, advogado especializado na área comercial. "Muito, até porque o Brasil está em condições de investir em outros países. Tenho conversado com muita gente do Brasil."

Após a vitória, Capriles criticou duramente a ajuda econômica com que Chávez brinda seus aliados. Disse não ter a intenção de ser "líder do mundo" e trabalharia para tornar mais vantajosas as relações da Venezuela com outros países. No ano passado, o Brasil exportou US$ 208 milhões para a Venezuela, e importou apenas US$ 68 milhões. Os principais produtos exportados pelo Brasil são carne bovina, frango, café e polietileno. O país vizinho vende derivados de petróleo e energia elétrica para os Estados da Região Norte.

"Se digo que sou um seguidor do modelo brasileiro, já de entrada estou falando bem", defendeu-se Capriles. "Estou seguro de que também posso ter uma boa relação com o ex-presidente Lula e com a presidente Dilma Rousseff. Vou visitar muito o Brasil. Além do mais, vamos muito com a cara dos brasileiros."

Atual governador de Miranda, onde se situa Caracas, Capriles disse que implementou no Estado o Programa Fome Zero, inspirado no plano brasileiro.

Acusado de ser "de direita" por chavistas, Capriles definiu-se como "progressista" e procurou diferenciar Chávez, que alterou a Constituição para se reeleger, de Lula. "O Brasil é democrático", disse. "Lula tinha cerca de 70% de popularidade quando chegou à presidência. Não mudou a Constituição para se reeleger."

Eleito em 1998, Chávez aprovou por referendo no ano seguinte uma nova Constituição, que previa mandatos de seis anos com uma reeleição. Promoveu em 2000 nova eleição presidencial e considerou que seu mandato começava do zero, sob a nova Carta. Reelegeu-se em 2006 e em 2009 aprovou por referendo nova reforma constitucional, tornando a reeleição ilimitada.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Capriles vê 'recorde' em alta votação

CARACAS - O candidato único da oposição venezuelana a presidente, Henrique Capriles Radonski, considerou ontem um "recorde mundial, proporcionalmente ao eleitorado", o comparecimento às eleições primárias de domingo, nas quais votaram 2,9 milhões dos 18 milhões de eleitores, ou 16%. "Agora, se cada um dos que votaram conseguir outros dois, serão 9 milhões", calculou o candidato. "Já sabemos que o teto eleitoral do governo, atingido nas eleições de 2010 (para o Parlamento), não chega a 6 milhões."

A oposição, unida desde 2007 após repetidas derrotas contra Chávez, obteve 51% dos votos nas eleições para a Assembleia Nacional em 2010, mas acabou com menos cadeiras no Parlamento por causa do peso proporcional de cada Estado. O comparecimento naquelas eleições foi de 66%. Capriles, que governa o Estado de Miranda, venceu no domingo com 1,8 milhão de votos (62%), seguido pelo também governador Pablo Pérez, de Zulia, que teve 870 mil votos (30%); María Corina Machado, a deputada mais bem votada do país, teve 103 mil votos (3,5%); o diplomata Diego Arria, 35 mil votos (1%) e o ex-senador e ex-chavista Pablo Medina, 14 mil (0,5%).

Depois de divulgados os resultados das primárias, em que todos os eleitores venezuelanos podiam votar, os outros quatro candidatos foram festejar a vitória com Capriles na noite de domingo, e prometeram se manter unidos na campanha para a eleição presidencial de outubro. Capriles destacou ontem que não conta só com o apoio dos ex-presidenciáveis, mas também de 17 candidatos a governadores e os 250 candidatos a prefeitos, que foram escolhidos nas primárias de domingo e disputarão eleições em novembro. / L.S.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Crônica de uma ruína anunciada:: Clóvis Rossi

A Europa e o FMI estão impondo à Grécia muito mais do que qualquer país pode suportar

O tucano José Serra costuma dizer que o jornalismo brasileiro contemporâneo é como a Grécia: só tem colunas e ruínas.

O leitor dirá se a avaliação do jornalismo é ou não correta. A da Grécia deixou de ser: o país hoje está resumido apenas a ruínas, econômicas, políticas e, principalmente, sociais.

E mais ruínas virão ante a evidência de que o programa aplicado à Grécia "tem sido um fracasso sem paliativos", no dizer de um colunista liberal como Wolfgang Münchau ("Financial Times"), evidência que, segundo ele, começa, a invadir a mente dos políticos em "algumas capitais do Norte da Europa" (leia-se: Alemanha, Holanda, Finlândia).

Invadiu pelo menos a cabeça de Peter Bofinger, um dos membros do Conselho Alemão de Especialistas em Economia -chamados de "Os Cinco Sábios"-, órgão independente que assessora o governo em política econômica. Em entrevista a Carolina Vila-Nova, Peter Bofinger "defende o indefensável hoje na Alemanha: mais dinheiro, mais tempo e menos austeridade à Grécia", como escreveu essa excelente jornalista,

Diz Bofinger: "Qualquer engenheiro sabe que uma ponte suporta um limite de peso. Esses limites também têm de ser respeitados em política econômica". Elementar. Inacreditável é que a União Europeia desconheça completamente uma verdade tão básica e force a Grécia a amontoar ruínas sobre ruínas.

Será que nenhum dirigente europeu parou para pensar nos efeitos nefastos dos três anos de austeridade impostos à Grécia? Nefastos não apenas socialmente, coisa que pouco interessa ao resto da Europa, mas também do ponto de vista da correção dos problemas que se supõe que a austeridade deveria enfrentar.

Basta ler o blog da economista Karine Berger: "A dívida grega passou de € 263 bilhões, em 2008, a € 355 bilhões em 2011. O PIB caiu, no período, de € 233 bilhões a € 218 bilhões. E, com uma taxa de juros oficial de 32%, nem é preciso dizer que a Grécia não pode de jeito nenhum se financiar nos mercados" [o que era ou ainda é a meta última dos programas europeus].

Os novos passos dados na tragédia -a aprovação pelo Parlamento de um novo aperto e a eventual liberação de novo pacote pela "troica" União Europeia/Fundo Monetário/Banco Central Europeu- evitarão a ruína final? Não, prevê Münchau no "FT". Pode, imagina ele, haver um período de calma, mas logo "se tornará claro que os cortes nos salários e aposentadorias piorarão a depressão".

Sua sugestão, válida para a Grécia, mas também para Portugal, que está voltando a entrar na zona de desastre: "O melhor seria reconhecer o estado desolador de ambos os países, deixá-los quebrar dentro da união monetária [sem sair do euro, portanto, ao contrário do que vêm sugerindo autoridades alemãs], e utilizar, então, um fundo de resgate suficientemente incrementado para ajudá-los a se reconstruir, ao mesmo tempo em que se ergue um muro de proteção ao resto [dos países da eurozona]".

Fecha o raciocínio com outra lógica elementar: "Será muito caro, mas ignorar a realidade por mais dois anos será ruinoso".

Posto de outra forma: a Grécia não ficaria sozinha na sua ruína.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

É poder de competição, estúpido! :: Rubens Barbosa

Apesar dos níveis recordes em 2011, a preocupação sobre a evolução do comércio exterior é grande. A concentração das exportações em poucos produtos e a perda de mercados dos manufaturados aumentaram a vulnerabilidade do setor externo e mostraram os problemas do setor produtivo industrial.

O sucesso da política econômica e do comércio exterior, que quadruplicou em 10 anos, esconde os verdadeiros problemas da economia em geral e do setor externo em particular. A desindustrialização é um triste fato. A indústria, que já representou 25% do PIB, hoje está reduzida a menos de 15%. O consumo doméstico é atendido cada vez mais por importações (22,3%), fazendo desaparecer fornecedores nacionais e empregos.

O déficit na balança comercial industrial subiu a mais de US$ 90 bilhões. As exportações se reprimarizam (produtos primários representam 70% das exportações e 4 produtos, quase 50%).

"Os números de janeiro da balança comercial comprovam o descaso do governo brasileiro com o setor produtivo do país. Estamos diante de uma situação muito grave, que pode comprometer nossa capacidade de gerar riquezas e empregos. O governo não pode ficar parado e se limitar apenas ao discurso.

Há meses estamos alertando para o problema da avalanche de importados, que afeta severamente a nossa indústria. O Brasil não pode mais esperar, é preciso que as autoridades adotem imediatamente medidas eficazes que garantam a igualdade de condições para a produção nacional", afirmou dura, mas corretamente Paulo Skaf, presidente da Fiesp.

Na área da negociação externa, nos últimos dez anos, o aumento das exportações pouco teve a ver com a abertura de mercados por meio de acordos comerciais, pois somente acordos com Israel, Egito e agora com a Autoridade Palestina foram assinados, no âmbito do Mercosul. Uma nova estratégia de negociação de acordos de livre comércio é necessária.

Enquanto essa é a situação no Brasil, o presidente Obama, na mensagem anual ao Congresso ("State of the Union"), ofereceu um bom exemplo de como defender de forma vigorosa a indústria manufatureira com visão de futuro.

Procurando trazer de volta empregos para a economia, anunciou um ambicioso programa de apoio á indústria doméstica. O conjunto de medidas incluiu a aprovação de ampla reforma tributária, novos impostos para as multinacionais que se instalam no exterior e exportam empregos, e redução de tributos para as empresas de transformação e de alta tecnologia, além de programas de treinamento profissional especializado. 

Na área de comércio exterior, Obama reiterou a meta de dobrar as exportações em cinco anos, o avanço nas negociações de novos acordos de livre comércio e o reforço da promoção das exportações e da defesa comercial com a criação de uma unidade de acompanhamento da aplicação das regras comerciais, responsável pela investigação de práticas desleais de comércio em países como a China.

Por aqui, nos últimos dez anos, as medidas de apoio à indústria ignoraram a principal causa da rápida perda da competitividade da economia nacional.

O custo Brasil está tendo um efeito devastador na economia. De imediato, com a perda de mercado no setor exportador e a crescente saída de empresas brasileiras, e, a médio e longo prazos, com o aumento do desemprego e com a redução de investimentos.

A exemplo dos EUA, a desoneração tributária deveria encabeçar a agenda do governo para enfrentar a competição externa.

Defesa comercial apenas não melhora a competitividade. O custo da energia, a alta taxa de juros, a apreciação cambial que anula a proteção tarifária, as ineficiências burocráticas, a guerra de incentivos nos portos e seus altos custos operacionais, o descalabro da infraestrutura, o peso dos gastos com a corrupção e com a aplicação da legislação trabalhista poderiam, se atenuados, representar significativa redução dos mais de 35% no custo final dos produtos.

Em resumo, é a competitividade, estúpido. O setor privado já fez a sua parte com o aumento da produtividade das empresas. Se o governo não atacar de frente o custo Brasil, a reindustrialização brasileira ficará seriamente ameaçada.

Rubens Barbosa É presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp.

FONTE: O GLOBO

Interregno hegemônico :: Yoshiaki Nakano

A crise financeira de 2008, desencadeada pela crise do subprime em 2007, tem o seu foco nos EUA e na Europa. Os países emergentes e, particularmente, os Brics revelaram-se extremamente resistentes e transformaram-se hoje no polo do crescimento da economia global. É uma crise do próprio centro do sistema global de poder com todas as suas implicações. As suas consequências também deverão ser profundas e persistentes.

O que está em jogo é uma variedade de capitalismo e a globalização liberalizante que chegaram ao seu limite e a provável ascensão de um novo tipo de capitalismo e de globalização. A ascensão da plutocracia financeira ao poder com Reagan/Thatcher, desde 1980, significou a retração do Estado-nação na sua função reguladora e controladora, com domínio de doutrinas como a de "mercado eficiente", sempre em equilíbrio, e capaz de se autorregular. O mercado se transformou no princípio de organização da economia capitalista, em contraposição ao Estado-nação. Mas, se não fosse a massiva intervenção e o socorro prestado pelo Estado, o mercado financeiro desregulado teria adquirido um poder autodestrutivo tão grande que o sistema financeiro teria praticamente desaparecido. Por razões de sobrevivência do próprio capitalismo, o Estado-nação está retomando a sua função reguladora e controladora dos mercados num processo adaptativo.

A China aparece como um candidato natural para se tornar, gradualmente, o paradigma econômico dominante nas próximas décadas. Se apresenta como um novo capitalismo de Estado, em substituição modelo da liberalização global. Se isso acontecer, o mercado livre será substituído pelo Estado-nacional como princípio dominante de organização e de controle das economias nacionais, e da nova a fase da globalização. Em países em que a liberalização avançou excessivamente e em crise financeira, o Estado ampliará seu foco de regulação e controle sobre os mercados. Nos países onde o poder do Estado é o agente organizador e controlador da economia, como na China, o mercado, enquanto princípio organizador, deverá ser ampliado.

Esse processo adaptativo entre mercado e Estado será longo e complexo, pois a plutocracia financeira é ainda o poder hegemônico e resistirá ao avanço da regulação. Mas quanto maior for a resistência e quanto maior for o período de dominância do mercado livre, maior será a crise necessária para que o princípio adaptativo funcione.

Vamos viver nas próximas décadas um longo interregno, com o declínio dos Estados Unidos e Europa e ascensão da China e dos países emergentes. Tanto os Estados Unidos como a Europa terão que concentrar suas energias para recuperar e revitalizar suas economias, num contexto de crescente oposição e polarização política doméstica, abrindo espaço para a emergência de novos estados-nacionais com atores políticos, a exemplo do G-20. Somente com a ascensão de nova coalizão global de forças políticas é que será construída uma nova ordem internacional, com a imposição de um novo pensamento econômico, o que deverá levar décadas. Nesse interregno hegemônico, será perfeitamente possível que conceitos como soberania, Estado-nação e nacionalismo venham adquirir força política e movimentem as massas, pois serão alimentados pelo crescente protecionismo, em pleno andamento, e pelo fato do problema de desemprego ser sempre um problema nacional.

Há uma similaridade histórica com o que aconteceu depois da Grande Depressão de 1890 até o fim da Grande Depressão de 1929 a 1939, foi um longo interregno marcado pelo declínio da hegemonia global inglesa e a ascensão americana, que se consolidou na segunda guerra mundial. Neste interregno, assistimos ao gradual declínio da plutocracia financeira inglesa e a ascensão do poder industrial americano. Fazendo paralelo histórico, poderemos ter, desta vez, o declínio da plutocracia financeira americana e a ascensão do poder industrial asiático.

Com redistribuição de poder e liderança na economia mundial, mais o declínio de um paradigma econômico que prevaleceu nas últimas três décadas, vamos viver um longo período de vácuo de poder dominante, com degelo da sua ideologia, seu pensamento econômico e dos consensos de políticas. Novas regras do jogo deverão emergir, mas nada disso tem uma evolução continua e linear.

Um interregno abre brechas e, países como o Brasil poderão agir estrategicamente para alcançar seus objetivos. Para países dependentes e com forte herança colonial, a globalização implicou num deslocamento deliberado para o exterior do dinamismo da economia e aumento da sua importância relativa do setor externo (fluxo de capitais) vis-à-vis setor interno da economia. Esta importância relativa não se refere apenas às condições econômicas e financeiras, mas principalmente ideológicas e dominância do pensamento econômico hegemônico. Com o interregno, a autonomia com que países podem perseguir objetivos nacionais de política econômica mudará substancialmente. É nesse panorama que cabe colocar se a Grande Recessão é uma ameaça ou oportunidade para o desenvolvimento brasileiro? Que futuro podemos conjecturar para o Brasil?

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Farmácias vitaminadas:: Vinícius Torres Freire

Onda de fusões e aquisições prossegue no setor, que desde 2009 fica mais concentrado e profissional

O Brasil cresce, mal ou bem, desde 2005, como não crescia fazia 30 anos. O tamanho das empresas cresce ainda mais rápido. É o que ocorre também com as farmácias, negócio ainda pulverizado em termos nacionais, mas nem tanto nos Estados.

As farmácias passaram a atrair empresas financeiras do porte de BTG e Gávea. Ontem, o braço "farmacêutico" do BTG, a Brazil Pharma, fechou uma proposta para comprar a rede baiana Sant"ana.

Farmácia não é negócio pequeno. Segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (IBGE) mais recente, remédios e produtos de higiene pessoal levam quase 6% das despesas de consumo dos brasileiros (quase o dobro do gasto em educação, mais que o dobro em eletrodomésticos, mais que em vestuário).

Em 2008, a Gávea investira na Droga Raia, desde o ano passado Raia Drogasil. A empresa disputa a liderança nacional (em faturamento) com a DPSP, resultado da fusão, também em 2011, da Drogaria São Paulo com a Pacheco.

Desde 2009, sete das 15 maiores empresas do ramo se aglutinaram. Em 2004, as cinco maiores redes tinham 16% das vendas. Em 2010, 23%. No ano passado, talvez 30%. "Talvez", pois as estatísticas do setor são um tanto confusas.

Segundo dados do IBGE, o varejo de remédios, perfumaria, produtos médicos e ortopédicos cresce em média 10% ao ano desde 2005. As farmácias crescem mais que isso, segundo associações do setor.

Renda crescente, povo mais idoso, formalização do negócio (com as notas eletrônicas), tudo isso estimulou o interesse pela consolidação.

O mercado começa a ficar concentrado? Não parece, mas a medida é difícil, depende de estudos muito complexos, com lupa em mercados regionais. Mas, para começar, os dados são confusos.

O Conselho Federal de Farmácia diz que existem cerca de 82 mil farmácias. As associações comerciais falam em cerca de 62 mil. Mas há estudos desse setor de varejo que falam em 52 mil pontos de venda.

Segundo a Abrafarma, associação das redes de farmácia, suas associadas, com mais de 3.600 lojas, faturam 41% do setor. A DPSP e a Raia Drogasil teriam, cada uma, cerca de 9% do faturamento do setor estimado pela Abrafarma (R$ 42 bilhões). Mas cada rede tem em torno de 700 lojas cada uma.

Num mercado ainda amador e pulverizado como o de farmácias, a consolidação tende a ser um progresso. Ganhos de escala e gestão moderna podem tornar o negócio mais eficiente e até melhorar os preços para o consumidor.

Por outro lado, as empresas menores serão devastadas e, provavelmente, expulsas para rincões de baixa renda.

Na média, os preços de produtos farmacêuticos têm subido menos que a inflação geral (IPCA). Em 2011, a inflação dos farmacêuticos foi de 4,4%, ante 6,5% do IPCA. Desde 2005, os farmacêuticos subiram o equivalente a 61% do IPCA.

A média pode distorcer altas feias de preços em remédios importantes (PODE: não quer dizer que distorça). Além do mais, as farmácias modernizadas deixaram de ser drogarias. Podem vender mais produtos, oferecer mais serviços.

Mas o negócio de farmácias ficou vitaminado. Precisa de um "check up" da supervisão da concorrência. Por ora, só um exame de rotina.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Carta na mesa:: Míriam Leitão

A Grécia já passou do ponto de ser salva. Os credores foram longe demais; o país, também. Nem o remédio que os credores prescrevem é viável, nem os gregos estão dispostos a usá-lo. O país está há três anos em recessão, a apenas dois meses de uma eleição geral e com as ruas em chamas. Desse jeito, a Grécia caminha para uma moratória descontrolada.

A Europa pressiona os gregos e já se preocupa com Portugal. No domingo, com o povo enfrentando a polícia, o governo em crise pela demissão de seis ministros, com 40 deputados da coalizão votando contra, o parlamento aprovou as novas medidas de austeridade.

Mesmo assim, ontem, a Zona do Euro começou a emitir sinais de que isso não era suficiente. A troika — FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia — quer uma carta aos gregos em que todos os partidos afirmem que cumprirão o que foi aprovado no domingo pelo parlamento.

Muitos economistas europeus têm dito que é melhor deixar a Grécia à própria sorte e tentar fazer um cordão de isolamento para salvar o segundo da fila, que é Portugal.

A Grécia caminha para um cenário argentino. Nosso vizinho, como se lembram, na virada de 2001 para 2002 viveu um colapso político, seguido de uma mudança drástica na política de câmbio fixo.

Com a explosão da dívida externa e nenhuma ajuda, a Argentina decretou uma moratória e impôs aos credores uma perda de mais de 70%. Depois, conseguiu se recuperar e crescer. Não foi fácil para os argentinos. Eles tiveram uma grande recessão e perderam parte do dinheiro aplicado.

Como tinham suas aplicações em dólar ou na moeda local com uma paridade fixa com o dólar, o governo arbitrou uma taxa de conversão que reduziu drasticamente o valor do que os argentinos tinham poupado. Além disso, não tiveram acesso ao próprio dinheiro por um bom tempo. Foi o "corralito".

Quem olha a sucessão de eventos dos últimos dois anos vê que a Grécia está andando em círculos e cada vez piora mais, repetindo velhos enredos. Já fez vários pacotes de ajustes que seriam salvadores. Mas não foram.

O PIB teve recessão de 2% em 2009; 4%, em 2010; 5% em 2011; e o nível de atividade continua a cair. O desemprego é de 20,9%, e entre jovens é de 48%. Agora, como remédio — e condição para emprestar uma nova parcela dos C 130 bilhões prometidos à Grécia — a troika pediu mais demissão de funcionários públicos, corte de salários e pensões, o que vai deprimir mais ainda a economia.

Se tivessem perguntado aos latino-americanos, nós poderíamos dizer o que não dá certo. Esse remédio não dá certo. Ao mesmo tempo, é inevitável que o credor, para dar mais dinheiro, peça garantias.
O erro foi cometido antes.

No gráfico abaixo fica claro que desde 2001 o país ficou com uma dívida em torno de 100% do PIB, até que ela passou a aumentar mais fortemente depois da crise financeira de 2008.

É preciso lembrar dois eventos: primeiro, o governo de centro-direita que governou até 2009 tinha manipulado os números, escondendo déficit e dívida; segundo, a Europa nada fez para exigir que a Grécia tentasse voltar ao nível exigido de dívida, que é 60% (vejam a linha pontilhada, no gráfico).

E não exigiu porque países grandes também estavam fora do limite estabelecido. Em resumo, todos erraram.

A Grécia vem mantendo um setor público gigante, que emprega 20% da população economicamente ativa do país. No Brasil, que tem 93 milhões aptos a trabalhar, seria como se o governo tivesse 19 milhões de funcionários.

A saída argentina, de simplesmente dizer que não paga e pular sem qualquer paraquedas, será mais difícil na Grécia, segundo a economista Monica de Bolle, da Galanto Consultoria: — A Argentina tinha duas vantagens em relação à Grécia.

Não fazia parte de uma união monetária e pegou o mundo em forte crescimento, a partir de 2003. A Grécia terá pela frente um mundo de crescimento baixo e poderá ser expulsa da União Europeia se deixar a Zona do Euro.

O efeito contágio da Grécia é muito maior exatamente porque ela está numa união monetária. O povo grego, explicou a economista, comprou há dois anos a ideia de que era o sacrifício ou o caos. E fez o sacrifício, viu o parlamento votar a favor da demissão de funcionários públicos, aumento de impostos, cortes de salários, redução de pensões e aposentadorias. Mas não viu melhora.

Hoje, a Grécia é um país insolvente, e a redução do déficit não aconteceu como previsto porque as receitas do governo também ficaram menores com a retração econômica. Ou seja, para o povo grego, o esforço parece ter sido em vão.

Ontem, as bolsas abriram em alta, comemorando a aprovação pelo parlamento grego das medidas de ajuste. Mas para essa crise há apenas alívios temporários. Já é tarde.

FONTE: O GLOBO

Clara Nunes - O canto das três raças

Sobre a atual vergonha de ser brasileiro :: Affonso Romano de Sant’anna

" Este é o país do diz e do desdiz
onde o dito é desmentido
no mesmo instante em que é dito.

Não há linguista e erudito
que apure o sentido inscrito
nesse discurso invertido.

Aqui
o dito é o não-dito
e já ninguém pergunta
se será Benedito.

Aqui
o discurso se trunca:
o sim é não
o não, talvez,
o talvez
-nunca".

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Alberto Goldman: símbolos da coerência

"Em junho do ano passado os bombeiros do Rio de Janeiro, em greve por melhores salários, invadiram o quartel-central da corporação. No dia seguinte, a maioria dos manifestantes foi presa. Terminada a paralisação o senador Lindbergh Farias, do PT, propôs uma anistia aos bombeiros. O projeto de lei recebeu emendas do próprio senador e dos senadores Renan Calheiros, do PMDB, e Eduardo Amorim, do PSC.

Alterado por emendas no Congresso, o projeto de lei que previa anistia criminal apenas para os bombeiros grevistas do Rio acabou estendendo o benefício a policiais e bombeiros de mais 12 estados e do Distrito Federal. Foram considerados anistiados todos os envolvidos em movimentos reivindicatórios em um período de 14 anos. A lei foi sancionada pela presidente Dilma Rousseff no dia 11 de outubro do ano passado.

Essa é a notícia. E agora, ouviram a presidente e seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, dizerem, enfaticamente, que é inadmissível a anistia a policiais militares pois as suas paralisações são ilegais? Será que essa gente do governo esquece o que disseram e assinaram no dia anterior?"

Alberto Goldman, ex-ministro, ex-deputado e ex-governador. Dilma e Cardoso, símbolos da coerência. No Blog, 11/2/2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Grécia aprova cortes em meio a caos nas ruas
Dois milhões elegem rival de Chávez
Piso da polícia pode custar R$ 46 bilhões

FOLHA DE S. PAULO
Sob pressão, Parlamento grego dá aval a cortes
Entrevista da 2ª: Peter Bofinger
Liga Árabe pede à ONU missão de paz na Síria
Lula quer antecipar aliança com Kassab para março

O ESTADO DE S. PAULO
Violência e confronto marcam votação de ajuda à Grécia
Convênios do PAC contratam secretárias
Salvador tem fevereiro mais violento
Leilão de precatórios é discutido hoje no TJ-SP

VALOR ECONÔMICO
Abono salarial já custa R$ 10,3 bi
Lei aumenta encargo para bolsa escolar
Governo dá novas missões ambiciosas para a Telebras
Receita imbatível para vencer eleição

CORREIO BRAZILIENSE
Lei seca suspende 4,9 mil carteiras
Grécia em chamas
Bahia segue na pauta
Empreitada brasileira

ESTADO DE MINAS
BH sem direito a prorrogação
Terra improdutiva

ZERO HORA (RS)
Força-tarefa define ações para combater o crack

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Lula fica livre do tumor

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

As fronteiras da ação policial :: José de Souza Martins*

A greve na Bahia e o despejo no Pinheirinho expressam as imperfeições da ordem e o desprezo elitista pelo Brasil da margem

A greve da Polícia Militar da Bahia ocorre na mesma conjuntura da intervenção da Polícia Militar de São Paulo no despejo dos ocupantes do Pinheirinho, em São José dos Campos. As motivações são opostas e os silêncios também. Mas os sujeitos não diferem. Na greve da Bahia, a PM priva a sociedade da segurança da ordem e, por meio da coação, força o governo petista a atender suas pressões. A PM de São Paulo, para cumprir ordem judicial e impor o primado da lei e da ordem, viu-se instrumento do que parecia e é uma injustiça praticada em nome do direito.

Apesar do fato de que as duas ocorrências se deem em territórios de governos de partidos antagônicos, elas oferecem a oportunidade de um exame das questões além do limitado horizonte do partidário. O país tem sido refém de um pendularismo ideológico que dificulta a compreensão de anomalias políticas, como essas. É que são elas expressões das estruturas profundas de uma sociedade carregada de heranças do pretérito e do atraso pré-político. A história não é petista nem tucana.

A greve da Bahia violou os direitos humanos da população baiana ao pô-la em situação de risco, concretizado nos decorrentes assassinatos e saques. E na violência generalizada do terror do amotinamento dos agentes de uma instituição essencial à manutenção da ordem. Encerrar a greve, como se os mortos vitimados pela omissão da PM baiana fossem apenas produtos defeituosos e descartáveis da linha de produção de uma fábrica, seria confissão de criminoso desprezo pela vida do outro. Em princípio, cúmplice de homicídio, mesmo decorrente de uma greve, tem seu crime capitulado no Código Penal, e não na legislação trabalhista. A greve na Bahia desandou, ainda, para o deboche, que lhe revelou o sentido último, ao aliciar a simpatia do general comandante da operação de imposição da lei, subornando-lhe as lágrimas com um bolo de aniversário.

Às pressas, a presidente da República desenterra projeto de regulamentação do direito de greve no serviço público, o que abrange as polícias. É medida que se torna urgente. Quando a liberalidade da lei é fator de abuso, violência e anulação das próprias condições de afirmação do direito, a regulação torna-se necessária. A greve é historicamente a indicação de um limite, não um direito de abuso.

É significativo que o atual governador, que foi um dia experimentado líder sindical, tivesse sido surpreendido, em visita a Cuba, por uma greve que correu fora dos canais sindicais de convenção e fora das expectativas da reivindicação negociável. Crianças e mães e o bolo do general são indicativos de reclamo pautado longe da racionalidade própria das relações de trabalho. Toda a população do Estado foi feita refém de uma chantagem. A reivindicação salarial justa deixou de sê-lo quando veiculada por meio de técnicas de intimidação e de extorsão.

As mudanças que vem ocorrendo no País no último meio século indicam claramente que o eixo da reivindicação de classe foi deslocado pela própria dinâmica da economia moderna e, sobretudo, pela dinâmica da sociedade. A sociedade se fragmentou e já não há fatores que deem unidade, visibilidade e eficácia política ao pressuposto da classe social como agente das demandas sociais. Hoje, as entidades e movimentos de reivindicação, mesmo os profissionais, estão mutilados pela interveniência de subjacentes demandas estranhas à situação de classe, como as raciais, religiosas e corporativas.

Os grupos desfavorecidos falam como grupos de interesse que expressam demandas informadas pela rusticidade das ideias da economia moral, como fazem os PMs da Bahia e como faz o MST, arrastando para o cenário de seus conflitos mulheres e crianças, aquém do sindicato e do partido e, portanto, aquém do neoliberalismo de negociação que os preside. Ou seja, a família como sujeito pré-político de carências. O que o historiador inglês E. P. Thompson chamou de economia moral retorna do fundo dos tempos, dando nova e diferente entonação às lutas sociais. Esse é o ponto que junta os problemas impostos aos respectivos governos pelas PMs na Bahia e em São Paulo.

Numa entrevista infeliz a Débora Bergamasco, a secretária da Justiça de São Paulo alinhavou argumentos de radical legalismo para justificar a ordem judicial do despejo no Pinheirinho e o emprego da PM para executá-la. O país da bem-vinda Constituição liberalizante de 1988 omitiu-se em relação a questões essenciais, como a dos limites morais na execução da lei. A própria ditadura militar, no governo Costa e Silva, em face da violência dos despejos de posseiros na Amazônia, baixara ato complementar instituindo a audiência prévia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária na decretação de despejos pela Justiça, antepondo o primado social da reforma agrária às formalidades da lei, dada a possibilidade da desapropriação e da regularização fundiária. O caso da Bahia e o caso de Pinheirinho expressam as imperfeições da ordem e o desprezo elitista pelo Brasil da margem.

* José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros, de A política do Brasil lúmpen e místico (Contexto, 2011)

FONTE: ALIÁS/ O ESTADO DE S. PAULO

Mentira:: Caetano Veloso

Tarde demais para lamentar a imperdoável desatenção do governador Jacques Wagner aos problemas que levaram à greve da Polícia Militar da Bahia. Jânio de Freitas estava certo ao escrever que ao governador cabe a maior parte da responsabilidade pela situação. Hoje (quinta-feira) de manhã vi um PM dizer na televisão que as conversas telefônicas entre ele e o líder do motim ("Eu vou queimar viaturas, eu vou queimar duas carretas na Rio-Bahia"; "Fecha a BR!", respondia-lhe o comandante) tinham sido uma encenação de quem já sabia que estava sendo monitorado. Mas a invasão, na Paralela, de dois ônibus por homens armados e encapuzados é fato indiscutível - e que se afina com o tom desses telefonemas. O clima de terror que os grevistas quiseram instaurar deixou o Rio Vermelho deserto no sábado à noite: é como se a Lapa tivesse ficado deserta num fim de semana. Os assassinatos de moradores de rua continuam inexplicados.

Wagner era sindicalista. É inacreditável que ele diga que foi pego de surpresa. Nós todos já sabíamos o que tinha se passado no Maranhão e no Ceará, antes de sua viagem a Cuba. Ele deverá ser sempre criticado por não ter sido capaz de negociar e, uma vez o conflito deflagrado, não ter tido a força de personalidade para lembrar aos envolvidos que há instituições neste país.

Quando Lula chegou à presidência, chamou Luiz Eduardo Soares para projetar uma política nacional de segurança. Os lulistas nunca explicaram como e por que Soares foi despachado sem ter tido tempo sequer de testar um esboço de suas ideias. Mas já ouvi cem vezes que José Dirceu usou toda a sua energia para livrar o nascente governo do PT do estorvo que seria um homem íntegro e informado trazendo racionalidade para o enfrentamento da questão da segurança pública. Nada nem remotamente semelhante foi posto no lugar. O misto de aparelhamento com fisiologismo não permitiria uma experiência ousada. Ninguém está certo de que as decisões de Luiz Eduardo seriam bem-sucedidas. Mas é seguro que o que se tem aí não poderia ser piorado.

Ouço vozes populares iradas com o governador e simpáticas à greve. São vozes de pessoas íntimas minhas, e também de desconhecidos que escrevem cartas às redações ou que simplesmente se manifestam em diálogos casuais na rua. São pessoas que acham absurdo os salários dos policiais que arriscam a vida para encarar cidades tomadas por marginais. Muitas xingam os parlamentares que votam aumentos de seus próprios ganhos, quando sabemos que eles são todos bandidos e corruptos. Claro que a resposta é que não só não é verdade que todos os legisladores sejam bandidos como também que se sabe que há policiais que o são. As cenas na Assembleia Legislativa, com mulheres e filhos de policiais nas fotos, têm a alegria espontânea das greves do tempo de "Eles não usam black-tie". Mas é impossível não lembrar o conceito de escudo humano, num tempo em que se sabe que crianças se explodiram na Palestina Ocupada (que é como os árabes chamam o Estado de Israel).

O doloroso é sentir a fragilidade das instituições brasileiras. O clima de revolução aqui em Salvador surge em falas surpreendentes: uma policial militar foi flagrada dizendo a um dos líderes, por telefone, que queria aderir à greve, mas que seu marido, também policial, era contra, o que criaria problemas para ela em casa. Ela pergunta se o telefone do comandante do motim está grampeado, ao que ele responde que "sempre está". O desejo expresso dessa mulher e seu conflito lembram cenas de situações revolucionárias cheias de beleza e promessas. Há algo dessa atmosfera aqui. Enternece, excita, mas também amedronta e abate, pois sabemos aonde levam quase todas as revoluções. Lembro-me das conversas na faculdade sobre "condições revolucionárias" e de filmes italianos sobre heróis comunistas - mas também de Mao, Stalin e Pol Pot.

Assistir ao filme de Clint Eastwood sobre Edgar Hoover num cinema de Salvador hoje à noite, com todo o ridículo da música e da maquiagem de Hoover e de seu namorado, me fez pensar na deficiência de nossa utilização dos talentos. Hoover implantou o uso da impressão digital, pôs em prática uma visão nítida de segurança pública. Quem nos dera que um Luiz Eduardo Soares, em tudo tão oposto a Hoover, encontrasse os caminhos para criar uma ordem eficaz e com jeito brasileiro. Ou quem sabe do caos virá alguém diferentíssimo de Luiz e nos surpreenderá.

Ouvi que a casinha de Iemanjá, aqui ao lado, foi invadida e roubada, tendo os invasores quebrado as estátuas da deusa. Houve quem visse nisso uma expressão de intolerância antipoliteísta e inimiga da adoração de ídolos, em sintonia com a presença de alguns evangélicos entre os líderes do motim. Não consigo sentir assim, embora seja muito absurdo baianos não contaminados pela campanha evangélica destruírem imagens de Iemanjá. Será que Gilberto Dimenstein está certo e Salvador é uma mentira? (E eu deveria estar preso?) Na semana em que Wando morreu em BH, tenho vontade de ter visto um Aécio presidente - e de voltar a morar na Bahia.

Dimenstein tem razão. A cidade está um lixo. Tudo aqui dá a impressão de que não há futuro. "Sim", me disse Agostinho da Silva sobre a África, "ali de facto não há futuro. Por isso mesmo devemos fazê-lo". Limpar o Porto da Barra, retomar a manutenção do Pelourinho, pagar bem os policiais honestos, descartar os bandidos e os governantes ineptos, refazer a imagem de Iemanjá.

O doloroso é sentir a fragilidade das instituições brasileiras

FONTE: O GLOBO

General do povo, não:: Elio Gaspari

No século passado, havia generais de direita e de esquerda, deu em ditadura, assassinatos e tortura

A cena de confraternização do general Gonçalves Dias, comandante da 6ª Região Militar, com os PMs amotinados de Salvador foi constrangedora e impertinente.

Constrangedora porque o general foi aos amotinados, recebeu um bolo de aniversário e abraçou um deles. Esqueceu-se de que estava no comando de uma operação militar. Desde o início do motim, mais de 135 pessoas foram assassinadas em Salvador. A Assembleia Legislativa fora ocupada. Lojas e casas foram saqueadas. O prejuízo do comércio vai a centenas de milhões de reais, e os rebelados cantavam "Ôôô, o Carnaval acabou".

O general foi impertinente ao dizer o seguinte: "Peço aos senhores: se as pautas que estão sendo discutidas pelos políticos não forem atendidas, vamos voltar a uma negociação. Não poderá haver confronto entre os militares. Eu estarei aqui, bem no meio dos senhores, sem colete".

A primeira impertinência esteve na afirmação de que "as pautas estão sendo discutidas pelo políticos". A negociação estava na alçada dos Poderes constituídos, aos quais as Forças Armadas estão subordinadas. A segunda impertinência estava na afirmação de que "não poderá haver confronto entre os militares". Os PMs amotinados não estavam ali como militares, mas como desordeiros, cabeças-de-ponte de um motim articulado que se estendeu ao Rio de Janeiro. A ideia de que a negociação estava nas mãos dos "políticos" e de que "não poderá haver confronto entre os militares" é subversiva e caquética.

A tropa do Exército é mobilizada para exercer um efeito dissuasório. O discurso do general e a cena do bolo transformaram o poderio militar em alegoria carnavalesca. Se "não poderia haver confronto", com que autoridade um coronel ordenaria a um capitão que respondesse a uma agressão? (No dia seguinte, no peito, cerca de 50 pessoas furaram o cerco da tropa e juntaram-se ao motim. Na quinta-feira, no Rio, a polícia baixou o pau nos trabalhadores vitimados pela SuperVia.)

No século passado havia os "generais da UDN" e a eles contrapuseram-se os "generais do povo". Deu no que deu. O tenente que em 1964 comandava os tanques que guarneciam o Palácio Laranjeiras tornou-se um dos "doutores" da Casa da Morte, onde se assassinavam presos políticos. Em 1981, estava no carro que jogou a bomba na casa de força do Riocentro. Outra explodiu antes da hora, matou um sargento e estripou um capitão.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Caetano Araújo é reeleito presidente da Fundação Astrojildo Pereira

Diretório Nacional do PPS aprova nova direção da FAP

Por: Assessoria do PPS

O Diretório Nacional do PPS aprovou, nesta sexta-feira, após intenso debate, a nova direção da Fundação Astrojildo Pereira. Na presidência da entidade continua o cientista político e sociólogo Caetano Araújo (PPS-DF) e a direção-geral será assumida pelo ex-deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE). O presidente de honra é o jornalista Armênio Guedes.

A nova direção da FAP (confira membros abaixo) vai contar com 24 membros efetivos no conselho curador e sete na diretoria-executiva. Entre as missões da entidade para os próximos dois anos está a intensificação do trabalho de formação política dos quadros do partido.

A maior parte dos membros do conselho curador da entidade foi mantida.

A Fundação Astrojildo Pereira é um instrumento para análise e discussão das complexas questões da atualidade brasileira e mundial. Ela é aberta a todo e qualquer cidadão, independente de ser filiado ou não à agremiação partidária e de suas concepções políticas e filosóficas.

Instituída pelo Partido Popular Socialista, destina-se ao estudo e à reflexão crítica da realidade, na construção de referências teóricas e culturais que incidam sobre as lutas democráticas da sociedade brasileira. Também promove cursos de formação política presenciais e à distância, edita de livros e mantém uma biblioteca pública em Brasília. Confira mais no Portal da FAP.

Fundação Astrojildo Pereira

Presidente: Caetano Ernesto Pereira de Araújo, sociólogo (UnB), mestre e doutor em sociologia (UnB)

Presidente de Honra: Armênio Guedes, jornalista – RJ

Diretoria Executiva

Diretor-geral: Raul Jungmann, presidente do PPS-PE
Raulino Oliveira, economista – RJ
Francisco Inácio de Almeida, jornalista –DF
Luiz Antonio Gato – RJ
Soninha Francine, jornalista – SP
Márgara Cunha – DF
Marcilio Domingues – PE

Conselho Curador

Efetivos:

01. Caetano Araújo, sociólogo – DF
02. Davi Emerich, jornalista –DF03. Dina Lida Kinoshita, física e ambientalista – SP
04. Givaldo Siqueira, advogado – RJ
05. Giovani Menegoz, ensaísta – SP
06. João Batista de Andrade, cineasta e escritor – SP
07. João Carlos Vitor Garcia, economista – MG
08. José Ribamar Ferreira (Ferreira Gullar), jornalista – RJ
09. Lucília Garcez, lingüista e professora da UnB – DF
10. Luiz Werneck Viana, professor – RJ
11. Mércio Pereira Gomes, antropólogo – RN
12. Sérgio Camps Moraes, economista – RS
13. Silvio Tendler, cineasta – RJ
14. Luiz Carlos Azedo, jornalista – DF
15. Luiza Maria de Ferreira, jornalista –
16. Regis Cavalcante, jornalista – AL
17. Renata Bueno, advogada – PR
18. Helena Werneck, professora - SP
19. Stepan Nercessian, ator e deputado federal – RJ
20. Vladimir Carvalho, cineasta – DF
21. Raimundo Jorge
22. Alberto Aggio, historiador – SP
23. Tobias Santana
24. Ciro Gondim Leichsenring, presidente da FAP-SP

Suplentes:

01. Antonio Augusto Moreira de Faria, professor – MG
02. Arlindo Fernandes de Oliveira, advogado – DF
03. Cleia Schiavvo Weyrauch, professsora – RJ
04. Maria do Socorro Ferraz, professora – PE
05. Doriva Mendes
06. Aldo Pinheiro

E como mentem! :: Ricardo Noblat

"Se anistiar, vira um país sem regra." (Dilma, que, no ano passado, anistiou PMs e bombeiros grevistas de 13 Estados)

"Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impunemente. Não mentem tristes. Alegremente mentem. Mentem tão nacionalmente que acham que mentindo historia afora vão enganar a morte eternamente". Pois sim.

Apelo para o poema "A implosão da mentira", de Affonso Romano de Sant"Anna, sempre que esbarro em algum caso exemplar de mentira. Porque um desses exige uma resposta exemplar. E não conheço outra melhor do que o poema de Affonso, mineiro de nascimento, autor de mais de 40 livros. Um deles: "Que país é este?"

Na última sexta-feira , um auxiliar de Dilma indignou-se ao ler no jornal "O Estado de S.Paulo" reportagem de Tânia Monteiro sob o título "Planalto aborta visita de Dilma a obra da Transnordestina ao constatar abandono". O auxiliar perguntou agressivo: "Isso aqui é delírio de quem? Do jornal ou da repórter?"

A abertura da reportagem de Tânia: "Grades de proteção para afastar a multidão, toldos e um palanque foram desmontados às pressas na manhã de quarta-feira, 8, depois que a presidente Dilma Rousseff cancelou a viagem a Missão Velha, no sertão do Cariri (...) porque o palco da festa fora montado num trecho de obra paralisada da ferrovia Transnordestina."

A 24 horas da visita de Dilma, apenas quatro empregados trabalhavam na ponte 01 de Missão Velha. Restavam 190 dos 813 ocupados nos três trechos da estrada no início de dezembro. E apenas 299 nas obras da transposição do Rio São Francisco na altura da cidade de Mauriti. Antes eram 1.525.

O auxiliar de Dilma deve ter imaginado que Tânia escrevera sua reportagem sem sair de Brasília. De fato, ela visitou a região com antecedência. Conferiu o que viu e ouviu.
Teve mais sorte do que eu. Estava no Rio na quarta-feira passada quando soube da encrenca em que se metera na Bahia o general Gonçalves Dias.

Comandante da 6ª Região Militar, cabia-lhe a tarefa de enfrentar os policiais militares grevistas que haviam tomado o prédio da Assembleia Legislativa do Estado. Não lhe faltava competência para tanto — pelo contrário - Faltou-lhe bom-senso. Esqueceu que general não precisa ser simpático. Basta que seja eficiente.

No primeiro dia que passeou sua calvície em frente ao refúgio dos amotinados, o general ganhou um bolo de presente porque aniversariava. Ouviu cantarem "Parabéns para você".
Foi fotografado abraçado com um PM. Emocionou-se. E, por fim, chorou. O general romântico! O general do povo!

Com Dilma presidente, PM bandalho não ganha mais anistia, nem general chora abraçado com fora da lei. Apurei, então, por telefone que o general perdera o comando da repressão aos grevistas. Publiquei a notícia no meu blog. Para quê? Para nas quatro horas seguintes quase ser soterrado por desmentidos.

O ministro da Justiça desmentiu. O governador da Bahia desmentiu. O porta-voz do general desmentiu. E o próprio general desmentiu. Transferiu-me sua angústia, que só terminou quando li mais tarde reportagem de Tânia Monteiro no site do jornal "O Estado de São Paulo". Tânia cobre a área militar há 27 anos. Generala Tânia!

O comando da repressão aos grevistas fora transferido para o general Benzo, Comandante Militar do Nordeste informou Tânia. O governador da Bahia telefonara para Dilma e para o ministro da Justiça censurando o comportamento de Gonçalves Dias. Dilma estava furiosa com o general. Que, por sua vez, admitira para o governador ter se excedido.

Ao contrário de outros países, ninguém aqui é obrigado a falar com jornalistas ou a ajudá-los. Desrespeita o distinto público, porém, e deveria ser punida com rigor, a autoridade que informa errado e que mente a jornalistas. Ao cabo, engana o povo. "Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura. Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura".

FONTE: O GLOBO

Chave de segurança:: Melchiades Filho

O fim da greve dos PMs da Bahia e o início claudicante, porque sufocado, do levante no Rio podem dar a falsa impressão de que o problema está resolvido.

O vazamento das escutas telefônicas, que desnudaram tramas e crimes cometidos para dar visibilidade ao protesto, causou indignação no telespectador, não na tropa. Os sindicalistas perderam qualquer possibilidade de sensibilizar o público para suas reivindicações, mas não o respaldo da categoria.

Isso porque a questão salarial segue pendente. A disparidade chega a quase 200%: um soldado da PM ganha R$ 1.600 no Rio Grande do Sul, contra R$ 4.600 no Distrito Federal. A emenda constitucional (PEC 300) que cria um piso nacional não é apenas peça de chantagem. Trata-se de proposta legítima e fundamentada na realidade.

Também o calendário continua a favor dos sindicatos. Rio+20, Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíada, os grandes eventos internacionais renovarão as chances de emparedar União e Estados.

Mais: os PMs não estão sozinhos no funcionalismo. Muitas categorias torcem para que eles façam um primeiro rombo no casco das finanças de Dilma. Policiais federais e agentes penitenciários, por exemplo, acompanham o caso com atenção.

E há as Forças Armadas. Por muito tempo, elas resistiram à ideia de patrulhar ruas. Hoje, muitos militares constatam que o combate à violência nas cidades pode representar uma oportunidade de sair da irrelevância e conquistar espaço orçamentário. Os PMs rebelados são bois de piranha nesse roteiro.

O Palácio do Planalto, que de início se meteu na crise apenas para tirar do sufoco um governador do partido da presidente, parece ter, com o passar dos dias, percebido os riscos potenciais. Não faz mais sentido se esconder na Constituição e tratar da segurança pública como problema exclusivo dos Estados.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O partido industrial:: Janine Ribeiro

Há no Brasil um projeto político - sem partido - composto daqueles que se inquietam com a desindustrialização do país, ou melhor, com a redução da parte da indústria em nossa produção e exportações. Em meados do século 20, quando o subdesenvolvimento e seus males despertaram reflexões de alta qualidade, entendeu-se que, para saírem da miséria, os países mais pobres deveriam ir além da agricultura, pecuária e extração de minérios. A única forma de se desenvolverem seria agregando valor-trabalho a seus produtos. As mercadorias com baixa quantidade de riqueza gerada pelo homem acabam valendo menos. Mesmo a grande exceção dentre os produtos coletados, o petróleo - que, por sinal, começou a se tornar mais caro apenas na década de 1970 -, não é uma benção para as nações que o extraem. A grande exceção são os Estados Unidos, mas justamente porque sua produção de petróleo é apenas um item numa economia complexa e rica. Em outros lugares, o petróleo desestimula a geração de riquezas pelo trabalho humano. Mas, ficando no Brasil, entendeu-se que a solução de nossos males passava pela industrialização. É o que une Volta Redonda, construída ainda na ditadura Vargas, os projetos de JK na década de 1960, o planejamento de Celso Furtado e as grandes obras da ditadura militar.

Riqueza natural não basta para fazer rico um país

Contudo, os dois últimos presidentes da República, FHC e Lula, conviveram bem com o que desde a década de 1990 alguns chamaram de desindustrialização. Voltou a crescer, em nossa pauta de exportações, o que vem da terra: seja a riqueza mineral gerada ao longo de milhões de anos e que desaparece para sempre, seja o produto do campo, ora lavoura, ora pecuária. Na análise que a Cepal fazia das causas da pobreza, trata-se de produtos honrosos, mas que não permitiriam dar o salto para o desenvolvimento. É verdade que a agropecuária e a extração de minérios hoje têm uma qualidade nunca antes vista. Ciência e tecnologia estão embutidas nelas. Por outro lado, hoje não basta ter indústrias: há as de primeiro e de segundo time. Só as melhores representam um diferencial. O trabalho agora valorizado não é qualquer um - é, sobretudo, o intelectual. Ou seja, a diferença de nossos dias não é bem entre indústria e agricultura: é entre o uso da inteligência e o uso dos braços. Mesmo assim, o fato é que nas últimas décadas - por coincidência as mais estáveis de nossa história política, as que também mais contribuíram para a redução da miséria e da pobreza - nossa economia de exportação voltou a se constituir principalmente de produtos com pouca agregação de valor. Há, aí, pelo menos um paradoxo, e talvez um risco.

Testemunhei um episódio dessa história quando jovem. Meu pai, Benedicto Ribeiro, jornalista econômico (ver José Venâncio de Resende, "Construtores do Jornalismo Econômico", 2005), trabalhava em 1967 com Horácio Coimbra, que presidia o Instituto Brasileiro do Café. Horácio, dono da Cia. Cacique de Café Solúvel, perdeu o cargo, vítima das pressões norte-americanas para que o Brasil não exportasse café solúvel, mas só em grão. Em plena vigência do Ato-5, o então deputado Helio Duque relatou esse caso em "A guerra do café solúvel" (1970). A simples transformação do café para solúvel, incluindo mais trabalho no valor do produto, já era um elemento de combate ao subdesenvolvimento.

Temos economistas e políticos preocupados com essa redução da qualidade do que exportamos. Os nomes óbvios são Luiz Carlos Bresser-Pereira, que deixou o PSDB no ano passado (como revelou ao jornal Valor), e José Serra, que em sua carreira se empenhou na defesa da indústria. Contudo, este assunto hoje não é pauta de discussão política. Não tem destaque na maior parte dos jornais, nem na televisão aberta. Apenas devo lembrar, aqui, que não se trata exatamente de defender a indústria na exportação brasileira; é antes de mais nada entender que o país não pode depender tanto da exportação, digamos, de soja para alimentar o gado estrangeiro. É ótimo exportarmos esses produtos, mas não bastam. Ou seja, o que chamei de partido industrial não é bem um defensor só da indústria, ou de qualquer indústria: o que o incomoda é a hipercommoditização do que mandamos para fora, que nos deixa econômica e politicamente vulneráveis, e o que ele quer é agregar trabalho brasileiro para o país produzir mais riquezas. Mais ainda: pretende romper com a ideia do país "rico por natureza", quando riqueza é o que fazemos, com o trabalho e, cada vez mais, a inteligência.

O problema é que esse partido da agregação do valor-trabalho não existe. Há economistas preocupados com o problema. Só que o assunto não vai à praça pública. Nem sei se Serra ainda lhe dá importância: na campanha, mal o mencionou. Pode ser tema impopular - é tão barato importar da China... Mas os pontos cruciais são dois: aparentemente, vemos aqui o calcanhar de Aquiles de nossa economia, que tem permitido uma redução drástica da pobreza; e, seguramente, é o assunto de que não se fala. Haverá políticos querendo trazer o assunto para o debate? Na verdade, o que chamei de partido industrial deveria ser conhecido como o "partido da inteligência como força produtiva". Talvez aí esteja o problema: ele se concentra demais no Ministério da Ciência, Tecnologia e, agora, Inovação. Poucos sabem dele. Mas é prioritário para nosso desenvolvimento. Não sei, a rigor, se ele tem que virar partido. Como os empreendedores de quem falei na coluna passada, talvez seja melhor que contaminem as diversas forças políticas. Mas tem que fazer-se presente no debate público.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Eleição quântica:: José Roberto de Toledo

O PSD kassabista tem poder de personagem de história em quadrinhos. Contamina os partidos do qual se aproxima com sua capacidade quântica, a de não estar em nenhuma e estar em todas as posições do espectro político simultaneamente. O alvo da vez é o PT.

Selada a parceria psdo-petista em São Paulo, a candidatura de Fernando Haddad se contorcionará para fazer uma campanha de oposição que defende a situação. Bom para Gilberto Kassab, cuja gestão aprovada por só 2 em cada 10 eleitores paulistanos terá de ser defendida pelo ex-futuro crítico - feito aliado por Lula.

Em troca de um apoio virtual da bancada federal do PSD ao governo Dilma, o prefeito paulistano ganhará espaço na propaganda eleitoral compulsória para lavar sua imagem. De quebra, Kassab ainda pode receber uma cadeira em Brasília para se encostar após a eleição.

Com tantos bônus, que é que custa enfrentar mais uma vaia de petistas durante a festa de aniversário do neoaliado? Quase nada. Os apupos entraram por um ouvido e saíram pelo bolso, convertidos em moeda de troca para Kassab.

Parece uma barganha desigual. O PT troca tudo isso por um apoio parlamentar que, na prática, já tem. Afinal, boa parte dos deputados que se bandearam para o PSD o fez justamente por não ver muita vantagem em continuar militando na oposição.

Talvez haja outra variável no cálculo. Será que, diante do apoio de Lula, Dilma Rousseff e do PT, o PSD ganha mais força junto à Justiça eleitoral? O partido tem uma ação em curso no TSE cuja vitória beneficiaria todas as siglas coligadas a ele nas próximas eleições - inclusive candidatos petistas.

A assessoria do Tribunal Superior Eleitoral defende o direito do recém-criado PSD de ter acesso ao dinheiro do Fundo Partidário e - melhor - ao tempo de propaganda eleitoral compulsória na proporção de sua bancada parlamentar. São minutos preciosos para Haddad numa eleição nivelada pelo desconhecimento dos candidatos junto à população.

O processo precisa ser julgado logo para valer nesta campanha. Quem não acredita na independência entre os Poderes pode desconfiar que a aliança psdo-petista pode ter a ver com o julgamento do caso. Céticos!

Nem tudo são votos favoráveis nessa aliança inusitada, todavia. Há o pequeno problema da opinião pública: 4 em 10 eleitores acham a gestão Kassab ruim ou péssima. E a rejeição ao mandachuva do PSD beira 60% entre os eleitores que manifestam espontaneamente intenção de votar num candidato petista.

O prefeito se dá nota 10, mas recebe nota 4,6 da população. Segundo o Datafolha, 46% não votariam no candidato apoiado por Kassab. O porcentual chega a 59% entre petistas.

Kassab é um peso pesado que pode arrastar aliados para o fundo. Será especialmente difícil de carregar para Haddad, que ainda precisa convencer a militância petista de que ele é o cara. Curiosamente, o PT - ou melhor, Lula - escolheu Haddad justamente por ele não somar rejeição pessoal à rejeição partidária.

Após eleger Dilma, Lula deve apostar que, com bastante propaganda, pode transformar qualquer um em algo palatável. Até Kassab.

Os poderes quânticos do PSD também têm o efeito oposto, de transformar o indeciso PSDB num partido de oposição. A aliança Kassab-Haddad enfraquece pré-candidatos tucanos que vão melhor na base pró-kassabista, como Andrea Matarazzo, e ajuda os mais fortes entre os oposicionistas, como Bruno Covas. Coisa de história em quadrinhos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO