terça-feira, 3 de setembro de 2024

Bertrand Benoit - Populismo cresce na Europa também pela falta de confiança nos governos

Dow Jones / Valor Econômico

Pesquisadores e analistas acreditam que um dos principais motivadores subjacentes para os eleitores é a diminuição da confiança nos seus governos

populismo antiestablishment está em ascensão na Europa, alimentando não só pela migração e temores com economia e segurança, mas também por uma tendência mais profunda: a corrosão da confiança na capacidade dos governos de superar esses desafios.

Na Alemanha, no domingo, a Alternativa para a Alemanha (AfD), o partido de extrema direita, e um novo partido populista de extrema esquerda obtiveram quase metade dos votos no Estado da Turíngia, e juntos também conseguiram mais de 40% na vizinha Saxônia. Na Turíngia, o AfD terminou em primeiro lugar, na primeira vez que um movimento de extrema direita vence uma eleição estadual na Alemanha desde a Segunda Guerra.

Na França, uma eleição legislativa que resultou em um parlamento sem maioria absoluta e deu ao Reunião Nacional, de extrema direita, quase um quarto de todas as cadeiras — um aumento de mais de 50% em relação à última eleição — e ainda não produziu um governo dois meses depois.

Uma série de crises que vão da imigração à inflação e a guerra na Ucrânia, ajudou os populistas a obter vitórias eleitorais na Itália, Holanda, Suécia e Finlândia nos últimos anos. Para alguns pesquisadores e analistas, no entanto, crises não são novidade. O que há de novo é a confiança cada vez menor dos eleitores de que os governos eleitos podem resolver essas crises.

Maria Cristina Fernandes - Entre STF e Starlink, disputa sobe de patamar

Valor Econômico

Moraes vai precisar desse respaldo da Primeira Turma numa decisão que agora atinge o setor real da economia e da vida das pessoas

A recusa da Starlink em cumprir a determinação do Supremo Tribunal Federal de bloquear o acesso de seus usuários ao X mostrou que o fio puxado pelo ministro Alexandre de Moraes era do bigode de um elefante. Ao contrário do X, que nem publicidade mais dispõe, a Starlink tem 224 mil contratos - desde navios da Marinha na Antártica a cidades-símbolo do agronegócio (Sinop-MT) ou turismo (Fernando de Noronha-PE).

A unanimidade de Moraes na Primeira Turma respalda a decisão do ministro mas não conduz ao bloqueio da empresa. Se concorrentes do X, como Bluesky ou Threads, já se arvoram a conquistar ex-tuiteiros, a substituição da empresa que lidera a banda larga por satélite no país, com 42% do mercado, não se faz em dois cliques.

A disputa é gigante mas paquidérmica. A recusa da Starlink foi comunicada por WhatsApp ao presidente da Anatel, Carlos Baigorri, que tem até a sexta-feira para receber a notificação formal da recusa ou verificar, in loco, o descumprimento. Só então fará a comunicação oficial ao STF que, por enquanto, bloqueou as contas, mas não a operação.

Gideon Rachman - Elon Musk é um míssil geopolítico descontrolado

Financial Times / Valor Econômico

Apesar de toda sua riqueza e inegável brilhantismo como engenheiro e empreendedor, Musk continuará sujeito à lei dos países nos quais opera. Isso explica a crescente fúria de seus ataques verbais contra o Brasil e qualquer outro que ouse ficar em seu caminho.

Grandes empresas e bilionários costumam ficar loge de controvérsias políticas. Se exercem o poder, preferem fazê-lo nas sombras. Elon Musk é diferente.

Nas últimas semanas, ele manifestou seu apoio a Donald Trump e fez uma entrevista em tom amigável com o ex-presidente dos EUA no X, a plataforma de relacionamento social on-line pertencente a Musk. Também está envolvido em uma briga pública com o Supremo Tribunal Federal do Brasil, que na semana passada suspendeu o X. Recentemente, ele sustentou que uma guerra civil no Reino Unido é inevitável e reagiu à prisão de Pavel Durov na França com a seguinte publicação: “POV [ponto de vista]: É 2030 na Europa e você está sendo executado por curtir um meme”.

Luiz Carlos Azedo - Turma do Supremo endossa medidas contra Musk

Correio Braziliense

O referendo ocorreu em sessão extraordinária virtual nesta segunda-feira, por unanimidade. No julgamento, Moraes disse que tomou a decisão depois de realizar todos os esforços possíveis para que as ordens judiciais fossem cumpridas pelo X

A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou decisão do ministro Alexandre de Moraes que suspendeu a plataforma X, antigo Twitter, em todo o território nacional. O referendo ocorreu em sessão extraordinária virtual nesta segunda-feira, por unanimidade. No julgamento, Moraes disse que tomou a decisão depois de realizar todos os esforços possíveis para que as ordens judiciais fossem cumpridas pelo X, como o pagamento das multas.

Joel Pinheiro da Fonseca - O Supremo mina sua legitimidade

Folha de S. Paulo

Um ministro julga ser a própria lei, e o povo paga a conta do cabo de guerra

Aconteceu. Desde a meia-noite de domingo eu e milhões de brasileiros perdemos acesso à rede X. Não havia lugar melhor para sentir o pulso instantâneo do debate público e ver as reações imediatas de todos os lados. O povo pagou a conta de um cabo de guerra entre um bilionário megalomaníaco que se julga acima da lei brasileira e um ministro do Supremo que julga ser a própria lei.

Esse desfecho era juridicamente inevitável dado o passo imediatamente anterior: a desobediência reiterada de decisões judiciais, o não pagamento das multas e o fim de qualquer representação no país.

Alvaro Costa e Silva - Quem 'vai de arrasta', Moraes ou Musk?

Folha de S. Paulo

Armadilha do bilionário é fabricar uma convulsão política em cima do ministro

Foi divertido acompanhar a expectativa que antecedeu a suspensão do Twitter dentro das redes sociais —e principalmente dentro do próprio Twitter. A zoeira, que antes da invasão de comentários, mentiras e ódios relacionados à política era a atividade preferida dos usuários, voltou com tudo, enchendo de graça o momento que muita gente considera uma tragédia sem precedentes, algo como a destruição da biblioteca de Alexandria, durante séculos o maior provedor de conteúdo do mundo antigo.

Dora Kramer - Queridos zeladores

Folha de S. Paulo

Para o eleitor municipal vale mais a zeladoria das cidades que a guerra ideológica

eleição em São Paulo galvaniza atenções porque mobiliza emoções políticas. Fator importante, senão crucial, nas disputas nacionais. Ambiente que a Luiz Inácio da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) interessa atrair para o âmbito municipal.

Ou melhor, interessava ao menos no caso de Lula. Na semana passada, deu um passo atrás em entrevista a uma rádio da Paraíba: disse que pretende reduzir sua participação em campanhas devido à pesada agenda presidencial.

O recuo tático em relação à ideia de que a disputa de 2024 deveria ser vista como uma prévia de 2026 provavelmente se deu em função das pesquisas. Elas indicam baixa adesão do eleitorado aos ditames dos padrinhos de candidatos que também atraem rejeição.

Cláudio Carraly - Reforma do Conselho de Segurança da ONU: Adaptação às Demandas Globais

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, estabelecido em 1945 após os horrores da Segunda Guerra Mundial, emergiu como uma instituição central na promoção da estabilidade e paz internacionais. Composto por cinco membros permanentes - Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França e China - e dez membros não permanentes, o Conselho foi encarregado da responsabilidade vital de zelar pela paz e segurança globais. No entanto, ao longo dos anos, a estrutura do Conselho tem sido desafiada pela evolução do cenário geopolítico e pelas demandas emergentes do século XXI.

À medida que avançamos, o Conselho de Segurança enfrenta uma série de desafios que destacam a inadequação de seu modelo atual. A ascensão de novos atores globais, incluindo economias emergentes e potências regionais, tem ampliado a disparidade entre a composição do Conselho e a distribuição real do poder. Países com influência significativa, mas não representados permanentemente, sentem-se sub-representados no órgão de decisão mais importante da ONU.

Além disso, a natureza dinâmica das ameaças à paz e à segurança internacional exigiu uma resposta mais ágil e flexível do Conselho. Questões como terrorismo, mudança climática, pandemias e conflitos internos demandam abordagens multifacetadas e soluções inovadoras, muitas vezes impossíveis dentro do atual quadro institucional do Conselho de Segurança. Por exemplo, a crise climática, que está se tornando cada vez mais urgente, requer a cooperação internacional em níveis sem precedentes, no entanto, o Conselho, com sua estrutura rígida, muitas vezes lutou para oferecer respostas eficazes e abrangentes a essas ameaças, sem obter sucesso.

Poesia | Leonardo Bigio - Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Moacyr Luz - Apoteose ao Samba / Meu Drama / Aquarela Brasileira

 

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Efeito fiscal de pente-fino em benefícios é incerto

O Globo

Revisão em pagamentos do INSS e no cadastro do BPC é positiva. Mas economias projetadas são otimistas

Ao anunciar o detalhamento dos R$ 25,9 bilhões de cortes que pretende implementar no Orçamento de 2025, o governo deu destaque aos gastos sociais. Do total, a estimativa é que R$ 6,4 bilhões venham do Benefício de Prestação Continuada (BPC), R$ 10,5 bilhões de benefícios do INSS (incluindo o auxílio-doença) e R$ 2,3 bilhões do Bolsa Família. Só nessas três rubricas, o governo acredita haver R$ 19,2 bilhões em pagamentos indevidos.

Ao todo, 5,9% dos gastos do governo em 2023 (ou R$ 261,6 bilhões) foram destinados a programas como Bolsa Família e BPC. Numa definição mais elástica de gastos sociais que inclui a Previdência, 16,7% do PIB — ou quase R$ 800 bilhões — tem por finalidade a proteção social.

Ana Luiza Albuquerque - No turbilhão do passado

Folha de S. Paulo

Estratégia usada pelo nazismo e fascismo italiano é reeditada no século 21 por movimentos populistas e pela ultradireita

[RESUMO] A fabricação do mito de um passado glorioso, estratégia utilizada nas experiências fascistas do século 20, é reeditada no século 21 pela extrema direita e pela direita populista, com o mesmo intuito de implementar valores reacionários e fustigar o modelo de Estado de Direito liberal. No Brasil, percebe-se isso no movimento bolsonarista e na construção de um passado compartilhado judaico-cristão.

"Ele é o leão da tribo de Judá", cantava a senhora com a mão direita ao alto e a mão esquerda no microfone. O animal aparecia no manto que ela carregava nos ombros, junto às bandeiras de Israel e do Brasil. "Oh, esperança de Israel", a mulher repetia, entoando os versos de uma canção carimbada nos cultos evangélicos.

Naquele domingo, a reunião não era religiosa. O canto da senhora enchia a esvaziada casa de eventos que abrigou a convenção municipal do PRTB em São Paulo, confirmando a pré-candidatura do influenciador, empresário e ex-coach Pablo Marçal à prefeitura da capital.

Sem o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Marçal ativou símbolos caros para a direita bolsonarista: Deus, família e os perigos do comunismo, das drogas e da "ideologia de gênero". Israel foi mais um deles.

Cinco meses antes, as bandeiras do país judaico haviam tomado as ruas da avenida Paulista, no centro da cidade, em manifestação em defesa de Bolsonaro. Do alto do carro de som, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pregou que política e religião devem, sim, se misturar, e anunciou que o povo brasileiro é cristão.

Terminou seu discurso com um recado ao Senhor: "Que tua verdadeira shalom esteja dentro dos muros de Israel. Nós abençoamos o Brasil. Nós abençoamos Israel. Em nome de Jesus, amém".

Oswaldo E. do Amaral - Populistas em série

CartaCapital

As redes sociais continuarão a produzir clones de Pablo Marçal

No começo de fevereiro deste ano, prestei atenção em Pablo Marçal pela primeira vez. Como alguém com uso apenas profissional de redes sociais, não me recordava de ter visto seu rosto ou ouvido sua voz. Lembrava apenas vagamente de sua aventura eleitoral, frustrada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2022.

Meu filho, um adolescente de 13 anos, foi o responsável pela apresentação por meio de um vídeo em que o agora candidato explicava como conseguiu salvar sua família de um desastre de helicóptero usando a sua mente. Depois disso, passei a acompanhar as notícias sobre ele, invariavelmente polêmicas, produzidas para o engajamento nas redes. Em abril, ele filiou-se ao PRTB, pequeno partido de direita. Estava claro que seria candidato e que tinha potencial para influenciar a disputa na cidade de São Paulo.

Marcus André Melo - O semipresidencialismo é terapia para o Brasil?

Folha de S. Paulo

São múltiplos os fatores que poderão restaurar um equilíbrio de presidente forte

Como analisei em detalhes aqui, as patologias que os defensores do semipresidencialismo identificam no nosso sistema político são:
1. crises de governabilidade quando presidentes perdem sustentação parlamentar;
2. ascensão de outsiders sem base partidária;
3. ingovernabilidade devido à irresponsabilidade fiscal legislativa;
4. perda de racionalidade das políticas públicas em virtude do neolocalismo legislativo; e
5. malaise política que resulta de acordos não programáticos.

Carlos Pereira - Janela de oportunidade perdida?

O Estado de S. Paulo

Constitucionalidade das emendas impositivas é o problema mais relevante a ser enfrentado

Existem várias abordagens dos problemas decorrentes das emendas dos parlamentares. Pode-se analisar sob a perspectiva do volume de recursos. Hoje representa cerca de 23% das despesas discricionárias, muito superior a países da OCDE onde as emendas raramente chegam a 1%.

Outra abordagem é interpretar o problema sob a perspectiva da baixa transparência na alocação dos recursos públicos, como fez o STF. Decidiu suspender a execução das emendas impositivas e das Pix até que Executivo e Legislativo apresentem proposta que as tornem transparentes, rastreáveis e fiscalizáveis pelos órgãos de controle.

Bruno Carazza - O PT conhece o eleitor de Marçal há anos e o ignorou

Valor Econômico

Pesquisas feitas por fundação do PT já captavam a receptividade do eleitorado ao discurso proferido por Pablo Marçal, mas pouca gente deu importância

A fora a decisão de Alexandre de Moraes de tirar o X-Twitter do ar, as conversas sobre política nas últimas semanas giram sobre um só personagem: Pablo Marçal.

Muito se tem falado de seus métodos (os legítimos e os ilegais) comerciais, de seu marketing digital aplicado à campanha eleitoral e de seu discurso teológico coach (como caracterizou a cientista política Ana Carolina Evangelista), mas pouco ainda se discute sobre o seu potencial eleitorado.

E o mais interessante é que os eleitores que aderem em velocidade estonteante a Marçal hoje (não só em São Paulo, mas no Brasil todo) já vêm sendo mapeados há anos pelo PT - embora ninguém tenha dado a importância devida a esse fenômeno.

Nas eleições municipais de 2016, o então prefeito, Fernando Haddad, mesmo apoiado por Lula e Dilma Rousseff, foi derrotado por João Doria no primeiro turno, com menos de um terço dos votos válidos (53,3% a 16,7%). O tucano venceu em todas as regiões da cidade, com a exceção de Parelheiros e Grajaú, em que a maioria dos eleitores preferiu Marta Suplicy (então no MDB).

Perplexo por ter perdido por larga margem até nos bairros mais pobres da cidade, onde tradicionalmente era muito bem votado, o PT resolveu investigar as causas do desempenho tão ruim. Especialistas contratados pela Fundação Perseu Abramo realizaram então uma série de entrevistas qualitativas entre novembro de 2016 e janeiro de 2017 para entender o que pensava o morador dessas regiões.

Sergio Lamucci - Expansão fiscal se combina ao mercado de trabalho aquecido

Valor Econômico

Conjuntura se diferencia não tanto pelo fiscal expansionista ou pelo mercado de trabalho forte, quanto pelo fato de ocorrerem em paralelo, diz Fernando Montero

A economia brasileira passa por um momento de expansionismo fiscal e aquecimento do mercado de trabalho, com alta expressiva do nível de ocupação e da renda. Esse cenário impulsiona a atividade econômica, levando os analistas a projetar um crescimento do PIB no segundo trimestre perto de 1% em relação ao primeiro e de 2,5% ou até mais neste ano [ler mais em PIB pode trazer nova surpresa positiva no 2º tri, estimam economistas). Essa combinação de impulso das contas públicas, especialmente por meio de transferências de renda, e robustez do mercado de trabalho deverá perder força mais à frente, o que obviamente terá efeito sobre o ritmo da economia. Reduzir incertezas, para ter uma cotação mais baixa do dólar e retomar a ancoragem das expectativas de inflação, é fundamental para que a política monetária não jogue com força contra a atividade, num momento em que o estímulo fiscal deverá perder o ímpeto e o emprego e a renda terão menor dinamismo.

L. C. Bresser-Pereira e Tiago Porto - Abrir mais uma porta já escancarada?

Valor Econômico

É falso que a indústria continua gostosamente protegida

Edmar Bacha, no Valor (17.07.2024), procurou explicar por que a indústria brasileira encolheu tanto no período 1995 a 2023. Disse que a literatura econômica oferece duas explicações para o problema: a desindustrialização precoce e a doença holandesa.

Ele curiosamente descarta a explicação da desindustrialização precoce no mundo rico, porque verificou que na OCDE, no curto período por ele escolhido, a desindustrialização foi muito pequena. Quanto ao Brasil, ele informa ter calculado que para cada 1 ponto percentual de desindustrialização na OECD ocorre uma desindustrialização de 1,6 ponto percentual no Brasil.

Aqui, portanto, ocorreu desindustrialização prematura, ainda que ele diga que “a tese da desindustrialização precoce não parece explicar grande coisa da desindustrialização brasileira”. Claro que não explica. No Brasil houve desindustrialização precoce, mas isto não é uma ‘causa’ do encolhimento da indústria; é a própria desindustrialização precoce que é o problema que precisa ser explicado, porque então estará explicado o encolhimento.

André Gustavo Stumpf - Festival de besteiras

Correio Braziliense

As eleições municipais tendem a reduzir a reduzida capacidade de os políticos se preocuparem com o país. É mais importante produzir frases de efeito, atacar o oponente e ter o cuidado de não fixar nenhuma promessa na mente do eleitor

Coivara: substantivo feminino, quantidade de ramagens a que se põe fogo nas roçadas para desembaraçar o terreno e adubá-lo com as cinzas, facilitando a cultura; fogueira. Os melhores dicionários explicam o que é coivara. O hábito de limpar o terreno com fogo é muito antigo e tradicional no Brasil. Os índios faziam, e ainda fazem isso, nas suas áreas para afastar bichos e limpar o terreno. Os fazendeiros praticam. Além disso, há quem coloque fogo no mato para proteger a propriedade. É o fogo contra fogo, entre um e outro, constrói-se um acero — área capinada de três ou quatro metros de largura para impedir a progressão do incêndio. 

Fernando Gabeira - Queimar neurônios para deter o fogo

O Globo

Seca prolongada favorece os incêndios. É preciso remover do solo o que pudermos de material combustível

Grande parte do Brasil arde em chamas. Brasília amanhece enfumaçada, suas claras manhãs ficam cinzentas. Na cantina da Câmara, em torno de cestas de pão de queijo, deputados mal notaram as mudanças no céu do Planalto Central. Falam do Supremo:

— O STF nos sacaneou proibindo emendas Pix. Vamos sacaneá-los também, acabar com isso de decisões monocráticas. Vamos criar uma lei que nos permita dar a palavra final sobre o que decidem. Não é constitucional? Rui Barbosa já foi contra um dia? Foda-se o Rui. Temos voto; isso é o que importa.

A fumaça vem de São Paulo, talvez Minas, de Mato Grosso, onde queimam ao mesmo tempo pedaços de três biomas: Cerrado, Pantanal e Amazônia.

O deputado mantém o pão de queijo entre os dedos e diz em voz alta:

— Vamos cozinhar essas votações em banho-maria. Esse projeto na pauta, punição de devedor contumaz, faremos com ele o que fazem os devedores: empurrar com a barriga.

Preto Zezé - A Zona Franca das Favelas

O Globo

Vamos buscar incentivos para que os negócios desses territórios ganhem voo próprio e ocupem o espaço de protagonismo

Recentemente, na sede da ApexBrasil, estive com o CEO e criador da Favela Holding, a primeira do gênero, que reúne um ecossistema de 27 empresas atuando e desenvolvendo inovação e impacto social e econômico exclusivamente em favelas. A ApexBrasil é a agência responsável por promover os negócios do Brasil no exterior e tem escritórios nos países com as maiores economias do mundo. Como incentivadora de empreendimentos brasileiros, agora volta seu olhar de maneira diferenciada para as favelas.

Numa conversa com o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, foram apresentadas iniciativas que já existem e estão em pleno funcionamento, movimentando a economia e demonstrando a capacidade de inovação das favelas e sua pujança. As favelas brasileiras, para além das notícias trágicas e diagnósticos negativos, produzem R$ 212 bilhões em poder de consumo. Isso reflete a capacidade de gerar riquezas, superando o PIB de alguns países.

Demétrio Magnoli - A surpresa ucraniana

O Globo

Começou, à sombra da noite, nas primeiras horas de 6 de agosto. Ninguém sabia — nem as tropas mecanizadas envolvidas na operação, que receberam o aviso no último minuto, nem os Estados Unidos e os aliados europeus. As forças de elite da Ucrânia, cerca de 10 mil soldados, avançaram sobre a província russa de Kursk e, em duas semanas, ocuparam um saliente de mais de mil quilômetros quadrados e 92 povoados, inclusive a cidade de Sudja.

A ofensiva surpreendente foi descrita por analistas em termos que oscilam entre uma genial manobra tática e uma aventura desesperada. A operação tem uma série de objetivos que podem ser rotulados como propagandísticos, militares e diplomáticos.

Poesia | Marcelo Mário de Melo - O pão

O pão do amor 

não é pré-cozido.

Às vezes sai do forno antes da hora.

Às vezes demora. 

E isso se imprime no seu gosto.


É sempre bom 

tirar o pão do forno 

na hora certa.


Mas no caso do pão do amor 

ele é que pula 

para a degustação. 


Acontece 

de um amor antecipado 

ou demorado 

ser mais saboroso 

do que um pão 

da hora certa.


O pão do amor 

é cheio de manhas 

e incertezas.


E diferentemente 

do pão comum de padaria

ele passa por dois fornos.

O forno da mente 

e o forno do coração. 

Cada um 

com os seus imperativos 

na gangorra.


Assim se põe 

o pão do amor 

diante do amante.

Música | Seu Jorge - Eu sei que vou te amar (Tom Jobim )

 

domingo, 1 de setembro de 2024

Opinião do dia – Antonio Gramsci (utopia)

"Todavia, se também a filosofia da práxis é uma expressão das contradições históricas — aliás, é sua expressão mais completa porque consciente —, isto significa que ela está também ligada à “necessidade” e não à “liberdade”, a qual não existe e ainda não pode existir historicamente. Assim, se se demonstra que as contradições desaparecerão, demonstra-se implicitamente que também desaparecerá, isto é, será superada, a filosofia da práxis: no reino da “liberdade”, o pensamento e as ideias não mais poderão nascer no terreno das contradições e da necessidade de luta. Atualmente, o filósofo (da práxis) pode fazer apenas esta afirmação genérica, sem poder ir mais além; de fato, ele não pode se evadir do atual terreno das contradições, não pode afirmar, a não ser genericamente, um mundo sem contradições, sem com isso criar imediatamente uma utopia. Isto não significa que a utopia não possa ter um valor filosófico, já que ela tem um valor político e toda política é implicitamente uma filosofia, ainda que desconexa e apenas esboçada. Neste sentido, a religião é a mais gigantesca utopia, isto é, a mais gigantesca “metafísica” que já apareceu na história, já que ela é a mais grandiosa tentativa de conciliar em forma mitológica as contradições reais da vida histórica: ela afirma, na verdade, que o homem tem a mesma “natureza”, que existe o homem em geral, enquanto criado por Deus, filho de Deus, sendo por isso irmão dos outros homens, igual aos outros homens, livre entre os outros e da mesma maneira que os outros, e que ele pode se conceber desta forma espelhando-se em Deus, “autoconsciência” da humanidade; mas afirma também que nada disto pertence a este mundo e ocorrerá neste mundo, mas em um outro (— utópico — ). Assim, as ideias de igualdade, liberdade e fraternidade fermentam entre os homens, entre os homens que não se veem nem iguais, nem irmãos de outros homens, nem livres em face deles. Ocorreu assim que, em toda sublevação radical das multidões, de um modo ou de outro, sob formas e ideologias determinadas, foram colocadas estas reivindicações."

*Antonio Gramsci (1891-1937), Cadernos do Cárcere, Volume 1, p. 205. Editora Civilização Brasileira, 2006.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Política econômica de Lula volta a perder credibilidade

Folha de S. Paulo

Alta do dólar tem motivo mais amplo que o apontado para intervenção do BC; sem controle de gastos, juros tendem a subir

A nova escalada da cotação do dólar, que atingiu R$ 5,69 na sexta-feira (30) e recuou depois para R$ 5,61 devido à intervenção do Banco Central no mercado, é sintoma de mais um rodada de perda de credibilidade da política econômica.

O BC vendeu US$ 1,5 bilhão à vista, montante anunciado na noite anterior para fazer frente a uma saída pontual de recursos —uma prática que, em momentos assim, nada tem de anormal.

Entretanto, com a insistência da cotação em subir durante a manhã, acabou vendendo mais, o equivalente a US$ 765 milhões em contratos de swap cambial, um tipo de contrato que dá aos compradores proteção ante uma alta da moeda americana.

Não foi apenas o dólar que voltou a assustar. Juros de mercado também dispararam, já incorporando aumento de ao menos 1,5 ponto percentual, para 12% ao ano, da taxa Selic nos próximos meses. Juros de prazos mais longos também continuaram a subir.

A razão de fundo da desconfiança, como sempre, são as contas públicas em descontrole. A economia em ritmo relativamente forte até impulsiona a arrecadação de impostos, mas os gastos públicos crescem ainda mais. Nos últimos 12 meses, a despesa aumentou cerca de 15% acima da inflação, recorde na série histórica.

Dorrit Harazim - Rascunhos

O Globo

Ex-presidente, hoje, é um ser acuado por seus delírios e medos e, por isso mesmo, perigoso

‘Um ser que continua a mudar é um ser que continua a viver’, sustentava a escritora Virginia Woolf em suas infatigáveis, doloridas reflexões sobre a identidade e a natureza humana. Todos sabemos como é difícil alimentar a coragem de descartar ideias que vestimos como segundas peles. A própria noção que cada um faz de si se sustenta no frágil conceito de continuidade. Vivemos numa cultura cujos mitos de heroísmo e martírio valorizam consistência a qualquer custo — esquecendo que somos moldados pelo que queremos, e o que queremos é passível de mudanças à medida que vivemos. O aclamado psicanalista britânico Adam Phillips — editor da obra de Freud na coleção Clássicos da Penguin — dedicou um livro inteiro (“Sobre desistir”, 2024) a nossa perene dificuldade em aceitar chamados novos que exigem renúncias. E são renúncias muitas vezes amargas, cantadas em verso e prosa há milênios, em todas as formas de linguagem. Exceto na política.

Bernardo Mello Franco – Cidade tripartida

O Globo

Nos 30 anos de 'Cidade Partida', um Rio que não aparece na propaganda eleitoral

A ampla vantagem de Eduardo Paes nas pesquisas esvaziou o interesse pela eleição para a Prefeitura do Rio. É pena, porque os cariocas arriscam perder uma chance valiosa de discutir os problemas da cidade. Na semana que passou, um seminário e um novo livro debateram os 30 anos do lançamento de “Cidade Partida”, de Zuenir Ventura. As conversas iluminaram temas que não devem aparecer na propaganda eleitoral.

O best-seller de Zuenir descreveu uma cidade traumatizada pela violência e anestesiada pela desigualdade. Para produzi-lo, o jornalista frequentou por dez meses a favela de Vigário Geral, palco de uma chacina que matou 21 pessoas em agosto de 1993. Depois do banho de sangue, o autor acompanhou dois movimentos que ensaiaram uma reação à barbárie. O Viva Rio, que mobilizou classe média, empresários e meios de comunicação, e o movimento da comunidade de Vigário, que tentava projetar sua voz além dos becos da favela.

Míriam Leitão - Acertos e desafios de Gabriel Galípolo

O Globo

Novo presidente do Banco Central vai ter que superar a intimidade com o governo para preservar a independência das decisões de política monetária

O próximo mandato na presidência do Banco Central será um novo teste na autonomia. Roberto Campos Neto enfrentou a hostilidade da primeira travessia de governo, Gabriel Galípolo terá que superar a intimidade com o governo do presidente que o escolheu, para preservar a independência das decisões de política monetária. A conjuntura é desafiadora tanto pelos indicadores ruins quanto pelos bons. A inflação está perto do teto da meta e há dúvidas sobre os dados fiscais, mas o país cresce além do previsto e o mercado de trabalho vive seu melhor momento em dez anos, com desemprego baixo e alta de renda. No pano de fundo, a maior economia do mundo prepara uma queda de juros numa conjuntura com dados oscilantes.

Elio Gaspari - 60 milhões de escovas de dentes

O Globo

A repórter Andreza Matais revelou que a Justiça Federal suspendeu a licitação do Ministério da Saúde para a compra de 60 milhões — repetindo: 60 milhões — de kits com escova de dentes, fio dental e dentifrício. Acionado, o Tribunal de Contas da União (TCU) reconheceu que o pregão estava viciado.

Pindorama tem uma estrutura robusta para defender o cofre da Viúva. É o Sistema U. Além do TCU, há a Controladoria-Geral da União (CGU). O TCU barrou a maluquice do trem-bala. Em 2019, a CGU detonou uma licitação de R$ 3 bilhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, o FNDE, para equipar escolas públicas com laptops e computadores. Nessa festa, uma escola de Minas Gerais que tinha 255 alunos receberia 30.030 laptops.

Infelizmente, não foram responsabilizados os autores da malandragem.

Com o pregão dos 60 milhões de escovas de dentes, a Justiça e o TCU funcionaram, mas não basta.

Luiz Carlos Azedo - Musk fomenta uma crise pós-moderna no Brasil

Correio Braziliense

O magnata da tecnologia acredita que seu poder está acima das instituições brasileiras e que pode se relacionar diretamente com a nossa sociedade

A presença de magnatas na política norte-americana sempre teve forte influência na projeção de poder dos Estados Unidos no mundo, seja por meio de sua política de Estado ou pela presença de suas corporações nos outros países, principalmente onde há petróleo ou um grande mercado consumidor. Historicamente, esse é o caso do Brasil.

Alguns desses magnatas foram “self-made man”, alcançaram sucesso, riqueza e prestígio por conta própria. Andrew Carnegie começou como um operário têxtil e se tornou um dos magnatas do aço mais ricos do século 19; Thomas Edison superou muitos obstáculos como inventor para se tornar um empresário de sucesso.

Merval Pereira - Perdendo a razão

O Globo

Ao determinar a extinção do antigo Twitter no país, colocou-nos ao lado de países como Coréia do Norte, China, Irã, Miamar, Rússia e Turcomenistão. Companhias nada honrosas, não?

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes mais uma vez deu um passo maior que suas pernas ao, em vez de punir o X por querer funcionar no Brasil contra as exigências da legislação, passar a perseguir as empresas do mega empresário Elon Musk. Ao determinar a extinção do antigo Twitter no país, colocou-nos ao lado de países como Coréia do Norte, China, Irã, Miamar, Rússia e Turcomenistão.

Companhias nada honrosas, não? Mais de 20 milhões de brasileiros deixarão de usar o X, por determinação do STF, o que não fala bem da nossa mais alta Corte de Justiça, abrindo brecha para que as acusações de bolsonaristas e correlatos ganhem ares de verdade. O ministro Alexandre de Moraes, que atribui a todas as suas decisões o dom de defender a democracia, esquece-se de que a liberdade de expressão é a base dos direitos humanos numa democracia.

Vinicius Torres Freire - Guerra contra Musk, e a plutocracia tecno

Folha de S. Paulo

Reação a abusos e força de redes e ‘big techs’ tem prisão e bloqueios

Pavel Durov, dono do Telegram, passou três dias em uma cadeia da França, em agosto. Está sob vigilância estrita. É acusado, entre tantas outras coisas, de obstruir a Justiça e de administrar plataforma online para facilitar transações de quadrilhas envolvidas em crimes digitais, pornografia infantil, tráfico etc.

Em março de 2022, o STF (Supremo Tribunal Federal) mandou bloquear o Telegram. A ordem durou de uma quinta-feira a um domingo. Cairia antes do vencimento do prazo da suspensão efetiva do Telegram, que acabou por acatar ordens judiciais (o que não fizera até então, dizia, por ter perdido emails do STF).

Bruno Boghossian - As chances que restam a Ricardo Nunes

Folha de S. Paulo

Atropelada por prenúncios de uma tragédia, a candidatura de Ricardo Nunes parece dependente de um episódio ao estilo "deus ex machina". A expressão originada no teatro grego descreve uma intervenção inesperada e de última hora para resolver encrencas.

A campanha na TV vai ajudar o prefeito, mas dificilmente assumirá sozinha a dimensão de milagre. Ainda que Nunes tenha um latifúndio nas telas, a propaganda só será suficiente para mudar o jogo se o candidato for capaz de encaixar uma mensagem forte.

Nunes tem a vantagem de disputar a eleição sentado na cadeira. Ele usará a propaganda para tentar convencer o eleitor de que faz um bom governo e, na sequência, transformar uma avaliação positiva em voto.

Celso Rocha de Barros – Elon Musk e o Twitter

Folha de S. Paulo

Moraes tem bons argumentos, mas golpistas de Musk ganharão pontos

No próximo 7 de setembro, Jair Bolsonaro e seus golpistas protestarão na avenida Paulista. Se o fizerem pacificamente, terão o direito de fazê-lo.

A polícia de São Paulo estará lá para garantir que as coisas não saiam de controle. Se alguém levantar uma bandeira nazista, será preso. Se os manifestantes se virarem para fora da manifestação e passarem a ofender transeuntes com agressões racistas, serão presos. Se ninguém fizer nada disso, todo mundo voltará para casa normalmente.

Agora imagine como seria se um bilionário de extrema direita comprasse a avenida Paulista e decretasse que ela não é mais parte do Brasil. Para satisfazer as preferências ideológicas do bilionário, de agora em diante, seria permitido levantar bandeiras nazistas, discursar por golpe de Estado, chamar os negros paulistanos de macacos ou dizer aos judeus de São Paulo que eles deveriam ter sido mandados para as câmaras de gás. A polícia de São Paulo, os juízes brasileiros, não teriam mais poder de estabelecer qualquer limite, para qualquer manifestante, na nova avenida Paulista.

Muniz Sodré - O futuro é idiota

Folha de S. Paulo

Candidato mostra que idoneidade não atrai eleitores, voto não é selo de verdade, e o futuro é idiota

Ao pedir desculpas por sua postura na campanha pela prefeitura da maior metrópole brasileira, Pablo Marçal oferece uma via de compreensão da atualidade política. Admite ter-se comportado como idiota com o objetivo, vitorioso, de subir nas pesquisas. Sua retratação não é mudança de atitude, mas retrato de uma estratégia: idiotia como caminho para o poder.

Não é demais remontar à origem da palavra. "Idiotes", na Polis grega, eram aqueles centrados em negócios privados, alheios à vida pública, que interessava aos "politikós". Os significados atuais das duas palavras derivam dessa oposição. Mas se tornou pesado o atributo de idiota, pois implica ignorância, estreiteza mental e desconexão com o mundo.