domingo, 1 de março de 2015

Fernando Henrique Cardoso* - A miséria da política

• Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? A situação nacional requer grandeza

- O Estado de S. Paulo / O Globo

Otimista por temperamento, com os necessários freios que o realismo impõe, raramente me deixo abater pelo desalento. Confesso que hoje, no entanto, quase desanimei: que dizer, que recado dar diante (valham-me os clássicos) de tanto horror perante os céus?

Na procura de alento, pensei em escrever sobre situações de outros países. Passei o carnaval em Cuba, país que visitava pela terceira vez. A primeira, na década de 1980, quando era senador - fui jurado num Prêmio Casa de las Américas. Voltei à ilha como presidente da República. Vi menos do povo e dos costumes do que na vez anterior: o circuito oficial é bom para conhecer outras realidades, não as da sociedade. Agora visitei Cuba como cidadão comum, sem seguranças nem salamaleques oficiais. Fui para descansar e para admirar Havana, antes que o novo momento econômico de relações com os Estado Unidos a modifique muito.

Não fui, portanto, para avaliar a situação política (nem sequer possível em sete dias) ou para me espantar com o já sabido, de bom e de mau, que lá existe. Não caberia, portanto, regressar e fazer críticas ao que não olhei com maior profundidade. Os únicos contatos mais formais que tive foram com Roberto Retamar (poeta e diretor da referida Casa de las Américas), com o jornalista Ciro Bianchi e com o conhecido romancista Leonardo Padura. Seu livro El Hombre que Amaba a los Perros - sobre a perseguição a Trotski em seu exílio da União Soviética - é uma admirável novela histórica. Rigorosa nos detalhes, aguda nas críticas, pode ser lida como um livro policial, especialidade do autor, que, no caso, reconstitui as desventuras do líder revolucionário e o monstruoso assassinato feito a mando de Stalin.

Jantei com os três cubanos e suas companheiras. Por que ressalto o fato, de resto trivial? Porque, embora ocupando posições distintas no espectro político da ilha, mantiveram uma conversa cordial sobre os temas políticos e sociais que iam surgindo. A diversidade de posições políticas não tornava o diálogo impossível. Eles próprios não se classificavam, suponho, em termos de "nós" e "eles", os bons e os maus. Por outra parte, ainda que o cotidiano dos cubanos seja de restrições econômicas que limitam as possibilidades de bem-estar, em todos os populares com quem conversei senti esperanças de que no futuro estarão melhor: o fim eventual do embargo, o fluxo de turistas, a liberdade maior de ir e vir, as remessas aumentadas de dinheiro dos cubanos da diáspora, tudo isso criou um horizonte mais desanuviado.

É certo que nem em todos os contatos mais recentes que tive com pessoas de nossa região senti o mesmo ânimo. Antes de viajar recebi ligação telefônica da mãe de Leopoldo López, oposicionista venezuelano que cumpriu um ano de cadeia no dia 18 de fevereiro. Ponderada e firme, a senhora me pediu que os brasileiros façamos algo para evitar a continuidade do arbítrio. Ainda mantém esperanças de que, ademais dos protestos no Congresso e na mídia, alguém do governo entenda nosso papel histórico e grite pela liberdade e pela democracia.

Na semana passada foi a vez de Henrique Capriles me telefonar para pedir solidariedade diante de novos atos de arbítrio e truculência em seu país: o prefeito Antonio Ledezma, eleito para o governo do Distrito Metropolitano de Caracas pelo voto popular, havia sido preso dias antes em pleno exercício de suas funções. Não bastasse, em seguida houve a invasão de vários diretórios de um partido oposicionista. Note-se, como me disse Capriles, que Ledezma não é um político exaltado, que faz propostas tresloucadas: ele, como muitos, deseja apenas manter viva a chama democrática e mudar pela pressão popular, não pelas armas, o nefasto governo de Nicolás Maduro. Esperamos todos que o desrespeito aos direitos humanos provoque reações de repúdio ao que acontece na Venezuela.

Até mesmo os colombianos, depois de meio século de luta armada, vão construindo veredas para a pacificação. As Farc e o governo vêm há meses, lenta, penosa, mas esperançadamente, abrindo frestas por onde possa passar um futuro melhor. Amanhã, segunda-feira, 2 de março, o presidente Juan Manuel Santos e outras personalidades, entre as quais Felipe González, estarão reunidos em Madri num encontro promovido por El País (ao qual não comparecerei por motivos de força maior) para reafirmar a fé na paz colombiana.

Enquanto isso, nós que estamos longe de sofrer as restrições econômicas que maltratam o povo cubano ou os arbítrios de poder que machucam os venezuelanos, eles também submetidos à escassez de muitos produtos e serviços, nos afogamos em copo d'água.

Por que isso, diante de uma situação infinitamente menos complexa? Por que Lula, em lugar de se erguer ao patamar que a História requer, insiste em esbravejar, como fez ao final de fevereiro, dizendo que colocará nas ruas as hostes do MST (pior, ele falou nos "exércitos"...) para defender o que ninguém ataca, a democracia, e - incrível - para salvar a Petrobrás de uma privatização que tucano algum deseja? Por que a presidente Dilma se deu ao ridículo de fazer declarações atribuindo a mim a culpa do petrolão? Não sabem ambos que quem está arruinando a Petrobrás (espero que passageiramente) é o PT, que no afã de manter o poder criou tubulações entre os cofres da estatal e sua tesouraria? Será que a lógica do marquetismo eleitoral continuará a guiar os passos da presidente e de seu partido? Não percebem que a situação nacional requer novos consensos, que não significam adesão ao governo, mas viabilidade para o Brasil não perder suas oportunidades históricas?

Confesso que tenho dúvidas se o sentimento nacional, o interesse popular serão suficientes para dar maior têmpera e grandeza a tais líderes, mesmo diante das circunstâncias potencialmente dramáticas de que nos aproximamos. Num momento que exigiria grandeza, o que se vê é a miséria da política.

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*Fernando Henrique Cardoso é sociólogo e foi presidente da República

Luiz Werneck Vianna* - Dois meses que duraram séculos


  • A solidão política pós-eleição traz de volta o espantalho do impeachment

- O Estado de S. Paulo

No tempo curto de dois meses, um abismo separa o que foi o primeiro governo Dilma deste que tarda em começar, ainda prisioneiro de práticas e concepções das quais não será fácil desembaraçar-se. Na política, como nos transatlânticos, mudanças inesperadas de rota são de operação complexa e demandam convicções firmes dos seus timoneiros. Eles devem, se desejarem evitar movimentos de amotinados, ser capazes de apresentar suas razões e demonstrar autenticidade e determinação na opção pela mudança de rumos.

Pois é de tal grave natureza uma das ameaças que rondam o mandato presidencial, qual seja o de perder o apoio do seu partido, do sindicalismo da CUT, de movimentos sociais, inclusive dos difusos como os que somente se fazem visíveis nas redes da internet, adversos à política que adotou em favor do ajuste fiscal, contrariando o que alardeou em alto e bom som no curso da campanha presidencial. A categoria dos intelectuais, a esta altura, parece irrecuperável, apesar das cambalhotas dialéticas com que alguns se eximem da crítica e da autocrítica.

Decerto que tais riscos têm sua origem em escolhas feitas pela presidente, ao insistir, em sua campanha eleitoral, em caminhos já exauridos pela macroeconomia de sua lavra e do seu ministro da Fazenda. Verdade que um eventual reconhecimento prévio de um diagnóstico desse tipo, que não era estranho ao círculo do poder (Lula incluído) - evidente na opção, feita nas primeiras horas após a vitória eleitoral, pela descontinuidade da sua política econômica com a indicação de um nome antípoda à sua tribo doutrinária para a pasta da Fazenda -, ter-lhe-ia custado a reeleição.

Assim, se no terreno da economia foi a mudança de cenário o que importou para a guinada de rumos em favor do ajuste fiscal, brusca mudança de rota a marcar a passagem do primeiro mandato presidencial para o segundo, no caso da política esse marcador tem origem nas ações da própria presidente.

De um lado, por ter recusado manter-se alinhada às práticas tradicionais em seu partido, que tanto serviram a ela e ao seu antecessor, suportadas, no fundamental, pelo eixo PT-PMDB, ao apresentar uma candidatura de um quadro do seu partido, na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, contra o peemedebista Eduardo Cunha, um franco favorito, segundo avaliação então corrente. Como se sabe, sua derrota eleitoral destravou uma inédita rebelião parlamentar contra a interferência do Executivo no Poder Legislativo.

De outro, ao compor seu governo com quadros vinculados a alas minoritárias do seu próprio partido, a presidente contrariou suas lideranças mais influentes, e a solidão política que se estabeleceu em torno dela tem trazido de volta o velho espantalho do impeachment, sempre a rondar presidentes sem apoio congressual e em orfandade partidária. Em breves dois meses, seu mandato assemelha-se ao de presidentes malsucedidos que aguardam, com amargura, a hora da passagem do bastão de comando a seu sucessor.

Agora, passado o carnaval, diante desse horizonte aziago que está aberto diante de nós, a rota inevitável é a de enfrentar mar alto em águas turbulentas, em que o timoneiro precisa estar atento a todos os sinais, e não apenas aos que lhe vêm dos seus impulsos e convicções íntimas. Boa será a reforma política que vier do Parlamento e que venha a ser referendada, onde couber, pela cidadania. Esse pode ser um começo para uma navegação menos arriscada.

Se há previsões fundamentadas de mau tempo, em particular com os desdobramentos dos escândalos da Petrobrás, ainda em fase de apuração por parte do Ministério Público e do Poder Judiciário, de desenlace imprevisível quando os malfeitos e os responsáveis por eles vierem a público com a formalização de um processo criminal, não se podem ignorar os bons augúrios que nos vêm tanto da afirmação da autonomia do Legislativo, que nos faltava - fato de importância capital nas Repúblicas democráticas -, como a do Judiciário, a esta altura solidamente escorada pela intensa vida corporativa das inúmeras associações de magistrados.

Não há motivos, pois, para surtos paranoicos quanto ao destino da nossa democracia política, embora seja certo que os próximos quatro anos nos reservem turbulências e nova disposição nas peças sobre o tabuleiro político. Os primeiros movimentos nessa direção já se iniciaram com a elevação do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, um estranho no ninho do PT, às funções de primeiro-ministro, a quem se encarregou de liderar as negociações com lideranças parlamentares a fim de aprovar o ajuste fiscal no Legislativo, operação já iniciada com as bênçãos do PMDB. Na sequência, devem ceder as resistências do Executivo a Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, que já deu fortes demonstrações de expertise no jogo da política parlamentar e parece imune a ações de cooptação pelo governo.

Outro elemento de imprevisibilidade que nos ronda são as ruas, aqui uma protagonista nos idos de 2013 e, por toda parte, uma nova e incontornável presença na vida política e social neste início de século. No Brasil, até no carnaval paulistano. Elas deverão retornar, mas com outra demografia e outros temas, diversos dos daqueles estudantes e da agenda tópica de políticas públicas de dois anos atrás. Já estão nelas os sem-teto e o sindicalismo operário, como na ocupação da Ponte Rio-Niterói por parte dos petroleiros, entre tantas manifestações recentes de metalúrgicos paulistas, e, agora, perigosamente, os caminhoneiros. A agenda desses recém-chegados às ruas, com uma economia retraída, não recomenda ao boxeador ficar agarrado às cordas. Ele precisa se reinventar, abandonando o tipo de jogo que o está levando à derrota, e reiniciar a luta, mesmo que com um estilo com o qual não esteja habituado. Se quiser evitar o risco de beijar a lona.

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*Luiz Werneck Vianna é cientista social - PUC-RJ

Elio Gaspari - A Camargo Corrêa pode virar uma Siemens

• Colaboração da Camargo Corrêa com a Viúva pode significar um novo tempo

- O Globo

A decisão do presidente e de um dos vice-presidentes da Camargo Corrêa de colaborar com a Viúva pode significar o início de um novo tempo nas relações de grandes empresas com o Estado. Se a empresa aderir, poderá se transformar numa Siemens.

Nada garante que isso vá acontecer, mas a multinacional alemã foi do inferno ao paraíso em poucos anos. Com 400 mil empregados em 190 países, ela corria o risco de ser declarada inidônea nos Estados Unidos e na Alemanha. Resolveu corrigir-se. Reconheceu que distribuiu US$ 1,4 bilhões em 65 países e abriu uma investigação interna. Foram analisados 127 milhões de documentos e descobertos novos malfeitos. A Siemens contratou Theo Waigel, ex-ministro da Economia da Alemanha, para uma posição de superombudsman. Ele visitou 20 países, reuniu-se com cerca de 1.500 pessoas e ficou com pouco tempo para outras atividades. De seu trabalho resultou que a empresa tem um novo lema: "A Siemens só faz negócios limpos". A faxina foi geral. No primeiro ano, o ombudsman fez mais de cem recomendações, todas aceitas. No segundo, 40. No terceiro, apenas dez. Criou uma sistema de controle de denúncias. Para garanti-lo, apresentavam-se falsas reclamações, para ver se elas são varridas para baixo do tapete.

A tortura e o doutor Wadih Damous
Têm sido muitas as linhas de defesa do pessoal metido nas petrorroubalheiras; uma delas revela o tamanho do cartel de mistificações que se pretende construir. Os presos de Curitiba estariam sendo submetidos a um tratamento humilhante e, o que é pior, a uma tortura. Muita gente boa gosta desse argumento. Nas palavras do doutor Wadih Damous, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil:

"Delação premiada não é pau de arara, mas é tortura".

Não é. Primeiro porque a tortura é crime e a colaboração com a Viúva é um instrumento legal. Aceitandose a essência retórica do doutor, prender uma pessoa para obter dela uma confissão seria uma forma de torturá-la. Nessa transposição, até o barulho da televisão do vizinho pode ser uma tortura. O uso da palavra com essa conotação adjetiva faria sentido na Suécia. No Brasil, país governado por uma senhora que na juventude passou pela experiência da tortura a prestidigitação é ofensiva.

Uma observação de Dilma Rousseff a respeito da sua experiência deveria levar o doutor Damous a refletir:

"A pior coisa que tem na tortura é esperar. Esperar para apanhar".

Palmatórias, socos, pau de arara são sofrimentos terríveis, porém episódicos. Terminado o suplício, o preso volta para a cela e lá ele tem que esperar que o chamem de volta, "esperar para apanhar".

Os presos de Curitiba estão encarcerados e vivem numa situação de constrangimento legal. Chegaram a essa situação porque são acusados, com provas, de terem delinquido. Os que estão colaborando com a Viúva reconhecem isso.

São dois os tipos de pessoas que se incomodam com a colaboração dos acusados. Um grupo, pequeno, é composto por cidadãos que para isso são remunerados. Eles defendem as empreiteiras, todas as suas obras e todas as suas pompas. Outro grupo, bem maior, defende o comissariado petista. Numa trapaça da história, nele estão pessoas que sabem perfeitamente o que é tortura.

Fritura
A doutora Dilma encarregou o ministro Joaquim Levy de negociar com a agência Moody"s para que a nota de crédito da Petrobras não fosse rebaixada. Ele tentou durante o carnaval, quando esteve em Nova York e novamente na segunda-feira passada. Deu água.

Negociações como essa são comuns. Às vezes dão certo, às vezes fracassam. Valem pelo segredo em que são mantidas, seja qual for o desfecho. Se Levy fosse bem-sucedido, o sigilo evitaria que a Moody"s parecesse ter sido pressionada.

Rebaixada a Petrobras, o governo (mas não a Fazenda) revelou a gestão malsucedida. Pode ter sido pura incompetência, ou um lance de fritura de Levy.

Perigo
Se fossem poucos os problemas do comissariado, apareceu um novo. A possibilidade de que surjam novos fatos documentados sobre as petrorroubalheiras, vindos dos Estados Unidos, onde pelo menos duas agências investigam a Petrobras.

Se isso acontecer, é certo que renascerá a tese dos "inimigos externos". Será falsa, o governo americano zela pela saúde de seu mercado de ações, onde papéis da empresa são negociados na Bolsa.

Funcionários da Securities and Exchange Commission já estiveram no Brasil.

Em Pindorama, essa função é da Comissão de Valores Mobiliários, com quem diretores da Petrobras fizeram pelo menos sete acordos. Como diria o comissário Luís Inácio Adams, essa é um "especificidade" do Brasil.

Sugestão
CPI da Petrobras poderia funcionar em Curitiba.

Lá, ela ficaria mais perto das duas pontas da questão: o juiz Sérgio Moro e a carceragem.

Cota do PMDB
Na roda de fogo para segurar a votação da PEC da Bengala, chegou a um comissário do Planalto uma estranha proposta.

Aprovada, a emenda bloquearia a nomeação de cinco ministros do Supremo Tribunal Federal que irão para as vagas dos titulares que completarão 70 anos durante o mandato da doutora. O PMDB seguraria a PEC se ganhasse uma cota, influenciando a escolha de dois dos novos ministros.

O Juiz do Porsche
juiz Flávio Roberto de Souza foi afastado do caso de Eike Batista.

O Ministério Público bem que poderia sugerir uma medida que desse alegria à cidade. Deveriam obrigá-lo a circular durante uma semana, pela orla, no Porsche do ex-bilionário.

Se bater em cachorro pode levar uma pessoa a correr o risco de ter que limpar canis a pedido do MP, isso não seria absurdo.

Urucubaca
O repórter Lauro Jardim informa: O doutor Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, tinha seu conforto garantido pelo bloqueio de um elevador do prédio da empresa sempre que fosse usá-lo.

Durante 11 anos ele dirigiu a poderosa subsidiária da Petrobras e caiu na rede das petrorroubalheiras. Ele pode até ser um santo, mas chamou uma urucubaca.

É dura a vida de magnata que bloqueia elevador. Eike Batista está no chão. Edemar Cid Ferreira, Angelo Calmon de Sá e Theodoro Quartim Barbosa quebraram seus bancos, e Richard Fuld destruiu a Lehman Brothers. Paulo Skaf, valeu-se do mesmo privilégio como presidente da Fiesp apenas por algum tempo. Tomou uma surra na última eleição para o governo de São Paulo.

Vinicius Torres Freire - A alma penada de Dilma Rousseff

• O que deve sentir ou pensar a presidente ao ver o enterro de indigente de seus planos econômicos?

- Folha de S. Paulo

"Um negócio que era muito grosseiro;" "brincadeira que nos custa R$ 25 bilhões por ano". Foi com esse discurso de réquiem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, enterrou o defunto que fora um dos planos mais estimados da primeira encarnação da presidente Dilma Rousseff: a redução de impostos que empresas pagam ao INSS.

O que a presidente sente ou pensa quando assiste à morte ingló- ria e ao enterro infame do seu programa econômico? O que diz a seus botões, durante a noite escura da alma, na solidão esplêndida do Alvorada?

Ela acredita nas fantasias mal escritas de seus discursos, que atribui a ruína que provocou a conjurações dos azares da economia do mundo?

Acredita, tal como algumas seitas de seus adeptos restantes, que foi vítima de conjurações de elites, "mídia" ou outro demônio? Vítima dessas elites a quem o governo paga e pagará juros aberrantes pela dívida que fez a fim de financiar uma fantasia caricata e transitória de progresso social, em vez de ao menos tentar cobrar-lhes mais impostos?

As elites, que tanto amaram o dinheiro de seu governo enquanto durou, que recebiam grana grossa para financiar a criação de oligopólios, ainda engolem meio trilhão de reais a juro quase zero, o "nacional-empresismo", outro programa que morre pelas mãos de tesoura de Levy.

Parece agora claro que Dilma não compreendia as consequências das encrencas enormes que criava, tal como endividar demais e levar à pindaíba o Tesouro Nacional e a Petrobras, para ficar nas mais rudimentares e estarrecedoras. Parecia mesmo convicta da eficácia de aplicar ao país uma versão decrépita, colegial e amadora do que imagina ter sido o desenvolvimentismo original, em si mesmo um "equívoco bem-sucedido", responsável por vários dos nossos horrores, como desigualdade, cidades monstruosas, ignorância de massa e elitismo disfarçado de "nacional e popular".

A presidente teria agora dúvidas? Ou balança a cabeça e tenta afastar a lembrança da lambança, tal como fazemos quando mentimos para nós mesmos a respeito dos nossos pecados? A julgar por biografias, histórias e exemplos vivos de poderosos vistos mais de perto, é provável que as perguntas sejam tão ingênuas quanto as ideias de Dilma.

Um político que chegou ao ápice do poder é quase tão oco quanto o tronco comido por cupins das árvores que desabam nas ventanias de São Paulo. Nesse quase vácuo há menos resistência para torcer seja lá o que tenha restado de ideias ou convicção. Até líderes maiores e melhores foram assim. Roosevelt tomou posse com um programa, começou a governar com outro e ainda mudou de ideia, com o que fez fama e história.

A alma de Dilma decerto não explica este quadriênio de perversões brasileiras, embora a presidente tenha se valido das oportunidades do governo imperial do país como poucos, encarnando a caricatura da Rainha de Copas. Mas o que explica ao menos o movimento dos seus humores? Dilma ora parece se debater furiosa dentro de uma bolha isolada mesmo das versões da realidade menos antipáticas a sua figura e a seu governo. Seria a fúria de alguém inquieta e ansiosa para voltar a sua vida passada, Dilma 1? Ou de uma alma penada sem rumo?

Eliane Cantanhêde - Crise do fim do mundo

- O Estado de S. Paulo

O 15 de março vem aí, com péssimas condições de tempo e temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o "Foi o FHC".

Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao entregar um superávit de R$ 21 bilhões em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira" as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se cutuca a onça com vara curta.

E... o aumento de até 150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a tremelicar.

Na política, as ameaças ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois, justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava Jato. Pior: em 48 horas, o procurador desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito.

Leia-se: jogar tudo para as calendas.

Janot pode estar enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.

Já o ministro da Justiça se encontra com o advogado da UTC, por acaso, ali na porta ao lado do seu gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe a turma da Odebrecht e registra em ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.

Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político para eternizar o PT no poder.

É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht, onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.

É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no grande personagem das investigações: Ricardo Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional. Digamos que é uma questão de tempo.

Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando do governo, cresce a sensação de que o procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é incerto, depois de tantas revelações escabrosas.

Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o impeachment, não. Lula também reuniu sua tropa e avisou: se necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e movimentos sociais).

O que talvez os dos dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas contra todos eles.

Demétrio Magnoli - A hora e a história

• A história não é a hora. Dilma vai passar, cedo ou tarde. Ela não vale o preço da redução do Brasil a um Paraguai

- Folha de S. Paulo – 28/2/2015

O governo Dilma 2 acabou antes de começar. Batida pelo turbilhão da crise que ela mesma engendrou, a presidente perdeu, de fato, o poder, que é exercido por dois primeiros-ministros informais: Joaquim Levy comanda a economia; Eduardo Cunha controla as rédeas da política. Na oposição, entre setores da base aliada e, sobretudo, nas ruas, a palavra impeachment elevou-se, de murmúrio, à condição de grito ainda abafado. É melhor pensar de novo, para não transformar o Brasil num imenso Paraguai.

Nos sistemas parlamentares, um voto de desconfiança do Parlamento derruba o gabinete, provocando eleições antecipadas. No presidencialismo paraguaio, regras vagas de impeachment conferem aos congressistas a prerrogativa de depor um chefe de Estado que não enfrenta acusações criminais. Um parecer de Ives Gandra Martins sustenta a hipótese de impedimento presidencial por improbidade administrativa, mesmo sem dolo. Na prática, equivale a sugerir que Dilma poderia ser apeada com a facilidade com que se abreviou o mandato de Fernando Lugo. A adesão a essa tese faria o Brasil retroceder do estatuto de moderna democracia de massas ao de uma democracia oligárquica latino-americana.

Não são golpistas os cidadãos que fazem circular o grito abafado. Dilma Rousseff tornou-se um fardo pesado demais. Lula deu o beijo da morte no segundo mandato da presidente ao lançar sua candidatura para 2018 antes ainda da posse. No ato farsesco de "defesa da Petrobras", o criador da criatura emitiu sinais evidentes de que, em nome de sua campanha plurianual, prepara-se para assumir o papel um tanto ridículo de crítico do governo. Diante de uma presidente envolta na mortalha da solidão, os partidos oposicionistas parecem aguardar uma decisão das ruas. Fariam melhor oferecendo um rumo político para a indignação popular.

Antes de tudo, seria preciso dizer que, na nossa democracia, a hipótese de impeachment só se aplica quando há culpa e dolo. O complemento honesto da sentença é a explicação de que, salvo novas, dramáticas, informações da Lava Jato, inexiste uma base política e jurídica sólida para abrir um processo de impedimento da presidente. Contudo, só isso não basta, pois o país não suportará mais quatro anos de "dilmismo", essa mistura exótica de arrogância ideológica, incompetência e inoperância.

"Governe para todos --ou renuncie!". No atual estágio de deterioração de seu governo, a saída realista para Dilma é extrair as consequências do fracasso, desligando-se do lulopetismo e convidando a parcela responsável do Congresso a compor um governo transitório de união nacional. O Brasil precisa enfrentar a crise econômica, definir a moldura de regras para um novo ciclo de investimentos, restaurar a credibilidade da Petrobras, resgatar a administração pública das quadrilhas político-empresariais que a sequestraram. É um programa e tanto, mas também a plataforma de um consenso possível.

"Governe para todos --ou renuncie!". O repto é um exercício de pedagogia política, não uma aventura no reino encantado da ingenuidade. As probabilidades de Dilma romper com o lulopetismo são menores que as de despoluição da baía da Guanabara até a Olimpíada. Isso, porém, não forma uma justificativa suficiente para flertar com o atalho do impeachment. Se a presidente, cega e surda, prefere persistir no erro, resta apontar-lhe, e a seu vice, a alternativa da renúncia, o que abriria as portas à antecipação das eleições.

Dilma diz que a culpa é de FHC. Lula diz que é da imprensa, enquanto reúne-se com o cartel das empreiteiras. A inflação fará o ajuste fiscal. Por aqui, os camisas negras usam camisas vermelhas. A justa indignação da hora faz do impeachment uma solução sedutora. Mas a história não é a hora. Dilma vai passar, cedo ou tarde. Ela não vale o preço da redução do Brasil a um Paraguai.

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Demétrio Magnoli é sociólogo

Luiz Carlos Azedo - O "burro operante"

• Na Presidência, Dilma viu no capitalismo de Estado, alavancado pela Petrobras, a antessala do paraíso

Correio Braziliense

Um dos artífices do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP) — ao lado do empresário Jorge Gerdau Johannpeter e do ex-prefeito de Vitória Luiz Paulo Vellozo Lucas, então no Ministério da Economia —, o executivo Antônio Maciel Neto, hoje presidente do grupo Caoa, tem uma definição especial para o sujeito que consegue potencializar suas qualidades pessoais para fazer tudo errado: é o “burro operante”.

Segundo Maciel, qualquer projeto, programa ou produto para dar certo precisa de um tripé robusto: o conceito acertado, o método adequado e um ambiente favorável. O conceito, porém, é o mais decisivo. Se estiver errado, pode transformar o que seriam atributos positivos em fatores negativos que só aumentam o tamanho do desastre. Isso vale para o carisma, a combatividade, o dinamismo, a firmeza, a iniciativa, etc…

Ninguém está livre de se tornar um “burro operante” quando erra na direção do processo. Um pequeno livro de “cases” está disponível nas boas livrarias, intitulado As piores decisões da história e as pessoas que as tomaram (Sextante), reúne uma galeria de líderes e estadistas que tomaram decisões catastróficas: Nero, o papa Alexandre III, Napoleão, o general Custer, Winston Churchill (duas vezes), Stálin, Robert MacNamara e Mao Tse Tung, entre outros protagonistas da História.

O caso do líder comunista chinês é o mais dramático. Mao provocou a morte por inanição de pelo menos 20 milhões de pessoas — fala-se que chegariam a 40 milhões. A tragédia humanitária, demograficamente, pode ter sido uma perversa solução política, diante do equívoco econômico que foi o Grande Salto Para a Frente. O principal problema da China era a alimentação.

O ambicioso programa econômico aprovado no 8º Congresso do Partido Comunista Chinês, em 1956, pretendia superar em 15 anos a antiga União Soviética, com quem Mao havia rompido, e a Inglaterra. E pôr a indústria da China para competir com os Estados Unidos e todo o Ocidente, como, aliás, acontece hoje, quase 60 anos depois, mas por outros meios. A fé revolucionária levou Mao a conceber o programa voluntarista; o orgulho pessoal, a não admitir o seu trágico erro.

O caso do pré-sal
Estamos longe de um desastre social, mas o caso serve de ilustração para os riscos de decisões voluntaristas em matéria de economia, como algumas que foram tomadas nos governos Lula e Dilma, cujas consequências agora estamos vivendo. O grande erro de conceito ocorreu na Petrobras, mergulhada na maior crise de sua história. Seu efeito catalisador está sendo a Operação Lava-Jato, que revelou o mais escandaloso caso de corrupção da atualidade mundial.

A decisão estratégica, cujas consequências estão se irradiando por toda a economia, da quebradeira de empreiteiras à greve dos caminhoneiros, foi a mudança do regime de concessões para o de partilha, no qual o petróleo extraído deixa de ser do concessionário para ser todo do Estado. A Petrobras passou a ser responsável por 30% dos investimentos na exploração do pré-sal. Para isso, ampliou seus investimentos sem ter, porém, condições reais para isso.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o principal responsável pelo equívoco. Foi convencido a ancorar toda a estratégia de desenvolvimento do país na exploração do pré-sal pelo ex-diretor da Petrobras Guilherme Estrela; pelo então senador Aloizio Mercadante, hoje chefe da Casa Civil; e pela presidente Dilma Rousseff, que ocupava o cargo atual do ex-parlamentar. Em razão disso, o regime de concessões virou um estorvo; o programa do pró-álcool e outras fontes de energia renováveis, pura perda de tempo. O pré-sal passou a ser uma espécie de bezerro de ouro, que iria conduzir o país ao status de nova potência mundial, em meio à crise econômica internacional.

Em torno da Petrobras, articulou-se um grande cluster metal-mecânico e petroquímico de empresas associadas ou contratadas pela estatal, que agora enfrenta sua maior crise, com falências e demissões em massa. O regime especial de licitações e a lei de incentivo à transferência de tecnologia e proteção das empresas nacionais serviram de cortina de fumaça para a corrupção generalizada e para o financiamento do projeto de poder do PT e de seus aliados.

Na Presidência, Dilma viu no capitalismo de Estado, alavancado pela Petrobras, a antessala do paraíso. A Petrobras, como símbolo do progresso nacional, e seu poder político e econômico serviram para vedar os olhos da sociedade e paralisar as instituições políticas até eclodir a Operação Lava-Jato. Entretanto, o conceito estava errado, o método dispensa comentários e o ambiente nunca foi tão desfavorável. O atual modelo fracassou e terá que ser revisto.

João Bosco Rabello - Com o pé na porta

- O Estado de S. Paulo

A maratona do ex-presidente Lula nos últimos dias, ao tempo em que indica claramente sua intenção de candidatar-se em 2018, expõe a indigência da coordenação política do governo, incapaz de atuar com eficiência mínima para o reequilíbrio das relações com o Congresso Nacional.

Lula em campo significa a extrema-unção da articulação do PT no Planalto. Ele cumpre roteiro claro de aprovar o ajuste fiscal para evitar o pior para Dilma. Mas o PMDB não aceita assumir o ônus das medidas, enquanto o PT as contesta publicamente.

A manifestação do líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), confirma a acusação do PMDB. Diz ele que as críticas do partido ao ajuste fiscal são apenas para "marcar posição com o eleitor".
Quando for a hora de votar para valer, acrescenta, ninguém faltará ao governo. É o mesmo princípio que orientou a campanha da reeleição de Dilma: dizer uma coisa para a plateia e, conquistado o objetivo eleitoral, agir em sentido contrário. Só que agora o âmbito é o Congresso, onde no jargão político, "o mais bobo ali voa".

Lula é o que resta de confiabilidade no PT - não para efeito público, mas no contexto das negociações com os demais partidos da base aliada. O que o torna uma espécie de primeiro-ministro no cenário político. Opera para si próprio, mas precisa reconstruir as pontes com os partidos aliados, principalmente o PMDB, para uma candidatura do partido à sucessão de Dilma.

De preferência com ele, Lula. Nas conversas em Brasília com as reais lideranças influentes no Congresso, condicionou sua candidatura - e o sucesso de qualquer outra governista - ao êxito do plano de ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Mas o próprio Lula foi atingido pelo desgaste do PT e sua ação em favor de Dilma Rousseff reconhece que é dele a responsabilidade pela sua eleição e também pelos resultados de seu governo. Não só para o público interno, mas para os eleitores que apostaram na sua afilhada pela segunda vez e já mostram arrependimento.

Sua incursão ostensiva em terreno da coordenação política, com críticas ao trabalho do ministro Aloizio Mercadante, - em quem vê não só insuficiência para o posto, mas também um aspirante à presidência da República -, faz parte da cruzada a que se dispôs, que tem como efeito colateral a exposição dos erros da equipe palaciana até aqui.

Nesse contexto, o coordenador político Mercadante perde espaço para aquele de quem Dilma precisa mais - e que entrou em cena com o pé na porta.

Miriam Leitão - Zona de turbulência

- O Globo

A crise da Petrobras terá um impacto enorme na economia. Já está tendo. Que ninguém culpe a Operação Lava-Jato. Ela é a chance de o Brasil criar um outro ambiente de negócios no país. Os fundos de investimento e os fundos de pensão estão expostos às empresas do setor de óleo e gás e de construção. Bancos terão que fazer provisões, e empresas podem quebrar.

Conversei com empresários que estão avaliando as repercussões da trombada da Petrobras e do caso Lava-Jato na economia. Entrevistei na Globonews dois economistas sobre o assunto. Não há dúvidas de que as consequências serão fortes e já estão criando dilemas complexos. Bancos públicos, como o BNDES, estão fazendo mais exigências para emprestar.

Algumas das empresas citadas ou envolvidas na Lava-Jato já estavam com dificuldades antes, mas agora, sem fornecer para a Petrobras ou tendo dificuldade de empréstimos de capital de giro, podem quebrar.

— Se existe uma coisa que uma empresa de construção não aguenta é ficar sem capital de giro. Obra exige isso. Algumas estão vendendo ativos, mas nem o juiz do Paraná pode dizer hoje quanto tempo tudo isso vai durar. Algumas não vão sobreviver — lembra o economista Cláudio Frischtak, da Inter.B Consultoria.

Frischtak, no entanto, deixa claro que a operação é uma oportunidade:

— Está ocorrendo uma operação Mãos Limpas e ao mesmo tempo há uma nova legislação dura de combate à corrupção corporativa. Nós aprofundamos a investigação ou não? Não temos escolha. A indústria de construção aqui e em outros países é a que mais tem problemas de corrupção. Aqui, houve exacerbação. O momento cria uma oportunidade de haver um outro ambiente de negócios no Brasil com as empresas se comprometendo com um código de conduta duro. O governo, por seu lado, também tem que assumir esse padrão.

O economista Álvaro Bandeira, da Órama Investimentos, acha que o setor de óleo e gás sofrerá um forte baque e prevê demissões em massa, empresas em recuperação judicial e firmas indo embora do Brasil. Acha que, ao final, o país terá ganhos:

— A Petrobras sairá uma nova empresa. Será menor, porque terá que desinvestir para reduzir o endividamento. Agora, terá que ser uma empresa sem loteamento, com gestão e governança profissionais.

Frischtak, no entanto, diz que é preciso deixar algo muito claro:

— A Petrobras não vai quebrar. Se precisar, o Tesouro fará capitalização, mas é preciso que muita coisa boa aconteça dentro da companhia para ela voltar a ser uma opção de investimento. O governo não pode mais errar. Houve uma sequência de erros inacreditável na empresa, como investimentos errados. O governo disse para a companhia: invista nisso que eu quero, eu vou controlar seus preços arrebentando seu caixa e você se endivide. Não há santo que aguente.

A solução, segundo Frischtak, é o governo ficar minoritário no conselho, como acontece em muitas estatais do mundo do petróleo que têm administração profissional.

No mercado financeiro, segundo Álvaro, o impacto será nos fundos de derivativos de antecipação de receitas, ou de certificados de direitos imobiliários, nos fundos de ação da Petrobras, das empresas envolvidas e dos vários parceiros.

— Ativos serão depreciados e terão que fazer marcação a mercado e assumir perdas — prevê Bandeira.

Nada disso é provocado pela Operação Lava-Jato. No máximo se pode dizer que ela precipitou uma situação que veio sendo criada em duas frentes. Intervenções dos governos petistas na Petrobras que a levaram ao alto endividamento, com um caixa amarrado pelos preços defasados. E pela corrupção, em si, que se ramificou pelos negócios da empresa. O rebaixamento cria um problema a mais, que pode ser quantificado.

— No mercado de empresas de grau de investimento circulam US$ 15 trilhões, e no mercado de empresas de grau especulativo circulam de US$ 1,5 trilhão a US$ 2 trilhões. A Petrobras está saindo desse primeiro mercado de crédito para o segundo, muito mais restrito e mais caro — disse Álvaro Bandeira.

Há empresas líquidas e fortes, a Petrobras continua com todos os méritos e ativos que tem. Elas passarão pela turbulência, mas, como disse Frischtak, o governo não pode mais errar.

Celso Ming - A briga pelo bolo

– O Estado de S. Paulo

A briga pela apropriação das fatias do bolo produtivo é normal em toda sociedade. Mas, neste momento vivido pelo Brasil, ela se acirra e tende a empurrar o governo para práticas pouco racionais.

Quando a economia cresce e, com ela, quando cresce a renda, a distribuição do bolo fica mais fácil, mesmo quando alguns poucos se apropriam de fatias maiores do que as dos outros. Mas quando a economia encolhe e o bolo encolhe junto com ela, a distribuição fica bem mais complicada. As pessoas não entendem por que recebem menos ou, então, por que o salário acaba antes do fim do mês e a briga fica mais feroz.

A greve dos caminhoneiros é um desses conflitos distributivos carregados de irracionalidade. Até agora não ficou claro o que pretendem eles. Claro, querem fretes mais altos, pedágios mais baixos, diesel mais barato, juros mais camaradas nos financiamentos para compra de caminhões… e por aí vai. Só que o frete tem de ser negociado caso a caso com o dono da mercadoria carregada. O governo não tem como meter sua colher nesse trato que não lhe cabe.

Talvez se possa conseguir um pedágio mais baixo, como no caso dos caminhões vazios ou dos eixos não utilizados na rodagem, mas não é corte de custos que refresque a vida do caminhoneiro. Dos combustíveis, sim, poderia ser exigida uma derrubada de preços de pelo menos 40%, porque a cotação do petróleo permite isso.

No entanto, depois das lambanças feitas na Petrobrás, o governo está concentrado agora na recuperação do caixa da empresa. Porém, os negociadores dos caminhoneiros (que aparentemente não têm liderança) aceitaram a promessa feita pela Petrobrás de que o diesel não será reajustado para cima nos próximos seis meses, como se essa fosse uma solução.

A impaciência a cada parada de trem ou de metrô em São Paulo, as manifestações gratuitas quase sempre sem proposta, os quebra-quebras que acontecem do nada – tudo isso irradia insatisfação com a vida cada vez mais dura, com o dinheiro curto e as promessas não cumpridas pelo governo.

Ao longo dos últimos anos, o consumidor foi empurrado para o endividamento, para a compra de casa própria, do carro e de aparelhos domésticos tudo com redução de impostos. Agora, enfrenta três comedores de salário. O primeiro deles é a inflação que corrói o poder aquisitivo; o segundo é o juro escorchante; e o terceiro é o início do aperto da oferta de emprego e, com ele, a necessidade de aceitar um salário mais baixo. Numa economia com alta rotatividade da mão de obra, esse último fator tem relevância e vai pesar cada vez mais.

O governo Dilma parece ter assumido a necessidade de virar esse jogo. Durante a campanha eleitoral, prometeu festa e vida boa. Está acontecendo o contrário. A frustração é a consequência natural dessas falsas promessas.

Agora é hora de reconhecer que é preciso apertar os cintos e aguentar mais sacrifícios. E, principalmente, de acenar com novo horizonte que justifique a temporada de privações.

Falta saber se, entalada em suas ambiguidades, a presidente Dilma conseguirá liderar a travessia do Brasil nesta temporada de crise.

Poder diáfano – Editorial / Folha de S. Paulo

• Deterioração do poder da presidente Dilma Rousseff se reflete na sutil coreografia do programa televisivo apresentado pelo PMDB

Com sua popularidade corroída, não apenas por causa dos escândalos na Petrobras, mas também devido aos sinais negativos na economia, a presidente Dilma Rousseff (PT) parece ter optado pela estratégia menos arriscada --que é, igualmente, a menos produtiva.

Praticamente desaparece de cena. Entrega a seu ministro da Fazenda o peso maior da responsabilidade pelos duríssimos ajustes em curso. Quanto à responsabilidade pelas negociatas na estatal petrolífera, Dilma a joga, de modo patético, sobre o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Enquanto isso, assiste, sem reação coerente ou iniciativa clara, a uma sequência de derrotas no Legislativo, que não parece nem perto de interromper a investida.

A atitude produz a sensação de vazio de poder no centro do Executivo; sintoma disso, e nada banal, foi o programa televisivo apresentado pelo PMDB na quinta-feira (26). Era possível identificar nas entrelinhas duas vertentes de significado na bem cuidada apresentação.

"Bem cuidada" porque soube realizar proezas de fotogenia ao enfocar, de modo quase exclusivo, o rosto impávido, o olhar supostamente franco, o sorriso bem dosado dos personagens chamados a depor no horário obrigatório.

Começando pelo vice-presidente da República, Michel Temer, seguiram-se figuras que ocupam cargos ministeriais, além do atual presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

As alocuções se caracterizaram por um ponto comum e por um subtexto contraditório com o que era apresentado à primeira vista.

Houve, inicialmente, preocupação em demonstrar fidelidade ao processo democrático e a Dilma Rousseff. Repetiu-se a ideia de que escolhas foram feitas, cabendo agora ao PMDB pôr em prática seus planos para a pesca, o turismo, a energia ou a agricultura.

Mas o envoltório governista dessa entrada em cena (e não por acaso o cenário do programa imitava um palco de teatro) admitia espaço para interpretações diversas.

O nome da presidente da República jamais foi pronunciado no programa. Mais que isso, Temer e seus correligionários assumiam a atitude de quem se sente no comando do Estado; uma tomada de posse televisiva, por assim dizer, ainda que só nos quadros relativamente modestos dos ministérios.

Consequência natural, e indisfarçável nos sintomas visuais e cênicos do programa, da retirada de protagonismo a que se vem conformando a presidente Dilma Rousseff. Assiste-se à coreografia: o PMDB a desenvolve habilmente, enquanto o Planalto parece, cada vez mais, inseguro do terreno.

O isolamento de Dilma – Editorial / O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff chega ao fim do segundo mês de seu novo mandato enfraquecida, desacreditada e, pior, criticada até mesmo por seus companheiros de partido, em razão do isolamento que se impôs ao se afastar das lideranças do PT e do principal partido de sua base de sustentação no Congresso, o PMDB. Ela, exclusivamente, é responsável por tudo isso. Incapaz, desde a confirmação de sua vitória eleitoral no ano passado, de qualquer gesto que apontasse na direção de um entendimento ou aproximação com os diferentes setores da sociedade, inclusive os que a ela se opuseram nas eleições - afinal, ela não é a presidente só de seus eleitores -, desperdiçou inteiramente o período de confiança de que costumam desfrutar governantes em início de mandato.

Por ação ou inação, fez seu prestígio popular despencar para níveis sem precedentes. Mais da metade da população entende que a chefe do governo é "desonesta" e "falsa", de acordo com recente pesquisa do Datafolha. A vertiginosa queda de popularidade da presidente tornou-se assunto internacional. Publicações conceituadas como Time, Financial Times e The Economist estendem-se em críticas acerbas à situação econômica do País e à maneira como ela é conduzida por Dilma. Em sua última edição para a América Latina, The Economist traz na capa a irônica imagem de uma passista de escola de samba que se afunda num lodaçal verde, sob o título Atoleiro do Brasil.

A crise em que o País está mergulhado revela ao mundo o furo n'água que resultou da decisão solitária de Luiz Inácio Lula da Silva de inventar uma sucessora que apresentou aos brasileiros em 2010 como gestora pública eficientíssima, a prodigiosa "mãe do PAC". É o que se observa também na São Paulo administrada por outro "poste" inventado por Lula.

Segundo o discurso orquestrado por Lula, o PT e Dilma são apenas "vítimas" de uma conspiração de direita por meio da qual "eles" se dedicam a "criminalizar" - é o termo da moda no lulopetismo - as conquistas sociais que tiraram a população brasileira da miséria.

Na vida real, porém, Dilma passou os quatro anos do primeiro mandato acumulando erros que compõem o amplo e bizarro panorama do que se pode chamar de "estilo Dilma de governar", caracterizado pela soberba de uma militante sectária que, por acreditar que sabe tudo, não ouve ninguém.

Dilma assumiu a chefia do governo em 2011 sentindo-se toda poderosa e disposta a corrigir as distorções liberais admitidas por seu antecessor. Mas escolheu o pior momento para isso, quando a economia globalizada enfrentava as consequências da crise de 2009 e já não oferecia as mesmas perspectivas favoráveis nas quais Lula surfara tranquilamente. Partindo do princípio de que o governo pode tudo, inclusive gastar o que não tem, Dilma se dedicou a desconstruir os fundamentos da estabilidade econômica herdados do governo Fernando Henrique e mantidos por seu antecessor, para obter importantes conquistas nas áreas social e econômica.

No campo político, Dilma se dispôs à elogiável iniciativa de deixar sua marca de austeridade: promoveu "faxina" no governo, com a demissão de ministros envolvidos em malfeitos de toda natureza. Foi com sede demais ao pote. Lula, que indicara quase todos os demitidos, teve de explicar à pupila que a coisa "não é bem assim" e os "danos políticos", provocados pela incapacidade política da presidente de aliar meios adequados a fins meritórios, foram logo reparados.

Os indícios mais ostensivos da insatisfação popular, não necessariamente com Dilma, mas com a situação do País, surgiram nas manifestações de rua de junho de 2013, que rapidamente se tornaram uma ampla pauta de reivindicações. Assustada, como todos, Dilma reagiu fazendo o mais fácil: promessas. Prometeu de tudo, até um improvável plebiscito para tratar de reformas políticas.

Em 2014, deixou em segundo plano a deteriorada situação econômica para se dedicar ao projeto reeleitoral. E, como de hábito, prometeu o que podia e não podia, inclusive que jamais tocaria nos "direitos dos trabalhadores". Mentiu, como teve de admitir depois, não por palavras, mas por atos.

Poucos meses depois de reeleita com a ajuda de um marketing eleitoral competente, mas inescrupuloso, Dilma corre o risco de transformar-se em um fantasma político. Por sua culpa.

Bernardo Mello Franco - Rio, 450

- Folha de S. Paulo

Fundado em 1565 entre os morros Pão de Açúcar e Cara de Cão, como se aprende em suas escolas, o Rio de Janeiro completa 450 anos bem distante da imagem idealizada nas comemorações oficiais.

Os cariocas foram abençoados com o mais belo cenário natural do mundo. Em contrapartida, enfrentam o empenho de sucessivos governantes para destruí-lo, em parceria com a especulação imobiliária.

O resultado é uma megacidade de seis milhões de habitantes estrangulada pela falta de planejamento e condenada ao descaso com a natureza e o patrimônio histórico.

O jornalista Millôr Fernandes se referia ao Rio como "antiga cidade brasileira, hoje desaparecida". Era um exagero, mas resumia bem a opção por crescer apagando o passado.

O Rio foi capital da colônia, do Império e da República entre 1763 e 1960. Com tanta história para preservar, preferiu a destruição --por sorte, o Pão de Açúcar e o Corcovado resistiram à fúria das demolições.

Do primeiro núcleo urbano, o morro do Castelo, só restou a ladeira da Misericórdia, que hoje liga o nada ao lugar nenhum. O resto foi desmontado em 1922 com a desculpa de sempre: abrir espaço para o progresso.

Quase um século depois, os erros se repetem. O prefeito Eduardo Paes anunciou a recuperação da zona portuária, mas não conciliou os interesses das construtoras com um plano eficiente de ocupação residencial.
Agora urbanistas temem que a região fique deserta nos fins de semana. As torres comerciais sobem rapidamente, mas o único projeto de habitação está com as obras paradas.

A Olimpíada de 2016 ofereceu outras oportunidades, mas falta competência --ou interesse-- para aproveitá-las. Na semana passada, o governador Luiz Fernando Pezão admitiu que a despoluição da baía de Guanabara não será concluída. Os gastos começaram em 1994. Depois de vinte e dois anos, os atletas olímpicos correm o risco de velejar sobre o esgoto, entre sofás e pneus à deriva.

Merval Pereira - Rio 450 anos: possibilidades

- O Globo

Nos últimos anos, devido aos grandes eventos esportivos mundiais – com destaque para os Jogos Olímpicos de 2016 - o Rio de Janeiro vem sofrendo uma verdadeira mutação urbana. O volume de investimentos na capital fluminense se multiplicou como nunca. Os últimos dados disponíveis estimam gastos voltados para as Olimpíadas em aproximadamente R$37 bilhões - em obras de infraestrutura, mobilidade e projetos associados diretamente ao evento.

Pontos positivos foram ainda a introdução de processos e técnicas de gestão inéditos na administração municipal – a cultura de desempenho com foco em resultados -, gestão orçamentária eficiente e a elaboração de um planejamento estratégico 2009-2016 não limitado, portanto, a metas de curto prazo.

O mau exemplo da Olimpíada da Grécia em 2004 tem seus contrários na Barcelona de 1992, Sidney de 2000, e Londres de 2012, que, apesar das diferenças no tempo, se estruturaram, aproveitando oportunidades que se reverteram em benefícios de longo de prazo, convergindo com os anseios da população.

A experiência nestes países demonstrou ainda que o ciclo de preparativos para eventos esportivos de grande porte - do plano à realização - dura aproximadamente sete anos, algo que o Rio de Janeiro, acertadamente abraçou, reconhecem os autores do livro “Depois dos Jogos –
Pensando o Rio para o pós 2016”, organizado pelo economista Fabio Giambiagi, ao contrário do que se observou no país quando da realização da Copa - um espetáculo de improvisações.

O capítulo assinado por Giambiagi em parceria com o economista Luiz Crysostomo alerta que o primeiro passo para lograr melhorias é definir ‘que cidade se quer ser e quais dimensões devem ser priorizadas’. Para os autores do capítulo, educação, mobilidade, coesão social e produtividade são temas urgentes a serem pensados. Por fim, olhando para frente, a reinvenção da cidade de acordo com Giambiagi e Crysóstomo, passa por um conjunto de iniciativas como inserir o Rio de Janeiro no calendário mundial de competições esportivas e outros eventos de grande porte; transformação da cidade em centro de pesquisas tecnológicas e de irradiação de startups, aproveitando o fato de abrigar algumas das melhores universidades e centros de pesquisas do país; maior investimento na economia criativa - uma das vocações da cidade - e nos serviços e infraestrutura voltados para o turismo.

Também um estudo da Macroplan, consultoria especializada em planejamento estratégico e cenários futuros, aponta muitas possibilidades para o Rio. Como ponto de partida, a consultoria indica a premência de uma agenda de desenvolvimento econômico alinhada aos novos desafios da economia.

“A relevância da cidade na economia estadual não está vinculada a recuperar as indústrias que perdeu. O Rio possui importantes pólos como o do petróleo e gás, o farmacêutico, o maior parque tecnológico do Brasil, uma expertise em turismo, cultura e demais serviços associados.
Uma agenda indutora de serviços, especialmente os empresariais de mais alto valor agregado, é fundamental para o futuro da cidade. O desafio é atrair e desenvolver estes serviços. É preciso um choque de produtividade e qualidade nos serviços”, destaca o diretor da consultoria, Gustavo Morelli.

Da agenda para construir um futuro promissor para a cidade do Rio de Janeiro mapeado pela Macroplan o estímulo ao empreendedorismo também ocupa lugar de destaque. O Rio de Janeiro tem o dobro da proporção de funcionários públicos e militares de São Paulo, enquanto a proporção de empregadores é 30% menor. Estudo do Banco Mundial indica que entre 22 cidades no mundo, o Rio ocupa a distante 13º posição em facilidade de fazer negócios. “Para se abrir uma empresa no Rio de Janeiro são necessários 54 dias, contra 9 dias, em média, em cidades da OCDE, e 30 na média das cidades da América Latina e Caribe” aponta Morelli.

Outra iniciativa relevante será intensificar os esforços para desenvolver e atrair capital humano de qualidade: boas escolas, universidades, centros de formação profissional. Dois desafios ainda não superados devem ser considerados: a consolidação da política de pacificação nas favelas e a melhoria da mobilidade urbana. O tempo de deslocamento para o trabalho de quem mora na Região Metropolitana do Rio é em média, 51 minutos, mais do que a média de São Paulo, onde o tempo gasto neste deslocamento é de 47 minutos.

As demandas dos municípios que compõem a região metropolitana são evidentes e convergentes quanto a questões econômicas, sociais e ambientais. O nó górdio, segundo a Macroplan, é a integração e articulação das políticas públicas, ainda muito fragmentadas.

João do Rio - ‘Chegada de um estrangeiro ao Rio’

• Em crônica dos anos 1910, autor imagina o espanto de um visitante com as maravilhas e mazelas do dia a dia carioca

- O Globo / Prosa – 28/2/2015

RIO - Um príncipe egípcio com quem me dava em Paris, depois de tê-lo encontrado na curiosa devassidão dos hotéis do Cairo, aprazia-se em contar uma anedota cheia de filosofia.

— O meu amigo Omar-bey, dizia o príncipe, ia por uma estrada quando lhe saltaram à frente: “Já todo o teu dinheiro para aqui! Já! Já ou me obrigarás a fazer o que nunca fiz na minha vida...” Omar-bey deu todo o dinheiro, mas não conteve a curiosidade: “Que ia você fazer, honrado ladrão? Decerto assassinar-me?” “Não, senhor, respondeu o homem, ia trabalhar...”

O príncipe, depois da anedota, prolongava os paradoxos sobre o horrível trabalho. Trabalhar é realmente uma coisa séria para os desocupados, que chegam aos maiores excessos de trabalho para não o fazer. Eu estou numa quadra da vida em que já prefiro não agir, mas seria incapaz de dar a bolsa como Omar-bey ou de atacar um homem, só para não tornar a trabalhar.

Ao contrário. Quando deixei a Europa, uma pequena “vila” de S. Remo, onde a vida é doce e barata, para o repouso de uma febril e atroz peregrinação pela podridão das cidades da Índia, o meu desejo era examinar com olhos de ver uma sociedade que ainda não tivesse sido pintada — “algo nuevo”, um aspecto inédito. Vim para a América do Sul, ciente de que o “algo nuevo”, o aspecto inédito estavam nesse pedaço de planeta, que todos os livros de propaganda não conseguiram deflorar. Para onde iria eu? Comprara uma passagem completa. Podia saltar em qualquer porto ou ir até ao fim. Buenos Aires? Montevidéu? Pernambuco? Bahia? Como o bando transatlântico falava excessivamente de Buenos Aires, logo me desgostei, porque não era meu fim, deixando S. Remo, a horas de Milão e a horas de Paris, para ir contemplar montras de chapéus e elegâncias boulevardières noutro hemisfério. Talvez andasse errado. Entretanto, não saltei em Pernambuco. Fazia imenso calor. O mar estava tremendo. Negros em pirogas esguias pareciam gênios do elemento, com o dorso quase nu e facalhões à cinta. Os passageiros falavam de tubarões. O comandante falava de varíola. Custei mesmo a saltar na Bahia, para não ficar, aliás, não porque aquele estranho panorama, o exotismo das ruas baixas, deixassem de atrair, mas exatamente pelas notícias de epidemia que a bordo fervilhavam.

Foi a Bahia que me decidiu a ficar no Rio. O transatlântico chegava à noite, uma escura noite cor de tinta. Em volta ao paquete o movimento de embarcações, entre gritos, silvos e ordens sopradas em porta-voz, dava a ilusão pouco tranquila de uma abordagem de piratas amáveis. A invasão das dependências de bordo por cavalheiros gritadores, a maioria com um olhar infantil, quase todos com anéis nos dedos, alargava essa impressão num sorriso de curiosidade.

As autoridades e o serviço imprevisto dos funcionários da polícia vincavam na alma do mais indiferente a necessidade de descer. O viajante tem uma ficha da civilização do porto em que para pelo aspecto da autoridade primeira. É definitivo. O homenzinho que tomava conta de uma das escadas, fumando um charuto, suando, dando ordens e lastimando-se amavelmente do seu imenso trabalho — o que não o impedia de prestar vários favores aos passageiros, um dos quais e principal era desembarcar — parecia um ministro. Era o ministro da segurança ou da alfândega. Tamanha autoridade, cujo grau até hoje ignoro, não deixava de despedir os viajantes estendendo-lhes a mão. De cinco em cinco minutos, fazia exclamações apelando para os jornais, para a imprensa, que certo ainda não lhe fizera inteira justiça.

— E os jornais, bradava ele, não veem isso!

— Isso o quê? interroguei um negociante de vinhos portugueses, possuidor de um tremendo ventre e de um imenso patriotismo duplo luso-brasileiro.

— Ora, o imenso trabalho dele, a falta de pessoal.

— Mas que tem a imprensa com isso?

— A imprensa tem com tudo. Vou cumprimentá-lo a ver se passo agora as minhas malas.

Era bem um tipo de brasileiro aquele funcionário com a sua fanfarronice, a ausência democrática de respeito pelas posições, a leviandade, o amor ao barulho?

Não sabia. Mas como um guarda barbudo no Tejo dera-me uma impressão de melancolia, esse deu-me a sensação de um país de sarabanda, pitoresco à farta, onde se poderia estudar algo como a composição de uma raça nova.

Saltei com as malas às 9 horas da noite para uma lancha de que até hoje ignoro o verdadeiro dono. Por que ia eu ali? Por acaso. Quis ver qual era o dono para agradecer e pedir desculpa. Mas todos pareciam legítimos donos. Fui amável com todos. Ao chegarmos ao cais não nos conhecíamos. Quase perdi a minha valise. Um homem meio nu, de camisola de meia, descalço, calça arregaçada, mostrando a tíbia potente e cabeluda entre o povo de ociosos e de viajantes, arrebatara-a.

— Para onde vamos, patrão?

— Espere, deixe vir o resto da bagagem.

Outros nédios, bem dispostos e tão nus como o primeiro, insistiam para que eu tomasse um bote. Olhei, na semipenumbra, o desdobramento dos squares, a linha dos carros de praça e os meus olhos viram, ao lado de automóveis, uma espécie de condução que até aquele momento só tinham visto em gravuras cantando os feitos do dândi d’Orsay, em Londres, ou as elegâncias de Paris, em 1854. Os meus olhos viram os tílburis.

Acerquei-me de um. O cocheiro tinha uma bota descalça. Agitou-se entre a bota, as rédeas e o chicote alguns segundos.

— Para onde vamos, V. senhoria?

— Internacional, Santa Thereza, disse eu com a adresse que recebera a bordo.

— Ah! isso é lá em cima. O burro não sobe. Vou levá-lo à estação dos bondes.

— É muito longe? fiz com o vago receio do viajante solitário.

— Uma hora de viagem. É bonito.

— E outros hotéis por aqui perto?

— O Avenida! V. Ex.a fica bem...

O melhor para quem chega a uma cidade é morar, a princípio, num ponto bem central. Sempre fiz assim em Benares, como em Tóquio, em Nova York, como em Berlim. Acedi... O carro, cheirando mal, partiu. Devia datar de 1854, pelo menos. Era um tílburi saído de uma exposição retrospectiva de carruagens.


Curiosamente olhava as ruas, que me pareciam novas em folha, colocadas entre velhas vielas. Não demorou muito que meus olhos dessem num bulevar iluminado como para uma festa. Era a Avenida Central. Estava quase deserta, e os transeuntes, deixando as calçadas, andavam pelo meio da rua, calmos e tristes, forçando o tilbureiro a assobios, toques de buzina — porque esse tílburi tinha uma de automóvel — e a um som soprado entredentes, que jamais ouvira, e que só é possível grafar exatamente assim: “psssiu...” O som parecia um apelo, porque os transeuntes voltavam-se.

A viagem foi de minutos. Estávamos defronte do hotel, de excelente aparência americana. Apenas ninguém veio receber-me no movimento dos bondes e do povo.

Saltei, dei com uma porção de pequenos negócios, desde o engraxate ao vendedor de frutas, com as frutas expostas ao ar. Uma orquestra ambulante batia um pedaço de ópera. Vendedores de jornais gritavam. A iluminação era a de um dia.

Afinal, descobri a porta do hotel. Tinha um porteiro sentado, com um anel de brilhantes e bigodes torcidos.

— Deseja?

— Um quarto.

— Faz obséquio de subir.

Eu olhava a gaiola do ascensor imóvel. O porteiro informou:

— Não funciona. Quebrou a mola agorinha. Amanhã consertam.

Subi. No primeiro andar, dei numa peça que me parecia escritório, mas onde alguns senhores comodamente sentados, olharam para a minha pessoa, com evidente indiferença.

— Era possível um quarto?

— Ah! quer um cômodo? Em que andar?

— O melhor, quero o melhor quarto.

— Está ocupado.

— Então o que fica sendo o melhor vazio.


Tivemos que subir o segundo pavimento. Deram-me um imenso quarto, quase tão nu como os carregadores do cais. Havia uma cama perdida, um lavatório, um guarda-roupa, duas cadeiras, uma pequena mesa. Mais nada. O criado mostrava uma falta de interesse comovedora. Parecia estar a fazer-me um enorme favor, com pouca vontade, aliás. Devia ser rico. Como o porteiro, como os gerentes, como o funcionário da polícia, como o tilbureiro, como toda a gente. Lembrei-me do tilbureiro que ficara à espera.

Ah! mande subir as malas e pergunte ao tilbureiro quanto devo.

O criado desceu. Cheguei à janela e os meus olhos dominaram um espetáculo magnífico, a fulguração da Avenida. Aquela rua era uma apoteose permanente e era um símbolo. Mesmo não conhecendo o país, os costumes, a sua vida, sentia-se como um gigante criança que de súbito deixasse a selvageria e o berço das tradições para lançar-se como um desafio à corrente geral da civilização. O que eu vira era tão curioso que me deu vontade de sair logo, de circular, de sentir o caráter da cidade. Lavei o rosto e as mãos, esperando as malas. Penteei-me esperando o criado. Voltei à janela, olhei o esplendor, esperando ainda. Por fim toquei a campainha. Uma, duas, três vezes. Abri a porta raivoso. Dois homens tão nus como os catraieiros e o quarto traziam as malas.

— Enfim!

— Ah! Subir com tudo isso...

— Bom, entrem.

— O tílburi custou cinco mil réis. Os carregadores pedem três para trazer as malas.

— Hein?

Eu pagava quase doze francos por aquilo que devia no máximo custar uns três. Estava realmente no país dos milionários. Paguei. Não tinha remédio. E tornei a descer, meti-me na rua a circular. Estava na capital de que se começa a falar, no novo, no novo de ontem para os europeus como eu.

Apanharia a sua verdadeira feição, conseguiria dar a impressão exata dessa cidade, desse país, desse momento? Dobrei a primeira rua, a pé. Ninguém sabe a confusa mistura de sentimentos de um viajante ao aportar a uma cidade... Quando voltei ao hotel, eram três da manhã. Cheguei ainda à janela. A Avenida era um deserto com a mesma iluminação de apoteose. Lembrava um salão de baile, à espera dos convidados. Os convidados não faltariam porque as primeiras levas já deviam estar na sala de espera. E eu que não perdera o gozo de trabalhar sentia que estaria em breve vendo o trabalho de eclosão de uma terra nova para o progresso...

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*Crônica publicada no livro “Os dias passam...” (1912), de João do Rio, reeditado agora pela primeira vez na série Cadernos da Biblioteca Nacional.

Tim Maia - Rio de Janeiro - Aquele abraço (Gilberto Gil)

Manuel Bandeira - Louvação à cidade do Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro
– Bravo São Sebastião –
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão.
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
Grande Rio de Janeiro !

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos ! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)