quinta-feira, 12 de abril de 2012

Apertão nos bancos:: Celso Ming

O governo federal iniciou grande operação de cabo de guerra com os bancos, com o objetivo de reduzir o custo do crédito na economia. Carregada de razão, a presidente Dilma o vem considerando injustificável.

Para isso, o governo mobilizou os bancos oficiais, especialmente o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, para serem bem mais agressivos na redução dos juros em suas operações de crédito. Essa ação do governo pressupõe a existência de cartel financeiro de fato, do qual fazem parte também os bancos oficiais. Assim, por determinação superior, esse cartel vai sendo inexoravelmente quebrado à medida que os bancos estatais, que hoje detêm 44% do crédito, trabalham com juros substancialmente mais baixos.

Ao mesmo tempo, o próprio governo se encarregou de cobrar dos bancos privados mais determinação na derrubada dos juros. Como há décadas, os bancos (por meio dos diretores da Federação Brasileira de Bancos, a Febraban) expuseram as chamadas razões técnicas que explicam o alto spread hoje praticado.

Para quem não está familiarizado com o jargão financeiro, spread é a diferença entre o que os bancos pagam pelos recursos e o que cobram do tomador de crédito. Essa diferença é bem maior do que os juros pagos no sistema. Compõem-se também de impostos (cerca de 23,0%; custos administrativos (10,8%); índice de inadimplência (29,0%); recolhimento compulsório no Banco Central (3,2%); margem líquida dos bancos (34,0%); risco jurídico, etc.

Para derrubar o custo do crédito, os bancos fizeram o que há muito vêm fazendo: reivindicaram a redução de impostos, o aumento das garantias e providências que melhorem o desempenho operacional do sistema.

Também como sempre, o governo prometeu estudar o assunto. Como se trata de questão velha de guerra, ficou de novo a dúvida sobre se virá a solução que ataque os principais fatores que esticam o spread, em especial os impostos.

Independentemente dessa questão, está de pé o fato consumado que é a intervenção do governo na administração dos bancos oficiais, agora obrigados a operar fora do cartel, em concorrência com as instituições privadas.

Se o governo Dilma obtiver sucesso na sua determinação de obrigar os bancos oficiais a trabalhar com spread bem inferior ao do setor privado, teremos provavelmente duas consequências.

A primeira delas é de que os resultados dos bancos oficiais certamente sairão prejudicados, porque sua margem de lucro resvalará para muito abaixo dos 34% (sobre o total do spread), que é a média do sistema. Como em anos anteriores, o Tesouro se encarregará de cobrir rombos que eventualmente aparecerem na contabilidade de seus bancos.

O segundo desdobramento será a expansão da fatia do mercado de crédito dos bancos oficiais para provavelmente mais da metade do bolo, porque os privados dificilmente os acompanharão. Preferem perder participação do mercado a perder margem operacional. A principal preocupação deles é o relativamente alto nível de inadimplência, que exige formação de provisões, sempre muito custosas. E, se os bancos oficiais detiverem mais de 50% do crédito, toda a atividade econômica dependerá ainda mais da lubrificação do setor público.

CONFIRA


O gráfico mostra o comportamento do spread bancário desde janeiro de 2011. Mesmo com a queda dos juros básicos, ele está cada vez mais alto.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Bancos: "Dilma está irritada":: Vinicius Torres Freire

Governo e bancos querem "contrapartidas" antes de ceder alguma coisa na negociação dos "spreads"

Não vai ser bonita e talvez nem produtiva a querela entre o governo Dilma Rousseff e os bancos. Vem de cima, da presidente, a ordem de pressionar os bancos. "A presidente está irritada [com os "spreads" bancários]", dizem assessores, alguns mais assustados com a ira da presidente que os próprios bancos.

Os bancos privados dizem que querem contrapartidas antes de mexer nos seus juros. O governo quer resultado imediato, até porque o estopim do novo rebuliço sobre "spreads" foi o baixo crescimento da economia neste início do ano. O governo atribui parte do marasmo econômico à alta dos juros médios na praça, que vem desde novembro.

Mesmo que o governo adotasse as medidas sugeridas pelos bancos com o fim de baixar o custo do crédito, levaria tempo para que tais providências surtissem efeito, se mesmo eficazes. Ou melhor, uma proposta dos bancos poderia ter eficácia quase imediata. Trata-se da redução de impostos sobre a intermediação financeira. Mas se dá de barato, aqui e em Brasília, que tais impostos não baixarão tão cedo.

Logo, ou vai haver confusão ou muito barulho por nada, excetuada a hipótese de os bancos privados se comoverem com a "liquidação de juros" promovida por Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Isto é, se Itaú, Bradesco e cia. muito limitada considerarem que não vão perder dinheiro se baixarem suas taxas a fim de não perder mercado.

Pode bem ser que os juros para o tomador final sejam altos devido à baixa concorrência nesse mercado. Mesmo que seja o caso, talvez os cortes brutais das taxas do BB e da CEF não bastem para acirrar a competição (por ora não se sabe nem mesmo o volume dos novos negócios com juros reduzidos). De qualquer modo, com ou sem razão, a atitude do governo não é lá muito esperta e é obnubilada outra vez por voluntarismos de curto prazo.

É evidente que garantias melhores, regras mais seguras para execução de dívidas, menos impostos e outras melhorias nas tecnicalidades desse mercado contribuiriam para a baixa de "spreads" e juros. Basta ver o que aconteceu com as condições de financiamento de carros e imóveis, que melhoraram brutalmente com algumas medidas inteligentes e de baixíssimo custo.

O governo poderia fazer um "bem bolado" com a banca, implementar logo reformas, exigir alguma contrapartida da finança, melhorar a proteção ao cliente dos bancos (quase inexistente) e faturar o progresso. Por que não o faz é de fato um mistério. Não custa quase nada.

No mais, é preciso lembrar que há empecilhos econômicos reais ao aumento do crédito, sejam os "spreads" altos ou baixos. O estoque de crédito tem crescido a quase 15% ao ano, em termos reais, na última meia dúzia de anos. Quase nada cresce tão rápido assim, afora o pé de feijão de João (e esse é um dos motivos dos bons lucros da banca).

É possível ainda pisar no acelerador? Primeiro, é preciso haver poupança disponível. Segundo, é preciso haver capacidade de pagamento: que o endividamento de famílias e empresas esteja em nível razoável (e note-se que a inadimplência está alta, e o BC pisou no freio do crédito via medidas "prudenciais"). Terceiro, é preciso haver oferta, capacidade produtiva. Ou vamos tomar empréstimo para importar carros, gadgets e insumos?

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Desoneração ineficaz :: Paulo Paiva

Na semana passada o governo divulgou medidas visando ao aumento da competitividade da economia brasileira e ao estímulo à produção industrial. Uma economia estável e em crescimento, combinada com o excesso de liquidez no mercado financeiro internacional e instabilidades nas economias industrializadas, resultou num real valorizado. O País terá de aprender a conviver com essa moeda forte. Terá, também, de conviver num ambiente de incertezas, sem perspectiva de construção de acordo ou consenso que restabeleça a estabilidade na relação entre as moedas dos diversos países. Ou seja, conviver com o risco de ampliação do protecionismo mundo afora. Nesse contexto, está correto o governo em buscar proteger a economia e, em particular, a indústria, principalmente visando a aumentar a competitividade no médio e no longo prazos.

No conjunto de medidas, uma, já tomada anteriormente e ampliada agora, é a desoneração parcial da folha de pagamento, aparentemente bem recebida por empresários e economistas. Vale a pena avaliar a sua eficácia.

Sobre a folha de salários incidem encargos que podem ser divididos em três grupos: 1) diferentes componentes da remuneração direta do trabalhador, como 13.º salário, adicional de férias e FGTS; 2) contribuição patronal para a Previdência Social; e 3) outros encargos não relacionados diretamente à atividade do trabalhador, como contribuições para o sistema S, o Sebrae, o Incra, salário educação e seguro contra acidentes de trabalho. O primeiro grupo, por se constituir em salário propriamente dito e ter proteção constitucional, não está sujeito à eliminação. A medida proposta se refere à desoneração dos 20% relativos à contribuição patronal para a Previdência. Parte da arrecadação será mantida por uma contribuição de 1% ou 2% sobre o faturamento, conforme o setor de atividade. O governo estimou uma redução de cerca de R$ 7,2 bilhões/ano na receita da Previdência Social.

Aqui começam os problemas. De um lado, beneficiam-se alguns setores da economia, tornando desiguais as relações de custos intersetoriais. De outro lado, cria-se um subsídio para os setores escolhidos que resultará em aumento no déficit da Previdência Social. A sociedade vai pagá-lo com outros impostos ou com o aumento da dívida pública, a menos que seja indicado o corte de gastos correspondente à desoneração tributária.

Ademais, o impacto de redução do custo é relativamente pequeno, provavelmente entre 1,5% e 2% da carga tributária decorrente da contribuição patronal. Não chega a compensar o impacto da elevação dos custos de mão de obra (labor unity) resultante dos aumentos reais de salários nos acordos coletivos de 2011, que em média atingem 3% a 4%. Pode-se dizer, ainda, que essa redução não compensará também a soma dos custos de outras medidas que têm sido tomadas, como, por exemplo, o pagamento proporcional do FGTS por anos trabalhados e súmulas do TST que oneram o custo da mão de obra. Enfim, a medida é ineficaz, do ponto de vista da redução dos custos de produção, e injusta, do ponto de vista tributário.

Para reduzir o custo de mão de obra, seria mais eficaz excluir os encargos que não estão diretamente relacionados com a atividade do trabalhador e que representam 7,5% da folha salarial e eliminar ou reduzir significativamente os custos de demissão, como a multa rescisória.

A transferência da contribuição patronal à Previdência Social da folha de salário para o faturamento é medida que não resulta em redução relevante nos custos de produção. Poderia ter maior impacto sobre a formalização do emprego, se aplicada às micro e pequenas empresas. Sua eficácia não resistirá ao primeiro teste.

De fato, as questões que afetam a competitividade internacional da economia brasileira não são novas nem transitórias. Enfrentá-las requer a retomada da agenda de reformas como a tributária e a trabalhista. Não será com medidas pontuais e ineficazes que a indústria do Brasil vai ampliar sua competitividade.

Professor da Fundação Dom Cabral, foi ministro do Trabalho, do Planejamento, orçamento do governo FHC

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Lá vem o Patto! ::Urbano Patto

A lei de mercado.

Depois de décadas e décadas e sucessivos governos alguma coisa de novo acontece no panorama econômico nacional e não é o modesto e figurativo programa Brasil Maior, nem o paquidérmico PAC, enorme e pesado mas que anda muito devagar.

Fato novo, e a meu ver surpreendente, é a queda de braço travada entre o governo federal auxiliado por seus agentes financeiros, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, com a totalidade do sistema financeiro, incluídos nele os grandes bancos, por sinal foram os maiores financiadores das campanhas eleitorais, em torno do valor da taxa de juros.

E o que parece contraditório é a gritaria da banca de que se trata de intervenção estatal, quebra das regras de mercado e variantes desse chororô quando o que ocorre é justamente o contrário, são os agentes econômicos do governo fazendo nada mais do que aplicar as regras mais básicas de mercado, assim mostradas desde o velho Adam Smith, a competição com a oferta de produtos melhores e mais baratos.

Não há explicações plausíveis, que não a ganância e o oferecimento de passagem confortável e rentável para o capital especulativo, para uma taxa de juros no país dezenas de vezes maior que o patamar internacional. 

Que por sua vez é bancada pelo governo - com o seu, o meu, o nosso dinheiro – com o giro da imensa e cada vez mais impagável dívida pública, através da prevalência no orçamento e em sua execução da manutenção do famigerado superávit primário que retira montanhas de recursos que poderiam ser dirigidos para a poupança e para o investimento produtivo da nação.

Essa queda de braço é sem dúvida um fato novo e devemos nos empenhar para que dê certo e que a taxa de juros real chegue a um patamar, no mínimo, civilizado.

Urbano Patto é Arquiteto-Urbanista, Mestre em Gestão e Desenvolvimento Regional, Secretário do Partido Popular Socialista - PPS - de Taubaté e membro Conselho Fiscal do PPS do Estado de São Paulo. Comentários, sugestões e críticas para urbanopatto@hotmail.com

O caldeirão cultural de volta ao Aterro

Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, deve reunir 30 mil pessoas por dia no Parque do Flamengo entre 15 e 23 de junho

Emanuel Alencar

Os "indignados" da Espanha - movimento capitaneado pela juventude - cruzarão com integrantes da Primavera Árabe, que poderão bater um papo com universitários chilenos, que tentarão ser convencidos por índios caiapós de que a construção da hidrelétrica de Belo Monte é mau negócio. O cenário: Parque do Flamengo, daqui a dois meses. A Cúpula dos Povos, evento paralelo à conferência da ONU sobre desenvolvimento sustentável, a Rio+20, transformará o Rio, duas décadas depois da Rio 92, num caldeirão cultural. Num trecho de 7 quilômetros, o Aterro receberá tendas, palcos para apresentação de shows e discussões de distintas matizes. A organização do encontro estima que 30 mil pessoas participem da cúpula diariamente, de 15 a 23 de junho.

"A galera Woodstock ficará na Quinta", diz organizador

A estimativa supera o encontro da sociedade civil promovido durante a Rio 92. Na ocasião, cerca de 20 mil por dia foram ao Aterro participar do Fórum Global. Desta vez, tendas simples darão lugar a estruturas mais elaboradas. E os movimentos sociais terão à disposição 36 carrinhos elétricos, daqueles usados em campos de golfe, além de 350 bicicletas. É o luxo possível com o orçamento de R$11 milhões - provenientes da Caixa Econômica Federal.

Acampamentos no Aterro estão proibidos, medida para evitar danos aos jardins de Burle Marx. Os ativistas, porém, já acertaram com a prefeitura que vão pernoitar em dois Cieps (um no Catete e outro na Rua do Lavradio, no Centro) e na Quinta da Boa Vista. O Sambódromo e uma área na Zona Portuária são opções que estão sendo estudadas.

- Não queremos criar qualquer tipo de problema, ninguém ficará acampado no Aterro, como não ficou há 20 anos - diz Carlos Henrique Painel, ambientalista e coordenador do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais. - Vamos encaminhar a galera "Woodstock", os mochileiros, à Quinta da Boa Vista. A prefeitura ofereceu e vamos avaliar a estrutura do Sambódromo. Há ainda um terreno de 16 mil metros quadrados ao lado da Cidade do Samba. Não faltará espaço.

ONGs e representantes de movimentos sociais prometem fazer barulho durante os nove dias de eventos. Uma passeata do Flamengo a Copacabana está sendo organizada. Não está descartado um grande ato em frente ao Riocentro, local da reuniões dos chefes de estado e de governo. Além de remeter à Rio 92 - o maior encontro sobre meio ambiente da História - a escolha do Aterro teve o objetivo de marcar o contraponto à conferência oficial, diz Painel:

- Com a Cúpula dos Povos, queremos lembrar aos presidentes que eles devem cumprir o que ficou acertado lá atrás, na Rio 92: a Agenda 21 e as convenções do Clima e da Biodiversidade. Aquela conferência ainda é a referência. Nossa luta é para que as conquistas da sociedade não percam espaço.

Na avaliação do economista Sérgio Besserman, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura, o encontro da sociedade civil representará uma "excelente contribuição" para o Rio. Mas assinala a necessidade de haver conexão dos assuntos debatidos no Aterro com o ponto central da conferência oficial: o desenvolvimento sustentável.

- Embora a conjuntura internacional seja outra, 20 anos depois, a Cúpula dos Povos tem bandeiras e lutas importantes, como o direito à segurança alimentar e a defesa da liberdade de expressão religiosa. Trará enorme contribuição para a marca Rio. Só espero que as discussões sejam travadas no contexto do desenvolvimento sustentável. Cabe também à Cúpula dos Povos assumir que estamos esbarrando nos limites do planeta. E quem vai sofrer mais com o aquecimento global? Os mais pobres - diz Besserman.

O Aterro do Flamengo será ocupado das proximidades do Aeroporto Santos Dumont à Rua Silveira Martins. Apenas as areias da Praia do Flamengo ficarão livres dos eventos da sociedade civil brasileira e mundial. Sete pequenos palcos receberão performances musicais. Músicos e artistas interessados em participar podem se inscrever ainda este mês no site www.cupuladospovos.org.br. Inscrições de seminários, debates, oficinas e palestras também estão abertas no site até o próximo dia 20.

TV Cúpula será aberta a conteúdo colaborativo

Haverá ainda uma rede de transmissão do evento - a TV Cúpula - que estará aberta às contribuições dos participantes. Será possível enviar vídeos, fotos e textos em tempo real.

- Estamos esperando gente de quatro continentes, mas o maior contingente virá da América Latina. Será a grande chance de reorganização da sociedade civil global - afirma Carlos Henrique Painel. - Tem uma turma que virá de bicicleta do Amazonas.

Desafio maior da cúpula, porém, é reunir aspirações e anseios de entidades como Via Campesina, Marcha Mundial das Mulheres, SOS Mata Atlântica e Instituto de Estudos da Religião (Iser) num documento único. Por isso, serão realizadas pequenas assembleias, em tendas com capacidades para até mil pessoas. No último dia de evento, uma assembleia geral definirá o texto comum.

O portal de acesso à Cúpula dos Povos será montado na passarela do Museu de Arte Moderna (MAM), cujos pilotis receberão um estande do governo federal. O Vivo Rio está reservado às grandes assembleias.

FONTE: O GLOBO

Salário :: Carlos Drummond de Andrade

Ó que lance extraordinário:
aumentou o meu salário
e o custo de vida, vário,
muito acima do ordinário,
por milagre monetário
deu um salto planetário.
Não entendo o noticiário.
Sou um simples operário,
escravo de ponto e horário,
sou caxias voluntário
de rendimento precário,
nível de vida sumário,
para não dizer primário,
e cerzido vestuário.
Não sou nada perdulário,
muito menos salafrário,
é limpo meu prontuário,
jamais avancei no Erário,
não festejo aniversário
e em meu sufoco diário
de emudecido canário,
navegante solitário,
sob o peso tributário,
me falta vocabulário
para um triste comentário.
Mas que lance extraordinário:
com o aumento de salário,
aumentou o meu calvário!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

OPINIÃO DO DIA – Antonio Labriola: causídicos ou sofistas

Por isso nós, socialistas que de bom grado nos deixamos chamar “científicos” – se não se tentar com tal epíteto confundir-nos com os positivistas, que são nossos hóspedes freqüentes mas nem sempre bem aceitos e a seu bel prazer monopolizam a palavra ciência -, não lutamos para sustentar uma tese abstrata e genérica, como se fôssemos causídicos ou sofistas; nem nos apressamos em demonstrar a racionalidade de nossos objetivos. Nossos objetivos são unicamente a expressão teórica e a explicação pacífica dos dados que nos oferecem a interpretação do processo que se cumpre através de nós e em torno a nós; e que está inteiro nas relações objetivas da vida social, da qual somos sujeito e objeto, causa e efeito, escopo e parte. Nossos objetivos são racionais, não porque se fundamentam em argumentos extraídos da razão da discussão, mas porque são deduzidos da consideração objetiva das coisas; o que equivale a dizer que são deduzidos a partir da elucidação de seu processo, que não é nem pode ser resultado de nosso arbítrio mas, ao contrário, vence e submete nosso arbítrio.

LABRIOLA, Antonio (1842-1904), professor de Filosofia da Universidade de Roma. Ensaio escrito em 7 de abril de 1895. Manifesto comunista, p.92. Boitempo Editorial, São Paulo, 2005.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Congresso enfim vai criar CPI para Cachoeira e Demóstenes
Regra três
TRT do Rio investigará dono de R$ 282 milhões
Rede envolvia gabinete de governo do PT no DF
Governo não aceita exigência de bancos
Barreira à China agora é oficial

FOLHA DE S. PAULO
Lula incentiva, e Congresso anuncia CPI do Cachoeira
Polícia Militar gasta R$ 26 mi em tablets que funcionam mal
Bancos fazem exigências ao governo para reduzir juros
Julia Sweig: Dilma reflete o que o Brasil pode levar aos americanos
Tecnologia 'verde' terá prioridade para obter patente

O ESTADO DE S. PAULO
Acordo no Congresso vai permitir CPI do Cachoeira
Dilma cobra Obama sobre Embraer
Governo quer acordo para baratear luz
Neymar leva a Câmara ao delírio
STF julga se é crime aborto de feto sem cérebro

VALOR ECONÔMICO
cos conseguem aliviar o efeito dos compulsórios
Estados não aceitam Selic para dívidas
Usina de Santa Isabel pode sair do papel
Brasil inspira oposição a Chávez
Brasileiro prefere poupança e capitalização
Área militar impulsiona os negócios de TI

CORREIO BRAZILIENSE
Senado e Câmara vão criar CPI do Cachoeira
Dilma quer barrar a crise com empregos
Juros: Bancos pedem garantias

ESTADO DE MINAS
BH tamanho XG
Porque os EUA relutam em abolir o visto para o Brasil
Para cortar juros, banco quer garantia

ZERO HORA (RS)
Soja deve frear avanço da economia gaúcha
STF vota hoje aborto de anencéfalo
Congresso fecha CPI contra Demóstenes

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Brinquedo nacional mais barato
Relações de Cachoeira são alvo de CPI
Supremo vota aborto de bebê sem cérebro

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Rede envolvia gabinete de governo do PT no DF

Chefe de gabinete do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), Claudio Monteiro pediu demissão ontem, após a divulgação de conversas em que integrantes do esquema de Carlinhos Cachoeira discutem o pagamento de propina para ele e para Marcelo Lopes, ex-assessor da Casa Militar, em troca de nomeações para o Serviço de Limpeza Urbana

Chefe de gabinete de Agnelo pede demissão após revelação de grampo

Membros do grupo de Cachoeira falam em dinheiro para agradecer nomeação

BRASÍLIA. Cláudio Monteiro, chefe de gabinete do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, pediu demissão ontem à noite, depois que gravações da Polícia Federal mostraram integrantes da organização do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, conversando sobre pagamento de propina e concessão de um telefone especial a ele. Em um dos diálogos interceptados pela Polícia Federal, o grupo promete dinheiro também para Marcelo Lopes, ex-assessor especial da Casa Militar do DF, como revelou ontem o "Jornal Nacional", da TV Globo. Os diálogos estão no inquérito sobre a exploração ilegal de caça-níqueis, jogo do bicho e fraudes em licitações entre outros crimes imputados a Cachoeira.

Entre as conversas gravadas pela Polícia Federal com autorização judicial está um diálogo entre Cláudio Abreu, ex-diretor regional da construtora Delta, e o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Matias, o Dadá, dois dos principais integrantes da organização de Cachoeira.

"Dá o dinheiro pro cara, meu irmão"

Em janeiro do ano passado, Abreu ligou para Dadá para conversar sobre nomeação para o comando do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), no começo do governo Agnelo. A Delta estava interessada em ampliar os contratos com o SLU.

- O Marcelão tá aqui comigo, entendeu? Veio agora de uma reunião com o Cláudio Monteiro. Ele tava falando o seguinte: que é ideal você dar um presente pro cara antes. A nomeação vai sair na terça-feira no Diário Oficial - diz Dadá.

Marcelão seria Marcelo Lopes, que até o início do escândalo era assessor da Casa Militar. Impaciente, Abreu, um dos executivos mais importantes da sétima maior construtora do país, manda Dadá resumir logo a conversa.

- O que que é pra dar pra ele? - pergunta.

Dadá não tem dúvidas sobre o que está em jogo.

- Dá o dinheiro pro cara, meu irmão - sugere.

Dadá é apontado pela Polícia Federal como um dos prepostos de Cachoeira encarregado de cooptar agentes públicos para a organização do bicheiro. Abreu ouve a sugestão e faz uma oferta.

- Faz o seguinte: vamos dar 20 mil pra ele e 5 mil por mês. Pronto. Vinte mil prá ele agora e 5 mil por mês. Entendeu ? - diz.

Dadá reafirma que o "Marcelão" permanece ali e que os dois vão conversar sobre o assunto. Cláudio Monteiro, um dos mais influentes assessores de Agnelo, seria o responsável pela indicação de João Monteiro para o comando do SLU, área cobiçada pela Delta. Cláudio Monteiro confirmou contatos com Dadá, mas negou que tenha recebido dinheiro ou mesmo participado da indicação de dirigentes do SLU.

- Não recebi e nem providenciei a nomeação. Eu não tenho nada, absolutamente nada com isso - disse Monteiro ao Jornal Nacional.

Em outra conversa interceptada pela PF, Dadá e Cachoeira falam em entregar rádios para Monteiro e Lopes. A organização acreditava que rádios Nextel seriam à prova de grampo. O grupo criou o "Clube Nextel", que reunia cúmplices de Cachoeira que só falavam entre si com o rádio habilitado nos Estados Unidos.

FONTE: O GLOBO

Planalto mantém no cargo assessor que conversou com número 2 de bicheiro

Gilberto Carvalho confirma ter pedido esclarecimentos, mas defendeu Noleto

Luiza Damé

BRASÍLIA. O Palácio do Planalto decidiu manter no cargo o subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), o petista goiano Olavo Noleto, flagrado num telefonema com Wladimir Garcez, ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia e número dois do esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira. Embora o assunto tenha mobilizado os ministros palacianos desde segunda-feira da semana passada, quando a presidente Dilma Rousseff tomou conhecimento do fato, o governo bancou a versão do assessor de que não tem ligação com os negócios ilícitos de Cachoeira.

Em nota ontem, pela manhã, a SRI disse não haver "qualquer indício de irregularidade" na conduta de Noleto que justifique sua demissão. E negou que tenha havido reunião no Planalto para tratar da situação dele. Mais tarde, porém, o ministro da Secretaria Geral, Gilberto Carvalho, confirmou as conversas com Noleto, semana passada, e afirmou que o assunto, para o Planalto, é "página virada". Segundo Gilberto, o governo não teme que a possível relação de Noleto com Garcez respingue no Planalto.

O telefonema entre Garcez e Noleto é conhecido pelo Planalto desde o dia 2 de abril. Foi a ministra da SRI, Ideli Salvatti, quem informou Dilma e Gilberto sobre a situação de seu assessor. O ministro disse que Noleto é seu amigo e contou que falou com ele na semana passada sobre a relação com Garcez.

Segundo Gilberto, Noleto lhe disse que tratou com Garcez de um possível apoio do senador Demóstenes Torres (sem partido-DEM) à candidatura de Dilma Rousseff, em 2010. Esse apoio, disse Gilberto, acabou não ocorrendo, porque o DEM indicou Indio da Costa como vice na chapa do tucano José Serra.

- Ele (Noleto) nos assegurou que o único contato com esse ex-presidente da Câmara tinha sido dessa natureza. Não conhecia o Carlinhos Cachoeira, nunca teve contato com ele - disse Gilberto, salientando que a função do subchefe é receber parlamentares, prefeitos e governadores.

Noleto, em nota, disse que "jamais conversou, não conhece, nem foi apresentado" a Cachoeira, mas que conhece e conviveu com Garcez, quando foi chefe de gabinete do ex-prefeito de Goiânia Pedro Wilson Guimarães (PT), entre 2001 e 2002.

Tanto a SRI como Gilberto negaram que Dilma tenha pedido a demissão de Noleto.

FONTE: O GLOBO

Acordo no Congresso vai permitir CPI do Cachoeira

Um acordo entre Senado e Câmara permitirá a abertura de CPI mista para investigar as ligações políticas do contraventor goiano Carlinhos Cachoeira. Governistas e opositores expressaram apoio. "Temos interesse em apurar tudo", disse o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA). "Estaremos firmes na defesa da investigação", afirmou a presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE). Além da CPI, o Senado deu o primeiro passo no processo de cassação de Demóstenes Torres (sem partido), acusado de elo com Cachoeira. O presidente do Conselho de Ética da Casa, Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), acolheu a pedido do PSOL, apresentado há 13 dias

CPI mista pode apurar ligação de contraventor com parlamentares

Decisão foi tomada pelos presidentes do Senado e da Câmara e contou com apoio de legendas aliadas e de oposição

João Domingos, Christiane Samarco

BRASÍLIA - Uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado e da Câmara investigará as ligações políticas do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Foi o que decidiram ontem os presidentes das duas Casas, o senador José Sarney (PMDB-AP) e o deputado Marco Maia (PT-RS), com apoio das legendas aliadas e da oposição.

Ficou acertado que Senado e Câmara fecharão um texto comum de convocação das investigações. Para a instalação da CPI, são necessárias no mínimo 27 assinaturas de senadores e 171 de deputados, o que deve ser alcançado com facilidade, dado que o apoio à abertura do inquérito é total. Numa CPI, ao contrário dos processos nos conselhos de ética, sigilos bancário, fiscal e telefônico podem ser quebrados. Os convocados são obrigados a comparecer. E as investigações servem de base para a montagem de processos penais.

"Não há dúvidas de que todos os fatos revelados a respeito das ligações de Cachoeira com os políticos são graves. Por isso, achamos melhor uma CPI mista para investigar as ligações de Cachoeira com parlamentares, e com os Poderes Executivo e Judiciário, além de setores da imprensa", disse o presidente da Câmara, Marco Maia, logo após a reunião com Sarney. O líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA), disse que até a segunda-feira tinha dúvidas a respeito da abertura da CPI, pois a PF já tinha feito as investigações, o Supremo Tribunal Federal determinara a abertura de inquérito e o Conselho de Ética do Senado abriu ontem processo contra o senador Demóstenes Torres (GO), que trocou 298 ligações com Cachoeira.

Negativa. Ocorre que o STF se recusou a dar ao Senado acesso às fitas gravadas pela PF, segundo Pinheiro. O Senado insistiu, com novo requerimento, citando como precedente processo contra o ex-senador Luiz Octávio (PMDB-PA), em que toda a papelada foi compartilhada com os senadores. "Temos interesse em apurar tudo. Por isso, queremos a CPI", disse Pinheiro.

A oposição também trabalhou pela abertura da CPI. O governador tucano de Goiás, Marconi Perillo, liberou a cúpula do PSDB para que insistisse na CPI. E garantiu à direção partidária que não tem vínculo pessoal com Cachoeira e que não há nada no inquérito que o incrimine.

Com o aval de Perillo, o presidente nacional do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), sentiu-se seguro para levar adiante o projeto de investigações. "O PSDB está tranquilo em relação a Marconi e não tem por que vacilar. Estaremos firmes na defesa da investigação e não a reboque dela. Queremos que a CPI investigue todas as ligações de Cachoeira no Executivo, no Legislativo e Judiciário e não poupe ninguém", disse. "Os autores ou cúmplices deverão ser apontados a todo o Brasil e punidos dentro das formas legais", afirmou.

O deputado ACM Neto (BA), líder do DEM, partido ao qual pertencia Demóstenes, disse confiar na instalação da CPI já na semana que vem. "Creio que em menos de 24 horas vamos reunir as assinaturas necessárias." Já o deputado Marco Maia disse que não tem medo de que a CPI atrapalhe o Congresso. "Uma coisa é a pauta da Câmara e do Senado, que tem sua rotina; outra é a CPI. Vamos pedir aos parlamentares candidatos a prefeito que não participem das investigações."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Planalto e Perillo agem para evitar desdobramentos

Fernando Exman, Yvna Sousa e Juliano Basile

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto e o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), desencadearam ontem duas operações para tentar afastar as suspeitas de que o escândalo envolvendo o empresário Carlos Augusto Ramos terá novos desdobramentos nos governos federal e goiano.

Conhecido como Carlinhos Cachoeira, Carlos Augusto Ramos foi preso pela Polícia Federal sob a acusação de comandar uma rede ilegal de jogos de azar. A Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República divulgou uma nota negando que o subchefe de Assuntos Federativos da Pasta, Olavo Noleto, seria demitido.

De acordo com o jornal "O Globo", a operação da Polícia Federal que investigou Cachoeira teria encontrado ligações telefônicas de Noleto com um dos integrantes do grupo do empresário. Ainda segundo o jornal, Noleto teria admitido numa reunião com a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, e o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, que conhece Cachoeira, mas negou fazer parte do suposto esquema comandado pelo empresário. Noleto é do PT goiano, e trabalha no Palácio do Planalto desde o governo Luiz Inácio Lula da Silva.

A Secretaria de Relações Institucionais assegurou que são "infundadas" as informações sobre a eventual demissão do assessor de Ideli. "Não existe qualquer indício de irregularidade em relação à sua conduta que possa justificar seu afastamento", sublinhou o comunicado divulgado pela Pasta. "Não existiu uma suposta reunião entre Noleto, o ministro Gilberto Carvalho e a ministra Ideli Salvatti, nos termos relatados pela imprensa."

Marconi Perillo, por sua vez, reuniu ontem seu secretariado, num momento em que o meio político goiano vive momentos de "tensão". Além do senador Demóstenes Torres (sem partido) e integrantes da bancada de Goiás, de todos os partidos, na Câmara dos Deputados, as denúncias envolvendo Carlinhos Cachoeira atingiram a chefe de gabinete de Perillo e o presidente do Detran. Ambos deixaram o cargo, embora neguem ter praticado irregularidades. Na tentativa de criar uma agenda positiva, Perillo pediu que seus auxiliares definam metas e prioridades e acabem com a "dispersão de atividades". A expectativa de interlocutores do governador goiano é que as denúncias relacionadas a autoridades do Estado cessem nos próximos dias.

O jornal "O Globo" também publicou ontem uma reportagem segundo a qual uma ação iniciada pelo Ministério Público de Goiás tramita desde 2005 no Supremo Tribunal Federal (STF) tentando anular uma lei estadual que autoriza a exploração de loterias instantâneas. A lei e o decreto que regulamentou essa norma foram assinados em 2000 pelo então governador Marconi Perillo, que elegeu-se novamente em 2010, e poderia beneficiar Carlinhos Cachoeira.

Relator do processo no STF, o ministro Gilmar Mendes informou que a Corte já tem súmula vinculante contra leis estaduais que tratam do assunto. A súmula inviabiliza qualquer possibilidade de o STF autorizar jogos nos Estados. Ela foi editada, em 2007, após o Supremo proibir jogos em Goiás. Por causa disso, o ministro questionou o MP se há algum interesse em manter a ação no STF. Mesmo que o processo continue em tramitação, os jogos permanecem proibidos e não há chance de o STF autorizá-los.

Ontem, a defesa do senador Demóstenes Torres entrou com uma reclamação no STF pedindo a anulação das gravações em que ele aparece conversando com Cachoeira. Segundo Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado de Demóstenes, as gravações são ilegais, pois envolvem autoridade com foro privilegiado (senador) e não foram previamente solicitadas ao STF. A reclamação será analisada pelo ministro Ricardo Lewandowski, que é relator do processo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Senadores criticam proposta tributária da União

Parlamentares da base e da oposição não querem dívidas dos estados corrigidas pela Selic, como propôs Ideli Salvatti

Cristiane Jungblut

BRASLIA. Apesar do acordo anunciado semana passada pela ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, sobre o pacote de medidas tributárias de interesse dos estados, senadores da base aliada e da oposição criticaram ontem a proposta da área econômica de adotar a taxa básica de juros, a Selic, como novo indexador das dívidas dos estados junto à União.

Na quinta-feira, Ideli informou que a Fazenda concordara em substituir o indexador atual, o IGP-DI, pela Selic. Mas os senadores rejeitaram a ideia com o argumento de que essa taxa de juros é definida pelo governo, ou seja, o credor dos estados.

Apoiado por outros colegas, o senador Francisco Dornelles (PP-RJ) defendeu a adoção do IPCA como novo índice de cálculo das dívidas. Mas a área econômica já estaria avançando na negociação com os governadores para a adoção da Selic. Hoje, o assunto será debatido nas comissões de Constituição e Justiça (CCJ) e de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, que começarão a votar as propostas do pacote tributário.

A primeira proposta a ser votada hoje, nas duas comissões, prevê o fim da chamada guerra fiscal, com a unificação da alíquota do ICMS em operações interestaduais com produtos importados.

A questão da dívida dos estados gerou polêmica na reunião de ontem da CAE. O senador Francisco Dornelles foi o primeiro a reclamar da adoção da Selic e apresentou proposta alternativa, afirmando que o governo faz os "senadores de bobos" ao propor uma taxa que a União, que é credora, pode aumentar a qualquer momento.

- Adotar a Selic é uma loucura. Não dá para você aceitar uma taxa fixada pelo seu credor (da dívida). E Selic é item de política monetária. Hoje, está um pouco acima dos 9%, mas amanhã pode estar em 20%, 30%. Já o IPCA é calculado pelo IBGE e independe da política monetária. O governo acha que somos meio bobos - disse Dornelles, parafraseando Nelson Rodrigues.

Mas a intenção da Fazenda, ontem, ainda era manter a proposta. A ideia é que o próprio líder do governo, Eduardo Braga (PMDB-AM), apresente texto neste sentido hoje nas comissões do Senado.

- Vamos ter que apresentar um projeto de lei complementar, fazendo a alteração e permitindo que os contratos com os estados sejam mudados. A ideia é manter a Selic, que é uma opção neutra, porque é a taxa que a União paga quando toma recursos - disse o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que participa das negociações.

A proposta de Dornelles prevê a correção da dívida adotando o IPCA, retroagindo à data da assinatura de cada contrato. Esse projeto determina que os saldos devedores sejam recalculados pelo novo índice de preços até a data em que entrar em vigor esta lei, quando a atualização monetária será extinta.

A partir da vigência dessa norma em lei, seria adotada nos novos contratos uma taxa de juros nominal fixa de 3%, "mesmo tratamento dispensado pelo Tesouro Nacional a bancos e empresas em operações de empréstimo". Dornelles teve apoio de senadores do PT e do PSDB na defesa do IPCA, como o petista Wellington Dias (PI) e o tucano Aloysio Nunes (SP).

Já o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) defendeu a adoção da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), também utilizada pelo BNDES, e a redução em dois pontos percentuais do patamar estabelecido para os estados para pagamento de dívidas. Segundo ele, apesar de a regra geral ser de 13% das receitas mensais com pagamento de dívida, há estados que comprometem mais.

Ele disse que conversou com o governador do Rio, Sérgio Cabral, que deve ir a Brasília no próximo dia 19. Neste dia, comissão criada na Câmara para discutir a dívida dos estados deve se reunir com governadores. Comandada pelo ex-líder do governo Cândido Vaccarezza (PT-SP), a comissão também tem proposta de adoção do IPCA, mas quer discutir o assunto com o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

- Apenas mudar o indexador não reduz a prestação mensal dos estados. Com a redução dos dois pontos percentuais, o Rio de Janeiro, que compromete 13% da receita, economizaria R$ 752 milhões - disse Lindbergh.

Além da Resolução 72, a CCJ já vai discutir as Propostas de Emendas Constitucionais (PECs) que tratam do comércio por venda virtual ou por representantes. A ideia é repartir meio a meio o ICMS, entre o estado da loja virtual e o estado do consumidor. Mas há propostas de repartir 40%/60% o ICMS, com a maior parte para o estado do consumidor.

FONTE: O GLOBO

Oposição é agora alvo da ira mal resolvida do PT durante mensalão

Clima de "vendetta" ocorre porque petistas consideraram injusto tratamento durante escândalo no governo Lula

Como a teia de negócios de cachoeira não é conhecida, é impossível prever que a CPI só atingirá a oposição

Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - Em meados de 1992, o então coordenador político do governo federal, Jorge Bornhausen, foi indagado sobre sua opinião a respeito da CPI do Collorgate. "Essa CPI não vai dar em nada", respondeu.

No final daquele ano, o então presidente Fernando Collor -hoje senador pelo PTB de Alagoas- acabou perdendo o mandato depois de um rumoroso processo de impeachment.

No caso da CPI que investigará os negócios de Carlinhos Cachoeira e as traficâncias de políticos de vários partidos com o mundo da contravenção, o governo também está dizendo que nada afetará o Palácio do Planalto. Mas essa é uma afirmação que não pode ser feita de maneira científica.

Quando Bornhausen falou sobre a CPI do Collorgate, estava também tentando fazer o trabalho de esfriamento do clima político.

Até porque, como se ouve há décadas em Brasília, CPIs a gente sempre sabe como começam, mas nunca como terminam.

O que é possível enxergar no caso da "CPI do Cachoeira" é um desejo irrefreável de parte majoritária do PT e de partidos lulistas agregados. Todos consideram a apuração uma chance de ir à forra contra o que restou da oposição.

O clima de "vendetta" ainda existe por causa do tratamento que os petistas e seus aliados mensaleiros consideraram injusto no processo do mensalão -o mais grave caso de corrupção durante o governo Lula e que destruiu a carreira de vários políticos.

Integrantes do PSDB e do DEM são alvo da ira mal resolvida dos petistas.

Também é comum ouvir no Congresso que deve ser convocado para depor o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, responsável pela apresentação da denúncia do mensalão.

Por fim, os governistas vislumbram a possibilidade de usar a "CPI do Cachoeira" para constranger jornalistas que usaram as informações do empresário na apuração de reportagens.

Como a teia de negócios de Cachoeira ainda está longe de ser conhecida, é impossível prever que a CPI prestes a ser instalada será pródiga em encontrar provas só contra políticos da oposição.

Mas os petistas não parecem considerar haver risco real e estão entusiasmados com a investigação.

O clima é de descontrole. O Palácio do Planalto também dá indicação de estar contaminado pela onda.

Como política não é uma ciência exata, a falta de estratégia definida provoca ainda mais incertezas a respeito do desfecho dessa CPI.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Julgamento do mensalão deve ser agilizado, dizem ministros do STF

Declarações ampliam pressão sobre voto do relator Lewandowski

Maria clara Cabral, Felipe seligman

BRASÍLIA - Dois ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) defenderam ontem que o julgamento do caso do mensalão ocorra o mais rápido possível, sob o argumento de que uma demora poderia arranhar a imagem do tribunal.

Gilmar Mendes disse que isso acontecer neste semestre, lembrando que o atual presidente, Cezar Peluso, e seu sucessor, Carlos Ayres Britto, devem se aposentar entre setembro e novembro, quando completam 70 anos.

"É de todo recomendável que julguemos [neste semestre] e posso dizer que bom para a imagem do tribunal não será [não julgar em 2012]", afirmou Mendes, ao participar de uma sessão solene no Congresso em homenagem ao clube de futebol Santos.

Já Ayres Britto não chegou a defender a análise neste semestre, mas lembrou que trata-se de ano eleitoral e que, por isso, "o conveniente seria apressar o julgamento".

"Como o ano é eleitoral e efetivamente há certo risco de prescrição de algumas imputações, isso em tese, o conveniente seria apressar o julgamento sem perda da segurança da análise julgada", disse, após reunião com o presidente da Câmara, Marco Maia.

Ambas as declarações aumentam a pressão para que o revisor do caso, ministro Ricardo Lewandowski, libere seu voto. Em processos penais, existe no STF as figuras do relator (no caso, o ministro Joaquim Barbosa) e do revisor (Lewandowski). O caso só pode ir ao plenário quando ambos estiverem prontos.

No final de 2011, Barbosa liberou seu relatório, passando a responsabilidade de marcar a data ao colega revisor. Lewandowski diz que já iniciou a análise, mas que a elaboração do voto não é tão simples, por se tratarem de muitos réus e diversas acusações presentes em mais de 50 mil páginas de documentos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A 'vingança' do PT e a aposta dos tucanos

Christiane Samarco e João Domingos

Sete anos depois da divulgação de um vídeo em que o diretor dos Correios Maurício Marinho era flagrado embolsando R$ 3 mil - o que deu origem ao mensalão -, vem aí a CPI da Vingança. Os petistas triturados pela CPI dos Correios veem no inquérito que vai apurar as relações de Carlinhos Cachoeira a chance de ir à forra contra a oposição.

Já os oposicionistas enxergam na CPI a possibilidade de encurralar o PT e até chegar ao Planalto, porque as empresas e os negócios de Cachoeira ultrapassam as divisas de Goiás. Só a Delta Construções, citada na Operação Monte Carlo, recebeu R$ 4,13 bilhões do governo federal de 2007 para cá. Além do mais, o advogado de Cachoeira é ninguém menos que Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça do governo Lula. E Cachoeira foi um "parceiro" de Waldomiro Diniz, que habitava a cozinha do Planalto em 2004.

Peemedebistas experientes, como Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP), avaliavam ontem que o PT deu um passo arriscado, pois CPI não é coisa boa nem quando é a favor e o único consenso é o de que ninguém sabe como ela vai terminar. Fala-se em nova "CPI do fim do mundo", com acusações e dossiês por todo lado.

O PT age agora movido pelo trauma da CPI dos Correios, que arrebentou a cúpula do partido e cassou seu ministro mais poderoso. Nesse clima de rancor, os petistas aceitam até abrir uma CPI que pode implicar o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), afirmou que não há muito a fazer se Agnelo estiver mesmo implicado: "Paciência, (ele) sabia dos riscos."

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

BH - Comando do PT e Lacerda afinados

Presidente do partido desembarca em BH para garantir a aliança com o prefeito, que confirmou a presença dos tucanos na coligação

Bertha Maakaroun

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, chegará a Belo Horizonte nesta sexta-feira tendo como principal objetivo garantir em Belo Horizonte a aliança do PT com o PSB, de Marcio Lacerda. Na capital mineira os grupos do PT se dilaceram pela posição de vice na chapa e, no caso do candidato a vice e deputado federal Miguel Corrêa, ainda flerta com o vice-prefeito Roberto Carvalho, defensor da tese da candidatura própria. Para o PT nacional, entretanto, o mais relevante não é a discussão de quem será o vice e sim garantir a reedição da coligação entre PT e o PSB. No plano nacional, Belo Horizonte está no centro das negociações de petistas e tucanos que trabalham uma aliança considerada estratégica para a manutenção do governo federal em 2014.

A aliança de petistas e tucanos, que elegeu Lacerda em 2008 ao lado do PSB, neste momento está ameaçada. Não faltam interpretações para a resolução aprovada no Encontro de Tática Eleitoral, ocorrido em 25 de março. Segundo Roberto Carvalho, se o PSB não informar ao PT até domingo, data do próximo encontro, se excluirá o PSDB da coligação, a resolução prevê a escolha de um nome para a candidatura própria. "O texto que aprovamos é muito claro. Se o PSB não informar a decisão de tirar os tucanos da coligação e se o PSB não aceitar a coligação proporcional com o PT lançaremos candidatura própria", afirma Carvalho.

Em São Paulo, Marcio Lacerda reiterou ontem a presença formal do PSDB na coligação. Em evento promovido pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), Lacerda disse, ao lado do governador Antonio Anastasia (PSDB), que espera ter uma ampla aliança este ano. "A coligação que pretendemos ter foi desde o primeiro momento dita, que era com o PSDB e com o PT", considerou Lacerda, lembrando que a sua coligação deverá reunir entre 14 e 15 partidos, assim como ocorreu em 2008. "A cidade aprovou esta aliança, ela está funcionando bem", disse. Ao mesmo tempo, Anastasia afirmou que o apoio do PSDB a Lacerda independe do PT. "Fomos convidados novamente pelo PSB, que conduz e coordena essa aliança, para a coligação formal. Continuaremos apoiando o prefeito Marcio Lacerda."

Ao mesmo tempo, em Belo Horizonte, a executiva municipal do PT recebeu ontem, de Lacerda uma resposta formal aos documentos encaminhados pelo partido. "Mandamos para o prefeito e para o PSB municipal e estadual a íntegra da resolução aprovada no Encontro de Tática Eleitoral e um documento denominado Diretrizes democráticas, populares e republicanas para o PT de Belo Horizonte nas eleições", disse Geraldo Arcoverde, secretário-geral do PT em Belo Horizonte e secretário-executivo do Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE). "A resposta de Lacerda aos encaminhamentos feitos na resolução, como a exclusão do PSDB e a coligação proporcional, foi de que caberá ao PSB estadual definir as questões colocadas", acrescentou Arcoverde.

No PT, Arcoverde e Roberto Carvalho mantêm a interpretação de que a resolução só permite a aliança do PT com o PSB se o PSDB estiver de fora. Outros grupos fazem leitura diversa. "O PT de Belo Horizonte optou pela negociação. O que fez foi uma recomendação, que não tem caráter de obrigatoriedade", diz ex-deputado federal Virgílio Guimarães. "A resolução nem é um pacto de adesão incondicional a Lacerda nem é um ultimato. Ela opta pelo diálogo e pela negociação soberana do PT", acrescenta ele. Segundo Virgílio, no encontro de domingo o PT vai escolher quem será o vice na chapa de Lacerda, não estando mais em debate a candidatura própria.

Costura para vice

Em meio ao embate de interpretações da resolução, corre a disputa para a vaga de vice. Em aliança com Roberto Carvalho para o apoio ao seu nome, Miguel Corrêa quase alcança a maioria dos 500 delegados. Ao presidente estadual do PSDB, Marcus Pestana, que defendeu o nome do deputado petista para vice na chapa da coligação, o próprio Corrêa voltou a retrucar, cioso de que é no PT que catará os seus votos: "Essa é uma decisão que caberá ao nosso partido".

Apesar de estar próximo à maioria, Miguel Corrêa enfrenta resistência entre os outros grupos do PT. O deputado estadual André Quintão é o preferido da Articulação. Se ele não se dispor a retirar a pré-candidatura, um nome técnico poderá ser mais facilmente construído. Crescem na bolsa de apostas Marco Antônio Rezende Teixeira, procurador-geral do município, que goza de boa interlocução com o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, e com o ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias. Mas surgem ainda os nomes dos secretários municipais de Planejamento, Orçamento e Informação, Paulo Bretas, e de Obras e de Infraestrutura, Murilo Valadares.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Recife - Mendonça reage ao 'jogo de bastidor'

Sem citar nomes, deputado acusa aliados das oposições de, usando do anonimato, tentarem “macular” não apenas sua pré-candidatura, mas também sua imagem

Débora Duque

Incomodado com os rumores de que seu projeto majoritário no Recife estaria perdendo força, o deputado federal Mendonça Filho (DEM) reagiu, mais uma vez, ao que chamou de “jogo de bastidor” que, segundo ele, tem o objetivo de “macular” não apenas sua postulação como sua imagem pessoal. Ao reafirmar sua candidatura, o parlamentar ainda pregou, em tom de alerta ao campo oposicionista, a manutenção de um diálogo “aberto” e “transparente” entre os quatro pré-candidatos do grupo, que corre o risco de lançar-se esfacelado ao pleito municipal.

A postura defensiva de Mendonça é uma resposta à tese de que até alguns de seus correligionários não estariam entusiasmados com sua candidatura. Sem citar nomes, o democrata cobrou “respeito” à condição de prefeiturável. “Sempre tive a lealdade e solidariedade do meu partido em todas as disputas. Não vou responder a gente que se utiliza do anonimato para fazer intriga de bastidor e atingir meu nome, minha imagem e minha candidatura”, defendeu-se.

Essa não foi a primeira reação pública de Mendonça à versão de que sua postulação estaria enfraquecida. Na semana passada, o democrata fez questão de declarar à coluna Pinga-Fogo, do JC, que não não é de “fugir à luta” e que estaria disposto a enfrentar mais uma campanha majoritária, independentemente de alianças. Ontem, ele voltou a bater na mesma tecla: “Já demonstrei que não fujo à luta. Fui candidato sozinho, em 2008, sou de encarar qualquer desafio. Só não vou deixar que subtraiam meus pré-requisitos como candidato”, assinalou.

Ele ainda lembrou que, mesmo sendo o mais bem colocado entre os oposicionistas nas pesquisas de intenção de voto, nunca colocou sua postulação como algo “incontestável”. “Não é todo mundo que teria esse comportamento se estivesse no meu lugar”, provocou, alegando que muitos estariam “arrotando prepotência”.

Os rumores de que seu ingresso na eleição municipal estaria em risco ganharam corpo com a intensificação das movimentações do deputado federal Raul Henry (PMDB). Se, até o ano passado, a candidatura do peemedebista era tida como incerta, hoje encontra-se praticamente consolidada, o que teria minado as chances de Mendonça de conquistar o esperado apoio do colega. Nos bastidores, comenta-se, inclusive, que os “avanços” sem alarde de Henry teriam chateado o democrata. Questionado se a relação encontra-se, de fato, estremecida, Mendonça preferiu não comentar. “Não quero me manifestar sobre relação de ordem pessoal. Não tem porque fazer avaliações através da imprensa”, desconversou, garantindo, porém, que a relação continua sendo de “solidariedade”.

Embora considere que “turbulências” são “normais” em períodos de decisão, o parlamentar disse que a oposição precisar preservar o mínimo de diálogo se quiser aproveitar o cenário favorável com o racha na base governista. “Precisamos manter o canal aberto e construir esse processo com transparência. Sempre respeitei a individualidade de cada candidatura, mas não posso deixar de me manifestar diante da tentativa de macular minha imagem”, justificou.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Chico Buarque - Sem Compromisso - Deixe a Menina

O papa e o marxismo :: Frei Betto

O papa Bento XVI tem razão: o marxismo não é mais útil. Sim, o marxismo conforme muitos na Igreja Católica o entendem: uma ideologia ateísta, que justificou os crimes de Stalin e as barbaridades da revolução cultural chinesa. Aceitar que o marxismo conforme a ótica de Ratzinger é o mesmo marxismo conforme a ótica de Marx seria como identificar catolicismo com Inquisição.Poder-se-ia dizer hoje: o catolicismo não é mais útil. Porque já não se justifica enviar mulheres tidas como bruxas à fogueira nem torturar suspeitos de heresia. Ora, felizmente o catolicismo não pode ser identificado com a Inquisição, nem com a pedofilia de padres e bispos.

Do mesmo modo, o marxismo não se confunde com os marxistas que o utilizaram para disseminar o medo, o terror, e sufocar a liberdade religiosa. Há que voltar a Marx para saber o que é marxismo; assim como há que retornar aos Evangelhos e a Jesus para saber o que é cristianismo, e a Francisco de Assis para saber o que é catolicismo.

Ao longo da história, em nome das mais belas palavras foram cometidos os mais horrendos crimes. Em nome da democracia, os EUA se apoderaram de Porto Rico e da base cubana de Guantánamo. Em nome do progresso, países da Europa Ocidental colonizaram povos africanos e deixaram ali um rastro de miséria. Em nome da liberdade, a rainha Vitória, do Reino Unido, promoveu na China a devastadora Guerra do Ópio. Em nome da paz, a Casa Branca cometeu o mais ousado e genocida ato terrorista de toda a história: as bombas atômicas sobre as populações de Hiroshima e Nagasaki. Em nome da liberdade, os EUA implantaram, em quase toda a América Latina, ditaduras sanguinárias ao longo de três décadas (1960-1980).

O marxismo é um método de análise da realidade. E, mais do que nunca, útil para se compreender a atual crise do capitalismo. O capitalismo, sim, já não é útil, pois promoveu a mais acentuada desigualdade social entre a população do mundo; apoderou-se de riquezas naturais de outros povos; desenvolveu sua face imperialista e monopolista; centrou o equilíbrio do mundo em arsenais nucleares; e disseminou a ideologia neoliberal, que reduz o ser humano a mero consumista submisso aos encantos da mercadoria.

Hoje, o capitalismo é hegemônico no mundo. E de 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, e 1,2 bilhão padecem fome crônica. O capitalismo fracassou para 2/3 da humanidade que não têm acesso a uma vida digna. Onde o cristianismo e o marxismo falam em solidariedade, o capitalismo introduziu a competição; onde falam em cooperação, ele introduziu a concorrência; onde falam em respeito à soberania dos povos, ele introduziu a globocolonização.

A religião não é um método de análise da realidade. O marxismo não é uma religião. A luz que a fé projeta sobre a realidade é, queira ou não o Vaticano, sempre mediatizada por uma ideologia. A ideologia neoliberal, que identifica capitalismo e democracia, hoje impera na consciência de muitos cristãos e os impede de perceber que o capitalismo é intrinsecamente perverso. A Igreja Católica, muitas vezes, é conivente com o capitalismo porque este a cobre de privilégios e lhe franqueia uma liberdade que é negada, pela pobreza, a milhões de seres humanos.

Ora, já está provado que o capitalismo não assegura um futuro digno para a humanidade. Bento XVI o admitiu ao afirmar que devemos buscar novos modelos. O marxismo, ao analisar as contradições e insuficiências do capitalismo, nos abre uma porta de esperança a uma sociedade que os católicos, na celebração eucarística, caracterizam como o mundo em que todos haverão de "partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano". A isso Marx chamou de socialismo.

O arcebispo católico de Munique, Reinhard Marx lançou, em 2011, um livro intitulado O Capital – um legado a favor da humanidade. A capa contém as mesmas cores e fontes gráficas da primeira edição de O Capital, de Karl Marx, publicada em Hamburgo, em 1867."Marx não está morto e é preciso levá-lo a sério", disse o prelado por ocasião do lançamento da obra. "Há que se confrontar com a obra de Karl Marx, que nos ajuda a entender as teorias da acumulação capitalista e o mercantilismo. Isso não significa deixar-se atrair pelas aberrações e atrocidades cometidas em seu nome no século 20".

O autor do novo O Capital, nomeado cardeal por Bento XVI em novembro de 2010, qualifica de "sociais-éticos" os princípios defendidos em seu livro, critica o capitalismo neoliberal, qualifica a especulação de "selvagem" e "pecado", e advoga que a economia precisa ser redesenhada segundo normas éticas de uma nova ordem econômica e política."As regras do jogo devem ter qualidade ética. Nesse sentido, a doutrina social da Igreja é crítica frente ao capitalismo", afirma o arcebispo.

O livro se inicia com uma carta de Reinhard Marx a Karl Marx, a quem chama de "querido homônimo", falecido em 1883. Roga-lhe reconhecer agora seu equívoco quanto à inexistência de Deus. O que sugere, nas entrelinhas, que o autor do Manifesto Comunista se encontra entre os que, do outro lado da vida, desfrutam da visão beatífica de Deus.

Escritor, autor do romance Um homem chamado Jesus (Rocco), entre outros livros

FONTE: ESTADO DE MINAS

Manobras:: Merval Pereira

Os diálogos envolvendo o chefe de gabinete do governador petista de Brasília, Agnelo Queiroz, com membros do grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira, revelados ontem pelo "Jornal Nacional", devem ter esfriado um pouco o ânimo da direção do PT, que via na CPMI sobre as relações do bicheiro com políticos um instrumento de pressão sobre a oposição num ano eleitoral.

Embora seja um escândalo multipartidário, os petistas consideravam, até o surgimento das denúncias contra Agnelo Queiroz, que a oposição tinha mais a perder. Como sempre fazem nessas ocasiões, tentam minimizar a participação dos seus e demonizar os adversários.

Ao tomar conhecimento de que um assessor com sala no Palácio do Planalto aparece em conversas com assessores do bicheiro, a presidente Dilma teria dado ordens para uma demissão sumária. Bastaram horas para que tudo se transformasse.

O subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal, Olavo Noleto, passou de réu a vítima de um mal-entendido. Sua conversa com Wladimir Garcez, um dos principais operadores de Cachoeira, antes que o dia terminasse passou de suspeita a meramente política, para tratar de apoios partidários em Goiás. Uma página virada, na definição do ministro Gilberto Carvalho.

Em contraponto, as relações do senador oposicionista Demóstenes Torres com o bicheiro Cachoeira são transformadas pelos petistas em sinais de que as acusações de corrupção contra o governo não têm credibilidade, e, a partir daí, sonham em desmontar o mensalão, tratando-o como fruto de conspiração contra o governo de Lula.

O problema é a falta de conexão entre causa e efeito, nessa nova versão surgida sete anos depois de aberto o processo, tão tortuosa quanto a intenção de seus fabricantes.

Mesmo que a gravação da propina nos Correios, que gerou a irritação do então deputado federal do PTB Roberto Jefferson com o chefe da Casa Civil à época, José Dirceu, tivesse sido feita a mando de Cachoeira para criar problemas para Dirceu, numa vingança do senador Demóstenes Torres, que fora barrado por ele para um cargo no governo, não haveria como Jefferson criar do nada a história do mensalão.

Não existisse o imenso esquema de compra de apoio político revelado pelas investigações da Procuradoria Geral da República, denúncia acatada pelo relator do processo no Supremo, ministro Joaquim Barbosa, a acusação do petebista seria de outra ordem. Aconteceu naquele momento o que ocorre em muitas quadrilhas, um desentendimento em torno da divisão do butim que provoca um rompimento das lealdades, gerando revelações de segredos que só os componentes do bando conhecem.

Esta não passa de mais uma manobra protelatória para tentar jogar o julgamento para as calendas gregas.

Mas há reações tanto internas quanto fora do Supremo. Ontem, dois ministros declararam-se a favor de que o processo entre na pauta ainda este semestre. Gilmar Mendes disse que a votação tem que ocorrer no primeiro semestre, para evitar a possibilidade de prescrição de algumas penas, e sugeriu até mesmo, se necessário, que a pauta seja suspensa para que o processo possa ser apreciado.

Também o futuro presidente do Supremo, ministro Ayres Britto (que assume o posto no dia 19) se disse favorável a que o revisor do processo, ministro Ricardo Lewandowski, apresse seu parecer "sem a perda da segurança". Britto já declarou que porá o tema em pauta 48 horas após o revisor entregar seu voto.

As redes sociais vêm tendo um papel fundamental na mobilização da cidadania em todo o mundo, e no Brasil não tem sido diferente.

Agora mesmo um grupo que se intitula Queremos Ética na Política se mobiliza pelo Facebook para pressionar o Supremo Tribunal Federal (STF) a julgar o caso do mensalão até o primeiro semestre deste ano para evitar qualquer dúvida quanto a uma eventual prescrição de penas.

Há também o propósito de evitar que a aposentadoria de dois ministros do STF no segundo semestre impeça que o julgamento vá adiante.

A escolha de ministros do Supremo tem sido demorada no governo Dilma, e há um consenso sobre a necessidade de um julgamento tão importante como este ocorrer com todos os 11 juízes no plenário.

No dia 25 de abril o ministro Lewandowski receberá representantes do movimento e da Transparência Brasil. Na audiência, uma ampulheta, o símbolo do movimento para evidenciar o tempo que passa, será entregue ao ministro. O objetivo, além de evitar a prescrição de alguns crimes, é chamar a atenção para o fato de que diversos dos réus poderão se candidatar nas eleições municipais.

Com uma eventual condenação, eles cairão na Lei da Ficha Limpa, e suas candidaturas serão impugnadas.

Os dados sobre o desempenho dos ministros do STF, calculados no projeto Meritíssimos no site da Transparência Brasil (http://www.meritissimos.org.br), dão conta, por exemplo, de que o tempo de espera do relator Joaquim Barbosa para processos criminais é de 48 semanas.

Contudo, o próprio diretor da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, admite que não dá para comparar o processo do mensalão com a média dos processos criminais que chegam ao STF por causa da quantidade de réus e da sucessão de mecanismos protelatórios que os advogados desses réus mobilizaram.

Num momento em que os defensores dos mensaleiros pretendem se aproveitar da crise política desencadeada pelas acusações contra Demóstenes Torres para tentar desmoralizar as denúncias contra a corrupção, é importante essa mobilização da sociedade civil para que a impunidade não continue imperando no país.

Na coluna de ontem fiz uma ilação política e me antecipei a uma decisão futura do procurador-geral eleitoral, Roberto Gurgel. Disse que ele negara o tempo de TV para o PSD, quando, na verdade, ele negou uma primeira reivindicação, a de distribuição do Fundo Partidário. Seu argumento, de que o PSD não participou de eleições e não tem direito à distribuição da verba, deve ser o mesmo para negar o tempo de TV, mas essa é outra etapa.

FONTE: O GLOBO

Muito além do PSD:: Dora Kramer

O parecer do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contrário ao pedido do PSD de acesso ao dinheiro do Fundo Partidário na proporção de sua atual bancada de 52 deputados na Câmara, responde a uma solicitação específica, mas diz respeito a princípios gerais.

A decisão de Gurgel acompanhou outras duas resoluções, interpretadas como "derrotas" do PSD, mas que nada mais fizeram a não ser seguir a legislação em vigor.

No fim de fevereiro, o ministro Carlos Ayres Britto, próximo presidente do Supremo Tribunal Federal, corroborou em caráter liminar decisão do presidente da Câmara, Marco Maia, de negar participação do PSD nas comissões permanentes da Casa porque a lei leva em conta o tamanho das bancadas eleitas e não as formadas por força das circunstâncias.

O prefeito de São Paulo reivindica no Tribunal Superior Eleitoral, além do acesso ao Fundo, tempo de televisão também na proporcionalidade da bancada.

As leis sobre ambos os temas são claras ao estabelecer como critério a quantidade de votos e, portanto, de cadeiras obtidas na última eleição.

Criado no ano passado, o PSD não passou ainda pelo chamado "teste das urnas". Questão resolvida?

Não necessariamente, porque seus advogados alegam, e há no TSE quem concorde com a tese, que se a Justiça permitiu troca de partidos sem perda de mandato em casos, entre outros, de fundação de nova legenda, o PSD estaria amparado legalmente em sua reivindicação.

Ocorre que a exceção é relacionada à perda ou não de mandato do parlamentar, nada dizendo sobre tempo de televisão ou distribuição de verbas para partidos.

Desse modo o que está em jogo na futura (e para breve) decisão da Justiça Eleitoral é muito mais que a circunstância de um partido. É o destino do princípio geral da fidelidade partidária.

Por fluido que seja ainda é um parâmetro, mas pode virar letra morta.

Autoexplicativo. A impossibilidade de o PMDB encontrar alguém disposto a presidir o Conselho de Ética do Senado ou a assumir a corregedoria da Casa para que o atual ocupante pudesse presidir o conselho, fala sobre as idiossincrasias ali existentes.

Desde os telhados de vidro até o receio de escolher senadores de respeitabilidade reconhecida, passando pelo compadrio do qual nos dá notícia o fato de o colegiado estar acéfalo.

Se um ato em tese simples como a escolha da presidência do Conselho de Ética encontra obstáculos, quem dirá uma CPI para investigar o alcance dos tentáculos das organizações Cachoeira de contravenções ilimitadas.

A abertura do processo no conselho chega a ser irrelevante, pois só a comissão de inquérito pode requerer informações protegidas pelo segredo de Justiça.

É o tipo da ação iniciada em clima de êxtase investigatório, mas fadada à agonia como tantas outras em que houve choque e ao mesmo tempo convergência de interesses entre os partidos envolvidos.

Barco a vagar. Perdido por um, perdido por mil, parece ser agora o lema do senador Demóstenes Torres. Morto politicamente, só lhe resta tentar se beneficiar das prerrogativas do mandato para lutar na Justiça.

Partindo desse princípio, explica-se sua recusa à renúncia. Perderia o foro especial e a cadeira de senador que, convenhamos, não é uma posição exatamente má mesmo quando é necessário sentar nela em silêncio.

Muita gente no Senado exerce a atividade na encolha. Para não citar os que o fazem por outras razões, há quem tenha no dito segundo o qual em boca fechada não entra mosca a motivação. Jader Barbalho, por exemplo.

A renúncia para preservar o direito de voltar a se candidatar não se aplica ao senador Demóstenes, construtor da carreira sob o pilar da ética a quem o eleitorado não perdoará, diferentemente do ocorrido com outros parlamentares sobre os quais não pesavam expectativas positivas.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

A realidade impõe celebração contida:: Rosângela Bittar

Regozijo legítimo, até porque pode, pela popularidade, facilitar sua convivência com a heterogênea, intragável e amazônica base aliada no Parlamento, a satisfação com o resultado da pesquisa Ibope que apontou crescimento de aprovação da presidente Dilma Rousseff de 72 para 77%, no espaço de três meses, guardou um certo recato.

O círculo político da presidente gostou, mas conteve um pouco o foguetório, deixando a efusividade para a imprensa. As informações produzidas no mesmo levantamento sobre os atos do governo da popularíssima presidente, recomendaram-lhe cautela.

As avaliações da execução das políticas públicas fundamentais, de ações objetivas e transformadoras, não permitem a Dilma registrar a virada da página de um paralisante primeiro ano de governo para uma marcha ritmada de administração.

Há dados curiosos a se destacar na enquete, que podem ser vistos tanto do lado positivo como do negativo. Por exemplo, o sucesso da presidente nas viagens internacionais. Dos assuntos mais lembrados sobre o governo Dilma, as viagens da presidente à Cuba e à Alemanha estão em segundo lugar, com 7%, perdendo apenas para "programas sociais voltados para mulheres", com 9%. Não se sabe propriamente o que são esses programas, mas podem não passar de lembranças das solenidades comemorativas do dia da mulher, período em que a pesquisa foi a campo.

Não se explica, também, a forte presença das viagens internacionais na memória dos entrevistados. Uma possível razão: no exterior, a presidente tem-se mostrado mais falante e assertiva em seus pronunciamentos e entrevistas, com uma presença mais forte do que a que exibe no isolamento do Palácio.

Persistente também é a contradição dos entrevistados: ao mesmo tempo em que cresce sua admiração por Dilma, desaprova o governo e aumenta suas críticas a áreas específicas que, no ano passado, hibernaram para dar lugar à crise aguda de corrupção.

Voltaram a se manifestar os descontentes com os principais serviços que o Estado lhes presta: educação, segurança e, sobretudo, saúde e impostos.

O percentual dos que consideram o governo Dilma ótimo ou bom manteve-se em 56%, índice que fica a uma distância de 21 pontos percentuais com relação aos 77% que aprovam a presidente. E a nota para as ações da administração tem ficado nessa média desde o início do governo. O congelamento da avaliação foi considerado um dado positivo pelos otimistas. Como também tenta-se, desse conjunto de problemas, extrair uma visão benévola, destacando-se que as avaliações por área de atuação foram melhores agora que na pesquisa anterior de dezembro de 2011.

Ocorre, porém, sem querer jogar realismo excessivo no otimismo alheio, que de nove áreas avaliadas, apenas três tiveram saldo positivo, ou seja, o percentual de aprovação superou o de desaprovação: combate à fome, ação no meio ambiente e combate ao desemprego.

Os especialistas em leitura desse tipo de pesquisa, que não foi feita para partido político ou candidato em eleições, o que lhe dá maior credibilidade, defendem que o saldo é o que importa, e esse é negativo em pelo menos quatro assuntos que, no momento, focalizam o desgosto da população. O melhor saldo, entre os quatro piores, ficou com a educação. O percentual de aprovação da política educacional aumentou cinco pontos percentuais, levando quase ao empate entre os que aprovam e desaprovam o governo (49% aprovam e 47% desaprovam, pequeno porém ainda positivo).

Cresceu também o percentual dos que apoiam a política de saúde, reduzindo a diferença entre os que a aprovam e a desaprovam, mas aqui o fosso ainda é grande e permaneceu negativo em 29 pontos percentuais, com 63% desaprovando o governo. Quanto maior a renda e o grau de instrução do entrevistado, mais aumenta o saldo negativo: Nas capitais a desaprovação à saúde chega a 72%, e nas cidades com mais de 100 mil habitantes é de 70%.

Com relação à política de segurança pública, a pesquisa revela avaliação negativa estabilizada desde o ano passado: 61% desaprovam e 35% aprovam a política. O percentual de desaprovação é maior nas capitais (65%) e nas cidades grandes (66%). Entre os que têm nível superior, a desaprovação sobe a 73%.

Quanto à política de impostos, continua com avaliação ruim da população: apenas 28% aprovam essa política, enquanto 65% a desaprovam. Se for considerado o contingente com nível superior, a desaprovação vai a 81%.

Portanto, faz bem ao governo conter seus eufóricos para não aprofundar a exposição. A reforma ética parou em meados do ano passado e não seguiu adiante, levantamentos recentes mostram que mais da metade dos cargos de confiança dos ministérios cujos ministros saíram permanecem com o mesmo dirigente.

O partido da presidente continua esperando melhor momento para exigir de sua base aliada a aprovação de mais impostos, inspirando-se no desejo do Ministério da Fazenda, inconformado com a derrota sucessiva de propostas de taxações adicionais, seja para o que for, mesmo com a promessa presidencial de redução da carga tributária. De um lado, porque de outro, o Palácio do Planalto comanda os ministérios do Planejamento e da Fazenda a fazer os cortes orçamentários deste ano incidirem até sobre a saúde. A população percebe esse não mais acabar de contradições, só comparáveis às do eleitorado.

Nesse, porém, reina o desgosto generalizado com os serviços de saúde (os SUS, gratuitos, a rede privada, paga, os planos desenquadrados).

O governo, pelo que mostra até aqui, parece decidido, porém, a manter-se no alto e pleitear a reeleição só com a performance na economia que, nas análises internas, ainda tem a admiração da maioria do eleitorado, excetuados os já citados impostos abusivos e também a política de combate à inflação. Essa apresentou saldo negativo de oito pontos percentuais entre os que a aprovam e a desaprovam, na mesma pesquisa. Mas como o dono do voto não se preocupa em superar a incoerência, o alvo do voto se dá o direito de não complicar. A opção pela discrição foi puro realismo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO