terça-feira, 23 de junho de 2015

Lula diz que PT está 'velho' e 'só pensa em cargo'

Ricardo Galhardo e José Roberto Castro - O Estado de S. Paulo

• Para ex-presidente, PT está velho, viciado em poder, apegado a empregos e vitórias eleitorais e perdeu capacidade de gerar sonhos

SÃO PAULO - Menos de dez dias depois de o PT realizar seu 5.º Congresso Nacional, em Salvador, onde decidiu manter o status quo partidário frustrando os setores que esperavam por mudanças radicais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma das mais duras críticas públicas à legenda que ajudou a fundar há 35 anos e o levou ao poder nacional.

Em palestra ao lado do ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe Gonzalez, Lula disse que o PT está velho, viciado em poder, apegado a cargos, empregos e vitórias eleitorais, perdeu sua capacidade de gerar sonhos e utopias, não mobiliza mais as multidões, a não ser em troca de dinheiro, se afastou perigosamente da juventude e hoje está diante de uma encruzilhada. “Temos que definir se queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos ou se queremos salvar o nosso projeto”, disse Lula.

O ex-presidente comparou as origens do PT ao Podemos, movimento nascido nas manifestações de rua que elegeu neste ano as prefeitas de Madri e Barcelona, desbancando o centenário PSOE na preferência do eleitorado de esquerda espanhol. “É mais ou menos que nem o PT quando ganhou Diadema em 1982”, comparou Lula, antes de defender uma “revolução interna” que permita ao PT abrir espaços para a participação da juventude que foi às ruas em 2013.

No Congresso do PT encerrado dia 13, na Bahia, diversos setores encaminharam propostas de mudanças expressivas nas práticas partidárias, entre elas o rompimento da coligação com o PMDB em troca de uma aliança popular com movimentos de rua e a sociedade organizada. No final a corrente integrada por Lula atropelou os descontentes e aprovou um documento final considerado tímido pelos petistas que cobravam mudanças capazes de tirar o PT do “volume morto”, na expressão do próprio ex-presidente.

Nesta segunda-feira, 22, Lula cobrou publicamente uma mudança efetiva criticando a estrutura do partido. “Não sei se o defeito é nosso, se o defeito é do governo. Mas eu acho que o PT perdeu um pouco a utopia. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego em ser eleito. Ninguém hoje trabalha mais de graça”, afirmou.

De acordo com Lula, o PT perdeu a capacidade de mobilização e hoje depende da estrutura dos mandatos parlamentares para levar gente às ruas. “Hoje se os candidatos não liberarem as pessoas dos gabinetes deles ninguém vai porque as pessoas só querem ir ganhando. Isso é um vício de um partido que cresceu e chegou ao poder”, disse.

Segundo o ex-presidente, aos 35 anos o PT já demonstra fadiga e precisa urgentemente de sangue novo.

“O PT está velho. Eu que tenho 69 já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que falava em 1980, fico pensando se não está hora de a gente fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna, colocar gente nova, gente que pensa diferente”.

A fala de Lula foi recebida com palmas pela plateia formada por dirigentes petistas, os ministros Juca Ferreira (Cultura) e Renato Janine Ribeiro (Educação) e integrantes de movimentos sociais tradicionais (Movimento dos Sem Terra) e recentes (Levante Popular da Juventude e Fora do Eixo).

Venezuela. Parte da plateia cobrou Gonzalez por sua aproximação com setores da oposição ao governo Nicolás Maduro, na Venezuela. O espanhol causou surpresa ao enfrentar as críticas e separar o governo chavista dos demais regimes de esquerda do continente. “A Venezuela é um modelo diferente. Fico assustado quando dizem que é a mesma coisa. Se não estivermos convictos disso, estamos no caminho errado”, disse ele.

Depois das discordâncias, o espanhol demonstrou solidariedade apontando os riscos de um “comando formado por jornalistas, juízes e procuradores dispostos a tudo que pode acabar com qualquer governo”.

Saddam e Kadafi. Já Lula preferiu destacar as encruzilhadas da democracia mundial seguindo por um caminho tortuoso, no qual chegou a citar o ditador líbio Muamar Kadafi, assassinado em 2011. “A morte do Kadafi é uma daquelas coisas que não têm explicação para a democracia. Porque a Líbia estava quieta, não incomodava ninguém. O Iraque tinha o Saddam Hussein. Por acaso o Saddam alguma vez causou algum problema? Para mim nunca criou problema. Ele estava lá acreditando nas mentiras dele quando os americanos inventaram que era preciso invadir o Iraque”, disse.

Segundo o ex-presidente, o Foro de São Paulo foi criado em 1990 para “educar a esquerda latino-americana a praticar a democracia”

Para dissidentes, ex-presidente tem culpa na atual crise da sigla

• Luiza Erundina e Ivan Valente, que deixaram o partido, apontam erros de Lula na condução do PT; tucanos fazem críticas

Pedro Venceslau – O Estado de S. Paulo

Para fundadores do PT que deixaram a legenda e petistas insatisfeitos com os rumos do governo da presidente Dilma Rousseff, o ex-presidente Luiz Iná- cio Lula da Silva tentou se eximir da crise vivida pela sigla em sua intervenção, feita ontem em tom de desabafo durante uma palestra em seu instituto.

“Não dá para ele se isentar e jogar toda a culpa no PT. Lula ainda é a principal liderança e foi o principal condutor desse processo, desde a origem até hoje”, afirma a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP).

Uma das primeiras prefeitas de capitais eleitas pelo partido em 1988, quando venceu a disputa em São Paulo, Erundina deixou o partido em 1997 depois de um longo processo de desgaste interno por ter aceitado um cargo no primeiro escalão do governo Itamar Franco.

Para a deputada, ao afirmar que e o PT “perdeu um pouco a utopia” e que os petistas “só pensam em cargo”, Lula está refletindo um quadro grave vivido pelo País. “A fala dele foi um sintoma da falência do PT. E esse sintoma chega para mim com muito mais contundência”, concluiu a ex-prefeita.

Também integrante da primeira geração de dirigentes políticos do Partido dos Trabalhadores, o deputado Ivan Valente, hoje no PSOL, faz a mesma leitura.“Esse é um discurso para consumo interno no partido, mas o Lula não pode se eximir da responsabilidade pelo PT estar vivendo essa crise monumental.

O partido rebaixou o seu programa por orientação dele”, diz. O parlamentar também comentou a reclamação do ex-presidente sobre a redução drástica da militância espontânea petista que marcou a sigla antes da chegada ao poder.

“O maior responsável por tirar do PT o caráter da contribuição militante foi o próprio Lula. Foi ele quem implantou a lógica de ganhar eleição a qualquer custo”, conclui Valente.

Correlação de forças. Integrante da segunda maior corrente interna do PT, a Mensagem ao Partido,e membro do diretório nacional da sigla, o deputado Paulo Teixeira (SP) faz outra leitura das recentes autocríticas de Lula.“Há um sentimento de mudança no partido. A correlação de forças internas já mudou. A fala do ex-presidente converge para isso.

Teixeira se refere à redução da influência do chamado grupo majoritário que comanda o PT desde sua fundação e o consequente fortalecimento de correntes mais à esquerda no espectro partidário.

Já o senador Paulo Paim (RS) avalia que o discurso do ex-presidente corroborou um fenômeno que vem ocorrendo no partido desde a chegada ao poder central em 2003. “É lamentável que alguns setores do PT tenham se encantado com o poder. Tem gente com mais de 100cargosindicados”,diz o parlamentar. Paim deve mudar de sigla até o fim deste ano. Ainda segundo o senador, Lula “assumiu a responsabilidade” pela crise petista com seu discurso.

Tucanos. Os discursos recentes de Lula serviram de munição para os tucanos reforçarem a artilharia contra o PT. Para o senador Cássio Cunha Lima, líder tucano no Senado, o ex-presidente fez um “reconhecimento” tardio das mazelas petistas. Vice-presidente nacional do PSDB, o ex-governador de São Paulo Alberto Goldman vai além. “O Lula é realista e pragmático. Ele vê um quadro desastroso para o partido. ”Presidente do DEM, o senador José Agripino diz que as falas do ex-presidente são “o reconhecimento da falência do PT.

Lula diz que PT só pensa em cargos: petistas não reagem

• ‘A gente acreditava em sonhos, hoje a gente só pensa em emprego’

'A gente só pensa em cargo'

Julianna Granjeia, Tatiana Farah e Fernanda Krakovics – O Globo

• Depois de criticar Dilma, ex-presidente Lula diz que o partido que fundou envelheceu
Integrantes do partido, que evitaram rebater publicamente as declarações, apostam que o ex- presidente tenta se descolar da presidente Dilma, que ficou irritada com as críticas, segundo relato de um ministro

Após criticar a presidente Dilma e o PT num encontro fechado com religiosos, o ex- presidente Lula atacou publicamente o partido em seminário organizado por seu instituto, em São Paulo, com a presença do ex- primeiro ministro espanhol Felipe González. “A gente acreditava em sonhos. Hoje a gente só pensa em cargo, em emprego”, disse. Lula afirmou que o partido “perdeu a utopia”: “O PT está velho. Já estou com 69. Já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que falava em 1980.” Segundo um ministro, a declaração de que ele e Dilma já estão “no volume morto” e que o PT está abaixo do “volume morto” chateou a presidente. Alguns petistas, que só comentaram sob anonimato, acham que Lula tenta se descolar de Dilma. 

SÃO PAULO e BRASÍLIA- Quatro dias depois de criticar abertamente a presidente Dilma Rousseff e o governo numa reunião com religiosos católicos, o ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou as baterias ontem para o PT, em uma nova autocrítica bastante contundente. Para Lula, o partido que fundou há 35 anos “está velho”, sem projeto e paralisado pela burocracia porque “só pensa em cargos”. A avaliação foi feita durante debate promovido pelo Instituto Lula, em São Paulo, com o ex- presidente de governo espanhol Felipe González. Para o petista, o PT “perdeu um pouco a utopia”.

O partido não reagiu diante das declarações. O presidente da legenda, Rui Falcão, que estava no mesmo debate, não quis falar com a imprensa na saída. Dirigentes petistas ouvidos ontem pelo GLOBO dizem que o ex- presidente tem mostrado insatisfação nos últimos meses tanto com a acomodação da legenda quanto com o desempenho de Dilma no segundo mandato. O tom, no entanto, tem subido a cada desabafo.

— Eu lembro como é que a gente acreditava nos sonhos, como a gente chorava quando a gente mesmo falava, tal era a crença. Hoje, precisamos construir isso, porque hoje a gente só pensa em cargo, a gente só pensa em emprego, a gente só pensa em ser eleito, e ninguém hoje mais trabalha de graça — disse Lula ontem.

O ex- presidente disse estar “cansado” e falou que o partido precisa se renovar com pessoas mais jovens e “mais ousadas, com mais coragem”.

— O PT está velho. Eu, que sou a figura proeminente do PT, já estou com 69 ( anos), já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980. Fico pensando se não está na hora de fazer uma revolução neste partido, uma revolução interna — disse o expresidente, e completou: — Temos que decidir se nós queremos salvar a nossa pele e os nossos cargos, ou se queremos salvar nosso projeto.

Desabafos preocupam o partido
Na quinta- feira, conforme O GLOBO revelou, Lula disse a religiosos católicos, em um encontro no seu instituto, que é um “sacrifício” convencer Dilma a viajar pelo país e defender o projeto petista. 

Ele afirmou que, em relação à popularidade, ele e ela estão no “volume morto”, enquanto o PT está “abaixo do volume morto”. Ontem, ele concentrou no partido a sua insatisfação.

A escalada de desabafos de Lula tem preocupado o partido. Dirigentes ouvidos pelo GLOBO, que preferiram não se manifestar publicamente, disseram que o diagnóstico de Lula é certeiro, mas o vazamento das críticas, sobretupartido. do contra Dilma, no momento em que a presidente amarga a sua pior avaliação, serve para dar munição à oposição e aumentar o fosso entre a presidente e o partido. A interlocutores, Lula diz que nenhuma dessas críticas é novidade para Dilma, já que ele não esconde sua posição quando os dois se reúnem, de forma privada, em São Paulo.

As reclamações sobre Dilma, principalmente em relação às medidas que afetam direitos trabalhistas, são endossadas por dirigentes da sigla. No entanto, o congresso do PT, há menos de duas semanas em Salvador, eliminou do documento final até mesmo a expressão “ajuste fiscal”.

Para alguns petistas, essa narrativa pode ser um ensaio de Lula para iniciar um descolamento de Dilma. Já um dirigente diz que eles são inseparáveis como “a corda e a caçamba”. Em outra frente, as críticas de Lula encontraram ressonância em alas do PT que fazem esse debate interno desde as manifestações de junho de 2013. O problema é que, na instância do partido em que essas questões deveriam ser discutidas, Lula não foi por esse caminho.

— Eu acho que ele está certo. Isso já vem sendo discutido principalmente no âmbito das redes sociais, área que eu coordeno. A militância vem criticando o excesso de burocratização e de institucionalização do Ele está vocalizando a militância. Há crítica muito grande à acomodação dos petistas. O partido precisa voltar- se mais para a juventude — disse um dos vicepresidentes do PT, Alberto Cantalice.

Para o deputado Paulo Teixeira ( PTSP), um dos líderes do grupo Mensagem ao Partido, o teor da fala de Lula é o mesmo de uma carta divulgada recentemente por 35 parlamentares, mais da metade da bancada, que pedia a renovação da legenda, inclusive com novas eleições internas. A carta foi rejeitada pela maioria do último congresso do PT, cuja corrente interna mais numerosa, a Construindo um Novo Brasil ( CNB), é a de Lula.

— A gente esperava que o congresso decidisse por aí, mas decidiu por nada — reclamou o deputado.

Novas críticas à imprensa
Ao lado de González, Lula também voltou a reclamar da imprensa e acusou veículos de “fazer oposição pelo editorial”.

— Aqui no Brasil nós reclamamos muito da mídia. A oposição é a imprensa. Em alguns jornais, eles fazem oposição pelo editorial. Ao invés de brigar com isso, temos de saber usar melhor a internet, as redes sociais — disse Lula, que defendeu mais uma vez a regulação da mídia.

Gestão petista está próxima ao fundo do poço, diz Cunha

Elizabeth Lopes - O Estado de S. Paulo

• Presidente da Câmara quer descolar PMDB do desgaste do governo

SÃO PAULO – O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou que o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) está vivendo um processo de desgaste que talvez já tenha colocado a gestão petista próxima ao fundo do poço. “O governo (Dilma) está chegando a um nível de patamar próximo ao fundo do poço, portanto, não tem muito onde cair mais”, disse Cunha, ao chegar para um evento com investidores em São Paulo, na noite desta segunda-feira,

Ao comentar o baixo índice de aprovação do governo petista, segundo pesquisa Datafolha deste final de semana, o presidente da Câmara disse que o fato de seu partido, o PMDB, ser o principal aliado da gestão Dilma Rouseff não significa que eles terão um projeto eleitoral conjunto no futuro. “Não quer dizer que todo desgaste do governo seja nosso também. A responsabilidade de governar é do PT e não nossa.”

Apesar da avaliação de que o desgaste é do governo petista e não do PMDB, Cunha admitiu que quando se está caminhando junto, pode ocorrer algum desgaste.

Na avaliação de Cunha, pesa contra o governo também o fato de a economia estar deteriorada e estar implementando medidas que não foram debatidas na campanha eleitoral. “Houve um desgaste amplificado pela deterioração da situação econômica”, disse, citando como exemplo a elevada inflação e o baixo desempenho da economia, além do ajuste fiscal.

Além de eximir o seu partido, Cunha procurou também defender o parlamento, dizendo que o Congresso está fazendo a sua parte no esforço de recolocar o País na rota do crescimento, com a votação do pacote fiscal. “Não estamos deixando de votar nenhuma medida do governo, estamos fazendo a nossa parte.”

Para o presidente da Câmara, cabe agora ao governo fazer a sua parte, implantando uma agenda positiva e dizendo ao País o que irá fazer após o ajuste fiscal, na mesma linha das críticas que vem sendo feitas pelo ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva.

Aécio diz que Lula tem responsabilidade e não pode descolar de ‘sua criatura’ Dilma

• Para ele, TCU deve rejeitar contas da presidente, abrindo caminho para uma ação do Ministério Público

Cristiane Jungnlut – O Globo

BRASÍLIA — O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), disse nesta segunda-feira que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pode se "descolar" da presidente Dilma Rousseff. O tucano argumentou que Lula não pode fugir à sua responsabilidade pela situação atual ao usar como estratégia os ataques à sua sucessora. Aécio disse que Dilma é "criatura" de Lula e que é um "acinte" o governo continuar adotando as chamadas pedaladas fiscais depois do parecer prévio do Tribunal de Conats da União (TCU). Para ele, o governo Dilma está "sitiado".

No sábado, O GLOBO informou que o ex-presidente, em tom de desabafo, criticou duramente a presidente Dilma Rousseff em reunião no instituto que leva o seu nome. Para Lula, “Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto” e ele próprio está no volume morto. Nesta segunda-feira, o ex-presidente voltou a criticar o partido, e disse que os petistas só pensam em cargo e eleições.

O TCU deu prazo de 30 dias para Dilma dar explicações sobre as contas públicas de 2014. Para Aécio, o TCU deve rejeitar as contas de Dilma, afirmando que caberá ao Ministério Público da União decidir se abre uma ação contra a presidente. Ele lembrou que o PSDB já ingressou com uma ação a esse respeito, mas evitou falar em impeachment.

— Acho que o presidente Lula, mais do que ataques à atual presidente, sua criatura, tem que reassumir sua parcela de responsabilidade pelo que vem acontecendo no Brasil. E não há como descolar uma coisa da outra: o governo é o PT, o governo é Dilma, o governo é Lula. Foi assim nos momentos positivos e será assim nesse momento de grandes dificuldades. Lamentavelmente, essa obra é uma obra conjunta do ex-presidente Lula, da presidente Dilma, e, obviamente, do PT — disse Aécio.

Aécio disse que já tinha denunciado, durante a campanha eleitoral, as manobras fiscais do governo Dilma.

— Continuar a fazer isso é um acinte, um desrespeito absoluto àquilo que foi de mais valioso que nós conseguimos construir do ponto de vista da administração no Brasil que foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. É um governo que age como se estivesse acima da lei e não está. E o governo federal de forma continuada fez isso com o único objetivo de vencer as eleições e hoje é um governo sitiado: não pode andar nas ruas e está nas barras dos Tribunais. Se o Tribunal de Contas, como todos nós esperamos, vier a agir de forma técnica como vem agindo, não há como aprovar as contas da Presidente da República — disse Aécio, acrescentando:

— Essa reiterada prática delituosa pode levar até o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, onde existe ação do PSDB, a se manifestar e quem sabe abrir uma investigação contra a presidente da República.

Candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, Aécio lembrou que denunciou o fato das pedaladas fiscais.

— Durante a campanha eleitoral, denunciei essas pedaladas, dizendo que a Caixa Econômica Federal pagava o Bolsa Família, ou parcela dele, e o governo não repunha por parte do Tesouro esses recursos. A presidente ignorou esse assunto. Agora, tentam transferir para um membro da equipe econômica (o ex-secretário do Tesouro Arno Augustin) essa responsabilidade. A responsabilidade é da presidente da República — disse Aécio.

Segundo ele, um dos pilares da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) era justamente evitar que bancos públicos financiassem seus controladores.

— Essa não é uma questão que está sendo discutida agora. O que há é uma definição da votação do relatório do ministro Nardes que é pela reprovação das contas da Presidente da República. Isso deve ocorrer em menos de 30 dias.

Aécio comparou a crise econômica vivida pelo país à jabuticaba, alegando que apenas o Brasil vive momentos de dificuldade e não o mundo.

— Essa crise é como a jabuticaba, é uma fabricação aqui do Brasil feita pelo governo do PT — afirmou o tucano.

Queda na pesquisa
Aécio disse ainda que o resultado da pesquisa Datafolha é um reflexo de o Brasil estar vivendo uma das maiores crises econômicas da sua história. A pesquisa Datafolha indicou que Dilma tem 65% de reprovação, entre ruim e péssimo. Para ele, o país vive três crises: a econômica, a moral e a de credibilidade.

— Grande parte da desaprovação da presidente da República recorde no nosso período democrático se dá em razão dessa crise moral sem precedentes — disse Aécio.

O tucano disse ainda que sua candidatura à Presidência não é "agenda do momento", ao comentar a pesquisa Datafolha que lhe coloca em primeiro lugar, com 35% dos intenções, à frente do ex-presidente Lula.

— Essa não é a agenda do momento, O PSDB tem outras responsabilidades que antecedem a disputa eleitoral de 2018, que é fiscalizar as ações do governo, denunciar as irregularidades cometidas e apresentar alternativas. É obvio que eu recebo como reconhecimento a responsabilidade, a seriedade do nosso trabalho essa minha posição nas pesquisas — disse ele.

Aécio disse que PSDB estará "unido" na sua decisão. Ele e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, disputam nos bastidores o posto de candidato.

— Ao contrário do que acreditam alguns ou torcem outros, no momento da definição de quem será o candidato do PSDB, vamos estar absolutamente unidos, porque o PSDB sabe que a sua unidade é que vai inspirar outros aliados a estarem conosco. Eu, pessoalmente, no que depender de mim, não vou antecipar esse debate eleitoral — disse o senador.

Preferência pelo PSDB cresce, e sigla empata com PT, mostra Datafolha

Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Pesquisa Datafolha feita na semana passada mostra que, em meio à crise do PT, a preferência pelo PSDB bateu seu recorde. Conforme o instituto, 9% dos eleitores manifestaram simpatia pela sigla.

Em fevereiro, 5% citavam o PSDB como o partido preferido. Em abril, 7%.

Os simpatizantes do PT, segundo a mesma pesquisa, são 11%. Configura-se, portanto, um empate técnico entre as duas siglas que polarizam as disputas pela presidência desde 1994 --a margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais.

A preferência partidária do eleitorado é investigada pelo Datafolha desde 1989. O PT liderou as 137 pesquisas do gênero em 26 anos. Seu melhor desempenho ocorreu em março de 2013, quando foi citado como partido preferido por 29%. O piso foi atingido em março deste ano, quando marcou 9%.

Depois de PT e PSDB, o único partido com algum ativo relevante é o PMDB, com 6% das preferências nacionais.

Desde 1989, o maior grupo sempre foi o dos que não têm preferência partidária. Nesta última sondagem, 67% responderam assim. O Datafolha ouviu 2.840 pessoas em 174 cidades entre 17 e 18 de junho.

Críticas do ex-presidente incomodam Dilma, que busca dar boas notícias

Geralda Doca, Fernanda Krakovics e Cristiane Jungblut (Colaboraram Catarina Alencastro e Washington Luiz) – O Globo

• Para Planalto, Lula prejudica o governo e seu próprio projeto para 2018

BRASÍLIA- A ex- presidente Dilma Rousseff ficou bastante incomodada com as críticas abertas do ex- presidente Lula à sua gestão no encontro que ele teve com religiosos na semana passada. As declarações de que Dilma está no “volume morto”, por causa da baixa popularidade, e, principalmente, de que ela mentiu na campanha à reeleição ao dizer que não mexeria em direitos trabalhistas e não faria ajuste fiscal foi o que causou mais mal- estar no governo.

A presidente confidenciou a ministros próximos não ter gostado do que Lula disse, mas que entende o discurso. Na avaliação do Planalto, Lula falou para agradar à plateia, sem se dar conta de que a Igreja Católica tem mantido uma visão crítica do governo. Ele também teria tentado agradar aos lulistas, as correntes do PT que têm se posicionado contra o ajuste fiscal. Mas, para os mais próximos a Dilma, ao bater no governo, Lula acaba atingindo também a construção de sua candidatura para 2018 — o que só agradaria à oposição. Ainda assim, ministros petistas defenderam Lula. Para um deles, Lula foi traído pelo vazamento da conversa:

— Teremos uma semana de ruídos.

A principal preocupação é com o trecho em que o ex- presidente afirma que Dilma errou ao dizer, durante a campanha, que não mexeria em direitos trabalhistas “nem que a vaca tussa”. E mexeu, disse Lula, contrariando a versão do governo de que houve apenas ajustes em benefícios como seguro- desemprego, abono salarial e pensões. Na conversa revelada pelo GLOBO, Lula também lembrou que Dilma afirmou na campanha que não faria ajuste, que era “coisa de tucano”. Lula disse que Dilma não só fez, como mereceu ser alvo de propaganda do PSDB na TV que a acusou de mentir. Sobraram queixas até para o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Diante das críticas abertas de Lula, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves ( MG), fez questão de “colar” o ex- presidente ao governo de Dilma. O tucano argumentou que Lula não pode fugir à responsabilidade pela situação atual ao usar como estratégia os ataques à sua sucessora. Para ele, o governo está “sitiado”.

— Acho que o presidente Lula, mais do que ataques à atual presidente, sua criatura, tem que reassumir sua parcela de responsabilidade pelo que vem acontecendo no Brasil. E não há como descolar uma coisa da outra: o governo é o PT, o governo é Dilma, o governo é Lula. Foi assim nos momentos positivos e será assim neste momento de grandes dificuldades. Lamentavelmente, essa obra é uma obra conjunta do ex- presidente Lula, da presidente Dilma e, obviamente, do PT — disse Aécio, derrotado por Dilma na eleição presidencial de 2014.

Aécio atribuiu à “crise moral sem precedentes” a aprovação de apenas 10% de Dilma na última pesquisa Datafolha. Na sondagem, o tucano aparece na liderança das intenções de voto para a Presidência em 2018 com 35%, contra 25% de Lula.

— Essa não é a agenda do momento. O PSDB tem outras responsabilidades que antecedem a disputa de 2018, que é fiscalizar as ações do governo, denunciar as irregularidades e apresentar alternativas — desconversou.

No Planalto, a expectativa é que Dilma só recupere sua popularidade quando a economia começar a reagir, o que é projetado para o ano que vem, talvez com uma pequena retomada no final deste ano.

Enquanto isso, o governo pretende apostar na agenda positiva, como o lançamento da terceira fase do Minha Casa Minha Vida, o programa Banda Larga para Todos, investimentos no setor energético e o já lançado plano de concessões em infraestrutura.

Ontem, Dilma lançou o Plano Safra para a agricultura familiar. Cobrada por Lula por não oferecer “boas notícias”, Dilma fez um esforço ontem ao anunciar aumento de 20% nos recursos em relação a 2014, mesmo percentual aplicado ao Plano Safra para médios e grandes produtores. No total, serão liberados R$ 28,9 bilhões para os pequenos. Ao lado de Dilma, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, anunciou a ampliação do Minha Casa Minha Vida em áreas rurais e um novo plano de reforma agrária, um aceno para movimentos sociais. Dilma é criticada por ter assentado, em média, menos da metade de famílias do que Lula e Fernando Henrique.

Para Planalto, críticas de ex-presidente desagregam

Andrea Jubé – Valor Econômico

BRASÍLIA - A avaliação interna no Palácio do Planalto é de que os posicionamentos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos últimos dias, com críticas duras ao governo e ao PT, só contribuiram para agravar a crise que contamina o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Num cenário de queda de popularidade, novas prisões de executivos na Operação Lava-Jato e disseminação de boatos até sobre a saúde de Dilma, sobressai a percepção de palacianos e governistas de que os comentários de Lula desagregam num momento em que governo e partido deveriam enfrentar juntos a turbulência.

O Valor apurou que Lula já havia usado, em ocasião anterior, a expressão "volume morto", em uma análise reservada da conjuntura com Dilma e um grupo seleto de ministros há algumas semanas, em Brasília. Segundo uma fonte que testemunhou o episódio, Lula recorreu à metáfora para afirmar, na presença de Dilma, que o PT e o governo já estavam no "volume morto", e que abaixo disso, "só o pré-sal", em alusão ao petróleo das águas profundas.

As críticas de Lula têm trazido constrangimento aos petistas que integram o governo. O jornal "O Globo" revelou que no sábado, em um encontro com religiosos no Instituto Lula, que o ex-presidente afirmou que "Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto", e ele também se vê na mesma situação. Ontem, em evento público, no Instituto Lula, o ex-presidente afirmou que o PT envelheceu, perdeu a utopia e hoje só pensa em cargo (ver reportagem nesta página).

Um ministro que participa das reuniões de coordenação política no Planalto disse aoValor, em condição de anonimato, que a atitude do ex-presidente de fazer críticas - e muitas delas levadas a público por interlocutores ou diretamente pela imprensa - apenas "desagrega politicamente", fragilizando, simultaneamente, o PT e o governo. "Uma coisa é enfrentar a crise com unidade, outra, mais difícil, com desagregação política", lamentou.

Ontem a presidente Dilma reagiu com irritação aos boatos que circularam nas redes sociais no fim de semana, de que teria sido internada, após supostamente ingerir grande quantidade de remédios. Os boatos espalharam-se com a divulgação da pesquisa Datafolha de que 65% dos brasileiros rejeitam o governo e apenas 10% o consideram ótimo e bom.

"Fui informada de um boato que eu estava internada", disse a presidente aos jornalistas ao final da solenidade de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar. "Vocês acham que eu estava?", tripudiou, apontando para a sua nova silhueta, com ar saudável, que conquistou após uma dieta aplicada e os passeios de bicicleta.

Coube ao ministro da Secretaria da Aviação Civil - que acumula funções de articulador político - minimizar ontem os efeitos da nova pesquisa Datafolha. Em entrevista após reunião da coordenação política, Padilha ressaltou que o levantamento tem aspectos positivos. Segundo ele, houve melhora discreta na avaliação da economia e do combate à inflação. Ele disse que há expectativa no governo de que esses aspectos positivos reflitam na imagem de Dilma, embora o processo seja lento. "Isto não acontece por milagre, existe um governo, existe a chefia de um governo, que precisa capitalizar esse aspecto positivo", ponderou. "Queríamos que fosse ontem, vamos trabalhar para que seja hoje, no menor espaço de tempo possível", afirmou.

Padilha reconheceu, contudo, que o governo atravessa um momento desfavorável, que não favorece a pronta recuperação da imagem da presidente. "Quando se tem o clima que nós estamos convivendo hoje no Brasil, essas coisas caminham de forma lenta".

O ministro acrescentou que os últimos episódios da Operação Lava-Jato - as prisões dos executivos da Odebrecht e da Andrade Gutierrez - não deverão impactar o novo pacote de infraestrutura lançado no início do mês. "Temos um programa de concessões em andamento que não tem absolutamente nada a ver com a Operação Lava-Jato, são concessões futuras", sublinhou. "Temos um Programa de Investimentos e Logística (PIL) que não pode de forma nenhuma ser comprometido por isso ou aquilo da Lava-Jato, até porque se trata de operação futura", enfatizou.

Merval Pereira - Volume morto

- O Globo

Lula vê que vaca está indo para o brejo e por isso ataca. Enquanto os políticos petistas acionam seus fantoches no mundo virtual para tentar desqualificar os senadores oposicionistas que foram à Venezuela marcar uma posição democrática que repercute até hoje, num inegável sucesso político, o ex- presidente Lula mostra que ainda é o mais esperto de todos.

Convidou para um debate no seu instituto ninguém menos que o ex- primeiro- ministro espanhol Felipe González, que estivera em Caracas dias antes com o mesmo objetivo, e teve os mesmos problemas que os brasileiros. Ou os mesmos problemas que qualquer liderança democrática terá se quiser enfrentar a ditadura venezuelana.

Políticos ligados ao governo de Maduro, ou apoiadores de Diosdado Cabello, que tanto Lula quanto Dilma receberam prazeirosamente em dias recentes, não terão dificuldades. Nem mesmo as acusações cada vez mais sérias a Cabello, sobre envolvimento com um cartel de drogas, inibiram os petistas. Mas, na hora de parecer democrata, Lula chama mesmo González.

Lula ultimamente tem sido o mais rigoroso crítico do PT, porque, na qualidade de pragmático- mor da República, está vendo que a vaca está indo para o brejo. Ele, que já havia constatado que tanto ele quanto Dilma estão no “volume morto”, e o PT, “abaixo do volume morto”, ontem fez a constatação mais objetiva de todas: “já estou com 69 ( anos), já estou cansado, já estou falando as mesmas coisas que eu falava em 1980”.

Não por acaso, mas por retratar a verdade, no mesmo dia o presidente da Mercedes- Benz no Brasil, Philipp Schiemer, em entrevista à “Folha”, constatou, por outras palavras, o mesmo que Lula: “O país perdeu a previsibilidade com as mudanças nas premissas da política econômica. Voltamos uns 20 anos no tempo”.

Essa volta na máquina do tempo tem muito a ver com o modo como o governo se comportou a partir do 2 º mandato de Lula e no 1 º de Dilma. Após passarem vários anos se comportando dentro das regras da boa governança, respeitando o equilíbrio fiscal e se aproveitando de momento raro na economia mundial, com os preços das commodities lá no alto, Lula e seus seguidores ouviram o canto da sereia e acharam que já podiam voltar ao ponto em que, para vencer a eleição de 2002, tiveram que abdicar de suas ideias.

Guido Mantega, que se notabilizara nos anos em que o PT esteve na oposição por ser o porta- voz econômico do partido, nunca havia assumido o comando real da área até a saída de Antonio Palocci, em 2006. A partir daí, a política de equilíbrio fiscal foi sendo paulatinamente substituída pelo que viria a ser chamado de “nova matriz econômica”, que se aproveitou da crise financeira de 2008 para, a pretexto de uma política anticíclica, permitir um pouco mais de inflação para estimular o consumo interno como motor do desenvolvimento, política essa exacerbada no governo Dilma.

Hoje, sabemos que diversos parâmetros econômicos foram quebrados nesse processo, com práticas ilegais de criação de despesas sem autorização do Congresso, que acabaram produzindo um descalabro nas contas públicas.

Quando o ex- governador Anthony Garotinho apelidou o PT de “partido da boquinha”, a muitos pareceu que era apenas uma disputa política a mais. Mas não é que o próprio Lula admite que o PT hoje “só pensa em cargo, em emprego, em se eleger”?

Não é à toa que Lula vem insistindo na tese de que é preciso fazer uma reorganização partidária no país, tema a que voltou ontem. A mesma pesquisa Datafolha que mostrou que a presidente Dilma tem 65% de oposição também revelou que o ex- presidente Lula perderia a eleição presidencial se o candidato do PSDB fosse o senador Aécio Neves.

Se o candidato fosse o governador paulista Geraldo Alckmin, Lula o bateria, mas a ex- senadora Marina Silva ganharia densidade eleitoral para empatar com ele. Feitas as contas, há hoje uma maioria oposicionista no país que procura o melhor candidato para derrotar o PT, mesmo que ele seja Lula.

Outro aspecto da pesquisa é o que mostra que o PSDB, como sigla mais organizada da oposição, pela primeira vez nos últimos 13 anos empata na preferência do eleitorado com o PT, que vem em franca decadência, pois já foi o preferido por cerca de 30% do eleitorado. É o tal “volume morto” a que Lula se referiu.

Bernardo Mello Franco - Lula e os pés de barro

- Folha de S. Paulo

Quando Marina Silva virou favorita na tumultuada campanha de 2014, Lula confidenciou a aliados que uma derrota do PT não seria tão ruim assim. "Ruim mesmo é a Dilma ganhar e não mudar", disse, segundo o relato de um petista.

Dilma ganhou, e as coisas mudaram para pior. Ela perdeu o controle da economia, viu sua base se esfarelar no Congresso e se tornou a presidente mais rejeitada desde Collor.

Na semana passada, Lula reclamou da sucessora e disse a religiosos que os dois chegaram ao "volume morto". Ele reconheceu que Dilma mentiu para se reeleger e agora está fazendo o oposto do que prometeu.

Nesta segunda, o ex-presidente estendeu as queixas ao PT. Afirmou que o partido "está velho", "só pensa em cargo" e sucumbiu ao "cansaço". Só faltou dizer que seria melhor ter perdido a eleição do ano passado.

Lula deixou o poder como o governante mais popular da história recente. Recebeu homenagens, manteve o discurso triunfalista e foi descrito como um "Pelé no banco de reservas". Seu retorno ao Planalto parecia ser questão de vontade. Bastaria estalar o dedo para voltar nos braços do povo, como Getúlio em 1950.

A guinada no discurso sugere que o ídolo se descobriu com pés de barro. O Datafolha confirmou que ele ainda é forte, mas deixou de ser imbatível. Se a eleição de 2018 fosse hoje, teria apenas 25% dos votos.

O ex-presidente fez o desabafo aos religiosos na quinta-feira, antes de a Lava Jato atingir os chefes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez. Seria interessante vê-lo de volta ao confessionário no dia seguinte, depois da prisão dos amigos empreiteiros.

Em março, o ex-ministro Cid Gomes caiu por apontar "300 ou 400 achacadores" na Câmara. Nesta segunda, os repórteres Natuza Nery e Ranier Bragon mostraram como um grupo de 243 deputados ameaçou o governo para arrancar a liberação de emendas. Se Cid errou, foi na conta.

Luiz Carlos Azedo - Vai de bicicleta

Correio Braziliense

• A boataria de domingo preocupou os meios políticos porque a semana que passou foi um desastre para o governo. Culminou com uma pesquisa de opinião na qual Dilma amarga os piores índices de aprovação

A presidente Dilma Rousseff deu uma demonstração de que tudo vai muito bem, obrigado, com ela: ontem, saiu bem cedo para mais uma de suas pedaladas nas imediações do Palácio da Alvorada. Não confundir com as “pedaladas fiscais”, que continuaram no primeiro trimestre deste ano, apesar das advertências do Tribunal de Contas da União (TCU) de que são uma ilegalidade.

A volta de bicicleta seria uma resposta suficiente para a onda de boatos que inundou as redes sociais e agitou os bastidores da política nacional no domingo. Com duas versões fantasiosas, uma de que a presidente da República havia renunciado e outra de que tentara o suicídio com consumo de remédios. A imprensa ignorou o boato, mas Dilma não se deu por satisfeita e resolveu comentar o assunto publicamente pela manhã.

Foi ao final da cerimônia de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar: “Eu vim falar com vocês hoje, apesar de não ter tempo. Disseram há pouco que havia um boato de que eu estava internada. Vocês acham que eu estava?”, indagou a presidente. Em seguida, sorriu e mandou um beijo para os jornalistas. Na sequência, deixou o recinto e se dirigiu para o gabinete.

Tem alguma coisa de estranha no comportamento da presidente da República. A bicicleta é um veículo que, simplesmente, não para em pé sozinho. Seu equilíbrio somente é alcançado quando está em movimento. A regra para aprender a andar de bicicleta é “olhe para frente e não para o chão”. As crianças aprendem a andar de bicicleta, andando. Algumas coisas também são assim, para que aconteçam é preciso que o processo esteja em pleno funcionamento.

Os mestres em administração de empresas gostam do exemplo para discutir mudanças em uma organização. A empresa não vai parar, absorver a mudança e reiniciar a operação. Ela precisa ser implementada com os negócios fluindo e as pessoas trabalhando. É mais ou menos o que precisa ser feito pelo atual governo, mas parece que Dilma resolveu levar o princípio da bicicleta ao pé da letra. É mais fácil andar de bike.

Terreno pedregoso
A boataria de domingo preocupou os meios políticos porque a semana que passou foi um desastre para o governo. Culminou com uma pesquisa de opinião que confirmou o que todo mundo já sabia: Dilma amarga os piores índices de aprovação de um presidente da República desde a campanha do impeachment contra Collor de Mello, que o levou à renúncia. No sábado à noite, acompanhada do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, Dilma compareceu ao casamento da filha do líder do PMDB, Eunício de Oliveira (CE), uma festa que reuniu toda a corte de Brasília.

O vestido da noiva não era o assunto mais comentado. Só se falava da pesquisa DataFolha, na qual Dilma tinha 10% de bom e ótimo, 24% de regular e 65% de ruim e péssimo, e das declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o prestígio de Dilma estava igual ao “volume morto” da Cantareira. E da prisão do presidente da Odebrecht. Marcelo Odebrecht, que ameaçara implodir a República. Os mais gaiatos comparavam a festa de casamento ao baile da Ilha Fiscal, o último grande evento do Império.

O vice-presidente Michel Temer deixou a festa junto com Dilma Rousseff. Passara o sábado preocupado com situação política do país, segundo revelou a correligionários. A semana havia começado com a expectativa de rejeição das contas do governo de 2014 pelo Tribunal de Contas da União.

Na Câmara, a aprovação da revisão da desoneração da folha de pagamento para alguns setores da economia foi novamente adiada. Os números da economia também vão de mal a pior: a recessão pode chegar a menos 2% do PIB brasileiro neste ano, a inflação rondará os 9%, e o desemprego superará 10% da população que trabalha.

Dilma tenta criar uma agenda positiva. Sua grande cartada para reverter as expectativas negativas dos investidores será o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no próximo dia 29, mas a realidade é cruel. O ajuste fiscal é meia-boca, pouco pode se fazer quanto isso, por causa da fraqueza do governo, que não tem como bancar a meta de superavit fiscal.

E tem a Operação Lava Jato, que parece um trem fantasma, no qual Dilma leva um susto a cada estação por causa do envolvimento do PT. É uma variável completamente fora de controle do Palácio do Planalto. Dilma pedala num terreno pedregoso, à beira de um precipício.

Raymundo Costa - Expectativas e apreensão

- Valor Econômico


• "A minha popularidade fica para depois"


Lula poderia esvaziar a pressão política, se anunciasse hoje que não é candidato 2018? Há dúvidas, mas a controvérsia é ampla e atinge até setores que há exatamente um ano cerravam fileiras no "Volta Lula".

A pesquisa Datafolha arruinou o fim de semana da presidente Dilma Rousseff. Ela já esperava pelo resultado, mas ele sempre fica pior depois da divulgação. Dilma poderia entrar mais sossegada na segunda-feira.

Lula está apreensivo com os rumos da Operação Lava-Jato. Dilma aposta suas fichas no ministro Joaquim Levy e na reversão das expectativas econômicas, coisa pra mais de ano. O PT que não conte com ela em 2016.

Apesar da apreensão de Lula, amigos do ex-presidente fizeram uma minuciosa leitura da nota que a Odebrecht emitiu sobre a prisão de seu presidente, Marcelo Odebrecht. Concluíram que não está em seus planos a delação premiada.

A expectativa é que o empreiteiro tente se livrar da prisão pelo caminho convencional de um habeas corpus. Na hipótese de algum dia achar que não tem outra saída, os amigos de Lula apostam - ou têm esperança - que ele falará também de outros governos. A Odebrecht tem um passado que não se esgota no capítulo Lula.

Lula e seus amigos mais e mais falam mal de Dilma. Discorrem sobre um certo descontrole de um governo que não fala nem pra dentro nem pra fora. Cada ministério é uma ilha; o governo não tem conexões no Supremo, no Ministério Público Federal, OAB, CNBB, Conselho de Pastores e nem com as ONGs.

Dilma teria há muito sido advertida de que o governo deveria tomar a iniciativa e dizer bem mais que as empreiteiras podem contratar com a União, já que não estão condenadas, e até mesmo questionar prisões que não se justificariam.

No entanto, ao contrário do que sugere o vazamento de declarações de Lula de que ambos atingiram o volume morto, nem ele nem o PT devem abandonar o barco da presidente, apesar da reprovação recorde de Dilma.

A corrente majoritária do PT foi amplamente vitoriosa no congresso do partido, e Lula ajudou nas articulações que levaram à redação da "Carta de Salvador", na qual o partido, apesar de todas as ressalvas, dá seu apoio às medidas econômicas. Aliás, até ontem não havia sido divulgada a redação final da "Carta", tal o cuidado que o PT está tomando com seus termos. O PT insiste que vai defender o mandato de Dilma nas ruas, se for necessário.

Em conversa da presidente com líderes e ministros, em uma das muitas discussões sobre medidas para reativar a economia, como as concessões, o líder do governo na Câmara, deputado José Guimarães (PT-CE), se manifestou. "A senhora precisa antecipar o Minha Casa Minha Vida", disse, segundo um dos presentes. "É um programa emblemático para a popularidade da senhora".

Dilma deu uma resposta curta, mas esclarecedora, de acordo com a fonte: "A minha popularidade fica para depois". Por esse "depois" entenda-se algo como o fim de 2016, início de 2017, segundo a interpretação de quem acompanhou a reunião.

Os interlocutores da presidente explicam que Dilma fez uma inflexão no governo e hoje não tem dúvida nenhuma sobre o caminho apontado por Joaquim Levy.

Foi ela quem escolheu Levy, quando os preferidos de Lula eram Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central em seus dois mandatos, e Luiz Carlos Trabuco, executivo do Bradesco.

Isso não quer dizer que, à época, Dilma assinasse embaixo da receita que seria servida pelo ministro da Fazenda. Ou de tudo o que ele defendia.

O fato é que Dilma não tinha inteira convicção sobre Levy. O interlocutor da presidente lembra das vezes que o ministro defendia ou anunciava alguma coisa e Dilma não defendia e às vezes nem aparecia para a fotografia conjunta.

Isso mudou por completo. O próprio Levy parece bem mais à vontade nas reuniões de governo. E Dilma expressa confiança no ministro nas questões discutidas, dá atenção, procura o diálogo.

É Levy quem está montando o "road show" de Dilma pelos EUA, viagem que começa no fim deste mês de junho.

A expectativa real do governo é de recuperação ali por volta do 3º ou 4º anos de mandato, mas nada espetacular. Se for possível 2% de crescimento já seria "um espetáculo".

Nos cálculos do governo há expectativa de mudança na relação de forças na segunda metade da legislatura, quando Renan Calheiros (PMDB-AL) e Eduardo Cunha (PMDB-RJ) devem ser substituídos nas presidências do Senado e da Câmara dos Deputados, mantidas as regras atuais.

"Mas já no segundo semestre é possível a fragilização de alguns que hoje parecem fortes e o fortalecimento de outros que parecem fracos", diz o interlocutor de Dilma, fazendo mistério. Renan e Eduardo Cunha estão na alça-de-mira da Lava-Jato. É possível também uma recomposição do ministério, mas nunca é demais lembrar que o governo Dilma até agora foi um desastre na articulação política. Nem é visível que carta a presidente pode ter para tirar da manga.

Levy não estimula versões de que possa vir a fazer eventuais concessões ao Congresso. Ao contrário, quando o vice-presidente Michel Temer, durante a viagem da titular, assinou o decreto liberando as emendas parlamentares em restos da pagar, um líder governista anotou o sarcasmo - marca registrada do ministro - com que Levy tratou do assunto. Ele confirmou que as emendas seriam liberadas "muito gradualmente", dando sinais de bem atender às demandas federativas.

A preocupação de Dilma hoje é o desemprego. "É claro que se a economia for para o brejo esse projeto de reorganização vai atrás", diz um integrante das reuniões de articulação política do governo. Pode-se esperar um programa específico do governo federal nessa área.

Sobre sua nova candidatura, Lula ora sai com a bazófia de costume, de que se for provocado entrará numa sexta campanha presidencial, ora diz que somente será candidato se Dilma estiver bem. O ex-presidente só não tem dúvidas de que já está "na história", diga-se o que se disser dele agora.

No volume morto – Editorial / Folha de S. Paulo

• Enquanto Datafolha mostra recorde negativo de Dilma e perda de capital eleitoral de Lula, ex-presidente escancara críticas ao governo federal

A pesquisa Datafolha publicada no domingo (21) mostrou que o governo da presidente Dilma Rousseff é considerado ruim ou péssimo por 65% dos eleitores, um novo recorde negativo da petista que a deixa com uma taxa de reprovação melhor apenas que a de Fernando Collor de Mello às vésperas do impeachment, em 1992. E essa nem foi a pior notícia para o PT.

Mais que a impopularidade de Dilma, com sutis diferenças já captada nos levantamentos anteriores, o que chamou a atenção desta vez foi o desempenho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma hipotética disputa pelo Planalto.

Se o pleito fosse hoje, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) lideraria a corrida presidencial com 35% das preferências; Lula aparece em seguida, com 25%, à frente de Marina Silva (PSB), com 18%.

É a primeira vez que o petista figura em segundo lugar em uma pesquisa de intenção de voto desde a campanha da reeleição, em 2006.

Não há dúvida quanto à corrosão do capital eleitoral de Lula: no final de 2013, ele ostentava 56% das preferências; em meados de 2014, 44%. Vista dessa perspectiva, a dilapidação de seu patrimônio em 2005, ano do mensalão, já não parece tão acentuada, com uma queda (depois revertida) de 44% para 29% em 12 meses.

Tais números decerto ajudam a entender as, digamos, liberdades que o ex-presidente passou a se permitir nos últimos dias. Na semana passada, em encontro com um grupo de padres e dirigentes de entidades religiosas em seu instituto, criticou o governo Dilma como se a ele fizesse oposição.

Segundo o jornal "O Globo", Lula disse, por exemplo, que ninguém se recorda da última boa-nova que a gestão petista deu ao Brasil. As más notícias listadas pelo ex-presidente, porém, eram várias: da inflação ao aumento de tarifas controladas, passando por denúncias de corrupção e pelo descumprimento de promessas de campanha.

Como se a mensagem não tivesse sido clara o bastante, Lula voltou à carga nesta segunda (22). No seminário "Novos desafios da democracia", promovido por seu instituto, sustentou que o PT deveria passar por uma revolução, incorporando quadros jovens e ideias frescas.

"Eu, que sou uma figura proeminente do PT, tenho 69 [anos], estou cansado. Estou falando as mesmas coisas que falava em 1980", asseverou, não sem condenar um pragmatismo excessivo na sigla. "A gente só pensa em cargo, só pensa em emprego, só pensa em ser eleito, ninguém trabalha mais de graça."

A começar do próprio Lula, talvez seja o caso de acrescentar. Como o ex-presidente afirmou na última semana, ele sabe que está no "volume morto", ao lado de Dilma Rousseff e do PT. Sabe também, mas isso não disse, que a previsão do tempo não é favorável ao governo --e por isso mesmo terá escassas chances em 2018 se não começar a se distanciar de sua pupila.

Lágrima de crocodilo – Editorial / O Estado de S. Paulo

Fazendo eco às pesquisas que demonstram que o apoio popular e a aprovação ao governo continuam despencando, Luiz Inácio Lula da Silva, como se não tivesse nada a ver com isso, faz duras críticas à presidente da República que colocou no Palácio do Planalto, escancara seu estilo populista ao dar conselhos à sucessora e tem o caradurismo de afetar consternação e se queixar do “ódio que está na sociedade”.

O estarrecedor depoimento de Lula, diante de líderes religiosos que reuniu em seu instituto em São Paulo na semana passada, foi relatado pelo Globo no sábado.

O ex-presidente falou aos líderes religiosos no momento em que era divulgada mais uma pesquisa Datafolha dando conta de que caiu para 10% a aprovação popular a Dilma Rousseff e subiu para 65% o índice de brasileiros que consideram seu governo ruim ou péssimo. “A Dilma está no volume morto”, ironizou Lula, acrescentando que ele próprio está no mesmo nível e o PT ainda mais abaixo.

Com o cinismo que seus admiradores preferem interpretar como “visão pragmática” das questões políticas, Lula endossou de modo geral as críticas feitas por seus interlocutores ao governo, a Dilma e ao PT e ainda botou lenha na fogueira na tentativa de convencê-los de que os problemas apontados são consequência da teimosia de sua sucessora, que se recusa a seguir os conselhos que recebe do mestre.

Tendo ao lado o ex-ministro Gilberto Carvalho, que manifestava aprovação a todas as intervenções do chefe e a elas acrescentava argumentos, Lula desfiou críticas a Dilma e ao governo que ela comanda: “O Gilberto sabe do sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar”. “Numa reunião em Brasília eu disse a ela: companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos. Ela não lembrava.” “Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Depois de ajuste vem o quê?” “Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos.”

Não se dando ao trabalho de disfarçar o tratamento de líder para liderada que pretende impor em seu relacionamento com a presidente da República, Lula contou: “Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para a Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo. E disse para ela: isso não é para você desanimar, não. Isso é para você saber que a gente tem de mudar, que a gente pode se recuperar. E entre o PT, entre eu (sic) e você, quem tem mais capacidade de se recuperar é o governo, porque tem iniciativa, tem recurso, tem uma máquina poderosa para poder falar, executar, inaugurar”.

Lula garantiu que nos encontros que mantém regularmente com a chefe do governo tenta convencê-la da necessidade de se expor publicamente, fazer contato pessoal “porque na hora em que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa”. E resumiu: “Falar é uma arma sagrada”, ressalvando que não se trata de falar na TV ou no rádio, mas “olho no olho”.

Está claro que, apesar de achar que entende de política mais do que ninguém, Lula é incapaz de – ou não quer – perceber que de nada mais adianta Dilma Rousseff sair por aí anunciando planos mirabolantes e fazendo promessas maravilhosas pela razão simples de que perdeu a credibilidade. Pelo menos dois em cada três brasileiros não acreditam nela. De resto, os conselhos de Lula recendem a populismo barato e a vigarice chinfrim: para ele, o importante é levar o eleitor “na conversa”.

Embora permissivo quando se trata de si próprio, da família e dos amigos, Luiz Inácio Lula da Silva se comporta com uma arrogância e uma presunção que o levam a colocar-se sempre acima do bem e do mal.

Subiu na vida pública transformando os adversários políticos em inimigos a serem destruídos. E agora demonstra uma consternação hipócrita, como o fez no encontro com os religiosos: “Jamais vi o ódio que está na sociedade. Família brigando dentro de família, companheiro do PT que não pode entrar em restaurante...”.

Lamentava, com lágrimas de crocodilo, estar colhendo o amargo fruto que plantou.

Míriam Leitão - Raízes da rejeição

- O Globo

Rejeição é alta porque Dilma ignorou os alertas. A piora foi lenta e encomendada com antecedência, mas os dados apareceram todos juntos no começo deste segundo mandato: a inflação subiu, o desemprego aumentou, a indústria despencou, as contas públicas ficaram no vermelho. Isso explica como afundou tão rapidamente a aprovação da presidente reeleita em outubro do ano passado. Tudo começou antes e foi escondido pelo governo.

Aqui neste espaço, escrevi várias vezes que a política econômica estava errada, ainda na época em que a rejeição era de apenas 7%. Não me espanta a informação de que 65% acham o governo ruim ou péssimo agora, segundo o Datafolha, porque quem acompanha a relação dessa pesquisa com a situação econômica sabe que com a inflação alta o brasileiro sempre se irrita com o governo. Ela reduz renda, cria um desconforto diário, lembra o que está já na memória coletiva: o período da inflação descontrolada. Mesmo quem não o viveu tem medo dessa volta.

O fator novo é o medo do desemprego, que subiu para o terceiro maior problema brasileiro na lista das preocupações. O evento específico deste momento é a corrupção que a Operação Lava- Jato tira das sombras e que passou a ser o segundo maior problema, perdendo apenas para a saúde.

O que piora tudo é a sensação de que o eleitor foi enganado pela campanha eleitoral, que criou um país ficcional, onde tudo ia bem, e precisava apenas continuar na mesma linha para melhorar. Quem não enjoou de ouvir falar em Pronatec? Pois agora o programa teve quase 70% de corte. O marketing da presidente Dilma joga com a hipótese de que este é um país de desmemoriados.

Foi na época em que a rejeição era de 7% que foram plantados os problemas colhidos agora. O governo escondeu rombos no Orçamento, com pedaladas. Reprimiu a inflação, empurrando prejuízos para a Petrobras e quebrando o sistema elétrico. Deu sobrevida ao consumo, induzindo as pessoas para o endividamento e jogando dinheiro público em montadoras. Mesmo com alguns dos problemas já aparecendo no ano passado, Dilma negou a necessidade de ajuste fiscal. Vários jornalistas deram a ela a chance de dizer a verdade, entre eles, eu. Perguntamos seguidamente pelos problemas econômicos. E ela negou as evidências.

Em entrevista no Bom Dia Brasil, perguntei sobre o desemprego de jovens, lembrando que estava em 13,7% nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE. Ela, ao responder, demonstrou desconhecer o dado: “3,7%? É quase pleno emprego.” Precisei lembrar que eram treze, e não três. Hoje, esse mesmo indicador está em 16,2%. A presidente se preparou para a campanha não com um olhar sincero sobre os problemas que teria que resolver nos quatro anos que postulava, mas com que truques e pedaladas podia esconder tudo e jogar para frente. Fez tão bem o ilusionismo que o país lhe deu uma segunda chance. Agora, ela está no fundo do poço e tem três anos e meio para corrigir o que fez no mandato passado. E ela sabe o que fez.

O governo ignorou alertas e culpou a imprensa, que trazia a mensagem de que a equipe econômica estava fazendo manobras perigosas. Foram muitos os avisos dos especialistas em contas públicas e dos jornalistas de que os números que o governo divulgava embutiam irregularidades. Hoje, Dilma se vê diante do Tribunal de Contas, com a exigência inédita de se explicar.

O Congresso se rebela, faz pauta própria, e é uma fonte de incerteza na política e na economia. É assim mesmo que acontece no presidencialismo de coalizão. O poder do chefe do executivo atrai; a perda do poder afugenta. O governante com baixa popularidade tem pouca capacidade de administrar a coalizão porque os aliados procuram outros focos de poder.

O ponto em que Dilma está só se compara com o expresidente Collor. O momento de baixa popularidade de Itamar Franco foi novembro de 1993, oito meses antes do Plano Real, quando a inflação subia fortemente, mas foram 41% de ruim ou péssimo. O pior momento de Fernando Henrique Cardoso foi em setembro de 1999, quando, após a desvalorização brusca do real em janeiro, o país entrou em ambiente recessivo, e a inflação subiu. Chegou a 56% de ruim ou péssimo ao som de “Fora FHC”, comandado pelo PT.

O ajuste, que ela negou, está tendo que fazer quando tem pouca influência sobre o Congresso, e a inflação está nas ruas comendo a renda dos brasileiros.

Vinicius Torres Freire - Governo péssimo, propaganda ruim

• Inflação e pindaíba do governo indicam piora do arrocho, mas Planalto se ocupa de dourar a pílula

- Folha de S. Paulo

A reação dos líderes políticos de Dilma Rousseff à notícia do Datafolha de que o governo é detestado por dois terços dos eleitores mostra o quanto essas pessoas estão desnorteadas. Estão sendo tomadas "medidas para reverter a situação", dizem: financiamento da agricultura (Plano Safra), concessões de infraestrutura, Minha Casa Minha Vida 3 e, agora, um "grande plano" de reforma agrária.

Parece alguém a dizer "sim, a casa está pegando fogo, mas vamos instalar uma torneira e colocar uns móveis novos no incêndio". Não cola nem como propaganda.

Compare-se essa conversa com a discussão econômica mais básica do momento: 1) A inflação e o arrocho de juros; 2) O fracasso parcial do reequilíbrio das contas do governo e a situação fiscal sombria dos próximos dois anos.

A "agenda positiva" do governo, para empregar essa expressão sebosa, não faz coceira nesses problemas. Está claro que o governo precisa ter planos além de arrochos, sem o que, aliás, nem os arrochos vão prestar. Mas reforma agrária, seja lá o que ainda for isso, e casa popular não têm nada a ver com tal programa econômico maior. De resto, nem vai haver dinheiro para tanto. Enfim, se o governo conseguir dar sentido prático à parte razoável do plano de concessões, seu efeito começará lá pela metade de 2016.

Pelas estimativas atuais, a regressão econômica que começou em 2014 vai além de 2016 (haverá redução do PIB, da renda ou produção média por cabeça). Se tudo der certo, zeram-se as perdas ao final de 2017. Ou seja, em 2018, teremos voltado a 2013, correndo o risco de estagnação crônica. Esse é o tamanho do problema, não a agenda de relações públicas da presidente.

Voltando à vaca fria no brejo de agora, considere-se a inflação.

A estimativa de inflação para este 2015 aumenta desde o início do ano: foi de 6,6% para 9%. A inflação prevista para 2016 continua no entanto mais ou menos na mesma desde janeiro. Era então de 5,7% e está em 5,5% desde o início de maio.

Portanto, a máquina de cuspir números dos economistas e suas calibragens arbitrárias diz pelo menos que a barriga de inflação deste ano será queimada na esteira do aumento de juros e pela recessão musculosa. Ou seja, o aumento de 2,4 pontos na expectativa de inflação para 2015 não será repassado para a inflação de 2016 graças a arrochos e crenças menos degradadas sobre o futuro.

Mas tudo isso quer dizer também que haverá ainda arrocho e recessão maiores ou duradouros para levar a inflação à meta. Muito mais arrocho para chegar à meta em 2016 (plano do BC); arrocho ainda para fazê-lo em 2017.

Quanto ao plano modesto de reequilibrar as contas do governo, ele faz água, pois a receita não sobe e Dilma 1 deixou despesas horríveis. Isso quer dizer que o arrocho de gastos e a derrama de impostos ainda vão longe.

Esses consertos rudimentares seriam facilitados se houvesse medidas extremas e imediatas (alta forte de impostos, privatizações, desvalorização extra do real) e um plano maior e de prazo mais longo (revisão duradoura de gastos, metas menores de inflação, mudanças institucionais em vários mercados). Em suma, o que os governos do PT, Dilma 1 em particular, não fizeram ou prejudicaram nos últimos sete anos, por aí.

Marcos Guterman - A precária democracia brasileira

- O Estado de S. Paulo

Os brasileiros gostamos de acreditar que vivemos numa democracia plena e madura. São abundantes, no entanto, os incômodos sinais da precariedade do regime. Eleições regulares e limpas, apenas, não são suficientes para qualificar um regime como democrático – a autocracia venezuelana, campeã mundial de consultas populares, talvez seja o melhor exemplo disso.

Tampouco Poderes aparentemente independentes bastam para que se possa considerar completo o ciclo de maturidade democrática. Nem mesmo a existência de uma imprensa livre autorizaria a conclusão de que vivemos num ambiente de democracia estável.

Na verdade, a construção de uma democracia digna desse nome apresenta todos esses aspectos, entre outros tantos, mas apenas como uma consequência natural do que se poderia chamar de “cultura democrática”. E esta o Brasil está ainda muito longe de ter, principalmente porque o Estado ainda é tratado como patrimônio pessoal de quem detém o poder.

Cultura democrática pode ser definida como a que privilegia a autonomia dos indivíduos para se organizar, sem interferência ou dependência do Estado, senão como aquele que garante a paz social e o cumprimento das leis. O cientista político Francisco Ferraz dedicou a essa importante questão seu mais recente livro, Brasil: A Cultura Política de uma Democracia Mal Resolvida (AD2000 Editorial), e lá se lê que o País ainda não se democratizou de fato, pois nenhum dos avanços circunstanciais que o Brasil teve conseguiu mudar “essa fixação brasileira pelo Estado patrimonialista, centralizador e intervencionista que nos acompanha desde o descobrimento”.

Para entender o atual estágio da democracia no Brasil, Ferraz faz uma anatomia dessa forma de governo ao longo da História ocidental e analisa as principais experiências ditas democráticas, qualificando-as de acordo com a solidez institucional que apresentam. Aqueles que consideram o Brasil uma democracia vigorosa, forte o bastante para resistir à tentação autoritária subjacente aos projetos messiânicos que de tempos em tempos se nos apresentam, terão na leitura desse ensaio uma desconfortável sensação de que estão enganados.

A fragilidade democrática brasileira não é um caso isolado. Pode-se dizer, como faz Ferraz, que a democracia liberal, representativa e constitucional, tida como o modelo para o qual convergiriam naturalmente todas as sociedades civilizadas, não passou “de uma exceção, quase uma anormalidade” nos últimos dois séculos. Isso porque a democracia é, dentre as soluções de governabilidade, a de construção mais penosa – desde que, claro, estejamos a falar de uma democracia verdadeiramente estável, e não de uma pseudodemocracia, cuja solidez é apenas aparente.

Para Ferraz, grande parte da classe política e dos cidadãos brasileiros tem “uma visão simplificadora, idealizada e infantilizada de democracia”. Essa visão, diz ele, dá margem a “soluções fáceis”, quase sempre na direção do paternalismo e do autoritarismo. Basta ver a quantidade de Constituições e de reformas constitucionais que o Brasil já teve para perceber que, de fato, o padrão nacional é de instabilidade.

No Brasil alteram-se regras essenciais ao sabor das conveniências. A atual “reforma política”, cujo debate está envenenado por interesses particulares dos principais protagonistas, prova essa fragilidade. Não se busca uma reforma para consolidar instituições democráticas, mas para atender a objetivos passageiros e paroquiais. É uma reforma que, inevitavelmente, resultará em algo que deverá ser reformado num futuro próximo, perpetuando o improviso.

Ademais, aqui não se lida com o contraditório como próprio das democracias, travado no âmbito das instituições. O debate tem sido pautado nas ruas e vem sempre carregado de ódio, numa polarização inconciliável. A busca pelo poder tornou-se o valor central, a despeito de qualquer outra consideração. Não à toa, o centro do turbilhão político brasileiro é ocupado há anos pelo PT, que, embora se jacte de seu espírito democrático, nunca aceitou o contraditório, sempre foi radicalmente contrário a todas as iniciativas dos governos aos quais fez oposição e, uma vez no poder, julgando-se portador da verdade histórica, tratou de desqualificar seus opositores como inimigos do próprio Estado.

O problema é o que o PT e seus assemelhados entendem por democracia. Com a leitura do trabalho de Ferraz, fica claro que a democracia ao gosto petista é a flácida o bastante para lhe permitir aparelhar o Estado e sujeitar o funcionamento das instituições a seus imperativos, quase sempre ao arrepio dos interesses nacionais. Em democracias desse tipo, diz Ferraz, “tudo está sempre em questão e nada é sagrado para todos, o consenso mínimo é frágil e a independência e a autonomia das instituições estão sempre expostas ao risco de serem subordinadas a interesses setoriais, partidários e de curto prazo”.

Quando o controle do poder se vê sob ameaça, a estratégia é minar o sistema representativo em si mesmo. É sintomático que em épocas de crise, como a atual, os petistas levantem a bandeira da democracia dita “direta”. Na narrativa que lhes é conveniente, seria uma consequência natural do suposto avanço da consciência democrática dos brasileiros, traduzido pelas manifestações de junho de 2013.

Mas, como mostra Ferraz, o apelo a ações diretas para articular as insatisfações e os protestos “é sempre um indicador de que as instituições políticas não funcionam satisfatoriamente”. E adverte: “Muitos, ingenuamente, consideram que esses são momentos áureos da democracia.

Não são”. O poder deve ser entregue a quem possa ser responsabilizado por seu mau uso – e a massa é, por definição, inimputável. Eis por que a democracia direta, defendida como a forma mais pura e radical de democracia, sempre serviu apenas dar um verniz de legitimidade a tiranias.

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*Marcos Guterman é jornalista e historiador

Rubens Barbosa - Afinidades Ideológicas

– O Globo

• Visitante venezuelano foi recebido como chefe de Estado

Com o aprofundamento da recessão econômica e o agravamento das tensões políticas, a situação na Venezuela deteriora-se rapidamente. A queda do preço do petróleo, o único produto relevante na pauta de exportação do país, a escassez de alimentos, as restrições políticas, com a prisão de opositores, e às liberdades de expressão, reconhecidas pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, fora as sanções dos EUA por essas violações e a demora do governo em marcar data para as eleições parlamentares ainda este ano, compõem o quadro de instabilidade existente. Caso essa situação se mantenha, não é difícil prever o futuro do governo de Nicolás Maduro. Final infeliz.

Nesse contexto, na última semana dois acontecimentos tiveram grande repercussão no Brasil, com sério impacto negativo nas relações bilaterais, não fosse o nosso um governo complacente com regimes autoritários.

A vinda ao Brasil do poderoso e controvertido Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, sem que o Itamaraty tivesse sido oficialmente informado, desperta muitas interrogações.

 O visitante foi tratado como chefe de Estado, tendo sido recebido pelo ex-presidente Lula, pela presidente Dilma Rousseff, pelos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado e por alguns ministros. A alegada justificativa da visita foi pedir apoio de empresas e do governo brasileiro para o fornecimento de alimentos e medicamentos, escassos no mercado venezuelano. O real motivo da viagem, entretanto, talvez nunca se saiba. Estará ligada à eventual saída de Maduro? Não deixa de ser estranho o visitante ter sido recebido em tão alto nível no momento em que pesam sobre Cabello acusações feitas por autoridades dos EUA de que ele seria um dos líderes do tráfico internacional de drogas associados às Farc colombianas.

O secretário de Estado adjunto dos EUA, William Brownfield, disse que as informações sobre os alegados laços com o narcotráfico são consistentes com a análise de Washington acerca da penetração dos cartéis na Venezuela. Se o presidente da Assembleia Nacional fosse aos EUA, possivelmente seria detido para interrogação...

A ida da delegação de senadores brasileiros a Caracas não se limitava à intenção de ver presos políticos e opositores do governo Maduro, como o moderado Henrique Capriles. Não foi noticiado, mas o presidente do Senado fez solicitação formal ao embaixador brasileiro para que agendasse encontros da comitiva com autoridades do governo. Bastante incomodado com a presença da missão humanitária, o governo venezuelano frustrou a visita, organizando manobras agressivas na chegada, desproporcionais se comparadas às limitações impostas a Felipe González, ex-primeiro-ministro da Espanha, e a outras respeitáveis figuras políticas. A hostilidade com que os senadores foram recebidos faz com que seja este talvez o mais delicado dos incidentes diplomáticos na aérea externa dos últimos anos. Difícil imaginar que a Embaixada do Brasil – que prestou apoio logístico, mas abandonou os senadores à própria sorte ao retirar o diplomata que deveria acompanhá-los – não soubesse o que estava sendo preparado para a comitiva.

As afinidades ideológicas com a Venezuela, proclamadas pelo então presidente Lula, foram explicitadas no apoio irrestrito às ações políticas de Hugo Chávez: “Nunca a Venezuela foi tão democrática”. E pela nossa participação nas campanhas de eleições presidenciais, na suspensão do Paraguai para permitir o ingresso da Venezuela no Mercosul, nas negociações fracassadas com a PDVSA para a construção da Refinaria Abreu e Lima (que tanto prejuízo causou à Petrobrás), no financiamento de projetos por intermédio do BNDES (a Venezuela foi o país que mais recebeu financiamento do banco). Mais recentemente, demonstrando o relacionamento estreito entre os governos do PT e o regime bolivariano de Maduro, Dilma condenou as sanções dos EUA por causa das restrições aos direitos humanos e, no comunicado final da cúpula da União Europeia com os países latino-americanos, evitou fazer referências negativas à Venezuela.

Por estranho que pareça, a FAO, presidida por petista amigo de Lula, concedeu prêmio àquele país pelo sucesso (sic) na luta contra a fome. E a Unasul, com forte influência brasileira, pouco fez para mediar o confronto entre o governo e a oposição e para que fosse marcada a eleição para a Assembleia Nacional.

O Congresso Nacional repudiou os atos de franca hostilidade aos senadores brasileiros. Já o governo brasileiro evitou condenar os acontecimentos. Apenas, via Itamaraty, lamentou os incidentes que afetaram a visita à Venezuela da Comissão Externa do Senado e prejudicaram o cumprimento da programação prevista nesse país, acrescentando que são inaceitáveis atos hostis de manifestantes contra parlamentares brasileiros. À luz das tradicionais relações de amizade entre os dois países, conclui a nota, o governo brasileiro solicitará ao governo venezuelano, pelos canais diplomáticos, os devidos esclarecimentos sobre o ocorrido. Em outras palavras, a presidente Dilma não vai interferir, deixando à Chancelaria o encargo de pedir burocraticamente explicações sobre o episódio.

Esse fato político põe o governo brasileiro mais uma vez na defensiva e expõe as contradições entre a plataforma do PT na política externa e a real disposição do governo na defesa do interesse nacional. Normalmente, seria o caso de chamar o embaixador para consultas em Brasília, mas essa possibilidade, tudo indica, não se vai concretizar. À luz do que acontece na Venezuela, fica cada vez mais difícil para os países sul-americanos, em especial o Brasil, evitar recorrer à cláusula democrática do Mercosul e da OEA.

O governo brasileiro precisa demonstrar que está do lado da democracia e da defesa de seus representantes.

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*Rubens Barbosa é presidente do conselho de comércio exterior da FIESP

Elba Ramalho - Vem Morena

João Cabral de Melo Neto - A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, freqüentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições de pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.