domingo, 21 de julho de 2013

Painel -Vera Magalhães

Currículo na mesa

Enquanto Dilma Rousseff não bate o martelo sobre a reforma ministerial, que incluiria trocas nas Relações Institucionais e na Fazenda, um ex-ministro do governo Lula tem defendido junto ao ex-presidente o nome de Otaviano Canuto para a cadeira de Guido Mantega. Economista com carreira na Unicamp, ele trabalhou com Antonio Palocci na pasta, em 2003. Hoje, é consultor do Banco Mundial e visto como um nome apara "recuperar a credibilidade" do governo no mercado.
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Dupla jornada Setores do PMDB defendem que, em vez de endossar o substituto de Ideli na coordenação política, o vice-presidente, Michel Temer, assuma diretamente as Relações Institucionais, para devolver o prestígio da pasta junto à base.

Roubada Aliados de Temer, no entanto, afirmam que, diferentemente da Defesa, que José Alencar acumulou quando era vice de Lula, com sucesso, a pasta de Ideli só traz desgastes ao titular.

Tropa de Elite Reclamando de "descaso" de José Eduardo Cardozo (Justiça) com as reivindicações da categoria, a Federação Nacional dos Policiais Federais vai realizar manifestação na terça-feira, no Rio, durante a visita do papa Francisco.

Mapa O Palácio do Planalto ainda insistia em mudar o local do encontro de Dilma e do governador Sérgio Cabral com o papa. O Palácio Guanabara é considerado muito vulnerável.

Vapt-vupt Setores do governo sugeriram que a audiência oficial com o papa acontecesse na própria base aérea do Galeão, logo após o desembarque de Francisco.

Sai da rua Se em 2005 houve corrida de políticos brasileiros para ir aos funerais de João Paulo 2º, parlamentares e governantes adotam postura discreta na vinda de Francisco. "Não há clima para ser papagaio de pirata'', admite um senador.

Livre Embora publicamente mantenha o discurso de apoio a Dilma, Gilberto Kassab já diz a interlocutores que, se a eleição fosse hoje, o PSD ficaria independente na disputa presidencial. Seria a melhor forma de eleger uma grande bancada de deputados --sua prioridade.

Próximos... Apesar de correr o risco de perder o apoio do PPS, Eduardo Campos (PSB) tem dito que apoia a filiação de José Serra ao partido de Roberto Freire para concorrer ao Palácio do Planalto em 2014.

... capítulos Para o pernambucano, a candidatura do ex-governador paulista dificultaria a entrada de Aécio Neves (PSDB) em São Paulo e daria à eleição ares de reprise da disputa entre Dilma, Serra e Marina Silva, o que favoreceria novos nomes.

Nova direção O PSDB vai aproveitar uma lista de e-mails de cabos eleitorais de Serra na campanha presidencial de 2010 para montar banco de apoio para a candidatura de Aécio na internet.

Copyright O nome Rede 45, usado em 2010, terá de ser mudado graças ao futuro partido de Marina Silva.

Negócios... Parentes de expoentes do PSDB paulista estão debandando do partido. No dia 25, o PTB nomeará como presidente do núcleo sindical Antonio Ramalho Júnior, filho do presidente de grupo similar tucano.

... à parte O genro do prefeito tucano de Praia Grande será candidato pelo PMDB em 2014. O irmão do prefeito de Cotia, do PSDB, deve disputar um cargo pelo PSC. A irmã do prefeito de Americana, também tucano, se aproximou do PC do B. E o irmão do prefeito de Taubaté, do PSDB, embarcou no PTB.

Com Andréia Sadi e Bruno Boghossian
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Tiroteio

"Se o PMDB está defendendo a redução de ministérios, a primeira coisa a fazer deveria ser devolver as pastas que ocupa."
DO LÍDER DO PMDB NO SENADO, EUNÍCIO OLIVEIRA (CE), que discorda da reforma proposta pelo presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN).
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Contraponto

Cancelando a assinatura

Uma semana depois de ser eleito papa, em 13 de março deste ano, Jorge Bergoglio telefonou de Roma para seu jornaleiro Daniel, na calle Bolivar, em Buenos Aires.

--Alô, Daniel, aqui fala o padre Jorge.

--Pare com isso, Mariano, deixe de ser cretino! --reagiu o jornaleiro, julgando ser trote de um amigo.

--Estou falando sério, é Jorge Bergoglio. Ligo para agradecer seu serviço todos esses anos e para pedir que não me envie mais o La Nación'. Lembranças à família!

O relato foi feito por Daniel ao jornalista Andrea Tornielli e consta do livro Francisco'', sobre o papa.

Fonte: Folha de S. Paulo

Por uma nova política - Gaudêncio Torquato

Cada coisa no seu devido lugar. É bem razoável a hipótese defendida pelo analista político Luiz Inácio Lula da Silva, em artigo publicado pelo New York Times, de que os protestos que ecoam em todos os espaços do território nacional não sejam uma "rejeição da política", para acrescentar que "sem partidos políticos não pode haver nenhuma democracia verdadeira". Tem razão. Afinal, os atos que chegaram a levar às ruas cerca de 1 milhão de pessoas se impregnam dos valores essenciais da política - a defesa da polis, o bem-estar da coletividade - e constituem prova inequívoca da vitalidade do nosso sistema democrático. Daí a fechar com a ideia de que a onda de manifestações decorre, em grande parte, dos sucessos sociais, econômicos e políticos alcançados na última década, ou seja, pelo PT, configura-se um rematado exagero.

Como foi exaustivamente demonstrado - até por farta cobertura de imagens de passeatas -, não foram universitários vindos de famílias pobres os que primeiro acenderam as faíscas da fogueira social, mas grupamentos jovens da classe média, ao entorno de um movimento pela redução de tarifas de ônibus. Embora se possa dizer que as marolas formadas pela pedra jogada no meio da lagoa, ao chegarem às margens, atraíram os segmentos jovens da base da pirâmide.

A tese contrária à abordagem do ex-presidente ampara-se no argumento de que os ganhos obtidos pelos contingentes periféricos - a partir dos 30 milhões de brasileiros que ingressaram na classe C - não tiveram contrapartida nos núcleos de classe média tradicional, que viram expandidas as demandas nas estruturas de serviços públicos, sob a malha deteriorada dos sistemas urbanos, principalmente nas metrópoles. Se milhares de jovens da classe média emergente passaram a ter carro, a viajar de avião e, consequentemente, a exigir mais, como lembra Lula, outros milhares da classe média tradicional "chutaram o pau da barraca" que acumulava suas demandas reprimidas. Vale lembrar que o poder de irradiação de ideias obedece a um movimento centrífugo, que costuma sair do meio para as margens. Também nascem no meio da pirâmide as locuções mais ácidas sobre deficiências nas áreas dos serviços públicos, o desprezo aos políticos e sua falta de compromissos, a par de uma cognição mais aguda sobre a corrupção generalizada. Donde se aduz que a abrangente movimentação social que se espraia pelo País foi aberta no centro da sociedade, não nas laterais, como quer fazer parecer o líder maior do PT.

O ensaio de democracia direta a que temos assistido não é, portanto, uma invenção da década petista, mas o desdobramento natural de uma crise que se arrasta há décadas e tem como epicentro as fendas sociais abertas pela democracia representativa. Neste ponto é oportuno retomar os significados múltiplos dos protestos. Se não há uma rejeição à política, entendendo-se que sem ela fenecem os sistemas democráticos, carregam eles monumental repúdio à classe política. É inegável que no pano de fundo das mobilizações de massa se lê um discurso contra formas obsoletas de operar a política, compromissos não realizados, metas inalcançadas, educação defasada, violência desmesurada, equipamentos sucateados nos estabelecimentos hospitalares, ao lado de carimbos com os conceitos que mancham a fisionomia da representação: nepotismo, personalismo, caciquismo, fisiologismo. Eis o pântano de mazelas que os partidos costumam semear.

Lula diz que o PT precisa aprofundar a renovação e "recuperar suas ligações diárias com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para os novos problemas". Tem razão. Reconhece que o partido se embalou na névoa moral que suja a imagem dos partidos, principalmente os grandes e médios. Ademais, o descalabro da esfera política ganhou na era petista forte impulso com a entronização do mensalão no altar parlamentar. No acervo de feitos (e desfeitos) do PT, não há como apagar essa mancha, que, aliás, pode respingar em outros entes, como o PSDB mineiro.

Líderes e partidos procurarão internalizar as lições que as ruas oferecem? Ou imaginam que daqui a pouco, passado o calor das primeiras horas, as ondas que correm pelas avenidas de grandes e médias cidades tenderão a refluir? Se assim pensam, cometem um erro comum ao agente político: achar que as coisas cairão no baú do esquecimento. Esquecem que o copo transbordou. Atingimos o "ponto de quebra". O País começou a fazer uma caminhada sem retorno. O povo quer dar um basta à empulhação.

Ontem era um povo descrente como um rio seco, sem esperança como uma árvore desfolhada, sem viço e com a cor das coisas mortas. Hoje são grupos que se mostram ativos, vivos, navegando nas águas caudalosas das mobilizações. Exibem vivacidade, dinamismo, determinação. Percebem que podem mudar o rumo das cidades e de sua própria vida. É a vibrante ascensão do que o sociólogo francês Robert Lattes chama de "autogestão técnica". Significa que as pessoas sabem o que desejam, o ponto de chegada e os meios necessários para alcançá-lo. A expressão ganha força: o povo é dono de seu nariz. No contraponto, a imagem também popular é a de que o tempo do "Maria vai com as outras" dá adeus, fechando o ciclo da política de oportunistas.

São esses alguns sinais que haverão de contribuir para a formação de um perfil político mais atinente ao espírito do tempo, isto é, capaz de atrelar a locomotiva da ética aos vagões do trem da política. A chama ética poderá iluminar as reformas fundamentais que a sociedade reclama, a começar da reforma política. O Brasil clama por partidos e agentes que desfraldem a bandeira de uma sociedade mais convivial. Sob o lema de um Estado muito perto da Nação.

* Jornalista, professor titular da USP

Fonte: O Estado de S. Paulo

Jogo zerado - Merval Pereira

As pesquisas eleitorais continuam registrando a mudança de patamar para baixo dos índices de popularidade da presidente Dilma, aparentemente tendo como piso a média de 30% do eleitorado, que representa o eleitor cativo do PT. Antes de ampliar sua base eleitoral fazendo acordos políticos e transformando-se no personagem "Lulinha Paz e Amor", criado pelo marqueteiro Duda Mendonça, o ex-presidente Lula também atingia sempre essa faixa do eleitorado, e não conseguia vencer uma eleição.

Como era de se esperar, a mais recente pesquisa feita pelo Ibope já mostra a presidente empatando com um de seus adversários num hipotético segundo turno. Marina Silva, atuando a esta altura mais na sua vertente alternativa do que na de política profissional, tem recebido o apoio dos eleitores insatisfeitos de classes média e alta, surgindo como a escolha das ruas neste momento que parece prenunciar uma troca de guarda na política nacional.

Poderia Marina com sua Rede de Sustentabilidade repetir o fenômeno Collor de 1989, que venceu a eleição presidencial a bordo de um partido nanico, o PRN? O mesmo fenômeno pode acontecer agora, mas as razões, embora semelhantes, serão diferentes.

Collor montou sua farsa eleitoral de posse do mandato de governador de Alagoas, isto é, trabalhando dentro da estrutura política tradicional. E, nos bastidores, fez todos os acordos possíveis com os políticos tradicionais que combatia nos programas eleitorais.

Os eleitores estavam engajados em uma eleição presidencial que tinha diversos candidatos, muitos deles competitivos e representando tendências políticas variadas. Embora a maioria do eleitorado tenha escolhido Collor por ele representar a renovação da política fora da esquerda, havia um eleitorado forte de esquerda que apoiou Brizola e Lula.

Desta vez, Marina se destaca não por ser a renovação da política, mas por representar a candidata da não política. E não há no seu histórico nenhuma indicação que nos leve a imaginar Marina fazendo acordos por baixo dos panos com políticas tradicionais, mesmo que tenha uma longa convivência com o PT.

Se vencer, Marina terá sido eleita por que a maioria do eleitorado quer uma experiência extrema de não política tradicional no poder. Hoje, Marina é a candidata das ruas, enquanto o presidente do PSDB, Aécio Neves, é o dos políticos, diz-se em Brasília. Essa definição pode afetar a receptividade de Aécio num eleitorado que rejeita a política tradicional, mas, por enquanto, o que ele tem de mais eficiente são as negociações de bastidores para montar sua base de apoio.

Como já disse o próprio presidente do PT, Rui Falcão, hoje não se sabe mais quais partidos apoiarão a presidente Dilma em 2014. A base aliada não abandona o barco por enquanto, mas vai medindo o nível da água que vai subindo para ver qual a melhor hora de saltar para outra candidatura.

A de Aécio é a preferida entre os principais apoiadores de Dilma, até mesmo do PMDB. PP, PTB, PDT são partidos que negociam por baixo dos panos com o PSDB de Aécio, e existem outros que aguardam momentos mais oportunos, como o PSD de Kassab, que volta a namorar o ex-governador tucano José Serra para o caso de uma troca partidária que viabilize sua candidatura a presidente pela terceira vez.

Por mais que Marina desponte como a maior beneficiária dessa crise de legitimidade que assola nossa política, seu partido não terá nem tempo de televisão nem capilaridade nacional para se impor num jogo político ainda realizado pelos moldes tradicionais.

A estrutura partidária do PSDB costuma canalizar para seus candidatos os votos oposicionistas, razão pela qual Aécio Neves continua sendo o candidato mais forte na avaliação do próprio Palácio do Planalto.

A questão agora é saber se o voluntarismo das ruas será tão forte para levar Marina para um segundo turno, ou se Aécio Neves conseguirá, levado por um esquema partidário tradicional, convencer os eleitores de Marina de que ele é um político tradicional disposto à renovação ouvindo a voz das ruas.

Até o momento, Dilma está segura num segundo turno, o que deve ser suficiente para refrear o movimento de "Volta Lula" dentro do PT. Mas, além da economia, vai ser decisiva a capacidade da presidente de fazer política com seu partido e sua base aliada. Nada indica, porém, que ela seja capaz da reviravolta necessária na política, muito menos na economia.

Fonte: O Globo

A volta do cipó - Dora Kramer

Se arrependimento matasse haveria poucos petistas vivos para contar a história do acordo de rodízio para a ocupação da presidência da Câmara firmado entre PT e PMDB, sem a inclusão do Senado no contrato.

Como o PT reivindicou a primazia, presidiu a Câmara nos dois primeiros anos do governo, deixando para o PMDB o comando no período final que coincide com a sucessão presidencial e agora também com a queda livre de Dilma Rousseff nas pesquisas.

No Senado, em lugar da alternância valeu o critério convencional da prioridade à maior bancada. Justamente o PMDB, que ficou com o comando das duas Casas, dois postos na linha sucessória da Presidência da República e o controle total do processo legislativo conduzido por um grupo chamado sem cerimônia de "camarilha": Renan Calheiros, Gim Argello, Eunício Oliveira, Romero Jucá, Eduardo Braga, José Sarney e Vital do Rêgo.

Na Câmara, o espetáculo é comandado por Henrique Eduardo Alves em sintonia fina com o líder do PMDB, Eduardo Cunha, e a gentil colaboração de parte da bancada do PT.

Com isso e mais a vice-presidência, não admira que os pemedebistas proponham redução drástica de ministérios e desdenhem das seis pastas que ocupam e nas quais não mandam de verdade. Já têm poder que não acaba mais.

Essa correlação de forças faz o governo refém do PMDB e deixa parlamentares do PT queixosos de serem alijados pelo Planalto, obrigado a ceder os anéis ao parceiro de aliança.

Temerosos de perder também os dedos -vale dizer, a condição de renovarem seus mandatos - senadores petistas articulam um movimento de aproximação com os chamados independentes da base, os integrantes do "PMDB do bem" (Jarbas Vasconcelos, Pedro Simon e companhia) e até parlamentares do PSDB para confrontar a "camarilha".

Buscam um reequilíbrio, mas pode ser tarde depois de terem menosprezado o potencial de dano que representava a concentração de poder nas mãos do PMDB, apoiado a volta de Renan Calheiros ao comando do Senado, dado apoio a ele quando foi obrigado a renunciar à presidência em meio a denúncias, dado sustentação a Sarney na época do escândalo dos atos secretos, nepotismo e outras peripécias.

Hoje confessam: "Os caras são profissionais". E constatam: "Querem sugar o governo ao máximo e se a reeleição estiver ameaçada, nos jogar fora".

Fava contada. A saída de José Serra do PSDB é tida no partido como inevitável. Não que ele tenha comunicado a alguém essa decisão, mas a conclusão parte de um raciocínio lógico: sem espaço no partido para ser candidato à Presidência da República, Serra não teria nada a ganhar ficando nem nada a perder saindo.

Nessa altura da vida não seria candidato a deputado federal para ajudar oPSDB a aumentar abancadana Câmara, conforme uma das hipóteses correntes, e passar quatro anos sendo mais um dentro de um Parlamento desqualificado. Este mesmo critério vale para a possibilidade de se candidatar a senador.

A candidatura presidencial de Aécio Neves está consolidada, salvo algum tipo de imprevisto muito improvável de acontecer até o início de outubro, data-limite para troca de partido. Ao governo de São Paulo, o espaço está ocupado por Geraldo Alckmin, que tentará a reeleição.

Diante desse cenário, concluem políticos próximos a José Serra, a filiação ao PPS seria a opção. Não havendo remédio, os tucanos analisam que a saída não pode ser vista como uma "tragédia".

Embora uma possível candidatura presidencial de Serra represente um risco. Se de um lado ajuda a levar a eleição para o segundo turno, de outro divide o eleitorado tucano e poder deixar tanto Serra quanto Aécio fora da disputa final.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Vírus, tiros, tortura - Eliane Cantanhêde

Um milhão e meio de pessoas foram às ruas pedindo saúde, educação e dignidade. Associações médicas rompem com o governo por causa das novas regras para a profissão. Dilma rumina a queda nas pesquisas, o crescimento pífio do país, a birra do PT e as ameaças do PMDB. Enquanto isso...

Perto de 75 mil (75 mil!) pessoas contraíram um vírus e tiveram diarreia em Alagoas, com quase 50 (50!) mortos. O principal suspeito é a água usada para cozinhar, tomar banho, escovar os dentes. Atenção: Alagoas é Brasil, e o Brasil está entre as dez maiores economias do mundo.

Um tiroteio entre policiais e traficantes matou dez pessoas, inclusive um sargento do Bope e dois cidadãos que não tinham antecedentes criminais: um garçom de 35 anos e um engraxate de 16. Atenção: quem mora no Complexo da Maré também é brasileiro, e o brasileiro é um forte, tem direito à vida.

Quatro funcionários de um parque de diversões, entre 22 e 25 anos, foram presos e confessaram o assassinato de uma moça no Paraná, até que um mero exame de DNA mostrou que nenhum deles fizera sexo com a vítima. Soltos, eles disseram que foram espancados, empalados, eletrocutados e asfixiados com sacos plásticos, mesmo após a "confissão". Exames comprovam os maus-tratos. Atenção: bate, depois investiga? Tortura nunca mais!

Vândalos infiltrados entre manifestantes que fazem vigília diante do apartamento do governador do Rio quebram e arrebentam lojas, bancos, prédios, bancas de jornais e tudo o que veem à volta, enquanto a polícia, aturdida, balança entre fazer o que tem de ser feito e simplesmente cruzar os braços para não ser acusada de violência. Atenção: isso é "democratice", não democracia.

No Brasil das eleições, discutem-se constituinte exclusiva, plebiscito, recesso, corte de ministérios e se o melhor aliado é o PMDB ou o PSB. No Brasil real, o pau está quebrando.

Ah! E o papa vem aí.

Fonte: Folha de S. Paulo

Visita de Francisco - Tereza Cruvinel

A passagem de Francisco pelo Brasil reforça sentido de mudança que está nas ruas, mas por outros caminhos

A maior população católica do mundo, que reúne 123 milhões de fiéis, prepara-se para receber amanhã o papa Francisco. Embora a proporção dos que se declaram católicos tenha caído de 92% para 65% nos últimos 30 anos, segundo o IBGE, a marca da Igreja Católica na formação cultural do Brasil é indelével. Vitor Meirelles plasmou-a, como emblema estético maior, em seu grandioso quadro A primeira missa no Brasil. O que Francisco disser no Brasil sinalizará para o mundo os rumos da Igreja em seu pontificado, já marcado por forte inflexão na ação pastoral e política. Ele vem externando a opção preferencial pelos pobres e tomando medidas moralizantes na gestão do Vaticano.

O papa encontra um Brasil agitado por manifestações em que o exercício da cidadania se perde nos desvãos da barbárie e do terror. Isso vem de junho, mas degringolou de vez na noite de quarta-feira no Rio, ampliando a preocupação dos governantes com a segurança dele. Para ter contato direto com o povo, como vem fazendo desde a sagração, Francisco recusou-se a usar carro blindado e a mudar a programação. Pelo contrário, soube-se na sexta-feira que fará um passeio pelo Centro do Rio, no Papamóvel aberto, que não estava programado. O papa, informou o Vaticano, não teme hostilidades contra sua pessoa. O afeto tem marcado mesmo as aparições públicas, mas, na terra do homem cordial, surgiu agora esse estranho desejo de estragar os grandes eventos.

A visita de Francisco traz esperança, dizem autoridades eclesiásticas. Qualquer que seja o complemento nominal para a palavra, há verdade na frase. Jorge Mario Bergoglio vem ao Brasil antes mesmo de visitar sua Argentina, por força da Jornada Mundial da Juventude, marcada antes de sua escolha, que rompeu com o eurocentrismo da Igreja e reforçou a visibilidade de nossa região espoliada, em sua fase de maior soberania e altivez, no campo da política. Foi na América Latina que vicejou, por meio de Leonardo Boff, do Brasil, e de Gustavo Gutiérrez, do Peru, a Teologia da Libertação (afora o alemão Gerhard Muller, que Francisco prestigiou colocando-o na chefia da mais importante congregação do Vaticano). Bergoglio, como cardeal argentino, não foi um pensador nem um ativista dessa tendência. Não se provou um suposto colaboracionismo com a ditadura, como quiseram alguns. Ficou evidente, por testemunhos diversos, que ele adotou uma postura pragmática de distanciamento, evitando mais problemas para a Igreja. Mas, na ação pastoral, tem dito Boff, ele sempre esteve ao lado dos fracos, dos pobres e dos oprimidos. E isso é o que importa.

Uma vez papa, ele vem prometendo uma nova Igreja. Adotou a simplicidade como estilo, vem renunciando às pompas e aos protocolos. Não faria diferente no Brasil, especialmente numa programação em que os jovens serão o público dominante. A Igreja precisa deles para estancar a perda de fiéis para outras crenças. Jovens que talvez não tenham participado de qualquer protesto e buscam, de outra forma, a esperança de mudança. A passagem de Francisco, na conjuntura que vivemos, reforça o sentido de mudança, mas por outros caminhos. A escalada que está nas ruas não tem a ver com o papa, com a solidariedade nem com a democracia.

O nó da saúde

O Programa Mais Médicos, que as corporações da medicina estão contestando por todos os meios, inclusive na Justiça, não será a redenção dos brasileiros na questão da saúde, mas resolverá uma parte do problema. A falta de médicos, sobretudo no interior e nas periferias, é um fato só ignorado por quem vive no fausto. Mas a solução estrutural depende mesmo é de novas fontes de financiamento de um serviço que a Constituição estabeleceu como universal, mas o Estado não consegue oferecer a contento.

Durante alguns anos, a cobrança da CPMF aportou recursos retirados de todos os brasileiros bancarizados. A fonte secou, chegou a hora de encontrar outra. Os 25% do royalties do petróleo virão a longo prazo e não serão suficientes. No Senado, foi criada uma comissão especial para estudar o assunto, que tem como relator o senador Humberto Costa (PT-PE), ex-ministro da Saúde. Na Câmara, há uma comissão similar, que tem como relator o deputado Rogério Carvalho (PT-SE). O governo deve estar fazendo seus estudos também.

A verdade é que, para investir na melhoria dos serviços públicos, o país precisaria de uma reforma tributária que taxasse os mais ricos, especialmente os rentistas e os especuladores. A CPMF caiu porque era injusta, tirava de todos e tolhia o crescimento. Mas, com o sistema político que temos, com esse presidencialismo de coalizão que aprisiona todos os governos, jamais será aprovada. Por isso é que se diz que a reforma política é a mãe das outras.

Forças estranhas

Depois que os protestos no Rio descambaram de vez para o vandalismo e a violência — embora tenha havido barbárie em outros locais —, o governador Sérgio Cabral (PMDB) criou um grupo de estudos para investigar as forças criminosas infiltradas e sugeriu a atuação de grupos organizados internacionais.

Desde o início da degeneração dos protestos, alguns núcleos acadêmicos examinam a hipótese da conexão internacional. Reservadamente, pois, com o clima de louvor aos manifestantes criado pelas mídias e endossado pelos governos, quem falasse nisso seria acusado de propagar teorias conspiratórias. Circula na internet, em listas restritas, por exemplo, um vídeo sobre a organização secreta The Iluminatis. Ligada aos cérebros do capitalismo central, ela atuaria, através de mercenários contratados, para desestabilizar países que, por razões políticas, descontentam a matriz do mundo. Ou que possuam riquezas e reservas de petróleo que precisam estar sob controle. Vamos ver o que descobre Cabral, além do fato de ter se tornado o governador mais impopular do país, e não apenas pelo desfrute de helicópteros do estado em atividades pessoais.

Fonte: Correio Braziliense

A história (in)finita da democracia direta - Gian Luca Fruci

A expressão “democracia direta” e o horizonte (imaginário) de participação política historicamente vinculado a ela reingressaram fortemente no discurso público italiano graças ao formidável aspirador — e, ao mesmo tempo, anestesiador — de movimentos sociais representado pelo “Movimento 5 Estrelas” (M5S), que canalizou as mais diversas mobilizações da última década numa narrativa consoladora do “povo virtuoso” em luta irredutível contra a “casta política” e o seu principal articulador novecentista — a forma-partido —, respondendo com um discurso abrangente, tradicionalmente ni droite ni gauche, às demandas difusas de transformação social e política [1].

A hibridização entre retórica antipolítica, ou mais precisamente contra a política, e diretismo procedimental é, por sua vez, um desdobramento fundamental da constelação discursiva que contesta, desde as origens, a democracia representativa, contrapondo a esta a simplicidade e a evidência “objetiva” de soluções alternativas baseadas na ausência de delegação e no envolvimento imediato (e contínuo) dos cidadãos na gestão da coisa pública. Na França, logo após a desilusão com a primeira experiência europeia de sufrágio universal direto (masculino) — que levou, em abril de 1848, à escolha de uma Assembleia Constituinte moderada e, em maio de 1849, ao triunfo eleitoral dos conservadores —, o universo republicano derrotado mergulhou, entre a primavera de 1850 e o verão de 1851 (portanto, bem antes do golpe de Estado do príncipe-presidente Luís Napoleão Bonaparte), num amplo debate que identificou aquilo que, na linguagem da época, se chamava de “representomania” como principal responsável por um resultado considerado não apenas imprevisto, mas também (e sobretudo) inconcebível do exercício eleitoral da soberania popular. Plus d’élections, plus de représentants du peuple intitulava-se significativamente um opúsculo, que reapresentava a velha ideia de sorteio dos deputados, enquanto naquele contexto, não à toa, apareceram pela primeira vez expressões como “governo direto”, “legislação direta” e “democracia direta”, desconhecidas do vocabulário político da Revolução Francesa e da primeira metade do século XIX [2].

Termos sinônimos utilizados para imaginar um novo regime político, baseado fundamentalmente na inversão do pressuposto conceitual (e funcionalista) que sustentara até 1848 a reivindicação do voto universal: o “povo eleitor” reunido em assembleia não é capaz de se autogovernar, mas sabe perfeitamente escolher os melhores e os mais sábios como governantes [3]. De fato, a filosofia de governo direto prevê que o “povo eleitor”, considerado propenso a se enganar e a ser enganado quanto às pessoas, seja substituído pelo “povo legislador”, que, graças ao seu bom senso, não pode se equivocar quando discute ideias, princípios, interesses, e é levado naturalmente (e facilmente) para a deliberação sobre textos e quadros normativos. A formulação da democracia direta se coloca, portanto, no quadro de uma hipersimplificação do político, que se recusa a pensar não só a representação, mas também (e sobretudo) o poder executivo, denunciado como usurpador da soberania popular, e no âmbito de uma harmonia destituída de conflito, que subentende a unanimidade em nome da obviedade objetiva das decisões.

Na Itália, onde a crítica ao parlamentarismo do período liberal tem como correspondente simétrico a condenação à partidocracia da época republicana, o nexo entre contrapolítica, apelo ao povo (na forma sofisticada da “sociedade civil” ou na versão comum das “pessoas”) e democracia direta aparece, se possível, ainda mais forte, emergindo recorrentemente em diversos momentos de crise da história pós-unitária [4]. Isto é visível precisamente na trajetória editorial do principal texto teórico que, na Península, se encarregou de pleitear a causa do diretismo, a saber, o pequeno livro do intelectual republicano-socialista Giuseppe Rensi, publicado pela primeira vez em 1902, na Suíça, logo em seguida à crise de final do século, com o título Os antigos regimes e a democracia direta. Reeditada em 1926 com o titulo abreviado A democracia direta, após a tomada definitiva do poder pelo fascismo, que o autor havia considerado de maneira favorável por um breve momento, esta obra foi, por fim, republicada pela editora Adelphi, sob os cuidados de Nicola Emery, tanto em 1995 quanto em 2010, concomitantemente com duas agudas — e, em muitos aspectos, análogas — conjunturas de contestação do sistema político e, consequentemente, da legitimidade da democracia representativa republicana fundada entre 1946 e 1948 [5].

Não se sabe se o ex-cômico Beppe Grillo e o empresário Gianroberto Casaleggio alguma vez leram Rensi, que terminou sua carreira acadêmica como professor de Filosofia Moral na Universidade de Gênova, mas deve-se sublinhar que o discurso antipartido de ambos é perfeitamente simétrico à critica radical dirigida à classe política, que Rensi retomava, com o próprio conceito, de Gaetano Mosca, estudioso conservador e nostálgico da Direita histórica e inquiridor polêmico “de uma política expressiva não mais da sociedade civil, mas de si mesma — ou seja, da classe que vive de política” [6]. Nos seus textos programáticos, os dois colíderes do Movimento 5 Estrelas profetizam o advento iminente da democracia direta, apresentando-o como um produto inevitável da revolução digital em curso, que tornaria possível a realização virtual de um horizonte utópico de expectativas que perpassa toda a história da democracia moderna: a simultânea e imediata participação de todo o corpo político nas deliberações numa unidade de tempo e lugar, segundo o modelo mítico (e mitificado) da democracia clássica [7]. De fato, foi a partir da inviabilidade desta aspiração em espaços estatais de grandes dimensões que surgiu historicamente o discurso minimalista a favor da democracia representativa, apresentada como sucedâneo da desejada, mas irrealizável, democracia absoluta dos antigos. No imaginário “cinco estrelas”, a sacralização da “Rede” (grafada, com deferência, com “r” maiúsculo) se configura, assim, como a solução prática de uma aporia constitutiva da tradução procedimental da soberania popular, que parece tão mais eficiente quanto mais olha para o passado e se projeta no futuro, deixando indefinida e problemática sua concretização no presente.

Isto ocorre em perfeita continuidade com a história da democracia direta, que é principalmente uma narrativa (in)finita, reapresentada pelos seus diferentes speakers como sempre igual a si mesma e colocada constantemente em outro lugar, temporal ou espacial (a Atenas de Péricles, a Comuna de Paris, a Rússia dos Sovietes, os Cantões helvéticos da Landsgemeinde, o Chiapas do subcomandante Marcos, o blog de Grillo). Em suma, o não-lugar representado pela rede, com seus potenciais desenvolvimentos tecnológicos, assume hoje, para Grillo e Casaleggio, uma função mitopoética análoga à das Comunas medievais para Jean Charles Léonard Simonde de Sismondi (Histoire des républiques italiennes du Moyen-âge, 1807-1808), ou da ilha de Pasquale Paoli para Jean-Jacques Rousseau (Projet de Constituition pour la Corse, 1765). Hoje como ontem, o discurso da democracia direta se revela, portanto, eminentemente polêmico e antinômico, além de imaginário. Sua força não deriva da credibilidade dos modelos propostos ou mesmo só evocados. Deve seu sucesso quase exclusivamente à realidade que denuncia e proclama querer mudar profundamente, e extrai sua legitimação de uma ideia teleológica do desenvolvimento histórico, baseada, no século XIX, num racionalismo político de derivação revolucionária e, hoje, num superinvestimento nos poderes taumatúrgicos da “Rede”.

Entretanto, resulta paradoxal o fato de que o revival da democracia direta e a proposta de um paradigma de participação absoluta e contínua ressurjam — não apenas na Itália — precisamente quando a filosofia e a historiografia política contemporânea refletem sobre a originalidade e o perfil autônomo (e de modo algum derivado) da democracia representativa, a partir de autores liberais radicais como Condorcet e Thomas Paine, o qual, em 1792, escrevia significativamente que, “se tivesse tido a representação”, Atenas teria “superado sua própria democracia” [8]. Faz tempo que, no plano teórico e também no histórico, a dicotomia entre a democracia dos antigos e a dos modernos pode-se dizer, de fato, superada em favor de uma ideia mais articulada da representação, que não se exaure no momento eleitoral, mas se configura como um processo político complexo, capaz de integrar uma pluralidade de arenas participativas e estabelecer um canal contínuo de comunicação, condicionamento e vigilância entre representados e representantes [9]. Nesse sentido, é necessário trabalhar e inovar com fantasia criadora no plano institucional, tendo em conta que a democracia, antes de ter uma história, é ela própria uma experiência histórica e, portanto, um laboratório conceitual e prático do nosso presente a que se deve recorrer inventivamente para responder às tensões e às crises (velhas e novas) que apresentam os sistemas democráticos desde as próprias origens [10].

Gian Luca Fruci é pesquisador de História Política da Universidade de Pisa. Artigo publicado em Italianieuropei, 5/6, 2013, p. 40-4.

Notas

[1] Sobre esta análise provocadora e extravagante, ver Ming, Wu, “Il Movimento 5 estelle ha difeso il sistema”, Internazionale, 25 fev. 2013, disponível em www.internazionale.it/news/italia/2013/02/26/il-movimento-5-stelle-ha-difeso-il-sistema-2; Ciccarelli, R., “Intervista a Wu Ming. Grillo cresce sulle macerie dei movimenti”, Il Manifesto, 1º mar. 2013. Para uma investigação ampla, mas interpretativamente mais asséptica, ver Diamanti, I., Natale, P. (orgs.), “Grillo e il Movimento 5 Stelle. Analisi di un ‘fenomeno’ politico”, Comunicazione politica, 1/2013; Biorcio, R., Natali, P., Politica a 5 stelle. Idee, storia e strategie del movimento di Grillo, Milão, Feltrinelli, 2013; Corbetta, P., Gualmini, E. (orgs.), Il partito di Grillo, Bolonha, Il Mulino, 2013.

[2] Rosanvallon, P., La démocratie inachevée. Histoire de la souveraineté du peuple en France. Paris, Gallimard, 2000, p. 157-79.

[3] Fruci, G. L., “La banalità dela democrazia. Manuali, catechismi e instruzioni elettorali per il primo voto a suffragio universale in Italia e in Francia (1848-49)”, in Romanelli, R. (org.), “A scuola di voto. Catechismi, manuali e istruzioni elettorali fra Otto e Novecento”, Dimensioni e problemi dela richerca storica, 1/2008, p. 17-46.

[4] Lupo, S., “Il mito dela società civile. Retoriche antipolitiche nella crisi dela democrazia italiana”, Meridiana. Revista di storia e scienze sociale, 38-39/2000, p. 17-43; idem, Partito e antipartito. Uma storia politica dela prima Republica (1946-1978), Roma, Donzelli, 2004; idem, Antipartiti. Il mito dela nuova politica nella storia dela Republica (prima, seconda, terza), Roma, Donzelli, 2013.

[5] Rensi, G., Gli anciens régimes e la democrazia direta. Saggio storico politico, Bellinzona, Colombi, 1902; idem, La democracia direta, Roma, Libreria politica moderna, 1926. A obra foi também reeditada entre 1943 e 1945, respectivamente em Roma (pela renascida Libreria politica moderna, com o titulo Forme di governo del passato e dell’avvenire) e Milão (pela Libreria editrice milanese, com o titulo Governi d’ieri e di domani).

[6] Lupo, S., “Il mito...”, cit., p. 21-2

[7] Casaleggio, G., Grillo, B., Siamo in guerra. Per una nuova política, Milão, Chiarelettere, 2011, p. 7-15, 61-8; Fo, D., Casaleggio, G., Grillo, B., Il grillo canta sempre al tramonto. Dialogo sull’Italia e il Movimento 5 Stelle, Milão, Chiarelettere, 2013, p. 84-96.

[8] Citado em Urbinati, N., Lo scettro senza il re. Participazione e rappresentanza nelle democrazie moderne, Roma, Donzelli, 2009, p.11.

[9] Rosanvallon, P., La légitimité démocratique. Imparcialité, réflexivité, proximité, Paris, Seuil, 2008; Urbinati, N., Democrazia rappresentativa. Sovranità e controlo dei poteri, Roma, Donzelli, 2010.

[10] Rosanvallon, P., “L’universalisme démocratique: histoire et problèmes”, Esprit, jan. 2008, p. 104-20.

Tradução: Alberto Aggio

Fonte: Italianieuropei &Gramsci e o Brasil.

O caminho de Damasco do Governador – Michel Zaidan Filho

Blog dos camaradas cariocas dá notícias de mal-estar provocado pela divulgação do encontro do governador de Pernambuco com o ex-presidente da República, Luis Inácio da Silva (Lula). Segundo o noticiário publicado nas redes sociais, Lula teria convidado o mandatário daqui para sair do PSB, partido do qual ele é presidente nacional e pré-candidato à Presidência da República, e se candidatar na chapa de Dilma, como vice-presidente. Ou, caso se tornasse inviável a reeleição da atual Presidenta, ser ele o candidato do PT. Verdade ou não, a notícia causou um reboliço e muito constrangimento dentro do próprio partido do governador.

Afinal, num momento em que se discute (mal e porcamente) a tão necessária e oportuna reforma política, uma proposta como essa vai na contramão de qualquer tentativa séria de aperfeiçoar as instituições políticas brasileiras. Enquanto o Congresso faz marolas e adia a reforma para vi gir a partir de 2018, os políticos vão se comportando do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecido no Brasil, nas últimas semanas. Pelo visto, a única coisa de certa e líquida é a realização da Copa do mundo, em 2014, e a jornada da juventude, neste mês de julho.

No front da política, nada de novo, como dizia o correspondente de guerra. Mas, onde há fumaça, há fogo - reza o ditado popular. Para onde vai o governador, depois de ter retirado sua ilustre fisionomia da mídia, durante as manifestações populares e a greve dos condutores de Ônibus? - Onde se escondeu o paladino do novo pacto federativo? Das avenidas do futuro? Da educação tecnológica, de qualidade? Dos vôos fretados de 5 milhões de reais? - Atrás do secretário da SDS? Ou estava, contrito e arrependido, na procissão de Nossa senhora do Carmo? - Provavelmente, reunido com o seu secretário da Prefeitura do Recife, ensinando o novo Pacto com a Vida, que não respeita a livre manifestação da sociedade civil, que criminaliza os protestos sociais, que causa constrangimentos ilegais simples ativistas estudantis? - Por que o secretário da Prefeitura não age como o gerente da cidade, para o qual foi eleito com a ajuda magnânima do seu chefe estadual? - Já não há problemas de sobra na cidade (esburacada) do Recife, com postos de saúde inundados, para ele resolver? - Para que assumir responsabilidades que são (?) da alçada do governo do Estado? É para oferecer palanque ao chefe?

A população da cidade do Recife e o povo de Pernambuco tem o direito de saber para onde caminha o seu governador. Vai ele concluir o mandato que lhe foi confiado por duas vezes pelo eleitor, ou fará da administração estadual mero trampolim para suas conveniências eleitorais e partidárias? - A gestão de um estado como o nosso não pode ser comparado a uma bolsa de apostas políticas, onde o governante fica avaliando ou fazendo cálculos para ver o que é mais lucrativo ou interessante para sua carreira, enquanto se avolumam os problemas no dia-a-dia dos cidadãos anônimos. O governador, até pode - como fêz a Presidente Dilma, se dá ao luxo de se aconselhar com Nossa Senhora do Carmo, a Padroeira do Recife, não dos governadores, mas o povo precisa de respostas claras, viáveis, objetivas para a resolução de seus problemas, sob pena de buscar as soluções nas igrejas.

Afinal, para onde vai o governador de Pernambuco?

Michel Zaidan Filho, sociólogo e professor da UFPE

'Hannah Arendt', o filme de Von Trotta - Celso Lafer

Fui assistir ao filme sobre Hannah Arendt, da diretora Margarethe von Trotta, com a sempre presente dedicação de estudioso da obra da grande pensadora e com a curiosidade de ver, como antigo aluno, como ela foi, ao mesmo tempo, representada e apresentada.

A atriz Barbara Sukova, que faz o papel principal, estudou gestos e posturas de Arendt para vivê-la, embora não se pareça fisicamente com ela. Para quem foi aluno de Arendt e a conheceu em 1965, na Universidade Cornell, ninguém é capaz de encarná-la na plenitude da sua iluminadora presença. Feita essa ressalva, avalio que Sukova construiu, com propriedade, uma figura verossímil.

O roteiro do filme é de Von Trotta e de Pam Katz. A ideia inicial era fazer um filme sobre todo o percurso da vida de Arendt (1906-1975), que, como a de tantos da sua geração nascidos na Europa, teve de lidar com as vicissitudes existenciais de uma era de extremos e com o desenraizamento desencadeado pela ilimitada prepotência dos regimes totalitários - no seu caso, o do nazismo antissemita, que a expeliu de seu mundo de juventude e de formação universitária na Alemanha, onde foi aluna de Heidegger e Jaspers.

Essa experiência a instigou a elaborar densa obra, reconhecida como de inequívoca relevância para o entendimento das múltiplas facetas da modernidade. Desde o livro inaugural de 1951, As Origens do Totalitarismo, até os póstumos, como A Vida do Espírito (1977-1978), tem a característica de obra clássica que, pela qualidade e originalidade da reflexão, nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer, para evocar uma das definições de Italo Calvino sobre o que é um clássico.

Foi justamente a dificuldade de condensar num filme uma vida na qual o desenrolar do pensamento tem importância constitutiva que levou Von Trotta a mudar o plano original. Optou por fazer um recorte e escolheu um período da vida de Arendt caracterizado pelas confrontações suscitadas por seu livro Eichmann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal (1963-1965). No seu entender, a confrontação prestava-se a dar foco, permitindo traduzir em linguagem cinematográfica quem foi Arendt.

O polêmico livro tem sua origem nos artigos para a revista The New Yorker, para a qual, por sua iniciativa, Arendt cobriu o processo de Adolf Eichmann. A sua motivação foi ver e avaliar, em carne e osso, um executor do Holocausto, pois não tivera a oportunidade de assistir aos julgamentos do Tribunal de Nuremberg.

Eichmann foi um dos mais notórios responsáveis pela gestão da "solução final", voltada para o extermínio dos judeus. Após a 2.ª Guerra Mundial, tinha se escondido na Argentina, onde foi capturado por agentes israelenses e levado para Israel, para ser julgado. O filme, com muita pertinência para o entendimento da questão e da análise de Arendt, insere várias cenas do julgamento.

Na construção do enredo, Von Trotta põe em cena, entre outros, o marido de Hannah Arendt, Heinrich Blücher; o seu amigo, em Israel, o esclarecido sionista Kurt Blumenfeld; e seu colega e amigo dos bancos universitários na Alemanha, o pensador Hans Jonas. Heidegger, em flashback, aparece apropriadamente em surdina. Todos são verossímeis à luz da correspondência publicada de Arendt. A escritora Mary McCarthy, sua fiel amiga, que ficou pública e destemidamente ao seu lado nos difíceis embates do período, não é, no meu entender, tratada com o peso que merece. Senti falta da presença de Jaspers, o mestre querido de Arendt, um dos seus mais importantes interlocutores sobre o caso Eichmann, como mostra a publicada correspondência que trocaram.

O filme compreende, é simpático e de algum modo endossa as posições de Arendt na polêmica sobre os três grandes itens que o seu livro suscitou e o filme reaviva. Em síntese: 1) o tom com que discutiu o papel de alguns conselhos da comunidade judaica na Europa que, na situação-limite de uma dominação totalitária, facilitaram a entrega de judeus a nazistas, preservando uns e condenando outros; 2) a enormidade do crime do Holocausto, que tornou supérfluos e descartáveis milhões de seres humanos, e a mediocridade do personagem incumbido da gestão da execução (daí, por conta da sua avaliação da pessoa de Eichmann, a expressão por ela cunhada de "banalidade do mal"; com isso quer dizer que o mal não foi profundo, mas extremo, porém tem um potencial de se espraiar pelo mundo como um fungo, destruindo-o, em decorrência da "normalidade burocrática" de gente como Eichmann, incapaz de pensar o mal da enormidade dos horrores que perpetra); 3) o ineditismo do crime de genocídio, que não foi um pogrom em larga escala e, como tal, uma continuação da imemorial perseguição aos judeus no correr da História, na visão do promotor. O genocídio foi perpetrado no corpo do povo judeu e o antissemitismo explica a escolha das vítimas, mas não a natureza do crime, que representou uma contestação à diversidade e à pluralidade da condição humana. Daí a fundamentação ontológica do alcance universal que elaborou para o jus cogens da razão de punir o crime de genocídio como um agravado crime contra a humanidade, tipificado na Convenção Internacional de 1948.

A compreensão pela posição de Arendt revela-se na cena em que explica a seus estudantes o porquê das suas razões. Sua fala no filme mostra o domínio que tem Von Trotta do seu pensamento. Mostra, também, como era bom e respeitoso o seu relacionamento com os alunos, que nada tinha que ver com a arrogância intelectual e a falta de tato de que foi acusada por seus detratores. Da qualidade pessoal desse relacionamento dou testemunho de quem teve o privilégio de ouvir de viva voz os seus socráticos ensinamentos.

* Professor emérito do instituto de relações internacionais da USP, é membro da Academia Brasileira de Letras

Fonte: O Estado de S. Paulo

Beleza ainda põe mesa - Ferreira Gullar

Como a vida, a arte também não basta: tem que mudar para nos suscitar novas sensações e descobertas

Arte sempre teve a ver com beleza, mesmo quando, aparentemente, mostra o feio, o horrível, o abjeto.

Não é fácil explicar o que acabo de afirmar. Para dizer a verdade, não sei ainda como explicá-lo, mas sei que o que disse é certo: a arte sempre teve (e tem) a ver com a beleza, porque, do contrário, não nos daria prazer. E não venham agora me dizer que arte não é para dar prazer. E seria para que, então? Para nos fazer sofrer é que não é, porque sofrimento já há demais na vida e ninguém gosta de sofrer, a não ser os masoquistas, que são doentes.

Inventei uma frase que o pessoal aí adotou e repete: "A arte existe porque a vida não basta". E é verdade. Não pretendo com isso dizer que a vida é só chatice e sofrimento. Não, a vida tem muita coisa boa e bela, mas, por mais que tenha, não nos basta. É que nós, seres humanos, sempre queremos mais. Mais alegria, mais felicidade, mais beleza.

Ao longo dos milênios, a arte mudou muito. Claro que, como a vida, a arte também não basta: tem que mudar para nos suscitar novas sensações, novas descobertas, novas alegrias. Por isso, ela muda. E vem mudando desde que surgiu nas paredes das cavernas, sem se saber que aquilo era arte. Sim, porque arte é apenas o nome que se dá a essa necessidade de inventar a vida.

Também por isso o conceito de beleza muda, como se vê através da história, até chegar à época moderna, quando sofre uma mudança radical, como nunca houvera antes.

E essa mudança radical fez supor que arte não tem nada a ver com beleza e, pior, que beleza é coisa ultrapassada. De fato, se você comparar uma pintura de Caravaggio com a "Guernica" de Pablo Picasso, a impressão que terá é a de que o feio tomou o lugar do belo. Terá essa impressão, sim, mas não é verdade.

Vou ver se explico. Caso esteja certo, o que aconteceu foi que, por razões que desconheço (talvez o refinamento da experiência estética), o artista plástico descobriu --pelo apuro mesmo da linguagem pictórica e gráfica-- que, não apenas a figura, criada pelas linhas e cores, tem expressão, mas as próprias linhas e cores, independentemente do que figuram, são expressões em si mesmas.

Essa descoberta conduziria, inevitavelmente, a uma subversão da linguagem figurativa da pintura, uma vez que os elementos que a compõem ganharam progressiva autonomia, passando a ser expressões em si mesmos, como linha, como cor, independentemente do que representassem.

Essa descoberta veio enriquecer a experiência dos artistas e dos amantes da arte, que passaram a se deslumbrar, extasiados, já com quadros prontos, mas com os estudos para realizá-los, já que, nestes, as figuras inacabadas tinham a expressividade que, na obra acabada, sumia.

Foi aberto, assim, outro caminho para a arte abstrata, não figurativa, chegando-se em alguns casos a desenhos que eram meros traços nada representando e pinturas que eram apenas manchas. Isso não significa, porém, que essas expressões sejam carentes de beleza: há, sim, ali, uma outra beleza que, em alguns casos --como no da citada "Guernica"-- ainda é figurativa, uma feiura (das figuras) que na verdade faz ressaltar a autonomia das linhas, a sua expressão, a sua beleza.

A exploração da expressividade da forma inacabada deu origem também a uma das tendências estéticas que marcaram a pintura do século 20, como o tachismo.

Outra consequência desse tipo de expressão foi uma maior presença do fator acaso na realização do quadro, de que é exemplo a pintura do norte-americano Jackson Pollock, feita de respingos de tinta lançados sobre a tela aleatoriamente.

O acaso é, sem dúvida, um fator presente na realização de qualquer obra de arte mas, a partir da Renascença, quando os pintores buscaram a execução cada vez mais perfeita, esse fator foi sendo quase anulado. Na época moderna, chegou-se ao extremo oposto mas, num caso como noutro, o que se buscava era a beleza.

Isso é diferente de certo tipo de manifestação artística contemporânea, em que não há qualquer preocupação com o apuro da linguagem utilizada. Em alguns casos, pelo contrário, o autor parece buscar o primarismo e o mau gosto, como a nos dizer que arte e beleza são coisas velhas, ultrapassadas.

Fonte: Ilustrada / Folha de S. Paulo

O poder e os sonhos - Affonso Romano de Sant'Anna

É um curioso exercício pensar o que aconteceria se entregassem o poder aos idealistas do passe livre

O que a peça de Calderón de la Barca La vida es sueño (A vida é sonho) tem a ver com a realidade atual brasileira? O que um autor espanhol tão antigo (1600 –1681), que foi soldado e padre, pode nos sugerir sobre o poder hoje?

Vamos à sua peça, resumidamente: ele conta que Basílio, rei da Polônia, havia lido nos astros que seu filho Segismundo era um malsinado. Para nascer, o menino provocou a morte da mãe e estava vaticinado que, adulto, destronaria o pai. O rei, precavendo-se, encerrou o herdeiro numa torre. Mas com o passar do tempo, cheio de dúvidas se o filho seria mesmo o que lhe predisseram, resolveu dar-lhe uma chance. Fez com que o adormecessem e assim o transportaram ao palácio, onde o despertaram, porém, investido do poder de rei.

O resultado foi trágico: o herdeiro, exercendo atabalhoadamente o poder, insulta o pai, enamora-se de suas mulheres, joga ao mar um dos conselheiros e a outro quer matar. Só a lisonja o atrai.

Entristecido de novo, o rei se aproveita do sono do filho e ordena que o conduzam à prisão. Ali, o príncipe desperta atordoado sem saber se viveu uma realidade ou sonho. Ficaria para sempre na masmorra, não ocorresse o imprevisto: uma rebelião em que o povo o conduz de novo ao poder. Refaz-se o jogo de reflexos entre sonho e realidade. Segismundo, porém, agora se comporta de modo diferente. Tendo aprendido atrozmente que a realidade e o sonho se mesclam, modifica seu comportamento optando por uma atitude ética no poder e assim descobre que o caminho da virtude é o mais sábio.

Então, repito: o que tudo isso tem a ver conosco, com o Brasil, o poder e com a clamorosa e voraz voz das ruas?

A primeira coisa que me ocorre é que o poder exige aprendizado. Ele tem um lado ruidoso, mas muitas vezes é exercido em silêncio e até em extrema solidão. Você não pode chegar ao poder e ir fazendo tudo que lhe der na telha. Ou seja, aprende-se rápido que o poder pode, mas não pode. Até os ditadores se queixam de que não podem fazer o que querem. Sem precisar lembrar que Getúlio, impotente diante dos inimigos, matou-se, foram muitas as queixas de Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Os militares achavam que podiam. Ou seja, podiam, mas não podiam. Vejam também o que ocorreu na Rússia, na China e em Cuba.

Vejam aqui mesmo alguns exemplos gritantes e recentes. O jovem Lula, quando simples candidato, dizia que o Congresso estava cheio de ladrões. Quando foi eleito, teve que compor com o Congresso para ter maioria. E dá-lhe, mensalão. Outro exemplo: Fernando Henrique se apoiava em Antônio Carlos Magalhães e Sarney, teve Renan Calheiros como ministro da Justiça. No entanto, como dizia Shakespeare naquele famoso discurso de Marco Antônio aos senadores romanos, Fernando Henrique "is a honorable man".

Tirando os famigerados black bloc que armam as quebradeiras e são um caso de distúrbio hormonal, de testosterona desgovernada (têm ódio de qualquer governo), é um curioso exercício pensar o que aconteceria se entregassem o poder aos idealistas do passe livre.

Descobririam logo que o poder pode, mas não pode. Descobririam que o sonho democrático é lento e a ditadura, que acha que pode tudo, é um pesadelo. E olha que admiro os que ocuparam pacificamente as ruas, por muitas e urgentes razões! Possivelmente, a função deles é acertadamente pressionar o poder. A pressão sistemática, inteligente e bem conduzida pode dar mais resultado do que a utopia revolucionária que tem uma dose congênita de autoritarismo.

A peça de Calderón de la Barca tem ainda vários ensinamentos. Se por um lado la vida es sueño e los sueños sueños son, não se pode viver sem sonhar. O sonho é que move a história. Como alguém disse: Marx se enganou, não é o trabalho que move a história, o que move a história é o desejo.

Fonte: Estado de Minas

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principia jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Música: Caetano Veloso - Desde que o samba é samba

Poesia: Livro de leitura - Goethe

O mais singular livro dos livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
Apartamento faz uma seção.
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a encontrar-se.

Johann von Goethe

sábado, 20 de julho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Dora Kramer: distinguir as coisa

"É complicado lidar com o inusitado misturado ao imponderável, mas cabe ao Estado distinguir as coisas e atuar para reprimir os bandidos a fim de assegurar o sagrado direito ao protesto dos manifestantes.

De outro modo, a continuar assim, o cidadão que exige tratamento decente acabará acuado e temeroso. O risco é de as manifestações perderem respaldo da sociedade. Por muito menos, o uso de métodos violentos levou o MST a perder o apoio social de que dispunha nos idos dos anos 90.

O dado concreto é que o arrefecimento da energia positiva que emergiu no Brasil em junho interessa primordialmente aos que são os alvos das demandas. Para eles, quanto mais cedo as mas voltarem para casa melhor, menos respostas precisarão dar."

Dora Kramer, jornalista. In “Joio do trigo”, O Estado de S. Paulo, 19/7/2013

Confronto com Dilma: Médicos rompem com governo

Acusando o governo de ser autoritário, quatro entidades que representam médicos decidiram renunciar aos postos que ocupavam em comissões e conselhos da União. Eles anunciaram uma "batalha jurídica" contra medidas recentes de Dilma.

Rompimento na Saúde

Entidades médicas abandonam comissões do governo e recorrem à Justiça contra programa oficial

BRASÍLIA - Quatro entidades que representam os médicos anunciaram ontem o início de uma guerra contra o governo por causa do programa Mais Médicos, que busca levar profissionais brasileiros e estrangeiros para cidades do interior e da periferia das regiões metropolitanas. As instituições médicas abandonaram o Conselho Nacional de Saúde e renunciaram coletivamente aos assentos que ocupam em órgãos do governo, como câmaras, comissões e grupos de trabalho do Ministério da Saúde e de órgãos relacionados.

Elas também anunciaram que entrarão com ações judiciais para barrar o programa. As associações classificam o Mais Médicos como autoritário e acusaram o Ministério de Saúde de atropelar os debates com a classe.

- Vamos ter uma batalha jurídica com eles, grande. Vamos exigir que as leis sejam seguidas à risca - disse o presidente da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), Geraldo Ferreira Filho.

A Fenam, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Associação Nacional dos Médicos Residentes (ANMR) justificam que decidiram sair dos grupos após o governo agir de forma "unilateral e autoritária", e culparem os médicos por problemas que, na verdade, são causados por má gestão, falta de investimentos e corrupção. Eles afirmam que suas propostas foram tratadas com indiferença nos conselhos e grupos.

Em nota, as quatro entidades afirmam que, desde 2011, tentaram entendimento com o governo e apresentaram propostas para levar médicos às áreas mais pobres do país. Elas alegam que o governo tratou com indiferença suas sugestões e transferiu às entidades a responsabilidade pela "crise da assistência".

"Ao editar de forma unilateral e autoritária medidas paliativas que afetam a qualidade dos serviços públicos de Saúde e o exercício da Medicina no país, o governo federal rompeu o diálogo com as entidades médicas, que, desde 2011, buscavam insistentemente o consenso, sempre apresentando propostas para a interiorização da assistência", diz a nota.

A saída dos grupos de discussão no Ministério da Saúde, na Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e no Conselho Nacional de Saúde foi decidida, segundo Ferreira, porque não fazia mais sentido debater assuntos da área se o governo tomou decisões sem ouvir os envolvidos.

- Entendemos que o governo nos atropelou. Uma dessas comissões do governo da qual fazíamos parte estava reunida desde o dia 18 de junho. O governo não deu nem bola. Nosso entendimento é que a comissão perdeu a lógica - disse o presidente da Federação dos Médicos.

Além de afirmarem que a corrupção é uma das causas dos problemas na Saúde, as entidades denunciam aparelhamento nos órgãos oficiais. O presidente da Fenam justificou a saída da entidade do Conselho Nacional de Saúde por entender que o órgão serve a interesses do governo.

- É um gesto político. Estamos mostrando que estamos insatisfeitos. O conselho deve ser técnico e não pode ser aparelhado politicamente para defender lógicas de governo ou de partido - afirmou Geraldo Ferreira.

A presidente do CNS, Maria do Socorro Souza, em solenidade recente no Planalto, defendeu o veto do Ato Médico, medida que Dilma tomou e que contrariou a classe médica.

Na Justiça, o grupo se prepara para dar trabalho ao governo, inclusive no Supremo Tribunal Federal (STF). Ferreira afirmou que, entre as medidas que as entidades pretendem tomar contra o Mais Médicos está o ajuizamento de uma ação civil pública pedindo suspensão da medida provisória que cria o programa. No pedido, vão alegar que o programa deveria contratar médicos por concurso público e pagar salário a esses profissionais e não remunerá-los com uma bolsa. Para a Federação, o governo também instituiu um serviço civil obrigatório.

Outra ação, no STF, está sendo preparada e deve ser ajuizada em 15 dias. Ferreira ainda afirma que a Fenam está instruindo os sindicatos nos estados que entrem com pedidos na Justiça trabalhista de pagamento de direitos para os médicos que assumirem vagas pelo programa.

- O governo está fazendo uma fraude, fingindo que isso é uma relação de ensino, quando na verdade é de trabalho. Não imagino que a população brasileira sequer imagine que esses médicos estão indo a esses lugares para estudar. Isso é uma fraude desavergonhada do governo federal - disse Ferreira, referindo-se à exigência de que os alunos de Medicina trabalhem dois anos no SUS antes de receber o registro definitivo.

A Fenam negou que sindicatos ligados à federação tenham sugerido boicote às inscrições no Mais Médicos. Ferreira afirmou que foi feita uma reunião com administradores de grupos de médicos nas redes sociais após as notícias de que esse tipo de sugestão circulou nesses grupos. O dirigente disse que instruiu os administradores a avisar caso identifiquem recomendações desse tipo na rede, e que as entidades que representam os médicos estão "se preparando para uma guerra" com o governo também no ambiente virtual.

- Comprovamos que não houve por parte de nenhum sindicato (sugestão de boicote). É uma comunicação de guerra. Vamos enfrentar uma guerra. O governo está preparado, tem estrutura, tem seus blogueiros. Vamos enfrentar esse embate - disse Geraldo Ferreira.

Questionado sobre o número de pré-inscritos no Mais Médicos, que, segundo o Ministério da Saúde, já chega a 11,7 mil, Ferreira afirmou que esse total pode não se concretizar, pois muitos profissionais podem mudar de ideia e declinar caso sejam chamados, após verem as condições do trabalho e de pagamento.

- Acho que quem se inscreveu foi pensando que R$ 10 mil seria um salário bom. Porque a maioria dos concursos públicos, na realidade, paga bem menos. Acho que atraiu. Mas, depois que se inscrevem, vão analisar. Como o governo abriu para inscrição, o médico se inscreveu, e agora ele percebeu que isso é uma bolsa, que não tem garantias trabalhistas - disse. - Pagar com bolsa, para fraudar a boa-fé das pessoas, não se pode acreditar que os médicos sejam tão ingênuos para aceitar essas coisas.

Fonte: O Globo

Para líder, Vaccarezza não representa o PT

Sem Dilma e em meio a um racha, diretório nacional do partido se reúne para reafirmar apoio a plebiscito

BRASÍLIA - Com a bancada na Câmara rachada em torno da condução da reforma política, e sem a prometida presença da presidente Dilma Rousseff, o diretório nacional do PT se reúne hoje em Brasília para a tradicional análise de conjuntura e para reafirmar apoio à realização de um plebiscito para mudanças no sistema político-eleitoral. O racha entre os deputados do PT se agravou ontem, com o líder José Guimarães (CE) e o coordenador do novo grupo de trabalho da reforma política, Cândido Vaccarezza (SP), protagonizando um bate-boca público, por meio de notas.

Guimarães disse que Vaccarezza não representa a bancada do PT na comissão da reforma, reforçando, assim, posição manifestada na véspera em nota assinada por 27 deputados e que ontem ganhou a adesão de mais 12, elevando para 39 os petistas que não aceitam a escolha de Vaccarezza, patrocinada pelo ex-presidente Lula e formalizada pelo presidente da Câmara, Henrique Alves. O preferido da bancada para a função de coordenador era o deputado Henrique Fontana (PT-RS). Para tentar resolver o caso, Henrique Alves deu duas vagas ao PT. Mas, indignado, Fontana não quis participar e foi substituído pelo deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), que virou o representante oficial do PT.

Dirceu quer Dilma na reunião

Além dessa disputa interna, o comando do PT ainda tentava, ontem à noite, convencer a presidente Dilma a participar da reunião do diretório nacional. Ela chegou a confirmar presença, mas desistiu ontem, alegando que fará uma reunião com ministros, pela manhã, para discutir os atos de violência no Rio e a segurança do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude. Numa reunião prévia, ontem, do Campo Majoritário do PT, o ex-ministro José Dirceu defendeu que o partido insista na ida de Dilma ao encontro de hoje. O presidente do PT, Rui Falcão, tentaria convencê-la a participar da reunião na parte da tarde.

Sobre a crise na bancada, o líder Guimarães resolveu endossar a nota encabeçada por Paulo Teixeira (SP) em solidariedade a Fontana e contra Vaccarezza, soltando outra nota para dizer que "as opiniões de Vaccarezza sobre reforma política não expressam o pensamento nem da bancada na Câmara nem do Partido dos Trabalhadores". Guimarães continua: "As posições do PT e da bancada no Grupo de Trabalho criado pelo presidente da Câmara serão defendidas pelo deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), indicado pelos parlamentares petistas para compor o colegiado." E voltou a defender a realização do plebiscito proposto por Dilma.

Pouco antes, Vaccarezza havia divulgado uma nota reagindo ao manifesto de 39 dos 89 deputados petistas reclamando de sua indicação. No texto, Vaccarezza disse que não se pode transformar o debate sobre reforma política em "arena" e prometeu trabalhar para viabilizar a realização do plebiscito: "Reafirmo publicamente meu compromisso pessoal com a aprovação do plebiscito na Câmara."

Na linha da nota divulgada pela liderança do PT, o diretório nacional também deve desautorizar Vaccarezza hoje. Assim como os partidos da base, ele vinha afirmando não haver tempo hábil para fazer um plebiscito sobre reforma política com efeito para as eleições do ano que vem.

Fonte: O Globo

PMDB realiza seminário em busca de ideias próprias para eliminar imagem de adesista

Partido tem projeto de candidatura à Presidência em 2018

BRASÍLIA - Em busca do que todos os partidos perseguem no momento - uma fórmula que os aproxime do que "as ruas" estão pedindo -, o PMDB promove um seminário com especialistas, em agosto, para começar a formatar um discurso próprio que o diferencie do PT no governo, alvo da maioria das críticas nas manifestações. O primeiro passo foi a nota da Executiva Nacional cobrando enxugamento da máquina, descentralização dos recursos e fim da reeleição. Além do debate, está em curso uma consulta interna sobre a manutenção ou não da aliança com o PT, e o próximo passo é definir bandeiras na tentativa de tirar do PMDB a pecha de fisiologista e adesista aos governos.

A ideia do seminário foi definida em reunião do vice-presidente Michel Temer com o ministro da Aviação Civil, Moreira Franco, na casa do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).

O presidente nacional do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), diz que o partido precisa começar a se reaproximar das ruas, dos trabalhadores, das centrais sindicais e da sociedade, já que tem projeto de candidatura própria à Presidência da República em 2018.

- Vamos buscar um discurso em defesa de algumas bandeiras na área de Educação, Segurança, Saúde e direitos do trabalhador. Voltar ao que éramos antes, um movimento forte de vanguarda da sociedade. Como temos um projeto próprio em 2018, temos que buscar um discurso moderno - afirma Raupp.

- Temos que cunhar um discurso nacional e uma postura que dialogue com as ruas. Isso não é fácil, porque a prática política do PMDB não é assim - diz o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Eliseu Padilha.

- É o PMDB no divã , uma imersão para buscar ideias próprias e bandeiras. O PT não tem suas ideias próprias? Precisamos também ter as nossas. Se não coincidir, cada um fica com as suas, com ou sem aliança - resume o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

Consulta é questionada

Desde que estourou o movimento das ruas, Padilha e Temer estão desenvolvendo uma pesquisa interna - já foram ouvidos todos os deputados - sobre o impacto das manifestações, com uma pergunta direta: o PMDB deve continuar a aliança nacional com o PT? Segundo Padilha, a bancada na Câmara é majoritariamente pela manutenção da aliança.

Eduardo Cunha critica o método da entrevista ao vivo, dizendo ser coisa de "agente português", o que dificilmente resultaria em respostas sinceras:

- Essa consulta é mais para efeito de conhecer o pensamento do partido. Não deve ter nenhum efeito. Eu posso estar pensando em sair da aliança com o PT, mas vou dizer isso agora?

Fonte: O Globo

Serra terá de liderar o processo se quiser disputar, diz Freire

Presidente do PPS espera para agosto decisão do TSE sobre fusão com PMN e defende que tucano seja ágil para buscar aliados.

Eduardo Bresciani

BRASÍLIA - O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), afirmou ontem que cabe ao ex-governador José Serra (PSDB) arregimentar aliados para viabilizar sua candidatura à Presidência. "Ele não pode ser o liderado. Ele, neste processo, está liderando e, portanto, não pode ser o último a decidir. Acho que essa decisão será tomada em breve, mas o Serra é o Serra e tem o seu próprio tempo de avaliação", disse Freire, enfatizando que o PPS está de portas abertas caso Serra queira se filiar ao partido para disputar.

"O tempo dele não é apenas o legal, mas o tempo político, até porque é preciso que consiga arregimentar aliados", advertiu Roberto Freire.

Nas últimas semanas o PPS retomou as conversas com dirigentes do PMN sobre uma eventual fusão partidária, o que havia sido descartado. A fusão só vai prosperar, admite Freire, se os partidos tiverem a garantia do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de que políticos que migrarem ao novo partido - que seria batizado de MD, Mobilização Democrática - não estarão sujeitos à perda de mandato.

Roberto Freire acredita que a decisão do TSE pode ser proferida no início de agosto e aí não haveria mais dúvidas sobre o impacto da fusão. Segundo o deputado, a união entre as duas legendas poderá até ocorrer antes caso PPS e PMN decidam conjuntamente que não vale a pena esperar pelo posicionamento da Justiça Eleitoral.

O presidente do PPS afirma que há consenso com políticos do PMN sobre a necessidade de uma união das oposições contra PT, mas com multiplicidade de candidaturas.

O processo de fusão entre PPS e PMN refluiu devido a problemas em negociações nos Estados e à decisão do partido de Freire de só formalizar a união após decisão do TSE sobre fusão de partidos.

Convenção. O PMN fará uma convenção no dia 27 para deliberar sobre a "desistência da fusão com o PPS" que daria origem ao partido MD. Os humores do partido, no entanto, podem mudar se houver uma determinação mais segura de Serra de que pretende disputar.

Outra possibilidade para o tucano seria se filiar ao PSD, partido criado pelo ex-prefeito Gilberto Kassab. Se isso vier a ocorrer, o cenário político sofrerá nova reviravolta, já que o partido de Kassab ensaia aderir ao projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dilma desiste de ir à reunião do PT e irrita dirigentes

Dirigentes do PT foram surpreendidos com a decisão da presidente Dilma Rousseff de não comparecer à reunião do Diretório Nacional do partido, hoje, em Brasília. O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu qualificou de "inaceitável" o comportamento da presidente e disse que ela "faz parte da crise" política atual, mas age como se estivesse fora. Dilma alegou que teve de agendar uma reunião com ministros sobre a visita do papa.

PT insiste que queda de Dilma é só uma fase

Ricardo Della Coletta

BRASÍLIA - O PT voltou a minimizar a queda da presidente Dilma Rousseff na pesquisa Ibope encomendada pelo Estado e divulgada na quinta-feira, enquanto dirigentes do PMDB falam com cautela sobre o cenário, à espera de uma recuperação da popularidade da petista. Apesar de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se mostrar mais competitivo que sua sucessora, os petistas seguiram sua orientação e enfatizaram que "Dilma é a candidata".

Dilma teve uma queda de 28 pontos porcentuais na sondagem, passando de 58% (em março) para 30%, A ex-ministra Marina Silva ficou em segundo lugar no cenário estimulado, com 22%, seguida pelo senador tucano Aécio Neves (13%) e pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com 5%. Em março. Marina tinha 12%, Aécio 9% e Campos 3%.

"Ainda é reflexo das manifestações", disse o vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR). "Lula deixou claro mais uma vez que não é candidato e que não há ninguém mais qualificado para comandar o Brasil do que Dilma", escreveu o ex-ministro José Dirceu em seu blog. Líder do PMDB, o deputado Eduardo Cunha (RJ) foi direto: "Precisa avaliar se o cenário vai mudar ou não". Já para os oposicionistas, o cenário é muito favorável: "Aécio e Marina juntos têm 35%", comemorou o deputado Rubens Bueno (PPS-PR).

Fonte: O Estado de S. Paulo