sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dilma resiste a assinar manifesto antiaborto

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Evangélicos querem que petista se comprometa por escrito a não enviar ao Congresso projetos que legalizem a prática ou o casamento gay

Vera Rosa

BRASÍLIA - A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, resiste a assinar uma carta assumindo o compromisso de não enviar ao Congresso projetos de lei que permitam a legalização do aborto e o casamento entre homossexuais. Evangélicos que se encontraram com ela e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, porém, cobram a promessa por escrito.

O comando da campanha petista avaliou ontem que, além de já ter divulgado um manifesto intitulado Carta ao Povo de Deus, em agosto, Dilma pode perder mais votos do que ganhar, ao se posicionar, por exemplo, contra o casamento gay.

Na Carta ao Povo de Deus, distribuída em templos e igrejas no primeiro turno, Dilma tentou se aproximar dos cristãos. "Cabe ao Congresso a função básica de encontrar o ponto de equilíbrio nas posições que envolvam valores éticos e fundamentais, muitas vezes contraditórios, como aborto, formação familiar, uniões estáveis (...)", escreveu ela. Além disso, Dilma já se comprometeu verbalmente a não mudar a lei que prevê o aborto em caso de estupro e risco de morte para a mãe.

A saída para o impasse, agora, será um documento de apoio à candidata escrito por pastores e políticos que integram a Frente Parlamentar Evangélica. Os signatários deixarão claro no texto que Dilma não vai interferir em questões religiosas, caso seja eleita para o Palácio do Planalto.

Nos bastidores, porém, a reunião de quarta-feira entre Lula, Dilma e evangélicos de 51 denominações dividiu o governo e o QG dilmista. O ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, um dos coordenadores da campanha, achava que o encontro era desnecessário e poderia criar ruídos. Na outra ponta, o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, incentivou a reunião.

Lula avalia que o comando petista não está conseguindo superar a agenda negativa do aborto e do casamento entre homossexuais. "Precisamos sair dessa pauta, ir para a rua", esbravejou o presidente, segundo relato de um de seus auxiliares. "Há muita hipocrisia nisso."

A preocupação com o impacto desses temas na campanha de Dilma é cada vez maior. Um dirigente do PT lembrou que a candidatura de Marta Suplicy à Prefeitura de São Paulo, em 2008, desandou de vez no segundo turno depois que homossexuais sentiram-se ofendidos com um programa de TV da petista. Nele, um locutor perguntava se o prefeito Gilberto Kassab (DEM) era casado e tinha filhos. Detalhe: o marqueteiro de Marta, hoje senadora eleita, também era João Santana, que agora assina a propaganda de Dilma.

Sensus dá Dilma e Serra em cenário de empate

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Pelo levantamento divulgado ontem, petista pode ter de 45% a 49%, enquanto o tucano estaria entre 41% e 45%

Daniel Bramatti


Pesquisa divulgada ontem pelo instituto Sensus atribui a Dilma Rousseff (PT) 47% das intenções de voto, contra 43% para José Serra (PSDB). Como a margem de erro é de dois pontos porcentuais, há situação de empate técnico, segundo o instituto.

Levando-se em conta a margem de erro, a candidata do PT pode ter de 45% a 49%, enquanto o tucano estaria entre 41% e 45%. O placar nos votos válidos (excluídos brancos e nulos) está em 52% a 48%.

A pesquisa, encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT), indica que, apesar da proximidade dos índices dos dois candidatos, a expectativa de vitória de Dilma é maior. Para 60% dos entrevistados, ela será a próxima presidente. Outros 29% acreditam na vitória de Serra.

Segundo o Sensus, 31% dos brasileiros assistiram ao menos em parte ao primeiro debate entre os presidenciáveis no segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes, no último domingo.

Para 15% dos entrevistados, a candidata petista se saiu melhor no confronto. Serra ganhou o debate na opinião de 12%. Não souberam responder à questão outros 69%.

Segundo o Sensus, Dilma tem praticamente o dobro das intenções de voto do adversário na Região Nordeste, onde lidera por 61% a 31%. No primeiro turno, a petista venceu em todos os Estados da região.

Na Região Sudeste, a que concentra o maior número de eleitores, há um empate técnico: 45% para o tucano e 43% para a petista. É no Sul que Serra atinge seu melhor resultado - tem 20 pontos porcentuais de vantagem (56% a 36%). O tucano também lidera no Norte/Centro-Oeste, por 46% a 41%, de acordo com o Sensus.

A divisão do eleitorado por faixas de renda mostra Dilma na liderança entre os mais pobres. Os que ganham até um salário mínimo preferem a petista por um placar de 53% a 37%. No outro extremo, entre os que ganham mais de 20 salários mínimos, Serra lidera por 70% a 15%.

O Sensus realizou 2.000 entrevistas em 136 municípios entre os dias 11 e 13 de outubro. O Estado arredondou os resultados do instituto, divulgados com uma casa após a vírgula.

Serra lidera entre os evangélicos

DEU EM O GLOBO

Ibope mostra tucano com 52% dos votos no grupo. Dilma tem 41%

Henrique Gomes Batista

A primeira pesquisa do Ibope no segundo turno, divulgada anteontem, mostrou que o candidato do PSDB conquistou grande parte do voto evangélico e católico no Brasil. Segundo a pesquisa, encomendada pela TV Globo e pelo jornal "O Estado de S. Paulo", José Serra tem a preferência de 52% dos evangélicos, contra 41% que dizem que vão votar em Dilma Rousseff (PT). Se comprar com a última pesquisa do primeiro turno, realizada pelo Ibope em 2 de outubro, o ex-governador de São Paulo mais que dobra sua intenção de voto no grupo: naquele momento, 25% dos evangélicos pretendiam votar no tucano, contra 41% dos que preferiam a petista - mesmo percentual de agora.

Dilma ainda lidera a preferência dos católicos (52% na última pesquisa, contra 50% no levantamento anterior), mas Serra cresceu fortemente: passou de 29% das intenções de votos na véspera do primeiro turno para 41% no último levantamento. No grupo que reúne adeptos de outras religiões, agnósticos e ateus, Dilma tem 47% das intenções de voto (era 42% em 2 de outubro) e Serra detém 41% (era cerca de 30% antes do primeiro turno).

A pesquisa Ibope também detalhou a religião dos eleitores. O levantamento indica que 61% da população se declaram católicas, 6% frequentam a Assembleia de Deus, 3% se declaram batista/metodista/presbiteriano. As igrejas Universal do Reino de Deus, Deus é Amor e Evangelho Quadrangular contam com 1% de citação cada uma. Outros 4% se declaram de outras igrejas evangélicas específicas, mas que individualmente não pontuaram, e 3% se declaram apenas evangélicos, sem especificar igrejas.

Entre as outras religiões, 2% são espíritas/kardecistas, 1% se declaram adventistas e 1% são testemunhas de Jeová. Outras religiões somam 1% do eleitorado captado pela pesquisa e 10% se dizem religiosos sem seguir nenhuma igreja e 3% se dizem ateus/sem religião.

O Ibope também aferiu que 2% do eleitorado receberam orientação dentro da igreja ou templo contra o voto em Dilma no primeiro turno. Metade deste eleitorado (1% no total) seguiu a orientação. Em outra pergunta, o instituto questiona se houve pedido de votos para algum candidato em cultos ou missas: 1% disse que sim, em favor da petista, e outro 1% em favor de Marina Silva (PV). De acordo com o Ibope, 10% do eleitorado vão à missa/culto diariamente e 35% ao menos uma vez por semana. A pesquisa indicou que 80% dos brasileiros são contrários à legalização do aborto.

Lula influi menos e 15% ainda podem mudar voto

O Ibope mostra ainda que a estratégia petista de diminuir a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha de Dilma tem apoio estatístico: 51% dos eleitores disseram que não vão levar em conta o apoio de Lula neste segundo turno, contra 42% que dizem preferir votar na candidata apoiada pelo presidente.

O levantamento ainda indica que 15% podem mudar de decisão sobre quem votar até 31 de outubro, contra 79% que disseram que já estão decididos. O Ibope indica que 22% do eleitorado recebem Bolsa Família e 5% são atendidos por farmácias populares ou distribuição de remédios. Outros 70% dos eleitores disseram que não recebem nenhum benefício social.

Especialistas preveem uma disputa acirrada

DEU EM O GLOBO

"A cada pesquisa, cada campanha terá de rever sua estratégia", diz Ricardo Ismael

Henrique Gomes Batista e Fábio Brisolla

Especialistas de diversos setores disseram ontem acreditar que a candidata do PT, Dilma Rousseff, viveu um dos seus piores momentos no início do segundo turno e que, por este motivo, a retomada da corrida ao Palácio do Planalto começou tão acirrada com José Serra (PSDB). Cientistas políticos, antropólogos, economistas e teólogos ouvidos pelo GLOBO concordam que a situação ainda está em aberto.

Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, diversos fatores contribuíram para a petista ter começado com uma margem pequena de vantagem nas pesquisas, no segundo turno:

- Dilma vinha de seus piores momentos no primeiro turno, em trajetória de queda. Esse mau momento continuou na primeira semana do segundo turno e até pode ter se agravado com a discussão moral e sobre o aborto.

Ele, entretanto, diz que ainda é cedo para dizer se a maré ainda está ruim para a petista. Diz que as quatro primeiras pesquisas divulgadas até agora - Datafolha, Vox Populi, Ibope e Sensus - refletem mais o clima da primeira semana, embora algumas tenham sido realizadas nos últimos dias, depois do debate da TV Bandeirantes e da postura mais agressiva da petista.

- Só na próxima rodada de pesquisas saberemos se Dilma continua caindo. De qualquer maneira, meu "feeling" indica que teremos uma disputa muito apertada até o final, e que, a cada pesquisa, cada campanha terá de rever sua estratégia - diz.

Ismael lembra que ela vinha perdendo apoio tanto entre as classes mais altas da população - por conta do caso Erenice Guerra - como nas camadas mais baixas, principalmente pela campanha religiosa. Eduardo Rosa Pedreira, doutor em teologia pela PUC-Rio e pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, concorda que as notícias sobre legalização do aborto afetaram parte do eleitorado:

- O perfil básico do evangélico influenciado por esse tipo de notícia é o majoritário. O evangélico típico não está preocupado com a postura ética do candidato, mas sim com sua postura moral. Por isso, você constata a existência de políticos que votam de acordo com a agenda moral evangélica, mas que são verdadeiros parasitas quando estão no poder. Prevalece uma mentalidade de gueto nesses casos. Esse grupo de evangélicos, sem dúvida, é influenciado por esse tipo de discussão (aborto) - disse ele, que defende que a igreja trate de política, como ocorre em outros grupos da sociedade civil, mas não da forma como está ocorrendo, puramente eleitoral.

Regina Novaes, antropóloga da UFRJ, concorda com o teólogo.

- Boa parte dos evangélicos é de pessoas das classes populares, que são mais influenciadas em questões polêmicas como o aborto. É possível que esses votos tenham ido para o Serra - acredita.
Mas ela minimiza o impacto no maior grupo religioso do país, os católicos:

- No caso do catolicismo, por ser a religião da maioria dos brasileiros, fica mais difícil perceber se a orientação religiosa teve peso, de fato, nas pesquisas. No caso dos católicos, o peso da religião é mais diluído.

Segundo a última pesquisa Ibope, Dilma e Serra estão empatados entre o eleitorado feminino, cada um com 46% das intenções de votos. Para Natália Mori, socióloga que integra o colegiado de gestão do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), a divisão do gênero na eleição demonstra que nenhuma candidatura debateu a fundo a questão das mulheres. Ele acredita que o fraco desempenho de Dilma entre as mulheres é uma herança do apoio de Lula:

- Historicamente, Lula foi menos apoiado por mulheres que por homens. Isso deve estar influenciando, além do fato de mulheres, também historicamente, decidirem seus votos mais próximo das eleições e do fato de que não há uma candidatura feminista, como era Michelle Bachelet, no Chile.

Para o economista Marcelo Neri, da FGV, as campanhas começam a "inverter papéis" neste segundo turno:

- Dilma quer agora se passar por Serra, mostrando-se uma boa gestora, e Serra quer tomar o discurso de Dilma, mostrando realizações que já fez. Mas esta eleição não está focada em temas econômicos, mas, sim, sociais - disse.

O novo resgate dos mineiros

DEU EM O GLOBO

A força do ex-governador e senador eleito Aécio Neves reuniu 450 prefeitos e líderes municipais em apoio a José Serra - muitos adeptos, no primeiro turno, do "Dilmasia”. Serra se disse "o mais paulista dos mineiros e o mais mineiro dos paulistas". Para contrabalançar o efeito Aécio, a coordenação da campanha de Dilma fez reunião ontem também em Minas.

Duelo em Minas

Aécio reúne reúne 450 líderes estaduais em apoio a Serra; Dilma desembarca lá amanhã

Adriana Vasconcelos


O ex-governador e agora senador eleito Aécio Neves voltou ontem a mostrar sua popularidade em Minas Gerais ao reunir cerca de 450 prefeitos, vice-prefeitos e líderes municipais - entre eles, representantes de partidos do governo Lula - em torno do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Em um megaevento na capital mineira, que lotou dois auditórios da Associação Médica de Minas Gerais, Aécio e Serra partiram para o ataque, sem poupar o PT e o presidente Lula. Amanhã, é Lula quem estará em Minas para pedir votos para Dilma Rousseff.

Aécio deixou claro que não perdoou a intervenção de Lula na disputa pelo governo mineiro. Ao agradecer a ajuda dos prefeitos na reeleição do governador Antonio Anastasia, disse que Minas "não se curva a intervenções" e disse que sua vitória só será completa com a eleição de Serra.

- Sempre que o PT teve de optar entre os interesses partidários e os nacionais, ficou com os partidários - afirmou, citando a oposição petista à eleição do ex-presidente Tancredo Neves, ao governo do ex-presidente Itamar Franco, ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal.

Mesmo reconhecendo avanços no governo Lula, Aécio acrescentou que parte dessas conquistas não teria acontecido sem os frutos deixados pelos governos anteriores, como os de Itamar e de Fernando Henrique. Serra não escondeu o entusiasmo: - Temos muita chance de vitória. A onda não é azul, nem vermelha, mas verde e amarela.

Tucano faz lista de obrigações com MG

Para reverter a vantagem de Dilma em Minas - estado com o maior número de municípios no país, 853 ao todo -, Serra seguiu um conselho de Aécio e assumiu o compromisso de não permitir mais que os recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) sejam reduzidos em razão de políticas de incentivos fiscais adotadas pelo governo federal.

- Minha proposta é que não seja dado incentivo sem que seja dada automaticamente a reposição das perdas dos municípios. O FPM deve ser o piso e não o teto - prometeu Serra, que agradou à plateia ao se comprometer a regulamentar a emenda constitucional 29, garantindo mais investimentos na saúde.

Enumerou compromissos com Minas, como a ampliação dos aeroportos de Confins e Pampulha, a retomada da construção do metrô de Belo Horizonte e a duplicação da BR-381 (considerada a rodovia da morte).

Itamar Franco, eleito senador, destacou que "Minas é o front da resistência ética do país". Havia dois carros de som e centenas de militantes com bandeiras com a frase "Minas é Serra". Maristela Kubitschek, filha do ex-presidente Juscelino Kubitschek, compareceu ao evento.

- Vim dar apoio formal da família Kubitschek a José Serra. José era o santo protetor da família, espero que o senhor seja o protetor da família brasileira - afirmou Maristela.

- Quero ser o mais paulista dos mineiros e o mais mineiro dos paulistas - prometeu Serra.

Como fazer 'Dilmasia' virar 'Serrasia'

DEU EM O GLOBO

BELO HORIZONTE. Uma das armas do ex-governador e senador eleito Aécio Neves (PSDB) para virar as eleições presidenciais em Minas é tentar transformar o movimento "Dilmasia" - que pregou no primeiro turno o voto casado em Antonio Anastasia (PSDB) para o governo estadual e Dilma Rousseff (PT) para a Presidência - em "Serrasia".

A articulação começou no feriado, quando Aécio ligou para vários prefeitos que pertencem à base de Dilma e os convidou para o encontro de ontem em Belo Horizonte, com a presença do presidenciável José Serra (PSDB).

Os 74 prefeitos do PR em Minas, partido que faz parte da coligação de Dilma, receberam o chamado. Pelo menos 25 compareceram, de acordo com a lista de presença do PSDB. Aécio convidou pessoalmente cerca de 28 prefeitos do PMDB eleitos por Minas. Treze ignoraram a coligação nacional do partido com o PT de Dilma e compareceram ao encontro com Serra.

- Estou seguindo o chamado do Aécio, meu parceiro. No primeiro turno, ele respeitou a aliança a favor da Dilma. Agora, o quadro é outro, estou com Serra - disse Ângelo Roncalli (PR), prefeito de São Gonçalo do Pará, onde Dilma teve 49% dos votos.

- A gente só trabalhou para eleger o Anastasia. Agora, com Aécio, vamos virar a situação em Minas - completou Zezé Porfírio (PR), prefeito de Pará de Minas, onde Dilma venceu com 40,5%.

Serra aposta em Aécio para se eleger

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidenciável tucano diz que colega mineiro é uma das figuras mais importantes da política e que será "presidente do Brasil um dia"

Eduardo Kattah e Malu Delgado

BELO HORIZONTE - Amparado pela liderança política do ex-governador Aécio Neves, o presidenciável José Serra (PSDB) deu demonstrações, ontem, de que aposta numa virada em Minas Gerais no segundo turno para eleger-se presidente da República. Aécio reuniu 398 prefeitos do Estado - de um total de 853 - em ato que em nada lembrava a apatia do primeiro turno.

Eleito senador por larga margem de votos, e tendo feito seu sucessor no Estado, Antonio Anastasia, Aécio comandou um encontro onde o engajamento pró-Serra e a farta distribuição de materiais de campanha deixavam evidente que a adrenalina era outra. Além de exibir a força política do ex-governador, a reunião revela a nova estratégia tucana: combater o chamado voto "dilmasia", que juntava Dilma Rousseff (PT) e Anastasia.

Orientado por Aécio, Serra assumiu um compromisso em relação ao Fundo de Participação de Municípios (FPM), sem mencionar aumento do porcentual de repasses a prefeitos. Ele também se autoproclamou um municipalista. "Minha proposta é que não seja dado mais nenhum incentivo (fiscal) sem que haja automaticamente a reposição aos municípios", disse Serra. A coordenação de campanha considera que os prefeitos, assim como foram fundamentais na virada de Anastasia, serão protagonistas numa eventual reversão do quadro em Minas no segundo turno.

No Estado, segundo colégio eleitoral do País, Dilma Rousseff teve uma vantagem de quase 17 pontos porcentuais sobre Serra (46,98% a 34,18%). Agora, os tucanos mineiros estão com os olhos voltados para os 21,25% dos votos válidos que Marina Silva (PV) teve no Estado. O PV é aliado de Aécio em Minas.

Novos painéis fotográficos em que Aécio e Serra se abraçam, sob o slogan "Minas é Serra, pelo Brasil", foram criados exclusivamente para o segundo turno. Prefeitos levaram ainda sacolas de adesivos, panfletos e outras peças para seus municípios.

"O mais mineiro". Bandeira de Minas nas costas, Serra disse à plateia, formada por prefeitos, vice-prefeitos, deputados e lideranças regionais: "Quero ser o mais paulista dos mineiros e o mais mineiro dos paulistas." Ao final do evento, o presidenciável assumiu a importância de Aécio para sua eleição: "Trata-se de uma das figuras mais importantes da política brasileira. É o homem que vai ser presidente do Brasil um dia. É o homem que vai me ajudar muito neste segundo turno em Minas e no Brasil." Aécio fez o ataque mais direto ao PT e ao governo federal. "O PT, sempre que teve que optar entre o interesse do Brasil e o interesse partidário, ficou com o interesse partidário", atacou o senador eleito, citando a posição petista contra o colégio eleitoral em 1985, contra o Plano Real e contra o governo de Itamar Franco. "A vitória completa da boa prática política, da seriedade e da eficiência na gestão pública, só existirá com a vitória de José Serra", prosseguiu.

"Como presidente eu vou estar ligado às prioridades do Estado. Os meus parceiros vão ser o governador Anastasia, os nossos queridos senadores eleitos Aécio Neves e Itamar Franco", discursou o tucano paulista, que desfiou inúmeros elogios a seus cabos eleitorais mineiros. Itamar, por exemplo, foi chamado de "exemplo de decoro".

"Falar para Minas". Em sua fala, Anastasia destacou: "Vamos dar o nosso sangue para ver José Serra presidente do Brasil." Depois, coube a Itamar Franco dar os mais diretos conselhos eleitorais a Serra: "É preciso falar para Minas, porque, se não falar para Minas, Vossa Excelência não ganhará essa eleição." E acrescentou: "Aqui foi o front da resistência. Aqui se resistiu porque o mineiro, acima de tudo, é ética e não é corrupto" - relembrando a vitória política do projeto de Aécio em Minas, derrotando os aliados do presidente Lula.

Num ato simbólico, o presidenciável tucano recebeu o título de "amigo de JK" e o apoio formal da família do ex-presidente Juscelino Kubitscheck. "José é o santo protetor da família. O senhor vai ser o santo protetor da família brasileira", afirmou Maristela, filha de JK.

Serra evitou fazer comentários sobre a ação petista de investigar, em São Paulo, contratos da Dersa com o governo do Estado feitos quando Paulo Vieira Souza, o Paulo Preto, era diretor da entidade. Os tucanos negam que Paulo Preto tenha atuado na arrecadação de recursos ou que tenha havido desvio de doações. "Estou agora evitando um bombardeio cerrado de comerciais negativos. Tudo coisa sem pé nem cabeça. Tem cada mentira que a gente deve dar um prêmio pela imaginação da mentira."

Centro-Oeste, Sul e Sudeste são aposta do comando tucano

Os tucanos pretendem reforçar a campanha onde o presidenciável do PSDB, José Serra, apresenta boa reação nas pesquisas de intenção de voto. A lógica é apostar nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, nas quais a campanha tucana teve o melhor desempenho no primeiro turno da eleição presidencial. Em relação ao Nordeste, o comando tucano acha que José Serra não conseguirá mudar o jogo. Avaliam que o teto do PSDB é no máximo de 35% dos votos.

Estados estratégicos do ponto de vista eleitoral, como Rio de Janeiro e Bahia, também receberão atenção especial. Na avaliação do comando do PSDB, nesses dois locais também haverá dificuldade para que o jogo seja revertido.A campanha no rádio e na TV continuará focando numa mensagem nacional, apesar de terem sido colocadas no ar propostas específicas para alguns Estados nos últimos dias.

'Temos uma tendência clara de vitória', diz Índio

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tiago Décimo

SALVADOR - O candidato a vice na chapa do tucano José Serra (PSDB), Índio da Costa (DEM), disse ontem, em Salvador, que as últimas pesquisas revelam uma "tendência clara de vitória de sua coligação". "A gente está indo muito bem na campanha", avaliou. "Como a gente tinha, lá na primeira pesquisa, 27% e a gente veio crescendo - já estamos em 40 e muitos -, temos uma tendência muito clara de vitória."

Na visita que fez à Bahia, Índio, acompanhado pelo deputado ACM Neto (DEM), o mais votado no Estado, com 328.450 votos, fez caminhada de uma hora pelo bairro popular de Pernambués e passeou pelo Mercado Modelo, um dos principais destinos turísticos de Salvador.

Lá, tirou fotos com populares, ouviu conselhos, arriscou passos de capoeira, chegando a fazer o movimento conhecido como estrela, e participou de uma rápida reunião com pastores de igrejas batistas, na qual criticou o que chama de "excessos" do Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos. "O PNDH-3 ameaça a liberdade religiosa e a liberdade de imprensa e garanto que com a gente não haverá nenhum tipo restrição religiosa ou à imprensa", disse. "Se já há tanta corrupção no Brasil com imprensa livre, imagine sem."

Ele aproveitou para cortejar lideranças políticas do PMDB baiano, ainda descontentes com o apoio explícito dado pela candidata petista à Presidência, Dilma Rousseff, ao governador reeleito Jaques Wagner (PT), em detrimento à candidatura do ex-ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima (PMDB), também integrante da base aliada do presidente Lula.

"Quero deixar um recado claro para o governador da Bahia e para todos os prefeitos do PT, do PMDB e dos outros partidos que apoiam Dilma: vamos tratá-los com o mesmo carinho e a mesma atenção que vamos dar a prefeituras e governos do PSDB, do Democratas e do PPS", disse.

Setores do PMDB desembarcam da candidatura Dilma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em meio à queda da petista nas pesquisas, diretório gaúcho decide recomendar [br]voto em Serra

Christiane Samarco

BRASÍLIA - Setores do PMDB lulista deram a partida na operação de desembarque da candidatura de Dilma Rousseff. Em meio à queda da petista nas pesquisas de intenção de voto, o diretório do PMDB do Rio Grande do Sul decidiu ontem, por maioria, depois de quatro horas de reunião, recomendar o voto no tucano José Serra.

Ao mesmo tempo em que algumas regionais do partido dão passos concretos em direção à Serra, líderes nacionais do PMDB que foram colocados de escanteio pela cúpula do PT na campanha de Dilma, ou atropelados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições estaduais, cruzam os braços no segundo turno.

Até o candidato a vice na chapa petista e presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP), tem revelado desânimo nos bastidores. A vários interlocutores, ele se queixou de que foi marginalizado pelo PT na campanha. "Me esconderam, e agora estão tentando reparar", disse a um correligionário, destacando que os petistas só pediram sua ajuda depois que "levaram um susto". O PT estava certo de que levaria a eleição no primeiro turno. Com Lula à frente, não precisavam de mais ninguém.

Ao mesmo tempo, a presença do presidente nacional do partido no posto de vice inibe a movimentação de peemedebistas descontentes e o sentimento de revanche dos que se sentiram traídos pelo PT nestas eleições.

Um deles foi o deputado Geddel Vieira Lima, que disputou o governo da Bahia. Ele disse ter perdido a eleição para Lula, e não para o governador reeleito Jaques Wagner (PT). Geddel já avisou que o rompimento entre PT e PMDB na Bahia não tem retorno. Seus interlocutores, contudo, não têm dúvidas de que ele vai cumprir o acordo nacional pró-Dilma. Mas avisam que o apoio será "formal" e que Geddel não perderá "um minuto de seu tempo" pedindo votos para a petista.

No Pará, o senador eleito Jader Barbalho (PMDB) é outro que deve reafirmar apenas apoio formal a Dilma. O PMDB disputou o governo local com candidato próprio e Jader deve anunciar, nos próximos dias, que o partido está liberado para votar em quem quiser no segundo turno, em que a briga é entre a governadora Ana Júlia Carepa (PT) e o ex-governador tucano Simão Jatene.

Na avaliação de um correligionário de Jader, liberar o voto significa, na prática, abrir caminho para a adesão à candidatura de Jatene. Como o tucano toca a campanha em conjunto com Serra, com o discurso de que "Dilma é a Ana Júlia do Brasil", a aposta geral é que a regional do PMDB também está prestes a desembarcar da candidatura de Dilma.

Um importante dirigente nacional do PMDB adverte que a situação de Dilma é grave porque a onda que afetou a popularidade da petista não é um problema de partidos nem de lideranças políticas, e sim de opinião pública. Segundo ele, a cúpula peemedebista identifica uma onda a favor de Serra, que "nem mesmo Lula" tem poderes para conter, PMDB gaúcho. Cerca de 500 peemedebistas, entre vereadores, prefeitos, delegados e representantes do diretório e da executiva estadual do PMDB do Rio Grande do Sul participaram da reunião que decidiu ontem pelo apoio da regional ao candidato a presidente do PSDB, José Serra. Depois de quatro horas de muito bate-boca, o plenário aprovou moção do diretório estadual recomendando o voto ao tucano.

A votação foi simbólica, por maioria esmagadora na proporção de quatro votos ao tucano, para cada um destinado à petista Dilma Rousseff. Apesar de o vice de Dilma ser o presidente do partido, deputado Michel Temer (SP), a decisão não surpreendeu. Já é tradição o PMDB gaúcho apoiar candidatos tucanos ao Palácio do Planalto. Foi assim nas duas eleições de Fernando Henrique Cardoso e nas candidaturas de José Serra, em 2002, e Geraldo Alckmin, em 2006.

Um peemedebista experiente que participou do debate avalia que a regional gaúcha abriu caminho para o "efeito manada", do PMDB rumo à candidatura tucana. Segundo ele, a queda da petista nas pesquisas de intenção de voto é determinante na definição dos rumos do partido.

FHC desafia Lula a debater 'cara a cara'

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

FHC: “Quero ver o presidente Lula, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil”

Em discurso inflamado para tucanos, ex-presidente classifica sucessor de 'mesquinho' e de mentir 'sem cessar' sobre o País que encontrou ao assumir mandato

Roberto Almeida

SÃO PAULO - Em sua mais contundente incursão na campanha tucana até agora, que incluiu a defesa de seu legado à frente do Palácio do Planalto, o ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, desafiou ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um debate "cara a cara" após o fim das eleições.

Diante de centenas de militantes do PSDB, em um hotel na zona norte da capital paulista, FHC pediu a Lula que, quando "perder o monopólio da verdade", vá ao instituto que leva seu nome, em São Paulo, para debater. "Presidente Lula, quando acabar as eleições, quando você puser o pijama, será bem recebido. Venha ao meu instituto, vamos conversar, cara a cara", bradou, em discurso inflamado.

O ex-presidente, dizendo-se alvo de mentiras, passou a defender suas gestões na Presidência (1994–2002). As cenas, gravadas por uma equipe da campanha do presidenciável tucano José Serra – que não esteve no evento –, devem ir ao horário eleitoral.

"Estou calado há muitos anos ouvindo. Agora quando o presidente Lula vier, como deve vir, como todo presidente democrata eleito, perder a pompa toda, perder o monopólio da verdade, está desafiado a conversar comigo em qualquer lugar do Brasil", disse FHC.

"Não é para conversar para dizer o que eu fiz, o que ele fez. Isso o povo vai julgar. É para ter firmeza, olhando cara a cara, um ao outro, e ver se um é capaz de dizer ao outro as coisas que diz", continuou o ex-presidente.

Como exemplo dos pontos que abordaria no debate com Lula, FHC citou o Plano Real, principal bandeira tucana, e disse que questionaria o petista sobre as responsabilidades pela estabilização econômica do País.

"Quero ver o presidente Lula, que votou contra o Real, que fez o PT votar contra o Real, dizer que estabilizou o Brasil. Ele não precisa disso. Ele fez coisas boas que eu reconheço. Ele agiu bem na crise atual, financeira. Para que, meu Deus, ser tão mesquinho? É isso que quero perguntar a ele: ‘Lula, por que isso, rapaz?’", bradou.

Aos militantes tucanos, o ex-presidente apostou na veemência para que seu nome, antes escondido nas campanhas, passe a ser defendido abertamente.

"Eu não tenho do que me arrepender. Eu mudei o Brasil. Eu nunca disse isso. Agora, oito anos depois do governo Lula (digo que) eu mudei o Brasil. Não mudei sozinho, mas com o povo brasileiro, com uma equipe de gente competente, com outros partidos. Tudo o que foi inovador foi plantado naquele período. Chega de ficar calado", afirmou FHC.

Privatizações. O ex-presidente elevou o tom e pediu "respeito" ao rebater nota divulgada ontem pelo presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, que o acusou de preparar a estatal para a privatização.

"Quem é esse Gabrielli pra falar isso pra mim, meu Deus? Eu mandei uma carta ao Senado para dizer que não privatizaria a Petrobrás. Eu perdi uma cátedra porque eu defendi a Petrobrás e fui processado", anotou FHC.

De acordo com FHC, a "politicalha" voltou avançar sobre a estatal após sua saída do governo. "Por isso, perdeu já 20% do valor de mercado sob a batuta dessa gente. O mercado, assim chamado, percebeu agora – custou – que tem ingerência política", anotou.

Ao final do discurso, o ex-presidente lembrou ainda a queda da ex-ministra chefe da Casa Civil, Erenice Guerra, acuada por denúncias de lobby no Planalto. "Não queremos um Brasil de preguiçosos, não queremos um Brasil de amigos do rei. nós não queremos um Brasil de companheiras tipo Erenice", anotou FHC, que pediu "apoio total" à candidatura de Serra.

Para Vargas Llosa, Lula tem conduta 'esquizofrênica' no governo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em visita ao Brasil após prêmio Nobel, peruano diz que postura democrática do presidente não se reproduz na política externa

Em sua primeira visita ao Brasil desde que foi agraciado com o prêmio Nobel de Literatura na semana passada, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, 74, chamou de "esquizofrênica" a conduta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no governo brasileiro.

"Lula fez evolução notável na política interna. Há no Brasil um desenvolvimento que impressiona o mundo inteiro, conduzido por posições democráticas admiráveis. O que lamento é que (ele) não tenha uma política internacional equivalente", disse Vargas Llosa, que criticou a relação que Lula mantém com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

"Lá (Irã) estão atirando pedras em mulheres adúlteras! Como (Lula) vai legitimar um tirano assassino que representa uma forma anacrônica de fanatismo? (...) Há razões políticas, geopolíticas, mas não há razão ética ou moral que justifique esse tipo de esquizofrenia na conduta de um governante", disse o peruano.

Ele ainda se disse "desconcertado, entristecido e indignado" com o encontro entre Lula e o líder cubano Raúl Castro em janeiro, quando o dissidente político cubano Orlando Zapata morreu em razão de uma greve de fome. "Por que um democrata no Brasil vai se abraçar com um ditador repelente como o sr. Castro no mesmo momento em que está morrendo um dissidente?"

Vargas Llosa falou nesta quarta-feira a funcionários do Grupo Abril, em São Paulo, em entrevista conduzida pelo jornalista Ricardo Setti.

Ao longo de uma hora, ele tratou da sua reação ao Nobel, da relação entre política e literatura e dos motivos que o fazem estar "mais otimista" quanto aos destinos do mundo e da América Latina.

Correção política

Defensor do liberalismo na economia e na política, Vargas Llosa disse ter ficado "surpreso" com a notícia de que recebera o maior prêmio da literatura mundial, principalmente ao levar em conta os últimos ganhadores.

"A impressão é que eles não queriam dar o prêmio a pessoas controvertidas, principalmente do Terceiro Mundo. Preferiam os que seguiam uma certa correção política. Mas, posto que me deram o prêmio, parece que estavam errados", disse o peruano, provocando risos na plateia.

Vargas Llosa rejeitou a ideia de que a sua atuação política (ele escreve com frequência artigos e ensaios sobre o tema) afete negativamente a sua produção literária.

"A literatura não deve se afastar da vida. (...) Gostaria que a minha obra fosse como uma esponja que absorvesse tudo o que acontece no seu tempo. Não conheço grande literatura que tenha sido indiferente à política."

Desmonte do comunismo

Sobre os rumos da política mundial, o escritor disse estar hoje mais otimista do que há alguns anos, citando o "desmonte" do comunismo.

"Lembro-me de um discurso do Henry Kissinger (secretário de Estado americano entre 1973 e 1977), que não é um tonto, pouco antes da queda do Muro de Berlim (1989). Ele disse: 'Senhoras e senhores, tenhamos claro que o comunismo está aqui para ficar'. Mas ele desapareceu, e não porque foi derrotado pelo Ocidente, mas por uma putrefação interna, por uma incapacidade de organizar uma economia produtiva, porque o sistema de controle do pensamento e da vida o foi asfixiando."

Vargas Llosa também considera que a América Latina evoluiu substancialmente nos últimos anos, com a expansão e a consolidação da democracia.

"(Na América do Sul) hoje só temos uma semiditadura, a de Hugo Chávez, que foi derrotada nas últimas eleições e tem um fracasso econômico enorme. Dificilmente o regime vai sobreviver muito tempo."

Segundo o escritor, os avanços recentes fazem com que o continente "comece a recuperar o tempo perdido". Mas ele alerta que, apesar do progresso, "não se pode cair na ingenuidade, porque pode haver volta".

Experiência desoladora

Para o peruano, situação muito menos promissora que a América Latina tem a República Democrática do Congo, país que ele visitou durante a produção do seu último livro, O sonho do celta, ainda não publicado no Brasil.

A obra trata da vida do diplomata irlandês Roger Casement (1864-1916), que denunciou os abusos cometidos na colonização do então Congo belga pelo rei Leopoldo 2º, entre os séculos 19 e 20.

Vargas Llosa conta que a viagem ao país africano, que durou 15 dias, foi a experiência "mais desoladora, triste e deprimente" de sua vida.

"Vi um médico congolês que me disse: 'o problema número um deste país são os estupros. Aqui, há muitos anos que não se estupra por prazer sexual, o estupro é uma arma para humilhar o adversário. Te digo que num povoado não há uma só mulher que nunca tenha sido estuprada'. Ele me disse isso e começou a chorar de modo atroz."

Para Vargas Llosa, o cenário é tão grave que os prognósticos de que o país não tem solução "pode ser verdadeiro". "Mas, se é certo, a culpa maior, a responsabilidade principal de que o país tenha chegado a essa situação de espanto é a colonização belga, é o que os belgas fizeram ali", diz o escritor.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Novelha cozinha poética:: Waly Salomão [3.9.1943 - 5.5.2003]

Pegue uma fatia de Theodor Adorno
Adicione uma posta de Paul Celan
Limpe antes os laivos de forno crematório
Até torná-la magra-enigmática
Cozinhe em banho-maria
Fogo bem baixo
E depois leve ao Departamento de Letras
Para o douto Professor dourar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Reflexão do dia - Marco Antonio Villa

O PT não gosta de ser atacado. Na verdade, hostiliza quem o ataca. Tem enorme dificuldade de conviver com a crítica. Imagina ser o proprietário de um pensamento único, algo como o velho centralismo democrático leninista. Quem for contrário deve se calar. Seus dirigentes acabaram se acostumando com uma oposição pouco atuante. Que passou os últimos oito anos quase que em silêncio, temendo o debate, acreditando piamente nos índices de popularidade do presidente .


(Marco Antonio Villa, no artigo,’Tigre de papel’, na Folha de S. Paulo, ontem)

Boca fechando:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A pesquisa do Ibope divulgada ontem pelo “Jornal Nacional” mostra que a diferença entre a candidata oficial, Dilma Rousseff, e o tucano José Serra se reduziu pela metade desde a eleição de 3 de outubro. De 47% dos votos válidos, Dilma aumentou 6 pontos, chegando a 53%, enquanto Serra, que teve 33% nas urnas, hoje está com 47%, tendo crescido nada menos que 14 pontos em dez dias.

A diferença de 14 pontos caiu para seis com o início da propaganda oficial e depois do primeiro debate do segundo turno, na TV Bandeirantes.

Ou, como dizem os especialistas quando a diferença entre os candidatos se estreita, “a boca do jacaré está fechando”.

É possível tirar a ilação de que o tom mais agressivo utilizado pela candidata Dilma Rousseff não surtiu efeito.

O resultado da pesquisa do instituto Vox Populi, que faz pesquisas para o PT, também divulgada ontem, que deu uma diferença de 8 pontos para Dilma, igual ao detectado pelo Datafolha depois do primeiro turno, mas antes do debate televisivo, pode ser atribuído à data em que foi realizada.

Enquanto o Ibope foi feito entre os dias 11 e 13, o Vox Populi fez a sua pesquisa no domingo e na segunda-feira.

Como estava programado o debate para a noite de domingo, a pesquisa só pegou parcialmente o efeito dele na opinião dos eleitores.

O difícil é entender por que o instituto Vox Populi fez questão de sair a campo no próprio domingo, antes do debate.

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A Nuvem


A guerra santa em que está se transformando perigosamente a campanha presidencial já tem sua crítica quase em tempo real em um novo livro do acadêmico Carlos Nejar, que está sendo lançado pela editora R&F.

“A nuvem candidata à Presidência” relata em tom de crônica a atual campanha eleitoral, com todos os candidatos perfeitamente identificados, embora com outros nomes, e uma vencedora, a própria Nuvem do título.

Um ditado muito conhecido é o que diz que “política é como nuvem, cada vez que se olha está diferente”.

Nejar foi buscar a própria nuvem para falar de uma candidata nefelibata, perdida com seus sonhos no meio de uma guerra eleitoral.

A candidata oficial é Dila Mene, homenagem à amada de Camões, Dinamene, que um lapso do escrivão pôs a perder, e o presidente explica: “Dila sou eu hoje! Dila sou eu amanhã. Sou eu sempre Dila”.

A candidata oficial “mudou a aparência, os penteados, mas não se adaptou ao espetáculo, atriz novata no palco, atropelando a metade das falas ditadas da coxia”.

O opositor principal é Teodorico Serra, que detesta cães e gatos, “não tem carisma, tudo nele é forçado, (...) reúne preparo e certa tendência ao autoritarismo”.

Albertina “é filha da floresta, suave, elegante, inteligente nos debates, mas perde-se na miudeza do partido e dos programas, que é como querer chegar na Lua montada sobre um cavalo”.

Há ainda Plínio, O Velho, “trazendo os oráculos gregos e latinos, com um socialismo corroído nas ruínas e que parece novo, diante do formol ou espartilho da situação e de certa oposição que não tem ideias. Igual a seu homônimo da antiguidade, pode ser engolido pelo Vesúvio eleitoral que preserva os grandes devorando os pequenos”.

Nejar cita Laurence J. Peter, o educador canadense autor do“ Peter principle” (Princípio de Peter) que diz que, numa burocracia de sistema hierárquico, todo funcionário tende a ser promovido até o seu nível de incompetência.

Pois Peter também definiu que “entrar numa igreja não o torna cristão, assim como entrar numa garagem não a transforma em um carro”.

Crítica que, para Nejar, poderia ser perfeitamente dirigida às súbitas aparições de candidatos ateus em igrejas, “com o rosto mais resignado e eclesial”.

E, como que já prevendo a polêmica que está instalada na campanha presidencial, ele relata as dificuldades da candidata Dila Mene para definir sua religiosidade.

Perguntada em 2007 se acreditava em Deus, uma pergunta recorrente a todos os candidatos a presidente, ela respondeu: “Eu me equilibro nessa questão.

Será que há? Será que não há?”.

Já em fevereiro deste ano, perguntada se tinha alguma religião, respondeu, respondeu peremptória: “Não, mas respeito”.

Em abril, disse na TV Bandeirantes: “Acredito numa força superior que a gente pode chamar de Deus”.

Em maio, perguntada pela revista Isto é se era católica, saiu-se com essa: “Sou.

Quer dizer, antes de tudo cristã. Num segundo momento, católica. Num terceiro, macumbeira”.

Albertina é decididamente evangélica, e Teodorico Serra é católico apostólico romano. Certa feita, em uma reunião de evangélicos, misturou “fumantes e ateus”.

Escreve Nejar: “Talvez para ele o ateu seja um fumante do nada e o fumante, um ateu do cigarro. Ou talvez o ateu seja um charuto, e o fumante, vapor engarrafado”.

Já a Nuvem, em vez da Bolsa-Família, inventou a Bolsa-Futuro, “que é a societária paz. Criando formas de as famílias, com o próprio esforço, se sustentarem”.

Letícia, o nome da Nuvem, relata Carlos Nejar, “viu cumprir-se sua vitória nas urnas sem saber ao certo onde estava. E escutava os alaridos das ruas. Não sei, leitores, se o sonho lhe pregou uma peça, ou se ela é que pregou uma peça ao sonho. O fato é que todos os dias se uniram àquele dia. Como se os sinos de muitos e muitos anos tocassem numa só vez. E a alma de repente quisesse vir para fora do corpo”.

Maioria cativa:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os partidos governistas, assim compreendidos os que são aliados do governo Luiz Inácio da Silva, elegeram maioria expressiva no Congresso Nacional: mais de 60% dos deputados federais e quase 60% dos senadores, numa conta que considera 7 senadores e 66 deputados "independentes".

As pesquisas indicavam que os governistas seriam em maior número, cerca de 70%, até um pouco mais, tanto na Câmara como no Senado. De qualquer modo, um quadro muito diferente daquele desenhado pela eleição de 2002, quando Lula chegou ao poder.

Em 2003 tomaram posse 254 deputados tidos como governistas e 259 considerados oposicionistas. No Senado o cenário era ainda mais favorável à oposição: 31 governistas para 50 oposicionistas.

A situação não demorou a se alterar e, principalmente na Câmara, na eleição seguinte a correlação de forças estava não só invertida, como era de impressionantes 353 governistas para 160 oposicionistas.

No Senado, apesar de o governo ter se fortalecido (49 senadores para 32 da oposição) a vida continuou difícil para o Palácio do Planalto, notadamente por causa do comportamento do PMDB.

Para 2010, Lula tinha um plano: dizimar os oposicionistas no Senado. Conseguiu parcialmente, ao trabalhar para derrotar adversários como Tasso Jereissati, Marco Maciel e Artur Virgílio, mas não "fez" os 58 senadores previstos.

Ficou com 48 das 81 vagas, sem contar as cadeiras do PP, PV, PSOL e sem partido, enquanto à oposição ficaram reservados 26 lugares.

O PMDB agora bem mais firme do lado lulista porque o presidente do partido será vice-presidente da República, se Dilma Rousseff for eleita presidente.

E se o resultado for outro, e se José Serra ganhar?

Problema nenhum. Ficará em minoria no Congresso algumas semanas até que os partidos antes aliados a Lula se tornem aliados ao novo presidente.

Os analistas estrangeiros terão algum trabalho para explicar aos respectivos públicos o fenômeno, por aqui sobejamente conhecido e absolutamente lamentável, da formação de maiorias no entorno no poder, qualquer que seja ele.

Caso seja Serra e não Dilma o vencedor, tais partidos terão adaptação rápida, uma vez que migraram para a seara petista vindos exatamente de onde agora se prontificariam a voltar em nome do patriotismo e da governabilidade.

Sinuca. Os líderes religiosos exigem de Dilma praticamente um rompimento público com causas caras ao PT - casamento entre homossexuais e descriminalização do aborto, entre outras - quando pedem que ela divulgue uma carta aberta se comprometendo a não mexer com esses assuntos.

Se for preciso, o partido aceitará calar até a eleição, mas é difícil acreditar que aceite a situação, uma vez ganha a Presidência. Inclusive porque é o presidente do PT quem chama de "medieval" o debate dos temas de caráter religioso.

Pesos. Compreende-se que o PT queira "inflar" o personagem Paulo Preto, procurando criar correspondência no PSDB com o caso Erenice Guerra. Trata-se, porém, de uma comparação militante.

A acusação ao Paulo Preto é de ter desviado R$ 4 milhões doados à campanha de José Serra. Questão a ser resolvida pelo PSDB, por suposto.

Já as denúncias envolvendo Erenice dizem respeito a desvios públicos engendrados a partir da Casa Civil da Presidência da República, cuja acusada um dia antes de ser orientada a pedir demissão ainda recebia crédito de confiança por parte da candidata Dilma.

Querer que o episódio tucano tenha agora o mesmo efeito que teve o caso petista no primeiro turno é apostar alto no poder da manipulação dos fatos.

Ou querer produzir imparcialidade de maneira artificial.

Egotrip. De um tucano "coordenador" de campanha sobre a possibilidade de vitória no segundo turno: "Vai depender do psiquiatra do Serra."

Lavando a alma :: Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL (online)

Assisti, domingo, por dever de ofício, a todo o áspero debate de duas horas pela TV Bandeirantes entre os candidatos Dilma Rousseff e José Serra, com a troca de insinuações, denúncias, ferroadas, no estilo de bate-boca de fim de feira livre, no avanço às xepas que engambelam a fome dos pobres. Dilma e Serra partiram para o tudo ou nada. Em tácito acordo pouparam o presidente Lula, que anda sumido para escapar das pedradas da oposição.

Talvez os próximos debates da todo-poderosa TV Globo e da Record aproveitem os ensinamentos do ringue da Bandeirantes.

E não há maior dificuldade em reconhecer que o engessamento do debate em fatias minúsculas de dois, três minutos sufoca a naturalidade da conversa em todos os tons. Dilma e Serra buscaram atingir os pontos fracos do adversário.

Mas erraram o alvo. Serra não explorou a marcação cerrada de Lula contra o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que deve interessar a poucos alcoviteiros e deixa na maioria a constrangedora impressão de despeito. Ora, FHC depois de receber Lula e a esposa, dona Maria Letícia, no Palácio do Planalto, que retribuiu a gentileza com o convite ao casal para um jantar, viajou para a Europa, onde fatura em dólares por cursos e palestras em diversos países. Vem ao Brasil poucas vezes e por alguns dias.

Nesta campanha, FHC anunciou seu apoio óbvio ao candidato José Serra. Há uma escorregadela ética no ódio que Lula cultiva pelo seu antecessor. O mais popular presidente de todos os tempos, que passa metade do ano viajando pelo mundo sem gastar um centavo, não se satisfaz com a popularidade recordista e que ignora as muitas falhas da indispensável rotina.

O presidente Getulio Vargas foi um trabalhador que varava as madrugadas despachando o “volumoso expediente”.

Pois, governar é também despachar processos.

Uma tarefa indelegável. Lula não lê nem folheia um processo. A leitura provoca-lhe azia e enjoo.

Mas não o incomoda nas viagens da sua permanente campanha. Cada vez passa menos tempo no seu gabinete para assinar os despachos, sem acrescentar uma linha.

Nesta reta final, com a série de debates entre Dilma e Serra, anunciados pelas redes de TV, Lula não tem como participar.

Mas vai à forra, com pesadas declarações contra o candidato José Serra.

A acreana Marina Silva, presidente do Partido Verde, não apoiará a Dilma, que a perseguiu como ministra do Meio Ambiente. E os seus 20 milhões de votos no primeiro turno e que levaram à nova campanha para a decisão nas urnas de 31 de outubro, apesar do favoritismo da Dilma, não são favas contadas.

Esta semana, tive o privilégio de uma conversa telefônica com o ex-presidente e atual senador eleito Itamar Franco. Lavei a alma com o amigo de muitos anos e que é um homem de bem. Trocamos as nossas preocupações com a crise ética e moral que atinge os três poderes, em especial o pior Congresso de todos os tempos e que deve ceder a coroa ao próximo, a julgar pelo desfile de candidatos no abominável horário de propaganda eleitoral.

Aprendi o truque. Nas próximas recaídas no porão do vexame pelo desprestígio da minha profissão, telefonarei para o senador Itamar Franco, um homem de bem.

Inflexão :: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - A agressividade, ops!, a "assertividade" de Dilma Rousseff no debate da Band marcou uma nítida inflexão na sua campanha e veio para ficar. Os programas do PT estão mais pesados, forçando a comparação entre o governo de Lula e o de FHC e insistindo que os tucanos privatizam até a mãe. A Dilma boazinha já era.

Já o Serrinha reforça o gênero paz e amor, apesar dos rompantes. Surpreendido pela reviravolta da adversária, parece no segundo turno um padre pregando a união entre todos os irmãos.

Se Dilma é objetiva, Serra está subjetivo. Ela fala em Bolsa Família e Luz Para Todos, programas que atingem diretamente a "vida das pessoas" -expressão que sempre repete para engatilhar os 28 milhões que saíram da miséria. Ele responde com conceitos abstratos: "caráter", "verdade", "coerência", "honestidade". Além disso, se Dilma se esforça para falar e para mostrar gente, Serra insiste em falar de empresas e de investimentos.

Num movimento pendular, Lula some da propaganda de Dilma, e Fernando Henrique aparece na de Serra, como se um já tivesse dado tudo o que tinha de dar à campanha e o outro estivesse sendo redescoberto oito anos depois.

Dilma vinha perdendo votos devagar e sempre desde o fim do primeiro turno.

Evidentemente, acendeu uma luz amarela na sua candidatura, que deu uma chacoalhada no jeitão e joga com o confronto.

Serra, que foi favorecido pela queda de Dilma e principalmente pela ascensão de Marina Silva, não chacoalhou nada, optando pelo personagem sereno e confiável. Devem ter bons motivos -ela para jogar o personagem boa moça fora, e ele para manter o bom moço no ar.

Com a distância encurtando, mas ainda bem favorável a Dilma, ela precisa segurar a sangria, ele tem de ousar. O problema dos dois é que, com o tempo apertado, não dá mais para improvisar nem para testar. É acertar ou acertar a mão.

Munição anti-Dilma é do próprio lulismo – Editorial:: O Globo

Para usar uma imagem do boxe, é como se, numa luta de dois rounds, uma esmagadora maioria previsse a vitória de um dos lutadores por nocaute.

Porém, um golpe inesperado daquele marcado para perder jogou o adversário favorito, zonzo, nas cordas, enquanto soava o gongo do intervalo. É assim que parece a candidata Dilma Rousseff, que tenta se refazer do susto de não ter acabado com a eleição no primeiro turno, e parte para o ataque, na campanha do segundo, aposentando o manual de boas maneiras usado no início da luta.

Se vai funcionar, não se sabe. A primeira pesquisa do segundo turno, do Datafolha, registrou grande estreitamento na vantagem que Dilma ostentava em relação a Serra. Os 54% a 46% dos votos válidos levantados pela sondagem refletiram um importante sangramento de votos dilmistas iniciado na última semana de campanha do primeiro turno. Ontem, foi a vez do Ibope, divulgado no “Jornal Nacional”: 53% a 47%. Confirma-se a aproximação de Serra. A julgar pelo primeiro debate do segundo turno, domingo na TV Bandeirantes, uma das armas sacadas pela candidata oficial, como fizera Lula no segundo turno de 2006, o “fantasma” das privatizações, encontra um candidato tucano rápido no gatilho da réplica, ao contrário de Geraldo Alckmin naquela ocasião. Além disso, os quatro anos de governo lulopetista concedidos a mais pelo eleitorado demonstraram que sacrossantas estatais terminaram privatizadas, mas de maneira deletéria: privatizadas pelo fisiologismo político, caso do setor elétrico; pelo aparelhamento, em que se destaca a Petrobras; e para a criação de dificuldades a fim de se venderem facilidades, como ocorrido nos Correios sob a influência de Erenice Guerra e herdeiros.Dilma Rousseff e o PT se apresentam como vítimas de torpes acusações espalhadas pela internet.

O ponto nevrálgico dos ataques tem sido a lembrança de que a candidata já defendeu a legalização do aborto, tema que, infelizmente, tem servido para contaminar o debate político por crenças religiosas. Até aqui, a campanha tem servido de alerta ao PT, alvejado por uma artilharia conhecida por militantes do partido: textos e filmes distribuídos pela internet. Outro aspecto de todo este tiroteio é que parte da munição de que se valem grupos para atacar Dilma Rousseff é obtida em documentos oficiais. Neste sentido, não se pode, a rigor, entender como calúnias algumas mensagens que circulam na rede de computadores. Afinal, como o governo Lula é um conglomerado de correntes ideológicas, com várias capitanias hereditárias distribuídas pela máquina pública, e algumas delas controladas por agrupamentos de esquerda autoritária, não é difícil encontrar propostas radicais, emanadas de dentro do governo, contrárias à Constituição.

Quem consultar a terceira versão do “Plano Nacional de Direitos Humanos”, assinado pelo próprio Lula, encontrará muito daquilo de que a candidata quer manter distância: descriminalização do aborto, censura à imprensa, ataque ao direito constitucional de propriedade etc. A própria Dilma chegou a encaminhar à Justiça eleitoral parte desse plano como programa de seu governo. Diante da má repercussão, voltou atrás. Haja o que houver, Lula paga hoje um preço por ter abrigado no governo correntes cujo projeto de país nada tem a ver com as aspirações das classes médias que aumentam de peso na sociedade brasileira

Freire diz que virada de Serra sobre Dilma está próxima e convoca militantes para campanha de rua

DEU NO PORTAL DO PPS

Foto: Tuca Pinheiro
Freire convoca militantes para confirmar, nas ruas, a virada de Serra.

Por: Assessoria do PPS

O presidente nacional do PPS, Roberto Freire, espera para os próximos dias uma virada do candidato a presidente José Serra (PSDB) sobre a governista Dilma Rousseff (PT). Segundo ele, as últimas pesquisas Datafolha e Ibope e as sondagens internas feitas pela coligação "O Brasil Pode Mais" indicam esse caminho. "Há uma tendência clara de redução da vantagem de Dilma sobre Serra. A virada está próxima", afirma Freire, que convoca todos dirigentes do partido e a militância para sair às ruas reforçar a campanha de Serra neste segundo turno das eleições.

"É hora de irmos à rua. Temos uma cordenação nacional de campanha, mas, paralelo a isso, é importante a iniciativa individual de cada um. Vamos conseguir o voto de um amigo, de um parente. E é fácil pegar material de campanha. Basta entrar no site de Serra e pedir", orienta Freire. Os jingles, artes, avatar, fotos e outros materiais podem ser baixados no próprio site e para receber o material impresso em casa basta acessar aqui e preencher o formulário. Também é possível ir até o comitê do Serra em sua cidade e solicitar o kit de campanha.

"Estamos mobilizados e a redução da diferença de intenção de votos entre os candidatos é evidente", reforça Freire, deputado federal eleito por São Paulo. Ele informou ainda que os parlamentares do PPS já trabalham forte pela vitória de José Serra nos estados. Nesta semana estão sendo realizadas várias reuniões de organização de campanha e atos políticos por todo o Brasil

Acesse aqui para receber em sua casa o kit da campanha Serra45

Baixe aqui outros materiais de campanha

Ellen de Lima " Vício"

O País real e a candidata :: José Israel Vargas

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Externei recentemente, neste espaço, preocupações sobre a ciência e a tecnologia brasileiras, a meu ver, obstáculo maior ao desenvolvimento econômico e social almejado para o nosso país. Verifico agora que perplexidade de índole ainda mais ampla vem de ser retratada, em manchete de primeira página, por um de nossos grandes jornais diários, ao questionar: Quem vai administrar o País real?

Estou convencido de que, a despeito do inegável progresso econômico e social ocorrido em continuação ao trabalho realizado pelas administrações passadas, o angustiante grito de alarme reflete a insegurança quase generalizada no País sobre a qualidade da liderança atual e da que pode emergir do segundo turno do pleito eleitoral. De um lado, acabamos de assistir, no primeiro turno, ao desempenho tíbio da oposição, talvez devido à influência oportunista de marqueteiros, deixando de oferecer, na ocasião, soluções para os graves e abrangentes problemas do País real. De outro lado, a possível reassunção do poder de vasta aliança articulada entre opções políticas díspares, sob o guante do chefe inconteste tanto do partido "social-nacionalista" quanto da antiga súcia, sempre ávida em aderir ao eventual poder do dia.

A força do líder da aliança afirmou-se paulatinamente pela prática de contrafações sistemáticas de fatos bem sabidos de nossa História recente. Transmudadas em "herança maldita", elas são ostentadas como sólidas verdades para engodo de suas audiências, mobilizadas a um só tempo em despeito e autolouvação ostensiva. Nessa trajetória, vem posando de autor exclusivo de grandiosas obras e iniciativas políticas, executadas ou em curso de execução, "jamais dantes" testemunhadas pela humanidade embasbacada, em ilustração eloquente do desprezo que o líder vota ao saber e à verdade. Infeliz e antiga atitude, genialmente retratada pelo Bardo: "O prêmio com que mais se alevanta o engenho, não o dá a Pátria, não, que está entregue ao gosto da cobiça..."

A candidata escolhida exclusivamente pelo líder da aliança, a então poderosa ministra da Casa Civil, levou a Copenhague (COP 15) a proposta brasileira sobre medidas destinadas a mitigar o clima, usurpando desta feita, no grande encontro, as atribuições da ministra Marina Silva, de fato a responsável pela área... É fácil imaginar as razões que levaram o presidente da Republica à inusitada preterição: as eleições! O propósito era expor a candidata em fórum internacional, armada de batuta de comando erguida discricionariamente até mesmo por sobre os profissionais da área e do próprio Itamaraty.

O Brasil renunciou ao privilegio conferido pelo Tratado do Rio (1992) a ele e a outros países em desenvolvimento, que consistia na isenção de reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa, por terem iniciado tardiamente sua industrialização, geradora das referidas agressões ambientais.

Tanto a China como a Índia, à vista de suas contribuições importantes para o efeito estufa e submetidas a fortes pressões internacionais, comprometeram-se a reduzir em 30% suas emissões poluentes até o ano de 2020 e vincularam as reduções paulatinas a frações bem definidas de seu produto interno bruto (PIB) anual.

Já o Brasil adotou meta de reduzir as suas emissões, até aquele ano, em cerca de 39%, sem, contudo, especificar, até agora, o ritmo anual e as práticas necessárias à promoção das reduções anunciadas. O País comprometeu-se também a observar a meta (parcial) de reduzir em 80% o desmatamento, em relação ao ano de 2005. Tal fração, somada à da agropecuária, constitui 58% do total das nossas emissões, mas nosso governo igualmente deixou de apontar os valores anuais das ações indispensáveis ao cumprimento dessas obrigações.

É, pois, duvidoso que esses compromissos sejam cumpridos, tanto mais que o seu cumprimento envolverá profunda reestruturação do sistema agropecuário nacional, bem como intenso reflorestamento compensatório do desmatamento decorrente tanto da expansão da infraestrutura na região amazônica (usinas hidrelétricas, linhas de transmissão e estradas) quanto das demandas de madeira para a construção civil e outras obras pelo País afora. De fato, a correlação entre o aumento do PIB nacional e o desmatamento é hoje bem conhecida, e o "sucesso" alardeado para sua redução seria, pois, devido antes à recente crise econômica do que às medidas adotadas pelo governo.

Da mesma lavra surgiria projeto de lei sobre direitos humanos, enviado ao Congresso Nacional "sem ler", justificou-se a atual candidata oficial. Diante dos protestos da opinião pública em defesa das liberdades democráticas, esse projeto foi retirado. Entretanto, renasceu das cinzas, reapareceu no programa para o futuro governo petista e teve - talvez provisoriamente - o mesmo destino da iniciativa anterior, também lançado no limbo por falta de leitura... Hábito que parece ser a marca deste governo.

Registre-se que o mesmo governo do qual se tornou figura central a digna candidata se alinha também com um acordo sobre direitos humanos estabelecido entre o Brasil... Cuba e China! A tanto vai o nosso amor pela justiça. Vamos, assim, manter relações mais do que amistosas com governos apontados pela comunidade internacional como criminosos.

Finalmente, o apoio dado à candidatura de um assumido queimador de livros ao alto cargo de diretor da Unesco, organização das Nações Unidas dedicada à promoção da educação, da cultura, da ciência, da informação e da comunicação, bem ilustra que essas atividades são cada vez mais estranhas ao atual governo brasileiro.


Ph.d. pela Universidade de Cambridge, professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, foi Ministro da Ciência e Tecnologia

Os falsários :: Demétrio Magnoli

DEU EM O GLOBO

Carlos Augusto Montenegro, o presidente do Ibope, profetizou há muitos meses uma vitória folgada de José Serra no primeiro turno. A campanha não havia começado e o Ibope não tinha pesquisas relevantes. O Oráculo falou para bajular aquele que, presumia sua sabedoria política, seria o próximo presidente. Mais tarde, durante a campanha, de posse de inúmeras pesquisas, o Oráculo asseverou com a mesma convicção que Dilma Rousseff venceria no primeiro turno. A bajulação aos poderosos de turno obedece a uma lógica inflexível. Na mesma entrevista, ele sugeriu que a oposição atentava contra a democracia ao repercutir os escândalos no governo. Cada um fala o que quer, nos limites da lei, mas o Oráculo de araque não se limita a isso: ele vende um produto falsificado.

Pesquisas de opinião declaram uma margem de erro e um intervalo de confiança. A margem de erro expressa a variação admissível em relação aos resultados divulgados. O intervalo de confiança expressa a confiabilidade da pesquisa - ou seja, a probabilidade de que ela fique dentro da margem de erro. Na noite de 3 de outubro, o Ibope divulgou as pesquisas de boca de urna para a eleição nacional e para 16 Estados, registradas com margem de erro de 2% e intervalo de confiança de 99%. Das 17 pesquisas, 12 ficaram fora da margem de erro. O intervalo de confiança real é inferior a 30%. Um cenário similar, catastrófico, emerge das pesquisas para o Senado. Há tanta diferença assim entre isso e vender automóveis com defeitos nos freios?

O Ibope não está só. Datafolha, Sensus e Vox Populi não fizeram pesquisas de boca de urna, mas suas pesquisas imediatamente anteriores também não resistem ao cotejo com as apurações. Todos os grandes institutos brasileiros cometem um mesmo erro metodológico, bem conhecido pelos especialistas. Eles usam o sistema de amostragem por cotas, que tenta produzir uma miniatura do universo pesquisado. A amostra é montada com base em variáveis como sexo, idade, escolaridade e renda. Isso significa que a escolha dos indivíduos da amostra não é aleatória, oscilando ao sabor de variáveis arbitrárias e contrariando os princípios teóricos da amostragem estatística.

O Gallup aprendeu a lição depois de errar na previsão de triunfo de Thomas Dewey nas eleições americanas de 1948. Venceu Harry Truman e o instituto mudou sua metodologia, adotando um plano de amostragem probabilística, que gera amostras aleatórias. Quase meio século depois, os institutos britânicos finalmente renunciaram à amostragem por cotas. O copo entornou em 1992, quando as pesquisas baseadas na metodologia furada previram a vitória trabalhista, mas triunfou o conservador John Major. Na sequência, uma equipe de especialistas identificou o problema e apresentou a solução. Os institutos brasileiros conhecem toda essa história. Não mudam porque a metodologia atual é mais prática e barata. Vendem gato por lebre.

A amostragem por cotas não permite calcular a margem de erro. Os institutos "resolvem" a dificuldade chutando uma margem de erro, que exibem como fruto de cálculo rigoroso. Como as eleições brasileiras costumam ter nítidos favoritos, eles iludem deliberadamente a opinião pública, cantando acertos onde existem, sobretudo, equívocos. Não é um fenômeno novo. Jorge de Souza, no seu Pesquisa Eleitoral: Críticas e Técnicas (Editora do Senado, 1990), já registrava que 16 das 23 pesquisas Ibope referentes às eleições estaduais de 1986 se situaram fora da margem de erro - o mesmo desastroso intervalo de confiança, em torno de 30%, verificado neste 3 de outubro.

Nem todos os institutos são iguais. O Datafolha conserva notável isenção partidária, embora também utilize o indefensável sistema de amostragem por cotas. O Oráculo do Ibope anda ao redor dos poderosos, sem discriminar partidos ou candidatos, farejando oportunidades em todos os lados. Marcos Coimbra, seu congênere do Vox Populi, pratica uma subserviência mais intensa, porém serve apenas a um senhor. Durante toda a campanha, o Militante assinou panfletos políticos governistas fantasiados como análises técnicas de tendências eleitorais. Dia após dia, sem descanso, sugeriu a inevitabilidade do triunfo da candidata palaciana no primeiro turno. Sua pesquisa da véspera do primeiro turno, publicada com fanfarra por uma legião de blogueiros chapa-branca, cravou 53,4% dos votos válidos para Dilma Rousseff. Errou em 6,5 pontos porcentuais, quase três vezes a margem de erro proclamada, de 2,2%.

Pesquisas, obviamente, não decidem eleições. Mas elas têm um impacto que não é desprezível. Sob a influência dos humores cambiantes do eleitorado, supostamente captados com precisão decimal pelas pesquisas, consolidam-se ou se dissolvem alianças estaduais, aumentam ou diminuem as doações de campanha, emergem ou desaparecem argumentos utilizados na propaganda eleitoral, modifica-se a percepção pública sobre os candidatos. Os institutos comercializam um produto rotulado como informação. Se fosse leite, intoxicaria os consumidores. Sendo o que é, envenena a democracia.

Beto Richa, o governador eleito em primeiro turno no Paraná, obteve da Justiça Eleitoral a proibição da divulgação de pesquisas eleitorais que não o favoreciam. A censura é intolerável, principalmente quando solicitada por alguém que se comprazia em dar publicidade a pesquisas anteriores, nas quais figurava à frente. Ele poderia ter usado o horário eleitoral para expor a incúria metodológica dos institutos e o lamentável papel desempenhado por alguns de seus responsáveis, como o Oráculo e o Militante. A opinião pública, ludibriada a cada eleição, encontra-se no limiar da saturação. Mais um pouco, aplaudirá o gesto oportunista de Richa e clamará pela censura. Que tal os institutos agirem antes disso, mesmo se tão depois do Gallup?

Ah, por sinal, qual é mesmo a taxa de aprovação do governo Lula?

Sociólogo, é Doutor em Geografia Humana pela USP.

Embate agora tem Serra na ofensiva e erosão do favoritismo de Dilma: Jarbas de Holanda

1) A campanha da nova etapa da disputa presidencial – propiciada pelos quatro pontos percentuais que, nos últimos 15 ou dez dias antecedentes de 3 de outubro, Marina Silva subtraiu dos índices de intenção de votos de Dilma Rousseff, bem mais do que a fatia que desviou de Serra, menos de dois pontos, segundo o Datafolha divulgado no dia 9 – começou a travar-se num clima basicamente distinto, até oposto ao dominante ao longo da do 1º turno. Ademais da contenção, pelo menos inicial, do radicalismo de propostas do PT e retórico do presidente Lula, de par com um aumento do papel de Michel Temer e da máquina nacional do PMDB (consequências do adiamento da decisão que valorizei na semana passada), o novo clima é marcado pela atitude ofensiva assumida pela campanha do candidato oposicionista, em contraponto a uma postura defensiva do Palácio do Planalto e de sua candidata (que a disfarçou em agressividade no debate com o adversário na TV Bandeirantes). Essa postura é reflexo do choque, que, inesperadamente, eles tiveram com a erosão eleitoral sofrida no Sul, no Sudeste e também no Centro-Oeste (resultante das denúncias sobre escândalos praticados no governo; da repulsa às ameaças dele e da candidata ao papel de imprensa nessas denúncias; da vinculação de Dilma à descriminalização do aborto, facilitada por proposta favorável a isso do PT e agora explorada em favor da campanha oposicionista).

2) Uma recuperação, possível mas incerta, do cenário anterior de consistente favoritismo de Dilma Rousseff passa a depender não apenas de que ela mantenha a larga vantagem de que desfruta no Norte e no Nordeste mas também de que contenha essa erosão. O que certamente vai levar o presidente Lula, após o impacto da frustração com o 2º turno, a se jogar na campanha dela, nas próximas semanas, com um grau de envolvimento, pessoal e do governo, ainda maior do que verificado até 3 de outubro. Com o qual buscará compensá-la por meio de radicalização social do discurso voltado ao eleitorado de baixa renda e menor grau de escolaridade, em especial o das periferias das cidades e regiões metropolitanas do Sudeste e do Sul. Discurso de caráter classista, pobre versus rico, semelhante ao que usou contra Geraldo Alckmin no 2º turno de 2006, e diferente do de cunho moderado, nesse aspecto, que deverá caber à candidata.

3) Por seu turno, favorecido pela competitividade que enfim ganhou, a campanha de Serra concentrará esforços, viáveis, em alargar a vantagem, que obteve na região Sul, em ampliar a pequena superioridade conseguida em São Paulo (menos de 800 mil votos) e em reduzir bastante a diferença pró-Dilma em Minas Gerais. Isso tudo combinado com promessas, populistas, direcionadas sobretudo para o Nordeste, de um salário mínimo de R$600 e de aumento das aposentadorias e do Bolsa Família, bem como com o empenho para atrair a maior parcela dos eleitores de Marina Silva nas capitais das diversas regiões. A conquista desses eleitores é importante principalmente no Estado do Rio, onde Serra teve votação muito baixa. Quanto à Minas, a percepção do peso de um salto da votação lá, capaz de compensar o amplo predomínio lulista no Nordeste, teria induzido Serra, segundo informação de algumas colunas políticas, a garantir a Aécio Neves que não disputará reeleição em 2014 caso seja vitorioso agora.

“A sucessão sequestrada”

Trechos de editorial do Estado de S. Paulo, do dia 11. Que, após reafirmar apoio manifestado à candidatura de José Serra, condena com veemência “ataques de grupos mais conservadores de diferentes denominações cristãs” a Dilma Rouseff “sob a alegação de que, se eleita, ela patrocinará a liberação total do aborto”: “Na passagem hoje mais citada de uma entrevista concedida em 2007, ela considerou um ‘absurdo’ que o aborto seja considerado um crime no Brasil. Isso não faz dela uma candidata pior ou melhor. Os critérios pelos quais se devem avaliar os aspirantes à chefia do governo são de outra natureza. Excluem a defesa ou a condenação de posições na esfera do comportamento individual em razão de convenções religiosas, ou da falta delas, salvo se o candidato prometer mudar a legislação para autorizar ou proibir determinada prática na órbita privada. Não foi o caso de Dilma”. “Quando um clérigo sustenta que o aborto deve ser proibido em qualquer hipótese, cabe aos seus correligionários agir, na vida real, de acordo ou em desacordo com esse ponto de vista. Trata-se de uma decisão de estrito foro íntimo. O que o sacerdote não pode querer é que o Estado laico se dobre aos dogmas de sua fé. O país já passou por esse debate quando tramitava não Congresso o projeto, afinal aprovado, permitindo experiências com células tronco embrionárias para fins terapêuticos. Agora, na polêmica do aborto, a perspectiva só pode ser a da saúde pública – a interrupção da gravidez é a terceira causa da mortalidade materna no Brasil. Ainda é tempo de “civilizar” o segundo turno,resgatando-o da tutela religiosa”.

Dilma promete a igrejas vetar teses históricas do PT

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ela se compromete com evangélicos a negar ampliação de direito ao aborto, casamento homossexual e novo registro civil para transexuais

João Domingos

BRASÍLIA - Na luta para garantir o voto dos eleitores evangélicos, a candidata do PT, Dilma Rousseff, comprometeu-se a vetar questões polêmicas previstas no Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), que foi montado dentro do próprio governo.

Entre os itens que prometeu vetar, caso eleita, estão a ampliação do direito ao aborto, o casamento de pessoas do mesmo sexo e a mudança no registro civil para transexuais. Disse ainda que respeitará a livre organização religiosa e os cultos evangélicos. Para reforçar o compromisso, a campanha de Dilma estuda a divulgação de uma carta.

Fruto de seguidas conferências de direitos humanos - uma marca dos governos do PT -, até agora o PNDH-3 vinha sofrendo críticas por prever o controle social dos meios de comunicação e a revisão na Lei da Anistia, mas nunca havia sido atacado por um ex-ministro do atual governo. E com a importância de Dilma.

Em resposta às promessas da candidata, de que questões como o aborto, a fé e o homossexualismo não devem fazer parte da política do governo, 51 representantes de Igrejas Evangélicas que se reuniram com Dilma e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o almoço, ontem, disseram que a partir de sábado vão anunciar o apoio à petista em seus templos e cultos.

Dilma tem razão para ceder tanto aos evangélicos, a ponto de abjurar de parte do Programa de Direitos Humanos. De acordo com o pastor Ivanir de Moura, presidente da Federação Evangélica de Santa Catarina, hoje os evangélicos são cerca de 50 milhões, detendo por volta de 25 milhões a 30 milhões de votos.

Passagem secreta. Lula também contribuiu para convencer os evangélicos a apoiar Dilma. Sem alarde, o presidente deixou o Palácio do Planalto e foi até o hotel onde ocorria o encontro entre Dilma e os líderes religiosos. Entrou por uma passagem longe dos olhos dos repórteres. No encontro, disse que em seu governo nunca as igrejas tiveram tanta liberdade de culto. E lembrou veto seu ao artigo de uma lei que restringia as preces em voz alta durante os cultos, por considerá-las poluição sonora.

Lula disse também aos evangélicos que não acreditassem que Dilma seria favorável ao aborto.
"Todo mundo se lembra que tanto em 2002 quanto em 2006 eu fui vítima de boatos e preconceitos. E nunca houve tanta liberdade quanto em meu governo", disse o presidente.

O reverendo Guilhermino Cunha, presidente da Igreja Presbiteriana, foi um dos primeiros a pregar o apoio dos evangélicos a Dilma. Recorreu a uma parábola para defender a petista. Segundo ele, numa viagem transoceânica, um rato estava roendo os fios do sistema de navegação da aeronave. O comandante pensou que todos cairiam no mar. Mas se lembrou de suas aulas de biologia e de que o rato tem o cérebro pequeno.

Então, imbicou o avião para o alto, até que o pouco ar no cérebro do roedor o levou à morte. "É preciso voar alto. Os ratos não resistem às grandes altitudes", disse o reverendo. Ele não quis dizer quem é rato da parábola. "Digo que fazer uma oposição injusta e ingrata, à base de boatos, não resiste aos voos mais altos."

O deputado Manoel Ferreira (PR-RJ), coordenador da bancada evangélica na campanha de Dilma, disse que o encontro foi importante porque os pastores vão se engajar na luta para eleger a petista. Ele afirmou que, mesmo tendo sido procurado pelo tucano José Serra, preferiu ficar com Dilma por causa do governo Lula. "O ponto alto de nossa campanha é a continuidade do governo do presidente Lula, dos programas sociais e da distribuição de renda", argumentou ele.

Em Minas, Aécio busca virada para Serra

DEU EM O GLOBO

Ex-governador comanda ato com prefeitos mineiros, em ofensiva para fazer com que tucano supere Dilma no estado

Adriana Vasconcelos

BELO HORIZONTE. Com o ex-governador e senador eleito Aécio Neves à frente, o PSDB mineiro organiza hoje um megaevento em Belo Horizonte. O objetivo é atrair para a campanha do presidenciável José Serra prefeitos que, no primeiro turno da eleição, pregaram o voto “Dilmasia” (na petista Dilma Rousseff, para a Presidência, e no tucano Antonio Anastasia, para o governo estadual) em Minas. Com o governador Anastasia reeleito, Aécio pretende usar sua popularidade para reverter a vantagem de Dilma no estado.

Aliados de Aécio indicavam ontem que pesquisas internas teriam constatado que a diferença entre Dilma e Serra em Minas já teria caído para a mesma diferença registrada ontem pelo Ibope no cenário nacional (seis pontos). Ontem à noite, Aécio disse que confia na vitória de Serra, e disse que vai sugerir a ele, hoje, que assuma compromisso com os prefeitos de estabelecer um índice de reajuste para os repasses do FPM, o Fundo de Participação dos Municípios.

— O presidente Lula, por ter um contato direto com a população, se preocupou pouco com as administrações municipais — disse Aécio. — Minas, estado com um grande número de municípios, talvez seja o local adequado para ele incorporar esse chamamento e se comprometer com a recuperação do FPM.

Aécio disse acreditar que o eleitorado de Marina Silva (PV) em Minas esteja mais próximo de Serra: — Esse eleitorado flutuante deverá ter mais afinidade conosco neste segundo turno. Vamos fortalecer essa identidade e mobilizar todas as lideranças para garantir a vitória de Serra.

A expectativa de Aécio é reunir hoje, na Associação Médica de Minas Gerais, cerca de 300 líderes políticos do estado.

Semana passada, Aécio ligou para prefeitos, pedindo presença no evento, que terá a participação de Serra.

Além disso, todos os prefeitos que apoiaram a candidatura de Anastasia no primeiro turno receberam uma carta assinada por Aécio, pelo atual governador e pelo ex-presidente Itamar Franco, também eleito senador, pelo PPS, convidando-os para a reunião de hoje.

Serra busca apoio do PMDB gaúcho

DEU EM O GLOBO

Partido se reúne hoje. Ibsen Pinheiro elogia tucano e diz que ele "não tem o dedo podre" para fazer nomeações

Clarissa Barreto*

PORTO ALEGRE. Em evento suprapartidário realizado ontem com deputados, prefeitos e líderes de partidos que apoiam a candidatura tucana à Presidência, em Porto Alegre, o candidato José Serra aproveitou para afagar o PMDB gaúcho, que esteve dividido no primeiro turno. Serra chegou a visitar o candidato derrotado ao governo do estado, José Fogaça, que durante o primeiro turno optou pela neutralidade. Cacique peemedebista, o deputado federal Ibsen Pinheiro discursou e elogiou Serra para as cerca de 800 pessoas que participaram do encontro num hotel da capital gaúcha Em seu discurso, o candidato tucano afirmou que costuma escolher bem quem trabalha com ele e acenou com uma possibilidade de cargos para os aliados.

— É claro que vamos contar com nossos companheiros mais próximos. Ninguém constroi o Brasil sozinho. Não sou dado a messias, temos que trabalhar em equipe — disse Serra.

Mesmo sem o apoio institucional do PMDB, que será decidido hoje em reunião do diretório, Ibsen Pinheiro elogiou Serra, garantindo que ele tem o “dedo bom” para escolher equipe.

— A primeira tarefa de um presidente nem é tão árdua. É nomear o chefe da Casa Civil e seus ministros. Não pode errar, e o Serra nunca errou. Ele não tem o dedo podre, ele escolhe por honradez e competência — afirmou Ibsen.

Fogaça “foi o melhor senador”, diz Serra Após uma rápida caminhada pelo centro de Porto Alegre, Serra foi em busca de outro apoio peemedebista: José Fogaça. Depois de reunir-se a portas fechadas com o tucano por cerca de dez minutos, Fogaça não admitiu o voto em Serra. Ele condicionou o apoio à decisão do partido, que será tomada hoje em reunião da executiva.

— Sempre tive uma posição pessoal, mas acima dela está uma posição coletiva e partidária.

Isso vai orientar a minha posição, que é a mesma do primeiro turno, a mesma de sempre. Não mudei em nada.

O não-posicionamento de Fogaça não impediu Serra de tecer elogios ao ex-senador: — Disse uma coisa a ele que eu digo a muita gente. Eu tive mandato de oito anos no senado e sempre o tomei como um modelo de senador responsável.

Foi o melhor senador com quem eu convivi lá.

Questionado sobre a distribuição de cargos de um eventual governo, Serra disse que só depois que ganhar a eleição falará sobre o tema.

— Não vou falar de governo sem ter resultado. Só falo de governo se ganhar. Mas acho que tem coisas que eu aprendi a fazer na vida e uma delas é me cercar de gente boa para trabalhar, desde que eu era líder estudantil.

Tucano se irrita com perguntas sobre Paulo Souza O candidato se irritou nas duas vezes em que foi perguntado por jornalistas sobre Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, ex-diretor da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário SA) e acusado de ter desviado R$ 4 milhões da campanha de Serra. Primeiro, limitouse a dizer que era uma “pauta petista”. Depois, em entrevista coletiva, após a reunião com Fogaça, Serra acusou um repórter do jornal “Valor Econômico” de fazer um comentário racista.

— Não tem o que comentar.

Considero, em primeiro lugar, um preconceito odiento o fato de se referir a uma pessoa com esse apelido. Quando me disseram esse apelido, eu disse que não conhecia. Não tenho preconceito racial e, na sua pergunta, está envolvido um preconceito racial. Segundo, não tem nada para comentar, exceto a pauta petista. Não houve desvio de dinheiro na minha campanha nenhum.

E a Dilma (Rousseff, candidata petista) está preocupada com o desvio de dinheiro na minha campanha. Já eu estou preocupado com o desvio de dinheiro feito na Casa Civil.

Mais tarde, em Rio Grande, Serra voltou a ser questionado sobre um email que o atual governador de São Paulo, Alberto Goldman (PSDB), teria lhe enviado em 2009 com críticas a Paulo Vieira de Souza. Serra negou ter recebido qualquer email de Goldman sobre o assunto.


(*) Especial para O Globo

Indio pede que classe média não viaje e vote

DEU EM O GLOBO

Estratégia de serristas no Estado do Rio é colar imagem de Dilma a temas polêmicos

Cássio Bruno

A campanha do candidato à Presidência José Serra (PSDB) anunciou ontem, no Rio, em encontro com cerca de 500 líderes políticos e comunitários que, nas próximas semanas, vai colar a imagem da adversária Dilma Rousseff (PT) a propostas polêmicas da terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3). Na reunião, organizada pelo vice na chapa de Serra, Indio da Costa (DEM), no Tijuca Tênis Clube, coube ao deputado federal Arolde de Oliveira (DEM), fiel da Igreja Batista, divulgar a estratégia da oposição para o segundo turno no estado e atacar Dilma sobre questões envolvendo religião e aborto. Já Indio, em tom conciliador, apelou para que a classe média não viaje no feriadão de Finados, em 2 de novembro: — Peçam para a classe média ficar aqui (no Rio) porque votar em Serra se trata de garantir as nossas liberdades de expressão, de imprensa e de culto. Com tanta corrupção no Brasil e uma imprensa livre, já imaginou se amordaçarem a imprensa brasileira? Não queremos transformar o país na Venezuela — disse Indio.

O candidato a vice na chapa de Serra pregou a parceria com o governador reeleito Sérgio Cabral (PMDB), sem citá-lo, caso o tucano seja eleito. Entre as promessas feitas para o Rio, está a criação do Ministério da Segurança, com apoio e expansão das UPPs, bandeira de Cabral adotada por Dilma.

— Ninguém vai governar olhando para trás e para as carteirinhas de filiação partidária — ressaltou Indio, dizendo que a população não conhece as propostas de Dilma e que ela “conta uma lorota aqui, outra lorota ali”.

Já Arolde de Oliveira criticou o risco de “ditadura do Estado” com o PNDH-3: — Ali estão previstas agressões à democracia.

É uma série de projetos que contrariam nossas vocações democráticas, que desconstroem as instituições brasileiras e, principalmente, contrariam, agridem e desmontam os princípios cristãos sobre os quais o Brasil, desde o Descobrimento, tem montado suas tradições. Eles querem fazer a ditadura do Estado — discursou Oliveira.

A intenção dos aliados de Serra é convencer os eleitores, principalmente os evangélicos, de que, com Dilma, o PNDH-3 será aprovado e, assim, temas como aborto e direitos reivindicados por gays serão legitimados.