sábado, 22 de junho de 2013

A polissêmica voz das ruas - Marco Aurélio Nogueira

Pode haver dificuldade para compreender o que anda a ocorrer nas cidades brasileiras desde o início de junho. Mas não faltam teorias, pesquisas e conceitos. O que falta e análise política, análise concreta da situação concreta: humildade, trabalho paciente, espírito indagador e disposição metodológica para articular a estrutura e a superestrutura, a sociedade e o Estado, os interesses, as classes, os valores, a correlação de forças, de modo a que se alcance uma visão de conjunto das molas que fazem com que as pessoas tomem partido e ajam, buscando captar ao mesmo tempo suas implicações e possíveis repercussões.

Isso acontece porque os teóricos sociais não são imediatamente analistas políticos nem a academia é o loais mais adequado para que se façam análises políticas. Essas proliferam com mais facilidade na vida política organizada, onde a correlação de forças ganha materialidade e explicita sua lógica. Fora dela, preponderam boas intenções, poesia, abnegação e ética da convicção, uma racionalidade específica. Se faltam quadros intelectuais, espaços de reflexão e adensamento cultural para a democracia organizada, se os partidos deixaram de ser usinas de ideias e valores, então a análise política sofre para respirar, confundindo-se com a vocalização midiática de solidariedades, com o cálculo eleitoral ou com a crônica jornalística.

Daí a sensação de que os protestos não estão a ser compreendidos, a surpresa diante da rapidez com que eles se espalharam pelo País, causando arrepios e estupor nos políticos e júbilo e entusiasmo em muitas faixas da população. Daí o defensivismo conservador de tanta gente, movida ou pelo medo ou por uma visão elitista da história.

A polissêmica e vibrante voz das ruas, que agora atingiu alto e bom som, tem que ver com a emergência de um novo modo de vida e o esgotamento de um modo de fazer política. Associa-se a uma percepção social de que sociedade está excluída da are-m pública e quer nela ser reconhecida e dela participar. Há muita luta por identidade e reconhecimento no momento atual, além de muito desejo de participação.E tem que ver, sobretudo, com uma correlação de forças que se sedimentou no País ao longo das últimas décadas, formatou um modelo de crescimento e de ascensão social, prometeu mundos e fundos, obteve algumas conquistas, mas criou muitas ilusões e muita insegurança, jogando a sociedade numa armadilha, da qual ela agora mostra querer se libertar.

As vozes dos protestos são amplas, ligam-se por fios que vão da postulação de direitos à contestação da maneira como o País, os Estados e os municípios vêm sendo governados. Escapam ruidosamente da polarização PT x PSDB, mostrando que ela não faz mais sentido. Veem nesses partidos os responsáveis principais pela consolidação de uma prática política que afastou a sociedade do Estado e se mostrou inoperante para renovar e requalificar a política, a democracia e a vida institucional.

São jovens na maioria da ("Velha") classe média porque são eles que têm mais informação, maior disponibilidade e mais energia contestadora. Até certo ponto, também são eles que têm mais a perder (ou menos a ganhar) com a reprodução do estado de coisas atual, que lhes cortou as perspectivas. Mas não são somente eles. Há jovens e não tão jovens que representam outros segmentos, há os que vão às mas por solidariedade ou para demonstrar repulsa à violência, assim como há os que fazem isso por motivações eleitorais e os que vão para zoar, quebrar ou fazer festa. Todos de algum modo dizem: queremos um futuro, que vocês, políticos, empresários, partidos, estão nos impedindo de ter. Não estão totalmente errados.

As vozes são polissêmicas porque nelas cabe tudo. Não há tema ou problema que lhes passe despercebido. São assim porque os problemas sociais são enormes e porque o movimento que as embala não aceita hierarquias, comandos ou planejamento - não tem lideranças nem dirigentes, ainda que este ja organizado e siga algum tipo de plano.

Nessa polissemia que se auto-organiza estão a beleza e a força dos protestos, aquilo que lhes dá impulso e oxigênio. É um avanço político extraordinário que as vozes das ruas estejam sendo | ouvidas. Elas poderão ser a plataforma de lançamento de um novo ciclo democrático no País. O ruído, o atrito, o conflito, a contestação desempenham, assim, papel eminentemente de alerta, de advertência, que somente os pobres de espírito e inteligência poderão desprezar.

O recuo dos prefeitos e governadores no caso das tarifas prova ao mesmo tempo a força do movimento e o despreparo do sistema político. Pode ser um exagero dizer isso, mas tudo leva a crer que não se poderá mais governar como antes. O silêncio dos políticos é constrangedor. A arrogância das cúpulas e das elites - de direita, centro e esquerda - terá de arrefecer. Entramos em outra dimensão. O próprio movimento terá de se reposicionar, após as primeiras conquistas. Na medida em que vierem à tona os desdobramentos da contestação, formas mais organizadas haverão de surgir, sob pena de os protestos serem engolidos por outras dinâmicas. Uma agitação não constrói decisões: pede e exige, mas precisa de articuladores (políticos, partidos, gestores) para que se formate uma agenda. Para que reivindicações cheguem ao Estado, não bastam as redes sociais. Não se trata de lideranças, mas de instâncias que coordenem, processem e lancem pontes para o Estado.

Se o feiticeiro ativou forças com sua magia, não se deve deixar que ele perca o controle sobre elas. O pior que pode acontecer é o movimento desenhado nas mas ser capturado pelo sistema, pelas "forças da reação" ou pela estupidez dos desmiolados.

As mas não têm dono nem voz uníssona e uma hora ou outra baterão no teto. E, quando isso acontecer, poderão se deixar arrastar pelo primeiro demagogo que souber seduzi-las. Populistas de plantão estão de olho nelas. Como sempre.

Professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da UNESP

Fonte: O Estado de S. Paulo

O que vem depois da queda da tarifa? - Luiz Eduardo Soares

Há uma semana escrevi sobre o movimento pelo "passe livre" (www.luizeduardosoares.com), chamando a atenção para o fato de que o novo surpreende e assusta, porque rompe a estabilidade das expectativas, coloca em xeque nossos esquemas cognitivos, revela a precariedade da ordem social e evoca o espectro de nossa finitude. Somos levados a reconhecer que não apenas a vida humana é frágil como aquilo que chamamos "realidade" é débil e movediço. Por isso, o desconhecido tende a suscitar em nós reações defensivas e explicações que funcionam como a confirmação do que já se sabe - ou se supõe saber. Se o propósito é conhecer, devemos buscar, com humildade, a compreensão autorreflexiva e a desnaturalização das descrições correntes. Até porque todo esforço de entendimento é também ação política.

Na sequência, expus o que sabia e, mais importante, formulei perguntas sobre o que não sabia. Descrevi as cadeias metonímicas que conectam questões conjunturais a dilemas estruturais - as desigualdades como pano de fundo -, e analisei o diálogo tácito do movimento com o imaginário global e o vocabulário das ocupações, formando uma espécie de hipertexto virtual, tecido por citações recíprocas. Finalmente, concluí com otimismo: "A força da multidão foi reencontrada por jovens e cidadãos que passam perto e se deixam atrair pelo magnetismo de um pertencimento precário, provisório, sem rosto, mas com alma. Que alma tem o movimento? Sim, intuo, suponho, sinto que ele tem alma, isto é, uma unidade toda sua - não verbalizada - e uma personalidade. Intuo que esta alma não seja aquela que se derivaria - como o negativo ou o avesso - de uma comparação com o que sabemos: não sendo, o movimento, organizado ao modo antigo, deduzir-se-ia que seria inorgânico; não tendo uma plataforma clara e uma visão compartilhada que incorporasse as mediações, deduzir-se-ia que seria irracional, despolitizado, quando não selvagem. (...) Há no movimento magnetismo, há conexão metonímica com questões centrais para o Brasil e o mundo, há um diálogo tácito, consciente e inconsciente, com a humanidade em escala planetária, com nossa memória social e com a tradição de nossa cultura política. (...) De nossa parte, os anciãos e os governantes, autorreferidos e inseguros, ameaçados em nossos esquemas cognitivos e práticos, caberia escutar, acompanhar, respeitar, repelir a violência policial (e qualquer outra), admitir nossa ignorância, e considerar a hipótese de que algo novo esteja surgindo e essa novidade talvez seja virtuosa e republicana, quem sabe a reinvenção da política democrática. Talvez a melhor forma de escutar seja unir-se ao coro, na rua. Para (re)aprender a falar".

Fiz o que sugeri: uni-me ao coro na rua. Haveria muito a dizer, mas não quero ocupar o espaço com o depoimento do velho peregrino, percorrendo a Rio Branco acossado por memórias de outras jornadas. Prometo poupá-los do tom confessional. Entretanto, antes de mudar o canal, mantenho a primeira pessoa para compartilhar o que vi, assombrado e comovido. Assisti a uma cena inverossímil: lado a lado, 100 mil pessoas em festa celebravam o estar ali e evocavam o que ainda não é, enquanto, silenciosa e inadvertidamente, sepultavam o que havia sido, seguindo o doloroso cortejo no funeral do PT.

A imagem dupla - épica, no lado A, trágica, no verso - me ocorreu pela via dos cinco sentidos e da emoção, mas firmou-se, analiticamente. Era isso mesmo. O argumento é simples: a maioria dos presentes era estudante. A UNE esteve lá, bem no centro da praça, no meio da festa, sob a forma de uma ausência fulgurante e um silêncio estridente, preenchidos pelo protagonismo emergente dos jovens indignados. O novo personagem coletivo nasceu sobre os despojos da entidade, descaracterizada pela cooptação dos governos petistas e pelo aparelhismo do PCdoB. E onde estavam tantos outros personagens coletivos de nossa dramaturgia política popular e democrática? Muitos deles trocaram a autonomia pelas benesses do poder, sem perceber que a cooptação esteriliza. O preço dos privilégios é a impotência.

Ao PT que venceu, o país deve muito. Os governos Lula, e mesmo Dilma, ficarão na História como marcos fundamentais na redução das desigualdades. Contudo, quais têm sido suas contribuições para o aprimoramento da democracia e para a mudança das relações entre Estado e sociedade, governos e movimentos sociais?

Pode-se ostentar a arrogância tecnocrática e abraçar Maluf, porque os fins sempre justificariam os meios? Os apologistas petistas do pragmatismo ilimitado não se deram conta de que os meios são os fins, quando a perspectiva adotada é a confiança da sociedade no Estado, em especial a credibilidade do instituto da representação. Hoje, tantos que acreditaram na dignidade da política vagam sem norte como zumbis da desilusão. E a juventude procura um caminho para chamar de seu. São dez anos de PT no poder: uma geração não o conheceu na oposição e não sabe o que é um grande partido de massas, não cooptado, comprometido com as causas populares e democráticas, entre elas e com destaque a reinvenção da representação política e a confiança na participação da sociedade como antídoto ao autoritarismo tecnocrático. Por mais que se façam críticas pertinentes à forma partido, é indiscutível sua importância na transmissão de experiências acumuladas e na formação da militância. Até a linguagem das massas nas ruas tem sua gramática. A espontaneidade é a energia, mas a organização a potencializa e canaliza.

No momento em que emerge o novo protagonismo, com compreensível mas perigosa repulsa por tudo o que de longe soe a partido, deparamo-nos com o vácuo oceânico produzido pelo esvaziamento do PT como agente político independente, esvaziamento por sua vez provocado pela sobreposição entre Estado, governo e partido.

O Movimento pelo Passe Livre declarou à nação que o rei está nu, proclamou em praça pública que a representação parlamentar ruiu, depois que, capturada pelo mercado de votos, resignou-se a reproduzir mandatos em série, com obscena mediocridade, sem qualquer compromisso com o interesse público, exibindo o mais escandaloso desprezo pela opinião pública. O colapso da representação vem ocorrendo sem que as lideranças deem mostras de compreender a magnitude do abismo que se abriu - e aprofunda-se, celeremente - entre a institucionalidade política e o sentimento da maioria. As denúncias de corrupção se sucedem, endossando a visão negativa que, injustamente, mas compreensivelmente, generaliza-se.

E o futuro? O movimento omnibus tem diante de si os mais variados cenários, e outros a inventar. Seu destino provavelmente dependerá de sua capacidade de diferenciar a crítica política da crítica à política, e de não confundir a rejeição ao atual sistema político-eleitoral, e partidário, com uma recusa da própria democracia, em qualquer formato. Essas distinções provocarão divisões internas profundas e inconciliáveis, que já estão aflorando. Toda essa magnífica energia fluirá para o ralo do ceticismo, abrindo mais um ciclo de apatia? A indignação encontrará traduções autoritárias e ultraconservadoras? Múltiplos afluentes seguirão cursos inauditos, nos surpreendendo com sua criatividade e mudando o país, no âmbito da democracia? As respostas não dependem só do movimento, mas também dos que não têm participado e das lideranças governamentais e parlamentares.

E as polícias? O debate sobre a desmilitarização está posto. É urgente incluir na agenda a refundação do modelo policial brasileiro, para estender à segurança pública a transição democrática. Polícia é tema decisivo. Se o relacionamento entre a sociedade e o Estado está no epicentro do movimento, as polícias também estão. Afinal, o policial uniformizado na esquina é a face mais tangível do Estado para a maior parte da população. Não haverá democracia enquanto o Brasil for campeão da brutalidade policial contra negros e pobres.

Luiz Eduardo Soares é antropólogo, escritor, professor da UERJ

Fonte: Prosa / O Globo

Cristovam quer extinção dos partidos

Senador ocupa a tribuna e afirma que, diante das manifestações nas ruas, é preciso abolir os partidos no País

BRASÍLIA - Em discurso ontem na tribuna da Casa, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) defendeu a extinção dos partidos políticos no Brasil. Ao comentar as manifestações que se multiplicam pelo país, Cristovam disse que para atender às reivindicações dos manifestantes "é necessário abolir os partidos". "Talvez eu radicalize agora, mas acho que para atender o que eles querem nós precisaríamos de uma lei com 32 letras: estão abolidos os partidos, estão abolidos todos os partidos. Isso sensibilizaria a população lá fora. Hoje, nada unifica mais todos os militantes e manifestantes do que a ojeriza, a desconfiança, a crítica aos partidos políticos", afirmou.

O senador disse que talvez seja a hora de dizer: estão abolidos todos os partidos para colocar outra coisa em seu lugar. Cristovam citou a ex-senadora Marina Silva, que articula a criação do partido Rede de Sustentabilidade, ao afirmar que sigla vai entrar no mesmo sistema das demais que já existem no país.

"Mesmo que o partido (Rede) tenha o nome do que não é partido, é partido: teve de conseguir as assinaturas, vai entrar no mesmo sistema, vai receber fundo partidário, porque espero que a lei que o proíbe de receber não passe aqui."

O senador defendeu a reorganização dos agentes políticos brasileiros com a criação de um novo formato de partidos e da maneira de fazer política. "Nossos partidos não refletem mais o que o povo precisa com seus representantes, nem do ponto de vista do conteúdo, nem do ponto de vista da forma."

O parlamentar também defendeu a realização Assembleia Constituinte exclusiva para discutir reforma política - no prazo máximo de um ano. A reforma, na opinião de Cristovam, deve incluir permissão para o chamado voto avulso, em candidatos não filiados a nenhum partido. "Creio que essa é uma proposta que poderia levar à revolução. Não há manifestação de um milhão de pessoas em um dia que não exija uma revolução." Na opinião do senador, os milhares de manifestantes não vão aceitar nada menos que um revolução no país.

Discursos

Desde a noite de quinta-feira as manifestações realizadas em diversas cidades do país dominam os discursos dos senadores. Eles mantiveram a sessão plenária até pouco depois da meia-noite, numa espécie de vigília paralela aos protestos nas ruas. Os poucos que permaneceram no plenário, no máximo cinco senadores, se revezaram em discursos para comentar as manifestações.

Os senadores Pedro Taques (PDT-MT) e Pedro Simon (PMDB-RS) também defenderam a convocação de uma Assembleia Constituinte para discutir exclusivamente a reforma política - principal reivindicação dos manifestantes, na opinião dos congressistas. "Quando o senador Cristovam fala em convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, eu entendo o porquê. É porque ele, como toda a sociedade, não acredita no Congresso Nacional, duvida que nós façamos alguma emenda positiva a favor do povo brasileiro", disse Simon.

Vice-presidente do Senado, o senador Jorge Viana (PT-AC) afirmou que os protestos nas ruas do Brasil não miram em nenhum partido ou governo, mas no sistema político em geral. "Não há uma ação direta contra governo A, B, C ou D, mas contra tudo e contra todos. É um questionamento às instituições", afirmou o petista.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Ferreira Gullar: 'Se isso desandar, pode dar em desordem muito grande’

Escritor vê com ressalvas questionamento do poder constituído, mas avalia que seus "donos têm que botar as barbas de molho"

Aos 82 anos, o escritor Ferreira Gullar, que participou da organização da Passeata dos Cem Mil, em 1968, e foi às ruas pelas Diretas Já, em 1984, vê as manifestações recentes como resultado de uma mobilização sem precedentes no País.

"Eu nunca vi manifestações de tal proporção, e durante tanto tempo", disse Gullar. "O grande problema é para onde isso vai, pelo fato de não ter organização política por trás."

O escritor diz ser "impossível saber o desdobramento disso", mas avalia que "os donos do poder têm que botar as barbas de molho,"

Em sua opinião, em que vão resultar os protestos?

E imprevisível. Falam que é a mesma coisa que está acontecendo na Europa, mas não é. O problema da Grécia, Espanha, Turquia, Síría, não é o nosso. O que é comum é a mobilização das redes sociais, mas não é um fenômeno internacional

Estávamos subestimando os Jovens?

Ver os jovens com aqueles cartazes reivindicando coisas é fundamental. Existe uma juventude disposta a brigar. Isso pode ajudar a mudar a qualidade da política brasileira, mas não é do dia para noite. A maioria é classe média, não é o pobre, porque esse ganhou o Bolsa Família.

O que o sr. acha da pauta de reivindicações?

São questões importantes que estão sendo colocadas e que implicam uma mudança profunda de muitas coisas que estão estabelecidas. Se isso desandar, pode dar em desordem numa escala muito grande. Meu medo não é com relação aos baderneiros, e sim com relação à solução política. Está sendo questionado o poder constituído, é o Congresso, é o Executivo, os governos estaduais, prefeituras, que foram eleitos democraticamente. Acho que devia ser procurado o diálogo.

Como comparar essas manifestações atuais com a Passeata dos Cem mil, as das Diretas Já e as do Fora Collor (em 1992)?

Em 68, a própria ideia de ir para a rua se manifestar era algo muito arriscado, porque a polícia atirava com bala de verdade, não de borracha. Como manifestação de massa, essa é a maior que eu vi. Maior que a de 68 e as outras de depois. É impressionante a quantidade de gente, sem ter partidos organizando. Em 68, a igreja participou, sindicato, entidades participaram, ajudaram a organizar. Agora foi mais espontâneo.

Como vê a recusa dos manifestantes em se vincular a partidos?

O movimento é contra todos os partidos, Diima, Lula. Eles foram rechaçados. Os manifestantes tem razão de não quererem partidos. Os donos de poder tem que botar as barbas de molho. E o povo desorganizado fazendo reivindicações pertinentes e sérias. No Egito, na Líbia, os grupos se organizaram para disputar o poder. Aqui o poder é eleito, Isso não deve e não pode acontecer.

Não se previu o que viria... Escrevi um artigo meses atrás dizendo que, como UNE, CUT e os sindicatos foram apropriados pelo governo, o povo não tem representação, a única saída era ir para a rua desorganizados...

Fonte: O Estado de S. Paulo

O legado das ruas - Rosiska Darcy de Oliveira

Rios de gente invadem as cidades. Transborda o descontentamento. Não foi súbito nem inexplicável. Há muito tempo jovens lotavam as avenidas virtuais por onde passam as redes sociais protestando contra a humilhação a que estávamos submetidos.

Quantos assinaram a Lei da Ficha Limpa, o que de melhor se fez como ação cidadã nesses últimos anos? Aprovada, Renan Calheiros foi eleito pelos seus pares presidente do Congresso. E gargalhou.

Quantos festejamos o resultado do julgamento do mensalão em que o Ministério Público teve um papel fundador? Um obscuro deputado do PT pariu um monstrengo, a PEC 37, tentando paralisar o MP enquanto a execução das sentenças vai sendo posta em risco por chicanas jurídicas que desmoralizam a Justiça.

Quantos pedimos a saída imediata do infelicíssimo Feliciano, cuja incurável doença do ódio quer curar o amor alheio, na contramão da sociedade que avança no sentido das liberdades, propulsada sobretudo pelos jovens que delas não vão abrir mão? Feliciano preside a Comissão de Direitos Humanos, cada vez mais cinicamente agressivo graças à inércia e à cumplicidade de todos os partidos.

Cresceu a percepção de que a Casa em que deveriam se refletir nossos interesses se transformara em um depósito do lixo da corrupção. Somados, somos quantos milhões? Quantos milhões de roubados, de traídos?

O que está acontecendo é novo por sua amplitude e pela rapidez da mobilização. Mas o desgosto e a indignação são antigos. A juventude supostamente apática, desmiolada, desinteressada do país, sem história, está aí, fazendo a sua e a nossa história Se a fagulha foram vinte centavos, convenhamos que menos que isso estava valendo a dignidade da população.

Um abismo separa a sociedade brasileira de seus representantes deixando no ar o inadiável repensar do sistema político que perverte a democracia representativa, que já não representa ninguém como dizem, com razão, os cartazes nas ruas. E, ao dizê-lo, longe de atacar a democracia, os manifestantes a estão revitalizando em sua expressão contemporânea. Esse o primeiro legado do movimento.

O escárnio passou da conta. Quanto mais zombavam de nós e frustravam nossas esperanças, mais o protesto virtual ganhava corpo. Veio às ruas, em carne e osso.

A truculência da polícia argumentou com balas de borracha. A violência policial tem como outra face da sua moeda podre o vandalismo, minoritário e boçal. Ambas atentam contra a democracia. A violência da polícia é responsabilidade do Estado. A dos vândalos - eufemismo para perigosos pescadores de águas turvas - é responsabilidade do Estado e do movimento de protesto, a quem cabe isolá-los, condená-los, demarcando-se de quem nada tem a ver com seu espírito amplo e luminoso, que não rima com incendiar uma das joias da arquitetura mundial, o Palácio Itamaraty. Gente encapuzada, bestas-feras que agridem o patrimônio público, deve ser investigada e punida. De onde quer que venha, violência nunca mais há de ser outro legado do movimento.

O movimento que está nas ruas não é pré-político como já foi dito, mas pós-política. É contemporâneo de novas formas de comunicação e ação pública. Habita o mundo complexo da interlocução imediata entre jovens e adultos de uma classe média que vem se expandindo, suficientemente informada para criticar a má qualidade dos serviços públicos, consciente de que a corrupção conta a história desse desastre. Corrupção nunca mais, legado maior da voz das ruas.

Inútil interpretar o movimento com os instrumentos da velha política, esvaziando-o de seu ineditismo. Viciados nos seus próprios métodos, os políticos, Maquiavéis de quinta categoria, perguntam-se a quem aproveita, temendo-se uns aos outros, penetras na festa em que são mal vindos. Incapazes de enxergar fora de seu mundo autista que há vida lá fora, não percebem que essa massa que canta o Hino Nacional, cujo mal-estar atingiu um ponto crítico, não está a serviço de ninguém senão de si mesma, de sua justificada aspiração ao bem viver.

A agenda fala por si: saúde, educação e transporte, serviços essenciais ao bem-estar. Bom governo, transparente, honesto e eficiente. E a liberdade de cada um viver a sua própria vida. Na linha de frente da manifestação de Brasília, um arco-íris desafiava o céu trevoso dos fundamentalistas.

Quanto aos governantes serão doravante julgados pela resposta que forem capazes de dar a esta incontornável agenda da sociedade. Rios de gente invadem as grandes cidades e seus afluentes se multiplicam. Em que mar irão desaguar, impossível saber.

Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

Fonte: O Globo

O silêncio dos políticos - Denise Rothenburg

Depois de uma semana de protestos incessantes, sobra o cinismo de políticos. A série de chutes de analistas, governistas e oposicionistas, serviu apenas como especulação, afinal a cada manifestação tem mais gente nas ruas. Dentro dos gabinetes da Esplanada e nos palácios estaduais e municipais, o que se viu foi a perplexidade geral e a demora na reação das autoridades, como se anestesiados. Ontem, todos resolveram falar alguma coisa.

O fato é que nenhum político sabe exatamente o que fazer, e nessas horas eles apenas falam quando é inevitável. Foi isso que ocorreu com a presidente Dilma Rousseff, que, no primeiro momento, no início da semana, embarcou para São Paulo em busca de conselhos de Luiz Inácio Lula da Silva e de João Santana, o marqueteiro oficial dos petistas nas duas últimas eleições.

Em vez de buscar apoio dentro do próprio governo, Dilma passou a imagem de ter dificuldades em ler cenários, precisando o tempo todo de avaliações do ex-presidente e do publicitário. Antes de mais críticas, uma consideração: até agora, poucos entenderam as manifestações. Um ou outro artigo ou avaliação foi mais precisa. A diferença está em admitir a dificuldade de analisar os protestos.

O espírito

Um termo em alemão talvez explique a dificuldade e a perplexidade de políticos e analistas. Zeitgeist significa algo como "espírito da época" ou "sinal dos tempos". Nada mais difícil do que entender o tal "espírito" no momento que tudo está se passando. Com todo o cuidado em não misturar conceitos, pode-se dizer que apenas um distanciamento histórico poderia ajudar alguém a perceber o "sinal".

Nos últimos 18 anos, o país obteve conquistas inquestionáveis, durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Lula. Primeiro, a estabilidade econômica e, depois, os avanços sociais. Com o fim do segundo mandato do tucano, Lula conseguiu perceber como ninguém os desejos e comportamentos da sociedade. Assim, mesmo com escândalos de corrupção, o petista manteve a força eleitoral.

O tal faro político do ex-presidente nada mais significava do que o fato de ler os cenários, entender o espírito da época e o sinal dos tempos. Enquanto a oposição patinou nos últimos 10 anos para dizer algo à população, Lula demonstrou como fazer. Parecia até simples, direto ao ponto. Um discurso limpo, com apelo emocional, mas completamente pensado, estratégico e apoiado em pesquisas eleitorais.

Conselhos

O problema dos petistas é que esse tempo de interpretação dos fatos parece ter passado, mesmo para Lula. Nos conselhos que deu à Dilma, o ex-presidente pediu mais flexibilidade na relação com aliados e maior aproximação com os eleitores. De certa forma, a presidente usou tais recomendações no discurso feito em cadeia de rádio e televisão na noite de ontem. Mas ainda parece faltar jogo de cintura.

Dilma se elegeu sem fazer muita força. Todos os movimentos foram de Lula. Os petistas apostavam na estabilidade econômica para tê-la como forte candidata à reeleição. A alta popularidade verificada nas pesquisas ao longo de 17 meses tranquilizava o Planalto. Com a chegada de junho, tudo começou a mudar. Os índices positivos caíram com o fantasma da inflação. E vieram os protestos, que bagunçou de vez a cabeça dos aliados. O mais grave: até agora ninguém sabe se as manifestações atrapalharão de fato Dilma. As pesquisas divulgadas esta semana foram feitas antes dos protestos.

Discurso

Era inevitável o discurso de Dilma na noite de ontem. Com ou sem resultado prático, ela tinha obrigação de falar aos brasileiros. Disse o que deveria dizer sobre os arruaceiros, com fortes críticas aos atos de vandalismo, e abriu diálogo com os líderes dos manifestantes. Tudo muito previsível — e até meio burocrático. A partir de agora, os petistas torcem para que funcione e diminua o ruído das ruas.

Fonte: Correio Braziliense

Buscando saídas - Merval Pereira

Para quem estava acuada nas cordas por manifestações de caráter nacional, a presidente Dilma saiu-se bem em seu pronunciamento, demonstrando jogo de cintura. Não foi arrogante, ao contrário, foi humilde para aceitar que as vozes das ruas têm que ser ouvidas, mas soube ser firme na condenação dos arruaceiros que aproveitaram as manifestações para fazer saques e depredações pelas cidades.

A presidente Dilma, com o auxílio de seu marqueteiro João Santana, acertou em cheio as reivindicações das grandes massas que foram às ruas, sintonizada perfeitamente com os anseios da classe média brasileira, evitando uma leitura de esquerda às reivindicações, coisa que algumas alas petistas gostariam. Ao contrário, a presidente soube ler com clareza que o foco central dos manifestantes é o combate à corrupção, um ambiente que já lhe deu altos índices de popularidade, e o qual ela havia relegado a segundo plano em proveito de acordos fisiológicos que terá que rever.

No entanto, vai ser complicado, na relação com os diversos partidos políticos de sua heterogênea base parlamentar, fazer prevalecer a ética na política sobre os interesses partidários. Ela já foi obrigada a receber de volta políticos que havia "faxinado" no início do governo, por exemplo.

Dilma atualizou sua proposta de dar todos os recursos provenientes dos royalties do pré-sal para a Educação, o que é bastante conveniente no momento em que as pessoas estão nas ruas pedindo mais verbas para Saúde e Educação, setores que deixaram de ser prioridades para governos que só pensam em curto prazo, como têm sido os governos petistas.

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, está defendendo que nada menos que 100% dos recursos sejam aplicados na Educação, como maneira de conseguirmos cumprir a promessa do Plano Nacional de Educação (PNE) de investir no setor 10% do PIB até 2020. Estaríamos, então, afastando-nos da famosa "maldição do petróleo", fenômeno registrado nas principais economias produtoras do mundo e que já está presente nas cidades brasileiras mais beneficiadas pelos royalties e pelas participações especiais. Este seria o momento adequado para o país marcar essa posição em favor do futuro.

Com o anúncio de que reunirá os governadores e prefeitos das principais cidades do país para discutir medidas concretas para as mudanças, a presidente Dilma conseguiu também repartir com os demais chefes de Executivos estaduais e municipais a culpa pelas medidas não adotadas até agora, tentando retirar de seu ombro a responsabilidade principal pelas mudanças.

No entanto, de nada adiantará ter se pronunciado de maneira adequada ao momento se suas atitudes não corresponderem aos fatos. Um exemplo de como será difícil mudar atitudes políticas é a reunião que ela teve antes do pronunciamento com o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, um dos políticos mais criticados pela voz das ruas.

Vai ser difícil, por exemplo, a presidente comprovar que os empréstimos financiados pelo BNDES para a construção dos estádios para a Copa do Mundo de Futebol aos governos estaduais serão pagos pela iniciativa privada.

Um primeiro balanço de seu pronunciamento, no entanto, deve ser otimista, até mesmo porque ela aceitou o mote de seu potencial adversário em 2014, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, de que é possível fazer mais. A fala teve a intenção clara de reconectar a presidente com uma vasta camada do eleitorado que não é simpática ao PT e ao seu governo.

Não é à toa, portanto, que a presidente Dilma está irritada com a tentativa do PT de participar das manifestações, assumindo um papel de liderança que acabou sendo rejeitado pela população, embora de agrado dos líderes do Movimento Passe Livre.

Para a presidente Dilma, o pior que pode acontecer numa campanha eleitoral antecipada é ser envolvida em uma tentativa de levar para a esquerda radical uma classe média que, em alguma medida, ela estava conseguindo cooptar.

Fonte: O Globo

Sem clareza sobre a natureza dos protestos, discurso evita riscos - Igor Gielow

Elevar a aposta num momento incerto seria suicida, por isso fala da presidente é recheada de respostas banais

Dilma tenta preencher a vacuidade de poder potencializada pela natureza diáfana da origem dos protestos. Se isso será efetivo, só a temperatura da próxima manifestação responderá

Em seu pronunciamento sobre os protestos cada vez mais violentos no país, a presidente Dilma Rousseff tentou contemporizar.

O cálculo político é evidente. Ainda sem informação objetiva sobre a natureza da organização dos protestos, apesar de boataria de todo tipo circulando entre círculos à esquerda e à direita, Dilma buscou uma fala inócua que conta com o arrefecimento de ânimos para emplacar.

Talvez estivesse na memória de seus estrategistas o risco de algo mais desafiador, como o desastroso chamado para que a nação se vestisse de verde e amarelo feito por um acuado Fernando Collor em agosto 1992, respondido por uma onda de manifestantes vestidos de preto.

Elevar a aposta num momento incerto seria suicida. Assim, sobram respostas algo banais para todo mundo.

Às camadas da sociedade assustadas com o grau de violência nas ruas, foram várias assertivas sobre coerção de arruaceiros. Como? Bem, segurança é uma questão dos Estados, exceto que ela tenha esquecido de mencionar as excepcionalidades em que o Exército pode ser acionado.

Aos manifestantes, a mão estendida, somada à velha mania petista do "vamos formar um grupo de trabalho" --no caso com chefes de outros Poderes, governadores e prefeitos, ou seja, várias vitrines para democratizar eventuais pedradas.

Mas fica a pergunta que permeia toda análise do fenômeno que engolfou o país nas duas últimas semanas: oferta de conversa para quem mesmo?

Dilma citou manifestantes genericamente, mas também sindicatos e movimentos sociais, que notoriamente estão fora do jogo.

As promessas pontuais, de discutir o transporte urbano, defender a aplicação dos royalties petrolíferos na educação e importar médicos, essas são apenas isso: música velha para novos ouvintes.

Lembram as ideias de reforma política quando há uma crise institucional ou de consertar a barafunda tributária brasileira no evento de alguma disputa federativa.

A reforma política, aliás, voltou a ser citada no discurso de ontem no contexto de "oxigenar o sistema".

Por fim, Dilma enfim apareceu para discorrer sobre a mais grave crise social da história recente, o que é de se esperar de uma presidente.

Tenta assim preencher a vacuidade de poder potencializada pela natureza diáfana da origem dos protestos. Se isso será efetivo ou só enxugará o iceberg no caminho, a temperatura da próxima manifestação responderá.

Fonte: Folha de S. Paulo

Dilma no inferno da Standard and Poor's, das pesquisas e passeatas - Rolf Kuntz *

O Brasil de dona Dilma vai mal quando cai o dólar, vai mal também quando sobe. É um país invejável. Em todo o mundo, oscilações das moedas principais podem causar tensão e mexer com as bolsas, mas neste país o desarranjo tem sido maior. Em tempos de valorização, o real dispara. Diante da política frouxa no mundo rico, ninguém falou tanto quanto as autoridades brasileiras em tsunami monetário e em guerra cambial. Se o sinal se inverte, como nos últimos dias, a depreciação do real também é maior, como na quinta-feira. Em nenhum outro mercado o dólar chegou a subir 2,45%. A grandeza é a marca nacional. "Temos muita bala na agulha", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurando tranquilizar os brasileiros enquanto crescia a turbulência nos mercados. Até o arsenal de intervenção é superior. Nas armas comuns, a conta é uma bala por agulha.

Quanto ao volume de reservas, US$ 376,11 bilhões no dia 19, o ministro Mantega tinha razão. O governo dispõe de bom volume de moeda estrangeira para combater a variação excessiva do câmbio. Mas nem sempre isso basta. Na quinta-feira, o Banco Central ofereceu cerca de US$ 3 bilhões, com escasso resultado. Numa crise prolongada, as reservas se perdem e sai vitorioso quem joga contra a moeda nacional.

É cedo para saber quando os mercados se acomodarão e onde estará o real nesse momento. De toda forma, o governo daria um passo no rumo certo se reconhecesse o mau estado da economia, a tendência de piora de vários indicadores e a vulnerabilidade do País.

O pessoal da Standard & Poor's explicou direitinho por que impôs um viés negativo à perspectiva econômica do País. Os economistas da Moody's também justificaram tecnicamente a decisão de reavaliar a economia brasileira. Não é preciso, no entanto, ter alguma formação econômica para perceber muita coisa fora dos eixos. O alerta das agências de classificação de risco e a perda de popularidade mostrada nas pesquisas sobre o governo apareceram praticamente ao mesmo tempo. Simples casualidade? É difícil e arriscado sustentar essa hipótese, especialmente quando se consideram as reivindicações apresentadas nas passeatas - muito mais amplas que a mera exigência de redução das tarifas de transporte público.

Na quinta-feira, dirigentes do PT conclamaram militantes para entrar nas passeatas com camisas vermelhas e bandeiras do partido. Tentaram e foram rechaçados. Boa parte dos envolvidos nas marchas deve ter votado, no entanto, em Lula, em Dilma e em vários de seus companheiros, incluídos alguns postes.

Não está claro se perceberam, mas vários protestos - alguns dos mais notáveis - foram contra iniciativas e políticas federais dos últimos dez anos. Pessoas de espírito mais prosaico já haviam classificado como irresponsabilidade o compromisso de organizar e hospedar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Já haviam chamado a atenção, há anos, para o atraso das obras, para o aumento dos custos e o risco de bandalheiras, quando fosse preciso compensar o tempo perdido. A organização Contas Abertas, especializada no acompanhamento das finanças públicas, atualizou com frequência os valores comprometidos e as previsões de desembolso. Quem quisesse poderia acompanhar pela internet, sem maior esforço, a formação de mais um imbróglio financeiro e econômico. Novos gastos, alguns muito pesados e de relevância mais que discutível, foram postos no alto da escala de prioridades, tornando mais bagunçada uma gestão pública já muito ruim.

A perda de tempo e boa parte do encarecimento das obras decorreram de um escandaloso desleixo do governo. Nada, ou quase nada, foi feito no segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele batalhou com empenho para trazer as competições ao Brasil e foi vitorioso em 2007. A partir daí, parece haver esquecido o assunto. O trabalho duro ficou para o governo seguinte, já herdeiro de uma inflação elevada, de uma economia com baixo padrão de investimentos e de contas externas em situação de risco. Os dados básicos são claros:

1. Nos dois primeiros anos do novo governo o produto interno bruto (PIB) ficou estagnado, com expansão de 2,7%, em 2011, e 0,9%, em 2012. O quadro continua feio em 2013, mas a obrigação de gastar com a Copa e com os Jogos Olímpicos permanece em pé.

2. Enquanto isso, pioram as contas públicas, arrasadas pela gastança, pela multiplicação irresponsável de incentivos fiscais improvisados e também de transferências do Tesouro para os bancos federais. A grande preocupação do governo, nessa área, é inventar meios de continuar fingindo fidelidade à política de metas fiscais. Os truques contábeis empregados até há pouco tempo já foram escrachados.

3. A inflação tem recuado ligeiramente, mas a parcela de itens com elevação de preços ainda supera 60%. A desinflação dos alimentos terminou e os grandes fatores inflacionários, como a gastança federal, permanecem.

4. O Banco Central refez as projeções das contas externas e elevou de US$ 67 bilhões para US$ 75 bilhões o déficit em conta corrente esperado para 2013. As exportações, nesse quadro, serão 2,22% maiores que as do ano passado. As importações aumentarão 7,97% e o superávit comercial diminuirá 63,93%, de US$ 19,41 bilhões para US$ 7 bilhões.

Que fazer? Há uma pauta evidente na área dos investimentos, na tributação (até agora sujeita a remendos mal escolhidos e mal costurados), na educação (com a redefinição urgente de padrões e prioridades) e no campo da tecnologia. Na hora do aperto, no entanto, a presidente corre para ouvir seu padrinho, guru e conselheiro mor da República e da Prefeitura de São Paulo, como se ele fosse inocente da maior parte dos grandes problemas de hoje, incluído o abacaxi multibilionário dos grandes jogos.

* Rolf Kuntz é jornalista.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dep.Comte Bittencourt- sobre as manifestações no Rio

Teresa Cristina e Grupo Semente - O Meu Guri

José – Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

sexta-feira, 21 de junho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Luiz Werneck Vianna:’ há sinais de vida nova’

Eppur si muove, mas ao contrário do movimento da Terra, que não sentimos, na frase famosa de Joaquim Nabuco, este movimento que aí está não dá para não perceber. Em cima, em baixo, nas grandes capitais, nas periferias, no coração do Brasil, lá em Belo Monte, entre os índios, os sem-teto, os sem-terra, nas corporações profissionais e entre os estudantes, de dentro dessa crosta encardida que, há anos, a tudo abafava há sinais de vida nova.

Os interesses e as ideias de cada qual são díspares, desencontrados uns dos outros, como seria de esperar numa sociedade que não mais reflete sobre si, que destituiu a política da sua dignidade e converteu os partidos políticos em instrumentos sem vida, máquinas eleitorais especializadas na reprodução política dos seus quadros.

Luiz Werneck Vianna, sociólogo e professor da PUC-Rio, In “O movimento da hora presente”, O Estado de São Paulo, 18/6/2013.

Manchetes de alguns dos principais jornais

O GLOBO
O Brasil nas ruas: Sem controle
Anselmo Gois: Manifestações já fazem pensar sobre Copa de 2014 nos EUA.
Na Copa do protesto: Manifestações crescem em estádios

FOLHA DE S. PAULO
Protestos violentos se espalham e confrontos atingem 13 capitais
Em SP, multidão grita 'fora, partidos' e petistas deixam ato
Dilma desiste de viagens e convoca reunião de cúpula
Desvalorização do real é a maior entre as principais moedas do mundo

O ESTADO DE S. PAULO
Mais de 1 milhão vai às ruas no País; violência marca protestos
Dilma cancela viagens e monta pacote para jovens
Câmara articula barrar PEC do MP e 'cura gay'
STF libera discussão sobre mais partidos

VALOR ECONÔMICO
Petrobras pode ter prejuízo trimestral com alta do dólar
Distorção no câmbio fica fora da OMC
Mais protestos, invasões e violência
Ano infernal para as 'X' de Eike Batista
Remuneração em ações paga INSS

BRASIL ECONÔMICO
População paga por redução das tarifas de ônibus
Oscilações especulativas

ESTADO DE MINAS
O gigante quer muito mais
Sem trégua: Desconfiança põe dólar em novo recorde

O TEMPO (MG)
Cerca de 20 mil pessoas participam do 5º dia de manifestações em Belo Horizonte
Patriotismo hermano: Sorín se diz orgulhoso com manifestações e decepcionado com as falas de Pelé e Ronaldo
Quanto mais pobre, maior é o gasto com material na obra
Dólar fecha em R$ 2,258, maior valor desde abril de 2009

CORREIO BRAZILIENSE
Um gigante fora de controle

GAZETA DO POVO (PR)
Após protestos violentos, Dilma convoca reunião de emergência
Fruet reduz tarifa do ônibus; Richa segura reajuste na luz
Supremo libera projeto contra novos partidos
Alta do dólar contagia preços rapidamente

ZERO HORA (RS)
Dilma convoca reunião de emergência após protestos

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Guerra e paz
Espanha arrasa o Taiti e o Brasil já está em Salvador

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Manifestação no Rio reúne 300 mil e acaba em confusão generalizada

Confronto começou quando multidão chegou à sede da prefeitura

Bernardo Moura, Gustavo Goulart, Márcio Menasce, Rodrigo Bertolucci e Vera Araújo

Com uma multidão estimada em 300 mil pessoas, o protesto no Rio - já sem a bandeira da redução da tarifa das passagens - começou de forma pacífica, mas as tentativas de grupos isolados de criar confusão acabaram, ao final, transformando a manifestação num grande campo de batalha. Se as estimativas da Coppe/UFRJ eram de 300 mil pessoas, os organizadores falaram em 1 milhão de manifestantes, que ocuparam toda a Avenida Presidente Vargas. O ponto de maior tensão foi o entorno da sede da prefeitura do Rio, para onde foi deslocado um grande efetivo de homens das polícias Civil e Militar. A ordem era não deixar os manifestantes passarem daquele ponto, a fim de evitar uma tentativa de invasão do prédio, onde fica o gabinete do prefeito Eduardo Paes.

Ali começou um clima de provocação por parte de manifestantes e de intimidação por parte dos policiais, que logo desencadearia em violência. PMs do Batalhão de Choque chegaram a jogar bombas de efeito moral em direção à multidão. Logo a área foi tomada por fogueiras, bombas de gás e rojões. Um grupo de 200 pessoas, sem camisa e com rostos cobertos, atearam fogo em um carro da emissora de televisão SBT e quebraram motos de funcionários dos Correios.

Por volta das 20h, o Terreirão do Samba foi invadido. Parte do grupo seguiu em direção à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Com a generalização dos confrontos, uma mulher foi ferida no rosto, sendo levada no colo por manifestantes para longe do local. O fotógrafo do GLOBO Marcelo Piu e o repórter do canal GloboNews Pedro Vedova foram atingidos por balas de borracha. Por volta das 21h30m, o Hospital Souza Aguiar já havia recebido 33 feridos.

Os policiais chegaram a avançar com carros para cima da multidão. Um grupo usou tapumes - que haviam sido instalados para evitar depredações no prédio - para se proteger. O policiamento havia sido reforçado, com cerca de cem PMs a cavalo e membros do Grupo de Operações Especiais da Guarda Municipal, tanto na prefeitura como em frente ao prédio do Centro de Operações Rio (COR). Ao ouvir sobre a confusão, muitos manifestantes, na altura da Central, começaram a voltar na direção da Candelária.

Hostilidade contra partidos

A Praça da Bandeira ficou interditada nos dois sentidos. O entorno do Maracanã, isolado por causa do jogo, permaneceu fechado, à medida que os manifestantes buscavam sair do Centro. Foram interditados ainda o Elevado 31 de Março, o túnel Santa Bárbara e uma das galerias do Rebouças. O Metrô Rio fechou várias estações, incluindo Cidade Nova, Praça Onze, Presidente Vargas, Uruguaiana, Central e Cinelândia.

Estudantes da Faculdade de Direito da UFRJ, junto à Praça da República, não conseguiam deixar o prédio. A própria Organização dos Advogados do Brasil aconselhou-os a não deixarem o prédio.

Um homem, identificado apenas como Almir, foi ferido com uma paulada na cabeça no início da noite. Segundo seus amigos, ele teria sido agredido por grupos contrários a sua ideologia. Almir foi atendido na calçada de um posto de gasolina na Presidente Vargas por médicos e estudantes de medicina voluntários.

Mais cedo, durante a concentração na Candelária, um homem vestido de vermelho, com uma bandeira da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi expulso com gritos hostis. Ele pretendia distribuir panfletos com o título "Abaixo a máfia da Fetranspor"". Mas os folhetos foram tomados pelos manifestantes e jogados no chão.

- A gente veio aqui também para protestar democraticamente. E é impedido? - reclamou um militante da CUT.

Já os PMs distribuíram panfletos pedindo aos manifestantes que não participassem de atos de vandalismo ou depredação do patrimônio. "Sem violência. Paz. Ajude-nos a proteger você" eram alguns dos dizeres.

Mas também houve espaço para o bom humor. O protético Eron Melo estava de Batman:

- Não tenho nada contra a Copa, mas precisamos saber para onde esse dinheiro vai e por que ele não é investido na saúde. Vim de Batman porque ele luta pelas pessoas carentes.

A funcionária do Ministério da Saúde Lenira de Araujo Pinheiro, de 69 anos, contou já ter participado de inúmeras manifestações em sua vida:

- Esses jovens estão fazendo aquilo que eu já fiz, em vão.

Fonte: O Globo

FHC; entender as razões dos atos e não desqualificá-los como ação de baderneiros

PT se irrita com ação de Haddad ao lado de tucanos

PSDB também criticou Alckmin por anúncio de redução de tarifa

Rendição conjunta. Haddad anunciou redução da passagem com o PSDB

Silvia Amorim

SÃO PAULO - Quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), telefonou, na tarde de anteontem, para São Paulo e informou que anunciaria, ainda naquele dia, a revogação do reajuste da tarifa do transporte público no Rio, o prefeito paulistano Fernando Haddad (PT) viu ruir a sua última esperança de manter a passagem de ônibus em R$ 3,20 na capital paulista. Isolado e pressionado por líderes do PT, preocupadas com eventuais abalos à imagem da presidente Dilma Rousseff, diante da dimensão que tomou a causa dos estudantes no país, Haddad combinou com o governador Geraldo Alckmin (PSDB) uma "rendição" conjunta.

O objetivo era evitar que o desgaste, inevitável, não se tornasse ainda maior.

Entretanto, a forma que o prefeito escolheu para resolver a questão - um anúncio ao lado do PSDB - desagradou ao próprio partido. O PT havia organizado ao longo do dia anúncios de redução da tarifa do transporte coletivo por prefeitos petistas em todo o país. Alvo preferencial dos manifestantes na reta final do movimento na capital paulista, Haddad remou contra a maré.

Candidato à reeleição, o governador Geraldo Alckmin também teve a sua atitude criticada por tucanos, que viram nela a criação de um precedente perigoso e estimulante para futuras manifestações. O maior desgaste para o governador, segundo avaliação de líderes tucanos, foi a ação truculenta da polícia na repressão. Mas não foi o único.

Anunciar que usará recursos previstos para obras que estão paradas para pagar a conta pela redução da tarifa também foi visto como um discurso prejudicial politicamente. Para alguns tucanos, isso passou uma mensagem de falta de planejamento no governo.

O próprio discurso adotado por Alckmin no início dos protestos contra os manifestantes soou mal dentro do partido.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reprovou publicamente, embora de forma sutil, a posição do governador, dizendo que governantes e líderes deveriam procurar entender as razões dos atos e não "desqualificá-los como ação de baderneiros".

Alckmin havia usado dias antes a expressão "baderna" para se referir a um dos protestos que terminou em confronto entre policiais e manifestantes. Haddad também viu o ministro da Fazenda, Guido Mantega, rechaçar publicamente a proposta levada por ele à presidente Dilma Rousseff de ampliar as desonerações para o setor de transporte.

- O governo já fez desonerações este ano. Não estão previstas novas desonerações além das que fizemos - disse Mantega.

Foi a pá de cal no plano do prefeito. Haddad contava com a ajuda do governo federal para revogar o reajuste da tarifa e procurava um discurso honroso, já que havia dito horas antes que seria "populista" qualquer decisão tomada a toque de caixa. O ex-presidente Lula e Dilma haviam orientado Haddad a recuar. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, fez apelo no mesmo sentido anteontem

Fonte: O Globo

Dilma cancela viagem ao Japão e marca reunião emergencial

Segundo assessores, governo está 'atônito'; ela deve decidir hoje pela manhã se faz ou não pronunciamento

Ontem, a presidente manteve contato com governadores e prefeitos de cidades onde houve protestos

Valdo Cruz, Andréia Sadi

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff decidiu cancelar sua viagem ao Japão e a Salvador e convocou reunião de emergência hoje pela manhã com sua equipe para avaliar a situação do país diante da onda de manifestações.

Na reunião, a presidente vai fazer um balanço dos protestos e analisar se faz ou não um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV.

Dilma determinou que seus principais ministros estejam hoje em Brasília. Guido Mantega (Fazenda), que viajou ontem à noite a São Paulo, também foi chamado e vai retornar pela manhã para seu gabinete na capital do país.

Assessores presidenciais disseram ontem reservadamente que o governo estava "atônito" e "perplexo" com as manifestações em todo o país, mas monitorava a evolução dos protestos para tomar medidas de emergência em caso de necessidade.

Segundo auxiliares, o governo estava também "preocupado" com o impacto das manifestações sobre os investidores internacionais e na imagem do país no exterior.

Esse temor decorre em particular do fato de o país estar sediando a Copa das Confederações, atraindo atenção da mídia internacional.

Além disso, o governo enfrenta no mesmo momento turbulências na área econômica, com a cotação do dólar em alta e o Banco Central sendo obrigado a fazer intervenções no mercado cambial.

Dilma ficou reunida no Planalto até as 20h30, depois que os manifestantes já não ameaçavam mais chegar ao local --eles concentravam seus ataques ao Itamaraty, seguindo depois para o Palácio da Alvorada.

Ela manteve contato por telefone com governadores, como Sérgio Cabral (PMDB-RJ), e prefeitos de capitais atingidas pelos protestos.

A reunião de hoje está marcada para as 9h30 no Palácio do Planalto. Assessores comentavam ontem que ainda não havia decisão sobre um eventual pronunciamento porque o governo temia trazer para dentro do Planalto a responsabilidade pelos tumultos no país.

O cancelamento da viagem ao Japão --que estava marcada para a próxima semana-- decorreu da avaliação de que Dilma não podia se ausentar do país neste momento.

A visita a Salvador, onde a presidente lançaria o Plano Safra do Semiárido, foi suspensa para que ela pudesse se reunir com sua equipe.

A orientação da equipe de segurança do Planalto também é evitar excesso de exposição pública neste momento em que a tensão está elevada no país, o que poderia fazer da presidente alvo de hostilidade por parte dos manifestantes.

Congresso

Em passagem pelo Congresso, Henrique Eduardo Alves, presidente da Câmara dos Deputados (PMDB-RN), disse, ontem, que "aqui ou acolá minorias que não representam a vontade do povo brasileiro praticam algumas lesões".

Ele estava na Rússia e antecipou em um dia a sua volta.

Na Câmara, ele se reuniu com diretores da Casa e com a equipe de segurança.

Do lado de fora, cerca de 3.500 policiais militares acompanham a movimentação dos manifestantes. O protesto chegou a reunir 30.000 pessoas, de acordo com a PM.

Fonte: Folha de S. Paulo

Mais de 1 milhão vai às ruas no País; violência marca protestos

Atos se espalharam por 75 cidades.


Em Brasília, a polícia reprimiu tentativa de invasão do Itamaraty.



22 ficaram feridos no Rio.


Uma pessoa morreu atropelada em Ribeirão Preto • Em São Paulo, houve incidentes entre militantes do PT e manifestantes.


Mesmo após a redução das tarifas de transporte público em 12 capitais e em dezenas de municípios, novas manifestações levaram ontem mais de 1 milhão de pessoas às ruas de 75 cidades do País. A violência marcou os protestos em diversos pontos. Uma pessoa morreu atropelada em Ribeirão Preto (SP). Em Brasília houve tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty. Manifestantes se aglomeraram na rampa de acesso e tentaram invadir o edifício, mas foram contidos pela polícia. Em São Paulo, protestos tiveram incidentes entre manifestantes e militantes do PT, convocados para uma "onda vermelha", que fracassou. Cinco rodovias no entorno da capital foram bloqueadas. No Rio, confrontos deixaram 22 feridos. Em Porto Alegre houve saques a estabelecimentos comerciais. Em Salvador, manifestantes e Tropa de Choque entraram em confronto. Nas redes sociais, novas bandeiras eram discutidas. Em meio às reivindicações sociais e políticas, se destacou um slogan: "Sem partidos".


Um milhão de pessoas protestam em 75 cidades; 1 morreu em Ribeirão Preto

Tânia Monteiro, João Domingos

• Mesmo com redução da tarifa, atos são violentos em diversos locais • Ao menos 96 pessoas se feriram no País • Em Brasília, multidão ateou fogo a colunas externas do Itamaraty e Esplanada dos Ministérios foi tomada por gás lacrimogêneo • Motorista irritado com manifestação atropelou e matou um no interior • Protesto em SP reuniu 100 mil • Multidão pede atos apartidários.

Mesmo após a redução das tarifas de transporte público em 12 capitais – e em metade das cidades da Região Metropolitana de São Paulo -, novas manifestações levaram ontem mais de 1 milhão de pessoas às ruas de 75 cidades do País. E a violência voltou a se destacar: pela primeira vez desde o início das manifestações, há 15 dias, uma morte foi registrada, quando um motorista avançou sobre um manifestante em Ribeirão Preto. Pelo menos outras 96 pessoas ficaram feridas, 62 só no Rio. Em Brasília, 12 foram hospitalizados.

A cena que mais chamou a atenção, à noite, foi a tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty, em Brasília. A polícia tentou conter os invasores com gás, mas o prédio teve janelas quebradas e focos externos de incêndio. Além disso, a paisagem da Esplanada dos Ministérios foi tomada pelo gás lacrimogêneo e até a Catedral se tornou alvo de vândalos.
Após duas semanas de protestos, foi o ataque mais violento a um centro de poder. Antes, o Congresso Nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, o Palácio dos Bandeirantes e o Edifício Matarazzo (sede da Prefeitura de São Paulo) haviam sido alvo de protestos. Ontem, com novas bandeiras para o movimento sendo discutidas no Twitter e no Facebook e em meio às reivindicações sociais e políticas diversas que eram ouvidas, um novo grito destacou-se: "sem partidos". Integrantes dessas agremiações foram proibidos de erguer bandeiras por todo o País e o PT viu fracassar a convocação de sua "onda vermelha". Houve confronto até entre manifestantes dos "sem partido" e os do "sem fascismo". Mas o caráter multifacetado do movimento já preocupa especialistas e analistas políticos, que falam em "mal-estar" da democracia no Brasil.

Em São Paulo, a manifestação chegou à Câmara, à Assembleia e à sede da Prefeitura, mas sem confrontos – na Paulista, o tom de festa venceu. No entanto, as consequências da redução de tarifa ainda eram avaliadas por Fernando Haddad (PT), que passou o dia refazendo contas. Há pelo menos três hipóteses para cobrir o deficit financeiro provocado pela revogação do aumento da tarifa. De certo, o governo municipal aponta que o ritmo dos investimentos na cidade vai cair.

Ainda ontem, a Justiça de São Paulo mandou soltar os quatro estudantes do Mackenzie e outras dez pessoas presas em flagrante e acusados de atos de vandalismo nos protestos de terça-feira, na região da Avenida Paulista. Eles ainda vão responder por formação de quadrilha, resistência, crime de dano, desacato e incêndio. Já a Prefeitura vai cobrar do estudante de Arquitetura Pierre Ramon Alves de Oliveira, de 20 anos, os danos que confessou ter causado à sede do Executivo municipal, na tentativa de invasão, na terça-feira.

Lula suspende ida a Goiânia por temer passeata

Preocupados com manifestações anti-PT, integrantes da cúpula do partido cancelaram a ida do ex-presidente Lula, na quarta-feira, à festa dos 33 anos da legenda em. Goiânia (GO).

O discurso de Lula estava previsto para 19h. 0 partido foi informado de que uma concentração de manifestantes sairia pela Avenida Bandeirantes de Goiânia, a cerca de 0 km do Centro de Convenções, onde ele falaria.

Oficialmente, o ex-presidente informou que o cancelamento se devia a compromissos em Sao Paulo e à preparação de nova viagem à África. Procurados pelo Broüdcast Político, dirigentes do PT em Goiás disseram ter sido informados pelo Instituto Lula de que um dos motivos seria evitar manifestações contra o partido.

“Houve uma avaliação de que nesse momento poderiam usar o evento de forma política. As manifestações seriam levadas até o evento. Para que dar munição para isso? considerou. O secretario-geral do PT em Goiás, Sérgio Alberto Dias.

0 vice-presidente da legenda no Estado, Donisete Pereira, lamentou o adiamento determinado pelo Instituto Lula. “Já estava tudo pronto, já havia uma agenda-mento de dez dias”, lamentou. “É evidente que esse ingrediente (a ameaça de manifestantes se dirigirem ao evento) deve ter pesado.” Ainda não foi marcada nova data para a festa.

Dilma censura chamado do PT para as ruas, lança pacote e cancela viagens

Diante do clima de instabilidade vivido pelo País por causa das grandes manifestações de jovens e praticamente sitíada no Palácio do Planalto, r que teve de ser protegido pelo Exército^ a presidente Dilma Rousseff viu-se ontem í obrigada a enquadrar a direção nacional do PT, que estimulou militantes a se unirem aos protestos das ruas, costurou com urgência um pacote . para a juventude e cancelou as viagens que faria para Salvador hoje, e para o Japão na semana que vem.

Diante do clima político tenso e confuso, Dilma irritou-se e censurou a atitude do presidente do PT, Rui Falcão, que conclamado os militantes do partido, por meio do microblog Twitter, para uma passeata liderada pelo Movimento Passe Livre, na Avenida Paulista. Falcão tinha convocado petistas para as manifestações de ontem em comemoração à redução nos preços das passagens de ônibus, mas recuou e retirou a hashtag "#ondavermelha" no seu perfil do Twitter.

A preocupação do Palácio do Planalto e de vários dirigentes petistas era com a reação dos manifestantes, que rejeitavam a presença de partidos nos protestos. Parte dos políticos do partido previam que a incitação petista poderia dar fôlego a movimentos de hostilidade contra o partido, como de fato acabou ocorrendo (veja a cobertura dos protestos em Metrópole).

Em outro documento, uma nota do PT nacional, Rui Falcão revela a busca do partido por : um novo discurso político, que | vai além da inclusão social tão : destacada pelos governos Lula e Dilma. Em seu primeiro parágrafo, Falcão afirma que os movimentos "colocam na ordem ; do dia uma nova agenda".

O "convite" aos petistas no Twitter, porém, foi considerado um desastre dentro do PT. Dirigentes alertaram o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que tem se credenciado como o consultor político de I Dilma, sobre o risco de embate entre petistas e manifestantes.

A principal preocupação de boa parte do partido é que ao ! misturar o PT nas ruas num mo: mento de tensão o próprio parti; do dê munição a adversários pa; ra que transformem parte dos protestos em atos contra o governo e Dilma diretamente, que, até o momento, não são o alvo central.

IMas o assunto divide opiniões, Uma ala de assessores palacianos acha que o PT tem direito de ir para as ruas e de fazer manifestações já que é considerado um partido de massas e de mobilizações, com uma ampla militância e pode ter detectado a necessidade de se conectar melhor com a sociedade. Outra ala, no entanto, acha que o PT tentar se impor em uma manifestação que é apartidária, pode apenas expor o partido, o governo, e a própria presidente.

"Piada" na rede - O chamamento de Rui Falcão foi atacado pesadamente por jovens que rejeitaram a participação do PT nas manifestações."Piada do dia", "somos apartidários", "sai pra lá aproveitadores" e "oportunismo canalha" foram algumas das "críticas que se fizeram seguir à orientação do dirigente petista.

"Eles são contra o governo : Dilma. E o PT é o governo Dilma. Ir para a rua só se for para : apanharmos", disse o deputado ; Domingos Dutra (PT-MA). Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho (PT-SP), afirmou que teve : vontade de ir para o meio da multidão. "Não fui porque não fui chamado. Não sei se me aceitariam", disse ele.

Pacote - O pacote para a juventude do governo federal deverá oferecer um reforço no programa Ciências sem Fronteiras, ampliação do acesso às universidades, com a criação de novos programas sociais ou turbinando os já existentes, além da criação de projetos sociais para a i juventude que está se formando, além de aumento nas vagas : do ensino técnico.

Com as manifestações ontem, pelo segundo dia seguido a ! presidente Dilma Rousseff não : saiu do Planalto para almoçar no Palácio da Alvorada, residência oficial, que também recebeu reforços policiais.

Dilma decidiu cancelar a viagem porque avaliou ser temerário ficar fora do País por mais de uma semana,

Oposição- A ex-senadora Marina Silva usou metáforas para falar da intenção de partidos de irem às mas. "Navegar o rio depois que ele transbordou é o que todo mundo faz. Difícil é trabalhar o curso do rio enquanto está cavando a terra." "O PT - vai dizer o quê? Esse é o maior movimento depois do Diretas Já, Contesta os dez anos do governo do PT, Para mim, só se for para o PT fazer o mea culpa", alfinetou o presidente do DEM, senador José Agripino (RN).

Fonte: O Estado de S. Paulo

Guerra e paz - Um Galo da Madrugada de cidadania

O Recife deu uma lição ao resto do País, ontem, levando dezenas de milhares de pessoas às ruas, que passaram sua mensagem de insatisfação, sem violência. Houve apenas incidentes isolados. O mesmo não pode ser dito de outras capitais, onde houve confronto. Em Brasília, grupo tentou invadir e tocar fogo no Palácio do Itamaraty. No Rio, pancadaria geral. Carro do SBT foi incendiado, houve saques e muita confusão, fato que se repetiu em várias cidades. Até às 23h30, clima continuava tenso.

Uma nação de extremos

Um dia em que o Brasil parou. Um dia de guerra e paz, de vandalismo e cidadania. A onda de protestos que tomou conta do País há duas semanas produziu, ontem, cenas tão distintas que nem pareciam ter sido registradas em um movimento que se propõe a passar a nação a limpo. Uma nação de extremos. No Recife, o grito de revolta encheu de cores e indignação o Centro. O protesto, que entrou para a história da cidade, reuniu 52 mil pessoas, segundo cálculos da PM. Um mar de gente formado por todos os tipos, idades, raças e classes sociais. Pessoas que faziam questão de expressar a opinião e a reivindicação, impressas em faixas e cartazes. Uma voz maciça das ruas que atendeu à convocação e seguiu em paz, condenando, quando podia, atos de grupos mais exaltados e tentativas de atentados ao patrimônio e à integridade física. No início, tudo transcorreu como manda o figurino. Jovens vaiaram vândalos e aplaudiram a polícia, que recebeu flores e retribuiu o gesto. Depois, apareceram os infiltrados, comandando arrastões e provocando prisões, em confrontos ocorridos na dispersão, depois que a maioria dos manifestantes já tinha ido para casa. Mas nada que conseguisse manchar a festa cívica popular. Muito diferente das cenas lamentáveis registradas em Belém (PA), Rio de Janeiro, Ribeirão Preto (SP), onde ocorreu a primeira morte desde o início dos distúrbios, Vitória (ES) e, sobretudo, Brasília, que virou praça de batalha. Saíram da capital federal as imagens mais absurdas de todo o processo, deflagrado por causa dos valores de passagens de ônibus e que tomaram rumo difuso. Quase incompreensível. O princípio de incêndio no prédio do Itamaraty manchou profundamente uma data tão especial para todos os brasileiros.

Um Galo da Madrugada de cidadania

As 52 mil pessoas, segundo estimativa oficial, fizeram o Centro do Recife viver um dia parecido com o do famoso desfile

Um Galo da Madrugada pela cidadania. Um dia em que o Marco Zero do Recife foi, por uma tarde, a Avenida Agamenon Magalhães, na altura do Derby, área central. A cidade toda se encontrou ali. De lá rumou e fez da Avenida Conde da Boa Vista passarela da indignação. Em torno de 52 mil vozes nas contas da Polícia Militar (PM) - e mais de 100 mil na visão dos organizadores - bradaram por de tudo um pouco. De várias cores e tendências, foram unânimes em abraçar a bandeira do pacifismo. A maratona sem vandalismo, no entanto, não escapou de cenas indesejáveis. Gangues espalhadas pela marcha promoveram arrastões, tumulto e correria. O saldo, contudo, foi positivo, sobretudo quando contrastado com a violência que marca protestos Brasil afora.Os primeiros manifestantes começaram a chegar ao Derby no início da tarde. Gritaram palavras de ordem. A metralhadora vocabular tinha alvos definidos: a presidente Dilma Rousseff e o governador Eduardo Campos.

Foi por volta das 16h que a multidão iniciou a passeata ocupando toda a Conde da Boa Vista. Em poucos minutos, o mar de gente lotou a avenida. Sem uma pauta definida, as pessoas carregaram nos milhares de cartazes um emaranhado de críticas. O manifesto foi contra o preço abusivo das tarifas de ônibus, a falta de incentivo na educação, a precariedade da saúde pública, a PEC 37 (que limita a atuação do Ministério Público em investigações criminais), o deputado federal e líder evangélico Marco Feliciano, a corrupção, os gastos excessivos com as competições internacionais a serem disputadas no Brasil, a criação de 28 novos municípios em Pernambuco, a seca, a transposição do Rio São Francisco, a falta de mobilidade urbana no Grande Recife, os problemas com alagamentos e mais um punhado de coisas.

Em frente à Igreja Universal, houve um coro de vaias. Pouco depois, adolescentes subiram no teto de uma banca de revista e foram vaiados pelos manifestantes. Gestos que fugiam do tom pacífico do movimento eram logo reprimidos. "A gente não pode depredar nossa cidade. Mas sempre tem gente para fazer o que não deve", reclamou a estudante Nathália Costa, 22.

A Polícia Militar, estrategicamente com uma braçadeira branca contendo a palavra "paz", recebeu flores de manifestantes. Numa das horas em que o Hino Nacional foi cantado, PMs ajudaram no coral. "Eles estão protestando, e não anarquizando. O que eles estão pedindo a gente pede também", resumiu a soldada Midian Pontes, do 17º Batalhão. Na Avenida Marquês de Olinda, seis homens da Companhia Independente de Policiamento com Motocicleta (CIPMoto) pediram passagem ao povo e foram aplaudidos. Retribuíram buzinando.

A falta de foco e a ausência de um líder geraram indefinição no final. A marcha ficou pulverizada após a chegada ao Marco Zero. Parte dispersou, outros foram até a Assembleia Legislativa, alguns queriam protestar em um Palácio do Campo das Princesas que está em obras e um grupo remanescente acabou na porta da prefeitura. Eles lançaram duas bombas no prédio, estilhaçaram janelas e foram afugentados pelo Batalhão de Choque.

O balanço da Secretaria de Defesa Social revelou 30 ocorrências, entre arrastões, agressões, ameaças e roubos, com 28 pessoas detidas. Nos tumultos, algumas pessoas caíram no chão, mas não houve feridos graves. Novo protesto está sendo marcado para as 16h de hoje, no mesmo local.

Fonte: Jornal do Commercio