quarta-feira, 22 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

Em um sistema de produção onde toda a continuidade do processo de reprodução depende do crédito, quando este acaba subitamente e somente transações com dinheiro passam a ser aceitas, é inevitável que ocorra uma crise, uma tremenda demanda por meios de pagamento. É por isso que, à primeira vista, a crise inteira parece ser somente uma crise de crédito e de moeda. E de fato trata-se apenas da conversibilidade de letras de câmbio em dinheiro. No entanto, a maioria destes papéis representam compras e vendas reais, cuja extensão – para muito além das necessidades da sociedade – é, afinal, a base de toda a crise. Ao mesmo tempo, há uma quantidade enorme destas letras de câmbio que representam mera especulação, que agora revela sua face e colapsa; especulação fracassada com o capital de outras pessoas, com o capital-mercadoria depreciado ou invendável, ou com ganhos que nunca mais poderão ser realizados. Todo esse sistema artificial de expansão forçada do processo de reprodução evidentemente não pode ser resolvido com um banco, por exemplo, o Banco da Inglaterra, entregando a todos esses especuladores o capital que lhes falta através de seus títulos, comprando mercadorias depreciadas a seus antigos valores nominais. Aliás, é nesse momento que tudo começa a parecer distorcido, já que nesse mundo de papel, o preço real e seus fatores reais desaparecem, deixando
visível somente metais, moedas, cédulas, letras de câmbio e títulos.


(Karl Marx, O Capital, vol. 3, cap. XXX.)

Moraes Moreira: Uma declaração de amor ao Rio


EM FORMA DE “CORDEL” UMA DECLARAÇÂO DE AMOR AO RIO E O MEU APOIO TOTAL À CANDIDATURA GABEIRA:

Pelo Rio de Janeiro
Declaro meu bem querer
Como tantos Brasileiros
Que aqui vieram viver,
Feliz é quem tem a manha
O jeito de alcançar
O topo dessa montanha
E a profundeza do mar

Provoca tanta cobiça
Essa cidade mulher
Encanta e nos enfeitiça
Como esse Rio dá pé!
Quem ama assim essa terra
Sabe o milagre que faz
Enxerga além dessa guerra
Os horizontes da paz

O orgulho bate no peito
Eu faço o V da vitória,
Que seja o nosso prefeito
Alguém que tenha uma história
Que venha noutra batida
Mudando o rumo da prosa
Em prol da nossa querida
Cidade maravilhosa

Sou de São Sebastião
Um verdadeiro devoto
Com muita satisfação
Declaro aqui o meu voto:
Sendo eleitor consciente
Meu nome é Moraes Moreira
Eu digo pra toda gente
Meu candidato é GABEIRA.

A bola fora de Paes

Pedro Motta Gueiros
DEU EM O GLOBO

Filho de Saldanha: candidato é retrógrado

Um pouco da polêmica que João Saldanha provocou em vida - seja como técnico de futebol, comentarista ou político - ressurgiu na campanha do segundo turno do Rio. Anteontem, o candidato do PMDB, Eduardo Paes, afirmou que seu adversário, Fernando Gabeira (PV), "lembra até o João Saldanha. Fica comentando as propostas que faço e não apresenta nenhuma". Um dia depois, parentes do "João Sem Medo" trataram de revivê-lo ao entrar no confronto com o peemedebista e manifestar apoio ao rival.

- É um absurdo que um candidato à prefeitura do Rio não saiba quem é João Saldanha e se refira a ele de maneira irônica. Isso nos revolta - disse Elza Saldanha Milliet, de 85 anos, irmã do ex-técnico do Botafogo e da seleção brasileira. - O Eduardo me parece que é uma pessoa que está por fora de tudo. Se esquivou além da conta. É uma coisa feia porque o João já está morto.

A família gosta de lembrar o temperamento forte de Saldanha. Quando comandava a seleção brasileira, João pôs Pelé no banco e enfrentou o regime militar ao se opor à convocação do atacante Dario, indicada pelo então presidente, o general Emílio Garrastazu Médici. Meses depois, o técnico foi afastado e Dario chegou à seleção junto com o técnico Zagallo.

Em vez de chuteiras, seu filho do mesmo nome calça sapatilhas, mas conserva o espírito de luta e a paixão pelo Botafogo. Para o coreógrafo João Saldanha, de 49 anos, a declaração mostra o descompasso de uma candidatura sob pressão.

- Isso revela que o Eduardo Paes está desesperado e que também não anda em muito boa companhia. Usar o nome do papai para atacar o Gabeira, sendo ele um político moderno, como se diz, é uma ação retrógrada, uma tática eleitoral atrasada - disse o filho, satisfeito com o desfecho do episódio. - O Gabeira já respondeu brilhantemente, ele sabe que tem o apoio de toda a família, e, quem sabe agora, de toda a torcida botafoguense. Acho que o Eduardo está precisando de mais alguns anos para amadurecer.

Em carta, assinada por Elza, pelas filhas Vera, Sonia e Ruth e pelo sobrinho Raul, a família responde à pergunta que apresenta no título: "Quem foi João Saldanha?". Além de responsável pelo lendário time do Botafogo de 1957, é apontado como o técnico que montou a base da seleção tricampeã do mundo em 1970. Na política, está registrado seu trabalho na defesa de camponeses e operários e sua liderança na construção do "maior projeto de democratização esportiva" do Brasil, o "Recriança" que atendeu mais de 500 mil crianças. O texto termina dizendo que "assim era João Saldanha, personagem que Eduardo Paes parece desconhecer."

Para a única dos cinco irmãos que ainda está viva, o desconhecimento do candidato, no entanto, é circunstancial.

- Se o João estivesse vivo, ele não ia abrir a boca - disse Elza.

Procurado, Paes não respondeu às declarações, pois estava num debate.

Dito pelo não dito


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Pode acontecer qualquer coisa na disputa pelas presidências da Câmara e do Senado em fevereiro de 2009, menos o acordo de rodízio firmado há dois anos entre PT e PMDB ser cumprido na sua integralidade.

Antes de prosseguirmos, uma explicação sobre a relevância do tema: os próximos presidentes das duas Casas do Congresso comandarão o Parlamento em pleno processo de sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva, cujo sucesso em boa medida depende da preservação da harmonia na aliança partidária que sustenta o governo e tem naqueles dois partidos os principais parceiros.

Se uma briga os tornarem incompatíveis, a sustentação do projeto de Lula de eleger o sucessor corre sério risco. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, começou a perder a chance de ser substituído por um aliado dois anos antes, quando os então senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho quase se pegam a tapas no plenário.

A rixa quebrou o equilíbrio ecológico na aliança, repercutiu na disputa pelas presidências do Legislativo no ano seguinte, a combinada divisão dos cargos entre PMDB e PFL foi para o espaço, o PSDB fez de Aécio Neves presidente da Câmara, o PFL reagiu e ali considerou encerrado seu compromisso de lealdade com Fernando Henrique.

Daí surgiu a candidatura de Roseana Sarney, cujo fracasso foi atribuído pelo PFL a subterfúgios engendrados pelo candidato tucano José Serra e o resto da história está registrado nos anais da dispersão do campo governista até a derrota final para Lula.

Evidentemente, o atual presidente não vai querer que lhe aconteça o mesmo e, por isso, é de se supor que empenhe todos os esforços para manter o PMDB, que sai das urnas mais forte do que nunca, na sua base.

É este partido cheio de respaldo e disposição que desde já se rebela contra a eleição do senador petista Tião Viana para a presidência do Senado, conforme o anteriormente combinado. Pertence ao mesmo partido o atual presidente da Casa, Garibaldi Alves, que diz o seguinte sobre o acerto: “Acordos feitos com muita antecedência têm um risco”. Na visão dele, o pacto em questão “é um sério candidato a zebra”.

Garibaldi mesmo está no páreo. Fez uma primeira consulta sobre suas possibilidades legais e não teve uma boa resposta. Mas vai insistir, sob o argumento de que apenas cumpre o restante do período para o qual foi eleito Renan Calheiros. “Mudou o homem, mas o mandato é o mesmo.”

O próprio Calheiros trabalha contra Viana, põe na roda o nome de José Sarney (uma hipótese sempre levantada quando há sinal de confusão nas proximidades) e o PMDB, com isso, quer dizer uma de duas: ou que se acha no direito de dar as cartas e, portanto, reivindicar o comando das duas Casas ou que atira ao mar a candidatura de Michel Temer a presidente da Câmara.

Esta última é bem pouco provável. Primeiro, porque Temer é simplesmente o presidente do partido e, segundo, porque ele guarda na gaveta da escrivaninha o acordo assinado por escrito. Nele, em troca do apoio do PMDB a Arlindo Chinaglia (atual presidente), o PT se compromete a apoiar um pemedebista para o delicado período 2009/2010.

No caso de quebra do escrito, raciocinemos: fica na desvantagem o PMDB, cuja mercadoria será disputada a tapa no mercado da sucessão, ou o PT, cujo poder central estará em jogo e não tem nada a oferecer?

Até por uma questão de custo-benefício, se não for tudo resolvido na santa paz, Lula, na posição de quem parte e reparte, ficará com quem puder lhe propiciar a melhor parte.

Discretamente

Sem dar ao cenário o nome de confronto, o presidente Lula e o governador José Serra transferiram para São Bernardo o enfrentamento que não houve na capital de São Paulo.

Desde o primeiro turno, Lula aposta todas as fichas na eleição de Luiz Marinho. Agora, no segundo, Serra intensificou presença em prol da candidatura de Orlando Morando.

O petista é o favorito e talvez por isso não interesse aos tucanos chamar atenção para a existência do embate “de cima”. Mas se porventura a maré virar certamente farão grande alarde, pois Marinho é a última - e única - chance de o presidente creditar uma vitória em sua conta nessas eleições.

Além da cidade de origem e moradia de Lula, São Bernardo foi palco do maior investimento eleitoral do presidente que lá esteve inúmeras vezes.

Ironia do destino

Leonardo Quintão, o pemedebista que tirou do governador Aécio Neves a oportunidade de eleger Márcio Lacerda no primeiro turno em Belo Horizonte, foi escolhido candidato na convenção do partido com o apoio de aliados do governador.

Temendo a vitória do oponente Sávio Souza Cruz, a área de influência de Aécio no PMDB se mobilizou em prol do nome de Quintão, cujo grau de oposicionismo é próximo do zero e o potencial de perturbação na campanha era considerado, por isso, muito reduzido.

Relações que inspiram cuidados


Rosângela Bittar
DEU EM O VALOR ECONÔMICO


O governo está esperando a volta de deputados, senadores e ministros da campanha de eleição dos prefeitos para começar a juntar os pedaços da aliança que dá sustentação à gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A previsão que se faz no Palácio do Planalto é que será necessário um trabalho forte de reconstrução antes de convocar os partidos amigos a seguirem com a agenda do governo no Congresso.

Ao descrever esta agenda, o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, cita duas prioridades de interesse do governo: a votação dos projetos de Fundo Soberano e de Reforma Tributária, nesta ordem. Há, também, o Orçamento para 2009, cuja aprovação, em todos os anos, serve aos mais baixos instintos do clientelismo de alguns partidos desta aliança.

As medidas de combate à crise econômica mundial já estão sendo negociadas, inclusive com a oposição, pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e até o momento, pelas reações, com sucesso.

Mas embora o ministro não admita que estas questões estejam na agenda do governo, há polêmicas no forno das intenções de líderes governistas no Congresso. Já se discute, por exemplo, a possibilidade de instituição de uma Constituinte para promover, entre outras mudanças, a reforma política. Aquela em que, para um grande grupo do PT, está sempre subentendida a possibilidade do terceiro mandato para o presidente da República. Menciona-se, ainda, outro projeto originado nas más idéias fixas: a recriação da CPMF, por intermédio do novo nome de contribuição social. Empreitada em que o governo precisará de uma base não só coesa como muito feliz.

Tanto para os mais, quanto para os menos polêmicos, o presidente precisará reunir em torno de si a base de quase 400 parlamentares. Lula não se envolveu nas disputas entre aliados no segundo turno das eleições municipais - ficou restrito aos amigos do peito que têm adversários de oposição - mas é com grande expectativa que aguarda o desenlace nas cidades onde os partidos que formam a base de apoio no Congresso concorrem entre si agora e passaram por uma refrega dura no primeiro turno.

O PSB, um dos principais partidos aliados de Lula que têm candidato à sua sucessão, precisa absorver, antes de fazer as pazes, principalmente a guerra aberta pelo PT nacional contra a aliança com o PSB em torno da candidatura de Márcio Lacerda em Belo Horizonte. Embora a sua disputa seja com o PMDB, o problema real foi e ainda é dentro do próprio PT, cuja cúpula negou apoio aos aliados.

A eleição em Porto Alegre, outro exemplo sobre a complexidade das relações a serem reconstituídas, possibilitou ao PT criar constrangimentos com vários partidos da aliança lulista, com o PMDB, na disputa direta, e com o PSB e o PCdoB, que ficaram unidos contra os petistas, esgarçando as relações desde o primeiro turno. Em São Paulo, o PCdoB, outro aliado histórico, só foi chamado a integrar a chapa de Marta Suplicy, como vice, depois que o PT perdeu o PMDB e o PR. No Rio, o aliado PMDB está na disputa final depois de um primeiro turno em que não houve possibilidade de conquistar o PT para a aliança municipal que negou apoio tambem ao PCdoB.

As campanhas de primeiro turno apresentaram desgastes acentuados dentro aliança lulista. Provavelmente premido por uma destas situações, a de Fortaleza, onde o PT manteve, desde 2004, um jogo duro com aliados, é que no fim de agosto, portanto ainda no início da campanha, o deputado Ciro Gomes (PSB), em viagens pelo Brasil, já previa que dificilmente a base de hoje ficaria unida em 2010. Um mês depois de Ciro foi a vez de o líder do PSB no Senado, Renato Casagrande, fazer o mesmo alerta. Ela previa maior facilidade para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolher um candidato e ir em frente com ele do que amarrar os apoios dos partidos aliados a esta candidatura do presidente à sucessão.

São praticamente 15 partidos nesta aliança: PT, PMDB, PP, PSB, PDT, PR, PCdoB, PTB, PSC, PRB, PTC, PCB, PTdoB, PMN, PV (em parte) e PHS. Entre todos eles foram registrados problemas durante a campanha, mas nada que se aproxime do que ocorreu entre os dois principais e maiores, o PMDB e o PT. Governadores, ministros, prefeitos, líderes nacionais e regionais se engalfinharam, disputaram do abraço presidencial às verbas federais, levando as campanhas a transcorrerem da pior forma possível.

Salvador, em segundo turno, é uma eleição considerada emblemática para o Palácio do Planalto no que diz respeito à possibilidade de reconstrução da aliança. Mais delicada do que qualquer outra em que o maior partido da base e mais bem sucedido nestas eleições, o PMDB, enfrenta o partido do presidente. Uma eleição tensa, disputada voto a voto, com um risco forte de deixar seqüelas. A expectativa do Palácio do Planalto quanto à volta do PMDB à base de apoio ao presidente, e à fidelidade à agenda de interesse do governo no Congresso, está inteiramente voltada ao que se passa na Bahia.

Unidos para derrotar o adversário comum em 2006, PMDB e PT estão agora em campos opostos liderados, cada um, por um líder importante na equação política do governo federal. Geddel Vieira Lima (PMDB), ministro da Integração Nacional, considerado o novo rei da Bahia, que coroou 130 prefeitos nesta disputa municipal, trabalha para reeleger o atual prefeito da capital, João Henrique, do PMDB. Jacques Wagner, governador do Estado, ex-ministro do governo Lula, eleito com o apoio de Geddel, lidera a campanha do PT com o candidato Walter Pinheiro. O ambiente político é tenso em Salvador.

O PT, com sua militância que se agiganta em finais de campanha, é um partido que tem formas agressivas de buscar o voto. O PMDB, pela circunstância de ser o seu chefe quem é, está numa situação considerada delicada e sabe que não pode cometer erros que inviabilizem, desde agora, o início da articulação do dia seguinte tendo no horizonte a sucessão presidencial. No Palácio do Planalto sabe-se que, em campanha, o exagero é lugar comum, mas vê-se como delicada a situação na Bahia. Evita-se definir caminhos para reaglutinação de forças antes de ver como os dois partidos sairão desta campanha em Salvador. É ali que se joga a sorte da aliança.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

O vento rondou


Nas Entrelinhas: Por Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A crise financeira mundial volatilizou o otimismo e disseminou a incerteza. Esse “fator psíquico” pouco influiu no resultado das eleições municipais, mas pode ser determinante na sucessão do presidente Lula

É temerário antecipar resultados eleitorais, mesmo com pesquisas idôneas nas mãos. Principalmente quando a eleição está muito polarizada e há um candidato com uma linha ascendente, ainda que esteja atrás do favorito. O imponderável, na reta final das campanhas, é o voto dos eleitores que se mantiveram indiferentes ao debate político e entram no processo às vésperas do pleito: escolhem um candidato e desequilibram a disputa. Muito do que está acontecendo no segundo turno se deve à ocorrência desse fenômeno.

As capitais

Feita a ressalva, vamos aos prognósticos. Em São Paulo, é previsível a vitória do prefeito Gilberto Kassab (DEM) contra Marta Suplicy (PT) apesar do empenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor da petista. No Rio, Fernando Gabeira (PV) mantém vantagem em relação a Eduardo Paes (PMDB), um cristão novo do governismo. Em Belo Horizonte, o prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB) tentam reverter a dianteira de Leonardo Quintão (PMDB) sobre Márcio Lacerda (PSB), mas está difícil. O prefeito José Fogaça (PMDB) caminha para se reeleger em Porto Alegre, derrotando a petista Maria do Rosário. Em Salvador, João Henrique (PMDB) também marcha para a reeleição, com vantagem em relação a Walter Pinheiro (PT).

Amazonino Mendes (PTB), em Manaus, atropelou o prefeito Serafim Corrêa (PSB), que está conseguindo a proeza de perder a reeleição. Em Belém, Duciomar Costa (PTB) e José Priante (PMDB) estão em empate técnico. Já em São Luís, José Castelo (PSDB) manteve o favoritismo em relação a Flávio Dino (PCdoB). Em Cuiabá, Wilson Santos (PSDB) deve se reeleger, derrotando Mauro Mendes (PR). Camilo Capiberibe (PSB) também confirma seu favoritismo contra Roberto Góes (PDT), em Macapá. E Dario Berger (PMDB), cujo adversário é o ex-governador Esperidião Amin (PP), provavelmente será mais um prefeito reeleito, em Florianópolis.

Nessas capitais, o foco dos debates foi a administração local. Não houve “nacionalização” do voto do eleitor. O fato de Kassab e Gabeira liderarem as pesquisas não significa que o povo está mandando um recado malcriado para o presidente Lula. Para o bem ou para o mal, a relação dos candidatos com os governadores José Serra (PSDB) e Sérgio Cabral (PMDB), respectivamente, teve mais peso nas eleições. A tese de que qualquer poste pode ser eleito se tiver apoio das máquinas de governo também foi rejeitada pelos eleitores. O candidato, mesmo ungido por poderes federal, estadual e/ou municipal, precisa provar que tem talento político e vocação eleitoral.

O rumo

Por tudo isso, é chover no molhado mitigar o papel do presidente Lula nas eleições municipais. Seu prestígio foi devidamente capitalizado pela base governista, mas não foi suficiente para garantir a vitória dos candidatos do PT em qualquer circunstância. O PMDB, por exemplo, soube faturar melhor a participação no governo e está sendo o partido mais bem-sucedido nas eleições. Manteve sua histórica implantação nos pequenos e médios municípios e voltou a disputar o poder em grandes cidades. Neste segundo turno, deve fazer de quatro ou cinco prefeituras de capitais.

Entre o primeiro e o segundo turnos, o que mudou não foi o eixo do debate eleitoral, mas a conjuntura econômica. Por causa da crise financeira, o real sofreu uma desvalorização, o crédito ficou mais difícil, os investimentos subiram no telhado. A economia crescerá menos e o fantasma do desemprego ronda comércio e indústria. Lula faz o que pode para manter o discurso do “nunca antes neste país”, mas crise é maior do que o seu carisma. A capacidade de absorvê-la dependerá mais do crédito oficial e do gasto público direcionado corretamente.

Na verdade, a crise financeira mundial volatilizou o otimismo e disseminou a incerteza. Esse “fator psíquico” pouco influiu no resultado das eleições municipais, mas pode ser determinante na sucessão presidencial em 2010. Tudo vai depender do ambiente econômico e do perfil dos candidatos para enfrentá-lo. Por enquanto, a crise já abalou a expectativa de poder em torno da candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que mergulhou na “marolinha”. Ao mesmo tempo, alimenta as articulações petistas para recuperar das cinzas, como fênix, a candidatura do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci (PT-SP) à Presidência da República. É que o vento rondou e já não se sabe para que lado soprará.

Debates

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS



À medida que a comunicação eleitoral foi se profissionalizando e se tornando mais e mais parecida com a propaganda de produtos e serviços, os debates na televisão se tornaram uma das poucas maneiras através das quais os eleitores comuns podem ver os candidatos mais parecidos com o que são na vida real

Nas cidades onde se disputa o segundo turno das eleições municipais, os últimos dias estão sendo marcados por uma sucessão de debates entre os candidatos nas emissoras de televisão, na base de dois ou mais por semana. O número é maior que no fim do primeiro turno, mas nem tanto. Naqueles dias, como agora, cada uma organizou o seu.

Debates entre candidatos, transmitidos ao vivo, fazem parte da vida democrática moderna. Alguns foram memoráveis, alterando tendências de eleições que pareciam consolidadas ou afirmando lideranças novas, que os eleitores aprenderam a respeitar. Quem estuda a história política se lembra dos célebres debates entre John Kennedy e Richard Nixon, em 1960, nos quais aquela eleição americana se definiu.

Em nossa própria experiência, tivemos alguns decisivos, seja em eleições estaduais ou presidenciais. De todos, talvez o mais crucial foi o que aconteceu no fim do segundo turno da eleição de 1989. Há quem considere que foi nele que Collor assegurou sua vitória sobre Lula, que teve, naquela noite, seu pior momento de todas as eleições que disputou.

Os eleitores, de uma maneira geral, dizem se interessar muito por eles e considerá-los uma das melhores oportunidades para tomar suas decisões de voto, colocando-os, nas pesquisas, entre as principais formas para conhecer e avaliar os candidatos. Mesmo quem não se interessa muito por política acha que são relevantes.

As razões são previsíveis. À medida que a comunicação eleitoral foi se profissionalizando e se tornando mais e mais parecida com a propaganda de produtos e serviços, os debates na televisão se tornaram uma das poucas maneiras através das quais os eleitores comuns podem ver os candidatos mais parecidos com o que são na vida real. Fora dos estúdios, sem poder ler o que dizem, menos produzidos, ficam mais naturais (ou menos artificiais).

Por tudo isso, é pena que os debates entre candidatos na televisão continuem a sofrer os problemas que atualmente têm e que exista tão pouca disposição para resolvê-los. Enquanto sobra, em nossos legisladores, vontade para enfrentar questões sem nenhum significado (minúcias irrelevantes sobre o que se pode ou não fazer nas campanhas, por exemplo), ninguém se preocupa em criar condições para que algo tão importante e tão valorizado pelos eleitores possa cumprir suas finalidades.

A mais urgente é acabar com o falso igualitarismo que obriga as emissoras a convidar todos os que se registram na eleição, entre os quais há de tudo. Dele apenas decorre que os eleitores ficam privados de conhecer melhor os verdadeiros candidatos, vendo desfilar bizarrices que não possuem qualquer base na sociedade.

É claro que isso muda no segundo turno, mas o desejável é que debates verdadeiros aconteçam desde cedo.

A segunda questão é, uma vez estabelecido que apenas os que significam algo vão participar, desengessar as regras que se tornaram padrão nos nossos debates, com tantas filigranas que até os jornalistas que fazem sua mediação volta e meia se confundem. Debate é debate, sem limitações exageradas de tempo e amarras de réplicas, tréplicas, direitos de resposta e coisas parecidas.

Outra questão a tratar é a subordinação de uma instituição tão relevante às disputas de audiência e imagem entre as emissoras comerciais. A líder quer sempre fazer o “último debate”, para preservar um papel de pretensa centralidade no processo eleitoral. Todas as outras querem fazer “o seu”.

Isso é bom? Agora, na reta final, termos tantos debates, organizados na última hora, cada um mais rígido que o outro? Não existem soluções melhores?

Que tal analisar o exemplo americano, ao qual chegaram depois de passar por problemas parecidos com os nossos? Debates em rede, agendados com antecedência, com jornalistas de renome, regrados com bom senso, mais longos, cada um em torno de um tema central? Pode não ser a opção para o Brasil, mas que é melhor que o que temos, não resta dúvida.

Lula mergulha a barba no molho da prudência


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


"Bobo não senta nesta cadeira de presidente da república", ensinou o presidente Itamar Franco a dois assessores ansiosos e afoitos que o aconselhavam a assumir a articulação para a escolha do seu sucessor.

E de bobo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem nada, apesar dos muitos escorregões da língua solta na diluvial maratona diária de três, quatro, cinco improvisos.

Agora, por exemplo, Lula não está inventando a roda, mas aplicando as regras do bom senso e da experiência para pular a fogueira da campanha justamente na semana decisiva da eleição, com o quadro enrolado em indefinições em muitas capitais e grandes cidades e os institutos de pesquisa batendo cabeça na contradição embirutada dos índices que mais confundem do que ajudam a entender as chances dos favoritos.

Lula usa bem a sua facilidade de comunicação, com a invejável popularidade batendo na lua. Joga o seu xadrez político movendo as pedras com a experiência das suas muitas campanhas, com três derrotas na briga pela Presidência e as duas vitórias sucessivas que lavam a alma e só não apagam a nódoa da implicância com o seu antecessor e alvo predileto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Embalado pela aprovação popular e com o afago de importantes êxitos administrativos, o presidente esperou a hora para entrar na campanha e, com meia dúzia de discursos, decidir a parada nas capitais duvidosas, nas quais os seus candidatos necessitavam da sua palavra para apontar o rumo ao voto.

No primeiro turno, pagou o preço da arrogância e da mesquinharia quando ameaçou expelir do Congresso o senador José Agripino Maia, líder da bancada dos Democratas, na eleição para a prefeitura de Natal. Caiu do pangaré com a eleição de Micarla de Sousa, lançada pelo Partido Verde para promover a legenda.

O castigo foi bem aproveitado. Na reta do segundo turno com os institutos de pesquisa enlouquecidos pelas súbitas correções do rumo do eleitorado, o presidente consultou o espelho, acariciou as barbas grisalhas antes de mergulhá-las no caldo da prudência.

E entre três ou quatro lances, liquidou a fatura com os candidatos que não podem perder e anunciou que se retirava da campanha do segundo turno, recolhendo-se ao seu gabinete para "trabalhar, trabalhar e trabalhar". A tríplice repetição é uma tática para dissipar a névoa da incredulidade com o impacto de uma mudança da água para o encorpado vinho de castas nobres.

Não precisava tanto. Mas, nunca é demais exagerar na ênfase. Motivos é o que não faltam para o presidente assumir o comando das articulações da equipe econômica enquanto a crise vai e vêm, na ressaca dos grandes do mundo ensandecido.

E o eleitorado, ou parte dele, parece que resolveu escolher o seu candidato dispensando os feitores que se consideravam insubstituíveis. Ninguém pode estar certo da vitória. Talvez, com a ressalva do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, muito ajudado pela desastrada adversária Marta Suplicy, que se envenenou ao morder a língua.

No Rio, a crescente violência dos ataques do Eduardo Paes (PMDB) é um golpe de faca de dois gumes.

È melhor esperar pela palavra final das urnas eletrônicas de domingo.

E saborear a sagacidade da lição do presidente Lula do seu retiro no Palácio do Planalto: "Pode ser que não tenha muita diferença ideológica entre democratas e republicanos. Mas, do ponto de vista simbólico, este mundo eleger um torneiro mecânico pela segunda vez, eleger um índio na Bolívia e um negro nos Estados Unidos é demais".

Como se vê, uma panacéia que serve para tudo.

Obama avança


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. À medida que se aproxima o dia da eleição presidencial, a vantagem do democrata Barack Obama se consolida, e os debates tiveram parte importante nesse trajeto. A mais recente pesquisa do Pew Institute, divulgada ontem, mostra uma liderança de nada menos que 14 pontos percentuais para o candidato democrata depois do terceiro debate, exatamente o dobro do resultado verificado na pesquisa feita após o primeiro debate, que se realizou em 26 de setembro. O mais grave para o adversário republicano McCain é que ele teve em Hempstead, na quarta-feira passada, sua melhor atuação nos debates, e isso está registrado em algumas pesquisas, embora em todas elas Obama tenha vencido.

A questão é que McCain foi melhor que ele mesmo, se superou no derradeiro debate, mas não teve capacidade de jogar seu oponente na lona. Ele saiu daquela noite na Universidade de Ofstra com dois motes que estão sendo explorados nesses últimos dias antes das urnas: a afirmação de que não é o presidente Bush, e o personagem de Zé, o encanador, para tentar atrair os votos da classe média trabalhadora.

Depois disso, em todos os comícios em que comparece, e mesmo nos anúncios pela televisão, McCain repete o mantra "eu não sou George Bush" e fala dos impostos que supostamente Obama vai tirar da classe média empreendedora.

Mas, o que fez com que McCain se saísse melhor do que nas vezes anteriores foi justamente a retomada do homem cordial que ele era no início da campanha, o republicano ameno e independente que dava aos eleitores independentes uma alternativa de voto.

Mas, McCain não conseguiu levar sua campanha para uma trajetória mais leve, e teve que assumir a candidatura de Sarah Palin como vice-presidente para recuperar os eleitores da base direitista do partido que estavam decepcionados com sua "mão leve" nos ataques a Obama.

Palin cada vez mais representa essa interferência pesada da direita política na campanha de McCain, e cada vez mais afasta os eleitores independentes. A mesma pesquisa do Pew Institute indica que a presença de Palin na chapa republicana parece enfraquecê-la contínua e crescentemente: 49% dos eleitores têm uma impressão desfavorável a ela, contra 44% que a vêem de maneira favorável.

Esses números eram, em meados de setembro, favoráveis a Sarah Palin por 54% a 32%. Pior: as mulheres, especialmente as de menos de 50 anos, tornaram-se crescentemente críticas a Sarah Palin, chegando a 60% as que não gostam dela, quando esse número era de 36% em meados de setembro.

Quando Sarah Palin aparece como na noite de sábado no programa humorístico "Saturday Night Live", aceitando com bom-humor as críticas do programa e participando das brincadeiras, sua popularidade melhora.

E a situação para McCain piora porque, ao contrário das opiniões sobre Joe Biden, o vice de Obama, as sobre Sarah Palin têm uma influência na decisão de voto republicana, para o bem ou para o mal.

A confiança do eleitor republicano em uma vitória de McCain decresceu sensivelmente desde a última pesquisa, há um mês: hoje, cerca de 40% dos republicanos acreditam em uma vitória de McCain, contra 70% da pesquisa anterior. Naquela ocasião, apenas 13% dos republicanos admitiam uma vitória de Obama, número que agora já é de 35%.

Obama já aparece como o candidato que inspira mais confiança nos eleitores em assuntos em que antes ele era uma interrogação, como Iraque e terrorismo, o que mostra que a tentativa da campanha republicana de transformá-lo em uma escolha arriscada, e as sugestões de seus laços com um ex-terrorista não surtiram efeito.

A pesquisa do Pew Institute detectou um movimento que pode ser decisivo entre os eleitores: nada menos do que 31% deles planejava votar antes do dia da eleição, o que pode indicar que McCain terá ainda menos tempo para reverter o quadro. E mais: entre os que votarão antecipadamente, beneficiando-se de um sistema eleitoral que permite o voto pelo correio, 58% apóiam Obama.

Uma das esperanças dos estrategistas republicanos é que a situação econômica, que tem beneficiado os democratas, acalme-se até o dia 4 de novembro, permitindo que o eleitor analise as opções longe dos impactos das más notícias financeiras.

Obama também está ganhando nos chamados "estados decisivos" por uma margem de 52% a 37%, nos mesmos estados onde o atual presidente George Bush venceu na maioria, por margens que chegaram a ser de 21% em Indiana. O candidato democrata John Kerry venceu em cinco deles, todos com pequenas margens.

Esses resultados, embora em alguns estados como Nevada e Carolina do Norte McCain continue competitivo, só tornam mais crucial uma outra vantagem de Obama: a arrecadação de fundos para a campanha.

O democrata acaba de bater um novo recorde, recebendo US$150 milhões de dólares de doações em setembro, o que lhe permite utilizar mais a propaganda eleitoral paga na televisão nos estados em que a disputa está acirrada.

De acordo com a avaliação de um grupo independente de análise de mídia, os anúncios de Obama na TV são na proporção de 4 para 1. Só na última semana a campanha de Obama transmitiu 50 mil spots de 30 segundos em cadeias nacional, local e TV a cabo, o que representaria, segundo a mesma análise, cerca de 17 dias de anúncios seguidos.

Na Flórida, por exemplo, um estado importante e que está mudando para apoiar os democratas, a campanha de McCain não transmitiu nenhum anúncio em Miami na última semana, enquanto Obama colocou na TV 1120 spots. Na internet, o massacre foi maior ainda: no mês passado, foram colocados nada menos que 914 milhões de anúncios, contra 7,8 milhões de Obama.

A Flórida latina


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


MIAMI - Os EUA elegem neste ano o primeiro negro ou o mais idoso presidente do país. Será uma decisão de relevância histórica sem precedentes. Mas há outras complexidades regionais com grande riqueza simbólica e política.

É o caso do voto latino aqui na Flórida. Cerca de 20% do eleitorado do Estado é de origem hispânica.

Grande parte tem raiz em Cuba e no anticastrismo. Por décadas, esse foi um reduto republicano. Agora, há sinais de mudança.

Pesquisas mostram os latinos divididos ao meio entre o democrata Barack Obama e o republicano John McCain. É impossível prever o desfecho, mas é clara a trajetória declinante do eleitorado pró-linha dura em relação a Cuba.

Na região de Miami, onde estão os latinos, observa-se um abismo geracional e de entusiasmo entre as duas campanhas. Na segunda-feira à tarde, o comitê central republicano estava calmo. Mulheres na faixa dos 60 anos e com laquê no cabelo recebiam os poucos visitantes -apenas dois em uma hora.

"Posso olhar a sala dos telefones?", perguntei. Trata-se de um galpão onde os voluntários se revezam para fazer ligações e conquistar eleitores. A assessora pediu alguns minutos. Percebi quando funcionários foram levados para o local. Sentaram-se em frente às mesas. Fingiram estar telefonando.

Ainda assim, muitos aparelhos ficaram desocupados.

No mesmo momento, uma massa de 50 mil pessoas participava de um comício de Obama na cidade de Tampa. Ontem, mais 50 mil eram esperadas à noite num evento obamista no centro de Miami.

Os democratas só venceram duas das dez últimas eleições na Flórida.

Desta vez, o eleitorado conservador mostra-se mais frágil. Há menos terror no ar contra Cuba.
Esse cenário pode não se transformar em realidade já, mas tem pinta de ser inevitável no futuro.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 21 de outubro de 2008

Homenagem ao ex-líder comunista Hércules Corrêa

Aos 78 anos, morreu na noite de quinta feira (16/10/2008) em conseqüência de um acidente vascular cerebral (AVC), o líder comunista e sindicalista Hércules Corrêa dos Reis.

Ex-deputado estadual do PTB cassado no golpe militar de 1964, Hércules Corrêa foi fundador e dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) entre 1961 e 1964, além de membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro até l989. Viveu clandestinamente, com o codinome de "Macedo", até 1975, quando foi obrigado a fugir do país e se exilou em Moscou.

Voltou ao Brasil com a anistia de 1979. Polêmico, escreveu vários livros, entre eles, A Classe Operária e seu Partido, Programa Comum, O ABC de 1980, Crise do socialismo, Memórias de um stalinista e Passaporte para o futuro.

Hércules sofria de diabetes e estava internado no Hospital Quinta D'Or, no Rio.

Este blog presta-lhe uma homenagem postando sua entrevista publicada no “Caderno Especial” do Jornal do Brasil no dia 29/7/1979, sob o titulo “O PCB ENCARA A DEMOCRACIA”. Era a visão de um operário sobre a democracia e a recordação que os cariocas tem dele.

Leiam a seguir o texto completo:


HERCULES CORRIEA:

O Partido não é instrumento para vingança


“Muita gente chegou e continua chegando ao Partido com várias nuanças de uma mentalidade sectária, dogmática, esquerdista. Sem se dar conta de que tudo isso foi derrotado e recusado a partir de 1958, pelo próprio Partido. Particularmente os que são de origem pequeno-burguesa, ou de camada média urbana, trazem ou tentarão trazer uma compreensão que não é a correta sobre o nosso Partido. Costumo dizer que esses chegam, aderem a ele, não porque querem transformar revolucionariamente a sociedade, mas por que querem se vingar da sociedade. Toda essa gente precisa convencer-se de que o PCB não é um partido de vingança. Não é um instrumento para alguns da pequena-burguesia que tentaram ser burgueses e não conseguiram, porque a “concorrência” não lhes permitiu. É preciso ficar bem entendido que não queremos vingar-nos da sociedade. Mas. transformá-la revolucio nariamente, como um ato de vontade e decisão das grandes massas”.

E Hércules Correa, mais um dos 18 do Comitê Central do PC.B, um dos mais notórios dirigentes do CGT antes de 1964, quem fala, O “gordo “, como todos o chamam, um dos homens mais procurados pela polícia em todo o Brasil, em 1964, cuja prisão e morte foram anunciadas (e até fotografadas) várias vezes, logo depois da queda de Goulart. Tem 50 anos, dois filhos, três netos que não conhece e a mulher no Bra sil. Para ele o tempo não parece ter passado. Continua com a mesma aparência que ostentava quando foi eleito, inclusive com os votos da UDN de Carlos Lacerda, primeiro-secretário da Assembléia Legislativa da Guanabara, de quem dizia o também udenista Alio- mar Baleeiro: “Está vendo aquele caboclo? É uma força da natureza. Não sei como aprendeu a falar, mas a verdade é que nunca abre a boca para dizer bobagem.”

Como foi sua morte em 1964?

Tudo isso foi obra de vocês, da imprensa, do rádio e da televisão do Rio. E parece que chegou até a outros Estados, porque muito tempo depois disseram-me que em Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia, essa história também foi contada. O que houve é que alguém da polícia do antigo Governo da Guanabara decidiu criar e espalhar o boato. Talvez para justificar um assassinato, se me prendessem. O fato é que até o dia 7 de abril de 1964 andei e fui visto por muitos nas ruas do Rio. Só quando percebi que a caça se intensificava é que me recolhi... Do que lembro, essa história durou até 1966. Um telejornal chegou a exibir meu corpo boiando no rio, ali no limite da Guanabara com Caxias. Num programa de notícias do Heron Domingues, disseram também que tinha sido cercado numa fazenda no Paraná por tropas do Exército, mas que conseguira fugir milagrosa- mente. Nunca estive no Paraná, embora tivesse viajado muito pelo Brasil — de onde só sai em junho de 1974. Dez anos depois do golpe, da noticia da minha morte, e de ter cumprido — na clandestinidade — uma intensa atividade política.

Esses dez anos teriam sido os mais difíceis e movimentados de sua história de agitador comunista?

Talvez não. Porque o que trabalhei politicamente de 1960 a 1963 foi uma enormidade. Nesse período tive que combinar, inventar tempo para ser presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Fiação e Tecelagem do Rio de Janeiro, presidente da Comissão Permanente das Organizações Sindicais da Guanabara, Deputado à Constituinte (eleito com 10 mil votos) e, mais tarde (1962), deputado estadual (14 mil votos), sob a legenda do PTB, primeiro secretário da Assembléia Legislativa e dirigente do CGT.

Foram anos em que conheceu muita gente importante, daquela que vocês, comunistas, consideram representantes da “classe dominante”. Como foi seu relacionamento com eles?

De um modo geral, em quase todos os casos, foi sempre cordial e respeitoso. Muitos deles, mais tarde, depois do golpe, deram-me demonstração de amizade. Houve até quem me oferecesse casas e sítios para que não caísse nas mão da polícia e do Exército. Como membro da comissão constitucional, trabalhei e conheci bem Temístocles Cavalcanti, Aliomar Baleeiro, Roland Corbisier, Paulo Alberto, Sandra Cavalcanti. Mui tas vezes tratei com Ministros e com três Presidentes da República: Juscelino, Jânio e Jango. A norma dominante foi sempre a do tratamento respeitoso. Talvez o único Ministro de Estado com quem tive um desacordo foi o da Justiça do Governo Juscelino Kubitschek. Ele já se chamava Armando Falcão. Foi durante a greve da paridade. Dr. Falcão quis me prender em seu gabinete, e reprimir violentamente a greve. Disse-lhe que aquilo não ia dar certo, não resolveria coisa alguma, ao contrário. Felizmente estava presente também o Tenório Cavalcanti, que gritou mais do que o Ministro, e tudo acabou mais ou menos bem.

Que gênero de participação, com que experiência e visão vocês pretendem voltar ao Brasil?

Não devemos em hipótese alguma nem praticar nem permitir, nesse processo político brasileiro, o que nós chamamos de radicalização. Nem quando ela pa reça motivada por muito boa intenção. Radicalização, em política, sempre houve e haverá. Mas só se justi ficou e justifica como uma ato de vontade e de estado de consciência das massas. Jamais de alguns indivíduos. Esse é o ensinamento que tivemos antes de 1964, e foi também a causa da derrota de 1964. Não que nós, comunistas, tenhamos sido os únicos responsáveis por aquela radicalização, mas porque fomos bastantes responsáveis, na medida em que dela participamos e a estimulamos. Tínhamos, por exemplo, um Governo como o de João Goulart, com seus defeitos, suas debilidades, mas sempre um Governo que se esforçava para manter o funcionamento das liberdades democráticas no país. Em certo momento não demos muita importância a essas suas características, passamos a achá-lo um Governo de conciliação. E passamos a combatê-lo. No terreno do movimento sindical, em vez de ter em conta que havia um aprofundamento das contradições na sociedade brasileira, que era importante que tudo isso se desenvolvesse, em favor da classe operária e dos trabalhadores, e que era importante seguir, levar adiante o processo democrático - o. qüe fizemos? Optamos exclusivamente pela greve. Deixamos de . solucionar uma série de questões, como a dos salários, usando outras formas de luta, outros mecanismos. Uma forma de paralisar a produção, que nem sempre ajudava a encontrar a solução justa para nossos problemas. Só deu pretexto à burguesia para descarregar sobre a classe trabalhadora o ônus da inflação. Com isso não digo que todas as greves foram erradas. Digo que não esgotamos, em cada momento, toda uma linha de negociação, antes de recorrer à instância da greve. Geralmente nosso posicionamento era:primeiro a greve para depois negociar. Um posiciona mento que se transformou em elemento de radicalização. Outro exemplo, outro elemento de radicalização?. O nosso engajamento com a palavra de ordem de “reforma agrária na lei ou na marra”. Não havia força acumulada para esse tipo de palavra de ordem e muito menos para a ação que ela devia desencadear.

Então a linha do retorno de vocês é de prudência e cautela, talvez até de preservação do status quo?

“Vamos seguir com posição contrária a qualquer ação que não corresponda a um nível de consciência e a uma participação das massas. Sem esse nível de consciência e participação, nossa posição é pela busca de caminhos, meios e formas para a conscientização e para a integração das massas. Portanto não ficaremos naquela de defender o status quo. Lutamos pela transformação da sociedade, logo não faz sentido optar pelo status quo. A questão é de forma, é do modo de realização. Na busca de tudo isso, praticaremos, como estamos praticando, uma posição de prudência, de equilíbrio, de uma orientação de bom senso.”

A hipótese da legalidade do PCB não implicária fatalmente no esfacelamento da frente oposicionistã, que até aqui se reuniu no MDB?

“Se os políticos das outras organizaçõës tiverem bom senso, não acredito nesse esfacelamento. O que pode haver, de fato deve concretizar-se, é uma separação no plano orgânico. Mas não acredito que todos aqueles que sofreram esses 15 anos de repressão, de dificuldades, e que estiveram empenhados na luta pa ra aglutinar uma frente única ou uma confederação de oposições, vão perder a cabeça. Que queiram avançar além da separação orgânica, para uma divisão política diante das questões que estão colocadas na ordem-do-dia. Nossa posição é para manter um entendimento com todas essas forças. Porque só foi com essa unidade que se conseguiu este resultado, isto que está acontecendo hoje no Brasil. Nós acreditamos que é possível manter essa unidade mesmo no momento da separação orgânica. É possível e vamos batalhar por isso”.

Acredita que se fala seriamente em democracia, no Brasil?

Quero crer que sim, pelo menos da parte daqueles que se bateram contra o regime. Por parte do regime, se alguém, dentro do Governo, está falando honestamente, vai ter que dar prova. Vai ter que provar com atos. E a primeira delas seria por-se ao lado da Constituinte.

Não admite que o empenho e as identificações da Igreja com as lutas sociais, pela redemocratização do país, possam ter se esgotado com a Anistia?

Em defesa das liberdades, em defesa dos direi tos humanos, da democracia, quero crer que não. Mesmo porque se a Igreja tentar abandonar essa bandeira, novamente terá dificuldades no relacionamento com os católicos com a grande massa que vai à Igreja. É muito difícil aceitar que a Igreja involua tanto. Até porque a posição da Igreja brasileira, na Conferência de Puebla, foi conseqüente, confirmou sua posição. Na América Latina, a Igreja brasileira, em Puebla, foi aquela que mais contribuiu para uma tomada de posição, digamos, democrática, equilibrada. Pela própria experiência que cumpriu nos últimos 15 anos, a Igreja brasileira não vai abandonar essa luta, não vai deixar esse campo. As diferenças entre as posições da Igreja e as nossas vão surgir de modo acentuado. Não tenho dúvida de que será assim. Mas isso é normal: democracia é assim mesmo”.

Em 1945, depois de nove anos de prisão numa cadeia da ditadura Vargas, Luiz Carlos Prestes surpreendeu o país apresentando-se ao lado do ditador no célebre comício do Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Hoje seria possível a repetição de um reencontro desse tipo, do PGB com representantes dos governos militares?

Não acredito nessa repetição. Mesmo porque as épocas, os homens, as forças políticas são distintas, com histórias e objetivos diferentes. O Getúlio que saia do Estado Novo deu uma guinada na direção de posições nacionalistas. Deu uma demonstração de querer atender certas reclamações populares, inclusive dos operários. Ainda agora discute-se muito essa posição do Getúlio. Os articuladores do golpe de 29 de outu bro de 1945 disseram que tudo foi demagogia, feita com a esperança de manter o Estado Novo. É possível que tenham razão. Mas o fato concreto, objetivo, é que Getúlio Vargas caiu, foi deposto, mais por isso do que por outra coisa. Outro fato indiscutível é o de que ele foi eleito em 1950 reafirmando a posição que começou a assumir em 1945. E o resultado é que desencadearam contra ele - as mesmas forças que o depuseram - uma grande campanha que o levou ao suicídio. É possível, pode-se até aceitar como provável a tese de que em 1945 Getúlio fazia demagogia. Getúlio era muito esperto, conquistou a fama de político sagaz. Mas, na época, nós não podíamos trabalhar à base dessa indagação: se se tratava ou não de sagacidade ou demagogia de Getúlio. O que funcionava era um outro dado, um outro elemento: por uma série de circunstâncias, Getúlio adotou medidas que, se não tivessem sido contidas, se prosseguissem, conduziriam o país a um processo democrático mais profundo. Naquela época havia, era visível, uma grande presença das massas nas ruas. Não é possível - para os que viveram aqueles dias - esquecer as manifestações e as campanhas populares de 1945 e 1946. O Governo de hoje, ao contrário, comporta-se de modo inteiramente diverso: há quase dois anos apresenta-se todo empenhado em absorver as reivindicações democráticas.


Tenta preservar toda uma legislação repressiva, resguardar todo o aparelho do Estado montado sobre a repressão. Quando as forças populares, de oposição, começavam a transformar o AI-5 em alvo de um amplo movimento de massas, o regime fez uma flexão tática, absorveu essa campanha, transferiu uma boa parte do AI-5 para a Lei de Segurança. Cedeu em alguma coisa, mas salvou o que, para ele, era o mais importante. As salvaguardas, por exemplo, foram introduzidas na Constituição. Mais recentemente, tive mos a campanha pela anistia. Quando começou a se transformar numa grande campanha de massa, o Governo procura esvaziá-la.


Introduz discriminações graves no projeto de anistia. Tudo isso torna evidente demais o fato de o Governo e o regime encontrarem-se numa situação de dificuldade. Mas, ao mesmo tempo, significa que eles têm reservas, capacidade de manobra, força. Dispõem-se a enfrentar todo o avanço do movimento democrático. E é por isso que o caso Figueiredo nada tem a ver com o caso Getúlio. O que o General Figueiredo procura é uma fórmula para manter esse modelo econômico que eles montaram no Brasil, baseado na superexploração das forças trabalhadoras, que justificou a aplicação de uma terrível, aperfeiçoada repressão.”

A distância, como julga a importância e a força das oposições a regime atual?

“Digo como Gregório Bezerra: nós não somos pessimistas, somos otimistas”. Mas nosso otimismo não é. gratuito, ou ‘exagerado. Justifica-se porque o avanço do movimento democrático no ‘Brasil é patente. Facilmente verificável. A sociedade brasileira sempre rejeitou o regime, em diferentes momentos, por diferentes formas. Resistiu. O regime não conseguiu impor a sua ideologia. Tentou fabricar, produziu, mas o “ame-o ou deixe-o” não pegou.

Mas a marcha com “Deus pela família” pegou?

Mas isso foi para dar o golpe. Num momento de mobilização, de transição, em que as pessoas não sabiam bem quem era quem e o que era quê. Na hora em que o processo da grande repressão teve início, foi- se tendo uma resistência crescente. A maior manifestação disso foi dada pelo papel da Igreja católica, que participou do golpe, mas que opôs uma resistência de terminante ao processo de repressão - e hoje ocupa a posição que ocupa. É por tudo isso que somos otimistas. E que vemos também nossas responsabilidades acrescidas: com o dever de oferecer a melhor contribuição nossa para combater a ideologia fascista, que causou um grande prejuízo ao desenvolvimento espiritual do povo brasileiro.

Essa resistência que você observa não pode estimular, ou dar novo ânimo a outra tentativa de luta armada?

Os pescadores de águas turvas não faltam, e com certeza vão tentar trabalhar ao seu modo. Minha impressão é a de que .o período e as experiências de 1968/73 mostraram que esse não é o caminho. ‘ O processo brasileiro, hoje, não permite qualquer visualização, qualquer tentativa para resolver nossos problema no plano da luta . armada. Isto seria uma invencionice, miragem ‘construída pelos grupos de ultra esquerda que já foram derrotados, ou de focos de fascistas.


Esses dois extremos nunca perderam o hábito ou mania de cutucar o’ diabo com vara curta. Essa não é a posição do nosso Partido, não é a posição da Igreja, não é à posição dos intelectuais, nem do PTB que tenta reorganizar-se. No caso de nosso Partido, vamos lutar e estamos lutando pela sua legalidade, porque queremos, através do debate aberto, franco, concorrer às eleições, disputar os pleitos nos sindica tos, nas sociedades de amigos de bairros, enfim, onde houver uma batalha. Quer dizer que queremos e aceitamos o embate político dentro da convivência democrática, para que nosso povo possa evoluir politicamente. A experiência e o conhecimento que tenho do PCB me dão a certeza de que ele jamais colocará a questão da luta armada. Inclusive’ porque ela não é do interes se da classe operária, O operário não está interessado em mortandade. Conheço-o bem para fazer essa afirmação com tranqüilidade e segurança absolutas. Vivi com ele, trabalhei com ele, fui e continuarei a ser um deles. Minha classe não joga nessa solução.”

A experiência do exílio, a ‘convivência e o conhecimento direto de tantas fórmulas ou práticas de socia lismo, serviram para definir o modelo que vocês pretendem para o Brasil?

Tudo isso nos enriqueceu e estou convencido de que vai nos ajudar a formular uma orientação mais abrangente, mais consentânea com a .realidade brasileira. Hoje temos melhores condições para levar ‘em consideração a experiência de vários países. Mas só isso: levar em consideração.. Friso bem essa coisa, porque um dos erros que cometemos na vida e na prática de nosso Partido foi esse, foi o chamado erro da cópia de modelos. Mas felizmente hoje, todos, qualquer um de nossos dirigentes, tem a consciência de que nenhuma cópia nos serve.

A curto prazo, que remédios o PCB recomenda ria para os males da economia brasileira? Um incremento da estatização poderia ser um deles?

A curto prazo, não se deve colocar essa questão da estatização. Mesmo porque, para o caso brasileiro, esta não é a melhor palavra. Melhor seria falar-se em nacionalização. Além de defender as liberdades democráticas, as forças políticas de oposição deveriam unir-se em torno dessa necessidade de formular uma alternativa para o modelo econômico posto em prática nos últimos 15 anos. Esse deveria ser outro fator de unidade, e de mais um esforço comum. A meu ver qualquer alternativa ao modelo econômico deve partir de uma restrição ao poder dos monopólios.


Por exemplo, no problema dos salários: praticar uma política salarial antimonopolista. Criando-se um fundo salarial com base no superlucro dos monopólios multinacionais. Um fundo que cobriria pelo menos parte das despesas com salários das pequenas e médias empresas nacionais. De modo a permitir aumentos salariais em todas as faixas, e de certo modo aumentando o poder de compra, o poder de consumo do mercado interno.

E isso não seria urna nova e curiosa forma de participação dos lucros?

Não. Seria simplesmente a criação de mais um fundo, num Brasil que tem uma grande tradição e uma grande imaginação para criar fundos. Com ele, o pequeno e médio empresários poderiam recorrer com menor insistência ao Banco Central, ao Banco do Brasil, atrás do capital de giro. Os grandes grupos monopolistas, dando uma outra função aos seus grandes lucros, beneficiariam o fortalecimento e a expansão de um mercado interno (para eles cada dia mais essencial, num mundo que cada dia quer importar menos). E o trabalhador da pequena ou média empresas teria novas condições para manter seu salário atualizado com os aumentos do custo de vida.

Paes, em desespero, sobe o tom nos ataques a Gabeira


Verde diz que é ciúme e evita polemizar; desde sábado ele decidiu andar com escolta

Gabeira preferiu não polemizar e usou de ironia para dizer que Paes está com ciúmes.

- Isso é um pouco de ciúmes porque os artistas se concentraram muito na minha candidatura. Ele (Paes) só conseguiu, em um determinado momento, um conjunto de sambistas que foram atraídos para uma feijoada.

Para Gabeira, o peemedebista deveria se preocupar mais com o seu própio programa. Sobre os ataques de Paes, que o chamou de comentarista de propostas, Gabeira disse que tem o apoio de toda família de João Saldanha.

- Continuarei respeitando o programa e a campanha dele. Vou deixar que me ataque porque é possível que, nessa reta final, a única esperança dele seja o ataque.

Gabeira também se defendeu sobre os projetos de tráfico de mulheres e corrupção de menores:

- É uma tentativa de deformar os meus projetos e de me comprometer com o eleitorado mais conservador - disse Gabeira, que citou uma frase do personagem Sancho Pança, de "Dom Quixote": - "Olha mestre, olha bem o que você está falando".

Desde sábado, Gabeira passou a ser acompanhado por dois seguranças. Segundo o candidato, eles são policiais ou ex-policiais e trabalham voluntariamente. A coordenação da campanha decidiu adotar a escolta por causa do temor de que hajam armações contra o candidato nesta última semana.

- É uma semana delicada, reta final. Não queremos que aconteça algo por descuido. É só uma preocupação. Nunca recebemos nenhuma ameaça, mas um pouco de precaução é bom - disse ele.

Dois "Obamas": Gabeira e Kassab


Arnaldo Jabor
DEU EM O GLOBO


A vitória desses homens moderniza a política


Nos velhos tempos do Partidão, o PCB, havia o conceito de "massa atrasada". Assim eram chamados os militantes que ainda não eram batizados pelas luzes salvadoras de Lenin ou Stalin, para fazer com fé e preparo a "revolução brasileira", esse milagre que nunca chegou. Hoje, a "massa atrasada" continua sendo o alvo da velha política brasileira e une tanto o populismo de direita do Rio como o populismo de esquerda de São Paulo.

No entanto, as eleições para a prefeitura de São Paulo e a do Rio talvez inaugurem uma nova lucidez política pelas "massas atrasadas" ou massas iludidas ou massas do "chopinho" ou massas de manobra de supermercados evangélicos.

É uma ilação arriscada, mas o fenômeno Barack Obama com seu bordão de "mudança" pode ter uma sutil influência nas prováveis vitórias de Gabeira e Kassab.

Há algo novo nesta disputa: estamos entendendo que a competência de uma administração pública é mais importante que ideologias, que a eficiência presente conta mais do que o velho conto-do-vigário do "futuro"; gestão, em vez de revolução.

Bush sujou o nome da América, e Obama nasce desse vexame de oito anos.

Gabeira e Kassab podem ser dois "Obamas".
Este artigo é uma adesão explícita aos dois candidatos, não porque prefiro branco ou preto, "fla ou flu", fulano ou sicrano, mas porque sou um cidadão preocupado com o delicadíssimo momento da vida brasileira, em que práticas maléficas por roubalheiras cariocas e utopias virtuais paulistanas têm de ser apontadas.

Há semelhanças entre Gabeira e Kassab. Gabeira pode desconstruir uma velha mentira carioca, e Kassab, uma recente mentira paulista. Gabeira será uma interrupção nas décadas da sordidez populista que rege o Rio, será um break nos resquícios de chaguismo, de moreirismo, de brizolismo, de garotismos e da grande anomalia que foi Cesar Maia, o prefeito que virou blog. Além da política, Gabeira é uma mudança cultural.

Em São Paulo o perigo era outro (creio que afastado): se Marta fosse eleita, a cidade congestionada de problemas urgentes seria apenas um trampolim ideológico para fortalecer o PT nas eleições de 2010, para o que restou da gangue bolchevista que o salvador Jefferson devastou. Os petistas sempre desconfiaram da democracia "burguesa", usando-a como um "meio" para chegarem a um poder enfeitado pelas jóias falsas de um socialismo imaginário. E pior: como se acham "acima" do mundo "burguês", podem cometer todas as sacanagens, justificadas pelo "ideal": acham que o mensalão foi necessário, pois assim funciona o sistema burguês, que as alianças mais sujas são inevitáveis, e têm até uma visível volúpia "revolucionária" (quase sexual) em se aliar com o mal em nome do bem.

Fingem ignorar crimes políticos, como vimos nos últimos anos. Sindicatos acabam de provocar quase uma invasão do Palácio do Governo de São Paulo, sob o comando de Paulinho da Força, usando a Polícia Civil para dissolver as acusações que pendem sobre si; Lula pode defender Marta, depois de sua gafe contra Kassab, dizendo que ela é que é vítima de preconceito, como ele foi por não ter diploma, tática tradicional do PT desde que entrou no poder: a vítima é o réu ou vice-versa.


Kassab é a vitória do útil, do concreto sobre o abstrato, porque, se o Rio foi corroído por décadas de corrupção, moleza e burrice, São Paulo é visto pelo PT como um "meio" para algo mais que não está ali. Para eles, a democracia não é um fim em si mesma. E as prefeituras também não.


Vêem com desprezo o conceito de "administração", que acham algo "menor", até meio reacionário, pois administrar é manter, preservar, em suma, "coisa de capitalistas". Kassab pensa no presente. Sua ideologia vem das coisas, das ruas, dos meios-fios, dos centros degradados pelo crack, vem dos imundos outdoors que enfeavam a cidade, veio da clareza de que São Paulo precisava ser limpo, que recapear 1.300km de estradas é mais importante que bravatas ideológicas, que pavimentar periferias é mais "de esquerda" que chorar pela sorte dos miseráveis, que subprefeitos têm de ser técnicos e competentes, em vez de "comissários do povo" pelegos enfurnados em "boquinhas" do estado.


Gabeira, eu conheço há 40 anos. E não é por isso que voto nele, pois também conheci muito vagabundo nesse tempo.

Gabeira vai além de partidos ou ideologias fixas. É uma pessoa em transe. Houve vários "gabeiras". Na ditadura, sua passagem pela luta armada teve a marca da imaginação - o caso do embaixador americano inovou métodos em toda a esquerda mundial.


Exilado, atualizou-se no exterior, percebendo outros níveis de luta política que agregavam comportamentos sociais, sexuais, ecologia, direitos humanos e a realidade do mercado. Em suma, ele entendeu que o pensamento político "dedutivo", genérico, não levava a nada, que ideologias têm de surgir dos fatos a resolver e não o contrário. Sempre teve uma visão quase "artística" da política, até o dia em que botou o dedo na cara do Severino Cavalcanti, aquele que levava bola dos garçons do restaurante da Câmara e que Lula não teve vergonha de apoiar agora.

No Brasil de hoje, pós-ideológico, emergente, as prefeituras têm um papel purificador. Podem ser as células-tronco de um país infeccionado pelo clientelismo e pelo aliancismo torpe. As prefeituras são laboratórios de democracia e imaginação criadora. Artistas e intelectuais cariocas têm de se mexer agora, botar a boca nas ruas, pois a vitória de Gabeira ainda não é certa.


Gabeira e Kassab têm de ser eleitos... Não apenas para melhorar as cidades a que presidirão, mas para haver um sopro de oxigênio na velha esquerda ou na velha direita, que, como escreveu Norberto Bobbio, se igualam pelo ódio à democracia.

Nunca antes neste País


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No próximo domingo, as urnas do segundo turno das eleições municipais em cidades com mais de 200 mil eleitores produzirão mais que uma lista de vencedores e perdedores.

Delas certamente resultarão alterações profundas em biografias, teorias, estratégias, correlação de forças e mudanças significativas no comportamento de políticos, partidos, alianças.

É um dado novo em matéria de eleições municipais, sempre criticadas por excessivamente mornas desde a retomada do voto direto para prefeito, em 1985.

Nesse período, uma ou outra provocou impacto. Seja pela novidade, como a eleição da petista Maria Luiza Fontenelle, em Fortaleza, ou pela mudança de expectativa na última hora, como a vitória de Luiza Erundina sobre Paulo Maluf e a derrota de Fernando Henrique Cardoso para Jânio Quadros, em São Paulo.

Casos isolados, nenhuma delas teve significado conjunto, repercutiu de maneira acentuada no cenário nacional ou fez revelações capazes de reorientar condutas para embates futuros.

Tanto que a oposição apegou-se ao dogma segundo o qual eleição de prefeito não ultrapassa os limites do município e sublimou antecipadamente o “passeio” dos partidos aliados ao governo federal que, por isso mesmo, tentou dar às disputas um caráter de plebiscito nacional em torno da popular figura do presidente Luiz Inácio da Silva.

Não aconteceu o passeio, não ocorreu o plebiscito, não houve julgamento contra ou a favor. Em compensação, sobraram confrontos eletrizantes, resultados surpreendentes, políticos saíram bem menores, outros ficaram enormes, teorias foram fulminadas, conceitos revistos, gente que era coadjuvante passou a figurar como protagonista e vice-versa.

Nada se passou de acordo com as regras preestabelecidas, o inesperado continua a produzir surpresas todos os dias e no domingo, com viradas ou sem elas, haverá prefeitos eleitos politicamente perdedores bem como candidatos derrotados com a aura de vencedores.

Isso sem contar os políticos que passam definitivamente da segunda para a primeira divisão dos produtores de votos e aqueles que conseguiram bom desempenho contrariando o manual do político tradicional.

Caso típico de Fernando Gabeira, no Rio. Entrou na disputa e passou para o segundo turno com o mesmo jeito de “outsider” de sempre. Nos debates jogou na inteligência deixando de lado as normas de marketing, enquanto o adversário, Eduardo Paes, se ocupava em dar repetidos nós na própria trajetória.

Se ganhar, Paes terá assumido a marca do político disposto a “tudo” pela cidade, inclusive se humilhar em público, manipular preconceitos e alimentar na população a idéia de que é dever do bom governante manter relação de camaradagem e subserviência com o poder central.

Em São Paulo, Marta Suplicy consolidou a imagem de candidata de fôlego limitado que em algum momento - a exemplo de Ciro Gomes - pode falar ou fazer algo contra si. Seu grupo planejava sair da eleição com uma candidatura presidencial para confrontar a opção Dilma Rousseff e acabou com uma hipótese de candidata ao governo do Estado a mercê dos adversários internos.

Em Belo Horizonte, fracassaram a certeza da transposição de uma relação administrativa entre PT e PSDB para a política e a tentativa de imprimir um caráter de experimento nacional à união dos dois partidos.

Em Salvador, a luta da fase final entre PT e PMDB simboliza o que poderá vir a ser a conseqüência mais séria em termos da base de apoio do presidente Lula: a perda do principal parceiro para a oposição e, de imediato, o empenho do Planalto para evitá-la.

O PMDB passará a dar as cartas com muito mais peso e isso, evidente, altera a correlação de forças dentro do governo e, depois, para a sucessão em 2010. Baiano, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, entrou para o rol de primeira grandeza e será personagem essencial dessa articulação.

Uma eleição municipal peculiar, cujas peculiaridades completas só serão visíveis a partir de domingo. Apenas uma tese permaneceu intocada: a de que o confronto com o presidente Lula faz perder votos.

Ninguém se arriscou a fazer o teste. Lula não foi posto em xeque. Ao contrário, todos os políticos mostraram-se amenos com ele. Ficou acima dos conflitos, desviou-se de quase todos os terrenos minados, preservou-se, foi preservado e, por isso, não se sabe se seus pés são mesmo de aço ou se são feitos de barro.

Bela viola

Examinadas com lupa as pesquisas em Belo Horizonte, a campanha de Márcio Lacerda verificou que nas classes D e E o adversário Leonardo Quintão saiu-se bem na estratégia de posar como aliado de Aécio Neves, porque o eleitor acreditou que havia dois candidatos “amigos” do governador: um simpático (Quintão) e outro carrancudo (Lacerda).

E se a origem do produto era a mesma, sentiram-se à vontade para escolher aquele com a melhor embalagem.

A sucessão de ponta-cabeça


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Lula adiou a reunião de ontem da coordenação política do governo, mas entre os partidos da base aliada, especialmente entre aqueles situados mais à esquerda do espectro político, já se dispõem de avaliações bem acabadas dos resultados eleitorais. E elas não são favoráveis ao governo, muito menos à candidata do peito do presidente, a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). O segundo turno dará os contornos definitivos, mas o quadro riscado até ontem parece pouco suscetível a mudanças, até domingo.

Há uma certa excitação entre os padrinhos da candidatura do PSB à Prefeitura de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que estaria em processo de franca recuperação. Algo raro, porque o adversário abrira 18 pontos de vantagem e estava em curva geométrica ascendente.

Aparentemente a mudança se deve ao fato de o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel terem tirado de cena "o poste" Márcio - que os dois praticamente haviam nomeado prefeito - e em seu lugar colocado Márcio Lacerda, do PSB. Deram identidade própria ao candidato. Se a virada de fato ocorrer, Aécio voltará a ser um "player" importante na sucessão.

Na prática, os resultados do primeiro turno, segundo partidos aliados ao Planalto, indicam até agora dois grandes vencedores: politicamente, o governador de São Paulo, José Serra; partidariamente, o PMDB, que chegará à próxima segunda-feira com um crescimento "extraordinário".

O presidente Lula não aumentou nem diminuiu. Ele continua popular. Mas acabou a mística de que o carisma do presidente é bastante para eleger um "poste". Independentemente de todas as qualidades que Dilma possa ter, ela não dispõe de votos.

O crescimento "extraordinário" do PMDB é o que mais chama a atenção dos partidos que integram a coalizão governista, inicialmente 11, mas que hoje já beiram os 14. É certo que os pemedebistas já dispunham do maior número de prefeituras do país, mas a curva da legenda era descendente, a cada eleição.

Em 2008, essa curva voltou a apontar para cima com a eleição de mais de 1,2 mil prefeitos. Mais que isso, pode vir a se transformar de um partido dos grotões - que ainda detém - em uma sigla urbana. Pode deixar de ser coadjuvante para se tornar protagonista. Mas não tem um nome.

No primeiro turno, o PMDB manteve fincada sua bandeira em duas capitais: Campo Grande (MS) e Goiânia (GO). No próximo domingo, é favorito em Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC) e, pelo que indicavam as pesquisas do último fim de semana, Belo Horizonte.

A avaliação dos aliados do governo contabiliza também, entre os favoritos, a candidata a vice-prefeito de Gilberto Kassab, que é do PMDB. Além dessas capitais, os pemedebistas disputam em pé de igualdade no Rio de Janeiro, Salvador e Belém.

Some-se a isso o que o PMDB já tem: as duas maiores bancadas do Congresso, cinco ministérios e, a partir de fevereiro, por um acordo com o PT, o presidente da Câmara, provavelmente o deputado Michel Temer, atual presidente da sigla.

"Isso tudo tem um preço dentro do governo para 2010", reflete, não sem algum desalento, um dirigente de esquerda da base de sustentação política do governo Lula. Por enquanto, os pemedebistas mantêm o discurso tradicional do partido empenhado em assegurar "a governabilidade".

O outro vencedor apontado na avaliação dos aliados é José Serra. O governador de São Paulo fez a aposta certa ao optar pela candidatura Gilberto Kassab (o tucano Geraldo Alckmin nem sequer foi ao segundo turno) e o DEM é favorito para ganhar a eleição na cidade de São Paulo, no domingo.

Serra também estabeleceu cabeças-de-ponte em outras cidades e partidos. No Rio, por exemplo, desde a primeira hora esteve ao lado de Fernando Gabeira (PV). Em São Paulo, amarrou o PMDB com a aliança firmada com o ex-governador Orestes Quércia.

Para os partidos aliados de Lula, além da voracidade natural do PMDB por espaços de poder, preocupa a opção que o partido fará na sucessão presidencial, entre o PSDB e o PT. Principalmente porque Lula não será mais candidato, e a conversa dos pemedebistas com o presidente é uma, e outra com os petistas.

Na análise dos aliados, a sucessão ganhou ainda outro ingrediente novo, além dos resultados eleitorais: a incerteza na economia. Enfim, o jogo que era armado antes da eleição virou de ponta-cabeça e recomeça na segunda- feira em outras bases.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O efeito Powell


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O apoio do ex-secretário de Estado Colin Powell à candidatura de Barack Obama não é uma peça política importante apenas por se tratar de um republicano de alta estirpe apoiando o candidato democrata à Presidência da República. Ex-membro do Conselho de Segurança Nacional no governo Reagan, e chefe das Forças Armadas Conjuntas no governo Bush pai, a declaração de Powell sem dúvida tem o peso de seu prestígio pessoal. Mas, a análise que fez ao justificar sua decisão vai além, na direção de um governo acima das divisões partidárias, das diferenças de raça, religião e gênero, que é o núcleo da campanha de Obama desde quando, nas primárias, disputava a indicação do seu partido.

Colin Powell soube dar a seu apoio uma dimensão política que inviabiliza a tentativa de se limitar a adesão ao fato de ele também ser negro. O general poderia ter sido, aliás, o primeiro afro descendente a disputar - e talvez vencer - uma eleição presidencial nos Estados Unidos, antecipando em mais de dez anos a meta histórica prestes a ser alcançada por Obama.

Talvez em 1995 os Estados Unidos não estivessem preparados para eleger um negro e o apelo da mulher de Powell para que não concorresse, por receio de um atentado, pode ter lhe poupado a vida e dado espaço para que viesse a ocupar um dos cargos mais altos já exercidos por um negro nos Estados Unidos, a secretaria de Estado no primeiro governo de George W. Bush.

Mas, ter que desistir de um projeto dessa envergadura, quando estavam colocadas condições objetivas que permitiam antever a possibilidade de sucesso, por ser negro, certamente deve ter deixado em Colin Powell um sentimento de frustração que ele pretende superar com sua adesão a Obama.

A maneira elegante, mas firme, com que rejeitou a escolha da governadora Sarah Palin como companheira de chapa de McCain, fazendo a análise de que ela é um indicativo de que o Partido Republicano havia caminhado para a direita política mais do que ele gostaria, foi a crítica severa de um republicano desiludido com os caminhos que o partido, e especialmente McCain, escolheram para tentar ganhar a Presidência.

Como não é possível acusar-se o General Colin Powell de ter-se bandeado para a esquerda, ou de que seja antipatriota, suas críticas aos ataques que o candidato democrata Barack Obama tem sofrido por parte da campanha republicana têm a marca de um soldado que desde a Guerra do Iraque vem discordando do rumo que o partido vem tomando, especialmente pela predominância dos neoconservadores que dominaram as decisões da Casa Branca sob o comando do vice-presidente Dick Cheney.

Na sexta-feira anterior ao anúncio de Powell de apoio a Obama, aliás, estreou no circuito nacional de cinema americano "W", o novo filme de Oliver Stone sobre a trajetória política do presidente George W. Bush, que mostra bem as divergências sobre a invasão do Iraque e o papel do então secretário de Estado, em permanente disputa com Cheney e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. O que deve melhorar a imagem pública de Colin Powell.

Atribui-se a amigos de Powell a informação de que sua defesa da invasão do Iraque no Conselho de Segurança da ONU, baseado em supostas evidências levantadas pela CIA de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa - que acabaram se provando falsas -, fez com que se desiludisse com o governo Bush, do qual se afastou paulatinamente.

O fato de que o candidato republicano John McCain conta em sua assessoria internacional com a colaboração de vários especialistas ligados aos neoconservadores do governo Bush ajuda a entender a escolha de Colin Powell, que tem uma visão sobre a guerra do Iraque mais próxima da defendida por Barack Obama.

Mas, o ex-secretário de Estado não se limitou a apoiar Obama em questões militares, e entrou na grande questão dos impostos, que hoje centraliza a campanha presidencial.

McCain descobriu no bombeiro hidráulico José (Joe, the plumber) uma maneira de levar aos trabalhadores americanos sua advertência de que o candidato democrata tem um projeto "socialista" de distribuição de renda através dos impostos. Colin Powell rejeitou também essa tentativa de ligar Barack Obama ao socialismo.

A diferença de seis pontos, embora esteja acima da margem de erro das pesquisas, está dentro do "fator Bradley", que leva em conta o racismo intrínseco do americano médio. Por essa teoria, o prefeito Tom Bradley, de Los Angeles, apontado como o vencedor da disputa pelo governo da Califórnia em 1982, acabou perdendo porque as pesquisas não revelam a tendência do eleitor médio de não votar em negros.

Um artigo de um antigo assessor de Bradley, publicado ontem no "New York Times", no entanto, renega essa versão. Blair Levin, atualmente dirigindo uma financeira, diz que Bradley era um político que não trabalhava com as diferenças, mas sim com o que unia as pessoas, e não gostaria de ser lembrado por um suposto efeito de exclusão.

Segundo Levin, ele não perdeu devido ao racismo, mas a uma lei impopular sobre controle de armas e porque o partido republicano fez um trabalho muito bom de arregimentar eleitores que as pesquisas não detectaram.

É um trabalho desse tipo que a campanha de Barack Obama vem fazendo desde o início, estimulando o comparecimento às urnas e filiando novos eleitores. Em busca do "efeito Bradley" ao contrário.

Crise financeira: hora de mudar a política monetária e cambial


Yoshiaki Nakano
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A crise financeira parece ter ultrapassado o seu momento mais crítico. As intervenções decididas e abrangentes do governo inglês, com a nacionalização e recapitalização dos bancos problemáticos, gerou um modelo de intervenção e uma ação coordenada dos governos europeus, asiático e americano. Isto parece ter afastado a catástrofe que poderia ser causada por uma corrida bancária generalizada e falências em massa dos bancos. O próprio governo dos Estados Unidos mudou a sua estratégia, passando a seguir o modelo estabelecido por Gordon Brown. A garantia de liquidez e injeção de novos capitais do Estado parece ter afastado o pânico extremo. Agora os efeitos da crise financeira sobre a economia real começam a aparecer. A recessão nas economias desenvolvidas deverá ser profunda e duradoura.

Um estudo de três economistas do FMI (Claessens, Kose e Perrones, 2008) nos dá algumas referências empíricas sobre a profundidade e duração das crises financeiras. Episódios de colapso do sistema de crédito duram, em média, dois anos e meio e provocam uma contração real no volume de crédito de cerca de 20%. Crises imobiliárias duram em média quatro anos e meio e provocam uma queda no preço real dos imóveis de 30%. E a quebra das bolsas de ações dura cerca de três anos e o valor real cai para metade. As recessões associadas às crises financeiras podem ocorrer com lags e têm duração média de um ano a um ano e meio e resultam em perdas de 4% a 6% de PIB entre o pico e o fundo do poço.

Entretanto, é bom lembrar que a recessão que aí vem resulta de uma crise rara, uma combinação de colapso da bolha imobiliária, quebra das bolsas e crise bancária que resultam em bancarrota do sistema de crédito. Não foi uma recessão cíclica que desencadeou a crise, mas a crise foi engendrada dentro do próprio setor financeiro pelas inovações financeiras, com a utilização indiscriminada e não supervisionada de derivativos e a securitização.

No momento, a crise atingiu um ponto em que um novo círculo vicioso foi acionado: o feed back entre crise financeira e recessão e desta para novas perdas financeiras. A última rodada de queda nas bolsas de valores do mundo inteiro começou a captar este processo. Daí a reação coordenada dos bancos centrais dos Estados Unidos, Europa e da Ásia reduzindo a taxa de juros. Com a forte queda nos preços das principais commodities e do petróleo, o controle da inflação saiu do cenário.

Isto coloca não só a política monetária brasileira em xeque, como trouxe mudanças extraordinárias no cenário econômico brasileiro para os próximos anos. Não se trata de desaparecimento passageiro das linhas de crédito do exterior ou para os exportadores, como nas crises recentes causadas pelas paradas súbitas no fluxo de capitais do exterior. A contração de crédito vem de uma crise estrutural e representa claramente o fim de um longo ciclo de forte expansão no crédito com baixas taxas reais de juros de longo prazo e o fim de um modelo de negócios bancários que se desenvolveu a partir da década de 80. Os governos, tanto dos EUA como da Europa, vão ter que redesenhar um novo sistema financeiro, o que deverá levar anos.

Em épocas de crise financeira como a que estamos vivendo, os mecanismos normais de mercado deixam de funcionar, convenções são quebradas, as visões sofrem transfigurações e comportamentos sofrem mudanças. Surgem descontinuidades que demandam mudanças nas instituições e nas regras de operação. É por isso que o próprio Banco Central do Brasil foi obrigado a rapidamente mudar as regras de depósito compulsório, uma anomalia herdada da época de hiperinflação que havia se transformado numa convenção imutável, para evitar contração maior de crédito. É hora de deixar de lado as convenções do período de normalidade e aprender as novas lições que o novo mundo nos oferece. Com a crise, num piscar de olhos, as prioridades mudaram, colocando em xeque a própria política monetária do BC. A redução das exigências de depósito compulsório significa aumentar a oferta de crédito, portanto a liquidez no mercado monetário, o que equivale rigorosamente a uma redução nos juros. De fato, o BC está disponibilizando recursos adicionais aos bancos a custo zero dos depósitos à vista e reduzindo o custo de captação dos depósitos a prazo e de poupança. Desta forma, a não ser que o Banco Central do Brasil seja esquizofrênico, a Selic deveria ser reduzida, como tem feito a quase totalidade dos bancos centrais em todo o mundo, para dar certo alívio na contração de crédito e encorajar o nível de atividade em 2009.

Da mesma forma, a dramática redução nos movimentos de capitais em todo mundo, que deverá perdurar até que a crise financeira se resolva e se construa um "novo Bretton Woods", exige uma nova taxa de câmbio, menos apreciada e mais competitiva. O mercado já fez a "maxidepreciação", mas riscos de aceleração persistente na inflação estão afastadas. A queda nos preços das commodities, a recessão nos Estados Unidos e Europa, a desaceleração econômica na Ásia e a contração global de crédito criaram, subitamente, um cenário deflacionário mundial, pelo menos no curto prazo. Assim, é preciso administrar a flutuação da taxa de câmbio num novo patamar para retirar do horizonte a nuvem negra que estava se formando com o explosivo crescimento do déficit em transações correntes do país.

Para concluir, a crise nos oferece uma oportunidade única para fazer as mudanças que, em épocas de normalidade, seriam muito difíceis. De um lado, consolidar um novo modelo de crescimento revelado pela recuperação recente da economia brasileira, baseado na inclusão de novos segmentos da população ao mercado de consumo, com geração de novos empregos, aumento de produtividade e dos salários. O mercado doméstico dinâmico passa a ser o pólo de crescimento. De outro, consolidar um real forte e estável com uma taxa de câmbio competitiva que equilibre ao longo do tempo o saldo nas transações correntes do país com resto do mundo e retire definitivamente as possibilidade de crise de balanço de pagamentos e ataques especulativos contra o real. Momentos de crise revelam a oportunidade de criar convergências na questão fiscal, estabelecendo metas de redução gradual e relativa das despesas de consumo do governo e a carga tributária, estabelecendo meta de déficit nominal num horizonte temporal não muito longo. Com isso, o Brasil poderia entrar para o grupo de países sérios, com moedas sólidas e confiáveis, com crescimento acelerado e sustentado por longos anos.

Yoshiaki Nakano , ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1124&portal=

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

"A campanha do Paes é clássica, ortodoxa, convencional. Nesse sentido, a estrutura partidária que compõe a aliança é peça fundamental, assim como o trabalho assistencialista feito por essas estruturas partidárias e seus dirigentes, principalmente na Zona Oeste. A campanha do Gabeira é uma campanha nova, joga para a sociedade, para as personalidades da cidade, e não para os partidos”.

(Luiz Werneck Vianna, em O Globo)

Manifesto por um novo pacto social


Achille Occhetto
(Tradução de Josimar Teixeira)
DEU EM L’UNITÁ
Publicado em 18/10/2008


Um dos órgãos vitais do capitalismo – a finança – foi atacado por um mal terrível, que ameaça se estender a todo o sistema, passar da crise creditícia e bancária à crise da economia real.

Nesta situação, indiscutivelmente arriscada para todas as classes sociais, colocou-se o problema da mais ampla solidariedade possível para socorrer o sistema bancário. Não há dúvida de que a ameaça de colapso dos fundos de pensão, insolvência dos bancos e falência das companhias de seguro atinge a segurança e o futuro de todos os cidadãos. Nesta situação dramática, tornava-se e torna-se necessário um esforço comum para enfrentar a crise. Mas tal esforço não podia e não pode prescindir de uma constatação precisa.

Diante desta crise não somos todos iguais: existem os culpados e existem as vítimas. Por isso, também na ação de socorro deve-se distinguir entre intervenção imediata para reanimar o sistema bancário e apoio ao velho modelo de desenvolvimento.

Nas grandes crises epocais, a diversidade dos interesses e o conflito social não desaparecem; ao contrário, acirram-se e manifestam-se sob formas diferentes daquelas do passado. Por isso, a esquerda não pode se dividir entre solidariedade unanimista e protesto corporativo.

É preciso lançar um manifesto de comportamento que trace em grandes linhas a relação que deve haver entre a esquerda – e, mais em geral, o centro-esquerda – e a crise.

Eis alguns possíveis pontos fundamentais de tal manifesto:

1. Estamos prontos para assumir as nossas responsabilidades nacionais e internacionais para enfrentar a emergência do modo mais rápido e eficaz possível, mas através de uma nítida distinção entre o resgate imediato do sistema bancário, a eliminação das causas da bolha financeira e imobiliária, a reanimação do mercado dos empréstimos interbancários, por um lado, e o resgate dos banqueiros e dos dirigentes políticos que criaram a crise, por outro.

2. Fazemos uma nítida distinção entre resgate do sistema financeiro e relançamento do velho modelo de desenvolvimento. O próprio resgate do sistema financeiro não deve ser funcional à retomada do modelo de desenvolvimento neoliberal. No momento mais agudo da crise, os gurus do neoliberalismo redescobriram o valor da mão pública, desde as formas mais indiretas – como as que vão de amplas injeções de dinheiro estatal à co-participação nos institutos de crédito privados – até às decisões, tomadas no santuário do neoliberismo, de nacionalização no sentido mais próprio do termo. Depois de termos sido obrigados, por uma década, a engolir poeira, arrastados atrás do carro do triunfo neoliberal, assistimos a uma mudança de clima inimaginável há apenas algumas semanas! No entanto, não podemos aceitar que o dinheiro dos cidadãos sirva somente para dar fôlego aos vários responsáveis pela crise.

3. Não se deve perder de vista que corremos o risco de que os próprios investimentos públicos sejam uma forma de privatização pelo avesso, uma vez que se reduzam exclusivamente, como está ocorrendo, a uma espécie de resgate, com o dinheiro dos cidadãos, o que terminaria por reforçar o círculo vicioso da relação recíproca de dependência entre a classe política e os supostos capitães corajosos da especulação financeira. Assim, depois de sangradas as burras do Estado – a serem reforçadas com impostos e cortes do gasto público –, os próprios cidadãos se verão diante do espectro do desemprego e da recessão.

4. A própria intervenção do Estado não é neutra: deve-se pôr em ação um sistema público diferente quanto ao modo de operar e às finalidades produtivas e sociais que devem caracterizá-lo. Não queremos o retorno dos boiardos de Estado! Exigimos, pois, que a co-participação do Estado nos bancos privados seja acompanhada por uma co-participação democrática dos cidadãos, a ser realizada através de formas eficazes de nova democracia econômica. Deve reaparecer, acima do mercado, o tema iniludível das regras. Isso comporta o reforço dos controles públicos e a discussão democrática das orientações de gasto e de investimento. Esta é a primeira condição para realizar uma efetiva passagem da financeirização selvagem destes anos à centralidade do trabalho produtivo.

5. Consideramos que a retomada dos fluxos financeiros e o mercado dos empréstimos bancários – o chamado money market – devem ser postos a serviço de novos modos de consumir e produzir, que tenham como núcleo a economia do sol e do ar no lugar do petróleo, do carvão e do nuclear. Isso comporta uma decidida transferência de recursos financeiros das políticas de rearmamento para as de intervenção para a salvação do planeta.

6. Afirmamos a necessidade de que a co-participação do público, de mero resgate transitório dos velhos poderes fortes, transforme-se num novo pacto social que comporte uma diferente redistribuição de renda e poder entre capital e trabalho, deslocando o centro de gravidade em favor das classes e dos países menos favorecidos.

Trata-se, como se vê, só de algumas diretrizes muito gerais, que, no entanto, a meu ver, poderiam ser propostas como base de um trabalho bem mais denso de discussão e elaboração de concretos projetos alternativos em relação ao fracassado pensamento único global do monetarismo neoliberal, posto de joelhos pela mais grave crise do capitalismo desde 1929.

Achille Occhetto, o último secretário do Partido Comunista Italiano e o primeiro secretário do Partido Democrático de Esquerda (atual Partido Democrático –PD)