sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Fernando Gabeira - Uma carta e algumas notas pela democracia

O Estado de S. Paulo

É ilusão pensar que a política poderá ser conduzida como a conduzimos desde o movimento das Diretas até a captura do poder pela extrema-direita

Uma carta pela democracia será lida no dia 11 de agosto em São Paulo, e nesse dia, provavelmente, já terá 1 milhão de assinaturas. Nada mais importante neste momento em que Jair Bolsonaro chama embaixadores para atacar as urnas eletrônicas, numa indicação de que não aceitará sua provável derrota.

Um dos aspectos interessantes do documento é que, além da assinatura, ele pede uma vigília permanente pelo Estado de Direito, e isso é fundamental diante das ameaças.

Apesar de minha total concordância, gostaria de acrescentar algumas notas. É essencial defender o que temos de democracia no Brasil. Mas é ilusório supor que ela tenha atingido um estágio superior.

Em 2013, ela foi sacudida por manifestações que até hoje não conseguimos interpretar bem. Mas a intensidade e a extensão do movimento apontavam para grandes deficiências, que não foram satisfeitas; ao contrário, minha sensação é de que se agravaram com a escolha de Bolsonaro.

Eliane Cantanhêde - Oração nacional pela democracia

O Estado de S. Paulo

11 de agosto, dia da democracia, com leitura do manifesto em universidades de todo o País

Alguém precisa explicar para o presidente Jair Bolsonaro que eleição não é igual à Mega Sena, não é (só) questão de sorte e azar, muito menos guerra, vida ou morte, liberdade ou prisão. Talvez assim ele possa dormir um pouco melhor e parar de fazer ameaças, dia sim, dia não, e de cometer atos falhos, como ontem.

Do presidente, num evento evangélico: “Estou buscando impor, via Forças Armadas, que foram convidadas, a nós termos eleições... É a transparência”. É confuso, como sempre, mas a palavra-chave é o verbo “impor”. Ele admitiu que usa Exército, Marinha e Aeronáutica para impor suas certezas e crenças sobre o processo eleitoral.

É assim que o maior adversário de Jair Bolsonaro é Jair Bolsonaro. É por esticar demais a corda que ele vem perdendo eleitores de 2018, setores do empresariado e do mundo financeiro, a ponto de ter de cancelar uma visita à Fiesp e um jantar com endinheirados na próxima quinta-feira, em São Paulo. Além de dividir a Polícia Federal, Abin, Itamaraty e as próprias Forças Armadas. Ou seja, as carreiras de Estado.

Vera Magalhães - Nunca o debate foi tão importante

O Globo

A cobertura da campanha está refém de ameaças intoleráveis à democracia e de propostas programáticas superficiais

A menos de dois meses das eleições mais importantes desde a redemocratização, ainda não há, da parte dos dois principais candidatos, a confirmação da participação em debates e nas sabatinas realizadas por veículos de imprensa de circulação nacional.

Justamente o pleito com um inédito confronto entre um presidente e um ex-presidente é aquele em que, até aqui, não se teve oportunidade de questionar ambos a respeito das principais contradições e lacunas de seus discursos, de ouvir e assistir a um confronto direto entre eles, em que possam expor e responder às críticas que fazem pelas redes sociais, nos palanques e diante de seu próprio público.

Era compreensível a queixa, por parte dos candidatos, à profusão de encontros pretendidos pela imprensa — assim como é plenamente justificável que cada veículo deseje promover suas próprias entrevistas e seus debates.

Pois bem: a mídia aquiesceu ao pleito pela realização de pools para assegurar que haja a participação dos dois primeiros colocados nas pesquisas no encontro entre os postulantes ao Planalto.

Luiz Carlos Azedo - MDB do Rio “cristianiza” Simone e apoia Lula

Correio Braziliense

Moreira trabalha para que Michel Temer também declare apoio a Lula. Mas não houve nenhum sinal efetivo de reaproximação entre ambos. O petista simplesmente o esnobou o ex-presidente

Em 15 de maio de 1950, os dirigentes do PSD, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), decidiram lançar a candidatura de Cristiano Machado à Presidência da República. O general Góis Monteiro transmitiu a decisão ao presidente Eurico Gaspar Dutra, seu velho amigo, enquanto o próprio Cristiano procuraria Getúlio Vargas e Ademar de Barros, o governador de São Paulo, para oferecer ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) a vice-presidência.

Vargas não objetou a escolha, mas o PSD do Rio Grande do Sul (favorável à indicação de Nereu Ramos) rejeitou a candidatura. O Partido Social Progressista (PSP), de Ademar de Barros, também decidiu não apoiar Cristiano. Sabia que a candidatura de Vargas, apoiada por Ademar, seria lançada em 17 de junho. O próprio tentava adiar a convenção e remover o candidato do PSD, mas não teve sucesso. Cristiano foi aclamado no dia 9 de julho, ou seja, se antecipou a Vargas. Para neutralizar Ademar, Cristiano fez ainda uma aliança com Hugo Borghi, candidato ao governo de São Paulo pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN).

Reinaldo Azevedo - O preço da liberdade é a vigilância

Folha de S. Paulo

Veja por que mobilização em favor da democracia tornou-se ainda mais necessária

Digamos que um manto de bom senso se desdobrasse desde o empíreo e cobrisse o Ministério da Defesa, muito especialmente o general Paulo Sérgio Nogueira, seu titular, num evento verdadeiramente maravilhoso, sobrenatural e solene. Pronto! No dia 12 próximo, tudo estaria resolvido. Restaria a Jair Bolsonaro vociferar entre lunáticos, alegando supostas fragilidades no sistema de votação em caso de derrota. Não será assim. Logo, você sabe qual é o preço da liberdade.

Os nove militares escalados por Nogueira já estão examinando o código-fonte das urnas, depois de um ofício "urgentíssimo" por ele enviado ao TSE solicitando a inspeção do dito-cujo —"haja vista o exíguo tempo disponível até o dia da eleição", escreveu. Não há erro de concordância, haja vista que "haja vista" é expressão invariável. Quando os que dispõem de tanques recorrem a uma linguagem empolada, quase sempre o que se tem é truculência disfarçada de formalidade burocrática.

Bruno Boghossian – A ampulheta de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Com antibolsonarismo, só dois grupos dão vantagem ao presidente em embate direto com petista

A principal missão da campanha de Jair Bolsonaro agora é ganhar tempo. A aposta final do presidente é empurrar a corrida para o segundo turno e conseguir mais quatro semanas para um enfrentamento com Lula. Nesse período, a turma da reeleição espera ver os efeitos de mais uma parcela do Auxílio Brasil e fazer uma ofensiva pesada para tentar aumentar a rejeição ao petista.

Hoje, Bolsonaro corre o risco de perder a disputa no primeiro turno porque, para boa parte do eleitorado, a corrida se consolidou como um plebiscito sobre sua gestão. Uma quantidade razoável de brasileiros vai às urnas no dia 2 de outubro para evitar que ele continue no poder.

Ruy Castro - Matar ou morrer por ele

Folha de S. Paulo

Bolsonaro prega guerra civil abertamente em seus discursos

Leitores me perguntam sobre a coluna desta quinta-feira (4), em que descrevo a última saída de Bolsonaro para evitar sua derrota certa na eleição, com subsequente perda de imunidade, um tsunami de processos e 600 anos de cadeia. Essa saída seria criar uma situação que o impedisse de concorrer e lhe permitisse dizer-se vítima de golpe, levantar seus seguidores armados e levar o país à guerra civil. Alguns querem saber se tenho informações privilegiadas para afirmar isso. A resposta é não, mas é claro que tenho: do próprio Bolsonaro.

Manifesto - Em Defesa da Democracia e da Justiça"

Leia, a seguir, a íntegra da carta assinadas pelas entidades:

"Em Defesa da Democracia e da Justiça"

No ano do bicentenário da Independência, reiteramos nosso compromisso inarredável com a soberania do povo brasileiro expressa pelo voto e exercida em conformidade com a Constituição.

Quando do transcurso do centenário, os modernistas lançaram, com a Semana de 22, um movimento cultural que, apontando caminhos para uma arte com características brasileiras, ajudou a moldar uma identidade genuinamente nacional.

Hoje, mais uma vez, somos instigados a identificar caminhos que consolidem nossa jornada em direção à vontade de nossa gente, que é a independência suprema que uma nação pode alcançar. A estabilidade democrática, o respeito ao Estado de Direito e o desenvolvimento são condições indispensáveis para o Brasil superar os seus principais desafios. Esse é o sentido maior do Sete de Setembro neste ano.

Nossa democracia tem dado provas seguidas de robustez. Em menos de quatro décadas, enfrentou crises profundas, tanto econômicas, com períodos de recessão e hiperinflação, quanto políticas, superando essas mazelas pela força de nossas instituições.

Flávia Oliveira - Passado e futuro em disputa

O Globo

Não é trivial que uma nação assentada na escravidão e no patriarcado encontre tempo, espaço e gente disposta a passar a limpo a História

No mesmo fim de semana em que o presidente da República anunciou a celebração militar do Bicentenário da Independência na Praia de Copacabana, mulheres negras voltaram a marchar, após dois anos, contra o racismo e pelo bem viver na famosa pista à beira do Atlântico. O calçadão foi delas. Hoje, o Instituto Marielle Franco e o movimento Mulheres Negras Decidem realizam o primeiro encontro nacional de candidatas afro-brasileiras às assembleias legislativas nas eleições 2022. E um par de podcasts reivindica o protagonismo negro e o feminino na emancipação do Brasil. No país, o futuro está em construção, e o passado em disputa.

Bernardo Mello Franco - O país do Carandiru

O Globo

Comissão da Câmara aprova anistia a responsáveis pelo massacre, que nunca foram presos; um dos primeiros defensores da chacina hoje veste a faixa presidencial

Em 2 de outubro de 1992, a Polícia Militar de São Paulo invadiu o presídio do Carandiru para reprimir uma rebelião. A ação durou cerca de 20 minutos e deixou 111 mortos. As imagens dos corpos empilhados chocaram o mundo. Viraram símbolo instantâneo da barbárie brasileira.

Três semanas depois, um deputado subiu à tribuna da Câmara para defender os responsáveis pelo banho de sangue. Disse que o massacre teria sido apenas um “ato enérgico”. “Não se pode determinar que policiais entrem numa prisão com um buquê de rosas”, ironizou.

Com o tempo, o Carandiru também virou sinônimo de impunidade. Até hoje, nenhum responsável pela chacina foi preso. O comandante da invasão, coronel Ubiratan Guimarães, ainda conseguiu se eleger deputado estadual. Num deboche com as famílias das vítimas, fez campanha com o número 111.

José de Souza Martins*- Os protestantes e o poder

Valor Econômico / Eu Fim de Semana

No Brasil, o Estado é legalmente separado da religião. Um conjunto de irregularidades, no entanto, vem sendo praticado por várias igrejas e denominações na violação desse preceito

Bolsonaro desencadeou crises profundas nas igrejas cristãs nascidas das reformas protestantes. Crises que estimularam abandono das igrejas, especialmente pelos jovens e pelos membros mais conscientes da gravidade da situação social e dos riscos representados por um governo que ameaça a frágil democracia brasileira.

A notícia de que o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil desistiu de “vetar cristão de esquerda” trata de uma ocorrência da maior importância política. A igreja reagiu a uma proposta que seria levada ao seu Supremo Concílio por um de seus pastores, que já havia se pronunciado no templo pelo apoio à candidatura de Bolsonaro.

No Brasil, o Estado é legalmente separado da religião. Um conjunto de irregularidades, no entanto, vem sendo praticado por várias igrejas e denominações na violação desse preceito.

Humberto Saccomandi - Turbulência global neste 2º semestre

Valor Econômico

As manobras militares chineses ao redor de Taiwan acrescentaram mais um fator de risco a um semestre que promete ser tenso em boa parte do mundo

As manobras militares chineses ao redor de Taiwan acrescentaram mais um fator de risco a um semestre que promete ser tenso em boa parte do mundo. Riscos políticos, econômicos e de segurança se acumulam neste final de ano. Isso gera incertezas e deverá deixar os mercados sob pressão.

O denominador comum deste semestre tenso é a desaceleração da economia global, com países importantes em dificuldades. Os EUA tiveram contração do PIB nos dois primeiros trimestres, o que caracteriza recessão pela definição mais comum. Mesmo pela metodologia americana, muitos economistas veem como provável uma recessão entre o final deste ano e o início de 2023.

Na Europa, a maior economia, a Alemanha, não cresceu no segundo trimestre, e espera-se queda até o fim do ano. A confiança econômica está caindo em toda a União Europeia (UE).

Na China, as projeções são de crescimento de 4,1% do PIB chinês neste ano, o menor em mais de quatro décadas (excluindo 2020, ano de início da pandemia) e bem abaixo da meta oficial, que era de 5,5% e que já foi abandonada pelo governo.

Claudia Safatle - A economia pode virar o jogo eleitoral

Valor Econômico

Se Bolsonaro conseguir ser reeleito, Guedes continuará ministro da Economia

A economia vai virar o jogo nas eleições de 2 de outubro, acreditam fontes oficiais. Paulo Guedes, ministro da Economia, estava certo quando disse a interlocutores internacionais, durante a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), em junho, que eles teriam que rever os números da economia para baixo enquanto o Brasil faria a revisão para cima, dizem essas mesmas fontes. De fato, enquanto o mundo desenvolvido se avizinha da recessão, o Brasil deverá crescer algo próximo a 2%, ao invés do 1,5% estimado anteriormente, sustentam os economistas do governo.

Mas aqui tem um porém: um maior crescimento da atividade em 2022 está reduzindo o tamanho da recuperação da economia para 2023.

A pesquisa Focus, do Banco Central, aponta esse fenômeno tanto para o PIB quanto para a inflação, medida pelo IPCA. A mediana das expectativas para o PIB deste ano era de 1,93% na semana anterior e hoje é de 1,97%. Para 2023, a expectativa é de uma variação de 0,40%, em comparação com 0,49% na semana anterior.

Armando Castelar* - A política econômica em 2023

Valor Econômico

Inflação e juros devem seguir altos em 2023, independentemente de quem vencer as eleições de outubro

O ano de 2023 promete ser bastante desafiador, em que pese o recente otimismo do mercado financeiro com a possibilidade de se trazer a inflação nas economias avançadas, próxima de atingir os dois dígitos, de volta à meta de 2% ao ano sem um forte aperto monetário e sem uma recessão. A realidade é que, ou os bancos centrais (BCs) sobem os juros bem mais do que ora precificado nos mercados futuros, e os mantêm lá por mais tempo do que hoje se prevê, ou o mundo irá retornar a um período de estagflação.

No cenário mais provável em que os BCs, ainda que a contragosto, apertam bem mais a política monetária, o quadro que se colocará para as economias emergentes não será fácil, com o dólar se valorizando, a liquidez internacional diminuindo e o comércio internacional em queda. Isso significará inflação e juros mais altos e uma atividade econômica mais retraída nessas economias. Em alguns casos, isso resultará em instabilidade política e crises de financiamento externo. O que estamos vendo na Argentina atualmente já é, em parte, um resultado desse quadro global mais desafiador.

Rogério F. Werneck - Farra federal com impostos estaduais

O Globo

Chegou a conta da redução arbitrária do ICMS para controlar a aceleração inflacionária

Quem quer que tenha testemunhado o penoso esforço de construção — e reconstrução — do complexo arcabouço de controle fiscal montado no país ao longo das últimas três décadas não tem como evitar um sentimento de desolação diante da derrubada institucional que o governo e o Centrão têm promovido, para tentar viabilizar a qualquer custo a reeleição de Jair Bolsonaro.

Notícias recentes dão conta de que, em reação à imposição arbitrária e eleitoreira de alíquotas máximas de ICMS sobre combustíveis, energia elétrica e serviços de telecomunicação, vários estados já conseguiram respaldo do Supremo Tribunal Federal a seus pleitos de redução do pagamento dos serviços de suas dívidas com a União, em face da perspectiva de perda de receita tributária com que terão de lidar.

Trata-se de um desabamento institucional que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento do federalismo fiscal brasileiro teria sido capaz de prever. E, no entanto, não há registro de que, em Brasília, as autoridades fazendárias tenham feito chegar ao Planalto e ao Centrão suas apreensões, para não dizer seu alarme, quanto à inevitabilidade de tal desabamento.

Pedro Doria - O fim das redes sociais

O Globo

Elas vão mostrando cada vez mais o conteúdo que o algoritmo escolhe em detrimento das pessoas que nós escolhemos

Você lembra quando entrou no Facebook pela primeira vez? Ou no Instagram? No Twitter? Essas são experiências que nunca mais voltarão. Hoje, a vida com as redes sociais é francamente ruim. O Facebook é um grande vazio, o Twitter deixa de mau humor, e o Instagram é pura ansiedade. Mas não era assim. Aliás, era bem o contrário: eram ambientes realmente agradáveis. Ambientes que nos arrancavam sorrisos com facilidade. O veterano analista desse mundo digital Scott Rosenberg sugere que a Era das Redes Sociais tenha, com as últimas mudanças no Insta, acabado. Passou como a Era dos Blogs ou, antes, a Era dos Sites Pessoais. Rosenberg está possivelmente certo.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Quando é necessário dizer o óbvio

O Estado de S. Paulo

A campanha de Bolsonaro contra as urnas é gravíssima. Mas, como lembrou o presidente do Senado, quem for eleito em outubro tomará posse em 2023. A democracia prevalecerá

Perante a campanha golpista de Jair Bolsonaro contra as urnas eletrônicas e a Justiça Eleitoral, é muito oportuno que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, recorde a realidade. “No dia 1.º de janeiro, aqui estaremos, no Congresso Nacional, a dar posse ao presidente da República eleito pelas urnas eletrônicas do nosso país, seja qual for o eleito”, disse o senador na abertura dos trabalhos legislativos no segundo semestre.

É desalentador que as circunstâncias políticas atuais exijam dizer um aspecto óbvio do regime democrático – quem vencer nas urnas tomará posse –, mas o fato é que, perante a insistência do presidente da República em desacreditar o sistema eleitoral, é necessário que o País tenha a tranquilidade de saber que o resultado das eleições será respeitado. O presidente do Senado faz muito bem em transmitir essa segurança à população.

As ações de Jair Bolsonaro contra a Justiça Eleitoral são gravíssimas, podendo ser enquadradas como crimes de responsabilidade e crimes eleitorais. Para piorar, em sua campanha contra a realização pacífica das eleições, o presidente da República tenta envolver o bom nome das Forças Armadas. A Lei 1.079/50 lista, entre os crimes de responsabilidade contra os direitos políticos (art. 7.º), “utilizar o poder federal para impedir a livre execução da lei eleitoral” (inciso 4), “incitar militares à desobediência à lei ou infração à disciplina” (inciso 7) e “provocar animosidade entre as classes armadas ou contra elas, ou delas contra as instituições civis” (inciso 8). De toda forma, sem minimizar em nada a gravidade das ações de Jair Bolsonaro, é preciso reconhecer o que Rodrigo Pacheco destacou: o presidente da República eleito pelas urnas, seja quem for, tomará posse no dia 1.º de janeiro de 2023.

Poesia | Charles Baudelaire - A Beleza

 

Música | Boca Livre - Quem tem a viola

 

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Luiz Carlos Azedo: Jair Bolsonaro está em rota de colisão com a Fiesp

Correio Braziliense

Fracassaram os esforços da cúpula da Fiesp, que articula o manifesto dos empresários em defesa da democracia e das urnas eletrônicas, para que todos os candidatos à Presidência assinassem o documento, numa espécie de pacto de respeito mútuo ao resultado das eleições. Ontem, o Palácio do Planalto anunciou que Jair Bolsonaro não subscreverá o documento, assinado por entidades empresariais e federações sindicais de trabalhadores, e cancelou a ida do presidente da República ao lançamento do documento, no dia 11 de agosto, na sede da Fiesp. Também foi cancelado o jantar com empresários que estava programado.

A ida de Bolsonaro à Fiesp fora antecipada para 11 de agosto a pedido do Palácio do Planalto. Para evitar mais constrangimentos, o recolhimento de assinaturas de apoio ao manifesto da federação ficou restrito às entidades empresariais e sindicatos de trabalhadores, para que as assinaturas dos candidatos dos presidentes fossem recolhidas antes de as pessoas físicas aderirem o documento. Ocorre que Bolsonaro não digeriu as manifestações em defesa da urna eletrônica, da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal (STF), e torpedeou as iniciativas.

Maria Cristina Fernandes - Baderna à beira-mar

Valor Econômico

Não é coincidência que ameaça bolsonarista convirja com palanque petista em colisão no Rio

No momento em que o presidente Jair Bolsonaro se organiza para uma exibição de baderna no Rio no 7 de setembro, o palanque eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Estado entra em rota de colisão. E nada disso é coincidência.

Em setembro de 2020 apareceram novos trechos da delação do ex-secretário Edmar Santos que levantavam suspeitas sobre a participação do então governador em exercício, Cláudio Castro, do PL, e do presidente da Assembleia Legislativa do Rio, André Ceciliano, do PT, num suposto esquema de propinas na Secretaria de Saúde do Rio.

Ambos negaram a acusação e, como o procurador-geral da República, Augusto Aras, atendeu ao pedido do presidente da República para não colocá-los no mesmo balaio de Wilson Witzel, removido do Palácio da Guanabara, ficou tudo por isso mesmo.

Daí conclui-se que Bolsonaro tem Castro e, consequentemente, sua polícia militar, na mão, circunstância inexistente no 7 de setembro do ano passado, quando a PM de São Paulo foi mantida sob rédea curta.

Se não se promove um golpe de Estado com um desfile militar na Avenida Atlântica, é, sim, possível, quando se tem controle da polícia, orquestrar atentados, ocultar mandantes e provocar um fato político a menos de um mês do primeiro turno. Foi isso que aconteceu em 2018 quando mataram Marielle Franco num Rio sob intervenção militar.

Cristiano Romero - Economia e democracia

Valor Econômico

Economias precisam de regime democrático para florescer

No domingo passado, o empresário Abílio Diniz sofreu a maior dor que pode se abater sobre um pai - a morte, causada por infarto fulminante, de seu filho João Paulo Diniz, aos 58 anos. Atleta como o pai, João Paulo sofria de doença congênita no coração. Pai de seis filhos, Abílio está devastado. A partida de um descendente é antinatural.

Quis o destino, este pregador de peças, que no mesmo domingo, 31 de julho, uma declaração infeliz do empresário fosse veiculada pelo jornalista Lauro Jardim, de “O Globo”. Na contramão de dezenas de seus pares, Abílio não assinar o manifesto em defesa da democracia - batizado de “Carta aos brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito” -, organizado pela Faculdade de Direito da USP e lançado no dia 26 de julho.

O documento recebeu mais de 500 mil assinaturas, entre elas, de lideranças dos trabalhadores e empresariais, de juristas, magistrados, acadêmicos, políticos, advogados, jornalistas, economistas, cientistas e personalidades do mundo cultural e social. No próximo dia 11, data em que se comemora anualmente o aniversário do Centro Acadêmico da tradicional faculdade de Direito da USP, a carta será lida em manifestação que tem tudo para expressar a preocupação, nada frívola, de grande parcela da sociedade brasileira com a interrupção da ordem constitucional.

Mario Mesquita - 2023 e 2022

Valor Econômico

Dados os riscos externos, a probabilidade do PIB brasileiro crescer menos de 0,4%, ou retroceder, em 2023 não é baixa

Na atualização mais recente do seu Panorama Econômico Mundial, o FMI reduziu a projeção para a taxa de crescimento da economia mundial de 3,6% em 2022 e 2023 para 3,2% no ano corrente e 2,9% no próximo - abaixo da taxa média de crescimento do PIB mundial nos últimos 20 anos, 3,6%. As revisões para 2023 foram particularmente intensas no que se refere a algumas economias avançadas: de 2,3% em 2022 para 1% nos EUA, com redução de 2,3%, no mesmo horizonte, para 1,2% na área do Euro.

Não apenas o Fundo reduziu as projeções de crescimento, mas apresentou uma lista de riscos de baixa para a atividade, sem nenhum risco de alta. Vale repassar a lista, bem como possíveis implicações para a economia brasileira. Em linhas gerais nota-se que, segundo as contas dos economistas do Itaú, cada ponto percentual a menos no crescimento global ocasiona uma redução de 0,4 pontos percentuais no crescimento brasileiro.

O primeiro risco apontado pelos economistas de FMI viria de altas adicionais dos preços de energia ocasionados pela guerra na Ucrânia. O foco de preocupação é a potencial redução da transmissão de gás da Rússia para a Europa Central e Ocidental. Uma interrupção total das entregas poderia acarretar forte alta da inflação regional e global.

William Waack - Elites frustradas

O Estado de S. Paulo

O protesto da carta é mais amplo do que a defesa das eleições

Jair Bolsonaro não entendeu a natureza política mais abrangente da carta em defesa da democracia. Assim como não entendeu até hoje a natureza da onda disruptiva que o levou – para própria surpresa – ao Palácio do Planalto.

O PT também não havia entendido a natureza dos movimentos de protesto de 2013, e pagou por isso um preço alto em 2016. Em cada uma dessas ocasiões (2013, 2016 e 2018) o solavanco foi causado por movimentos de elites descontentes talvez consigo mesmas.

É o que está acontecendo agora. A sensação é a de que o Brasil está se desfazendo em pedaços, sem que as eleições sinalizem como juntar os cacos. Ao contrário: elas evidenciam o triunfo do regionalismo. Tanto Bolsonaro como Lula se apresentam como “líderes nacionais”, mas é só no nome.

Os dirigentes do PT, que no momento possuem uma visão mais abrangente do processo político (e seu horizonte está há tempos em 2023), entenderam que os milhares de assinaturas no texto não são endosso automático da candidatura Lula. Bolsonaro, preso à sua extraordinária limitação cognitiva, acha que se trata de evento apenas contra ele.

Adriana Fernandes - A conta já chegou

O Estado de S. Paulo

A redução do ICMS deve se transformar numa nova guerra nos tribunais como foi com a Lei Kandir

As liminares do Supremo Tribunal Federal para que Estados compensem a perda de arrecadação com a redução do ICMS, por meio do abatimento das parcelas de prestações mensais de suas dívidas com a União, colocam antecipadamente na mesa um dos maiores problemas para as contas públicas em 2023.

Os analistas estão mapeando o alcance desse impacto, e já se fala na necessidade de acionar um botão de restart na relação do Tesouro Nacional com os governos regionais.

Um dos pontos da discórdia ainda não veio à tona, mas já é tratado nas conversas de bastidores, segundo apurou a coluna.

Celso Ming - Juros podem ir a 14% em setembro

O Estado de S. Paulo.

Nesta quarta-feira, o Copom aumentou a Selic pela 12ª vez consecutiva, agora em 0,5 ponto porcentual, para 13,75% ao ano (veja o gráfico). E sugeriu que na próxima reunião agendada para setembro voltará a apertar o volume de dinheiro. Pretende subir os juros em mais 0,25 ponto porcentual, para 14,0% ao ano. Diante das múltiplas incertezas pela frente, avisou que agirá com muita cautela.

Não há clareza sobre o calibre da recessão a ser enfrentada pela economia global. Os fluxos de produção e distribuição continuam conturbados pela nova onda de covid na China e a guerra na Ucrânia. Isso vem aumentando as apostas na queda dos preços do petróleo e das matérias-primas. Mas a inflação atingiu, em junho, níveis inimagináveis, de 9,1% em 12 meses nos Estados Unidos e de 8,6% na zona do euro, situação que pode ter dinâmica própria e exigir mais aumento dos juros.

Maria Hermínia Tavares* - O voto dos pobres

Folha de S. Paulo

Lula e Bolsonaro sabem que não se chega ao Planalto sem apoio da maioria dos brasileiros de baixa renda

A dois meses das eleições, só quem gosta de brigar com os fatos pode duvidar que a disputa pelo Palácio do Planalto se dará entre Lula e Bolsonaro. Numa eleição dominada por temas socioeconômicos, eles sabem que não se chega lá sem apoio da maioria dos brasileiros mais pobres.

Hoje, o petista desfruta de robusta vantagem entre os milhões de eleitores de renda irrisória: o dobro das intenções de voto dos 70% da população na faixa de até dois salários mínimos, apurou o Datafolha.

Partidários otimistas do presidente —e analistas afoitos— acreditam na força do Auxílio Brasil, há pouco vitaminado, para apequenar tal diferença. Mas não é bem assim, diz quem entende do riscado.

Bruno Boghossian – Entre Janones e Freixo

Folha de S. Paulo

Acerto com nanicos para favorecer ex-presidente coincide com embate entre petistas e PSB no Rio

A campanha de Lula foi atrás de três conhecidas bancas do feirão partidário para fechar negócio na corrida presidencial. O petista costurou a desistência de Luciano Bivar (União Brasil), fechou uma aliança com a nova direção do Pros e está prestes a confirmar a saída de André Janones (Avante) da disputa.

Lula decidiu fazer um investimento pesado nesse trio de nanicos na reta final do período de definição das candidaturas deste ano. O plano do ex-presidente é tirar de campo nomes que poderiam ser a opção de 2% ou 3% dos eleitores e melhorar os cálculos para ampliar suas chances de vitória no primeiro turno.

Ruy Castro - Bolsonaro prepara a guerra civil

Folha de S. Paulo

Não é exagero; ele não tem mais nada a perder

Abra o olho, porque as coisas vão esquentar. Bolsonaro está a ponto de perpetrar um grande absurdo, maior do que tudo que cometeu até hoje --algo que porá contra ele até setores que ainda o apoiam no Congresso e nas Forças Armadas. Fará isto de caso pensado. A intenção é provocar uma medida, vinda não se sabe de onde, que o impeça de concorrer às eleições. Isso insuflará o seu discurso de que só assim conseguem derrotá-lo e convocará para a briga seus seguidores, que detêm hoje um poder de fogo maior que o dos quartéis.

Conrado Hübner Mendes* - Corrupção bolsonarista, capítulo 8

Folha de S. Paulo

O significado de 'legalização das milícias' e o 'valor' das armas

Sabe-se há 30 anos que não há proposta de Bolsonaro para o Brasil que não namore a morte. Desde "matar uns 30 mil" até autorizar polícia a chacinar pobre sem satisfação nem luto: seu repertório se bastava nisso. Deus e "kit gay" vieram depois, quando atinou virar presidente e abraçou comerciantes da religião. Encontrou um Deus com sanha arrecadatória.

Demos pouca atenção a outra ideia que se deixava ofuscar pelas propostas de morte: a "legalização das milícias". Se procurar texto do cérebro bolsonarista que explique a iniciativa, encontrará falas parlamentares de Jair e Flávio. E muito jornalismo declaratório que citava discursos, mas não indagava sobre o conceito.

Flávio resumiu: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?" A Constituição promete direito à segurança pública. O bolsonarismo oferece arma e milícia. Se miliciano cobrar "tarifa", o bolsonarismo legaliza o pagamento isento de imposto. A vida miliciana está aberta a empreendedores. Dispensa concurso.

Malu Gaspar - enquadrando o Supremo

O Globo

Nos bastidores, há a expectativa de que ministros usem discussão sobre lei de improbidade para fazer um 'gesto de boa vontade' em relação a determinadas lideranças políticas

Quando o Congresso aprovou a nova Lei de Improbidade Administrativa, em outubro passado, esquerda, direita e Centrão comemoraram em uníssono. Tamanha união demonstrou que, quando se trata de salvar a própria pele, a famigerada polarização ideológica simplesmente desaparece.

Da mesma forma, desapareceram da lei boa parte das condutas antes consideradas ilícitas — do assédio sexual e moral à carteirada, da tortura nas prisões à interferência de governantes nas instituições de Estado. Nos casos que continuaram sendo punidos, como enriquecimento ilícito, tráfico de influência, desvio de recursos públicos, ficou bem mais difícil enquadrar os responsáveis e bem mais fácil a prescrição de casos.

Também passou a ser preciso provar que o acusado agiu com dolo ou má-fé. Agora, se o sujeito disser que “foi sem querer querendo” ou que não sabia das irregularidades, é bem provável que escape da condenação.

Já poderia ser considerado um ótimo negócio para os enrolados com esse tipo de acusação, mas uma característica marcante do político brasileiro é que nunca está satisfeito. A acachapante maioria obtida no Congresso para aprovação da lei deu aos caciques partidários ânimo para ousar mais, e com isso chegamos ao surreal julgamento iniciado ontem no Supremo Tribunal Federal (STF).

Míriam Leitão - Porta entreaberta para alta de juros

O Globo

Se os juros subirem na próxima reunião, será a 11 dias das eleições, mas as incertezas das contas públicas exigem atenção do Banco Central

Os juros subiram para 13,75%, e o recado mais importante foi o de que as taxas ainda podem ter um “aumento residual, de menor magnitude em sua próxima reunião”, segundo o Banco Central. Com isso, os juros talvez terminem esta temporada de altas em 14%. Havia dúvidas sobre se o BC encerraria o ciclo ou deixaria a porta aberta para nova alta. Deixou entreaberta. A próxima reunião será realizada em 20 e 21 de setembro, a onze dias das eleições e após duas deflações. Existem motivos para parar de subir as taxas, porém, há dúvidas sobre a economia global e a brasileira.

Se as dúvidas no Brasil fossem só econômicas, estaria bom. O grande temor que paira sobre o país neste fim de ano é político. Por causa dos ataques sem tréguas do presidente contra a ordem democrática, o país está vivendo uma eleição geral como se fosse um plebiscito terminal sobre a democracia. Um vida ou morte, um tudo ou nada. Nesse clima, olhar os comunicados do Banco Central e tentar achar sentido neles pode parecer uma tarefa fora de propósito. Mas a economia está sempre em diálogo com todo o resto. Por exemplo, para tentar ganhar a eleição, o governo baixou imposto e adotou medidas eleitoreiras. Resultado, os preços administrados terminarão o ano em queda de 1,3%, registra o BC. No ano seguinte, contudo, haverá o efeito rebote e esses preços podem subir 8,4%. Por dever de ofício o Banco Central tem que olhar além do horizonte político.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Bolsonaro e Centrão arruínam as instituições

Valor Econômico

Bolsonaro exterminou as pastas da Saúde, Educação e Meio Ambiente e cooptou para a defesa de seus interesses órgãos da República, como a PGR

A degradação institucional promovida pelo presidente da República e pelos líderes do Centrão no Congresso é ampla e profunda. Não terminou ainda e está exclusivamente marcada por interesses eleitorais de Bolsonaro e dos partidos fisiológicos em aumentar suas bancadas para continuar parasitando o Orçamento no próximo governo, seja qual for.

A barreira para impedir o impeachment de Bolsonaro foi erguida ao preço de entregar a PP, PL, Republicanos e outras legendas fisiológicas o controle orçamentário. O resultado foi a criação das emendas do relator, cuja falta de transparência foi condição essencial para a distribuição de dinheiro público a currais eleitorais demarcados pelos caciques dos partidos governistas. Há rastros fortes de corrupção nas obras que financiaram e a Polícia Federal está no encalço de um dos ninhos de propulsão de obras irregulares, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, enquanto que os repasses de grande parte das emendas secretas para a Codevasf aguarda investigações sérias. Ambos são dirigidos por pessoas indicadas pelo PP, do presidente da Câmara, Arthur Lira, e do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira.

Poesia | Adélia Prado - Terra de Santa Cruz

 

Música | Flavia Dantas - Samba da Legalidade (Zé Keti)

 

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Vera Magalhães - Bolsonaro insiste em riscar o fósforo

O Globo

Organizadores do ato em prol da democracia temem encontro com apoiadores do presidente

O presidente Jair Bolsonaro parece ter feito um estoque ilimitado de caixas de fósforo para riscar de forma indiscriminada até as eleições. Isso não costuma resultar em nada produtivo, como se viu há um ano, no 7 de Setembro.

Não basta ao presidente da República ofender, com adjetivos a cada dia mais pesados, os signatários da nova Carta aos Brasileiros e do manifesto das entidades patronais e de trabalhadores, ambos em defesa da democracia.

Na lógica de fomentar o caos, Bolsonaro achou por bem antecipar sua participação no ciclo de sabatinas da Fiesp, não por acaso a idealizadora do manifesto, para 11 de agosto, dia do ato da leitura dos dois documentos na Faculdade de Direito da USP.

O caldo de cultura para a primeira confusão está fermentando. Organizadores do ato em prol da democracia temem o encontro com apoiadores do presidente que podem se concentrar na Avenida Paulista, símbolo de manifestações políticas nos últimos anos, ainda que os eventos tenham horários distintos.

Qual a necessidade desse tipo de provocação? É difícil, à luz da lógica que costuma reger as estratégias de uma campanha eleitoral, entender o que Bolsonaro julga ter a ganhar confrontando mais de 660 mil cidadãos brasileiros e algumas das principais organizações do país que pedem apenas respeito ao Estado Democrático de Direito.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - As luzes do Largo de São Francisco

O Estado de S. Paulo

Sempre, mas especialmente em tempos de incivilidade e afronta à democracia, é oportuno ouvir as histórias das Arcadas.

Primeira faculdade instalada no Brasil – suas atividades iniciaram-se no dia 1.º de março de 1828 –, a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi objeto de vários estudos históricos e sociológicos. Recentemente, sua bibliografia ganhou mais uma obra: Fatos e Fitas. Crônicas sobre o Largo de São Francisco (Ed. Migalhas, 2022), de Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. Trata-se de um livro afetivo, em que o autor, formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, reverencia a faculdade onde estudou seu pai, Waldemar Mariz de Oliveira Júnior. “Quando vim à Terra, meu pai cursava o terceiro ano. Estive presente à sua missa de formatura”, conta Mariz.

Além de trazer histórias da vida acadêmica no século 19 – como as desavenças entre o primeiro diretor das Arcadas, José Arouche de Toledo Rendon, e o primeiro professor, José Maria de Avellar Brotero –, Fatos e Fitas representa um singular reconhecimento do profundo impacto que o Largo de São Francisco produziu sobre São Paulo e todo o País. É o olhar de quem, sem ter sido aluno das Arcadas, acompanhou de perto sua história: seus fatos e suas fitas. Nutrindo grande admiração pela faculdade cuja inauguração considera o “marco inicial de nossa independência cultural”, Mariz deseja contribuir para preservar o espírito acadêmico e as tradições do Largo de São Francisco; entre elas, “a boêmia, a irreverência, a permanente alegria de viver, a dedicação à poesia e à música, as disputas ideológicas, a adoção das causas libertárias, a solidariedade”.