O Globo
Ministros estão dispostos a tudo, inclusive a
enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja simplesmente
investigado
A melancólica sessão deste 15 de setembro no
Supremo Tribunal Federal (STF) terá impacto decisivo nas urnas, e o resultado
das eleições que se avizinham, tanto para a Presidência da República quanto
para a composição do futuro Congresso, certamente contribuirá para uma mudança significativa
no papel institucional do STF.
Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.
Os avisos já vinham sendo dados há dias,
semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de
Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson
Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.
O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele
próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista
da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de
voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de
Moraes e André Mendonça.
Diante da evidência de que a questão de ordem
produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir
o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte:
empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou
ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data
próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo
relator do Master de fato autoriza essa imputação.
Mas, com o espetáculo que promoveram na
sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais
decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma
oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio
investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel
Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.
Para a estratégia de Lula de se desvencilhar
da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por
ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não
entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o
que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão
dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um
deles seja até mesmo investigado.
Diante da decisão ostensiva por não
deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na
semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos
de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.
A depender do ânimo do eleitor perplexo e
atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia
pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral
durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma
composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e
completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.
É extremamente grave e preocupante que a
eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do
Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas
é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao
misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a
respeitabilidade da própria Corte.
A depender do resultado de outubro, a reforma
adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao
emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para
se contrapor a isso.

Um comentário:
Enquanto isso o Lulinha continua escondido na Espanha cadê o Lulinha não vai falar nada não?
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