sábado, 25 de julho de 2026

Morin e o Futuro (I), por Elimar Nascimento

Revista Será?

O Inevitável Transformador

Edgar Morin[1] é claro e contundente sobre os estudos prospectivos. Em geral, estes pecam por fazer previsões lineares que não têm pertinência. Isso pelo simples fato de que o futuro não é a continuidade do presente, sua reprodução ampliada. O futuro é uma trajetória complexa que reúne continuidades, descontinuidades e a criação de novos eventos e processos.

É impossível dizer quais tendências, que verificamos em um determinado momento, existirão após uma década ou menos, e o que de novo irá surgir. Em 1987, ninguém imaginava que a URSS iria ruir dois anos depois e que a Guerra Fria iria se encerrar abruptamente. Quando a internet foi criada, alguns CEOs de empresas de informática diziam que não passava de mais um fracasso tecnológico. Hoje, bilhões de pessoas a utilizam. Em 1980, ninguém previa que a China seria a segunda potência do mundo 35 anos depois.

Na vasta obra de Edgar Morin (1946/2024) o futuro não é só imprevisibilidade. Aqui, abordaremos uma das tantas noções que Morin desenvolve sobre o futuro.

No livro L’Homme et la Mort (Paris: Editions du Seuil, 1951), e traduzido no Brasil (O Homem e a Morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997) Morin aborda a questão do futuro de forma inusitada, para a época. É um livro que inaugura seus estudos sobre a complexidade do humano, mas que contém uma reflexão sobre a morte como futuro inevitável aos seres vivos. Ao em vez de olhar para a morte apenas pela dimensão biológica, Morin cruza este olhar com outros olhares, da sociologia, da antropologia e da psicologia, enfim a dimensão da cultura. Chama-lhe atenção a forma como os humanos concebem e tratam da morte, distinta dos animais

Para Morin o ser humano é o único animal que vive uma contradição profunda: está biologicamente determinado a morrer, mas é culturalmente incapaz de aceitar essa realidade.

A história humana é uma oscilação constante entre o trauma e o triunfo. O primeiro é o reconhecimento da morte como a perda absoluta da individualidade. O segundo, a recusa em se render a essa dissolução, que se manifesta na criação de crenças na imortalidade, na ideia de reencarnação ou na sobrevivência da alma. O homem “inventa” a imortalidade para salvar a sua individualidade, inventa o seu duplo, a alma.

Homo sapiens (o homem anatômico, técnico, racional) seria capaz de encarar a morte de forma objetiva, como um dado biológico inevitável. No entanto, o ser humano recusa-se a aceitar o fim da sua configuração individual. Essa não aceitação é, sob a ótica da pura racionalidade biológica, uma “loucura”. Daí o surgimento do Homo demens, aquele que cria mitos, projeta fantasmas, inventa o duplo (a alma) e constrói impérios de crenças para driblar o vazio. A nossa capacidade de delírio e magia nasce diretamente do trauma da finitude. A morte, inevitável, transforma os humanos. Por isso, a invenção do túmulo é tão importante quanto a invenção e o uso das ferramentas.

Em Le Paradigme perdu: la nature humaine (Paris: Editions du Seuil, 1973) traduzido no Brasil em 1979 (Enigma do homem. Para uma nova antropologia. Rio de Janeiro: Zahar), Morin vai utilizar as descobertas da revolução biológica dos anos 1950/1960 (a descoberta do DNA, a cibernética de Norbert Wiener, a teoria dos sistemas e a ecologia) para dar uma base científica àquela intuição juvenil de que o homem é um ser indissociavelmente biológico e cultural.

Entre um e outro livro, encontra-se a temporada de Edgar Morin no Salk Institute for Biological Studies, em La Jolla, na Califórnia (1969/1970), um divisor de águas em sua trajetória intelectual. Lá, ele não absorveu apenas biologia, mas também a efervescência teórica dos EUA nas obras de Norbert Wiener (Cibernética), Ludwig von Bertalanffy (Teoria Geral dos Sistemas), Gregory Bateson (Ecologia da Mente) e Heinz von Foerster (Cibernética de Segunda Ordem), convivendo com laureados com o Nobel como Francis Crick e Jacques Monod.

Morin percebeu que a biologia molecular e a genética lidavam com conceitos como informação, mensagem, código e organização. Se a vida, na sua escala mais elementar, era organizada por meio da informação (DNA), a barreira rígida entre as Ciências da Natureza e as Ciências da Cultura caía por terra. A cultura era uma extensão e uma necessidade da sua complexidade biológica.

Um dos conceitos mais revolucionários que Morin internalizou na Califórnia foi o princípio de Order from Noise (Ordem a partir do Ruído), formulado por Heinz von Foerster[2]. Trata-se da ideia de que a ordem, a vida e a complexidade surgem não apesar do caos, do erro e da desordem, mas através deles. Isso se encaixou perfeitamente com a sua antiga visão de que a fragilidade e a consciência da morte (a desordem psíquica, a demens) não eram falhas evolutivas do ser humano, mas propulsores biológicos que obrigaram o cérebro a se auto-organizar em um nível superior, criando a cultura, a linguagem e a razão (sapiens).

Ao retornar à França, Morin estava munido de uma síntese inédita: a sensibilidade antropológica e o conhecimento de ciências de ponta. Dois conceitos-chave vão fazer a ponte entre Le Paradigme humaine (1973) e La Méthode (O Método), em seis volumes (1977/2004), sua obra central. O da auto-eco-organização: a vida é um sistema que se autoproduz constantemente em relação ao seu contexto; e o da retroalimentação (feedback loop): os processos não são lineares (A causa B), mas circulares (A causa B, que retroage sobre A). O fim é, simultaneamente, o começo.

A conclusão maior de O homem e a morte é que esta é o espelho mais profundo da própria condição humana, o inevitável transformador.

[1] Edgar Morin é um filósofo e cientista social francês, nascido em 1921 e falecido em 2026 (29/05), pesquisador emérito do CNRS e doutor honoris causa em diversas universidades, que escreveu cerca de 70 livros, alguns em coautoria, ao longo de seus 80 anos de produção.

[2] O princípio da “ordem a partir do ruído”, formulado pelo ciberneticista Heinz von Foerster em 1960, sugere que perturbações aleatórias (ruído) não são apenas destrutivas, mas necessárias para sistemas auto-organizados. Em vez de derivar ordem de uma ordem preexistente, os sistemas utilizam o “ruído” aleatório para explorar possibilidades, acabando por encontrar e consolidar estados estáveis e ordenados.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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