segunda-feira, 23 de abril de 2012

CPI não terá participação de estrelas dos partidos

Uma CPI sem caciques

Estrelas dos principais partidos da base governista recusam-se a participar da comissão que vai investigar Carlinhos Cachoeira e alegam que estão sobrecarregadas com outras tarefas


Denise Rothenburg e Juliana Braga


Brasília – Escaldados depois de várias comissões parlamentares de inquérito (CPIs), os grandes nomes dos partidos planejam ficar longe da comissão mista que vai investigar os negócios do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, a ser instalada esta semana. O líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), por exemplo, avisa que não pretende compor o colegiado. "Líder pode falar a qualquer hora. Não serei da CPI. Nunca quis ir para a CPI", afirma. Na mesma linha seguem o líder do governo, Eduardo Braga, e o ex-líder do governo Romero Jucá (PMDB-RR). O peemedebista, cogitado para ser presidente da comissão, comunicou ao líder que considera a função de relator do Orçamento trabalhosa demais para dividir a atenção. Quanto a Braga, entretanto, o martelo não está batido.

O PMDB tem cinco vagas de titulares na CPI. Um deles será o presidente da comissão, Vital do Rego (PB). Uma vaga será cedida ao PP e ficará com o senador Ciro Nogueira (PI). As outras três ainda não estão definidas. Além de Eduardo Braga, um dos nomes a serem incluídos deve ser o do senador Clésio Andrade (MG), presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Clésio é cristão novo nas hostes petistas. Durante a crise que tirou o PR do Ministério dos Transportes, ele estava no partido, o mesmo do ex-ministro Alfredo Nascimento.

O PMDB não é o único partido em que senadores de ponta desejam ficar fora. No PSB, Rodrigo Rollemberg (DF) foi aconselhado a não fazer parte dela. "Estou muito focado na Rio+20. Junho está chegando. Não posso participar da CPI", diz ele. Mas há outras razões: Rollemberg desponta como pré-candidato a governador do Distrito Federal. Seu partido é aliado do governo de Agnelo Queiroz, que terá o que explicar na CPI.

O principal mistério da comissão ainda é o PT. Titulares e suplentes continuam indefinidos devido a disputas internas dentro da legenda. A briga para definir se os petistas da CPI serão mais alinhados ao Planalto ou a personagens históricos, como o ex-presidente Lula e o ex-ministro José Dirceu, não se restringe ao relator. A tendência é de que a presidente Dilma Rousseff ganhe a queda de braço e os escolhidos para ocupar as três vagas às quais a sigla tem direito tentem proteger o governo federal e as obras do PAC.

O líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP), a quem cabe a decisão a respeito dos deputados, desconversa e nega a existência do impasse. Ele diz que os selecionados serão alinhados "ao Planalto, à Dilma e ao Lula". Tatto disse que andou conversando com "todo mundo" e que os nomes que anunciará amanhã não reduzirão as investigações às relações das empreiteiras com o governo federal. "É para apurar grampo, arapongagem, parlamentares... É uma CPI que não é só de empreiteira", enfatizou ele.

Começo equilibrado  

A impressão geral é a de que a CPI tende a um começo mais equilibrado do que se imaginava. Nem o PR, que chegou a retirar o apoio ao governo na Câmara depois de ter Alfredo Nascimento defenestrado do Ministério dos Transportes e não ter escolhido um sucessor que agradasse à legenda, é visto como possível ameaça dentro da base aliada. Anthony Garotinho (PR-RJ) tentou ocupar a vaga, mas não foi aceito pelo partido. "O PR tem um nome só. É incapaz de causar problemas", acredita o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), que será titular da comissão.

Até o deputado Rubens Bueno (PR), titular da comissão e líder do PPS, partido de oposição na Câmara, evita bater no governo federal nessa largada. "Há no Congresso uma preocupação de sair de uma crise grave como essa. É preciso dar um novo rumo", diz, otimista, completando que acredita que essa CPI será "para valer". Admite preocupação apenas quando questionado se, tendo a maioria, a base aliada não tentará queimar os envolvidos ligados à oposição. "Há uma preocupação com relação a isso, ninguém pode negar", reconhece. O deputado Stephan Nercessian (PPS-RJ) é um dos citados nas investigações.

As disputas tendem a ser reduzidas, pois as investigações já trouxeram à tona nomes de partidos da base e da oposição, em diversas esferas do governo. Acredita-se que a CPI comprometerá apenas os envolvidos já descobertos e, para evitar novas surpresas em ano de eleição municipal, as brigas devem ser menores que em outras comissões parlamentares de inquérito.

Por ser ano eleitoral, os parlamentares estão ainda mais preocupados com as redes sociais e as repercussões que podem vir das investigações. Por isso evitam comprometer-se. Exemplo disso é o caso do deputado Sandro Alex (PPS-PR), que não assinou o pedido de criação da CPI porque estava viajando em missão oficial pela Comissão de Ciência e Tecnologia, da qual faz parte. Alvo de críticas na internet, fez questão de apressar-se a prestar esclarecimentos e justificar suas atitudes.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Governos discutem drama da estiagem


Ministros e governadores do Nordeste se reúnem hoje, em Aracaju (SE), para avaliar os impactos da seca na região. Só em Pernambuco, 29 municípios já decretaram emergência. Estado discute, ainda pela manhã, esboço da pauta local.

Apelo contra a estiagem

Entre outras coisas, Estado vai pleitear ao governo federal poços, dessalinizadores e 800 carros-pipa por dia


Da Redação com agências

Com estado de emergência decretado em 29 municípios por conta da seca, Pernambuco pleiteará do governo federal, hoje à tarde, em reunião em Aracaju, Sergipe, um conjunto de obras hídricas. Poços, dessalinizadores e fornecimento de 800 carros-pipa por dia estão entre as reivindicações que serão feitas, durante encontro de governadores do Nordeste com ministros.

Um esboço da pauta, que será discutida hoje de manhã, no Palácio do Campo das Princesas, sede do governo estadual, se baseia em quatro eixos: manutenção e agilização de obras federais, agilização e execução de convênios já existentes, celebração de novos convênios e ampliação de crédito rural. Em seguida, governador, secretários e dirigentes de agências estaduais partem para Sergipe.

As ações prioritárias para contornar os efeitos da estiagem em 22 municípios do Sertão e sete do Agreste foram elencadas por três secretarias – de Agricultura e Reforma Agrária, Recursos Hídricos e Energéticos, Planejamento e Gestão e Desenvolvimento Social e Direitos Humanos – além da Agência Estadual e Água e Clima (Apac) e o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA). O governo não revelou quanto somam os valores dos convênios a serem celebrados.

Os efeitos da estiagem atingem a agricultura e a pecuária. Cerca de cem mil pequenos produtores rurais do Sertão já perderam suas lavouras de milho e feijão.

Segundo o secretário de Agricultura e Reforma Agrária do Estado, Ranilson Ramos, 300 mil toneladas de alimentos deixaram de ser produzidos. A perda, disse ele, chega a 95% dos plantios. Nos 5% restantes, disse o secretário, a falta de chuva comprometeu a qualidade dos produtos.

Ranilson Ramos considera a situação grave e irreversível. O Estado, afirmou, tenta agora salvar os rebanhos bovino, caprino e ovino, que somam seis milhões de cabeças. Com a estiagem, os criadores intensificaram as vendas para abate, receosos com a falta de pastagens e perda de peso dos animais.

Boletim meteorológico aponta que tem chovido de 50% a 75% menos do que a média histórica dos últimos 30 anos no Semiárido de Pernambuco. Na opinião do secretário de Planejamento, Alexandre Rebêlo, o Estado pode reviver os anos de 1983 e 1984, quando enfrentou uma grande seca.

Do total de municípios em estado de emergência decretado em nível estadual, seis têm a situação de emergência reconhecida pelo governo federal. São eles: Afrânio, Belém de São Francisco, Dormentes, Petrolina e Parnamirim, no Sertão, e Taquaritinga do Norte, no Agreste. O restante passa por análise.

Chuvas

O secretário Ranilson Ramos explica que o regime de chuvas no Estado começa no interior e segue para o litoral. “As chuvas no Sertão têm início em outubro e podem ir até março. No Sertão não choveu, foi perdida a produção agrícola. Há uma venda muito grande de animais, as pessoas não conseguem mais manter seu gado, seu rebanho e começam a vender. Agora começa o período de chuva no Agreste, mas já se revela menor. Vai até maio e junho e estamos acompanhando esse desempenho.”

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Geraldo Azevedo - Você se lembra

Hora do show!:: Ricardo Noblat


"Essa pode ser a CPI mais sangrenta da História". (Senador Valdir Raupp, RO, presidente do PMDB)

Um veterano senador procurou o colega José Sarney (PMDB-AP) tão logo se convenceu da criação da CPI que investigará eventuais crimes cometidos pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira e sua gangue. "Aqui no Senado somos os mais experientes em matéria de CPIs. Essa vai dar no quê?" – perguntou. "Em merda. E nos caberá limpá-la", ouviu de Sarney.

CPI é instrumento de luta da oposição. Governo é exterminador de CPIs. O que as CPIs apuram é remetido ao Ministério Público. A do Cachoeira será uma CPI pelo avesso. A oposição jamais cogitou dela. O PT cogitou e conseguiu montá-la.Tudo o que a polícia e Ministério Público apuraram desde 2009 servirá para dar partida à CPI.

Não lembro de político conhecido, filiado a qualquer partido, que tenha feito uma defesa entusiasmada da CPI do Cachoeira. Há um silêncio ensurdecedor a respeito, principalmente dos governadores. É como se todo mundo pensasse assim: "Com toda a certeza vai dar merda". É da natureza das CPIs.

Lula é o pai da CPI do Cachoeira. Dilma recusou-se a ser a mãe. A CPI foi concebida para alcançar dois objetivos. O primeiro: enlamear a biografia do maior número possível de políticos e de administradores públicos no ano em que a Justiça poderá julgar o caso do mensalão. Assim, a conta do mensalão ficará menos pesada para o PT.

Lembra daquele personagem de Chico Anísio dono do bordão "Sou, mas quem não é?" No passado remotíssimo, o PT se dizia um partido imaculado — os outros é que eram sujos. Uma vez que chegou ao poder acabou ficando tão sujo quanto os outros. Hoje, o PT se esforça em demonstrar que os outros são iguaizinhos a ele.

O segundo objetivo da CPI inventada por Lula em parceria com José Dirceu e o PT: disputar com o julgamento do mensalão a atenção do distinto público. Desse ponto de vista, reconheça-se, o objetivo foi alcançado antes mesmo de a CPI deslanchar de vez. Por ora, fala-se mais dela do que do julgamento dos mensaleiros. Em compensação...

Em compensação, o processo do mensalão se arrastava preguiçosamente no Supremo Tribunal Federal (STF). O voto do relator, ministro Joaquim Barbosa, está pronto. Mas para que o julgamento comece falta o voto do ministro-revisor Ricardo Lewandowski. O barulho provocado pela CPI obrigou Lewandowski a trabalhar mais rápido.

Ainda não é certo que o STF julgue neste ou no próximo semestre os 38 réus do mensalão. Porém, já foi mais incerto. Um denso clima de pressa se impõe nos gabinetes dos 11 ministros. E na maioria deles se aposta que o destino dos mensaleiros será definido por um ou dois votos de diferença. Talvez três. A depender.

A depender do ministro Antonio Dias Toffoli, que ainda não sabe se votará. Toffoli foi assessor do líder do PT na Câmara dos Deputados entre 1995 e 2000. Advogado do PT nas duas campanhas presidenciais de Lula, trabalhou com Dirceu na Casa Civil de 2003 a 2005. Lula o nomeou Procurador Geral da República e ministro do STF.

Embora ainda se mexa, a primeira vítima da CPI do Cachoeira jaz estendida no chão — a empreiteira Delta de Fernando Cavendish, dona de obras de porte em todos os estados brasileiros. Cautelosa, Dilma autorizou a Controladoria-Geral da União a abrir processo para avaliar se a Delta deve ser declarada inidônea e proibida de participar de licitações oficiais.

Dilma finge que não se mete com a CPI. Diz que ela é assunto afeito unicamente ao Congresso. Fatura a imagem de boa moça que não teme a apuração de malfeitos. Menos, menos! À sombra, Dilma influencia na indicação de nomes para a bancada do governo na CPI. E exige ser ouvida sobre qualquer coisa que se passe por lá.

Compreensível que se comporte assim. O que fascina numa CPI é que nem o presidente da República, por mais forte que seja, pode dormir em paz enquanto ela durar. Um boy, uma secretária ou um motorista são capazes de tirar o sono do presidente e deixar o país com a respiração suspensa.

FONTE: O GLOBO

CPI, classe média e más companhias:: Wilson Figueiredo


Ainda não é o fim, que pode estar longe, mas esta Comissão Parlamentar de Inquérito, tudo indica, tem o suficiente para  um bom começo. O resto depende apenas do que o governo e a oposição entendem por um bom começo para uma CPI. Governo e  oposição divergem no entendimento do que seja um bom começo para encerrar questão de vida para um e de morte para o outro. Trata-se de CPI para uma exuberante catarata. O fato é que, num país pobre de idéias e rico de vias (expressas e exclusivas) de enriquecimento, não se joga pela janela uma CPI gorda de imprevistos.

Em suma, como solução de emergência, CPI não pinga o ponto final num indeterminado período nacional,  mas pode perfeitamente ser o começo (que ficou faltando) de uma etapa compensatória, sempre adiada e já agora sem o viés de golpe. Uma reforma com inicial maiúscula, sempre engavetada, era oferecida como alternativa para propostas e soluções  por via radical que não passava de espuma retórica. Nada além de motor de arranque de oradores sedentos de quinze minutos de sucesso radical para fazer currículo.

A História tem o método, ou mesmo o hábito, tanto faz, de preferir as vias sinuosos, curvas inesperadas e efeitos especiais. A última oportunidade de reformas como opção nacional ocorreu com a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, sob a expectativa de que o Século 21 trazia com ele o reconhecimento de que as revoluções estavam arquivadas por tempo indeterminado. E assim o novo sentido de esquerda estava expresso na carta que Lula dirigiu aos brasileiros e, finalmente, ao se instalar no poder, reverenciou os valores da direita e não se falou mais em reformas nem de revolução.

Como diria  Gertrude Stein, uma CPI não é mais que uma CPI, uma CPI, outra CPI,  à qual o Brasil retorna, depois de várias voltas em torno do próprio umbigo constitucional. Duas daquelas a que recorremos, no passado mais remoto e na Nova República, inclusive em tentativas que se frustraram, com resultado e conseqüências em dose suficiente para evitar queixas.

 A primeira CPI, sob a Constituição de 1946, inverteu o curso político nacional. no segundo governo eleito depois da ditadura (Estado Novo). Começou como se nada quisesse proporcionar além do espetáculo parlamentar, com o objetivo de apurar privilégios bancários oficiais que fizeram do jornal Última Hora um sucesso político à sombra de Getúlio Vargas de volta ao poder cinco anos depois (com a agravante de ter sido pelo voto) e com as imprevisíveis conseqüências que proporcionou. A maior de todas, logo  adiante, a morte do presidente Vargas, que não estava entre as possibilidades admitidas previamente.

A outra CPI foi a que deu o toque wagneriano à mobilização social da mesma classe média e persuadiu o primeiro presidente eleito pelo voto direto, Fernando Collor de Melo, a deixar o governo  por um preço político menor. Bem depois, o mensalão, assim batizado por Lula, sobreviveu por falta de conclusão e continua por aí como a famosa mula sem cabeça com que o ex-presidente pretende amedrontar a oposição em fase minguante. As demais comissões parlamentares de inquérito não tiveram cotação política, nem expressão nacional.

A primeira CPI que renasce das cinzas quentes de um fictício parlamentarismo de coalizão, para dizer o mínimo, introduziu um componente político a ser considerado com outros olhos: a participação pessoal de Lula na função de insuflador do jogo perigoso, como atesta o espetáculo de corrupção em cartaz.   

Uma CPI é uma CPI, não mais do que o título genérico enuncia, e as conseqüências que se pagam para ver. Afinal, a História não passa de um jogo de cartas de que se ocupam deuses do Olimpo, no tédio da eternidade.

FONTE: JORNAL DO BRASIL

Polos magnéticos:: Melchiades Filho


O desejo de retomar protagonismo no jogo político explica o empenho de Lula na instalação da CPI do Cachoeira. Não se trata apenas de "fígado", "sede de vingança" ou "sangue nos olhos".

Foi por determinação de Lula que a direção do PT exortou a militância a cobrar investigações sobre os negócios do contraventor e sua ligação com líderes da oposição. Partiu do ex-presidente, também, a ordem para o partido fechar apoio à CPI.

Há a intenção declarada de empastelar o mensalão -denunciar os crimes da gangue de Cachoeira como o "maior esquema de corrupção da história", para diminuir o impacto do julgamento do principal escândalo da era Lula. Mas não é só isso.

O sucesso de Dilma Rousseff em boa medida se deveu ao esmaecimento da herança lulista -da "faxina" que extirpou ministros remanescentes à guinada da política monetária, da degola de líderes no Congresso às mexidas na Petrobras.

A CPI interrompe a desconstrução. Emancipa Lula do papel secundário de cabo eleitoral de candidatos a prefeito, devolvendo-o a Brasília.

É sintomático que o ex-presidente faça articulações pró-CPI no hospital em que se recupera do câncer e cuide para entregar a relatoria da comissão ao PT paulista. Para ele, é ótimo que a teia de Cachoeira seja multipartidária: mais legendas terão de entrar na fila do beija-mão.

Em princípio, a CPI não interessa a Dilma. Ela planejava resgatar a "gerentona" -esquecida no primeiro ano e fazer um 2012 de realizações. O caso Cachoeira, contudo, monopolizará o noticiário. Em vez de discutir a queda de juros ou os novos projetos para a ciência, a imprensa se ocupará de fraudes e propinas.

Mas Dilma tem dois alentos. O brasileiro, a despeito de tanta confusão, ou por causa disso, gosta da presidente. E talvez não seja ruim ela ter como contraponto, na política, logo o padrinho e confidente. De um lado é PT, do outro também.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Manipulação:: José Roberto de Toledo


A popularidade de Dilma Rousseff vai subindo: chegou a 64% de avaliação positiva. Praticamente dois em cada três brasileiros acham seu governo bom ou ótimo. Dilma só perde para Lula no auge. Em um mês, o saldo de aprovação presidencial ("ótimo + bom" menos "ruim + péssimo") subiu 11 pontos porcentuais: de 48 pontos no Ibope de março para 59 pontos no Datafolha de abril. Vai ter gente xingando a opinião pública. De novo.

A aceleração da popularidade presidencial sugere que o corte dos juros no atacado e no varejo foi um gol aos olhos do público. Era previsível. Juros altos são malvistos pela população. Ao derrubar as taxas do Banco Central e obrigar os bancos federais a fazerem o mesmo, Dilma ampliou o crédito e facilitou a vida do consumidor. De quebra, como o Banco do Brasil está descobrindo, cai a inadimplência.

É um paradoxo aparente: enquanto a economia está em expansão, quanto mais gente toma empréstimo ou faz crediário, menor o risco de quem empresta o dinheiro. Os caloteiros se diluem na massa de bons pagadores. Pobres tendem a pagar suas dívidas mais em dia do que ricos, logo, quanto mais gente tomando emprestado, melhor para os bancos. Em tese.

Na prática, depende da posição relativa de cada banco no mercado de crédito. Para não ver sua fatia murchar, os bancos privados precisam correr atrás do consumidor, mas não é fácil recuperar o terreno perdido. Quem saiu na frente levou vantagem, capturou a clientela.

No Brasil pré-consumo de massa, os bancos se acostumaram à alta rentabilidade de poucos empréstimos. Agora, com os juros menores do BB e da CEF, os bancos precisam compensar a perda de margem de lucro com ganhos de escala. Nem todos vão conseguir. A gritaria vai piorar.

Nessas horas desponta o discurso de autoridade. Especialistas esgrimem argumentos técnicos e jargão incompreensíveis ao senso comum. Agouram o crescimento e alertam para a catástrofe na esquina. Embora o retrospecto não lhes favoreça, podem ter razão. Ou pode ser que estejam apenas defendendo o status quo.

Não é incomum. No Brasil como nos EUA, toda vez que as coisas não saem como quer a minoria, a culpa é da maioria ignorante e manipulada. Nem se imagina a possibilidade de a opinião pública agir racional e pragmaticamente em prol de seus próprios e egoísticos interesses.

Por essa versão, o republicano George W. Bush foi um dos presidentes mais impopulares da história norte-americana simplesmente porque a mídia liberal manipulou a verdade (e não porque ele foi incompetente).

O democrata John Kerry tomou uma lavada eleitoral do mesmo Bush por causa da propaganda mentirosa dos republicanos (e não porque ele foi inapto). É reconfortante. Exime a autocrítica. Dá férias ao superego.

No Brasil, quando Lula perdeu três eleições presidenciais seguidas, foi por culpa da mídia, que manipulou a massa de manobra que, afinal de contas, deve ser o eleitorado. Quando o petista ganhou três eleições presidenciais seguidas, foi culpa do mesmo eleitor manobrável. A minoria muda de lado, suas desculpas não.

No último meio século, estudo após estudo tem chegado à mesma constatação: o eleitor é mais esperto do que seu estereótipo nos faz acreditar.

Os eleitores votam de acordo com sua percepção dos méritos e do passado dos candidatos. O eleitor identifica diferenças nas propostas dos candidatos e vota nas de que gosta mais. Apesar dos seus limites de tempo e conhecimento, os eleitores encontram guias para votar de acordo com seus interesses. São conclusões das ciências sociais, calçadas em pesquisas de opinião.

Se, como diz a ciência, o eleitor não é um cordeiro temperado para digitar na urna o que lhe mandam, quem ganha com a repetição interminável da ideia de que ele é manipulável? Os pretensos manipuladores, é claro.

Como escreve o professor emérito da Rutgers University (EUA) Gerald Pomper, "se o eleitor é um idiota, por comparação os especialistas são espertos; se o eleitor não tem noção, ele precisa de alguém sabido para lhe indicar o caminho".

Ou seja, mesmo que o estereótipo do eleitor manobrável seja falso, a sua propagação abre um rico mercado de "manipulação" para marqueteiros, politicólogos, consultores, jornalistas e blogueiros. Além de servir de consolação para a minoria derrotada na batalha da opinião pública.

No limite, quem compra acriticamente a ideia de que o eleitor é um inocente útil está pronto para comprar também os pretensos serviços de manipulação do eleitorado. Quem é manipulável, afinal?

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Roteiros para Cuba:: Renato Janine Ribeiro


Não acredito que a Cúpula das Américas tenha ficado sem um texto final só porque Estados Unidos e Canadá não endossaram a posição, majoritária no continente, sobre a integração de Cuba e a pretensão argentina às Ilhas Malvinas. Afinal, o único país que se importa com as ilhas geladas é a própria Argentina; quanto à ilha tropical, faz tempo que Cuba deixou de ter peso na política do mundo. Hoje, só lhe resta o papel simbólico. Terá servido, se tanto, de pretexto para a maioria manifestar sua irritação com o descaso de Washington por agendas mais substanciais, e para os americanos agradarem aos cubanos da Flórida. Se a reunião prometesse algo importante, a bola não teria sido jogada para escanteio.

Mas por que Cuba perdeu o relevo político que foi seu, na época em que vencia os sul-africanos em Angola e Fidel tentava mediar o conflito da Somália com a Etiópia, ambas "socialistas" (assim, entre aspas)? E para onde se orienta esse país? Porque, hoje, a única importância que lhe resta é a que lhe dão os Estados Unidos.

Em outubro, fará meio século a crise dos mísseis, que quase levou à guerra nuclear, por conta de foguetes soviéticos com ogivas nucleares em Cuba. Por duas semanas, o futuro do planeta esteve por um fio. Hoje, essa cena parece impossível. Atualmente, conflitos locais permanecem locais. Um atirador louco em Sarajevo não enlouquecerá o mundo. Um assassínio localizado não causará dezenas de milhões de mortes. Melhoramos.

Cuba aceitou o capital, desde que sem burguesia

Mas o que fazer em Cuba e com Cuba? Vale a pena pensar a respeito.

Primeiro, em algum momento acabará o bloqueio. Os Estados Unidos, que não perdoam o momento em que a ilha foi um Davi heroico contra o Golias mau do imperialismo, esperam a saída dos irmãos Castro. Talvez queiram ver humilhado o regime cubano. Mas percebem que, enquanto isso, Cuba abre espaço econômico para o capital europeu. Se os americanos demorarem, Cuba continuará sendo - para eles - só uma foto velha na parede. Talvez doa.

Segundo, a restauração do capitalismo parece uma questão de tempo. Em que dimensão, resta discutir. Há vários roteiros possíveis. A depender de Fidel, pouco acontece. O problema não é o capital externo, que ele aceitou - mas a formação de uma burguesia cubana. Para ele, uma burguesia local significaria o fim da pureza ética e a legitimação da ganância. Essa é a questão crucial. Como as coisas escapam gradualmente de Fidel, creio que Raúl prefira um cenário chinês "com rosto humano". Manteria o poder político e policial no partido, abriria o capitalismo, inclusive nativo, tentando conter seu instinto animal - e o rosto humano estaria numa rede de proteção social maior que a chinesa. Sem isso, de nada terá valido enfrentar Golias. Mas como conter uma burguesia cubana dinâmica?

Outra via pode estar na restauração do capitalismo, somada à queda do PC. Contudo, embora essa opção possa agradar a Washington, traz problemas. Talvez eu leve a sério o belo romance policial (anticomunista) de Roberto Ampuero, "Falcões da noite", em que a CIA impede um atentado contra Fidel. Porque uma instabilidade aguda numa ilha tão perto da Flórida seria um desastre para os Estados Unidos. Eles estariam para Cuba como a Alemanha Ocidental para a Oriental, após a queda do muro: um lugar rico, onde todos têm o direito legal de ir morar. Ampuero imagina 1 milhão de cubanos fugindo para Miami em dias, com muitos morrendo no mar e outros sobrecarregando a população do Estado.

Os americanos têm interesse numa transição controlada. Mas controlada por quem, se não for pelo regime cubano? A questão cubana está cheia de quadraturas do círculo... O discurso público do governo americano, contrário a qualquer concessão a Havana, não expressa exatamente o que seus dirigentes pensam. Washington prefere que nenhum Castro esteja presente, mas seu pior receio é um milhão ou mais de latinos invadindo seu território.

E a diáspora cubana? Ela e a comunidade judaica controlam segmentos importantes da política externa americana. Quando Clinton mandou devolver ao pai o menino cubano que foi parar em Miami, sacrificou sua sucessão (houve, também, a fraude eleitoral). A diáspora cubana torna o governo americano refém de seus interesses particulares. Mas será bom a diáspora aumentar o diálogo com Havana. Isso funcionará melhor no pós-Castro, mas também é uma condição para a própria transição. Precisa haver negociações tanto da diáspora quanto de Washington com Havana, para evitar a perda de controle. O pior para os americanos seria uma guerra civil cubana ou a debandada para o Norte. Pode ser que já estejam conversando; mas sempre fica a questão de quem pisca primeiro.

Um dia alguém da nomenklatura dirá, como disse nosso ditador Figueiredo sobre os exilados brasileiros, que "lugar de cubano é em Cuba". Esse é um direito essencial dos exilados e seus descendentes. Mas restará negociar quantos, dos cubanos de Miami, poderão e quererão residir e votar na ilha. O regime aprendeu com a queda das ditaduras comunistas na Europa Oriental, mais de 20 anos atrás, e fará tudo para evitar uma reprise desse cenário. Isso inclui evitar que o dinheiro da Flórida compre as primeiras eleições que forem livres - mas também incluirá retirar do Partido e dos Comitês de Defesa da Revolução os próprios públicos que eles possuem e utilizam. Enfim, há parâmetros. O governo comunista pode desabar, o capitalismo voltar, Miami vencer as eleições. Ou o regime pode se abrir, controlando o capital. Entre os extremos, muito pode ser negociado. Quanto mais cedo, melhor.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Venezuela em risco de golpe: hora de dizer não :: Sergio Fausto


Não resta dúvida de que o estado de saúde de Hugo Chávez se agravou. Ele próprio admitiu o fato ao implorar publicamente a Jesus que não o levasse ainda. O apelo dramático deu-se no início deste mês de abril, em missa televisionada para todo o país. A hipótese de que ele não tenha condições físicas de disputar as eleições de outubro deixou de ser possível para se tornar provável. Assim, desenhou-se no horizonte o espectro da alternância no poder, o maior temor do chavismo. De fato, se as pesquisas servem de indicação a esta altura, seis meses antes do pleito, quaisquer dos candidatos do governo, exceto o próprio Chávez, seriam derrotados por Henrique Capriles, o candidato único das oposições.

Para um movimento político que se apoderou do Estado, agigantou-o e o transformou em instrumento para o exercício arbitrário do poder, ainda que sob a fachada de um regime constitucional e democrático, essa é uma perspectiva aterrorizante. Para alguns, inaceitável.

Ainda em novembro de 2010, o general Henry Rangel, chefe de órgão de cúpula das Forças Armadas, disse com todas as letras, em entrevista à imprensa, que em caso de vitória das oposições o povo e os militares se rebelariam. Chávez não apenas não o condenou, senão que o promoveu a uma patente ainda mais alta no generalato. Em janeiro de 2012 nomeou-o ministro da Defesa. Semanas atrás, o general Henry Rangel voltou a declarar inaceitável a vitória das oposições. Chávez afirmou que a aceitaria, sem, no entanto, repreender o subordinado. Ao mesmo tempo, o presidente venezuelano propala a ideia de que as oposições, com ajuda dos Estados Unidos, planejam promover a convulsão social para justificar um golpe de Estado. Como parte dessa encenação política, formou um comitê civil-militar com o suposto objetivo de evitar a subversão oposicionista. E ordenou ao serviço de inteligência que vigiasse governadores e prefeitos da oposição, assim como os comandantes de suas respectivas forças policiais, para prevenir que levassem a cabo o tal plano de desestabilização política.

Todos esses são fatos, amplamente noticiados pela imprensa. A eles se juntam indícios igualmente preocupantes. Em artigo recente, o jornalista venezuelano Nelson Bocaranda afirma ter havido em Havana uma reunião entre oficiais da alta cúpula das Forças Armadas da Venezuela e dirigentes do regime cubano, entre eles o próprio Raúl Castro. Os participantes do encontro teriam discutido a hipótese de empregar as Unidades de Proteção ao Presidente, forças especiais diretamente ligadas a Chávez, treinadas e/ou formadas por cubanos, para realizar atos de provocação que seriam atribuídos à oposição e justificariam uma intervenção militar para a manutenção do regime chavista. Não custa lembrar que Cuba depende vitalmente da ajuda econômica da Venezuela e que os cubanos conhecem exatamente o real estado de saúde de Chávez. Ou seja, estão interessados na manutenção do regime e sabem que ele está em perigo.

Se não podemos afirmar com certeza a veracidade do que escreveu Bocaranda, por outro lado não pode haver dúvida de que algum tipo de intervenção militar nos próximos meses é uma hipótese real na Venezuela. E se ela vier a ocorrer, será pelas mãos do chavismo, com ou sem o seu líder no comando do processo, pela simples razão de que hoje as oposições, mesmo os seus setores menos democráticos, agora minoritários, não dispõem de apoio nas Forças Armadas nem do auxílio de "milícias populares". As armas estão com Chávez e os seus.

É difícil imaginar que uma intervenção armada viesse a produzir um governo, para não dizer um regime, capaz de perdurar no tempo. Provavelmente o poder emergente teria vida curta, mas decerto lançaria a Venezuela numa escalada de instabilidade e violência que faria empalidecer, pela duração e intensidade, a lembrança do caos provocado pelo "Caracazo", em 1989.

Naquela ocasião, a capital do país virou de pernas para o ar em meio à revolta popular contra a política econômica do então presidente Carlos Andrés Pérez, ao final duramente reprimida pela polícia e pelo Exército, deixando mortos e feridos. Desta vez, haveria o enfrentamento entre dois blocos sociais e políticos completamente antagonizados, fraturando a sociedade e as Forças Armadas, num país onde a violência e a disseminação de armamentos já alcançaram níveis alarmantes.

A Venezuela tem 30 milhões de habitantes, é um grande exportador de petróleo, tem uma das maiores reservas provadas desse combustível fóssil no mundo e é a quarta maior economia da América do Sul. O que vier a acontecer nesse país terá repercussões na região. No governo Dilma Rousseff, o Brasil tem mantido uma atitude de maior afastamento em relação a Chávez e ao que ele representa, apesar da proximidade de seu assessor especial para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, com o governo venezuelano (são próximas também as relações de José Dirceu com personagens do regime chavista).

Chegou a hora de o Brasil enviar um recado claro a Hugo Chávez e aos seus: o governo brasileiro não ficará quieto e passivo se houver, sob qualquer justificativa que seja, um intento de golpe ou autogolpe para evitar o transcurso normal do processo eleitoral, já de si muito comprometido pelas arbitrariedades do regime chavista.

A presidente Dilma saberá avaliar o modo e os meios para enviar esse recado. Poderá tomar iniciativa isolada ou se articular com outros chefes de Estado sul-americanos, em especial com o hábil e capaz presidente Juan Manuel Santos, da Colômbia, país vizinho e importante parceiro comercial da Venezuela. Poderá até mesmo se valer dos bons ofícios de seus auxiliares e companheiros de partido que privam da intimidade do atual governo venezuelano.

Só não poderá omitir-se na hora grave que vive a Venezuela.

Sergio Fausto, diretor executivo do IFHC, é membro do GACINT-USP.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Coragem:: Aécio Neves


Há 250 milhões de celulares em uso no país. É espantoso, principalmente quando se sabe que somos hoje cerca de 200 milhões de brasileiros.

Trata-se de uma conquista de toda a sociedade, mas que só pode ser celebrada porque houve, no passado, um governo com coragem para desencadear o processo de privatização da telefonia. Ou, melhor, de democratização da telefonia brasileira.

Lembro os anos 90, quando o PSDB anunciava que, em pouco tempo, todo cidadão brasileiro teria o seu celular. Poucos acreditavam que tamanha mudança seria possível em tão pouco tempo.

É um saldo gratificante para quem, à época, enfrentou incompreensões de toda ordem e duríssimo combate político. Da mesma forma como no passado foi contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e o Plano Real, bases sobre as quais se construíram os avanços recentes registrados pelo país, o PT também posicionou-se contra as mudanças na área da telefonia.

Falava-se de "alienação do patrimônio nacional" -como se pudesse ser riqueza nacional o elitista, exclusivista, caro e precário serviço oferecido então pelo Estado na área das telecomunicações.

Foi uma longa travessia até o inevitável reconhecimento dos incontestáveis benefícios garantidos aos brasileiros pelo acesso amplo e irrestrito às novas tecnologias.

No Brasil de hoje, o celular é o telefone do trabalhador. Cerca de 80% das linhas em funcionamento são pré-pagas. Milhões de outras garantem acesso à internet e, com ela, o acesso à informação, ao conhecimento, à mobilização.

Em plano ampliado, fica cada vez mais nítido o gigantesco esforço realizado para tentar demonizar o processo de transformações estruturais do país, iniciado no governo Fernando Henrique.

Neste caso, de forma simplista, buscou-se criar um "inimigo imaginário" chamado privatização, que passou a ser alvo de ataques ensaiados e refrões repetidos à exaustão, pouco importando se, no fundo, ninguém soubesse exatamente do que estava falando.

As restrições ideológicas à privatização são, hoje, página virada na história do país. Vide, por exemplo, as concessões iniciadas, ainda que tardiamente, para a administração dos aeroportos.

Incoerências à parte, resultados como esse deveriam inspirar quem tem responsabilidade de governar.

Basta caminhar pelo país para constatarmos a urgente e gigantesca demanda por transformações de fundo, que superem gargalos, atrasos e paralisias. Não avançaremos o necessário se nos esforçarmos para ter apenas mais do mesmo. O principal atributo de um governo deve ser a coragem. Coragem para fazer o que precisa ser feito.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A queda dos juros não garante um bom futuro:: Marco Antonio Rocha


As taxas de juros praticadas pelos bancos brasileiros são, em geral, escorchantes?

Sem a menor dúvida. Mesmo com os cortes, ainda são.

O governo fez bem em usar os bancos públicos para "convencer" - digamos - os bancos privados a reduzirem suas taxas?

Sem a menor dúvida. Assim como usa a Petrobrás para manter estáveis os preços dos combustíveis... com riscos para o futuro da empresa e da exploração das reservas do pré-sal.

A economia brasileira poderá, nos próximos meses, ganhar impulso com essa queda dos juros? Um pouco de impulso adicional ela pode ganhar, sem dúvida.

Do ponto de vista político-eleitoral, o governo melhorou o seu ativo? Sem dúvida.

Então, concluindo, o grande e festejado acontecimento econômico-financeiro da última semana, no curto e no médio prazos teve ou terá efeito positivo também para os atuais governantes (do ponto de vista político-eleitoral) e para a população (do ponto de vista econômico), o que nem sempre acontece - na verdade, raramente acontece.

Podemos, pois, garantir que o magno problema do desenvolvimento sustentável da economia brasileira a longo prazo está resolvido? Os pais e mães cujos filhos estão nascendo hoje podem esperar que, nos próximos 3o anos, eles estarão vivendo num país que lhes ofereça - e, então, aos seus familiares - perspectivas mais seguras e promissoras do que as que são oferecidas hoje?

Falamos não só de bons empregos e melhores salários - o que também é necessário. Mas falamos de melhor convívio; maior segurança nas ruas; melhores condições para planejar a vida de uma família; de ambiente social e urbano menos agressivo, com maior adesão às normas de civilidade e urbanidade; de melhor formação educacional, cultural e técnica; de menores interferências arbitrárias dos governos na vida e nos bolsos das pessoas; de menos desfaçatez, corrupção e esbórnia entre os quadros políticos. Falamos, enfim, de tudo aquilo que é imperativo para o verdadeiro desenvolvimento futuro do País.

Infelizmente, a tais quesitos não podemos dar respostas afirmativas, isentas de dúvidas, pelo menos por enquanto.

Mas podemos chegar lá. E para isso, baixar os juros, igualando-os ao nível internacional, é apenas um passinho miúdo.

A economia brasileira é a sexta do mundo, como vem sendo largamente proclamado. Mas atenção: é a sexta do mundo no tamanho, porque o País é grande; não na qualidade e muito menos nos serviços que presta à população em geral. É muitíssimo maior do que a economia da Suíça, por exemplo. Mas, sem querer melindrar os ufanistas fanáticos, que mandam e-mails acusando-nos de derrotistas por nossas críticas, não há como comparar a qualidade que a economia da Suíça oferece à sua população com a que a do Brasil oferece - qualidade de vida presente e qualidade de segurança e perspectivas futuras.

Hillary Clinton saudou nossa presidente Dilma como um exemplo no combate mundial à corrupção. Bom que seja. Mas a verdade é que ela já detém o título de campeã mundial no número dessas batalhas, tamanha a quantidade de "malfeitos" com que se tem defrontado. Duvido que algum presidente atual, de nação responsável, tenha diante de si tantos malfeitores com que lidar e, pior, para cortejar. Isso não é um problema só brasileiro, certo. Mas a larga dose de impunidade e a cultura nacional do "xá-prá-lá" e do "aliso as suas costas, se você alisa as minhas" são coisas nossas, muito nossas, como diria Noel Rosa, e inerentes ao tipo de governança que inventamos.

Ora, exatamente por a economia brasileira adquirir hoje, pelo seu tamanho, importância inédita no mundo é que a seriedade e o rigor dos brasileiros no trato dos malfeitos e com os malfeitores passam à categoria de ativo a ser levado em conta por nossos parceiros. A competitividade certamente é um fator importante para uma economia que quer e precisa se inserir no mercado internacional. Digo precisa pois, no mundo moderno, nenhuma economia progride se não é internacionalizada. Mas outros fatores, talvez até decisivos, são a confiabilidade e a credibilidade não só do que uma economia produz, mas de como negocia seus produtos.

A competitividade da economia brasileira é baixa não só por causa dos juros altos, mas por causa também dos impostos altos, de uma infraestrutura de transportes carente e precária e, na área industrial, pela falta de inovação e design, agravada por mão de obra altamente improvisadora, mas pouco eficiente, que resulta em produtividade deficiente, num setor que cresceu protegido pelo Estado.

São problemas de grande magnitude a demandar décadas de esforços para serem corrigidos. Mas o que preocupa não é o tamanho do problema, mas o fato de, há anos, nenhum governo nos oferecer um plano estratégico global na boa direção, um plano plurianual com metas a serem discutidas, aprovadas e buscadas. O que vemos é só o Executivo em permanente negociação de projetinhos de lei com a base governista no Congresso - na qual pululam malfeitores e contraventores. Não é assim que deixaremos de ser uma economia de segunda mão.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A indústria mundial agradece:: José Márcio Camargo


O excesso de liquidez gerado pela reação dos bancos centrais dos países desenvolvidos à crise de 2008/2009 tem sido um importante fator de valorização das moedas dos países emergentes. Com o excesso de dinheiro no mercado e a ausência de oportunidades de investimento, os recursos se direcionam para os países emergentes em busca de retorno, exercendo forte pressão por valorização das taxas de câmbio desses países.

Nesse sentido, as reclamações do governo brasileiro quanto aos efeitos perversos das políticas monetárias excessivamente frouxas sobre a competitividade da indústria de transformação do País são totalmente procedentes. Entretanto, em razão da falta de opções para enfrentar a crise, não se deve esperar que os bancos centrais destes países mudem suas políticas no curto prazo.

Por outro lado, esse não é o único e, provavelmente, nem o mais importante responsável pela valorização do real. O aumento da demanda por commodities exportadas pelo Brasil (soja, carne, minério de ferro, etc.) e o aumento de seus preços no mercado internacional fizeram com que os preços dos produtos exportados pelo Brasil subissem a uma taxa muito maior do que os preços dos bens importados. O resultado foi um grande aumento da oferta de dólares e a desvalorização do dólar ante o real. Portanto, ainda que as políticas monetárias fossem menos frouxas, a tendência à valorização do real permaneceria, apenas com menos intensidade.

A reação do governo e do Banco Central brasileiros à valorização do real tem se mostrado bastante agressiva. Porém, a meu ver, essa reação tem se dirigido para resolver um falso problema - aumentar o consumo das famílias -, e não para o problema real, a queda da produtividade da indústria, o que pode gerar resultados negativos para o setor industrial no médio prazo. Esse aparente paradoxo decorre do forte aquecimento do mercado de trabalho brasileiro, com taxas de desemprego muito baixas, tanto para padrões históricos quanto em relação ao padrão internacional, e do fato de que os salários nominais no Brasil são bastante sensíveis às variações da taxa de desemprego. Analisemos alguns exemplos.

O aumento dos impostos sobre os bens importados deverá gerar uma elevação dos preços desses bens e criar espaço para que os similares produzidos no Brasil tenham seus preços aumentados - o que permitirá um crescimento da margem de lucro dessas empresas. Num primeiro momento, isso significa um alívio. Mas, com o mercado de trabalho aquecido, o aumento da inflação decorrente da elevação do preço dos bens importados e seus congêneres nacionais será repassado aos salários nominais, aumentando o custo do trabalho e, com isso, eliminando o ganho de margem de lucro inicialmente obtido.

A menos que ocorram novos aumentos de impostos, o resultado final para a indústria é nulo. Como o empresário antecipa esse movimento, não amplia os investimentos e a produtividade se mantém em queda.

O crescimento da oferta de crédito tem também o efeito de aumentar o consumo das famílias. A ampliação da demanda dos setores de serviços, comércio e construção civil pode ser atendida por aumento de oferta interna ou por aumento de preços, caso não exista capacidade produtiva para fazer crescer a oferta. Como esses são setores muito intensivos em trabalho e a taxa de desemprego está muito baixa, o aumento da oferta será limitado pela falta de mão de obra, pressionando os salários e, portanto, os preços desses setores. Na incapacidade de subir seus preços por causa da concorrência com os produtos importados, o resultado para o setor industrial será um aumento do custo unitário do trabalho e redução da competitividade.

A substituição dos impostos sobre a folha de pagamentos por um imposto sobre faturamento terá, na melhor das hipóteses, efeito neutro sobre a competitividade dos setores afetados.

Com menos impostos sobre os salários, num primeiro momento o custo do trabalho deverá cair; a demanda por mão de obra, aumentar; e, caso existissem trabalhadores desempregados com as qualificações adequadas, a taxa de desemprego deveria cair. Como não há trabalhadores ociosos com a qualificação necessária, o aumento da demanda por trabalho vai se transformar em aumento dos salários nominais, anulando a redução de custos decorrente da diminuição dos impostos sobre a folha de pagamentos.

A estagnação da indústria de transformação brasileira se deve à perda de competitividade decorrente do desempenho medíocre do investimento, da produtividade e do aumento do custo unitário do trabalho. Medidas que ampliem o consumo das famílias, num ambiente em que a taxa de desemprego se encontra em níveis já muito baixos, ainda que possam ter algum efeito no curto prazo sobre o desempenho do setor, geram mais pressão por aumentos de salários nominais, aumentam o custo unitário do trabalho e reduzem a competitividade, no médio prazo.

O aumento do consumo será, em grande parte, atendido por mais importações. A indústria mundial agradece.

Professor do Departamento de Economia da PUC/Rio

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Entrevista:: Caetano fugiu do tema, diz Schwarz


Cortina de fumaça

RESUMO. Em resposta à entrevista concedida por Caetano Veloso na "Ilustríssima" do último domingo, o crítico literário Roberto Schwarz diz que não escreveu seu ensaio sobre "Verdade Tropical" "para pegar em Caetano o rótulo de direitista, e muito menos de esquerdista, mas de herói representativo e problemático".

Flávio Moura

"Ele mudou de assunto. Parece piada." Para o crítico Roberto Schwarz, a entrevista de Caetano Veloso publicada na "Ilustríssima" de 15/4 não entra no mérito dos argumentos de seu ensaio sobre "Verdade Tropical" (1997), volume de memórias do compositor. O texto, inédito, faz parte da coletânea recém-lançada "Martinha versus Lucrécia" [Companhia das Letras, 320 págs., R$ 44].

Caetano criticou Schwarz e Marilena Chaui:"Por que nunca têm nada a dizer sobre o que se passa na Coreia do Norte?". Schwarz rebate: "O interesse pela Coreia do Norte é sobretudo cortina de fumaça para não falar de meu livro."

Certa vez, num evento, perguntaram a Schwarz quando sairia o texto sobre Caetano. Ele disse: "É demorado, pois é preciso ver muitas coisas de muitos lados diferentes". O ensaio cumpre a promessa.

Schwarz é generoso com a obra do compositor: brilhantismo, inteligência, complexidade dialética, sensibilidade -não faltam conotações positivas à condução do argumento. É raro que uma obra literária recente receba escrutínio tão minucioso. Nesse sentido, não está em discussão apenas a vitalidade de "Verdade Tropical", mas da crítica literária produzida hoje.

O livro também traz dois textos que avançam na interpretação sobre Machado de Assis, tema que domina sua obra. Num deles, cujo argumento se desenrola a partir de uma crônica, "O Punhal de Martinha", o ensaísta reivindica que a universalidade de Machado seja buscada na matéria local brasileira, e não em sua superação, como quer parte da crítica estrangeira.

Leia a íntegra da entrevista, concedida por e-mail, em que Schwarz comenta a resposta de Caetano a seu ensaio e fala de outros textos do livro, como a resposta ao crítico Alfredo Bosi sobre as "Ideias Fora do Lugar", célebre ensaio de 1973.

Folha - Como leu a entrevista de Caetano?


Roberto Schwarz - Ele mudou de assunto. Em vez de comentar o meu artigo, que é o que estava em pauta, Caetano falou da Coreia do Norte, da União Soviética, de Cuba, da USP, da esquerda obtusa, de Mangabeira Unger etc. Parece piada. Ao contrário do que a entrevista faz supor, não escrevi para pegar em Caetano o rótulo de direitista, e muito menos de esquerdista, mas de herói representativo e problemático. Procurei acompanhar de perto a sua prosa, concatenar e compactar as suas posições, de modo a tornar visíveis as questões de fundo que estão lá e não são óbvias. Tomei o cuidado de sempre apresentar as próprias formulações de Caetano, para que o leitor possa refletir a respeito e tirar conclusões com independência. É o que [Bertolt] Brecht chamava de apresentar os materiais. Como crítico literário, sou sensível à força estética do livro, naturalmente para analisá-la. No caso, fazem parte inseparável dela as atitudes mais controvertidas do autor, tais como a autoindulgência desmedida, o confusionismo calculado e os momentos de complacência com a ditadura (os militares tomaram o poder "executando um gesto exigido pela necessidade de perpetuar essas desigualdades que têm se mostrado o único modo de a economia brasileira funcionar", "Verdade Tropical", pág. 15), o que não exclui a simpatia pela guerrilha. É ler para crer. À maneira dos romances narrados em espírito de provocação -por exemplo, as "Memórias Póstumas de Brás Cubas"- "Verdade Tropical" deve muito de seu interesse literário a certa desfaçatez camaleônica em que Caetano, o seu narrador, é mestre. Penso não forçar a mão dizendo que a representatividade histórica do livro passa por aí. E o seu caráter problemático também, já que o quase romance não deixa de ser um depoimento.


O sr. vê fundamento na cobrança de Caetano de que a esquerda comente temas como a Coreia do Norte?


É claro que a reflexão informada e crítica sobre as experiências do "socialismo real" é indispensável à esquerda, e aliás ela existe. [Theodor] Adorno, que Caetano absurdamente menciona como inimigo da liberdade, é uma grande figura dessa reflexão no campo estético. Dito isso, penso que, no caso, o interesse pela Coreia do Norte é sobretudo cortina de fumaça para não falar de meu livro.


Por que o ensaio vem à tona 15 anos depois do livro de Caetano?


Logo que o livro saiu, vi que era notável à sua maneira e merecia discussão. Como não tenho pressa, levei 15 anos para sentar e escrever. Ainda assim, espero não ter perdido o bonde.


Em que medida o texto aprofunda os argumentos sobre a Tropicália expostos em seu ensaio "Cultura e Política: 1964-1969"?


"Cultura e Política" foi escrito em 1969, na hora pior da ditadura e logo após a eclosão da Tropicália. "Verdade Tropical", de Caetano, que reapresenta aqueles tempos, foi publicado 30 anos depois, em pleno triunfo neoliberal. Já "Um Percurso de Nosso Tempo", redigido em 2011, tem a ver com a crise atual do capitalismo. São três momentos distintos. A Tropicália do fim dos anos 60 debochava -valentemente- do Brasil pós-golpe, quando a ditadura buscava conjugar a modernização capitalista ao universo retrógrado de "tradição, família e propriedade". A fórmula artística dos tropicalistas, muito bem achada, que juntava formas supermodernas e internacionais a matérias ligadas ao atraso do país patriarcal, era uma paródia desse impasse. Ela alegorizava a incapacidade do Brasil de se modernizar de maneira socialmente coerente. Era uma visão crítica, bastante desesperada, de muito interesse artístico, à qual se misturava certa euforia com a nova indústria cultural, que estava nascendo. Ao retomar o assunto em 1997, nos anos FHC, Caetano atenuou o anterior aspecto negativo ou crítico e deu mais realce ao encanto dos absurdos sociais brasileiros, tão "nossos". Um tropicalismo quase ufanista e algo edificante. No ensaio procurei acompanhar e discutir estes deslocamentos.


Qual a diferença entre fazer crítica dialética hoje e nos anos 1960-70?


A crise atual -de que não estamos tomando muito conhecimento no Brasil- veio precedida pela derrota das tentativas práticas bem como das ideias da esquerda. Assim, não faltam contradições agudas, mas elas parecem não apontar para lugar nenhum, ou só para mais do mesmo. A crítica dialética naturalmente não pode fingir que sabe uma resposta, mas não tem por que acatar como positiva uma realidade que é evidentemente negativa, nem tem por que renunciar à busca de superações. As contradições estão aí, fermentando.


Não é uma novidade auspiciosa que o Brasil possa não tomar muito conhecimento da crise atual?


Desconhecer uma crise mundial, só porque ela não está nos tocando no momento, é sempre uma ignorância, sobretudo para intelectuais.


No livro há uma conferência feita em 2009 sobre "As Ideias Fora do Lugar" (1973) e uma nota de resposta a um questionamento à tese feita por Alfredo Bosi. A que o sr. atribui essa longevidade?


Suponho que ela se deva à existência real do problema, que surgiu com a Independência, no século 19, e até hoje teima em não desaparecer. A uns, as ideias dos países centrais, que nos servem de modelo, parecem o remédio para todos os males; a outros, uma importação postiça e "fora do lugar", que precisa ser recusada -o que os condena a perder o contato com o pensamento do mundo contemporâneo. Como entender a questão? Procurei comentá-la e sobretudo esclarecer os mal-entendidos ligados a esse título de ensaio, que teve sorte e ficou conhecido, mas causou bastante confusão.


O título do livro alude ao ensaio sobre a recepção da obra de Machado de Assis no exterior, no qual o sr. busca mostrar como a "universalidade" do autor está na finura com que ele lida com a matéria local.


É essa a questão que tentei estudar. O reconhecimento de Machado no estrangeiro é crescente e não precisou da reflexão sobre o Brasil para ocorrer. O escritor entrou para o cânon dos grandes do Ocidente, onde ocupa um lugar diferenciado, sem necessitar da referência a seu país. Ao passo que no Brasil se formou uma tradição crítica para a qual Machado é extraordinário justamente porque soube inventar uma forma adequada à nossa peculiaridade histórica e social. São explicações opostas para a grandeza de um mesmo escritor. Como entender essa diferença? Quais as suas implicações? São os problemas que meu ensaio explora, examinando de mais perto e politizando a oposição clássica entre o local e o universal, agora recolocada em termos da ordem mundial contemporânea.


O sr. não parte dos romances, como seria de esperar, mas da crônica machadiana. Vai nisso alguma intenção particular?


De fato, há uma crônica, "O Punhal de Martinha", em que Machado dramatiza a questão do local e do universal com uma graça notável, antecipando cem anos de debate crítico. Procurei analisá-la com cuidado igual ao que merecem os grandes romances e penso que o resultado surpreende.



Aí está, no plano modesto da crônica, uma variante do narrador das obras-primas machadianas, dilacerado entre a irradiação da Europa e os cafundós do Brasil, que aliás podem estar na capital. Trata-se de um mal-estar característico, ou, também, do despeito histórico mundial das elites progressistas de um país periférico. Por inesperado que isso seja, o ar de família com os manifestos modernistas de Oswald e com o clima do tropicalismo salta aos olhos.


Em entrevista de 2011, Antonio Candido afirmou que a crítica literária acadêmica se tornou uma atividade sem riscos, com a nova geração se dedicando apenas a autores consagrados. O sr. concorda?


Se entendi bem, ele estaria valorizando o momento de risco intelectual, de escolha a descoberto, sem o qual a crítica literária se rotiniza ou reduz ao informe publicitário. Mas posso ter entendido mal.


O seu livro é uma coletânea de ensaios circunstanciais, mas há bastante unidade entre eles, que parecem concebidos dentro de um mesmo propósito. É deliberado?


Agradeço a pergunta. É claro que os ensaios têm assunto, origem e forma muito diversa. Mas há a matéria brasileira em comum, com sua estrutura que atravessa os tempos e acaba determinando um conjunto de questões consistentes, retomadas e variadas nos diferentes trabalhos e sugerindo aprofundamentos que valeria a pena perseguir. Para mim mesmo, as correspondências entre a crônica machadiana, a poesia minimalista de Francisco Alvim, a visão pau-brasil e as montagens tropicalistas, por exemplo, vieram como uma surpresa. Noutro plano, os ensaios fazem ver uma coleção de percursos intelectuais e artísticos de nosso tempo, em contraste muitas vezes agudo, cujo conjunto convida a pensar. Aos pedaços, são contribuições para o autoexame de uma geração.


FONTE ILUSTRÍSSIMA/FOLHA DE S. PAULO, 22/4/2012

O Dia Nacional do Choro

O Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril, em homenagem à data de nascimento de Pixinguinha, uma das figuras exponenciais da música popular brasileira, e em especial do choro.

Em 2004, eventos lembraram a data em várias cidades do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Juiz de Fora, Niterói, Santos, São João do Meriti, Uberaba e Uberlândia, São José dos Campos, para citar algumas. Até no exterior, na França e no Japão, o Dia Nacional do Choro foi comemorado.


O choro


O choro entra na cena musical brasileira em meados e finais do século 19, e nesse período se destacam Callado, Anacleto de Medeiros, Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth. Inicialmente, o gênero mesclava elementos da música africana e européia e era executado principalmente por funcionários públicos, instrumentistas das bandas militares e operários têxteis. Segundo José Ramos Tinhorão, o termo choro resultaria dos sons plangentes, graves (baixaria) das modulações que os violonistas exercitavam a partir das passagens de polcas que lhes transmitiam os cavaquinistas, que induziam a uma sensação de melancolia. 
O século 20 traria uma grande leva de chorões, compositores, instrumentistas, arranjadores, e entre eles, com destaque, Pixinguinha.


Pixinguinha


Alfredo da Rocha Vianna Júnior nasceu em 23 de abril de 1887. Cedo dedicou-se à música e deixou um legado de inúmeros clássicos, arranjos e interpretações magistrais, como flautista e saxofonista. Carinhoso, Lamento, Rosa, 1 x 0, Ainda Me Recordo, Proezas de Solon, Naquele Tempo, Vou Vivendo, Abraçando Jacaré, Os Oito Batutas, Sofres Porque Queres, Fala Baixinho, Ingênuo, estão entre algumas de suas principais composições.



O apelido Pixinguinha veio da união de pizindim – menino bom – como sua avó o chamava, e bexiguento, por ter contraído a varíola, que lhe marcou o semblante. Mário de Andrade registrou a presença do mestre na cena carioca, criando em seu livro “Macunaíma”, um personagem: “um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão” (Andrade, 1988). A passagem se dá quando o “herói sem nenhum caráter” freqüenta uma “macumba” em casa de tia Ciata. A caracterização de Mário de Andrade ficou difundida com a biografia de Pixinguinha elaborada por Marilia T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho: “Filho de Ogum Bexiguento” (Rio de Janeiro, FUNARTE, 1979).



Carinhoso - Marisa Monte e Paulinho da Viola

Catadores de lixo:: Graziela Melo


Sofre,
povo medonho!

Sofre,
povo danado!!!

Nessa vida
não vale
o teu sonho!!!

Ninguém liga
para o teu
futuro,

sentem
desprezo
pelo teu
presente

e
se lixam
para
o teu passado!!!

                   Rio de Janeiro, abril 2012.