sábado, 16 de março de 2013

Dá para fazer muito mais que Dilma, diz Eduardo Campos

Governo de Dilma não dará "passo adiante"

Mônica Bergamo

"Dá para fazer muito mais" que a presidente Dilma Rousseff. Com esse, digamos, slogan, o governador Eduardo Campos (PSB-PE), de Pernambuco, passou seu recado a um grupo de 60 empresários que se reuniram anteontem em SP, num jantar, para conhecê-lo melhor -e descobrir se ele é, mesmo, candidato à presidência. Boa parte saiu de lá com a certeza de que Campos vai, sim, se lançar contra Dilma em 2014.

O encontro foi na casa do empresário Flávio Rocha, da Riachuelo. E Campos soltou o verbo.

Começou dizendo que o Brasil teve grandes conquistas nas últimas décadas -e logo engatou crítica que a oposição sempre fez a Lula, a Dilma e ao PT: "O Brasil não começou ontem. Não começou com o partido A, B ou C".

Na sequência, engrossou o coro dos que dizem que as coisas no país vão bem -mas podem piorar. "Não há grande incômodo nas grandes massas. Não há na classe média esse sentimento, nem de forma generalizada no empresariado. Mas há, nesse instante, nas elites, grande preocupação com o futuro. Há o sentimento de que as coisas podem piorar."

Os "florais aplicados em todas as crises" não funcionaram desta vez, diz Campos. "E mais do que de repente começa uma série de medidas, em série, em relação a vários setores, sobretudo, no início, na área do petróleo", segue, referindo-se aos pacotes lançados por Dilma. "Há um sobressalto daqueles que foram atingidos e daqueles que não foram atingidos por medidas." Para ele, "se estabelece uma ansiedade total".

"E a tudo isso se somou a antecipação do debate eleitoral", segue o governador, referindo-se, sem citar o nome de Lula, ao fato de o ex-presidente ter lançado Dilma à sucessão presidencial. "Um debate maniqueísta, eu sou o bem, você é o mal."

Na sequência, Campos passa a criticar a campanha presidencial de 2010, quando Dilma Rousseff disputou com José Serra (PSDB-SP). "Nós tivemos uma campanha das mais pobres do ponto de vista do conteúdo. Acusação de lá, defesa de cá. Acusação de cá, defesa de lá. Sinceramente, não dá para respeitar como um debate à altura dos desafios do Brasil. E isso deixou as coisas desamarradas para o futuro."

"Um monte de político se junta e diz: 'Olha, a gente precisa ganhar a Presidência da República'. É como dizia o meu avô [Miguel Arraes]: na política, você encontra 90% dos políticos atrás de ser alguma coisa. Dificilmente eles sabem para que."

É chegada a hora, portanto, de debater. E é o que o governador está fazendo, ainda que desperte a ira de Lula, de Dilma e do PT -até então seus aliados. "Esse é o momento para que o Brasil aprenda a viver com diversidade. Fazer crítica não é ser contra, não é ser inimigo."

E crítica é o que não falta. "O estado que está aí, as políticas, as normas como são feitas, precisam evoluir."

"Dá para ser melhor. E não é uma ofensa para quem está aí você dizer que dá para ser melhor. Nós queremos mais. E que bom que queremos mais, né? Isso deveria desafiar as pessoas a fazer, a quebrar o velho costume e afirmar novos valores."

"Dá pra fazer muito mais", repete Campos. Para, então, disparar o torpedo: "E isso não vai ser feito se a gente não renovar a política. O pacto político que hoje está no centro do governo que eu defendo, que ajudei a eleger, a meu ver, não terá a condição de fazer esse passo adiante. Não vai fazer. As últimas eleições no parlamento brasileiro [em que Renan Calheiros foi eleito presidente do Senado com o apoio de Dilma e do PT] são uma indicação. É ficar de costas para tudo isso."

O governo, além de tudo, "às vezes não dialoga". A solução "é falar com o governo pela imprensa. Não quer me receber? Você pode tuitar. Eu, por exemplo, tive a oportunidade de dar a minha opinião sobre a Medida Provisória dos Portos pela imprensa, porque não tive a oportunidade de discutir [com Dilma] antes. Apesar de o meu estado ter o porto público mais eficiente do Brasil. Eu podia até ser convencido de que estava certo. Mas não custava nada ouvir a mim e a outros."

"Quanto mais popularidade o governo tiver, mais paciência e diálogo deve ter", afirma. "E popularidade vai e vem. Popularidade é uma coisa. Voto é outra coisa.

O ano, afirma ele, deveria ser o da construção de "convergências políticas". "E nós corremos um sério risco de botarmos 2013 fora."

"Enquanto o Brasil diz que tem o petróleo do pré-sal, importa gasolina. A Petrobras, que já foi 'case' de sucesso lá fora, tá cheia de problema. E aí? Vamos ficar discutindo a eleição que vai ter em 2014 ou o país? Porque daqui a pouco a gente não sabe nem o que vai encontrar em 2014, entendeu? Precisamos encontrar em 2014 um país em que seja possível fazer algo para ele melhorar. E, sinceramente, a gente não pode ficar pelos cantos, constrangido em fazer o debate."

Campos diz que a presidente Dilma conhece suas críticas. E mais: sabe também que seu partido, o PSB, o pressiona para se lançar candidato à presidência. "Quem disse a ela não foram terceiros, fui eu mesmo", afirma. "Ela sabe o que o meu partido pensa e sabe os sonhos que meu partido tem. Se esses sonhos vão ser realizados ou não, é outra coisa."

Ele então faz uma ressalva: "Só não vamos nos meter em aventura. E não vamos ajudar a destruir o que nós construímos. Nós queremos é seguir adiante, não é desmanchar as coisas boas que foram feitas. Nós queremos fazer mais coisas boas". Continuidade, mas com liderança renovada.

Campos finaliza a conversa da noite sem assumir que é candidato. "Não vamos entrar num debate eleitoral. Cada um tem seu relógio. Ninguém é obrigado a andar no fuso horário dos outros.

******

"Nós tivemos uma campanha [em 2010] das mais pobres do ponto de vista do conteúdo. Acusação de lá, defesa de cá. Acusação de cá, defesa de lá"

"Dá para ser melhor. E não é uma ofensa para quem tá aí você dizer que dá para ser melhor. Nós queremos mais"

"O pacto político que hoje está no centro do governo que eu defendo, que eu ajudei a eleger, a meu ver, não terá a condição de fazer esse passo adiante. Não vai fazer"

"O Brasil diz que tem o petróleo do pré-sal e importa gasolina. A Petrobras, que já foi 'case' de sucesso lá fora, tá cheia de problema"

"E aí? Vamos ficar discutindo a eleição presidencial que vai ter em 2014 ou o país? Porque daqui a pouco a gente não sabe nem o que vai encontrar em 2014, entendeu?"

"Esse é o momento para que o Brasil aprenda a viver com diversidade. Fazer crítica não é ser contra, não é ser inimigo"

Fonte: Folha de S. Paulo

IDH: devagar, devagarinho

O Brasil estacionou no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Depois de avanços significativos desde 1990, o país vem perdendo força nos últimos anos, prejudicado, principalmente, por maus resultados na educação e uma desigualdade de renda ainda dolorosa. O governo petista esperneou contra a constatação desta triste realidade. Melhor seria se agisse adequadamente para transformá-la.

Pelos resultados divulgados ontem pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), o país manteve-se em 85° lugar, entre 187 nações, com IDH de 0,730. O índice é uma média geométrica que reflete expectativa de vida de 73,8 anos, 7,2 anos de estudo e renda per capita anual de US$ 10.152.

O nível de desenvolvimento do Brasil no ano passado é inferior ao que países como Noruega, EUA e Japão possuíam há 40 anos. Na edição anterior, divulgada em novembro de 2011, havíamos subido uma posição no ranking, ultrapassando São Vicente e Granadinas. Desta vez, nem isso: este notável produtor de bananas das Antilhas voltou a figurar na nossa frente, na 83ª colocação. Uma pena...

O Pnud fez questão de destacar que o Brasil tem tido desempenho positivo na melhoria da qualidade de vida de sua população na história recente. Mas o órgão da ONU deixou claro: este processo não é de agora, vem desde a década de 90. Talvez tenha sido isso o que mais tenha irritado os petistas.

Com base no levantamento da ONU, dá para ir ainda mais fundo na comparação entre períodos recentes. Entre 1990 e 2000, a taxa média de crescimento do IDH brasileiro foi de 1,26% ao ano. Foi o período de maior avanço desde que as Nações Unidas iniciaram o levantamento, em 1980. E o que acontece no intervalo posterior, já de predomínio dos governos petistas? Desde 2000, o ritmo caiu para 0,73% anual, ou praticamente à metade.

O relatório da ONU destaca políticas públicas que colaboraram para o avanço das condições de vida no país. Estão lá o Plano Real e o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef), criado em 1996 na gestão Fernando Henrique. Ah, para completar o Pnud qualifica o Bolsa Família como "versão otimizada" do Bolsa Escola, outra realização tucana. Deve ter sido demais para a arrogância petista...

Infelizmente, os avanços que começaram lá atrás estão agora se dissipando, notadamente na educação. Entre os sul-americanos, nossa média de escolaridade (7,2 anos) só não é menor que a do Suriname. No ritmo de avanço atual, o Brasil demandará uma geração para atingir o nível educacional da Noruega (com 12,6 anos de estudos em média).

A situação brasileira também revela-se vergonhosa quando o quesito é a desigualdade de renda. Aí caímos para 97ª colocação do ranking. Entre os países classificados como de desenvolvimento humano elevado, só não nos saímos pior que a Colômbia. Quando se utiliza o índice de Gini (0,547), somos o 13° país mais desigual do mundo.

O ranking divulgado ontem também permite outras conclusões pouco abonadoras para o discurso oficial adotado pelo governo brasileiro na era Lula-Dilma. A ONU mostra que a melhora nas condições de vida e a ascensão social, com a emergência de novas camadas urbanas de classe média, é um fenômeno mundial. Nunca uma particularidade brasileira.

Constata-se, também, que países que já exibem IDHs bem mais avançados e que, naturalmente, deveriam estar evoluindo numa velocidade menor que a nossa continuam indo mais rápido que a gente, como são os casos de Argentina, Chile e Uruguai, para fixar-se apenas nos vizinhos. O hiato que nos separa dos chilenos no ranking, por exemplo, era de 28 posições dez anos atrás e agora é de 44.

"Efetivamente, a situação do Brasil no ranking do IDH piorou", afirmou a'O Globo o professor Flávio Comim, que já coordenou relatórios anteriores do IDH no Brasil. Segundo ele, o último ano em que o Brasil esteve bem no ranking foi 2005 (63° lugar).

O IDH é um ótimo espelho para o país se enxergar e dar-se conta dos desafios, imensos, que ainda precisa superar. As constatações decorrentes do relatório do Pnud deveriam ser recebidas com serenidade pelo governo brasileiro, como o são em qualquer parte do mundo. Mas, como suas incômodas conclusões conflitam com o Brasil virtual que os petistas propagandeiam, a gestão Dilma preferiu vilipendiar o relatório. Só falta dizer que a ONU é um aparelho tucano.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

A visão de Campos - Merval Pereira

Aquela que um dia pareceu ser chapa possível para a disputa da Presidência da República - Aécio Neves na cabeça e Eduardo Campos de vice - tornou-se combinação improvável para 2014, mais pelo crescimento do governador de Pernambuco, que hoje é alternativa real de contraponto à reeleição de Dilma Rousseff e não aceita ser vice nem mesmo na chapa oficial. Falta, porém, definir em que campo ele exercerá o papel de oposição.

Se não tem dificuldades em criticar o PT, Campos não se sente bem no papel de opositor de Dilma, e muito menos de Lula. Não será fácil, portanto, desenhar uma candidatura que não seja de oposição "a tudo isso que está aí", mas a pontos específicos. O governador de Pernambuco corre o risco de fazer uma campanha como a da ex-senadora Marina Silva em 2010, que em nenhum momento criticou a candidata do PT diretamente, embora tivesse divergências tão graves com ela que acabaram levando-a a deixar o governo.

Marina tinha a vantagem de ter uma bandeira clara, a da defesa do meio ambiente, que bastou para que tivesse cerca de 20% dos votos. Mas faltou-lhe "gosto de sangue na boca" para se opor ao PT. Campos tem a vantagem de não ser petista, como Marina sempre foi durante toda a sua vida política. Ao contrário, o neto de Arraes tem consigo lembranças de tentativas de golpe contra seu avô arquitetadas por José Dirceu, que queria tirar o PSB do grupo de Arraes com a ajuda de Garotinho, que chegou a disputar a Presidência da República pelo partido em 2002.

As divergências continuaram até hoje, quando o seu PSB disputou e derrotou candidatos petistas em vários estados, inclusive em Recife, mas eleições municipais. Realista, Eduardo Campos sabe que tem fragilidades partidárias diante dos principais adversários, Dilma e Aécio, e testa as chances de fazer alianças "que não precisem ser explicadas", mas que rendam tempo de TV, essa medida que se tornou fundamental para viabilizar qualquer candidatura. Nesse campo estão o PPS e o PDT. Até mesmo uma eventual aliança com o DEM, que estaria se sentindo desprestigiado pelo PSDB, é possível. Além da relação que tem com o PSD de Kassab, que na undécima hora ficou em cima do muro em relação ao governo Dilma, rejeitando uma vaga no Ministério atual. "Mas eu não quero todos os pês, não", diz Campos referindo-se a diversas siglas que estão se oferecendo para apoiá-lo.

Muitas, ele sabe, buscam se valorizar dentro da aliança governista, e por isso a cautela é redobrada nas primeiras aproximações. Não foi por acaso que a presidente Dilma voltou a pensar em dar o Ministério do Trabalho para o PDT de Carlos Lupi, que estava em campo conversando não apenas com Eduardo Campos, mas também com o senador Aécio Neves.

A falta de estrutura de apoio nos principais colégios eleitorais - Rio, São Paulo e Minas -, ele acredita que poderá ser resolvida pelos embates dentro do PSDB e também com a disputa entre PT e PMDB no Rio. Partindo do princípio de que a ala paulista dos tucanos, especialmente a que segue o ex-governador José Serra, jamais se conformará com a escolha de um mineiro como candidato a presidente, Campos acha que, qualquer que seja o resultado dessa disputa, um dos dois estados se abrirá para ele.

Mantido Aécio Neves como candidato, ele acredita que a dissidência tucana pode lhe render bons votos em São Paulo. Caso o senador Aécio Neves tenha que desistir da candidatura por divergências insanáveis, Campos acredita que poderá receber seu apoio em Minas. No Rio de Janeiro, o PSB tem boa relação com o senador Lindbergh Farias - que acompanhou a apuração da eleição municipal na casa de Alexandre Cardoso, eleito prefeito de Caxias pelo PSB - e deve tê-lo como candidato, caso o PT seja obrigado a aceitar a candidatura do vice-governador Pezão (PMDB), como quer o governador Sérgio Cabral.

Caso os dois partidos tenham candidatos próprios, Campos considera que é possível aproveitar essa situação desconfortável para receber o apoio do grupo do PMDB do Rio. E é aí que entra a proposta de acordo sobre os royalties do petróleo. O problema para Campos é que o senador Aécio Neves tem os mesmos alvos e uma estrutura partidária mais forte.

(Amanhã, "Os trunfos do PSDB")

Fonte: O Globo

Gestão, política e eleição - Fernando Rodrigues

O Brasil está desde janeiro de 1995 com um sistema de governo e político mais ou menos estável. Houve eleições diretas para presidente. FHC e Lula ficaram oito anos cada um. Agora, Dilma Rousseff comanda.

Para o Brasil é uma eternidade, mas, em termos históricos, 18 anos é um período curto quando se trata de construir uma nação. Por essa razão, é compreensível que em um setor tenha havido pouca evolução até agora: a gestão política dos governos.

Ao assumir em 1995, FHC abraçou com paixão o modelo fisiológico franciscano do "é dando que se recebe". O país estava saindo da hiperinflação. O Estado estava em frangalhos. Ou o tucano aceitava compor com o centro conservador ou sairia pelo ralo como outros tantos.

Oito anos depois veio Lula, em 2003. Agentes financeiros espalharam pânico pelo mercado. A expectativa de inflação disparou. O filme se repetiu: ou Lula colocava no colo parte da "vanguarda do atraso" usada por FHC ou também poderia fracassar. Era a velha lógica leninista de tentar dar um passo atrás e depois dois à frente.

Em 2011, outro percalço. Chegou ao poder Dilma Rousseff. Ela nunca tinha disputado uma eleição. Muito menos era graduada nas negociações políticas federais para tocar uma administração com mais de meio milhão de servidores.

Depois de um início sinalizando faxina e austeridade, Dilma sucumbiu aos de sempre. Aumentou o número de ministérios. Agora são 39, e ainda não comportam o apetite de todos os partidos governistas.

Jorge Gerdau, empresário de sucesso e colaborador voluntário do governo, disse que a "burrice" de aumentar o número de ministros está perto do limite. Pode ser mais desejo do que realidade.

A lógica eleitoral por trás da reforma ministerial em curso indica que ainda vai demorar para o Brasil sofisticar a sua gestão política.

Fonte: Folha de S. Paulo

O lugar do Brasil no mundo – Editorial / O Estado de S. Paulo

O governo não gostou de ver o Brasil marcando passo em 2012 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, que mede a qualidade de vida no mundo conforme a saúde, a educação e a renda das populações dos 187 países que dispõem de informações a respeito. Apesar de um ligeiro avanço na pontuação, de 0,728 para 0,730 numa escala que vai de 0 a 1, o Brasil foi mantido no 85.º lugar de 2011. O ranking é liderado pela Noruega, com 0,955 pontos. O Níger, com 0,304, fecha a raia. O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e a sua colega do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, consideraram "incorretos" os números e "injusta" a avaliação.

Isso porque o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pela construção do IDH, ano a ano, usou dados de 2005 para a educação no País. Deixou de contabilizar, assim, cerca de 4,6 milhões de novas matrículas na pré-escola e nas classes de alfabetização. A omissão, por sua vez, excluiu do cômputo avanços recentes na taxa média de escolarização dos brasileiros, medida pelo IBGE, e na tendência desse indicador. O Pnud admite o problema. Alega que se limitou a usar números superados, no caso do Brasil e eventualmente de outros países, para poder comparar o seu desempenho em anos iguais. A metodologia é discutível.

Nas tabelas que comparam os países por variáveis econômicas, como nível de emprego, taxas de inflação e nível de investimentos, os organismos internacionais que as produzem trabalham sempre com os últimos dados disponíveis e assinalam com asteriscos os países cujos números estão atrasados. Além do mais, o desenvolvimento de um país também deve ser julgado pela sua capacidade de produzir estatísticas nacionais sistemáticas, confiáveis e atualizadas. Um país não deveria ser prejudicado pelo atraso alheio. Mas o próprio Pnud fez uma simulação reveladora. Se, no quesito educação, tivesse utilizado os números de que o governo sente falta, a diferença não seria da água para o vinho.

O IDH do Brasil passaria de 0,730 para 0,754 e o País avançaria 16 casas, saindo da 85.ª posição, ao lado da Jamaica, para a 69.ª, emparelhando com o Casaquistão e ainda no segundo pelotão do ranking, o das nações de alto, mas não muito alto, IDH. Nessa primeira liga de 47 países, a América Latina está representada pelo Chile (em 40.º lugar com o índice 0,819) e pela Argentina (em 45.º com 0,811). Pior ainda para os brios de Brasília, mesmo se o País estivesse no lugar que o governo consideraria correto e justo, continuaria atrás, de baixo para cima, de Trinidad e Tobago, Antígua e Barbuda, Granada, Costa Rica, México, Panamá, Cuba e Uruguai. Para não falar da Rússia, o único dos Brics à nossa frente. (A China está em 101.º lugar; a África do Sul, em 121.º; e a Índia, em 136.º.)

Já dizia o prussiano Bismarck que os números são como as baionetas. Pode-se fazer tudo com eles, menos sentar em cima. Os do IDH tanto podem servir para comprovar, ainda uma vez, que a caminhada do Brasil seria outra sem as botas de chumbo do passado - o "passivo histórico", dizem os técnicos do Pnud - como para ressaltar as distâncias já percorridas ainda assim. A crônica desigualdade social é decisiva para o Brasil ainda ter um IDH abaixo da média na região. Em contrapartida, a contar de 1990, quando o índice começou a ser calculado, o País subiu 24 pontos porcentuais no ranking mundial da ONU. É uma das 15 nações que mais rapidamente conseguiram reduzir o seu "déficit" - a diferença entre o índice apurado e a meta ideal de IDH.

Devido aos ganhos relativos alcançados em matéria de expectativa de vida da população, matrículas escolares e renda per capita, o Brasil foi citado nada menos de 137 vezes na atual edição do Relatório de Desenvolvimento Humano, intitulado A Ascensão do Sul - progresso humano em um mundo diverso. O documento assinala que, graças a modelos que combinam "Estado desenvolvimentista proativo, aproveitamento dos mercados mundiais e inovações em políticas sociais", nunca antes as condições de vida e as perspectivas de futuro nos países emergentes mudaram tanto e tão depressa. Nos últimos 12 anos, o seu IDH cresceu quase o dobro da média mundial.

Números incômodos – Editorial / Folha de S. Paulo

Governo brasileiro pode se abespinhar com defasagem da metodologia do IDH, mas faria melhor em recuperar o ímpeto para as reformas

A divulgação de listas classificatórias e comparações internacionais sempre causa controvérsias. A necessidade de simplificar para cotejar impõe limitações a qualquer metodologia. Não poderia ser diferente com o Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU.

Até por seu impacto político, o indicador é escrutinado com lupa pelos governos de turno.

O número procura sintetizar a evolução de cada país com base em três dimensões essenciais: acesso à educação (média atual de anos de escolaridade da população e expectativa de escolarização para novos alunos), expectativa de vida e renda nacional per capita.

O IDH brasileiro ficou em 0,730 (o máximo é 1), nota que deixa o país na 85ª posição (entre 187 nações), mas ainda no grupo com elevado desenvolvimento humano. Na comparação com os Brics, o país só perde para a Rússia -nada surpreendente, diante da renda per capita baixa de Índia e China.

O quadro é menos alentador quando se verifica que o IDH médio da América Latina (0,741) é superior ao brasileiro. Chile e Argentina, por exemplo, ocupam a 40ª e a 45ª posições, respectivamente.

Cabe a ressalva de que a ONU usou dados brasileiros de 2010 e que informações mais atualizadas colocariam o país em situação melhor. Ainda assim, a evolução dos últimos anos deixa a desejar. Após período de crescimento rápido entre 2005 e 2010, o ritmo caiu no último biênio, em especial por causa do baixo crescimento econômico.

Fora da comparação numérica -sempre útil, mas incapaz de capturar nuances-, o ponto de maior interesse está na discussão dos principais elementos que impulsionam o bem-estar humano. O relatório elenca ao menos três: Estado engajado na meta do desenvolvimento, integração nos mercados mundiais e avanço continuado das políticas sociais.

Quanto ao papel do Estado, a questão de fundo é mobilizar a sociedade para o desenvolvimento por meio de reformas econômicas e institucionais. Nesse quesito, o Brasil falha. O ímpeto reformista perdeu força nos anos de bonança externa, quando o governo se limitou a surfar a onda.

O país também patina na integração global, pois segue fechado e cada vez mais à margem das cadeias produtivas de ponta e do comércio internacional de alto valor, com a crescente parcela de produtos primários nas suas exportações. Sem essa integração, é difícil incorporar tecnologia e aumentar a produtividade nacional.

Por fim, nas políticas sociais, a despeito dos bons resultados dos últimos anos, o futuro demanda uma nova visão. As transferências de renda dão sinais de que não terão o mesmo impacto do passado, até por efeito de limitações orçamentárias. Doravante, educação e saúde é que farão a diferença.

IDH e os limites do Bolsa Família – Editorial / O Globo

O ranking de 2012 do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) levou o Brasil a contestar sua posição. Em vez do 85º lugar, entre 187 países, o governo reivindica o 69º, pois o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pelo IDH, não usou nos cálculos estatísticas atualizadas. Do ponto de vista formal, o Planalto tem forte argumento, pois, de fato, se forem utilizados os números mais recentes sobre a extensão da vida escolar e matrículas no pré-escolar, o IDH brasileiro sobe de 0,730 para 0,754.

Mas, na prática, isso de nada adianta, além de inspirar marqueteiros colocados de plantão devido à antecipação da campanha eleitoral de 2014. Para ter validade efetiva a subida no ranking, todos os demais índices teriam de ser calculados sob os mesmos critérios de aferição.

A questão, portanto, é desimportante. Interessa é observar a evolução do índice no longo prazo. E, desde 1980, o IDH do país ostenta um avanço consistente. De 90 em diante, inclusive, o Brasil é um dos 15 com melhor evolução.

Mas, de 2010 em diante, o IDH revela alguma estabilidade. É preciso entender as causas. Os processos de melhoria costumam, em geral, ser mais lentos à medida que progridem. Há, também, limitações objetivas para programas sociais; a principal delas, a disponibilidade de recursos.

Existe, ainda, a possibilidade de os programas conseguirem cobrir toda a população a que se propõem atender. O Bolsa Família, por exemplo, parece ter chegado a um limite: cerca de 14 milhões de famílias, para as quais, este ano, serão canalizados R$ 24 bilhões. Sempre é possível, a depender da disponibilidade fiscal, destinar mais dinheiro ao BF. Mas, a não ser que se mudem parâmetros de abrangência do programa, há no Ministério de Desenvolvimento Social a percepção de que o Bolsa Família atingiu um patamar e deverá estacionar nele.

A estabilização do IDH reforça a tese de que a hora, mais do que nunca, é de investimentos na Educação e qualificação da mão de obra. Este é o caminho para um país cujos gastos sociais são enormes (algo como R$ 60 bilhões anuais, um dos mais pesados itens do Orçamento) e que acumula sérias carências de investimentos públicos em infraestrutura.

O BF, ao contrário do seu início, tem levado a sério a questão das contrapartidas ao benefício, principalmente na educação de crianças e jovens (já são 16 milhões de matriculados). Cresce, também, o treinamento para a qualificação de adultos: são 316,3 mil matriculados no Sistema S (Senai), e será, se a meta for atingida, um milhão no ano que vem. Começam, afinal, a ser abertas as "portas de saída" para bolsistas viverem exclusivamente da renda do próprio trabalho.

Os sinais de esgotamento do assistencialismo empurram os governos para qualificar a população. Se isso for levado a sério, o país mudará de patamar de desenvolvimento, social ou sob qualquer outro critério.

IDH: ainda estamos mal – Editorial / Estado de Minas

País melhora, mas ainda é só o 85º do mundo

A divulgação do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tem duas vantagens. De um lado, apresenta o estado de bem-estar da população não só em relação aos avanços internos, mas também em comparação com os indicadores das 187 nações que participam da pesquisa. De outro, constitui importante parâmetro para avaliar as políticas adotadas nos setores considerados — renda, educação e saúde.

Anunciado esta semana pela ONU, o IDH informa que mantemos, há seis anos, a 85ª posição no ranking, mas progredimos em vários índices. Em escala que vai de 0 a 1, o país alcançou 0,728. Ao tomar conhecimento da classificação, o governo protestou. Alegou defasagem de dados da análise. Usadas as estatísticas mais recentes, o IDH nacional chegaria a 0,74. A ONU afirmou tratar-se de exigências da metodologia, que impõe isonomia dos países pesquisados.

O indicador brasileiro, porém, registrou melhoras: passou de 0,728 em 2011 para 0,73 em 2012. De 1990 até hoje, saltou 24% — de 0,59 para 0,728. Há que aplaudir os passos à frente. Mas impõe-se lembrar que não caminhamos sozinhos. O mundo também avança. Nenhum país em 2012 teve o IDH menor que o de 2000. Vivemos num planeta melhor, menos injusto, mas com desigualdades que precisam ser reduzidas.

Para diminuir o hiato que separa o Brasil da Noruega, 1ª colocada no ranking do bem-estar com média de 0,955, necessitamos de mais, muito mais. Necessitamos de mais também se quisermos nos aproximar de vizinhos latino-americanos. Chile, Argentina e Uruguai, para citar três exemplos, estão bem na dianteira. A média da escolaridade responde por parcela do nosso atraso. Vale a comparação: 7,2 anos no Brasil, 9,35 anos na Argentina.

A falta de excelência da educação constitui o calcanhar de aquiles nacional. Em consequência, amargamos atraso na inovação, que compromete a competitividade da indústria e dos serviços. Na lista de produtividade dos países latino-americanos elaborada pela agência norte-americana de pesquisa Conference Board, o Brasil aparece em 15º lugar — à frente apenas da Bolívia e do Equador.

Vale lembrar que subdesenvolvimento não se improvisa. Cultiva-se ao longo dos anos. Entre 2005 e 2010, o Brasil investiu 1,1% do PIB em tecnologia. É pouco. Os Estados Unidos aplicaram 2,8%. A China, 1,5%. O resultado não poderia ser outro. Brasília tem 695,7 pesquisadores por milhão de habitantes. Washington, 4.674. Pequim, 1.198. O recado é claro: acumular e distribuir riqueza exige algo mais que palavras.

Avanço lento – Editorial / Zero Hora (RS)

A divulgação do novo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) está suscitando controvérsias no país. Enquanto integrantes de partidos de oposição se aproveitam da estagnação do Brasil na 85ª posição entre os países analisados no ranking das Nações Unidas (ONU), o governo alega que os dados usados na medição estão defasados. 

A ressalva procede pelo menos sob o ponto de vista dos indicadores relativos à educação, mas também é verdade que os avanços constatados estão em descompasso com os obtidos por nações integrantes do chamado Brics – do qual fazem parte, além do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e até mesmo de países sul-americanos.

Mesmo contestado por fontes oficiais brasileiras, o próprio levantamento chama a atenção para o fato de o país estar incluído num grupo de 15 que mais avançaram no IDH desde 1990. Os avanços levados em conta, no caso, são os relacionados a educação, longevidade e renda.

O relatório ressalta os esforços brasileiros na área social, que contribuíram para retirar contingentes expressivos da condição de miséria. Ainda assim, países historicamente à frente do Brasil, incluindo vizinhos como Argentina, Uruguai e Chile, continuam avançando num ritmo maior. E, embora o Pnud reconheça o uso de dados defasados e admita uma melhora relativa do país caso fossem atualizados, o fato é que os avanços no âmbito da renda per capita foram modestos. Ao mesmo tempo, os da área de educação e saúde também ficaram distantes dos esperados. A taxa de escolaridade, por exemplo, continua baixa, enquanto a expectativa de vida segue longe da registrada em países incluídos no grupo dos mais desenvolvidos.

Simultaneamente ao combate à miséria, o Brasil precisa apostar na qualificação do ensino e na melhoria do atendimento na área de saúde pública, garantindo mais anos de estudo e maior expectativa de vida ao nascer. São conquistas que não são obtidas de um momento para outro, nem numa única administração, e que, por isso, precisam ser perseguidas com obstinação e de forma planejada.

Intervencionismo - Celso Ming

O governo Dilma acordou para a enorme necessidade de ampliação do investimento. Mas vai esbarrando na relutância dos empresários em se atirar à empreitada e em mobilizar seu espírito animal.

Eles elogiam a nova música que vai sendo entoada em Brasília, garantem que vão executar a partitura e, no entanto, ficam à espera de melhores condições.

As razões reconhecidas dessa falta de entusiasmo são duas: (1) a falta de retorno compensador para os negócios, dadas as condições da economia; e (2) o excessivo intervencionismo do governo na iniciativa privada, que subverte marcos regulatórios e cria a insegurança.

As queixas sobre o ativismo excessivo têm dois níveis. O primeiro deles tem a ver com os fundamentos macroeconômicos. E o segundo, com o forte protagonismo do governo federal nos negócios.

Sobre o primeiro nível, o que se pode dizer é que a segurança dos investimentos é dada, em larga medida, por uma boa administração das finanças públicas (marco fiscal); por estabilidade nas regras do câmbio; e por um rígido controle da inflação - algo que depende de clareza na condução da política monetária (política de juros).

Sobre a estabilidade desses três pilares vêm pairando dúvidas crescentes e um progressivo desarranjo geral da economia. A todo momento, o governo vem se sentindo obrigado a negar que haja problemas com o câmbio flutuante, com o cumprimento das metas do superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) e com a observância das metas de inflação. No entanto, uma hora o governo puxa as cotações do câmbio para o alto com o objetivo de dar mais competitividade à indústria. E, logo em seguida, as derruba para ajudar a combater a inflação. Os compromissos fiscais têm sido atropelados com manobras contábeis esquisitas, como aconteceu em 2012. E o Banco Central se comporta como se uma meta de juros fosse mais importante do que a meta de inflação e já não consegue ancorar as expectativas. Em outras palavras, o governo federal vem mexendo de tal forma nos fundamentos da economia que deixa sérias dúvidas sobre a consistência da política econômica.

O outro nível de intervencionismo que suscita retração do investidor são as iniciativas temporárias e arbitrárias de distribuição de favores tributários e de créditos de longo prazo - aquilo que esta Coluna outras vezes chamou de "política do puxadinho". Ora favorecem alguns setores, como a indústria de veículos e de aparelhos domésticos; ora empresas eleitas previamente para se transformar em futuras vencedoras à custa das demais.

São decisões como essas que deixam muito flácidas as regras do jogo e que criam insegurança ou porque podem ser retiradas a qualquer momento e, assim, deixar o investidor "com a brocha na mão"; ou porque são discricionárias e permitem que alguns se tornem artificialmente mais competitivos do que os outros.

O diabo é que os dois níveis de intervenção na economia sempre se compõem para criar instabilidade e mais insegurança. Assim, fica difícil calcular retorno e riscos de um negócio e a tendência dos investidores ou é de alguma maneira compensar-se pelo aumento do risco - o que implica aumento de custos para a economia - ou simplesmente adiar os investimentos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Esperança equilibrista - Míriam Leitão

O Brasil se move lento demais. O ritmo aflige quem sonha, há muito tempo, com um país mais civilizado. Ontem, 37 anos depois, foi finalmente entregue a certidão de óbito de Vladimir Herzog sem a mentira imposta pelos militares. Hora da morte não se sabe, mas agora está lá o local, II Exército, e a causa, "lesões e maus tratos". Por que o Brasil precisou esperar tanto?

Muita gente fez a coisa certa para que o momento de ontem chegasse, mas ninguém fez mais que Clarice. Com 34 anos, viúva, dois filhos, decidiu enfrentar o regime nos terríveis anos 70. Conseguiu em 1978 que a União fosse responsabilizada, numa sentença inédita dada pelo corajoso e jovem juiz Márcio de Moraes.

"Obrigado mãe pelos seus valores e princípios inegociáveis" e "por ter cuidado tão bem de todos nós em momentos tão difíceis da sua vida", disse Ivo para a mãe, Clarice. A música de Aldir Blanc e João Bosco, cantada por Elis, dizia: "Choram marias e clarices no solo do Brasil". Era dela que se falava.

Hoje, o Instituto Vladimir Herzog, sob o comando de Ivo, tem belos planos para o Brasil na defesa de direitos humanos, no resgate da história e na proteção dos jornalistas.

Uma névoa ainda encobre os fatos que levaram à morte do jornalista naquele 25 de outubro de 1975. Uma campanha contra o jornalismo da TV Cultura começou um pouco antes de Vladimir ser preso. Uma das vozes era do deputado José Maria Marin. Em aparte ao deputado Wadih Helu, num discurso contra os jornalistas, Marin pediu: "É preciso mais do que nunca uma providência para que a tranquilidade volte a reinar nos lares paulistanos."

O lar dos Herzog foi, duas semanas depois, atingido pela prisão e morte de Vladimir. Agora, tudo o que há é uma certidão de óbito com a verdadeira causa da morte. E José Maria Marin é presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Esta semana, Marin usou o site da CBF para se defender. Disse que lembrar esses fatos é uma tentativa de conturbar "as atividades do futebol brasileiro". O Futebol não é Marin. Ele devia responder por seus atos fora da CBF. É um espanto como o Brasil é arcaico às vezes.

Há muito o que ser louvado nos esforços da Comissão da Verdade e nas reportagens que têm iluminado parte desse tempo obscuro. Mas, tudo somado, é pouco, e o ritmo, muito lento.

A Fortaleza de São João é um prédio lindo, construído em 1565, na fundação da cidade do Rio de Janeiro. Fica no sopé do Pão de Açúcar. Fui lá esta semana entrevistar a almirante Dalva, a primeira oficial general do Brasil. Ela entrou na Marinha e logo depois engravidou. Nem ela esperava e muito menos a Marinha:

- Foi uma surpresa para todos e a gente não sabia como lidar. E outras três apareceram grávidas.

A Marinha adaptou o uniforme fazendo batas de grávidas e as quatro se formaram exibindo orgulhosamente suas barrigas. Até um berçário para que elas amamentassem foi providenciado. Mas a Força não permite até hoje que mulheres entrem para o coração da carreira, que passa pela Escola Naval e leva ao comando.

Quando ela ingressou, em abril 1981, o pior da ditadura havia passado, mas se recusava a ir embora. Tanto que dias depois houve o atentado do Riocentro.

Perguntei sobre a Comissão da Verdade, um assunto que os militares enfrentam com desconforto. Ela falou:

- A Marinha é legalista e cumprirá a lei e a vontade da nossa comandante em chefe. Eu, pessoalmente, sou a favor de que as verdades sejam sempre ditas.

Os avanços acontecem no Brasil, mas muito devagar. Ontem, um pedaço da verdade foi dita. Mas muito está encoberto. A esperança ainda tem que se equilibrar.

Fonte: O Globo

"O Velho Francisco" - Monica Salmaso & Pau Brasil

Copacabana – Vinicius de Moraes

Esta é Copacabana, ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo!

- Esta é a areia

Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas
- Aquele é o bar maldito. Podes ver
Naquele escuro ali? É um obelisco
De treva - cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.

Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava de seu nicho me assistindo
Beber, e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia.
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava:
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Existe em algum lugar um gesto alto,
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo aberto
Embaixo, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o Tempo!) Ou também o desespero
De andar como um metrônomo para cá
E para lá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.

Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.

Los Angeles, 1948.

sexta-feira, 15 de março de 2013

OPINIÃO DO DIA – Eduardo Campos: é preciso unir os brasileiros

"Temos o desafio de pensar o Brasil estrategicamente, tivemos um 2011 pior que 2010 e um 2012 pior que 2011. Os Estados Unidos sofreram muito com a crise financeira iniciada em 2008 e cresceram mais do que o dobro que o Brasil no ano passado."

Eduardo Campos, governador de Pernambuco e presidente do PSB. O Estado de S. Paulo, 15/3/2013

Manchetes de alguns dos principais jornais do país

O GLOBO
Uma semana depois... Cesta básica sobe, ao contrário do prometido
Governo força ‘maquiagem’ no IDH
Pastor pede socorro ao governo

FOLHA DE S. PAULO
Igreja não pode virar ONG beneficente, alerta o papa
Brasil está no limite da burrice, diz Jorge Gerdau
Desoneração gera disputa entre varejo e indústria
Nobel nega elo entre Bergoglio e ditadura militar
Kassab avisa a Dilma que é cedo para tratar de reeleição
Ataques põem Bagdá em alerta após quase dez anos da invasão

O ESTADO DE S. PAULO
Na 1ª homilia, papa pede conduta 'irrepreensível'
Brasil avança pouco no IDH, mas é destaque em relatório
BC vê piora na inflação, mas fala em 'cautela'
Kassab: PSD não aceita ministérios
STF derruba lei que parcela precatórios

VALOR ECONÔMICO
Governo mudará regime de proteção a patentes
STF proíbe o pagamento parcelado de precatórios
'Bancões' avançam no consignado
Papa argentino leva Cristina a se reaproximar da Igreja
Anatel faz um mutirão para evitar prescrição de multas

BRASIL ECONÔMICO
Ata do Copom derruba previsões de alta da taxa de juros em abril
Brasil se manteve em 85º lugar no ranking de IDH
Fora da Esplanada
Energia e petróleo são destaques no plano de inovação

CORREIO BRAZILIENSE
O evangelho segundo Francisco
Brasil avança bem devagar, conclui a ONU
Em vigor, lei dos royalties é alvo no STF
Governo da Bahia suspende exame de virgindade na polícia

ESTADO DE MINAS
Primeiro sermão. Primeiro alerta
País melhora, mas não sobe no ranking
Pacote libera R$ 32,9 bilhões para tecnologia

O TEMPO (MG)
Igreja corre risco de se tornar uma `ONG piedosa´, diz papa
Líderes evangélicos ressaltam que Feliciano não fala por eles
Aumento salarial é previsto somente para magistrados
PSD recusa ministério até 2014
Procons serão fortalecidos, mas ainda estarão longe do ideal

GAZETA DO POVO (PR)
Paraná e Rio querem mudar cobrança do ICMS sobre energia
Francisco pede bases sólidas para a Igreja
Obras e problemas travam ligação viária da RMC
Embratur quer impor teto para as tarifas aéreas
STF derruba lei que parcelava os precatórios

ZERO HORA (RS)
Jovens formam maior grupo de endividados
Recomendação de fechar virou multa à Kiss

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Mais três fábricas no complexo da Fiat
Benefícios para doméstica não atingem diaristas
Humildade e Cristo na pauta do novo papa

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais do país

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Uma semana depois... Cesta básica sobe, ao contrário do prometido

Preços de alimentos e artigos de higiene pessoal aumentaram 0,55% na semana

Levantamento do Procon-SP e Dieese aponta que custo para o trabalhador ficou maior, apesar da redução de impostos

Apesar da desoneração de impostos anunciada pela presidente Dilma no último dia 8, o custo da cesta básica subiu 0,55% na última semana. O valor médio de uma cesta com 31 produtos passou de R$ 384,58 para R$ 386,71, segundo pesquisa do Procon-SP e Dieese. Ainda segundo a pesquisa na Região Metropolitana de São Paulo, 16 produtos tiveram alta, contra 14 em queda. Entre produtos que tiveram corte de impostos, mas subiram de preço, estão a batata, a farinha de mandioca, o açúcar e biscoito maisena. O governo pretendia redução de até 12% nos produtos da cesta, mas empresários do setor já alertavam que baixa deveria ser de apenas 6%.

Ficou só na promessa

Pesquisa do Procon/Dieese mostra que cesta básica subiu, após governo cortar impostos

Roberta Scrivano

SÃO PAULO - Apesar da desoneração anunciada pelo governo, os preços dos itens de primeira necessidade tiveram reajuste de 0,55% nesta última semana. O valor médio de uma cesta com 31 produtos, que na quinta-feira passada era de R$ 384,58, passou ontem para R$ 386,71. A conta é de pesquisa semanal da Fundação Procon feita, em parceria com o Dieese, em supermercados da Região Metropolitana de São Paulo. Ainda de acordo com o levantamento, 16 produtos tiveram alta, contra 14 quedas.

A cesta básica considerada pelo Procon inclui alguns itens que não foram contemplados pelo governo. Mesmo destacando esses produtos da conta, o resultado continua sendo de aumento: de R$ 99,13, de quinta-feira passada, para os atuais R$ 99,69, variação de 0,56%. Para efeito de comparação, nos primeiros sete dias de março (portanto, antes do anúncio da desoneração) o preço médio da cesta havia caído 0,41%, na comparação com a última semana de fevereiro.

Entre os itens que tiveram corte de impostos e subiram estão farinha de mandioca, leite, macarrão, biscoito e batata, com altas de até 15,9%.

A desoneração de tributos federais foi anunciada pela presidente Dilma Rousseff na última sexta-feira. O objetivo era reduzir o preço da cesta básica em 12%. Já na segunda-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou para reunião em Brasília os principais empresários e representantes do setor de supermercados e comércio e cobrou "repasse imediato" ao consumidor dos menores impostos. Participaram do encontro representantes de redes como Pão de Açúcar, Carrefour, WalMart e BR Foods.

Na Ao final da reunião, Fernando Yamada, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), divulgou nota afirmando que o setor responderia "positivamente a esta medida de combate à inflação". No mesmo texto, João Galassi, da Associação Paulista de Supermercado (Apas), disse que a redução de impostos era "um pleito" do setor e garantiu que "a partir de agora, os repasses dos produtos ao consumidor serão de 100% com base nos repasses da indústria". Procurados ontem, nem Abras nem Apas quiseram se pronunciar.

Repasse deve ser de um terço do desconto

Quarta-feira, entidades industriais comentaram a desoneração e não mostraram otimismo sobre o repasse de descontos. A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) que, por meio de nota enviada à Apas, disse que não poderia reduzir preços dos produtos. "Tendo sido cancelado o crédito presumido de 7,4%, concedido pelo governo para a indústria na desoneração prevista na MP 609, fica a indústria do café impossibilitada de assumir aumentos de custos resultantes da diferença com o PIS/Cofins de saída, igual a 9,25%, sob pena de prejuízos", dizia a nota.

Ontem, a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia) divulgou que "os cálculos de impacto sobre os preços dos produtos desonerados são complexos, pois envolvem particularidades tributárias dentro das diversas cadeias produtivas" e completou que "ainda não é possível apresentar os percentuais de redução dos preços da indústria ao varejo".

"O Ministério da Fazenda e a indústria têm se reunido diariamente, desde a última segunda-feira, para dirimir dúvidas sobre a operacionalidade das medidas que desoneraram a cesta básica e, assim, compreender a redução real dos preços da indústria", completa a Abia.

Para consultores de varejo, os menores impostos só serão sentidos pelo consumidor a partir da primeira semana de abril. Mas a expectativa não é de repasse total. Será de um terço ou, no máximo, três quartos do total do desconto.

- Os estoques de produtos da cesta básica giram rápido, em 20 dias. Os preços menores começarão a ser sentidos na primeira semana de abril. Mas não será uma explosão de descontos - explicou Nelson Barrizzelli, economista especialista em varejo e professor da FEA/USP.

Para o diretor da consultoria Mixxer, Eugênio Foganholo, o preço menor será sentido mais em mercados focados no público de menor renda.

- O pequeno varejista repassa o desconto porque o cliente compra itens da cesta básica. Nos supermercados sofisticados, a procura é por outros produtos e parte da desoneração pode tornar-se margem de lucro.

Fonte: O Globo

Governo força ‘maquiagem’ no IDH

Órgão das Nações Unidas divulga que Brasil ficou em 85º lugar no ranking de desenvolvimento humano (IDH), mas, pressionado pelo governo, faz cálculo "informal" em que país subiria 16 posições.

Brasil fica estagnado na 85ª posição do IDH

Indicador de bem-estar mantém o país no grupo do desenvolvimento elevado. Pnud elogia avanços

Lucianne Carneiro, Martha Beck e Nice de Paula

RETRATOS DO BRASIL

RIO e BRASÍLIA - O ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2012 mostra o retrato de um Brasil estagnado. O país manteve a mesma 85ª posição registrada em 2011, de um total de 187 nações, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O indicador que apura o bem-estar das populações avançou de 0,728 para 0,730, uma alta de 0,27%, o que mantém o Brasil no grupo dos países de desenvolvimento elevado. Porém, pressionado pelo governo brasileiro, que alegou que as estatísticas usadas estavam defasadas, o organismo da ONU recalculou, pela primeira vez, o IDH do Brasil. A nova conta foi divulgada ontem mesmo, durante o lançamento do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) 2013, mas, segundo o Pnud, é apenas um exercício informal.

Pelo cálculo, o IDH do Brasil passaria para 0,754. O país estaria no mesmo nível do Cazaquistão, com IDH de 0,754, que ocupa o 69º lugar no ranking. Seria avanço de 16 posições, se as demais nações ficassem nas mesmas condições. Mas o Pnud esclarece que não há qualquer alteração oficial no ranking, porque não foram recalculados os índices dos outros países.

A maior diferença seria na expectativa de anos de estudo. O IDH oficial considera que os brasileiros que entram na escola hoje terão, em média, 14,2 anos de escolaridade no futuro, com base em estatísticas de 2005. Com as contas refeitas, a projeção de escolaridade salta para 15,7 anos - a mesma escolaridade projetada para a Suíça.

Em seu relatório, o Pnud faz uma série de elogios ao Brasil e o inclui no grupo de 15 países que mais avançaram no IDH desde 1990. Entre estes, Brasil, Argélia e México foram os que avançaram, graças principalmente a ganhos e saúde e educação, e menos devido ao aumento da renda. O Brasil é apresentado como exemplo bem-sucedido de desenvolvimento econômico com redução da pobreza e da desigualdade, e há citações de iniciativas como o Plano Real, o Bolsa Família e o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

Apesar da melhora recente na distribuição de renda no país, se o IDH do Brasil fosse ajustado pela desigualdade do país, sua posição no ranking cairia para a 97ª, mostra o relatório.

A educação - que mostrou avanços expressivos nos anos 90 e no início da década de 2000 - foi um dos principais fatores a segurar o desenvolvimento humano brasileiro recentemente.

- O Brasil já esteve em 73º lugar no ranking de IDH, em 2010, e agora está em 85º. A distância do primeiro lugar hoje é maior do que já foi. Efetivamente, a situação do Brasil no ranking do IDH piorou - afirma o professor da Universidade de Cambridge e da UFRGS, Flávio Comim. - A educação é a imagem mais forte da parada, mas a renda não se mexe muito, e a expectativa de vida também não.

O governo brasileiro reclama do fato de o IDH relativo a 2012 ter sido calculado com dados defasados em até sete anos. O indicador que mais prejudicou o Brasil no IDH, por exemplo, foi o relativo aos anos de escolaridade esperados. Ele mostra quanto tempo um país consegue manter uma criança na escola. O Pnud fez a conta oficial usando média de 14,2 anos, registrada em 2005. Já a conta informal foi feita com dados do Censo de 2010, o que elevou a média para 15,7 anos. A média de anos de escolaridade saltou de 7,2 anos da conta oficial para 7,4 anos na atualizada. A expectativa de vida - indicador de saúde para o IDH - subiu de 73,8 anos para 74,1 anos, e o indicador de renda, de US$ 10.152 para US$ 11.547.

Segundo o representante do Pnud no Brasil, Jorge Chediek, o cálculo do IDH traz informações defasadas de diversos países. Ele explicou que cada um tem formas diferentes de computar dados, o que torna difícil a uniformização para o cálculo do IDH. Por isso, o Pnud se baseia em informações reunidas pela Unesco (no caso da educação), Banco Mundial (renda) e Divisão de População da ONU (saúde).

- O Brasil tem dados mais atualizados, tem o IBGE, mas a maioria dos países não tem o mesmo padrão e a mesma frequência de compilação (de informações). Então, o Pnud tem de utilizar dados mais antigos. O governo brasileiro está ciente dessas limitações - disse Chediek, adiantando que não haverá mudanças no relatório.

Sobre os avanços em desenvolvimento no Brasil, ele lembra que, em 1980, metade dos brasileiros maiores de 25 anos tinha menos de três anos de escolaridade. Hoje são sete anos.

Apesar dos avanços, há desafios como o abandono de estudos,. Como o caso de Zelia Alves. Empregada doméstica e moradora de São Gonçalo, ela voltou a estudar este ano.
- É muito cansativo. Trabalho no Flamengo, vou para a escola e só chego em casa meia-noite. Mas estou tentando realizar um sonho que não consegui quando deveria - diz Zelia, que havia parado de estudar no Ensino Fundamental.

Colega de turma de Zelia, Rosana Brito, moradora da Rocinha, diz que voltar a estudar "é uma grande chance, mas é muito complicado".

Fonte: O Globo

BC alerta para inflação elevada e disseminada

Ata da reunião do Copom, porém, mostra ambiguidade sobre nova alta da taxa de juros

Gabriela Valente, João Sorima Neto

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Na ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, o Banco Central alertou para a inflação disseminada que persiste em patamares altos e disse que esse pode não ser um "fenômeno temporário". Por isso, a política de juros tem de ser "administrada com cautela". Tanto nas previsões do BC quanto nas do mercado, a inflação está acima da meta de 4,5% neste ano e em 2014. Mas, na ata, os diretores do Copom também apontam vários fatores que favorecem um recuo da inflação. Os economistas consideraram a ata ambígua e já têm dúvidas sobre se os juros subirão no mês que vem.

"O Copom avalia que a maior dispersão recentemente observada de aumentos de preços ao consumidor, pressões sazonais e pressões localizadas no segmento de transportes, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência", afirma a ata. "Embora essa dinâmica desfavorável possa não representar um fenômeno temporário, mas uma eventual acomodação da inflação em patamar mais elevado, o Comitê pondera que incertezas remanescentes - de origem externa e interna - cercam o cenário prospectivo e recomendam que a política monetária deva ser administrada com cautela".

Na semana passada, o BC manteve, por unanimidade, a taxa básica de juros (Selic) em 7,25% ao ano. Mas deixou a porta aberta para uma alta em abril.

Na ata, o Copom ressaltou pontos positivos para a inflação, como a projeção de um recuo de aproximadamente 15% na tarifa residencial e energia. E a expectativa de aumento de preços administrados caiu de 3% para 2,7% este ano.

Juros futuros recuam

O economista Sergio Vale , da MB Associados, aposta que o Copom não subirá os juros no mês que vem.

- A ata ficou em cima do muro - afirmou. - Há uma ambiguidade na visão do banco que não havia no passado.

Para o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, o BC não cravou que elevará os juros:

- O conjunto da ata me pareceu mais para a estabilidade e acomodação da inflação. O BC pode ter apenas admitido que a inflação está num patamar mais alto para retomar a credibilidade com o mercado.

Os contratos de juros futuros recuaram após a divulgação da ata do Copom. Na BM&F, o contrato futuro de juros com vencimento em julho de 2013 recou de 7,28% para 7,18%. O DI para janeiro de 2014 foi de 7,96% para 7,84%, e o de janeiro de 2015, de 8,70% para 8,62%.

- A ata sinaliza que o governo não deverá subir o juro em abril - disse Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco WestLB, acrescentando que o governo quer esperar os efeitos da desoneração da cesta básica

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), fechou em queda de 0,18% aos 57.281 pontos. Já o dólar avançou 0,20% frente ao real, para R$ 1,975 na venda.

Fonte: O Globo

Regulando o apetite dos aliados

Enquanto partidos da base cobram cargos nas agências reguladoras, Dilma congela indicações

Chico de Gois, Maria Lima

BRASÍLIA - Com a reforma ministerial praticamente fechada, partidos da base do governo se preparam para mostrar as garras e brigar por outros espaços, sobretudo nas agências reguladoras. Com o mapa da mina na mão, os aliados já identificaram pelo menos 21 cargos que já estão vagos ou assim ficarão até o final do ano. Mas a presidente, que tem uma predileção por indicações técnicas em detrimento das puramente políticas, tem retardado a escolha de integrantes dessas agências.

Dos 46 cargos disponíveis em dez agências, há cinco diretorias vagas; seis estão ocupadas por diretores interinos - alguns há quase um ano - e dez têm mandatos que vencem até o final de 2013. Ou seja: 45% dos cargos estão passíveis de indicações, o que só aguça os interesses partidários, sobretudo daqueles que não terão o espaço desejado no primeiro escalão do governo.

O PMDB, por exemplo, quer indicar o substituto de Nelson Hubner, que deixou nesta semana a diretoria-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A intenção do partido é ampliar seu controle sobre o setor energético, que tem obras milionárias sendo tocadas - os peemedebistas já ocupam o Ministério de Minas e Energia, com Edison Lobão (MA), e estão no comando de algumas centrais elétricas.

O PT está de olho na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), interessado num cargo que deverá ficar vago no mês que vem, ocupado interinamente pelo ex-ministro dos Portos, o cearense Pedro Brito, ligado aos irmãos Cid e Ciro Gomes, do PSB.

Um dos líderes da base no Senado conta que, desde que a presidente sofreu derrota imposta pelos senadores, com a rejeição ano passado de Bernardo Figueiredo para diretoria da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), ela ficou com raiva. A partir de então, ao invés de indicar nomes para serem sabatinados e aprovados, resolveu pôr em postos-chave das agências funcionários sem mandato e sem delegação para assinar e despachar como diretores.

Esse líder contabiliza 16 vagas em aberto e lembra que, nos últimos meses, a presidente só enviou dois nomes, indicados pelo PT, para serem sabatinados: Ivo Bucareste, para a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), e Leandro Reis para a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Nomes ainda não apreciados pelos senadores, que estão fazendo "corpo mole". A prática atual da presidente tem irritado os aliados, alerta o líder, preferindo ficar no anonimato:

- Tem agências funcionando com apenas dois diretores, resolvendo tudo de saúde pública e resolvendo que remédio entra ou não no Brasil. Só tem uma agência completa, a Aneel, o resto está nessa situação. Tem funcionário há mais de nove meses respondendo e assinado como diretor, sem o aval do Senado - disse o aliado, ressaltando: - Isso é ilegal. Dirigentes de agências têm que ser sabatinados e aprovados pelo Senado. Mas isso é muito cômodo para a presidente Dilma. As agências viraram secretarias pessoais da presidente. Ficou confortável para ela, que ficou zangada com a derrota de Bernardo Figueiredo. Agora, ela não precisa do Congresso.

Ao mesmo tempo em que ignora, pelo menos por enquanto, os desejos dos políticos nessa área, a presidente tenta mudar o perfil das agências. Irritada com o que considera ineficiência das agências, Dilma pretende dar-lhes mais poder, mas, também, cobrar resultados e estabelecer metas que beneficiem a população e não as empresas prestadoras de serviço. Essa determinação de Dilma já foi seguida no caso das empresas de telefonia, que foram multadas, proibidas de vender novas assinaturas por alguns dias até que apresentassem planos mais consistentes e reais de investimentos e melhorias.

Nesse sentido - de fortalecer as agências, mas exigir delas a contrapartida em benefício do consumidor -, a chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, confirmou ontem que foi por determinação da presidente que o governo pediu para retirar da pauta do Congresso o projeto de lei 3.337/2004, enviado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse projeto tinha objetivo contrário à nova visão do governo: pretendia, entre outras coisas, tirar das agências e transferir aos ministérios a decisão sobre outorga de serviços, o poder de autorizar concessões.

- A mensagem que a presidente enviou para retirar o projeto deixa claro que ela quer fortalecer o papel das agências e fixar metas para elas - disse Gleisi, ontem.

Projeto fortalece papel do senado

O líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), cobrou do governo o envio de um outro projeto, que restabeleça, em sua opinião, a importância e autonomia das agências - elas foram criadas no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

- Esperamos que o governo envie um projeto de lei de melhor qualidade e que haja ampla discussão no Congresso, dada a importância das agências. É o mínimo que esperamos. Nesses dez anos de gestão petista, essas agências foram desvirtuadas - afirmou o tucano.

Apesar de não concordar com os adjetivos da oposição, os petistas também defendem um novo papel para as agências. O senador Walter Pinheiro (PT-BA), por exemplo, é autor de uma proposta de emenda constitucional (PEC), que deverá ser votada na semana que vem no plenário do Senado. Essa PEC dá aos senadores poderes para convocar os dirigentes das agências para prestar contas de sua gestão uma vez por ano. Está em discussão, inclusive, uma emenda para incluir o chamado "voto de destituição" - hoje, depois de aprovados pelo Senado, os dirigentes ficam praticamente imunes durante os quatro anos de mandato.

- Hoje, a gente pode convocar ministro e não pode convocar dirigentes de agências reguladoras para prestar contas. A presidente Dilma sequer pode demitir imediatamente os irmãos Paulo e Rubens Vieira, da ANA (agência de Águas) e Anac (Aviação Civil), flagrados em desvio de conduta. Essa PEC vai permitir que o Senado possa exercer seu papel fiscalizador, de acompanhar a atuação desses dirigentes em defesa da população - justificou Walter Pinheiro.

O senador Jorge Viana (PT-AC), vice-presidente do Senado, disse que, além dessa PEC, o governo tem que enviar ao Congresso outros projetos:

- A validade dessas agências já venceu. Temos que ter um olhar diferente para essas agências, que são fundamentais para a prestação de serviços em áreas estratégicas, de forma eficiente. Foram criadas lá no inicio da década de 90, temos que trazê-las para o Brasil de hoje.

Fonte: O Globo

Com Afif quase ministro, Kassab agora diz que posto não é da cota do PSD

Ex-prefeito afirma que partido é "independente", mas apoia reeleição de Dilma

Germano Oliveira

SÃO PAULO - O presidente nacional do PSD e ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, contou ter dito à presidente Dilma Rousseff, em jantar anteontem à noite em Brasília, que seu partido não vai apoiar o atual governo no Congresso e que não deseja a política do toma lá dá cá. Portanto, o PSD não quer ministério algum. E informou que, se a presidente indicar o empresário Guilherme Afif Domingos para a Secretaria da Pequena e Média Empresa, o fará em sua cota pessoal. Garantiu, no entanto, que o PSD já decidiu apoiá-la na sua disputa pelo reeleição em 2014. Só então, o partido governará junto e aceitará ministérios.

- Vamos ficar independentes até 2014. O PSD não quer participar do atual governo. Não participamos da campanha e não ajudamos a eleger a presidente. Portanto, não queremos ministério algum agora, porque não apoiamos a política do toma lá dá cá - disse Kassab ao GLOBO ontem, após o jantar com Dilma, do qual participou ainda o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD).

Segundo Kassab, o fato de o PSD não participar da atual base aliada não significa que será oposição a Dilma.

- Poderemos até votar com o governo naquilo que o parlamentar entender que será bom para o país, mas sem o compromisso de ser da base de apoio no Congresso. A decisão fechada é mesmo a de independência. Por isso, não queremos ministério agora e não desejamos participar do atual governo - disse Kassab.

Por isso, diz ele, se Dilma escolher Afif Domingos para ser o secretário da Pequena e Média Empresa, com status de ministério, não o será dentro da cota do partido.

- O Afif é uma referência em matéria de pequena e média empresa. Isso foi no governo Sarney, foi no governo Collor; no governo de Fernando Henrique ele foi até do Sebrae. Sempre que Lula queria algo no setor da microempresa, falava com Afif. Então, nomear Afif não está dentro da cota do PSD - disse Kassab, negando que o partido esteja fazendo chantagem para aumentar o cacife e ter mais ministérios já.

O próprio Kassab já foi cotado para ser ministro:

- Nunca passou pela minha cabeça ser ministro de Dilma agora.

Ele disse ter dado garantias à presidente de que o partido vai apoiar sua reeleição:

- A maioria do partido quer reeleger Dilma. Essa tendência é irreversível. Aí sim, vamos trabalhar juntos e ter ministérios depois de 2014.

O ex-prefeito negou que possa vir a apoiar uma eventual candidatura à Presidência do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos. Isso porque Campos estaria muito próximo do ex-governador José Serra (PSDB), que poderá apoiar o governador pernambucano por estar insatisfeito com a candidatura do senador tucano Aécio Neves (MG) à Presidência. Serra foi o mentor político de Kassab, que sempre confessou dever muito a Serra. Logo que criou o PSD, em 2012, comentou-se que o novo partido poderia se fundir ao PSB de Campos, formando-se uma terceira via, além de PT e PSDB.

- Não tem nada disso. A tendência é caminharmos com Dilma. Não tem Eduardo Campos nesse projeto - garantiu Kassab.

O ex-prefeito anunciou ainda que será candidato a governador de São Paulo em 2014 e, assim, Dilma poderá ter mais um palanque, já que o PT deverá ter candidato.

- Acho até que ela terá três palanques em São Paulo, porque o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, do PMDB. também já disse que será candidato a governador. Não tem problema algum. No segundo turno, todos nós nos entenderemos - disse Kassab.

Fonte: O Globo

O jogo alto de Kassab

Ex-prefeito de São Paulo descarta ingressar na Esplanada antes da eleição de 2014, mas aliados avaliam que se trata de um lance do PSD para conseguir dois ministérios

Karla Correia, Denise Rothenburg

Mirando muito acima do que o Palácio do Planalto tem a oferecer de espaço para o PSD na Esplanada, o presidente do partido, Gilberto Kassab, disse à presidente Dilma Rousseff que a legenda não vai integrar o governo antes da eleição de 2014. Dessa forma, Kassab “recusou” uma pasta no corpo ministerial de Dilma e afirmou que o PSD não entrará na reforma ministerial desenhada pela presidente desde o fim do ano passado.

Isso é o discurso oficial. A mensagem passada pelo ex-prefeito de São Paulo, o negociador pragmático que empenhou seu apoio ao tucano José Serra na corrida pela prefeitura da capital paulista ao mesmo tempo que construiu pontes em direção ao petista Fernando Haddad, foi que, se a presidente mantiver a intenção de chamar seu correligionário Guilherme Afif Domingos para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, estará dentro da “cota pessoal” de ministros de Dilma. Não será, “de forma alguma”, o atendimento a uma demanda do PSD.

“É claro que não há a menor hipótese de ela convidar o Afif e ele não aceitar”, observa um integrante da cúpula do partido, deixando clara a estratégia do PSD. No jantar com a presidente Dilma, na noite da quarta-feira, Kassab afirmou que manterá o apoio da bancada ao governo nas votações no Congresso. Da mesma forma, continua com planos de integrar formalmente a aliança em torno da candidatura de Dilma à reeleição, no ano que vem, incluindo aí a sua fatia no horário eleitoral gratuito de rádio e tevê.

“Só a partir de 2014 fará sentido que o PSD participe da base de sustentação do governo”, disse Kassab a interlocutores do partido ontem pela manhã, ao fazer seu relato do jantar com a presidente. Sem vincular o provável convite a Afif ao atendimento de uma demanda do partido, o PSD não só se cacifa para uma segunda pasta como mantém a liberdade para mudar de rumo e acenar com o apoio a um eventual adversário de Dilma em 2014.

Nova pasta

Entre os aliados que se engalfinham por mais espaço na Esplanada, a posição de Kassab foi entendida como uma jogada ensaiada da legenda por uma segunda pasta. A oferta do Planalto seria o comando da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, mais uma vice-presidência na Caixa Econômica Federal — a de Governo ou a de Habitação. É pouco, na avaliação do PSD, que ambiciona o Ministério da Agricultura, já prometido ao PMDB mineiro, ou a Secretaria de Aviação Civil, também ambicionada pelo PMDB e pelo PR. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic) e presidente do PSD de Minas Gerais, Paulo Safady Simão, seria o segundo nome da legenda.

Apesar da negativa de Kassab, o Planalto mantém a possibilidade de acomodação do PSD na base governista nos cálculos para a reforma ministerial. A expectativa é que os primeiros anúncios de mudanças no primeiro escalão sejam feitos até segunda-feira, antes de a presidente viajar para o Vaticano, onde assistirá à missa de investidura do papa Francisco.

Por outro lado, o posicionamento do PSD abriu para o governo a possibilidade de destinar a Secretaria da Micro e Pequena Empresa ao PR, varrido do Ministério dos Transportes em 2011 e ávido para voltar a figurar no primeiro escalão. A pasta continua sendo o alvo preferencial do partido, que, contudo, negocia uma alternativa incluindo diretorias subordinadas ao Ministério dos Transportes. Nessa equação, o PR ficaria com Micro e Pequena Empresa, criada com status de ministério, mais os comandos do Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit) e da Valec, estatal responsável pelas ferrovias federais.

Outra possibilidade é colocar Micro e Pequena Empresa à disposição do PMDB, o que facilitaria a ampliação do número de ministérios ocupados pela legenda. Além da acomodação do PSD, PMDB e PR, Dilma ainda precisa resolver a situação do PDT no Ministério do Trabalho. O atual comandante da pasta, Brizola Neto, é um nome que agrada a Dilma, mas é também um desafeto do presidente do partido, Carlos Lupi, que trabalha pela substituição dele no cargo. As repetidas demonstrações de “independência” do PDT no Congresso e os acenos da legenda em direção à porta de saída da aliança pela reeleição de Dilma pressionam a presidente a acatar Lupi e demitir Brizola Neto.

Fonte: Correio Braziliense

Definição com o PMDB

A presidente Dilma Rousseff volta a se reunir hoje com o vice-presidente Michel Temer para bater o martelo sobre o quinhão do PMDB na redivisão de postos na Esplanada entre os partidos da base governista.

É a terceira vez que os dois se sentam à mesa na tentativa de conciliar as demandas do principal aliado do PT no governo com as demais legendas da base. Na última terça-feira, Temer deixou o jantar com Dilma no Palácio da Alvorada tendo praticamente acertado a indicação do presidente do PMDB mineiro, Antônio Andrade, para o Ministério da Agricultura.

Na intenção do Palácio do Planalto, o atendimento à bancada de Minas Gerais do PMDB — que há tempos ameaça debandar em direção ao apoio do projeto de candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da República — seria o ponto de partida da reforma ministerial. O atual comandante da pasta, Mendes Ribeiro, seria direcionado para a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Hoje à frente da SAE, Moreira Franco seguiria para a Secretaria de Aviação Civil (SAC).

A SAE, contudo, passou a ser vista pelo governo como uma possibilidade para contemplar os planos expansionistas de outras legendas aliadas. Sem um orçamento significativo para investimentos, a pasta não é vista como uma perda substancial para o PMDB, que aceita abrir mão de seu comando em busca de um consenso com os demais partidos da base. PR ou PSD ficariam com a secretaria.

Entraves

Começam aí os complicadores dentro do PMDB. O problema dessa opção seria o destino de Mendes Ribeiro. Com a secretaria indo para outro partido, restaria ao atual ministro retornar ao seu mandato de deputado federal. O que tiraria a cadeira do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), considerado pelo Planalto como um elemento moderador na bancada liderada por Eduardo Cunha (RJ).

A opção por Antonio Andrade para a Agricultura também não agrada na totalidade a ala mineira do partido. O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), que abriu mão de uma candidatura à prefeitura de Belo Horizonte para apoiar o petista Patrus Ananias, ainda trabalha para ser contemplado com o ministério, em uma espécie de compensação por ter se retirado da disputa em 2012. (KC)

Fonte: Correio Braziliense