Revista Será?
O Inevitável Transformador
Edgar Morin[1] é claro e contundente sobre os
estudos prospectivos. Em geral, estes pecam por fazer previsões lineares que
não têm pertinência. Isso pelo simples fato de que o futuro não é a
continuidade do presente, sua reprodução ampliada. O futuro é uma trajetória
complexa que reúne continuidades, descontinuidades e a criação de novos eventos
e processos.
É impossível dizer quais tendências, que verificamos em um determinado momento, existirão após uma década ou menos, e o que de novo irá surgir. Em 1987, ninguém imaginava que a URSS iria ruir dois anos depois e que a Guerra Fria iria se encerrar abruptamente. Quando a internet foi criada, alguns CEOs de empresas de informática diziam que não passava de mais um fracasso tecnológico. Hoje, bilhões de pessoas a utilizam. Em 1980, ninguém previa que a China seria a segunda potência do mundo 35 anos depois.
Na vasta obra de Edgar Morin (1946/2024) o
futuro não é só imprevisibilidade. Aqui, abordaremos uma das tantas noções que
Morin desenvolve sobre o futuro.
No livro L’Homme et la Mort (Paris: Editions du Seuil, 1951),
e traduzido no Brasil (O Homem
e a Morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997) Morin aborda a questão
do futuro de forma inusitada, para a época. É um livro que inaugura seus
estudos sobre a complexidade do humano, mas que contém uma reflexão sobre a
morte como futuro inevitável aos seres vivos. Ao em vez de olhar para a morte
apenas pela dimensão biológica, Morin cruza este olhar com outros olhares, da
sociologia, da antropologia e da psicologia, enfim a dimensão da cultura.
Chama-lhe atenção a forma como os humanos concebem e tratam da morte, distinta dos
animais
Para Morin o ser humano é o único animal que
vive uma contradição profunda: está biologicamente determinado a morrer, mas é
culturalmente incapaz de aceitar essa realidade.
A história humana é uma oscilação constante
entre o trauma e o triunfo. O primeiro é o reconhecimento da morte como a perda
absoluta da individualidade. O segundo, a recusa em se render a essa
dissolução, que se manifesta na criação de crenças na imortalidade, na ideia de
reencarnação ou na sobrevivência da alma. O homem “inventa” a imortalidade para
salvar a sua individualidade, inventa o seu duplo, a alma.
O Homo
sapiens (o homem anatômico, técnico, racional) seria capaz de
encarar a morte de forma objetiva, como um dado biológico inevitável. No
entanto, o ser humano recusa-se a aceitar o fim da sua configuração individual.
Essa não aceitação é, sob a ótica da pura racionalidade biológica, uma
“loucura”. Daí o surgimento do Homo
demens, aquele que cria mitos, projeta fantasmas, inventa o duplo
(a alma) e constrói impérios de crenças para driblar o vazio. A nossa
capacidade de delírio e magia nasce diretamente do trauma da finitude. A morte,
inevitável, transforma os humanos. Por isso, a invenção do túmulo é tão
importante quanto a invenção e o uso das ferramentas.
Em Le Paradigme
perdu: la nature humaine (Paris: Editions du Seuil, 1973)
traduzido no Brasil em 1979 (Enigma
do homem. Para uma nova antropologia. Rio de Janeiro: Zahar), Morin
vai utilizar as descobertas da revolução biológica dos anos 1950/1960 (a
descoberta do DNA, a cibernética de Norbert Wiener, a teoria dos sistemas e a
ecologia) para dar uma base científica àquela intuição juvenil de que o homem é
um ser indissociavelmente biológico e cultural.
Entre um e outro livro, encontra-se a
temporada de Edgar Morin no Salk Institute
for Biological Studies, em La Jolla, na Califórnia (1969/1970), um
divisor de águas em sua trajetória intelectual. Lá, ele não absorveu apenas
biologia, mas também a efervescência teórica dos EUA nas obras de Norbert
Wiener (Cibernética),
Ludwig von Bertalanffy (Teoria
Geral dos Sistemas), Gregory Bateson (Ecologia da Mente) e Heinz von Foerster (Cibernética de Segunda Ordem),
convivendo com laureados com o Nobel como Francis Crick e Jacques Monod.
Morin percebeu que a biologia molecular e a
genética lidavam com conceitos como informação, mensagem, código e organização.
Se a vida, na sua escala mais elementar, era organizada por meio da informação
(DNA), a barreira rígida entre as Ciências da Natureza e as Ciências da Cultura
caía por terra. A cultura era uma extensão e uma necessidade da sua
complexidade biológica.
Um dos conceitos mais revolucionários que
Morin internalizou na Califórnia foi o princípio de Order from Noise (Ordem a
partir do Ruído), formulado por Heinz von Foerster[2]. Trata-se da ideia de que a ordem, a vida
e a complexidade surgem não apesar do caos, do erro e da desordem, mas através
deles. Isso se encaixou perfeitamente com a sua antiga visão de que a
fragilidade e a consciência da morte (a desordem psíquica, a demens) não eram falhas evolutivas
do ser humano, mas propulsores biológicos que obrigaram o cérebro a se
auto-organizar em um nível superior, criando a cultura, a linguagem e a razão (sapiens).
Ao retornar à França, Morin estava munido de
uma síntese inédita: a sensibilidade antropológica e o conhecimento de ciências
de ponta. Dois conceitos-chave vão fazer a ponte entre Le Paradigme humaine (1973)
e La Méthode (O Método), em seis volumes (1977/2004), sua obra central. O
da auto-eco-organização: a vida é um sistema que se autoproduz constantemente
em relação ao seu contexto; e o da retroalimentação (feedback loop): os processos não
são lineares (A causa B), mas circulares (A causa B, que retroage sobre A). O
fim é, simultaneamente, o começo.
A conclusão maior de O homem e a morte é que esta é
o espelho mais profundo da própria condição humana, o inevitável transformador.
[1] Edgar Morin é
um filósofo e cientista social francês, nascido em 1921 e falecido em 2026
(29/05), pesquisador emérito do CNRS e doutor honoris causa em diversas
universidades, que escreveu cerca de 70 livros, alguns em coautoria, ao longo
de seus 80 anos de produção.
[2] O princípio da “ordem a partir do ruído”, formulado pelo ciberneticista Heinz von Foerster em 1960, sugere que perturbações aleatórias (ruído) não são apenas destrutivas, mas necessárias para sistemas auto-organizados. Em vez de derivar ordem de uma ordem preexistente, os sistemas utilizam o “ruído” aleatório para explorar possibilidades, acabando por encontrar e consolidar estados estáveis e ordenados.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor
associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de
Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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