quinta-feira, 16 de julho de 2009

Futuro do presente

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O governo erra quando promete aumento real para aposentados ao mesmo tempo em que luta contra a derrubada de um veto do presidente Lula a um aumento real dado pelo Congresso aos mesmos aposentados, em 2006. O governo erra quando prepara uma mudança no marco regulatório do petróleo saindo de um sistema com competição e transparência para outro, opaco.

O governo tem errado muito em várias áreas. Erra quando tenta fazer das obras do PAC projetos acima da lei e dos bons costumes políticos e econômicos.

Obras do PAC, principalmente as estradas, querem ganhar velocidade sem respeitar os limites fiscais, ambientais e de controle pelo TCU.

Erra quando usa sua base aliada para pendurar sandices em Medidas Provisórias sobre quaisquer assuntos, dando sinais ambíguos em questões graves. No caso rumoroso e escandaloso do crédito-prêmio de IPI, deputados e senadores da base aliada e líderes do governo têm dependurado em toda MP que está indo para votação uma conta impagável e indecorosa. A nota do Ministério da Fazenda citou seis razões pelas quais o governo não pode piscar nesta questão: o custo pode chegar a R$ 280 bilhões; o subsídio aos empresários desrespeita acordos de comércio assinados pelo Brasil; qualquer acordo que o governo faça significa uma concordância de que o benefício continuou existindo após a sua extinção, o que incentivará nova corrida aos tribunais. E o mais importante: essa dívida com os exportadores não existe, esse subsídio acabou em 1983.

Apesar dos fortes argumentos da nota da Fazenda, o governo tem aceitado negociar uma saída.


Não há saída a não ser esperar o julgamento do Supremo.

O governo erra quando concede aumentos presentes e futuros para os funcionários públicos, numa máquina que já inchou demais e teve aumentos reais fortes nos últimos anos. O próximo — ou a próxima — presidente assumirá com aumentos concedidos pelo atual governo que vão elevará o custo do funcionalismo em R$ 16 bilhões já no primeiro ano.

Para ganhar a eleição o governo está passando por cima de tudo o que é sensato.

Quer que as estradas do PAC não tenham que pedir licença ambiental, que para elas não valha a condenação do TCU, e que os gastos com essas obras não sejam contados para efeito de metas fiscais.

Em MPs que estão tramitando, tem pendurado propostas do Ministério dos Transportes para flexibilização ou suspensão de obrigações ambientais; na LDO tenta suspender a prática de que obras condenadas pelo TCU não recebam recursos novos até o esclarecimento do problema; e apresenta proposta de que obras do PAC sejam como as do PPI e não entrem na conta do déficit público. O problema é que a metodologia de aprovação de um PPI (Projeto Piloto de Investimento) é cercada de cuidados; as do PAC, não. É um ataque triplo ao arcabouço institucional vigente no país, para acelerar obras que vão render dividendos eleitorais.

Ou outros.

O presidente Lula faz um aceno perigoso aos aposentados numa época de queda das receitas da Previdência e entra em contradição com seus próprios atos. Foi Lula que vetou a lei que aumentava o reajuste aos aposentados acima da inflação em 2006. É o governo Lula que teme a derrubada desse veto, argumentando que isso vai gerar um esqueleto de R$ 38 bilhões. Agora, o próprio presidente diz que os aposentados terão no ano que vem aumento acima da inflação.

Sua declaração pode estimular a derrubada do veto sobre o reajuste de 2006.

O governo erra e erra muito ao patrocinar em plena era do aquecimento global um ataque generalizado às leis, normas e limites ambientais.

Esses limites não foram impostos por ambientalistas, mas pela própria natureza.

Num momento como esse, promover o desmonte do pouco que se tem através de absurdos como a MP que incentiva a grilagem, ou a que aumenta a área permitida de desmatamento, é uma estupidez.

O mundo está caminhando na direção contrária: de aumentar o vigor das suas leis ambientais.

Erra o governo, e erra muito, ao pensar em outro modelo de exploração de petróleo sem a transparência que pode dar um processo de leilão. Vai criar uma estatal que já nasce como uma negociadora de petróleo num modelo opaco, de distribuição de áreas aos interessados.

Numa época em que o país está ferido com tanta denúncia de corrupção, o governo está propondo uma estatal que — corre o risco de entrar na farra da distribuição de cargos entre aliados, como tudo entrou — distribua áreas de exploração, receba e ainda venda petróleo. O modelo de partilha para explorar petróleo existe. Principalmente em países autoritários, como a Venezuela. O mundo, também nisso, caminha no sentido de mais — e não menos — transparência nos negócios públicos. Na histeria para ganhar uma eleição, cuja disputa não começou, o governo está entregando o futuro do país em uma série de decisões tomadas com olho num horizonte curto. Se não acordar a tempo de perceber que foi eleito para governar e não para fazer o sucessor, o presidente Lula entregará uma herança pesada que recairá sobre sua avaliação no futuro. O julgamento da história costuma ser diferente, e é bem mais rigoroso do que o que se faz no tempo presente.

'Todos eles são bons pizzaiolos'

Luiza Damé e Adriana Vasconcelos
DEU EM O GLOBO

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS

Lula ataca senadores da oposição e agrava crise no Senado, que rejeita diretor de agência

O presidente Lula acirrou ainda mais os ânimos no Senado ao dizer ontem que os senadores da oposição são "bons pizzaiolos", quando comentava a instalação da CPI da Petrobras. A reação foi quase imediata: com 30 votos não, 20 sim e uma abstenção, a Casa rejeitou a recondução do engenheiro Bruno Pagnoccheschi para uma diretoria da Agência Nacional de Águas (ANA). A rejeição de nomes para agências reguladoras é fato raro no Senado.

Lula disse ainda que a CPI é uma irresponsabilidade e só interessa "a quem quer fazer carnaval". Ele defendeu a permanência de José Sarney (PMDB-AP) na presidência do Senado alegando que ninguém deve renunciar só com base em denúncias. À saída de uma solenidade na Embrapa, respondeu sobre declarações de senadores da oposição que dizem temer que a CPI termine em "pizza temperada com pré-sal":

- Depende. Todos eles são bons pizzaiolos.

No Senado, numa sessão que prometia ser tranquila, já em clima de recesso, os protestos contra as declarações de Lula foram puxados pelo líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM): - Se há algo parecido com forno de pizza, não está aqui, mas do outro lado da rua. E se ele (Lula) não quiser pizza, é só orientar sua bancada a permitir a apuração dos fatos e a convocação das pessoas que a oposição vai sugerir. Agora, não é justo nós aqui ficarmos aturando insultos, ainda que venham do presidente da República.

Sarney deixou o plenário antes que Cristovam Buarque (PDT-DF) cobrasse:

- Não é possível que a gente tenha o presidente da República chamando senadores de pizzaiolos. Quero deixar, aqui, o meu requerimento informal para que o presidente da Casa peça alguma satisfação ao presidente Lula.

Marina Silva (PT-AC) lamentou que a rebelião tenha resultado na rejeição de Pagnoccheschi:

- O Bruno ajudou na fundação da ANA e estava sendo reconduzido para o cargo de diretor. Acho uma falta de maturidade nossa.

Antes mesmo da promulgação do resultado, o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), percebendo a tensão, solicitou a suspensão da votação das demais indicações de autoridades. O diretor-presidente da ANA, o petista José Machado, deve avaliar hoje as providências que poderão ser tomadas. Para Machado, a decisão do Senado causou "perplexidade e desolação":

- A decisão vai causar grande prejuízo para o trabalho da ANA. Ninguém é insubstituível, mas não temos ainda um outro nome para indicar.

Lula minimizou os efeitos da CPI. Argumentou que a Petrobras pode ser investigada por órgãos como Receita Federal, Controladoria Geral da União, Ministério Público e Comissão de Valores Mobiliários (CVM):

- CPI pode ser muito interessante para quem quer fazer um carnaval. Para quem quer investigar seriamente, era preciso outro mecanismo.

"Lula quer desmoralizar o Senado", diz Jarbas

Irônico, Lula disse que os mesmos que hoje estão preocupados com a estatal, no passado defendiam a sua privatização, e que sua preocupação hoje é o marco regulatório do pré-sal:

- Enquanto a oposição grita, eu trabalho.

Para Demóstenes Torres (DEM-PI), Lula seria o responsável pela "pizzaria" do Senado:

- Afinal, foi o presidente Lula que enquadrou a bancada do PT para que o presidente Sarney permanecesse no cargo.

- Repudio as declarações do presidente - emendou Renato Casagrande (PSB-ES).

A intervenção mais dura partiu de Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE).

- É incrível que esta Casa ainda se surpreenda com as atitudes e as ações do presidente da República. Essa declaração foi infeliz. Ele vai continuar usando e abusando de sua popularidade. Ele não tem princípios. Ele é pior do que o pior dos generais que exerceram a ditadura neste país, porque os outros ainda tinham um certo pudor, um certo cuidado ou com a opinião pública ou com o próprio Congresso. Ele não tem nenhum. Quer desmoralizar o Senado, porque não quer que nada concorra com ele.

Lula negou que o governo dê apoio a Sarney e criticou a condenação de autoridades sem a devida comprovação da denúncia.

- Na medida que você levanta uma denúncia, precisa apuração. As coisas estão sendo feitas corretamente no Senado. Há denúncia, investiga, mas precisamos tomar muito cuidado porque, se cada vez que sair denúncia contra você, a gente pedir para o jornal em que você trabalha o afastar, não vai ter mais jornalista no cargo. No Senado, não vai ter mais ninguém no cargo.

Colaborou Gustavo Paul

Oposicionistas são pizzaiolos, diz Lula

Simone Iglesias e Fernanda Odilla
Da Sucursal de Brasília
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Questionado se a CPI da Petrobras acabaria "em pizza", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou a oposição de "gritar" enquanto ele trabalha e chamou os senadores de "bons pizzaiolos".

Em retaliação, o Senado rejeitou a recondução do diretor da Agência Nacional de Águas, Bruno Pagnoccheschi. Governistas adiaram para agosto a apreciação de outras indicações. Dizendo-se ofendidos, vários parlamentares da oposição foram ao plenário dizer que está dentro do Planalto o forno que assa as pizzas. Aliados tentaram minimizar a declaração de Lula


Um dia de frases

"Todos eles são bons pizzaiolos"

Presidente Lula, sobre senadores de oposição, quando questionado se a CPI da Petrobras, controlada por governistas, poderia acabar em pizza

"Eu não sei por que ela foi admitida e não sei por que ela foi demitida"
Lula, sobre a saída da secretária da Receita Federal, Lina Maria Vieira

"Houve um lobby muito saudável e elegante"

Deputado Michel Temer (PMDB-SP), sobre viagem de deputados paga pela França, interessada em vender aviões ao Brasil

"Ficarem vasculhando a vida dele [José Sarney] porque nomeou um neto é pura bobagem’

Senador Paulo Duque (PMDB-RJ), novo presidente do Conselho de Ética do Senado

"Essa polêmica me deu muitos pontos. Nunca recebi tantos convites na vida, ganhei espaço"

Deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), sobre a declaração de que se lixava para a opinião pública quando defendeu o deputado do castelo.

Lula diz que senadores "são bons pizzaiolos"

Em retaliação, oposição rejeita indicação do Planalto para a ANA; constrangidos, governistas encerram a sessão às pressas

Presidente afirma que CPI da Petrobras só interessa a "quem quer fazer Carnaval"; oposição se diz ofendida com as declarações de Lula

Ao chamar os senadores de oposição de "bons pizzaiolos", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a primeira crise com o Senado após a instalação da CPI da Petrobras. Dizendo-se ofendidos, vários oposicionistas foram ao plenário para dizer que está dentro do Planalto o forno que assa as pizzas.

Em retaliação às declarações do presidente, o Senado rejeitou por 30 votos a 20 a recondução do diretor da ANA (Agência Nacional de Águas), Bruno Pagnoccheschi. "É falta de maturidade nossa. O justo não deve pagar pelo suposto pecador", reclamou a senadora Marina Silva (PT-AC), que trabalhou com Pagnoccheschi na época em que esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente.

Temendo mais derrotas, os governistas adiaram para agosto a apreciação de outras indicações e encerraram a sessão às pressas. Constrangidos, os aliados de Lula tentaram minimizar o que a oposição chamou de ridicularização. A líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (PT-SC), não falou nada.

O presidente da CPI da Petrobras, João Pedro (PT-AM), reagiu com bom humor: "Eu nem sei fazer pizza". Já o líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), disse em nota que a declaração de Lula "é uma frase infeliz que não expressa o que o presidente efetivamente pensa e o respeito que tem por esta Casa e pelos senadores".

"Carnaval"

Ontem, após a posse do novo presidente da Embrapa, Lula foi questionado sobre a CPI da Petrobras e partiu para o ataque. Disse que a CPI é interessante para quem "quer fazer um Carnaval": "Para quem quer investigar seriamente era preciso ter outro mecanismo. Acontece que a Petrobras é a maior empresa brasileira, a empresa de maior projeção nacional, tem ações na Bolsa".

Ele argumentou que a oposição, no governo FHC, queria privatizar a Petrobras: "A turma que até pouco tempo queria privatizá-la passou a defendê-la" -numa referência indireta ao PSDB e ao DEM. Questionado então se a CPI da Petrobras ia "acabar em pizza temperada com pré-sal", o presidente respondeu: "Todos eles [senadores] são bons pizzaiolos".

Antes, Lula já havia dito que no Senado só tem "espertos", pois os "bobos" não são eleitos: "O Senado só tem gente experiente. Você acha que tem algum bobo no Senado? O bobo é quem não foi eleito. Os espertos estão todos eleitos. Eu aprendi com o Ulysses Guimarães: uma vez falei pra ele que tinha muita gente que não sabe de nada. E ele me disse: "Os que não sabem de nada são suplentes. Ninguém é eleito à toa"".

Despreocupado

Apesar das críticas à oposição, Lula disse que hoje não está preocupado com a investigação, mas com o marco regulatório do petróleo no pré-sal.

"Minha preocupação agora não é com a CPI. Minha preocupação é que me entreguem daqui a dez dias o novo marco regulatório da Lei do Petróleo por causa do pré-sal. Quero anunciar ao Brasil qual será o novo marco regulatório e quero mandar para o Congresso as mudanças na lei que são necessárias. Enquanto a oposição grita, eu trabalho", declarou.

Até a instalação da CPI, terça-feira, Lula fez de tudo para enfraquecê-la. Primeiro, tentou miná-la por meio dos líderes de sua base no Congresso e do ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais). Sem sucesso, conseguiu emplacar no comando da comissão dois aliados: João Pedro (PT-AM) na presidência e Romero Jucá (PMDB-RR) na relatoria.

Coração Ateu – autora: Sueli Costa

Canta: Maria Bethânia

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quarta-feira, 15 de julho de 2009

PENSAMENTO DO DIA - Gideon Rachman

Quando a União Soviética entrou em colapso, em 1991, rapidamente se tornou óbvio que a URSS nunca havia sido um país no sentido próprio. Era um império multinacional reunido pela força. Será que um dia diremos a mesma coisa da China?


(Gideon Rachman - Fonte: Finantial Times, 14 de julho.)

Engenheiro de obra desfeita

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente do Senado, José Sarney, abriu mão da divisa de respeito conquistada como condutor do primeiro governo civil da transição democrática em sua passagem pelo Palácio do Planalto, entre março de 1985 e janeiro de 1990.

O que fez pela democracia lá, Sarney desfaz agora, ao transformar o Senado Federal em quintal do Palácio do Planalto. Ao mentir a seus pares, ignorar o desejo da maioria e impor ao colegiado a presença de um presidente cuja figura - por justiça ou contingência - sintetiza o pior da política brasileira, José Sarney desrespeita a instituição.

Menospreza a independência do Parlamento, se deixa tutelar pelo Poder Executivo, abre as portas do Congresso para a interferência oficial do presidente da República e, portanto, agride a Constituição e afronta a própria essência do regime democrático que anos atrás ajudou a reconstruir.

Por aquela contribuição perdoaram-se seus malfeitos biográficos. A fim de não incorrer no pecado da condenação por crime de opinião, não incluamos entre eles seu apoio ao regime militar. Fiquemos, pois, no gosto pela política patrimonialista e no desastre da política econômica atrelada a interesses eleitorais.

Mesmo saído da Presidência da República tão rejeitado que sequer pôde atuar no processo da própria sucessão, Sarney recuperou-se e por anos se manteve à tona graças ao reconhecimento de sua obra de tolerância em prol da democracia.

Numa época em que ainda se ouviam com nitidez os roncos da reação, em que a memória da censura e a ação da mão pesada do poder pertenciam a um cotidiano familiar, de Sarney se falou de tudo e mais um pouco. Mas, do presidente, não se ouviu nem viu um só gesto que pudesse ser interpretado como a mais leve ameaça ao mais contundente dos adversários.

Com esse capital, o José Sarney da boa conduta democrática se sobrepôs e sobreviveu ao Sarney das velhas práticas. Atravessou o período delicadíssimo da Constituinte numa condução politicamente impecável.

Deu espaço à consolidação da relação promíscua Legislativo-Executivo sob a égide do lema "é dando que se recebe". Mas não o fez sozinho nem por vontade exclusiva. Teve parceiros poderosos, muitos dos quais celebrados em postos de honra para a eternidade.

Nunca, porém, interferiu no processo. Mesmo, conforme alertou à época, considerando que muitas das decisões dos constituintes tornariam o Brasil ingovernável. Em boa medida, estava coberto de razão. Nem por isso invocou a parceria da força, ainda relativamente viva em vários setores. Nos quartéis, inclusive.

Deixou que a democracia seguisse o seu destino, aos trancos e barrancos, mais erros que acertos.

No fim da carreira, contudo, achou por bem inverter a equação. Entrega o Senado na bandeja à Presidência da República. Não importa que a força agora venha das ruas e não das Armadas.

O fato inquestionável é que José Sarney patrocina o aprofundamento do desequilíbrio entre os Poderes que, não obstante não ter sido por ele inventado, poderia ter sido limitado por ação de consciência democrática.

Há 25, 30 anos, o presidente José Sarney aceitou a evidência: era menor que o País, que o projeto de transição engendrado por um conjunto de forças capitaneado por Tancredo Neves e, de acordo a circunstância, se conduziu.

Agora, o senador José Sarney, talvez pela urgência e premência da falta de tempo, transforma suas agruras individuais em sinuca coletiva.

A maioria dos partidos da Casa por ele presidida pediu que se licenciasse quando apareceram as primeiras denúncias envolvendo gente nomeada por ele para a cúpula administrativa do Senado.

A quase totalidade dos senadores passou a desejar sua renúncia depois que as acusações o atingiram pessoalmente.

E Sarney - que até por dever dos ofícios já prestados, teria um nome a zelar -, simplesmente ignora a posição e o constrangimento de seus pares e se esconde sob as asas do presidente da República, ao modo de um Renan Calheiros qualquer.

Vê seu destino ser decidido em reunião de ministério, assiste a bancada do PT ser enquadrada como se de delegação popular não dispusesse, enxerga perfeitamente o obstáculo que representa a que o Senado ao menos tente dar uma virada, e nada faz além de pensar em si.

Que o presidente Luiz Inácio da Silva não veja o cenário sob uma ótica institucional, sabe-se desde que o PT por ele comandado recusou-se a avalizar todas as ações de avanço nos últimos anos - da transição com Tancredo à estabilização da moeda, passando pela Constituinte.

Mas de José Sarney, pelo passado ora tão invocado e celebrado, era se esperar uma compreensão mais elaborada da História e uma visão mais aprimorada da democracia no Brasil.

CONCEITO DE ÉTICA

Determinados integrantes fazem do Conselho de Ética do Senado uma contradição em termos.

Enquanto seu lobo não vem

Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O PT, em São Paulo, arma-se de argumentos às vésperas de, provavelmente, ter que engolir mais um sapo intragável. Acredita o partido que é devedor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em cuja popularidade pode buscar seu único lenitivo para manter o poder. Sabe que não tem, no momento, um candidato a presidente em melhores condições de sucesso que a candidata imposta por Lula, e aceitou facilmente a opção presidencial por Dilma Rousseff. No jogo parlamentar e relações políticas fora do plano federal, porém, imaginava preservar ideias próprias e alternativas para contrapor-se ao que lhe fosse apresentado como prato feito. É o que tenta fazer.

Depois do humilhante enquadramento da bancada no Senado, obrigada a apoiar o flechado presidente da Casa, senador José Sarney, em nome da preservação dos que usaram a maior estatal brasileira como instrumento de política partidária, aqui denominada de "governabilidade", o PT sabe que o desconforto seguinte será a imposição ao partido do apoio a um candidato não petista ao governo de São Paulo.

O deputado Ciro Gomes já preparou todos os requisitos para transferir domicílio eleitoral e ser candidato em São Paulo, mas tem dito que nada definiu sobre a que se candidatar, nem se vai mesmo disputar. Está ganhando tempo para conquistar a adesão do PT e é este produto que boa parte da cúpula acredita estar sendo embrulhado no Palácio do Planalto para enviar ao partido.

A discussão interna que o PT de São Paulo promove, no momento, é que a candidatura Ciro Gomes em SP poderia até ser lançada, mas pelo seu partido, o PSB, sem substituir a candidatura petista. A votação dos partidos do bloquinho e a do PT se somariam para levar algum candidato da aliança lulista ao segundo turno.

O que emerge da argumentação de cúpula são numerosas razões para que o PT não abdique da candidatura própria ao governo, mesmo que não tenha nenhum nome previamente favorito. A força do PT no Estado é uma dessas razões e seria desperdiçá-la não lançar um candidato. O partido avalia que já venceu na capital. Tem o comando de prefeituras em muitas cidades importantes. Quando foi candidato ao governo, o senador Aloizio Mercadante, com escândalo de armação do falso dossiê contra adversários e tudo o mais, teve 35% dos votos na disputa de 2006. Pergunta-se o PT: Vai conseguir transferir isto para algum aliado? Vai jogar fora?

Outro argumento: As pesquisas qualitativas apontam ao partido que o eleitorado quer "o novo", ou seja, um candidato sem o desgaste dos que têm sido historicamente candidatos. Além disso, gostaria agora o eleitor de saber, de quem pede o seu voto, não apenas o que o candidato fará, mas o que já fez. Neste quesito, acredita o partido poder apresentar duas candidaturas com grande potencial: Emídio de Souza, prefeito de Osasco, com um trabalho de gestão já realizado, e Fernando Haddad, ministro da Educação.

O partido atribui às pesquisas quantitativas, hoje, uma desimportância total para as decisões pois, segundo análises produzidas internamente, elas estão apenas registrando o recall dos candidatos. Por isto não importa se Emídio, por exemplo, aparece com 3%. José Genoíno, quando foi candidato ao governo, começou com 3% e terminou com 22%; Marta Suplicy começou com 3% e terminou com 18%.

Tanto Emídio quanto Haddad enquadram-se no critério do "novo", aquele de quem o eleitor ainda não enjoou. O PT acha que entre seus adversários, inclusive no principal deles, o PSDB, não existe um que não esteja exaurido. Não seria hora, portanto, de perder a oportunidade de aumentar o eleitorado cativo do PT.

A argumentação partidária prossegue com a afeição que a militância tem pelo partido, seu enraizamento popular nas camadas mais pobres e a necessidade de ter um candidato que possa mobilizar isto, contagiar, fortificar a relação com os diretórios, acender a rede de campanha eleitoral. Neste ponto, os dois candidatos que atendem às exigências de novo e realizador se distanciam. Emídio continua a ter força nas avaliações, mas Haddad, não. Sua relação com o partido é fria, encabulada, apolítica. Segundo análise de um integrante da cúpula, esta seria a razão de, a cada tentativa de ressurreição de seu nome para alguma candidatura, os ânimos se arrefecerem com uma rapidez espantosa.

Ficou notório, no PT, seu desempenho na definição e anúncio dos municípios que receberiam Escolas Técnicas: simplesmente baixou uma lista e impôs sua própria geopolítica. Não dividiu a idéia, a decisão, os louros.

O melhor candidato, mesmo, segundo avalia o PT, ainda é o deputado Antonio Palocci. Acredita-se ser ele o único capaz de reunir todas as qualidades expostas ao mesmo tempo: representa o novo, teve experiência de gestão bem sucedida no Ministério da Fazenda, contagia a militância, tem relações com os diretórios e, principalmente, é capaz de ampliar o eleitorado do PT, levando ao partido conservadores que nunca votaram com ele mas apreciam o governo Lula, de que Palocci é considerado "a cara". Sim, porque para o PT será importante que o candidato tenha a cara do governo Lula.

Há, na cúpula partidária, quem defenda que Palocci já deveria estar em campanha há muito tempo, encerrando mais cedo esta fase de recuo em que se colocou para esperar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre o crime de quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. "Palocci está encolhido, não se movimenta, não vai a reuniões", queixa-se um dos políticos do comando que gostaria de vê-lo consolidar a candidatura.

Na argumentação do PT, uma candidatura própria também daria ao governo condições excepcionais para tentar melhorar a votação de Dilma Rousseff no Estado. A eleição em São Paulo, segundo esta avaliação, exigirá do governo federal uma estratégia específica, bem delineada, principalmente para divulgar o que faz no Estado que, segundo registram no PT, é infinitamente mais e melhor do que parece.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Valores

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - A seção brasileira do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) informa que o próximo relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil terá como tema "valores". O tema surgiu de uma pesquisa que envolveu 500 mil brasileiros, a partir da pergunta "O que deve mudar no Brasil para sua vida melhorar de verdade?".

As respostas majoritárias foram: respeito, justiça, paz, ausência de preconceito, humanidade, amor, honestidade, valor espiritual, responsabilidade e consciência -conjunto de conceitos afinal reunido no tema "valores".

Surpreso com esse tipo de preocupação em um país tão escandalosamente macunaímico? Até o coordenador do relatório, Flávio Comim, se diz surpreso, mas atribui o resultado ao fato de que, pela primeira vez, esse tipo de pesquisa continha uma pergunta aberta, com o que "as pessoas falaram o que quiseram".

Para mim, o resultado é absolutamente surpreendente. Juraria que, fora um punhado de indignados, uma parcela importante, talvez majoritária, dos brasileiros tivesse incorporado exatamente o oposto, ou seja, a ausência de qualquer tipo de respeito a valores do tipo honestidade, responsabilidade e consciência.

Está todo mundo cansado de saber que a corrupção, o trambique, a cara-de-pau, não são uma exclusividade dos políticos. Com perdão por recorrer a um desgastado lugar-comum, cristalizou-se a ideia de que o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, como dizia antiga propaganda de cigarro.

Vai ver que o brasileiro cansou da esculhambação. Talvez tenha percebido que a esperteza, no fim do dia, come o esperto. Vai ver descobriu que quem suborna o guarda da esquina ganha bem menos do que quem suborna gente mais graúda.

Tomara. Aguardemos o relatório do IDH em 2010.

Depois da crise

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO

A OCDE tem um bom diagnóstico sobre o Brasil com boas e más notícias: o país não passou incólume pela crise internacional, mas está superando o momento bem melhor do que inúmeras economias, graças a reformas e mudanças que foram feitas ao longo dos últimos anos. Mas o governo está aumentando demais os gastos correntes e as despesas públicas não são eficientes.

Esse, em resumo, é o relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre o Brasil. O longo documento, divulgado pelo próprio secretário-geral, Angel Gurría, tem muitos dados, mas todos mostram que o nível da carga tributária, despesas sociais, e custo do governo são muito mais altos do que de outros emergentes e têm dimensão às vezes próxima de países ricos.

Entrevistei Gurría, em Brasília, para a GloboNews, e ele disse que espera que o país faça a reforma tributária. Elogiou os princípios da reforma do governo que é a unificação de impostos sobre valor agregado e simplificação: — O sistema tributário brasileiro é complexo, pesado, difícil de entender e permite práticas predatórias entre estados. Precisa ser simplificado. Eu espero que o governo aprove a reforma que propôs.

Eu expliquei que o governo não tem demonstrado muito empenho para que a proposta seja aprovada. Ele disse esperar que o governo mude a atitude porque a redução do peso dos impostos sobre a economia é fundamental.

A OCDE continua com a previsão de -0,8% para o PIB brasileiro deste ano. Isso é muito pior do que o governo está prevendo, que é +1%, e pior também do que a média do mercado, -0,34%. Mas para Gurría, um mexicano, o que é -0,8%? Nada! Seu México natal está tendo queda de 7% do PIB este ano.

Nos corredores da TV, conversamos mais e ele disse que até no México, o pior passou: — Essa queda já não reflete o que está acontecendo, isso foi a profundidade do impacto que houve na economia no último trimestre de 2008 e começo de 2009. A queda chegou no primeiro trimestre a 24% em termos anualizados.

O México exporta manufaturados para os EUA e foi exatamente nesta área que a crise foi mais forte. E além disso teve a gripe suína.

Quando a gente ouve um mexicano falar, fica realmente mais calmo em relação à crise no Brasil. Com o comércio mais diversificado, economia mais dependente do mercado interno, o Brasil teve uma queda forte porque estava crescendo a 5% e sofreu uma retração de 1,8% no primeiro trimestre. Mas a situação definitivamente não está nem mexicana, nem russa.

Conferi com Gurría a tabela das previsões da OCDE.

A Rússia, que estava crescendo a 7%, vai cair 7% este ano. Ele define o que acontece por lá como “queda livre”.

A Irlanda também teve queda semelhante: — Os pacotes fiscais foram enormes e estão tirando o mundo da crise.

O Brasil deve crescer 4% em 2010, e, pela OCDE, neste segundo semestre já estará retomando o crescimento.

O problema do Brasil detectado pela Organização é mais permanente: o da ineficiência do gasto público. A OCDE não fala por falar. Ela tem feito comparações como o PISA, um teste de desempenho dos estudantes. O Brasil tem sempre números sofríveis, apesar de ter um gasto público na educação em linha com o de inúmeros países onde a educação é muito mais eficiente. O relatório, apesar de citar todas as medidas de curto prazo tomadas pelo Banco Central e pelo governo contra a crise atual, joga luz sobre o crescimento sustentável de longo prazo, que tem sido o maior desafio nos últimos anos. O primeiro capítulo tem um título sugestivo: “Olhando além do desafio da crise financeira e econômica global, em direção ao crescimento sustentado”.

De acordo com o texto “para retomar o forte desempenho dos últimos anos não há espaços para complacência”.

Nem fiscal, nem de metas de inflação. Foi por isso que falando na coletiva em que lançou o documento, em Brasília, Gurría propôs que o país comece a reduzir as metas de inflação para 2011. O governo tem se mostrado satisfeito em eternizar a taxa de 4,5% ao ano, quando a média dos países desenvolvidos é muito menor.

Entre os conselhos que dá ao Brasil é que o país tenha um marco regulatório para a exploração de petróleo. As últimas notícias, no entanto, não são encorajadoras. O governo está anunciando uma alteração da forma de exploração saindo do leilão de concessões, que tem a vantagem da transparência e da escolha objetiva, para o opaco sistema de partilha que é o favorito do chavismo. O documento se limita a aconselhar que o marco regulatório seja feito com clareza e rapidez porque o atraso pode atrapalhar a atração de novos investimentos.

Para Angel Gurría, os resultados que sairão nos próximos dois trimestres serão bem melhores do que os dos últimos dois, mostrando o movimento de saída do pior da crise econômica. Inclusive os novos números da OCDE para os países que compõem o grupo são melhores do que os que foram feitos na última previsão.

Mas, mesmo quando a crise passar, os desafios para o Brasil continuarão existindo.

Foi esse olhar por cima e para além da crise que ele quis incentivar ao vir para o Brasil. Ontem mesmo ele já voltou para Paris.

O que significa controlar a Receita?

Elio Gaspari
DEU EM O GLOBO


O ministro Guido Mantega seguiu o tom de um governo que defende a blindagem das cavalariças do Senado em nome da governabilidade: decidiu fritar a secretária da Receita Federal, Lina Vieira. Logo ela, que reagiu ao festival de incentivos aos sonegadores votados pela bancada governista no Congresso, dizendo que “o bom contribuinte se sente um otário”.

Pelas contas do Ipea, os otários estão preferencialmente no andar de baixo. Quem ganha até dois salários mínimos é um otário de primeira e trabalha 197 dias por ano para pagar seus impostos. Quem ganha mais de 30 salários mínimos é otário de segunda e rala 106 dias. O grande sonegador ganha perdões e parcelamentos.

Otário será quem acreditar que Lina Vieira “não controlou a Receita”.

Isso não é motivo de demissão, mas de homenagem. Controlada, a Receita vira balcão. Os auditores fazem seu serviço de acordo com a lei e as normas do serviço. Se ela foi frita porque não aceitou algumas propostas de controle, o caso está mais para a jurisdição do Código Penal do que para as leis tributárias.

Otário será quem acreditar que a demissão de Lina Vieira deveu-se a uma queda na arrecadação. Se a atividade econômica do país contraiu-se e o governo conjura a crise com redução de tributos, o lógico seria uma queda na arrecadação de tributos.

Será otário também quem acreditar que Lina Vieira fez algo de errado ouvindo o sindicato dos auditores para a preenchimento de postos de chefia. O Unafisco, ao contrário do sindicato dos pipoqueiros, reúne servidores do Estado que chegaram à Receita por concurso público. Com oito mil associados na ativa, agrupa 95% da categoria.

Ao contrário do que sucede com o sindicalismo palaciano, suas eleições têm mais de 70% de comparecimento e nos últimos dez anos alternaram vitórias da situação e da oposição. Por 85% a 15% os auditores vetaram a associação do Unafisco a qualquer central sindical. Mais: abundam exemplos de diretores da guilda que deixaram suas funções sindicais e retornaram ao chão das repartições. Pode-se reclamar do gosto que o Unafisco tem pelas greves (uma a cada dois anos), mas deve-se reconhecer que foi ele quem mordeu os calcanhares da quadrilha aninhada na cúpula da Receita. A primeira denúncia aconteceu em 1995 e em 2008 um magano foi demitido e outro, destituído.

Durante os últimos meses a secretária da Receita recebeu poderosas sugestões para nomear os superintendentes em Porto Alegre, Curitiba e Fortaleza. Não atendeu. Se tivesse atendido, o governo passaria pelo constrangimento de justificar a indicação de afilhados de empresários, ministros e governadores para funções técnicas.

Se a Receita de Lina Vieira foi aparelhada politicamente, como é que se explica a fiscalização da contabilidade da Petrobras dos doutores Sérgio Gabrielli e Almir Barbassa? Em matéria de aparelhamento, a Petrobras é uma universidade. Aparelho não incomoda aparelho. Se o ministro Guido Mantega contrariou-se com essa fiscalização, não deve contar para ninguém, pois o sentimento comprometerá sua biografia.

No pior cenário, é possível que Lina Vieira tenha ido para a frigideira porque não controlou a Receita. Falta definir “controle”.

Lula: Elogios para Collor

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Lula, Dilma e Collor afinados

PALMEIRAS DOS ÍNDIOS (AL) – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua candidata à Presidência, a ministra Dilma Rousseff, dividiram ontem o palanque com o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL) no lançamento da primeira obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Alagoas, uma adutora em Palmeira dos Índios. Lula tratou Collor e o senador Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado e que não estava presente, como aliados: “Quero aqui fazer justiça ao comportamento do senador Collor e do senador Renan, que têm dado uma sustentação aos trabalhos do governo no Senado”, discursou Lula.

A afinidade entre Collor e Lula não se limitou aos discursos. Após a cerimônia, escondidos atrás de outros participantes, o senador e o presidente se abraçaram e trocaram sorrisos. O petebista, entretanto, não teve direito a fala durante a cerimônia. Mas ganhou uma cadeira ao lado de autoridades. Ao ser anunciado, o senador Alagoano foi aplaudido e, em resposta, acenou e simulou abraços.

Apesar do clima de campanha, o presidente Lula disse que não falaria de eleições, mas afirmou que vai eleger seu sucessor. “Está chegando o ano eleitoral, não posso falar de eleição. Eu vou ajudar a eleger minha sucessora. Ou sucessor neste País.”

Pré-candidato ao governo de Alagoas, Collor tinha sua foto estampada na primeira página de um jornal distribuído no evento, em que ele era citado como candidato apoiado por Lula. O governador Teotônio Vilela (PSDB) foi vaiado três vezes, o que quase aconteceu com Dilma, mas por motivo diferente: o palanque era em Palmeira dos Índios, cidade conhecida do Estado, mas a ministra trocou o nome mais de uma vez e citou Palmeira das Missões, que fica no Rio Grande do Sul.

Nos discursos, Lula voltou a criticar seus antecessores: “Na verdade, ao invés de se governar, fazia-se a política da camaradagem, dos amigos”, disse, ao reclamar do tratamento que, segundo ele, era dado pelo Planalto a adversários políticos: “Até outro dia, presidente da República que pertencia a um partido político não visitava governador de outro partido. Presidente não faria obra para os que pertencessem a outro partido”.

Dilma também discursou, exaltando o PAC, sua principal bandeira para as eleições do ano que vem: “No Brasil se diz que o PAC estava no papel. Não é verdade. São obras que ocorrem com um grande esforço do presidente Lula. O Brasil voltou a superar obstáculos”, disse ela.

Em Maceió, Lula inaugurou obras de revitalização da orla. Em clima de campanha, a estrela foi Dilma, aplaudida sempre que seu nome era citado. Lula, ao final, chamou a atenção para que se evitasse o tom eleitoral. “É importante que a gente entenda um ato público como um evento institucional, em que não tem partido, não tem candidato. Daqui a pouco tem um juiz abrindo processo dizendo que tem campanha política para A ou B”, disse Lula.

NOTA DO BLOG
Mais atos de Macunaíma. Veja outras matérias, abaixo

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Na Comunicação, com críticas à imprensa

DEU EM O GLOBO

Em análise para colegas ministros, Franklin Martins diz que oposição se alimenta da mídia e vice-versa

BRASÍLIA. Na reunião ministerial de anteontem, o ministro da Secretaria de Comunicação, Franklin Martins, apontou a imprensa como uma das responsáveis pela repercussão apenas de atos da oposição durante a crise do Senado.

Em sua análise, Franklin afirmou que a oposição perdeu o discurso político, e que, por isso, concentra sua atuação no Senado, numa tentativa de colar a crise daquela Casa no governo.

Segundo relatos de ministros que participaram da reunião, Franklin adotou um tom de análise conjuntural em toda a sua apresentação para os demais ministros. Disse que a imprensa dá divulgação muito grande à crise política parlamentar, especialmente ao noticiário sobre o Senado.
A principal crítica do ministro foi concentrada na oposição, que estaria perdida e, segundo ele, apostando na crise como uma bandeira política.

Quando fazia essa análise, Franklin afirmou, segundo relatos, que “a oposição se alimenta da imprensa” e que “a imprensa se alimenta da oposição” na crise do Senado. Apresentando números de que o governo tem 80% de aprovação e que a avaliação ruim/péssimo não chega a 10%, disse que o Senado tornou-se o único lugar que a oposição tem para reverberar suas ações.

É no Senado, disse, ainda conforme relatos de presentes na reunião ministerial, que estão os principais líderes do PSDB e do DEM, e que é ao noticiário de lá que a imprensa tem dado ampla divulgação. Ele ainda fez um alerta de que a oposição tenta grudar a crise no governo.

Franklin foi escalado para fazer uma apresentação sobre a conjuntura política do país. Ele e o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, ficaram responsáveis por esse tema.

Ministros avaliaram que, ao falar sobre uma área que é de outro ministro, ele consolidou o seu espaço de um dos principais conselheiros políticos do presidente Lula. Outro colega de governo disse que o espaço de Franklin é crescente no governo.

Ele começou a sua apresentação mostrando que o governo está num bom momento e que o Brasil seria um dos primeiros países a sair da crise econômica financeira internacional.

Segundo essa versão, o ministro afirmou que essa tempestade internacional quebrou o último dogma do adversário: a de que o governo Lula só havia surfado com a economia internacional favorável, e que não saberia enfrentar a adversidade.

Para Franklin, Lula soube aproveitar a crise para sair fortalecido e ocupar espaço no cenário internacional. Em sua avaliação, a crise fortaleceu o discurso de Lula na capacidade de intervenção do Estado na economia. E que isso deve servir de discurso para rebater a oposição, que, na avaliação do Planalto, tem criticado o governo com argumentos de que há uma explosão nos gastos e inchaço da máquina.

Segundo participantes da reunião, o ministro disse ainda que a crise no Senado é um reflexo da falta de discurso da oposição, que com isso “cria muvuca” e ganha espaço na mídia. O presidente Lula fez sinal de que concordava com Franklin, e, numa intervenção, acrescentou: a oposição teve os seus três momentos de “15 minutos de fama”. De acordo com Lula, foram no escândalo do mensalão, na derrubada da CPMF, e, agora, na crise do Senado. Para o presidente, isso revela falta de rumo da oposição.

Procurado pelo GLOBO, o ministro Franklin Martins não retornou.

NOTA DO BLOG:
Assim falou o assessor de Macunaíma.

Esta noche me enborracho - Carlos Gardel

Vale a pena ouvir

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http://www.youtube.com/watch?v=Wg1v_ksyjOs

Lula faz campanha ao lado de Collor

Clarissa Oliveira, Palmeira dos Índios
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Aos abraços, eles esquecem o passado

O presidente Lula elogiou generosamente o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB) ontem, em Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas. Ao lado da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseft, disse que fará tudo para eleger sua "sucessora", logo retificando a expressão para "sucessor". Esquecendo o fato de terem sido inimigos políticos dos mais ferozes, Lula e Collor trocaram sorrisos e abraços.

""Quero fazer justiça ao Collor"", diz Lula, ao elogiar ex-presidente

Após viajarem juntos no Aerolula, eles dividem palanque como aliados, em nada lembrando inimigos de 1989

Em visita à cidade de Palmeira dos Índios, interior de Alagoas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou generosamente o ex-presidente da República e atual senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Agradeceu o apoio que tem prestado ao governo no Congresso e chegou até mesmo a comparar seu nome ao do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Sorrindo e trocando abraços, após terem viajado juntos no avião presidencial, o Aerolula, nada neles lembrava o fato de já terem sido inimigos políticos, dos mais ferozes. Logo no primeiro evento da agenda que cumpriram em Palmeira dos Índios, a inauguração de uma adutora, Lula disse: "Quero fazer justiça ao senador Collor e ao senador Renan, que têm dado sustentação ao governo em seu trabalho no Senado."

Renan Calheiros (PMDB-AL), que foi derrubado da presidência do Congresso em 2007, em meio a um escândalo envolvendo um lobista, não estava presente para agradecer. Permaneceu em Brasília, ajudando o amigo José Sarney (PMDB-MA), também ameaçado de perda do cargo.

Minutos depois, Lula voltou a elogiar Collor. Ao falar sobre sua afinidade com o povo nordestino, o presidente citou Kubitschek e incluiu Collor na equação. "Não era habitual neste país os presidentes percorrerem o Brasil. Além do Collor, que é de Alagoas, o único presidente a vir aqui foi Juscelino Kubitschek", afirmou.

Ainda em Palmeira dos Índios, o principal jornal da cidade circulou com a manchete "Presidente Lula da Silva apoia Collor de Mello para o Governo de Alagoas".

A manchete pode indicar apenas que Collor já está em campanha. A aproximação cada vez maior entre ele e o presidente, Lula, porém, é sintomática, sinalizando o grau de pragmatismo e a conveniência que define alianças políticas no governo.

Conta a história que Collor chegou à Presidência, na primeira eleição pelo voto direto que o Brasil realizava desde 1960, após ter dito na campanha que seu opositor, o ex-líder sindical Lula, mergulharia o País num "banho de sangue", caso fosse eleito. Às vésperas da eleição, ele veiculou imagens de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, dizendo que o petista havia pedido a ela que fizesse um aborto, num episódio considerado por muitos como decisivo para a derrota do PT.

Lula, por sua vez, identificava Collor com as oligarquias políticas mais atrasadas do País. E, dois anos após a eleição, o PT foi um dos líderes da campanha pelo impeachment de Collor, cujo governo naufragou em meio a uma interminável série de escândalos de corrupção.

Depois da inauguração no interior, os dois viajaram para Maceió, para outro evento. E Lula voltou a mencionar o arqui-inimigo.

Collor não falou em nenhum dos dois eventos. Quem não economizou elogios ao presidente Lula foi o governador Teotônio Vilela Filho, que, por sinal, é do PSDB.

Colaborou Ricardo Rodrigues

Collor e Renan têm dado sustentação ao governo no Senado

Odilon Rios* e Luiza Damé**
Maceió E Palmeiras Dos Índios (AL)
DEU EM O GLOBO


Em Alagoas, Lula divide palanque com ex-presidente, a quem diz querer fazer justiça

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua candidata à Presidência, a ministra Dilma Rousseff, dividiram ontem um palanque com o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTBAL) no lançamento da primeira obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Alagoas, uma adutora em Palmeira dos Índios. Ao lado deles, também estava o governador tucano Teotonio Vilela. Lula tratou Collor e o senador Renan Calheiros, líder do PMDB no Senado e que não estava presente, como aliados: — Eu quero aqui fazer justiça ao comportamento do senador Collor e do senador Renan, que têm dado uma sustentação muito grande aos trabalhos do governo no Senado — discursou Lula.

Apesar do clima de campanha, o presidente disse que não falaria de eleições, mas afirmou que vai eleger seu sucessor.

— Está chegando o ano eleitoral, não posso falar de eleição. Eu vou ajudar a eleger minha sucessora. Ou sucessor neste país.

Pré-candidato ao governo de Alagoas, Collor tinha sua foto estampada na primeira página de um jornal distribuído no evento, em que ele era citado como candidato apoiado por Lula. Teotonio foi vaiado três vezes, o que quase aconteceu com Dilma, mas por motivo diferente: o palanque era em Palmeira dos Índios, cidade conhecida do estado, mas a ministra trocou o nome mais de uma vez e citou Palmeira das Missões, que fica no Rio Grande do Sul. Houve ensaio de vaias, mas elas não aconteceram.

Dilma compara Lula a Graciliano Ramos

Nos discursos, Lula voltou a criticar seus antecessores: — Na verdade, ao invés de se governar, fazia-se a política da camaradagem, dos amigos — disse, ao reclamar do tratamento que, segundo ele, era dado pelo Planalto a adversários políticos: — Até outro dia, presidente da República que pertencia a um partido político não visitava governador de outro partido. Presidente não faria obra para os que pertencessem a outro partido. Assim, o Brasil sofria o desmazelo dos eleitos. O Bolsa Família era chamado de esmola. Quem fala isso não precisa do Bolsa Família.

Dilma também discursou, exaltando o PAC, sua principal bandeira, ao lado do Bolsa Família, para as eleições do ano que vem: — No Brasil se diz que o PAC estava no papel. Não é verdade. São obras que ocorrem com um grande esforço do presidente Lula. O Brasil voltou a superar obstáculos — disse ela, que comparou Lula ao alagoano Graciliano Ramos, prefeito de Palmeira dos Índios na década de 20. — Precisava vir um outro nordestino para que a vida do povo começasse a mudar.

O lançamento da primeira obra do PAC em Alagoas aconteceu no estádio do CSE, um clube de futebol, para uma multidão de sem-terra, agricultores, funcionários públicos municipais e estaduais, donas de casa, prefeitos e políticos da região. A obra de abastecimento de água abrange quatro cidades e custou R$ 75,7 milhões.

Em Maceió, onde inaugurou obras de revitalização da orla da capital alagoana, Lula voltou a reunir um palanque eclético, com adversários históricos, usineiros e políticos de variados matizes ideológicos. Lula dividiu novamente o espaço com Collor e Teotonio, além do usineiro e ex-deputado João Lyra, o deputado Augusto Farias (PP-AL) e o prefeito de Maceió, Cícero Almeida (PP).

Em clima de campanha, a estrela foi Dilma, aplaudida sempre que seu nome era citado. Lula, ao final, chamou a atenção para que se evitasse o tom eleitoral.

— É impor tante que a gente entenda um ato público como um evento institucional, em que não tem partido, não tem candidato, porque senão a coisa não funciona. Daqui a pouco tem um juiz abrindo processo dizendo que tem campanha política para A ou B. Nós temos momento de governar e temos momento para disputar campanha — disse Lula.

No início do ato, o prefeito rasgou elogios a Lula e à ministra, pré-candidata à Presidência da República em 2010. Disse que Lula fará o sucessor e que torce para que seja Dilma.

— Chegou a vez das mulheres. Tomara que seja ela, porque ela é o braço direito e esquerdo da administração pública — afirmou Almeida.


Obra é contestada por MP de Alagoas

A ministra apenas sorriu, mas o público, de cerca de 500 pessoas, aplaudiu.

Dilma fez um discurso técnico, sobre obras federais em Maceió, mas com recheio político. Ao falar de saneamento, afirmou que o governo não está preocupado só com a cara, mas também com o coração das cidades.

No fim, agradeceu pelas manifestações de solidariedade por causa do câncer linfático, detectado em abril.

A obra inaugurada ontem, que custou R$ 5,6 milhões, é contestada pelo Ministério Público Federal de Alagoas.

A procuradora Niedja Kaspary deverá propor uma ação civil pública porque a prefeitura não cumpriu sugestões do MP em relação ao projeto, como padronização das barracas da orla.
NOTA DO BLOG:
Mais um ato da peça Macunaíma, o herói sem cárater, em plena campanha eleitoral.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A África é aqui

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - É triste verificar que pedaços da exortação à África feita no sábado pelo presidente Barack Obama se aplicam ao Brasil, sem necessidade de reescrevê-los. É a própria essência do discurso que vale para o Brasil ("a África não necessita de homens fortes, necessita de instituições fortes").

Vale também a sua definição de que, "no século 21, instituições transparentes, capazes e confiáveis são a chave para o sucesso -parlamentos fortes, forças policiais honestas, juízes independentes, uma imprensa independente, um setor privado vibrante, uma sociedade civil".

"São essas coisas -disse ainda o presidente- que dão vida à democracia, porque é o que importa na vida cotidiana das pessoas."

Temos instituições transparentes, capazes e confiáveis? Só o mais ufanista dos ufanistas dirá que sim.

Temos um parlamento forte?

Não parece exagero dizer que os ativos do Brasil neste princípio do século estão mais, muito mais, na sociedade civil do que nas instituições públicas.
É claro que há, sim, juízes independentes, mas alguém aí é capaz de jurar que o Judiciário é transparente, capaz e confiável?

Do que se trata é de instituições fortes, não de personalidades de exceção em um panorama que, no geral, é bastante medíocre.

Construir instituições fortes é a tarefa que o Brasil precisa começar a executar com a maior urgência.

Passou a fase de redemocratização, vencida aliás com certo garbo. Passou a fase de estabilização da economia, igualmente superada com competência, depois de décadas em que a inflação parecia ser uma característica tão permanente do país como o sol ou a lua.

Não é missão para um só partido, um só poder, um só pensamento.

Tampouco é tarefa simples. Mas é começar já para poder deixar de ser mero mercado emergente e se tornar uma nação decente.

Faltam 3 milhões de empregos

Jean Maninat
DEU EM O GLOBO

Nas ruas da América Latina a crise econômica se define sem ambiguidade: desemprego.

De fato, em 2009 a região deveria criar mais de 3 milhões de postos de trabalho somente para recuperar os níveis do ano anterior.

Mas isto não vai ocorrer.

O grande desafio das economias latinoamericanas frente à crise é produzir empregos. Trata-se de apagar os rastros mais profundos que esta recessão nos deixa, a que golpeia as pessoas e suas esperanças. Além disso, os postos de trabalho são cruciais para restabelecer o consumo e apoiar o círculo virtuoso da recuperação.

Agora que começaram a ser detectados sinais de que a crise poderia ter chegado ao fundo, ou que, ao menos, tenha amainado, esse desafio é ainda mais urgente: segundo estudos da OIT, as crises afetam de maneira instantânea o emprego, mas, quando a recuperação chega, isto demora muito a notarse nos mercados de trabalho. Poderíamos conviver com esta falta de oportunidades de trabalho por mais cinco anos, com ou sem crise.

Quem busca esses milhões de empregos na região? Já sabemos que um número importante de pessoas perdeu o trabalho devido à crise. Além disso, deve-se levar em conta que a cada ano entre 3 e 4 milhões de pessoas se incorporam aos mercados de trabalho regionais, principalmente jovens, para os quais esta crise traduzse em falta de expectativas.

A turbulência que vivemos agita o mundo dos indicadores. As retificações são frequentes. Em todo o caso, os últimos dados disponíveis nos falam de um crescimento negativo em torno de 1,7 por cento na região latino-americana.

Este é o final de um ciclo positivo de cinco anos de crescimento e de queda no desemprego cuja taxa (urbana) agora poderia subir dos 7,5% registrados em 2008 para algo entre 8,7% e 9,1% em 2009, de acordo com um cálculo realizado conjuntamente pela Cepal e pela OIT.

Isso significa que entre 2,8 e 3,9 milhões de pessoas poderiam somar-se às filas de desemprego, que no ano passado já afetava quase 16 milhões de latino-americanos.

Quando se fala de postos de trabalho, atrás dos números sempre há pessoas.

Neste caso, esses números são um insumo poderoso para justificar que as políticas econômicas desta região coloquem a geração e preservação de postos de trabalho como seu objetivo fundamental. Isso, que parece óbvio, nem sempre é assim. Durante anos os esforços se concentraram em outros indicadores, assumindo que o mercado de trabalho reagiria automaticamente, o que, com frequência, não aconteceu. No momento atual, já não existe espaço para essas experiências.

Enfrentar esta crise laboral é a meta fundamental do Pacto Mundial para o Emprego, aprovada por governos, empregadores e trabalhadores de todo o mundo na reunião anual da OIT em Genebra.

Este pacto é um compromisso de buscar o caminho mais adequado com o objetivo de gerar postos de trabalho, redirecionando investimentos, investindo recursos para estimular a economia real, pondo em prática políticas para que as empresas sejam sustentáveis, protegendo as populações mais vulneráveis, recorrendo ao diálogo social para obter acordos, entre outras recomendações.

Na América Latina existem vários países onde se começou a trilhar este caminho. Mas é fundamental não perder de vista o objetivo de gerar trabalho decente, de converter os planos em ações e não nos desviarmos do caminho. Se não tivermos êxito, os que buscam emprego se sentirão frustrados e decepcionados, o aumento da pobreza será notório, a saída da crise poderá ser imobilizada e tudo isto poderia afetar a governabilidade democrática.

Jean Maninat é diretor regional da Organização Internacional do Trabalho para a América Latina e o Caribe.

Atropelado pelos fatos

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma a uma, desde as primeiras denúncias ainda no início do ano, o presidente do Senado, José Sarney, perdeu todas as chances que lhe foram dadas para tomar providências e, por demonstração de iniciativa, assumir o controle na administração da crise que assola a Casa.

Negou as evidências, contemporizou com toda sorte de irregularidades, fugiu de suas responsabilidades, anunciou ações inócuas, escorou-se na força política do presidente da República, fez vista grossa a chantagens contra adversários, desconversou o quanto pôde.

Tanto deixou de fazer e por tantas vezes e com tamanha imprudência pôs à prova a própria credibilidade que, junto com as oportunidades de agir, perdeu também a autoridade e a majestade.

Agora é alvo de diversas representações no Conselho de Ética e está em vias de se tornar refém de uma tropa de choque composta por suplentes sem voto, gente de vida pregressa contestada na Justiça e de má fama junto à opinião pública.

Tropa convocada especialmente para impedir que tenha o mandato cassado por quebra de decoro parlamentar.

Nesse quadro é que o presidente do Senado decidiu anular os 663 atos secretos editados ao arrepio do princípio constitucional da publicidade, aplicado a toda ação de natureza pública, cuja existência ele mesmo negara e, depois, atribuíra a meros "erros técnicos".

A despeito da opinião de vários senadores, que defenderam a posição publicamente, Sarney, com o aval da Mesa Diretora, preferiu o estratagema de regularizar a ilegalidade mediante publicação dos atos com data retroativa à época da assinatura. Entre os "direitos" dos beneficiados e o Estado de Direito, a direção do Senado optou por ferir o juramento de cumprir a Constituição.

O recuo de ontem não tem o valor da convicção, porque foi pautado pela necessidade individual de sobrevivência. O respeito à Constituição teria, sim, ficado estabelecido como a real motivação se a anulação tivesse sido ordenada de imediato, por uma questão de princípio.

Tal como se valeu da prerrogativa agora - independentemente de resultados de sindicâncias, pois não são elas que determinam a ilegalidade de atos validados à revelia da lei - o presidente do Senado poderia, e deveria, tê-la invocado a tempo de preservar a própria credibilidade.

Agora, o senador José Sarney não corre, como se diz equivocadamente, atrás do prejuízo. Isso ele fez quando se dispôs a presidir o Senado pela terceira vez, na ilusão de encerrar a carreira política ainda na posse do poder de mobilizar poderes na República.

Constatado o erro de cálculo, Sarney corre mesmo é atrás de obter algum benefício para se distanciar o máximo possível do imenso malefício autoimposto e que o levou ao caminho do declínio humilhante.

Uma tentativa de recuperação de fôlego. Suficiente para organizar a saída, nessa altura já inexorável, mas à qual Sarney gostaria muito ver registrada na companhia do adjetivo "honrosa".

Quartel de Abrantes

Continua tudo como dantes na seara tucana, no que tange à sucessão presidencial. O governador José Serra continua sendo o candidato do PSDB, cuja cúpula continua achando que o melhor plano é a composição partidariamente unitária com o governador Aécio Neves de vice.

A filiação de Itamar Franco ao PPS e, consequentemente, sua integração à aliança de oposição à candidatura patrocinada pelo Palácio do Planalto, é um fator facilitador. O desejo de Itamar de concorrer a uma das vagas de Minas Gerais ao Senado "empurra" Aécio para mais perto da solução puro-sangue.

Itamar tem, por isso, recebido homenagens antes inimagináveis. Como a série de citações ao nome dele na sessão solene no Senado em comemoração aos 15 anos de Plano Real. Nem um só senador tucano se esqueceu de dividir com ele a paternidade do plano.

Lembrança recente, quando passou a ser eleitoralmente conveniente, já que o crédito dado a Itamar jamais ultrapassou o limite do mérito pela nomeação de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Fazenda.

A boataria sobre a possibilidade de Serra desistir da Presidência e disputar a reeleição por ora é só uma boataria.

Muitíssimo conveniente ao governador de São Paulo que, assim, obtém uma série de vantagens: alivia a pressão dos aliados para entrar em campanha desde já, mantém alto o prestígio de Aécio Neves como possível candidato, reduz a tensão no campo adversário inibindo o início da temporada de ataques e assegura visibilidade às ações administrativas do governo do Estado.

No momento, José Serra não está em dúvida. Se resolver disputar mais um mandato de governador, terá sido uma mudança de posição decorrente não de um dilema do presente, mas de uma alteração das chances reais de vitória, situação que só será examinada de verdade em 2010.

Preço alto

Marcos Nobre
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

DESDE O PRIMEIRO governo FHC, o eleitorado decidiu colocar o PT como um dos polos da política brasileira. Depois do trauma do mensalão, em 2005, Lula decidiu aceitar as regras do jogo postas por seu antecessor. Só que o PT não estava disposto a se tornar um gestor político de tipo tucano e terceirizou a tarefa -para o próprio Lula, no caso.

O arranjo -de psicologia política, por assim dizer- foi então mais ou menos o seguinte. Posto de joelhos depois do mensalão, o PT engoliu tudo o que um Lula em pânico do impeachment lhe enfiou goela abaixo. Ao mesmo tempo em que pôs nas costas de Lula todo o ônus por fazer o jogo mais rés-do-chão da política tradicional, o PT escorou-se na popularidade do presidente e se colocou como vítima fiel do seu necessário pragmatismo da governabilidade.

Afinal, do outro lado estavam os inimigos. E, apesar de tudo, ainda havia espaços de poder para implementar algumas das bandeiras tradicionais do partido. E, não menos importante, o presidente é o mais popular da recente história democrática. Negócio bom para os dois lados.

Até que Lula resolveu inventar uma candidata quase três anos antes da eleição presidencial, instalando uma confusão no sistema político como raras vezes se viu. Impôs sem discussão o nome ao PT.

Insistindo em um nome desconhecido, Lula deu a senha para o PMDB cobrar -e conseguir- um preço cada vez mais exorbitante pelo seu apoio. Que, aliás, vale só tempo de TV e olhe lá.

Quando foi anunciada a doença de Dilma Rousseff, subiu mais uma vez o preço. A irresponsabilidade máxima de Lula de dizer que a ministra "não tem mais nada" teve como contrapartida política nada menos do que a imposição ao PT da defesa de Sarney.

É verdade que, entre outras malfeitorias, a bancada do PT no Senado -com honrosas exceções- tinha já no seu currículo a salvação de Renan Calheiros da cassação.

Mas 2007 já vai longe. E a defesa de Sarney agora não vai passar em brancas nuvens para o eleitorado em 2010.

Foi por isso que Lula teve de intervir e cobrir o presidente do Senado com seu manto de popularidade redentor. Um pedido, aliás, do próprio PT para poder fazer vista grossa para a baixaria generalizada -de que não escapam integrantes da sua própria bancada no Senado, lembre-se.

Hoje, o PT só vai conseguir manter a pretensão de continuar a ser um dos polos da política brasileira se confrontar Lula. Porque sua posição no momento é a de pagar por Lula a conta da chantagem a que o próprio presidente decidiu se expor. E a conta não vai parar de subir.

Um símbolo sob suspeita

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O governo encontrou a fórmula para instalar a CPI da Petrobras, impedir que ela funcione e ainda assim não desafiar o Supremo Tribunal Federal (STF), que já consagrou em jurisprudência: a instalação de comissões parlamentares de inquérito é um direito da minoria.

Se dependesse só do governo, do PT e dos partidos aliados, a CPI não seria instalada. Mas não houve quem demovesse o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) da ideia de recorrer ao Supremo. Consultado informalmente, o STF respondeu por gestos e sinais de fumaça que atenderia o pedido da oposição.

No histórico das CPIs, descobriu-se que a dos Correios (mensalão) foi instalada pelo decano dos seus integrantes (à época o senador Jefferson Peres, morto em 2008), mas só depois de algum tempo começou a funcionar efetivamente, com a eleição do presidente e a designação do relator
Consultado, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) descreveu como se deu todo o processo protelatório que culminou com uma eleição entre ele e o senador César Borges, do Democratas.
Vencedor, coube a Delcídio, como presidente, designar o relator da CPI - Osmar Serraglio (PMDB-PR).

A ideia agora é que o senador Paulo Duque (o decano dos senadores indicados) convoque a reunião, mas não se faça a eleição de presidente e a designação do relator. Isso ficaria para depois do recesso, e o funcionamento da CPI passaria a depender então do clima político de agosto.
Trata-se de um mês que não carrega boas lembranças para a política brasileira, mas o governo está confiante na política de redução de danos que traçou enquanto se discutia a instalação da CPI, lá se vão dois meses desde o requerimento de Dias.

O Palácio do Planalto se preparou para o confronto, mas também manteve discretos contatos com os mais importantes líderes da oposição, particularmente do PSDB. Na área dos patrocínios, como aquele feito à Fundação José Sarney, o "banco de dados" governista, como diria a ministra Dilma Rousseff, também está pronto.

Num levantamento preliminar, descobriu-se que a Petrobras fez menos patrocínios no governo Lula do que durante o período de governo tucano - o que é óbvio, pois a comparação é de oito anos (FHC) com seis anos e meio (Lula). Pode pegar algum deputado do PT? Pode, mas sem causar maior estrago político, segundo se crê nos meios próximos ao presidente Lula.

O governo insiste que o caso de Sarney é exemplar: a Petrobras fez um contrato com uma ONG de um ex-presidente da República, nos termos da legislação (Lei Rouanet), e que nunca poderia imaginar que o dinheiro pudesse ser desviado.

O governo entra em "alerta amarelo" se a CPI, caso seja instalada, passar a se imiscuir em contratos, sobretudo internacionais, de modo a tirar vantagem eleitoral. Para este caso, está prontinho um discurso nacionalista de defesa da estatal. A idéia é deixar a oposição em maus lençóis, como deixou Geraldo Alckmin nas eleições de 2006, quando encurralou o candidato tucano com a acusação de que ele, eleito, venderia Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Petrobras.

Aliados do governo dizem que só quem já trabalhou na estatal tem noção do que é a Petrobras no inconsciente do brasileiro. O governo imagina que organizações da sociedade civil como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Associação Brasileira de Imprensa (ABI) sairiam às ruas em defesa da empresa, por exemplo, na hipótese de um contrato internacional não vir a ser assinado - ou suspenso - por causa da CPI.

Em termos políticos, as conversas com os partidos da oposição levaram o governo a crer que a CPI não lhe interessa. Um cacique tucano foi advertido de que eventuais contratempos contratuais da Petrobras cairiam no colo de seus candidatos a presidente, seja ele José Serra, governador de São Paulo, ou Aécio Neves, o governador de Minas Gerais.
Das conversas com aliados e oposição, emissários do governo saíram convencidos de que é mais fácil o PMDB querer instalar e fazer funcionar a CPI para poder negociar posições melhores no governo e na eleição de 2010.

A Petrobras também pressionou fornecedores e prestadores de serviços que costumam financiar as campanhas não só dos candidatos do governo, como também os da oposição.

Quando entra numa conversa com a oposição, o governo sabe que ela terá de mostrar alguma coisa a seu eleitorado, de modo a não parecer que recuou ou que foi derrotada. Provavelmente a cabeça de algum diretor da estatal

Como as denúncias são na área do gerente executivo de Comunicação Institucional da Petrobras, Wilson Santarosa, setores do governo imaginam que ele é "o cara". A Petrobras não quer, mas nunca antes a estatal esteve tão na defensiva como agora.
No que se refere a Sérgio Gabrielli, presidente da estatal, o Planalto não admite sequer que ele sente no banco da CPI. Resta saber com quantos tanques conta a oposição e o que espreita no horizonte o PMDB: a instalação da CPI pode significar o início do fim do governo Lula ou o começo de outro ciclo do PT na Presidência.

Salto alto

O PT se preocupa com o desassombro de Lula. Está certo que os índices de aprovação do presidente são inéditos, à esta altura do governo, quando beiram os 80% da opinião pública. Mas isso não deveria implicar, na opinião de líderes partidários, que ele deixasse de se precaver e tentar não se expor tanto em algumas situações embaraçosas.

Exemplo citado: Lula não tem nenhum cuidado na defesa que faz do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Talvez por se achar blindado por seus índices de popularidade. Petistas acham arriscada a postura do presidente porque interpretam que muitas das denúncias contra Sarney, como a de empregar familiares no Senado, bateram fundo na população.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Sentimento do mundo

Rubens Barbosa
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Nos últimos 50 anos, os Estados Unidos foram vistos como a "nação líder do mundo livre", por muitos que aceitavam essa liderança, ou como "imperialista" - impondo a sua vontade, escorada no poderio econômico, financeiro ou militar -, segundo os que contestavam a hegemonia de Washington.

O arrogante unilateralismo norte-americano, respaldado pela mais poderosa máquina de guerra jamais construída e pelas vantagens da globalização financeira, econômica e comercial, fez os Estados Unidos perderem a credibilidade e o respeito no concerto das nações, ao longo dos últimos dez anos.

Isolados, os Estados Unidos passaram a concentrar críticas quase universais e tiveram de absorver os custos de uma guerra impopular no Iraque, além do desgaste, sobretudo, em razão das posturas ideológicas de extrema direita adotadas por um dos piores governos da história política norte-americana. Ao mesmo tempo, a situação econômica interna continuou a se deteriorar e os múltiplos déficits na economia, a aumentar. A crise que hoje tanto afeta os mercados no mundo inteiro surgiu nos Estados Unidos, que, abalados econômico-financeira e politicamente, lutam para controlar a recessão e diminuir o desemprego e as perdas da classe média.

O esforço para recuperar a economia pôs em segundo plano as preocupações do país com sua política externa, tornando difícil que os Estados Unidos possam exercer, nos dias de hoje, uma liderança efetiva para a solução de alguns dos principais conflitos globais. Os grandes problemas ou se agravam, como no Paquistão, no Irã e no conflito Israel-Palestina, ou se paralisam, como nas reformas das instituições político-financeiras, herança do pós-guerra, como a das Nações Unidas, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

Apesar de tudo, os Estados Unidos continuaram no centro dos acontecimentos globais.

É curioso notar o teste por que passa a teoria, comum nos meios políticos e acadêmicos norte-americanos, segundo a qual o mundo, para se manter estável e avançar economicamente, necessitaria sempre da liderança do país mais importante e poderoso da época, como foi a Inglaterra e, agora, os Estados Unidos. Contestada pela recusa de muitos em aceitar a hegemonia de Washington, a comunidade internacional enfrenta o desafio de demonstrar que a teoria é equivocada e que grandes decisões podem e devem ser tomadas como resultado de um esforço coletivo, e não da vontade da mais poderosa das nações.

A ironia em tudo o que estamos vendo acontecer é que nunca, nos últimos 50 anos, a potência dominante se viu tão vulnerável e enfraquecida, enquanto a maioria dos países tanto dela depende para o fortalecimento da economia e para a busca de soluções negociadas para os principais problemas políticos, econômicos e financeiros globais.

Estamos num período de transição e de paralisia no cenário internacional - um mundo sem liderança -, em que países desenvolvidos e em desenvolvimento ficam à espera da recuperação da economia norte-americana para evitar uma recessão mais forte e da restauração da credibilidade de sua política externa. Temo que esse impasse ainda perdure pelos próximos dois ou três anos.

Nenhum país está equipado para assumir o papel de liderança desempenhado até aqui pelos Estados Unidos. Nem a China, a União Europeia ou os países emergentes.

Apesar de tudo e de todas as restrições políticas aos Estados Unidos, muitos governos estão ajudando o país a buscar soluções para a crise de sua economia. Os recursos - estimados em US$ 2 trilhões - necessários para financiar o déficit orçamentário americano no corrente ano estão sendo fornecidos, entre outros, por países como a China e o Brasil, não exatamente seguidores incondicionais de Washington.

Pode parecer uma afirmação difícil de aceitar por muitos, mas o fato é que, em certo sentido, jamais tivemos um mundo mais unipolar do que agora.

O mundo esperou ansioso pelos primeiros discursos de Barack Obama para entender os rumos da política externa dos Estados Unidos no tocante ao Oriente Médio, às relações com a Europa, com a América Latina, com a África, com a China e com a Coreia do Norte. Como será a atitude em relação aos extremismos (a palavra terrorismo não foi utilizada no pronunciamento do Cairo sobre a relação com o Islã) e à não-proliferação de armas nucleares?

A volta do crescimento econômico, a restauração do crédito internacional, a revitalização do comércio global, a questão do nacionalismo econômico e o protecionismo comercial na área econômica, a reestruturação do processo decisório global, político e econômico, financeiro e comercial, a forma de evitar novos conflitos externos e o equacionamento dos atuais, tudo depende da ação dos Estados Unidos. Seja ela positiva ou negativa.

Os países terão de encarar o papel dos Estados Unidos no mundo a partir de como eles emergirão da crise que está afetando todos e da reação de Washington às novas realidades políticas e econômicas. Como "o resto do mundo" vai reagir quando os Estados Unidos ressurgirem da crise relativamente ainda mais fortes?

Sabendo como os Estados Unidos colocam o interesse nacional acima de tudo, no momento em que a situação econômica se normalizar, a probabilidade é de que o poderio de Washington volte a ser exercido, com estilo e tom diferentes. Os sinais, até aqui, são positivos, como indicam as reações de Washington em relação ao Iraque, ao Irã e, agora, a Honduras. As propostas do USTR para a retomada das negociações de Doha e alguns aspectos da nova política sobre mudança de clima são mais negativos.

Tendo só duas mãos e o sentimento do mundo, esperemos que, diferente de Drummond, ao amanhecer de uma nova era pós-crise, "esse amanhecer não seja mais noite que a noite".

Rubens Barbosa, consultor de negócios, é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

Queda real

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira não caiu por apenas um motivo. O órgão já está sob intervenção da Secretaria Executiva do Ministério da Fazenda há muito tempo, e tem sido paulatinamente esvaziado. O caso Petrobras está se tornando um manual do que não se deve fazer no setor público do país. Nada disso será resolvido com a retirada da secretária.


A reclamação, que não foi feita publicamente, mas que chegou aos jornais, é que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estaria irritado com o fato de não ter sido informado do caso Petrobras antes que saísse na imprensa, já que ele é membro do conselho de administração da empresa. Ora, este era mais um motivo pelo qual a Receita não deveria mesmo ter comunicado nada ao ministro.

Se o fizesse, estaria consagrado que a Petrobras é um contribuinte diferente dos outros porque a Receita tem que consultar o ministro antes de tomar qualquer decisão a respeito; como Mantega também é membro do conselho de administração da estatal, a questão fica ainda mais delicada.

Exatamente por ter os dois chapéus, o ministro não deveria querer saber coisa alguma sobre a empresa.

A atuação da Receita Federal no caso Petrobras foi opaca, somente para usar uma palavra mais doce. Ela soltou uma nota deixando claro que condenava a opção da empresa pela mudança de regime tributário, mas depois disso nada mais fez.

Disse isso através de uma nota, que se seguiu à divulgação da reportagem do GLOBO sobre a redução do imposto em mais de R$ 4 bilhões pela mudança do regime fiscal. A empresa define como “erro técnico” dizer que ela deixou de pagar imposto; ela teria apenas se creditado por ter pago a mais no antigo regime fiscal.

Mas o que a Receita disse na nota divulgada na ocasião é que o contribuinte não pode fazer essa alteração no meio do exercício.

Se não podia, passou a poder, porque a Petrobras não foi chamada até hoje para se explicar; e agora a secretária caiu. Pior, como a declaração do Imposto de Renda Pessoa Jurídica foi adiada pela Receita — fato que não acontecia há mais de uma década — a Petrobras nem apresentou sua declaração.

Como, aliás, nenhuma empresa. Normalmente o prazo era 30 de junho.

Tudo o que se sabe até agora veio a público por meio de fontes oficiosas, porque oficialmente o Ministério da Fazenda não esclarece o que afinal de contas está acontecendo. Pode haver motivos para demitir um funcionário, mas demitilo pelo fato de ele — no caso, ela — não dar um tratamento privilegiado a um contribuinte como a Petrobras é espantoso.

A Receita está funcionando mal e isso não tem a ver apenas com a secretária que sai. Ela está sendo perigosamente politizada e esvaziada nos últimos anos. E fazer isso com o Fisco pode ser construir as bases de uma crise duradoura. Os auditores têm que ter ambiente para fazer seu trabalho; os técnicos têm que focar no mais importante que é arrecadar, em vez de dividir-se em grupos e facções com rivalidades alimentadas pelas próprias autoridades. E simplesmente o órgão não pode ser esvaziado por decisão de quem está na administração pública temporariamente.

A Receita Federal permanece lá e o país precisa que ela funcione corretamente, sempre.

A arrecadação tem caído porque a economia está sofrendo com a crise; porque têm sido concedidas muitas desonerações para os setores que têm mais poder de pressão; porque o comando da Receita Federal foi dividido e as ordens passaram a ser ambíguas.

Mesmo assim, há quem faça outras contas. Entrevistei o presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), Gilberto Luiz do Amaral, e o economista Alexandre Marinis, da Mosaico consultoria política, na semana passada pela GloboNews, e ambos disseram que a receita líquida do Governo Central não está em queda.

Receita líquida é a arrecadação que fica para a União depois do repasse feito a estados e municípios. Ela estaria se mantendo praticamente estável em termos nominais de 2008 para 2009, mesmo com a crise.

Gilberto Amaral afirmou que do ponto de vista da arrecadação da Receita, não há nenhum motivo para a saída de Lina Vieira. Pelo contrário, ela teria tentado implementar um programa de centralização da fiscalização.

Além disso, teve uma preocupação maior com o atendimento ao contribuinte nas delegacias do órgão.

— A queda da arrecadação da Receita está relacionada à crise econômica e não a problemas de gestão no órgão — afirmou.

Alexandre Marinis afirma que de janeiro a maio houve uma retração de apenas 0,2% em relação ao mesmo período do ano passado na receita líquida nominal do Governo Central: R$ 234,9 bi em 2008 contra 234,5 bi em 2009. A propósito, parte desse resultado é o aumento dos repasses de dividendos feitos pelas estatais. As contas públicas estão se deteriorando porque os gastos estão crescendo. Além disso, todas as previsões de arrecadação foram feitas a partir de um crescimento inflado do PIB deste ano.

Ontem, Mantega afirmou novamente que a economia vai crescer 1%, enquanto o mercado estima retração de 0,34%, como mostrou o Boletim Focus.

Mesmo que a mudança de regime da Petrobras tenha sido legal, ela não é usual e é um sinal de que a empresa está procurando todos os meios possíveis para fazer caixa. Como o governo está conseguindo manter sua receita líquida exatamente extraindo mais das estatais, todo esse imbróglio é no mínimo bizarro.

A Receita está em crise, o caso da Petrobras continua suspenso no ar. As perguntas continuam aguardando respostas.

Nada disso se resolve com a saída da secretária.

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