sábado, 25 de julho de 2026

A violência onipresente, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

Estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências

Quando falamos em violência, vem-nos à mente, antes de tudo, a violência explícita, ostensiva, aquela em que o sangue jorra e vidas são destruídas. Guerras, assassinatos, agressões selvagens, armas de fogo, facas, drones e canhões. Nem sempre consideramos as demais formas de violência que se manifestam em nosso cotidiano. A fome é violenta, assim como as desigualdades e a falta de serviços públicos de qualidade. Há outras, aparentemente pequenas. Não as processamos porque estão normalizadas: convivemos com elas como se fossem paisagens ou eventos entranhados no dia a dia. Violências quase invisíveis, às quais nos habituamos a ponto de as desprezarmos como problema.

É o caso do barulho. Podemos assimilá-lo, mas não temos como inocentá-lo. Numa cidade como São Paulo, por exemplo, ele causa malefícios silenciosos, que nos perturbam e nos tiram a concentração, além, obviamente, de prejudicar nosso descanso e nosso sono. Já há muitos estudos a respeito, nem é preciso insistir no tema. São Paulo é uma cidade sempre em construção, com prédios sendo erguidos sem parar, com caminhões circulando o tempo todo e obras madrugada adentro. Há o zumbido ininterrupto dos aparelhos de ar-condicionado, as algazarras gratuitas, os shows e cultos, os desfiles e paradas. Tem quem não se incomode, que entra na vibe e segue em frente. Outros vestem fones de ouvido com cancelamento de ruído.

Pensemos no tempo que se gasta com deslocamentos. Nos horários de pico em São Paulo, pode-se levar quatro horas para ir de um ponto a outro da cidade. Imaginem chegar em casa depois de trabalhar oito horas e gastar mais quatro no ônibus ou no metrô? A pessoa sofre simplesmente porque precisa circular. Vai brincar com os filhos, relaxar, preparar o jantar?

O barulho e o tempo gasto nem sempre são tratados como violência, e sim como um mal necessário, do tipo que não tem como ser controlado ou evitado. Não deveriam ser vistos como algo normal. Falase em São Paulo: se você quer silêncio, mude-se para o interior, vá para uma cidade pequena ou uma casa no campo.

A violência ostensiva está mais perto do cotidiano do que imaginamos. Assaltos à mão armada, furtos, assédios, chantagens, acidentes de trânsito, feminicídios, estupro de crianças e adolescentes, brigas de torcedores, gritos racistas ou homofóbicos, balas perdidas. Palavras e gestos também podem agredir. O bullying e o cyberbullying, que são crescentes, entram fácil nesse rol. Todos são atos que compõem a primeira face da violência explícita, igualmente perigosa e repulsiva. Embora possam ser, em parte, atenuados com acréscimos de escolarização, educação cívica e campanhas de conscientização, nenhum deles pode ser normalizado.

A segunda face abre-se toda para o mundo do crime. Ele é diversificado, clandestino, mas também anda pelas ruas. As facções criminosas são violentas por definição. Combatem-se umas às outras, matam policiais que as enfrentam, civis e “doleiros” com quem colaboram, fazem pactos de sangue. Usam o território nacional para atravessar armas e drogas trazidas do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia e do Peru, para fazê-las chegar à Ásia e à Europa. É um repto à soberania nacional. Violentam o Estado de Direito quando hackeiam sistemas digitais brasileiros. Violentam a população quando ocupam territórios comunitários para neles instalar seus bunkers e suas plataformas de serviços. É inaceitável que tais territórios não sejam desocupados e devolvidos aos verdadeiros donos.

O crime organizado também violenta quando corrompe policiais, políticos, juízes, banqueiros. Como o Brasil não dispõe de uma política de segurança pública e de uma força especializada no combate ao crime, ele rola solto. Operando em rede e por células, está sempre a se reproduzir e a desafiar quem o confronta. A violência policial desmedida e seletiva integra essa segunda face, como se fosse cópia do que fazem os criminosos.

As diferentes violências devem, evidentemente, ser hierarquizadas. Algumas são mais graves e complexas do que outras. No limite, implicarão o uso da força, um aparato de inteligência e de informações, o apoio das Forças Armadas. As mais corriqueiras passam por ajustes educacionais e pela recomposição de laços sociais desfeitos pelo ritmo alucinante da vida e pelo uso intensivo de telas e redes sociais. Mas todas são violências a serem combatidas pelos meios que estiverem ao nosso alcance. Na verdade, estamos sem saber como reagir a essa mescla diabólica de violências.

Num ano eleitoral, seria lógico que os candidatos falassem a respeito de modo substantivo, para esclarecer a opinião pública e sugerir passos concretos para que a segurança tenha um lugar ao sol no futuro próximo. Podemos esperar que o façam?

O direito à segurança é básico e essencial. As coisas não podem ser deixadas ao deus dará, porque fazem sangrar a sociedade inteira e conspiram contra o progresso, a produtividade, a tranquilidade, a justiça, o Estado Democrático e republicano.

*Professor titular de Teoria Política da Unesp

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