domingo, 21 de junho de 2015

Merval Pereira - Rainha da Inglaterra?

Quem diria, a mãe do PAC, a gerentona que tudo acompanha, que de tudo sabe, e dá socos na mesa quando desagradada, não passa de uma Rainha da Inglaterra, que nada sabe do que acontece em seu redor, de quase nenhum poder de decisão.

Pelo menos, é o que querem que a opinião pública acredite desta vez, quando estão em julgamento atos de seu primeiro governo Dilma considerados ilegais pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

O mesmo já acontecera na Petrobras, quando ela alegou que, como presidente do Conselho de Administração da estatal, fora induzida ao erro pelo então diretor Nestor Cerveró, que teria apresentado um relatório “técnica e juridicamente falho” para aprovar a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

A imagem da grande administradora, e ao mesmo tempo “mãe dos pobres”, foi criada pelo marqueteiro João Santana especialmente para Lula lançá-la candidata à sua sucessão em 2010.

Ele é defensor da tese de que existe um "espaço imaginário de uma rainha" no inconsciente coletivo brasileiro, “uma imensa cadeira vazia” na nossa mitologia política e sentimental, que chama metaforicamente "de cadeira da rainha", e que poderia ser ocupada por Dilma. Santana dizia na ocasião que nem mesmo a Princesa Isabel preenchera esse lugar inteiramente.

São inúmeros os relatos sobre quão centralizadora é a presidente Dilma, e de seus modos, rudes muitas vezes, em reuniões setoriais em que se desagradava de alguma apresentação. Assim como são vários os relatos de ministros e autoridades em geral que teriam saído chorando de seu gabinete depois de destratados por ela.

Há relatos que podem ser exagerados, de palavras de baixo calão ditas no calor de uma discussão, mas são muitos. Enfim, a única coisa que não existia até agora era a descrição de uma presidente que não sabe o que seus assessores mais próximos estão fazendo.

Quando, ainda no primeiro mandato, pensava-se num substituto para o ministro da Fazenda Guido Mantega, lá vinha a explicação para sua inamovibilidade: a presidente não encontraria nenhum outro que cumprisse fielmente o que queria.

Na verdade, a ministra da Fazenda era a própria Dilma. Pois agora, que as chamadas “pedaladas” fiscais e outras irresponsabilidades com o orçamento público estão sendo contestadas pelo TCU, que exigiu explicações em 30 dias da própria presidente Dilma, surge a explicação de que toda a responsabilidade tem que ser jogada sobre o Secretário de Tesouro Arno Augustin.

Reportagem do jornal "Valor Econômico" revelou a existência de uma nota técnica assinada por Arno em 30 de dezembro de 2014, último dia útil do ano, em que o então secretário diz ser dele a responsabilidade por fazer a liberação e a transferência de recursos pelo Tesouro.

Na nota técnica, redigida pela Coordenação Geral de Programação Financeira (Cofin) e pela Subsecretaria de Política Fiscal (Supof), Arno reitera que "cumpre à Supof e à Cofin procederem na operacionalização da liberação/transferência desses recursos, posteriormente à autorização de liberação pelo secretário do Tesouro Nacional".

Ora parece “inviável”, como gosta de afirmar o juiz Sérgio Moro, que a presidente Dilma não soubesse que seu subordinado estava cometendo atos ilegais. Economista, centralizadora, a presidente Dilma não seria digna da fama que tem se deixasse que assessores tomassem decisões que ela teria que assinar. Justamente por isso, como salienta o ministro Augusto Nader do TCU, não tem a menor importância a justificativa de Arno Augustin, pois a palavra final será sempre da presidente.

Muitas das questões que estão sendo contestadas pelo TCU dizem respeito a programação financeira e contingenciamento, de competência privativa da Presidente da República. Portanto, chega a ser ridícula essa tentativa de transformar a Rainha imaginada pelo marqueteiro João Santana na Rainha da Inglaterra, sem poder de comando no governo.

Dora Kramer - Na mira do chefe

- O Estado de S. Paulo

Degrau a degrau, a Operação Lava Jato chegou ao topo da cadeia alimentar dos negócios das empreiteiras dentro da Petrobrás ao determinar as prisões dos presidentes das construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez, sob a justificativa de que ambos tinham pleno conhecimento de todo o esquema de pagamento de propinas na estatal.

Conclusão semelhante à que chegou por maioria o Supremo Tribunal Federal, durante o julgamento do mensalão, ao recorrer à teoria do domínio do fato para estabelecer que o ministro-chefe da Casa Civil do governo Luiz Inácio da Silva, José Dirceu, tinha pleno conhecimento do sistema montado com agencias de publicidade, bancos e empresas públicas para comprar apoio político ao governo.

O STF sofreu críticas e acusações de arbitrariedade. Agora, como se vê, se algum pecado houve naquele processo, não foi por excesso de rigor. Antes, talvez, por omissão de “dominadores” e beneficiários dos fatos.

Mas as investigações prosseguem, avançam e já desmontam ao menos uma tese: a de que as empreiteiras foram vítimas dos políticos. Por essa teoria, a exigência do pagamento de propinas seria uma imposição resultante da “parceria” entre governantes e parlamentares e a única maneira de as construtoras (não só elas, diga-se) fazerem negócios com o Estado.

Embora seja verdade, é apenas meia verdade. Não há vítimas nem algozes nessa história. Apenas cúmplices. Para que as empreiteiras façam os negócios que estão sendo revelados, é preciso que os detentores do controle da máquina do Estado abram espaço a elas e permitam que a clientela amiga sirva-se à vontade.

Por isso mesmo há em Brasília a mais plena certeza de que os políticos não escapam. A hora deles chegará. No Supremo, para os que têm o chamado foro privilegiado ou para os que já não podem contar com ele e que porventura tenham aparecido nas delações premiadas sob a jurisdição do juiz Sérgio Moro.

Do mesmo modo que os chefes das grandes empreiteiras obviamente sabiam de tudo o que se passava, a chefia, ou as chefias, do núcleo político – vale dizer, o governo e seus aliados no Parlamento – detinham o perfeito domínio sobre todos os fatos.

A maneira como as investigações vêm sendo conduzidas indicam que o desmonte é só uma questão de tempo. E as excelências todas já se deram conta disso. De onde está havendo em Brasília um movimento de retorno ao interesse pela ação política em detrimento dos negócios. Puro instinto de sobrevivência.

O ativismo legislativo é um sinal. Deputados e senadores que sempre deram mais importância às vontades do Planalto – por décadas – de súbito tornaram-se adeptos da independência. Ora, ora, uma explicação deve haver para tal mudança. Certamente não é a de que baixou o santo do espírito público de uma hora para outra.

Baixou, isto sim, a certeza de que nada será como antes. Políticos têm faro apurado. Daí tanta valentia, tanto enfrentamento como nunca se viu do Legislativo em relação ao Executivo. Políticos têm faro apurado, sabem para onde sopram os ventos.

E nesse momento procuram se reposicionar diante da opinião pública. Se formos examinar, o fenômeno atinge todas as instituições que, finalmente, procuram – umas mais, outras menos – falar à sociedade.

Entre outros, exemplo típico é o TCU no caso das contas do primeiro governo Dilma Rousseff, que cometeu ilegalidades confiando na leniência com infrações anteriores sem levar em consideração o velho dito segundo o qual é impossível enganar a todos o tempo todo.

Ferreira Gullar - Nem que a vaca russa

• O PT continuou antiprivatista para mostrar que se mantém de esquerda, mesmo quando o comunismo já desmoronou

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Por incrível que pareça, a presidente Dilma Rousseff anunciou, na semana passada, um programa de concessões no valor de cerca de R$ 190 bilhões para investir em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e telecomunicações.

Digo que parece incrível porque toda a história do PT --e particularmente de Lula e Dilma-- sempre foi a de considerar a privatização um ato de traição nacional.

Lembram-se do aranzel que o PT armou em todo o país para protestar contra a privatização da Telebrás, pelo governo Fernando Henrique Cardoso?

No Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, no Recife, em Porto Alegre, enfim, em todas as grandes e pequenas cidades do país, os militantes petistas denunciavam a ignomínia que era entregar os serviços telefônicos do país a empresas privadas.

Naquela época, em que possuir um telefone era um privilégio, comprei um pelo equivalente a quase R$ 5.000 hoje.

Telefone era um bem tão raro e precioso que se punha na declaração do imposto de renda. Pois bem, a privatização foi feita e hoje todo o mundo tem telefone, do porteiro do meu prédio ao faxineiro que limpa a rua aqui da frente. O PT nunca mais tocou nesse assunto.

Mas continuou antiprivatista para mostrar que se mantém um partido de esquerda, mesmo quando o regime comunista já desabou no mundo inteiro. É o que eu chamo de "populismo de esquerda", que já não opõe o operariado à burguesia e, sim, o pobre contra o que Lula chama de "elite branca".

Tudo de araque, porque, enquanto enganava o povão com os programas assistencialistas, emprestava o dinheiro público a empresas capitalistas, com juros abaixo do mercado. Arvorava-se como defensor da Petrobras como empresa estatal e, de fato, a privatizou extorquindo propinas das empreiteiras.

Algumas dessas falcatruas vieram à tona agora, mas, apesar disso, Lula e Dilma continuam a posar de esquerdistas, inimigos do capitalismo e, logicamente, de contrários à privatização. Sucede que, se é fácil enganar o povão desinformado, é impossível enganar a realidade.

A situação crítica de nossos aeroportos, por exemplo, levou o governo petista a apelar para o capital privado. Como não podia usar a palavra privatização, usou concessão e, para não ser acusado de favorecer aos capitalistas, impôs tais condições às concessões que ninguém aceitou investir nos aeroportos.

Os anos se passaram, e a situação não apenas dos aeroportos, como dos portos e ferrovias, agravou-se a cada dia, sem que nenhum investimento fosse feito para resolver o problema.

Isso aumentava o custo de nossas exportações, contribuindo para o agravamento da situação econômica do país. Enquanto isso, o governo continuava investindo em programa eleitoreiros, que lhe garantiu o poder por 14 anos já.

Mas, como a realidade não se engana, a verdadeira situação econômica se impôs e obrigou a presidente Dilma a fazer o contrário de tudo o que dissera durante a última campanha eleitoral.

De fato, essa necessidade de fingir que é de esquerda foi um dos fatores decisivos --além da corrupção, é claro-- para o desastre econômico a que o petismo conduziu o país. Dentro dessa mesma atitude ambígua, Lula deixou deliberadamente que se deteriorasse o intercâmbio comercial com os Estados Unidos, que sempre foram nosso maior parceiro comercial.

O desastre só não foi maior porque, mal assumiu o governo, a China se tornou o grande comprador de cereais e minérios brasileiros, enquanto nossa produção industrial perdia mercado. Nossos principais parceiros comerciais deixaram de ser as nações desenvolvidas, substituídas por Venezuela, Bolívia e Cuba, aos quais o governo petista (de esquerda) decidiu ajudar.

O resumo da ópera é que, neste ano de 2015, não dá mais para posar de inimigo do capitalismo, muito menos para insistir nas medidas populistas, porque o resultado delas foi onerar os cofres públicos e as empresas estatais.

Dilma agora teve de aumentar os preços do diesel, da gasolina, da energia elétrica e, com o ajuste fiscal, onerar a classe trabalhadora.

Mas isso ainda não basta para tapar o buraco em que o país afundou. Há que recorrer à mal afamada privatização.

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*Ensaísta, critico de arte, poeta. É membro da ABL

Eliane Cantanhêde - Erga Omnes

- O Estado de S. Paulo

O PT tem razão: o cerco está se fechando sobre Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo e cada vez mais perigosamente. O TCU deu a Dilma 30 dias para tentar escapar de um processo por crime de responsabilidade, que, em tese, pode lhe custar o mandato. E a PF prendeu, na fase Erga Omnes da Lava Jato, o presidente da maior empreiteira do País, Marcelo Odebrecht, que pode empurrar Lula para o olho do furacão.

Mesmo sem o processo contra Dilma e mesmo se a Odebrecht não chegar objetivamente a Lula, o desgaste político de ambos e do PT é gigantesco. Já teria enorme dramaticidade se a presidente tivesse índices pelo menos razoáveis nas pesquisas, as relações entre Executivo e Legislativo corressem dentro da normalidade, a economia fosse de vento em popa e a opinião pública estivesse acomodada. Ao contrário, o tranco ocorre quando a popularidade de Dilma é de dar dó e o ambiente é justamente o oposto.

Quanto mais frágeis a presidente e seu fiador, mais o País depende da liderança e da responsabilidade do seu Congresso e dos seus partidos políticos. Pois os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, estão ambos sob investigação do Supremo Tribunal Federal, aliás, pela mesma Lava Jato que envolve Lula numa névoa de desconfiança.

Quanto mais Dilma e Lula perdem credibilidade e aura, mais desesperadamente precisam que a economia demonstre fôlego, mas, a cada dado, a recuperação parece ainda mais distante. A nova previsão de crescimento e os últimos indicadores de inflação e de emprego são de nocautear até os otimistas mais aguerridos. Recuamos 20 anos – sem falar de Petrobrás e do setor elétrico.

Por fim, quanto mais Dilma e Lula diminuem, mais aumenta o grau de participação da sociedade. Congressos, seminários e debates se multiplicam freneticamente pelo País, com as manifestações ainda fresquinhas na memória e a internet inundando a discussão de radicalização com viés anárquico – contra tudo, contra todos.

Além da irritação, o clima é de grande perplexidade mesmo em Brasília, onde habitam os mais experientes e frios observadores da cena nacional, sempre tão agitada, geralmente imprevisível, às vezes chocante. A diferença, desta vez, é que não há previsões, não se vê luz no fim do túnel, não se trabalha a convergência para uma saída segura.

As perguntas já pululavam quando Dilma queimou a largada do segundo mandato, mas agora elas pairam como fantasmas e se concentram, naturalmente, sobre quem está no poder: Lula escapa? Dilma tem condições de concluir o mandato? O que acontece se ela cair? E o que acontece se ela ficar? Como serão os próximos meses? E os próximos anos?

Assim com há as “dores do crescimento”, há a agonia dos estertores. A sensação, neste momento, é de que o País se sente num fim de ciclo, sufocado, sem entender direito o que se passa e sem ter a mínima ideia do que o espera ali na frente, a curto prazo, ou lá no horizonte, a longo prazo.

É como se o governo estivesse à deriva, ao sabor de ventos e marés nem sempre amistosos, às vezes cruéis, e sem líderes e partidos que possam assumir o leme. Há, assim, uma imobilidade perturbadora: a falta de liderança gera a falta de perspectiva, e a falta de perspectiva abala ainda mais as já anêmicas lideranças.

Dilma encerra o ciclo e o mundo político, em vez de buscar respostas e criar mutirões para a emergência, só pensa, come, dorme e sonha com 2018. Mas, como já lembrou machadianamente o petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, “antes de 2018, tem 2015, 2016, 2017...”. Vale para o PT, mas que a oposição não se engane: vale também para todo o resto. Erga Omnes.

Luiz Carlos Azedo - Todos os homens são mortais

• O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais ou menos na situação do personagem de Simone de Beauvoir. Dono de imenso carisma, parece imortal, mas começa a colecionar cadáveres ao redor

- Correio Braziliense

A escritora francesa Simone de Beauvoir, esposa do filósofo Jean-Paul Sartre, na obra da qual tomo emprestado o título, conta a história de Fosca, rei de Carmona, personagem nascido no ano de 1279, que bebe o remédio da imortalidade para salvar seu reino ameaçado pelos genoveses. Ao contrário do que ele imaginava, porém, se torna um “amaldiçoado” sobre a terra, condenado a viver para todo o sempre. Nosso personagem, que no final do ano passado foi lembrado aqui na coluna, surge no romance pelos olhos de Regine.

Fosca queria fazer algo importante para a humanidade e temia não ter o tempo necessário: “Morrerão todos e Carmona será salva. E então eu morrerei, e a cidade cairá nas mãos dos florentinos ou de Milão. Terei salvo Carmona e nada terei feito”. Diante desse dilema, bebe a fórmula mágica oferecida por um pobre homem que seria executado. Na condição de imortal, torna-se inflexível e capaz de tudo para alcançar o seu objetivo: “Com a condição de que o mal seja útil”. É intolerante e insensível perante as efêmeras existências alheias: “O que era uma vida?”.

Esse sentimento de ser soberano e deus na terra o acompanha por muitos séculos. Mas não apenas os inimigos sucumbem, o mesmo acontece com os seres queridos, que sacrifica por um fim inexistente. Sua visão de mortal, com o passar do tempo, perde totalmente o sentido. Fosca não vive as emoções de Marianne, sua grande paixão, não vive também as conquistas e vitórias dos demais, como as de Armand, de Garnier, de Laure, e de todo o povo e a humanidade. Vê as pessoas de forma muito prática: cumpria-lhe decidir!

Mesmo depois de ter o filho Antônio morto numa guerra sem sentido, como todas as outras, Fosca acredita que a sua felicidade está em dominar o mundo. Esse desejo o faz guerrear por muito tempo, até que chega à conclusão de que lutar não serve para nada, e que não existe vitória, para um ser imortal. Um monge lhe diz: “Acredita ter realizado grandes coisas, e o que fez não é nada”. Fosca, então, indaga sobre o próprio passado: “Útil a quem? A quê?” E chega à conclusão derradeira: “Eis o império que destruímos, o império que eu desejava estabelecer sobre a terra (...)”.

Senhor do tempo
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais ou menos na situação do personagem de Simone de Beauvoir. Dono de imenso carisma, parece imortal, mas começa a colecionar cadáveres ao redor. Sobrevive ao fracasso e aos reveses alheios, mas está cada vez mais só. O modelo econômico que acreditava ser capaz de transformar o Brasil numa potência, enquanto o mundo afundava, resultou num grande fracasso e desmoralizou o “desenvolvimentismo” petista. As alianças políticas que teceu com engenho e arte voltam-se contra seu partido e operam uma guinada conservadora. A presidente Dilma Rousseff amarga os mais baixos índices de popularidade e não consegue sair da defensiva. Os empresários amigos estão na cadeia, a mesma pela qual já passaram companheiros históricos que o levaram ao poder e executivos que promoveu na empresa símbolo do orgulho nacional.

Parece que não restará outra alternativa para Lula a não ser acreditar na própria imortalidade e antecipar sua candidatura a presidente da República em 2018. Seria uma maneira de manter o PT unido, conter a debandada dos aliados que querem abandonar o governo, pôr a oposição de joelhos novamente. Mas o que pode um senhor da guerra diante da destruição e dos sacrifícios que impõe ao seu próprio povo? É aí que a dúvida de Fosca passa a ser um drama existencial.

Lula era senhor do tempo e da razão, mas a Operação Lava-Jato é como um trem parador da Central do Brasil que precisa chegar a Japeri. Mudou o cronograma político do país. Por mais que o Palácio do Planalto tente construir uma agenda positiva para a presidente Dilma Rousseff; e por mais que os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), lancem o Congresso num grande ativismo legislativo, a investigação sobre o escândalo de corrupção na Petrobras tem seu próprio ritmo e comove a vida nacional. Tanto a crise política como a crise econômica estão vinculadas à espantosa crise ética que se abateu sobre a República. Em nome da governabilidade e da estabilidade econômica, tudo se faz para conter o escândalo aos limites de conveniência do status quo, mas a mesma sociedade que sofre as consequências de tudo isso quer ver o caso passado a limpo, doa a quem doer.

Elio Gaspari - A Lava-Jato no topo do andar de cima

- O Globo

Em outubro passado, quando o “amigo Paulinho” (expressão carinhosa atribuída a Lula) jogou a Odebrecht na frigideira da Lava-Jato, o presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, soltou uma nota oficial dizendo o seguinte:

“Neste cenário nada democrático, fala-se o que se quer, sem as devidas comprovações, e alguns veículos da mídia acabam por apoiar o vazamento de informação protegida por lei, tratando como verdadeira a eventual denuncia vazia de um criminoso confesso que é ‘premiado’ por denunciar a maior quantidade possível de empresas e pessoas”.

Passados oito meses, o doutor, bem como Otávio Azevedo, presidente da empreiteira Andrade Gutierrez, estão na carceragem de Curitiba. Ao expedir a ordem de prisão contra eles, o juiz Sérgio Moro deu uma demonstração parcial da quantidade de provas acumuladas pela Polícia Federal e pelo Ministério Publico.

A Odebrecht e a Andrade Gutierrez não são acusadas só pelo “amigo Paulinho” mas também por três dirigentes de empreiteiras, que descreveram o funcionamento do cartel de roedores da Petrobras. Rastreamentos internacionais de depósitos bancários, anotações e mensagens eletrônicas documentaram a ordem de prisão expedida pelo juiz Moro. Diante de tanto material, a nota de outubro parece ter sido produto de um destempero de Odebrecht.

Na lista de presos da Lava-Jato entrou João Antonio Bernardi, que trabalhou na empreiteira e também na Camargo Corrêa. Durante algum tempo ele esteve na empresa Hayley, que mimou o diretor da Petrobras Renato Duque com R$ 500 mil em obras de arte. Talvez Bernardi tenha algo a contar. A polícia e os procuradores certamente têm o que perguntar.

Por mera curiosidade, ele poderá esclarecer um episódio. Há algum tempo, carregando uma maleta na avenida Chile, a caminho da Petrobras, teria sido assaltado. O pivete levou a maleta e ele teria apresentado queixa à polícia. O que carregava, não se sabe.

No meio de tanta gente boa metida nas petrorroubalheiras, o ladrão da maleta pode ter sido o único que, como o J. Pinto Fernandes do poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond, “não tinha entrado na História”.

Franklin Martins e seu tesouro musical
Estão chegando às livrarias dois volumes de “Quem foi que inventou o Brasil? — A música popular conta a História da República”, do jornalista Franklin Martins, ex-ministro da Comunicação Social de Lula. Com 1.100 páginas e mais dois quilos de peso, são um verdadeiro tesouro. Neles, está documentada a História política da música popular brasileira, desde composições do tempo do Império até a “Canção do Subdesenvolvido”, de 1961. Com ela, a esquerda delirava ao dizer que o mundo (leia-se os Estados Unidos) estava a “comprar minério” e “vender navios”. É o que hoje fazem os chineses, mas deixa pra lá.

Franklin Martins é um pesquisador obsessivo da música popular e dos detalhes da política nacional. Trabalhou 15 anos no projeto e fez dois livros excepcionais por quatro motivos: coletou as letras de 784 canções, acrescentou a cada uma comentários de fina percepção e ilustrou-os com mais de 600 fotografias e reproduções. Se isso fosse pouco, rompeu a limitação imposta pelo papel impresso, colocando todas as gravações no site dedicado à obra. Falar de músicas só com palavras deixou de ser uma trava e virou um prazer: o leitor ganhou acesso a um arquivo sonoro com cerca de 40 horas de música.

Planos de saúde
As operadoras de planos de saúde são incansáveis. Há alguns meses, tentaram criar uma nova forma de cobrança para as multas por falta de cumprimento dos contratos. Enfiaram numa medida provisória um gato pelo qual quanto mais a operadora delinquisse, menor seria o valor unitário da multa. Felizmente, a doutora Dilma vetou a gracinha.

Agora conseguiram tirar do ar o ranking no qual a Agência Nacional de Saúde Suplementar listava os planos que acumulavam mais queixas.

Esse ranking existia desde 2002. Segundo a ANS, ele saiu do ar porque a metodologia será mudada. Tudo bem, mas nada impedia que continuasse sendo divulgado até que o novo sistema ficasse pronto.

Faz pouco tempo, poderosos empreiteiros acreditavam ser onipotentes, porque o comissariado usava seus aviões ou contratava suas empresas de consultoria. Deu no que deu.

TSE
O ex-procurador-geral Aristides Junqueira poderá até vir a ser indicado para uma vaga do Tribunal Superior Eleitoral. Como acumulará o cargo com a atividade de advogado do governador Tião Viana (AC), ficará numa posição difícil, até porque a defesa de seu cliente dará um trabalho danado. Tião Viana caiu na rede da Lava-Jato e responde a um processo no Superior Tribunal de Justiça.

A doutora Dilma tem uma encrenca marcada no TSE. Lá correm dois processos contra seu mandato. Um deles pode ir para a pauta antes de setembro. Se não for, no próximo ano a Corte será presidida pelo ministro Gilmar Mendes, do STF.

Pedaladas
Quando o Planalto resolveu jogar bancos oficiais na frigideira das pedaladas, foi expressamente advertido da possível ilegalidade do truque.

O comissariado justificou-se reconhecendo que as pedaladas seriam o único recurso para evitar que o governo fosse apanhado descumprindo a Lei da Responsabilidade Fiscal.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e acha que estão satanizando os empréstimos que o BNDES faz aos maganos do empresariado nacional. Deu toda razão ao presidente do banco, Luciano Coutinho, quando ele disse que há “desonestidade intelectual” nas críticas. Já o doutor Marcelo Odebrecht, contratador de R$ 24 bilhões em empréstimos, confessou-se “frustrado e irritado” diante das reclamações em torno de atos lisos e legais.

O idiota acha que ambos são perseguidos, mas fez uma conta. O dinheiro dele, arrecadado compulsoriamente, vai para o Fundo de Amparo ao Trabalhador e é remunerado a algo como 6% ao ano. Admitindo que desde 2007, quando o doutor Coutinho foi para o BNDES, tenham capturado a cada ano R$ 40 mil de dez trabalhadores para ampará-los, eles hoje têm um pecúlio de R$ 424,4 mil.

Se durante esse mesmo período os doutores Coutinho e Odebrecht colocaram R$ 40 mil anuais de suas poupanças em papéis remunerados à taxa Selic do Banco Central, conseguiram R$ 538,7 mil.

Coutinho empresta a juros camaradas, e Odebrecht está entre os que recebem. O idiota sabe que eles querem criar empregos e propõe que ambos transfiram suas carteiras de investimentos para a taxa do FAT. Criarão empregos com o dinheiro deles.

Vinicius Torres Freire - O Brasil precisa de um choque?

• Risco de crise duradoura começa a suscitar sugestões de medidas mais extremas

- Folha de S. Paulo

Um certo Brasil está se desmilinguindo. A demolição se deve em parte às reações aos abusos do governo, na verdade do sistema de poder, sempre uma parceria público-privada. O país se esboroa ainda por outros motivos imediatos:

1. A crise econômica é muito mais séria que a terrível baixa do PIB, grave ao ponto de pipocarem sugestões de que o país precisa de um choque. Não se ousa chamar a coisa pelo seu nome, mas é disso que se trata;

2. Líderes e partidos menos irrelevantes não são capazes de oferecer plano de reconstrução, política e econômica. Capazes em termos de habilidade, discernimento e poder, de organização ou articulação social.

A reação ao abuso transparece nas gritas genéricas contra "corrupções". Nos casos de polícia do empresariado graúdo. Nos processos dos arbítrios de Dilma 1 ("pedaladas", Petrobras, Eletrobras etc.). Na fúria contra o estelionato eleitoral de 2014. No basta ao livre comércio de parlamentares.

PT, PSDB e PMDB, porém, agem com mesquinharia alucinada, com oportunismos contraproducentes de autopreservação, atos de quem saqueia moedas de uma casa em chamas. A política parece um hospício desgovernado por loucos, quando não presídio em rebelião. Está alheia à crise e ao povo bestificado; desconectada de uma sociedade também politicamente desarticulada.

O "governo", sempre nosso bode expiatório preferencial, um saco sem fundo em que se socam todas as insatisfações e demandas, em dias bons é apenas um véu que camufla e amortece conflitos socioeconômicos, de "classe". Não mais.

Esgotou-se a política de combinar gasto social crescente com subsídios ainda maiores à grande empresa, com endividamento sem limite (que privilegia com juros os donos do dinheiro), com reservas de mercado para oligopólios e outras malversações do bem público e da eficiência.

A economia se esboroa em ritmo mais acelerado pela baderna institucional (Lava Jato, Petrolão, governo desmoralizado etc.). Há guinchos para tirar o PIB do atoleiro, mas é improvável que funcionem a contento antes de um ou dois anos. Isto é, demorará a aparecer o impulso da confiança maior, o das exportações e, talvez, o das obras de infraestrutura.

Mais profunda é a crise fiscal, que se pode transformar em colapso e solapar o crescimento por mais anos.

A recessão reduz a receita de impostos, mas mesmo sem crise a arrecadação não voltará a crescer como na década da formalização da economia. O padrão de gastos se tornou ainda mais explosivo. De resto, fez-se dívida pública demais para mimar a grande empresa, comprar empregos insustentáveis e disfarçar ineficiências grossas.

A fim de lidar com tamanha crise, parte da elite pensante passa a sugerir medidas de choque. Isto é, privatizações (de partes de bancos, ativos do BNDES, hidrelétricas) e alta forte de impostos. Junto disso, plano para rever subsídios e o sistema que permite a elevação sistemática de despesa (INSS e vinculações), de modo a tornar crível a ideia de que o novo aumento de receita bastará para domar a dívida. Para completar o básico, desvalorização do real, com o fim de excessos de intervenção no câmbio (reservas demais, swaps).

A isto chegamos.

Fernando Gabeira - Alô Terra, vocês me escutam?

• Os marqueteiros deveriam fazer de Dilma uma máquina trans-humana

- O Globo /Segundo Caderno

Leio nos jornais que os marqueteiros decidiram humanizar Dilma. Se somos todos humanos, o que significa humanizar Dilma? A chamada humanização foi uma trajetória ascendente, na qual vencemos intempéries naturais, construímos ferramentas, resolvemos complexos problemas da vida social.

Como Dilma é considerada uma das mulheres mais poderosas do mundo, a humanização pretendida pelos marqueteiros é uma espécie de saída do Olimpo. Ela vai parecer agora uma pessoa comum, uma filha de Deus na nossa imensa canoa furada que é o Brasil de hoje. Ao vê-la no seu passeio de bicicleta, convenci-me de que era humana. Deuses não usam capacete. Não se importam em se esborrachar no asfalto com seus etéreos cérebros. Dilma, como todos nós, sabe que um choque pode embaralhar os já congestionados circuitos mentais.

O processo de humanização se desdobrou numa entrevista a Jô Soares, na qual, no Dia dos Namorados, Dilma discorreu sobre o ajuste fiscal e suas preferências de leitura. Ela ainda não se humanizou como Obama, que vai aos programas de televisão. Dilma só dá entrevistas no seu habitat, com os tapetes, livros e, possivelmente, um leve cheiro de mofo do palácio.

O trânsito do divino ao humano é sempre muito complicado. Os islamitas moderados sabem disso. O Corão (surata 9, versículo 5) aconselha matar os politeístas onde quer que se encontrem. Os moderados afirmam que isso é um texto do século VII, vale para um contexto da Península Árabica em guerra. Mas a religião disse que o texto foi ditado por Deus, onisciente e eterno, superior a todas as conjunturas históricas. Afirmar que o texto foi escrito por seres humanos, falíveis, sujeitos às limitações de seu tempo, é assumir o risco da heresia. Não creio que os marqueteiros queriam apenas mostrar a descida de Dilma ao mundo dos humanos, que desfilam em suas bicicletas Specialized cercados de seguranças de terno escuro.

Podemos imaginar outro caminho da humanização. Ele não envolve a relação divino-humano, mas sim a relação entre pessoa e máquinas. Humanizar, nesse caso, seria mostrar que Dilma não é a máquina de processar números e tomar decisões. Ela tem as mesmas preocupações que todos nós e, inclusive, leu a Bíblia na cadeia.

Nesse ponto, acho que o caminho dos marqueteiros não me convence. Se Dilma é vista como máquina de decisões, o aparato precisa de conserto, não de traços humanos. Grande parte de suas análises e decisões foi para o buraco: a máquina nos trouxe a uma das maiores crises da História do país.

Se aceitassem minhas ponderações, o problema dos marqueteiros não seria humanizar Dilma, mas trans-humanizá-la, transformando-a em máquina mais eficiente. Em vez da conversa com Jô que, na cadeia, quando não estamos lendo a Bíblia, chamamos de cerca-lourenço, Dilma deveria estar implantando chips em muitas partes do corpo. Seria capaz de acionar o aparato do governo sem tantos ministros, detectar desvios antes que cheguem a R$1 bilhão, emitir ondas sonoras que acalmem o Congresso.

O projeto de trans-humanizar Dilma não significa que não possa ir ao programa de culinária e mostrar como fritar um ovo. Há chips para isso. Mas todos saberíamos que Dilma não é apenas humana. Como ela quase arruinou nosso sistema energético, vamos confiar apenas no Sol para alimentar os seus dispositivos. Cada vez que ela se aproximar do astro, como o robô europeu Philae, saberemos que busca contato conosco:

— Alô Terra, vocês estão me ouvindo?

Nietzsche escreveu “Humano, demasiadamente humano”, para analisar a morte de Deus e a solidão humana ao decidir sobre o certo e o errado.

Seres humanos andam de bicicleta e aparecem no programa do Jô, pessoal. Mas os marqueteiros de Dilma deveriam considerar aberto o debate sobre sua humanização. Afinal, ela apenas desceria do Olimpo, apenas se distanciaria da máquina?

O Deus bíblico é capaz de fazer perguntas, de ter curiosidade, ao criar os bichos, sobre o nome que Adão daria a eles. Aparentemente, a curiosidade é um dado contraditório num Deus que sabe tudo. Contradição e curiosidade são dados humanos. Se até o Deus bíblico é curioso, por que Dilma não faz perguntas aos seres humanos: o que achamos dela, do seu governo e de seu próprio projeto de humanização. Mesmo uma eficaz máquina trans-humana está arriscada a dizer “Olá Terra, vocês me escutam?”, e ser respondida com um ensurdecedor panelaço.

O que os marqueteiros fariam ainda com Dilma para que pareça humana? Pedalar não vale mais, porque ela está sendo questionada no TCU exatamente por pedalar. Não precisamente na bicicleta, mas nas contas do governo.

A história recente já produziu outro gesto de humanização: o general Garrastazu Médici fazendo embaixadas num campo de futebol. Aprendemos com o marketing político que os seres humanos praticam o futebol e o ciclismo. Chega de humanizar, vamos trans-humanizar, encher os políticos de chips e antenas. Prefiro encontrar Dilma e, ao invés de “bom dia, presidente”, saudá-la com um lugar-comum nos encontros de terceiro grau: “Por favor, leve-me ao seu líder”.

Miriam Leitão - Armadilha fiscal

- O Globo

A crise piorou, e ficou claro que será necessário da equipe econômica mais do que ela tem sido conseguido. Na semana passada, todos os indicadores pioraram, e alguns, mais do que era previsto. As medidas provisórias enviadas ao Congresso não eram o ajuste fiscal necessário. Para piorar, serviram de pretexto para o aumento de despesas como a da Previdência, que já é deficitária.

O plano dos ministros da área econômica era, no início do segundo mandato da presidente Dilma, tomar medidas fiscais duras, assumir o compromisso com uma meta de superávit primário que seria forte, mas factível, e que subiria ao longo dos próximos anos. Além disso, apertar a política monetária. O plano era este. A consequência seria uma queda do nível de atividade, mas que seria seguida por uma recuperação rápida, pela reconquista da confiança no meio empresarial.

A confiança não veio, as medidas fiscais foram diluídas no Congresso, foi colocada uma armadilha em uma das medidas provisórias, e o governo está preparando o anúncio da redução da meta fiscal porque já sabe que não conseguirá atingir 1,2% do PIB. Os ministros descobriram que o buraco era maior do que eles haviam calculado, e a desaceleração está sendo mais profunda, encolhendo as receitas.

A sexta-feira foi particularmente difícil pela série de indicadores divulgados, mostrando o difícil quadro econômico. A inflação pelo IPCA-15 chegou a 8,8% em 12 meses e 6,28% até junho. A atividade econômica encolheu em abril, pelo dado do Banco Central. O desemprego no mercado formal aumentou, segundo o Ministério do Trabalho. Foi uma sucessão de más notícias. A inflação em junho normalmente é baixa, mas desta vez veio quase em 1%, o que é um espanto.

O quadro internacional também não ajuda. A situação da Grécia piorou muito na última semana e começou uma corrida bancária no país diante da previsão de que seja impossível entrar em um acordo dos credores com o governo Alexis Tsipras. Ocorreram saques na última semana de mais de € 3 bilhões. No caso da Grécia, o que assusta é o desfecho possível de sua saída da Europa.

Nos Estados Unidos, o que pode nos atingir é a força da economia americana, que elevará as taxas de juros já no segundo semestre, e isso pode fortalecer mais o dólar, com várias repercussões no Brasil, inclusive com um impacto inflacionário.

O que realmente comprovou a dificuldade da conjuntura foi o caso da Previdência. O governo fez uma proposta modestíssima. Era apenas para acabar com a pensão vitalícia das viúvas jovens. O ganho imediato seria pequeno. A equipe avaliou mal o que poderia acontecer com um tema como esse dentro de um Congresso rebelado. Diante da baixíssima popularidade da presidente, o Congresso tem construído sua própria agenda. Em ambiente assim tão fluído é melhor nem apresentar proposta que pudesse ser usada para outros fins.

Foi o que aconteceu. O Congresso começou ampliando o tempo de duração das pensões das viúvas jovens em relação ao projeto do governo. Mas isso seria apenas um caso normal nesse tipo de tramitação. O pior foi a inclusão do sistema de aposentadoria 85/95. O governo enfraquecido fez apenas uma alteração na fórmula, incluindo a progressividade, que não resolve o fato de que ela representa mais gastos para o Tesouro do que a situação atual.

Agora criou-se uma situação complicada. No Congresso, tramitará o veto, que pode ser derrubado, e a MP, que tem um prazo para ser votada e que incluiu a progressividade. Mesmo se o governo ganhar todas as batalhas, ou seja, não ter o veto derrubado e ver aprovada a sua MP, o país será o único do mundo que, no meio de uma crise fiscal, sob risco de rebaixamento da sua nota de crédito, com ampliação da expectativa de vida, vai aumentar o ganho dos que se aposentam com menos de 60 anos. É um sinal totalmente trocado.

O Tesouro é um só, as demandas são muitas, os cortes prejudicaram várias áreas. Se aumentar o custo da Previdência, que já tem déficit, terá que haver cortes em outras áreas. O país já está cortando no essencial.

O ajuste fiscal não está dando certo. A recuperação da confiança não está ocorrendo, e o país está em recessão com inflação subindo.

A responsabilidade direta de Dilma – Editorial / O Estado de S. Paulo

A decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de dar um prazo de 30 dias para Dilma Rousseff explicar irregularidades na prestação de contas do governo relativa a 2014 desencadeia uma sucessão de acontecimentos que poderão, no limite, resultar no impeachment da presidente da República. A decisão também expõe claramente o verdadeiro caráter do lulopetismo no poder, cuja soberba messiânica o impele a passar por cima de tudo – inclusive a lei – que se contraponha a seus desígnios e à dissimulação da sua incompetência. Este é o governo cujas manifestações de apreço pela democracia ocultam sua verdadeira natureza antidemocrática, capaz de desprezar a lei aqui dentro e de prestigiar lá fora o totalitarismo castrista em Cuba, o bolivarianismo delirante na Venezuela e o fundamentalismo religioso no Irã, para citar apenas os compadrios mais notórios.

A decisão do TCU, órgão auxiliar do Congresso Nacional na função de fiscalizar o Poder Executivo, pode ter decepcionado quem esperava que, diante da quantidade e da gravidade das irregularidades encontradas nas contas do governo, fosse desde logo anunciada a reprovação dessas contas. Seria uma decisão sem precedentes em quase 80 anos – a última vez que o TCU rejeitou as contas do governo foi em 1937.

Apesar de frustrante para os adversários do governo, a decisão unânime dos ministros do TCU elimina a possibilidade de o Planalto recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) alegando cerceamento de seu direito de defesa e coloca Dilma Rousseff diretamente no foco das atenções, pois ela terá de explicar pessoalmente as irregularidades apontadas. A interpelação feita pelo TCU deixa claro que o tribunal de contas considera a presidente da República, como chefe do governo, a responsável direta e única pelas contas da União. Não deverá prosperar, assim, a canhestra tentativa de transferir para o ex-secretário do Tesouro Arno Augustin, ou para o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, o ônus das irregularidades.

Dadas as explicações, o TCU se pronunciará sobre o mérito das contas. Mas a palavra final caberá ao Congresso, que no limite poderá processar a presidente da República por crime de responsabilidade.
A decisão do TCU provocou também os parlamentares, que desde 2002 vinham negligenciando a responsabilidade constitucional de fiscalizar as contas do Executivo. Durante os dois mandatos de Lula e o primeiro de Dilma, senadores e deputados nem se deram ao trabalho de votar os pareceres do TCU, que recomendavam a aprovação das contas com ressalvas.

A decisão do TCU foi, assim, um prato cheio para o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que tem aproveitado todas as oportunidades para acertar suas diferenças com Dilma Rousseff e o PT. Poucas horas após o encerramento da sessão do TCU, Cunha apressou-se a anunciar que o Congresso retomará o julgamento das contas presidenciais e, nesse sentido, está se articulando com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Dilma e o PT podem se preparar, portanto, para novas contrariedades.

O teor do relatório do ministro Augusto Nardes, sobre o qual a presidente da República terá de se explicar, é o resultado da combinação de duas circunstâncias importantes. Por um lado, há o crescente enfraquecimento político de Dilma Rousseff. Por outro lado, é grande a quantidade de graves irregularidades que os assessores técnicos do tribunal encontraram nas contas do governo. A opinião que reúne certo consenso entre os próprios ministros é que será praticamente impossível Dilma justificar muitas dessas irregularidades.

Depois que Dilma cumprir o que lhe é exigido, o TCU deverá finalmente tomar uma decisão. Com toda certeza, não aprovará simplesmente as contas. Talvez as aprove com ressalvas, como de hábito. Mas não é impossível que as rejeite. Nesta última hipótese, estará jogando enorme responsabilidade sobre o Congresso. Nesse caso, apesar de toda a pressão política que desde já o Palácio do Planalto está fazendo para poupar Dilma do preço a pagar por sua desídia e irresponsabilidade, o resultado será imprevisível.

"Mãos",de Sueli Costa & Aldir Blanc,em cenas do cinema.

Fernando Pessoa - Hoje de manhã saí muito cedo

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

sábado, 20 de junho de 2015

Opinião do dia – Roberto Freire

Subalterno ao governo do PT nos tempos de Lula, quando funcionou como uma mera correia de transmissão dos interesses do Planalto, o Poder Legislativo vem recuperando sua altivez e a autonomia que havia perdido nos últimos anos. É o que temos observado desde a última legislatura e, de forma inequívoca, neste segundo mandato de Dilma Rousseff, a quem o Parlamento já deu sucessivos exemplos de que não é mais submisso.

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Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS, em artigo ‘O Parlamento reage’. Brasília, 19 de junho de 2015.

Lava-Jato chega no topo das empreiteiras

• Presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez são presos pela PF

• Procuradores dizem ter provas de que executivos das duas maiores construtoras do país sabiam do esquema de propina em troca de contratos. Pagamentos, em contas secretas no exterior, são estimados em R$ 720 milhões

A Lava-Jato prendeu ontem os presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, e da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, as duas maiores construtoras do país. Outros dez executivos também foram presos e levados para Curitiba, na 14a fase da operação, batizada de Erga Omnes, termo em latim usado para dizer que a lei vale para todos. Eles são suspeitos de envolvimento no pagamento de R$ 720 milhões em propina em troca de contratos, não só com a Petrobras. Para os procuradores, que grampearam e-mails e dizem ter provas de pagamentos em contas secretas na Suíça, os acusados sabiam do esquema de corrupção. Informações de delatores, entre eles o ex-presidente da Camargo Corrêa Dalton Avancini, também embasaram as prisões. O juiz Sérgio Moro determinou o bloqueio de até R$ 20 milhões de cada executivo. As empresas negam as acusações.

Lava-Jato chega às gigantes

• PF prende presidentes da Odebrecht e da Andrade Gutierrez e diz que eles "sabiam de tudo"

Germano Oliveira, Thais Skodowski e Cleide Carvalho – O Globo

CURITIBA e SÃO PAULO- Os presidentes das duas maiores construtoras do Brasil, a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, foram presos ontem na 14a fase da Operação Lava-Jato. Marcelo Bahia Odebrecht e Otávio Marques Azevedo, ao lado de outros oito executivos das duas empresas, tiveram prisão decretada pelo juiz Sérgio Moro, da 13? Vara Federal de Curitiba. Ao atingir duas gigantes com atuação mundial, a Lava-Jato alcança o topo do cartel que, segundo as investigações, atuou para controlar obras públicas no país nos últimos anos. Juntas, no momento, elas são responsáveis pela execução de 101 contratos distribuídos entre governo federal e estados.

O procurador Carlos Fernando dos Santos Lima e o delegado Igor Romário de Paula, membros da força-tarefa da Lava-Jato, afirmaram que o esquema de corrupção envolvendo as duas empreiteiras era muito mais sofisticado que o das demais empresas investigadas pela Polícia Federal, baseado em pagamentos feitos em contas secretas no exterior. Eles disseram ainda que os dois presidentes das construtoras tinham conhecimento do esquema e participaram das negociações do cartel de empreiteiras que fraudava as licitações na Petrobras.

Para isso, juntaram depoimentos de ao menos três delatores, grampearam e-mails nos quais executivos tratam de sobrepreço e da escolha de empresas para tocar obras públicas e identificaram pagamentos feitos por meio empresas offshores (registradas no exterior) em paraísos fiscais.

Pela primeira vez, foram vinculados diretamente às fraudes na Petrobras, como operadores de propina, os nomes da doleira Nelma Kodama, que tem forte atuação no ABC paulista, e de Leonardo Meirelles, que se apresenta como sócio da Labogen, laboratório usado para remessas milionárias para países asiáticos e que chegou a fechar convênio com o Ministério da Saúde, desfeito após a divulgação do escândalo. Dinheiro movimentado por ambos é agora atribuído a propinas vinculadas às duas empreiteiras, mesmo que o caminho dos recursos ainda não tenha sido decifrado.

Bloqueio de contas e investimentos
Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo tiveram prisão preventiva decretada por tempo indeterminado. Moro considerou inviável que o esquema criminoso, que perdura desde 2004 e envolve propinas milionárias, fosse desconhecido pelos dois. Segundo estimativas da investigação, Odebrecht e Andrade Gutierrez pagaram pelo menos R$ 710 milhões em propinas — R$ 510 milhões e R$ 210 milhões, respectivamente.

Para Moro, o fato de as duas empresas não terem aberto investigações internas, mesmo com a notoriedade das denúncias, é outro indicativo do envolvimento de seus presidentes. No despacho, Moro determinou o bloqueio de contas e investimentos bancários de valores de até R$ 20 milhões das contas de cada um dos dez executivos.

A atuação da Odebrecht e da Andrade Gutierrez e de seus executivos no cartel que dividia obras da Petrobras vinha sendo denunciada à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal desde o início dos depoimentos por vários dos delatores da Lava-Jato, mas faltavam as provas. As duas foram citadas pelo doleiro Alberto Youssef, pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, pelo ex-gerente da estatal Pedro Barusco Filho e por empresários como Augusto Mendonça Filho, do Grupo Setal, e Júlio Camargo, que atuava como operador.

O procurador Carlos Fernando Lima afirmou que agora há provas e indícios inclusive da participação de seus presidentes:

— Os presidentes das empresas sabiam de tudo. Apareceram indícios concretos comprovando que eles tiveram contato ou participações diretas em atos que levaram à formação de cartel.

Entre as provas de envolvimento dos presidentes das duas empresas estão e-mails endereçados às empreiteiras envolvidas na investigação da Petrobras, nos quais eram agendadas reuniões dos participantes do cartel ou era comentado o sobrepreço existente em determinada obra. Um dos e-mails envolve a Braskem, empresa na qual Petrobras e Odebrecht são sócias.

Na mensagem, de 2011, um ex-executivo da Brasken fala sobre a existência de sobrepreço entre US$ 20 mil e US$ 25 mil por dia num contrato de operação de sondas. O doleiro Alberto Youssef disse que a Braskem pagava US$ 5 milhões a ele e a Paulo Roberto Costa, em contas no exterior.

"Não só há prova oral da existência do cartel e da fixação prévia das licitações entre as empreiteiras, com a participação da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, mas igualmente prova documental consistente nessas tabelas, regulamentos e mensagens eletrônicas" afirmou Moro.

Além dos dois presidentes, tiveram prisão preventiva decretada Rogério Santos de Araújo e Márcio Farias da Silva, executivos da Odebrecht; César Ramos Rocha, Elton Negrão de Azevedo Júnior e Paulo Roberto Dalmazzo, da Andrade Gutierrez; e o empresário da Hayley do Brasil, João Antonio Bernardi Filho, suspeito de internalizar dinheiro de propina paga no exterior a Renato Duque, diretor de Serviços da Petrobras. Outros quatro foram alvo de prisão temporária: Alexandrino de Salles Ramos de Alencar, executivo da Odebrecht, Antonio Pedro Campelo de Souza e Flávio Lúcio Magalhães, da Andrade Gutierrez, além de Christina Maria da Silva Jorge, que sucedeu Bernardi Filho como sócia da Hayley do Brasil.

Segundo o juiz Moro, pelas provas colhidas até agora, a Odebrecht pagaria propina "de maneira geral de forma mais sofisticada do que as demais empreiteiras, especialmente mediante depósitos em contas secretas no exterior" em bancos da Suíça, Mônaco e Panamá.

Repasses eram feitos por operadores
Ele lembrou que já foram bloqueados 20 milhões de euros em contas secretas do ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque, em Mônaco, além dos valores em contas de Paulo Roberto Costa (US$ 23 milhões) e Pedro Barusco Filho (US$ 97 milhões). As contas em nome de Nestor Cerveró estavam zeradas.

A Odebrecht fazia os repasses por meio do operador Bernardo Freiburghaus. Também foi encontrado depósito de US$ 300 mil, numa conta da offshore Canyon View Assets, controlada por Barusco, no qual consta expresso o nome da Odebrecht como responsável pela transação.

A Andrade Gutierrez teria utilizado como operadores dois investigados já presos pela Lava-Jato: Fernando Soares, o Fernando Baiano, e Mário Goes. A PF identificou triangulação de depósitos entre a Zagope Angola, antigo nome da Andrade Gutierrez Europa, e uma conta usada por Goes para mandar dinheiro a Barusco. A conta de Barusco teria recebido US$ 5,887 milhões.

"Trata-se de prova significativa do envolvimento da empreiteira no crime de corrupção dos dirigentes da Petrobras, já que não há causa econômica lícita para a transferência entre a Phad e a Backspin" afirmou Moro.

Todos devem ser submetidos a exames de corpo de delito. Os depoimentos dos que estão em prisão temporária devem começar a ser colhidos neste fim de semana. A14a fase cumpriu ainda 38 mandados de busca e apreensão em SP, Rio de Janeiro, Minas e Rio Grande do Sul.

Executivo que viajou com Lula às custas de empreiteira é preso

• Diretor da Odebrecht, Alexandrino Alencar foi mencionado por delatores

Cristina Tardáguila, Letícia Fernandes e Silvia Amorim – O Globo

RIO E SÃO PAULO- Um dos presos ontem na 14a fase da Operação Lava-Jato é Alexandrino Alencar, diretor de Relações Internacionais da Odebrecht, que levou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em viagens, pagas pela construtora, para Cuba, República Dominicana e Estados Unidos, em janeiro de 2013. Oficialmente, não havia relação com atividades da empresa nesses países.

A viagem foi revelada pelo GLOBO em abril. Dezoito dias depois, a revista "Época" publicou que o Ministério Público Federal (MPF) havia aberto uma investigação preliminar para apurar a suspeita de que Lula possa ter feito tráfico de influência para beneficiar negócios da empreiteira no exterior.

No último dia 12, O Globo mostrou que o Ministério das Relações Exteriores havia deflagrado uma ação para evitar que documentos oficiais que citassem Lula e Odebrecht fossem repassados à imprensa por meio da Lei de Acesso à Informação. Na terça-feira, o ministério tornou público documentos feitos entre 2003 e 2010.

Alencar já havia sido convidado por Lula para acompanhá-lo em comitiva do governo brasileiro à África, em 2011, quando ele já não era mais presidente. Naquele ano, o pedido causou constrangimento ao Itamaraty, porque o diretor não trabalhava no governo nem tinha relação direta com atividades do ex-presidente.

Também em 2011, a Odebrecht pagou para que Lula viajasse à Venezuela, também na companhia de Alencar, segundo a revista "Época". O executivo foi um dos principais interlocutores para viabilizar a construção do estádio Itaquerão, antigo sonho de Lula, segundo o livro de memórias do ex-presidente do Corinthians Andrés Sanchez.

AG também pagou viagens de Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já esteve em, pelo menos, oito países desde que deixou a Presidência em viagens bancadas pelas empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez. A primeira foi, de longe, a que mais levou Lula ao exterior.

Lula teve viagens pagas pela Odebrecht a Angola, Venezuela, Panamá, Guiné Equatorial, Cuba, República Dominicana e Gana. Na época em que aconteceram as visitas, a empreiteira tinha interesse em obras nesses locais. Na maioria delas, Lula viajou acompanhado de Alexandrino Alencar, que foi citado por delatores na Operação Lava-Jato como o operador de propina pela Odebrecht.

O doleiro Alberto Youssef disse que marcava encontros com Alencar por telefone. O número do diretor da Odebrecht consta da lista de ligações realizadas ou recebidas por um dos aparelhos de Youssef, conforme relatório sigiloso da empresa Black Berry, enviado aos investigadores da Lava-Jato e localizado pelo GLOBO. Alencar e a Odebrecht negam as acusações.

Os eventos de Lula nas viagens foram, em geral, palestras para empresários e políticos. A Procuradoria Geral da República investiga desde o início deste ano se o ex-presidente praticou o crime de tráfico de influência. Suspeita-se que o pano de fundo de algumas dessas visitas ao exterior tenha sido ajudar as empreiteiras em negócios com governos africanos e latino-americanos. Elas receberam financiamentos do BNDES para esses projetos fora do Brasil. Lula fez, ao menos, uma visita ao continente africano custeada pela Andrade Gutierrez. Em 2012, uma viagem do ex-presidente à Etiópia coincidiu com o anúncio do financiamento de cerca de US$ 1 bilhão para a empreiteira construir quase 500 quilômetros de ferrovias no país.

Mas é no campo das doações eleitorais que a empresa se destaca mais do que a concorrente Odebrecht. Ela ofereceu quantia muito superior à campanha da presidente Dilma Rousseff no ano passado: R$ 21 milhões. A Odebrecht doou R$ 7 milhões. A candidatura do adversário de Dilma Aécio Neves (PSDB) recebeu R$ 13 milhões da Andrade Gutierrez e R$ 5 milhões da Odebrecht.

O Instituto Lula nega que ele atue como lobista das empreiteiras e que seja alvo de investigação formal por tráfico de influência. Sobre as viagens, explica que o ex-presidente é convidado por várias empresas para fazer palestras e é praxe que elas paguem os custos das viagens, que são divulgadas pelo instituto.

Lula critica 'inércia' do governo e diz que será próximo alvo do juiz Moro

Lula diz a aliados que será próximo alvo do juiz Moro

Catia Seabra, Bela Megale, Valdo Cruz, Andréia Sadi e Natuza Nery – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO e BRASÍLIA - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a aliados que a prisão dos presidentes da Odebrecht e da Andrade Guiterrez é uma demonstração de que ele será o próximo alvo da operação Lava Jato. Lula também reclamou nesta sexta-feira (19) do que chamou de inércia da presidente Dilma Rousseff para contenção dos danos causados pela investigação.

Ainda segundo seus interlocutores, Lula se queixa da atuação do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que teria convencido Dilma a minimizar o impacto político da operação.

Nas conversas, ele se mostra preocupado pelo fato de não ter foro privilegiado, podendo ser chamado a depor a qualquer momento. Por isso, expressa insatisfação que o caso ainda esteja sob condução do juiz Sérgio Moro.

Para petistas, os desdobramentos podem afetar o caixa do partido e por em xeque a prestação de contas da campanha da presidente. A detenção de Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo colocou a cúpula do PT em "estado de alerta" e preocupa o Palácio do Planalto pelos efeitos negativos na economia.

Para assessores do ministro Joaquim Levy (Fazenda), o "ritmo da economia, que já está fraco, ficará mais lento".

No entanto, a estratégia adotada pelo partido e pelo governo foi a de afirmar que, dada influência das duas empreiteiras, a investigação atingirá as demais siglas, incluindo o PSDB.

Nessa linha, um ministro citou o nome da operação "Erga Omnes" (expressão em latim que significa "para todos") para afirmar que não só o PT será afetado.

Durante a campanha presidencial de 2014, segundo esses interlocutores do governo, ambos executivos fizeram chegar reservadamente ao Planalto a sua intenção de votar na oposição.

Nesta sexta, Lula manteve sua agenda: um almoço com o ministro da Educação, Renato Janine, e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, além do secretário municipal de Educação, Gabriel Chalita. Segundo participantes, ele exibia bom humor.
Apesar do argumento de que outros partidos serão afetados, a tensão é maior entre petistas. Desde o fim de 2014, a informação, que circulava no meio empresarial e político, era de que Marcelo Odebrecht não "cairia sozinho" caso fosse preso.

A empresa sempre negou ameaças. Entre executivos e políticos, contudo, as supostas ameaças eram vistas como um recado ao PT dada a proximidade entre a Odebrecht e Lula –a empresa patrocinou viagens do ex-presidente ao exterior, para tentar fomentar negócios na África e América Latina.

Um dos presos é Alexandrino Alencar, diretor da Odebrecht que acompanhava Lula nessas viagens patrocinadas pela empreiteira. Integrantes dizem que "querem pegar Lula". Lula também se encontrou com executivos da Odebrecht no exterior.

Planalto e PT avaliam que cerco a partido está se fechando

Tânia Monteiro, Talita Fernandes e Vera Rosa - O Estado de S. Paulo

• Prisão preocupa porque Dilma e Lula mantêm relação estreita com empreiteiro

BRASÍLIA - A prisão dos empresários das empreiteiras Odebrecht e Andrade Gutierrez trouxe preocupação ao Palácio do Planalto. Apesar da intenção dos assessores palacianos em manter a presidente Dilma Rousseff totalmente afastada das polêmicas provocadas pela Operação Lava Jato e das consequências dela, o sentimento é que todo este processo acaba por desestabilizar o governo, que já se encontra sob ataques de vários setores e sofrendo com baixa popularidade.

A preocupação não é só pelo governo Dilma, mas também pelo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que consideram ser o alvo atual da Lava Jato. Só que, mirando em Lula, não há como não respingar em Dilma. O presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, foi visto muitas vezes no Planalto, durante o governo Lula e em inúmeras viagens do ex-presidente a África.

Também acompanhou o presidente a Cuba, onde a empresa está à frente da construção do Porto de Mariel.

Desde 2011, Dilma se reuniu pelo menos cinco vezes oficialmente, com Marcelo Odebrecht. O último encontro foi há menos de um mês, no 26 de maio, no hotel Intercontinental, na Cidade do México.

Marcelo Odebrecht, que era a figura central do evento, teve deferência especial por estar coordenando o encontro empresarial que Dilma prestigiou. Ontem, antes de embarcar para cumprir agenda em Camaçari, na Bahia, a presidente Dilma recebeu o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no Palácio da Alvorada. Cardozo foi informar à presidente sobre a nova etapa da operação. Na volta da Bahia, nova reunião de avaliação da operação com Cardozo.

Proximidade. Marcelo Odebrecht sempre foi próximo dos petistas. Nos bastidores, auxiliares de Dilma e dirigentes do PT dizem que Cardozo perdeu o controle sobre as investigações da Lava Jato, da Polícia Federal. Em conversas reservadas, até mesmo petistas afirmam que a oposição fará de tudo para "pegar" o ex-presidente Lula.

A avaliação no PT é a de que o cerco está se fechando e que a crise política vai piorar. Mas, mesmo sabendo dos incômodos que a prisão dos empreiteiros pode trazer para o governo, assessores da presidente afirmam que não haverá problema em relação às doações de campanha. Justificam que os responsáveis das duas empresas declaram voto explicito aos adversários da petista no ano passado. Marcelo Odebrecht teria anunciado voto ao tucano Aécio Neves, e Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez, a Marina Silva, do PSB.

Luiz Inácio falou: 'Dilma e eu estamos no volume morto. O PT está abaixo do volume morto'

Num encontro com religiosos no Instituto Lula, em SP, o ex-presidente criticou duramente a presidente Dilma e fez um diagnóstico: "Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto", disse ele, relatam Tatiana Farah e Julianna Granjeia. Para Lula, a segunda gestão de Dilma parece "um governo de mudos". E não poupou a equipe dela: "Aquele gabinete (presidencial) é uma desgraça. Não entra ninguém para dar notícia boa". Os religiosos criticaram o governo, Lula e o PT, cobrando uma aproximação com os pobres.

Criador e criatura em choque

• Em encontro com religiosos, Lula faz duras críticas a Dilma e a sua gestão: "Parece um governo de mudos"

Tatiana Farah e Julianna Granjeia – O Globo

-SÃO PAULO- Como se estivesse em um confessionário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu o coração a um seleto grupo de padres e dirigentes de entidades religiosas no auditório de seu instituto, anteontem, em São Paulo. Em tom de desabafo, criticou duramente a presidente Dilma Rousseff e creditou ao governo dela, sobretudo no segundo mandato, a crise vivida pelos petistas. Para Lula, a taxa de aprovação da companheira está no "volume morto" numa referência à situação hídrica paulista, e, com o silêncio do Planalto, o "governo parece um governo de mudos" O ex-presidente admitiu ainda que é "um sacrifício" convencer sua sucessora a viajar pelo país e defender sua gestão.

— Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto. Todos estão numa situação muito ruim. E olha que o PT ainda é o melhor partido. Estamos perdendo para nós mesmos — disse Lula.

Para ilustrar a profundidade do poço em que se meteu o PT, Lula citou uma pesquisa interna do partido, que revela que a crise se instalou no coração da legenda, o ABC Paulista. Muito rouco, o ex-presidente dizia coisas como "o momento não está bom" e "o momento é difícil"

— Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa para Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo — disse Lula aos religiosos.

Ele afirmou ter dito à presidente: "Isso não é para você desanimar, não. Isso é para você saber que a gente tem de mudar, que a gente pode se recuperar. E entre o PT, entre eu e você, quem tem mais capacidade de se recuperar é o governo, porque tem iniciativa, tem recurso, tem uma máquina poderosa para poder falar, executar, inaugurar".

Na mesa, os mais de 30 participantes do encontro, entre eles o bispo dom Pedro Luiz Stringhini, não deram trégua ao ex-presidente. Sobraram críticas para o PT, o governo, o próprio Lula e seu pupilo, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Os religiosos defenderam que o partido volte à antiga liturgia e se aproxime mais dos trabalhadores.

Lula concordou com a tese, dizendo que os petistas trocaram a discussão da política pela do mandato.

A reunião faz parte da estratégia do partido de tentar se reaproximar de sua base social. O interlocutor da ala religiosa é o ex-ministro Gilberto Carvalho, mencionado diversas vezes por Lula, em seu discurso de mais de 50 minutos, para exemplificar como o governo Dilma perdeu o contato com os movimentos sociais. Lula cobrou da presidente, e tem feito isso em outras reuniões reservadas, uma agenda positiva e mais exposição pública. Para o petista, Dilma deixou o governo mais distante dos mais pobres.

— Na falta de dinheiro, tem de entrar a política. Nestes últimos cinco anos, fizemos muito menos atividade política com o povo do que fizemos no outro período — disse ele, citando as conferências nacionais com grupos sociais:

— Isso acabou, Gilberto!

Lula reclamou que Dilma tem dificuldade de ouvir até mesmo os conselhos dados por ele:

— Gilberto sabe do sacrifício que é a gente pedir para a companheira Dilma viajar e falar. Porque na hora que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa. Política é isso, o olhar no olho, o passar a mão na cabeça, o beijo.

Nesse ponto da conversa, o ex-presidente fez questão de ressaltar: falar com a população não é "agendar para falar na televisão"

Durante a reunião, Gilberto Carvalho, que saiu do núcleo central do governo Dilma depois de muitas críticas à atuação da equipe da presidente, concordava com Lula, completava frases e assentia com a cabeça enquanto o ex-presidente subia o tom:

— Aquele gabinete (presidencial) é uma desgraça. Não entra ninguém para dar notícia boa. Os caras só entram para pedir alguma coisa. E como a maioria que vai lá é gente grã-fina... Só entrou hanseniano porque eu tava no governo, só entrou catador de papel porque eu tava no governo — disse Lula, que completou:

— Essa coisa se perdeu.

Lula revelou o que tem conversado com Dilma nos encontros privados. Os dois têm feito reuniões em São Paulo, e a presidente só as informa na agenda oficial depois que são realizadas. Ele disse que fala para a presidente que a hora é de " ir para a rua, viajar por este país, botar o pé na estrada". Diz ainda que os petistas não podem temer as vaias. Uma das armas para recuperar a combalida gestão, segundo ele, é investir na execução do Plano Nacional de Educação. O problema seria, de acordo com ele mesmo, que o próprio PT desconhece o conteúdo do plano.

"Os ministros têm de falar"
O petista, que não falou com os padres sobre uma possível candidatura à Presidência em 2018, mas não esconde que pode concorrer ao terceiro mandato, disparou fortemente contra os ministros, sobretudo os do PT.

— Os ministros têm de falar. Parece um governo de mudos. Os ministros que viajam são os que não são do PT. Kassab já visitou 23 estados, não sei quem já visitou 40 estados — exagerou.

O ministro das Cidades, Gilberto Kassab, preside o PSD e quer recriar o Partido Liberal. Foi citado mais uma vez, para criticar o desânimo dos líderes petistas:

— Aí não dá. Kassab já tá criando outro partido, e a gente não tá defendendo nem o da gente!

Lula disse que também tem chamado a atenção do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, dizendo que ele deveria fazer mais discursos públicos.

— Pelo amor de Deus, Aloizio, você é um tremendo orador — disse ele, que emendou, arrancando risos dos religiosos: — É certo que é pouco simpático.

O ex-presidente ressaltou ainda que "inaugura-se (obra do) Minha Casa Minha Vida todos os dias" mas que os políticos locais não destacam o papel do governo nas obras.

Para criticar o empenho de Dilma na aprovação do ajuste fiscal, Lula afirmou:

— Falar é uma arma sagrada. Estamos há seis meses discutindo ajuste. Ajuste não é programa de governo. Em vez de falar de ajuste... Depois de ajuste vem o quê? — criticou Lula, apontando que é preciso "fazer as pessoas acreditarem que o que vem pela frente é muito bom". Segundo o petista, "agora parece que acabou o (assunto) do ajuste".

A vaca tossiu
Lula disse que o governo não dá boas notícias ao país.

— Nós tivemos as eleições no dia 26 de outubro. De lá pra cá, Gilberto, nós temos que dizer para vocês, porque vocês são companheiros, depois de nossa vitória, qual é a notícia boa que nós demos para este país? Essa pergunta eu fiz para a companheira Dilma no dia 16 de março, na casa dela.

Segundo Lula, nesse encontro estavam os ministros Mercadante, Jacques Wagner (Defesa) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência), além de Rui Falcão, presidente nacional do PT.

—Eu fiz essa pergunta para Dilma: "Companheira, você lembra qual foi a última notícia boa que demos ao Brasil?". E ela não lembrava. Como nenhum ministro lembrava. Como eu tinha estado com seis senadores, e eles não lembravam. Como eu tinha estado com 16 deputados federais, e eles não lembravam. Como eu estive com a CUT, e ninguém lembrava.

Para os religiosos — que foram recebidos no Instituto Lula com café, refrigerantes, sanduíches e docinhos como brigadeiro e olho de sogra —, Lula continuou a "confissão" elencando as más notícias dadas pelo governo:

— Primeiro: inflação. Segundo: aumento da conta de água, que dobrou. Terceiro: aumento da conta de luz, que para algumas pessoas triplicou. Quarto: aumento da gasolina, do diesel, au mento do dólar, aumento das denúncias de corrupção da Lava-Jato, aquela confusão desgraçada que nós fizemos com o Fies (Financiamento Estudantil), que era uma coisa tranquila e que foram mexer e virou uma desgraceira que não tem precedente. E o anúncio do que ia mexer na pensão, na aposentadoria dos trabalhadores.

Nesse momento, Lula resgatou as promessas não cumpridas por Dilma durante a última campanha eleitoral.

— Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: "Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa" E mexeu. Tem outra frase, Gilberto, que é marcante, que é a frase que diz o seguinte: "Eu não vou fazer ajuste, ajuste é coisa de tucano". E fez. E os tucanos sabiamente colocaram Dilma falando isso (no programa de TV do partido) e dizendo que ela mente. Era uma coisa muito forte. E fiquei muito preocupado.

O ex-presidente ainda disse aos religiosos — entre eles o padre Julio Lancelotti, dirigentes de pastorais católicas e um pastor evangélico — não acreditar na existência do mensalão.

— Não acredito que tenha havido mensalão. Não acredito. Pode ter havido qualquer outra coisa, mas eu duvido que tenha havido compra de voto — disse ele, mencionando que o ex-deputado Luizinho, do PT de Santo André, não poderia ter voto comprado no mensalão porque era, na época do escândalo, em 2005, líder do governo.

Lula repetiu a crítica que tem feito desde o início do ano nas reuniões do partido: a de que os petistas saíram derrotados do caso do mensalão porque trataram do caso "juridicamente", quando a discussão, segundo ele, é política. Os petistas têm se desdobrado para defender, desta vez, o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, acusado de integrar o esquema descoberto pela Operação Lava-Jato, numa mudança em relação à postura adotada sobre o ex-tesoureiro Delúbio Soares.

Durante as investigações do mensalão, a direção do PT expulsou Delúbio, que só voltou a ser defendido pelos principais nomes da legenda quando começou o julgamento no Supremo.

— Nós começamos a quebrar a cara ao tratar do mensalão juridicamente. Então, cada um contratou um advogado. Advogado muito sabido, esperto, famoso, desfilando por aí, falando que a gente ia ganhar na Justiça. E a imprensa condenando. Todo dia tinha uma sentença. Quando chegou o dia do julgamento, o pessoal já estava condenado — disse Lula.

Para ele, o atual momento vivido pelo PT é ainda mais dramático. Ele diz que há um "mau humor na sociedade". E que até o ministro do STF Ricardo Lewandowski, "que votou contra (o mensalão)" sofreu ofensas.

Hoje, segundo Lula, quem é hostilizado na rua são os próprios petistas.

— Jamais vi o ódio que está na sociedade. Família brigando dentro de família, companheiro do PT que não pode entrar em restaurante...