É o problema das relações entre estrutura e superestrutura que deve ser posto com exatidão e resolvido para que se possa chegar a uma justa análise das forças que atuam na história de um determinado período e determinar a relação entre elas. É necessário mover-se no âmbito de dois princípios: 1) o de que nenhuma sociedade se põe tarefas para cuja solução ainda não existam as condições necessárias e suficientes, ou que pelo menos não estejam em vias de aparecer e se desenvolver; 2) e o de que nenhuma sociedade se dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as formas de vida implícitas em suas relações (verificar a exata enunciação destes princípios).
[“Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para sua existência. Por isso, a humanidade se propõe sempre apenas os objetivos que pode alcançar, pois, bem vistas as coisas, vemos sempre que estes objetivos só brotam quando já existem ou, pelo menos, estão em gestação as condições materiais para sua realização” (Prefácio à Crítica da economia política )] [23].
Da reflexão sobre estes dois cânones pode-se
chegar ao desenvolvimento de toda uma série de outros princípios de metodologia
histórica. Todavia, no estudo de uma
estrutura, devem-se distinguir os movimentos orgânicos (relativamente
permanentes) dos movimentos que podem ser chamados de conjuntura (e que se
apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais). Também os fenômenos de conjuntura dependem,
certamente, de movimentos orgânicos, mas seu significado não tem um amplo
alcance histórico: eles dão lugar a uma crítica política miúda, do dia-a-dia,
que envolve os pequenos grupos dirigentes e as personalidades imediatamente
responsáveis pelo poder. Os fenômenos
orgânicos dão lugar à crítica histórico-social, que envolve os grandes
agrupamentos, para além das pessoas imediatamente responsáveis e do pessoal dirigente. Quando se estuda um período histórico,
revela-se a grande importância dessa distinção.
Tem lugar uma crise que, às vezes, prolonga-se por dezenas de anos. Esta duração excepcional significa que se
revelaram (chegaram à maturidade) contradições insanáveis na estrutura e que as
forças políticas que atuam positivamente para conservar e defender a própria
estrutura esforçam-se para saná-las dentro de certos limites e superá-las.
Estes esforços incessantes e perseverantes (já que nenhuma forma social jamais
confessará que foi superada) formam o terreno do “ocasional”, no qual se
organizam as forças antagonistas que tendem a demonstrar (demonstração que, em
última análise, só tem êxito e é “verdadeira” se se torna nova realidade, se as
forças antagonistas triunfam, mas que imediatamente se explicita numa série de
polêmicas ideológicas, religiosas, filosóficas, políticas, jurídicas, etc.,
cujo caráter concreto pode ser avaliado pela medida em que se tornam
convincentes e deslocam o alinhamento preexistente das forças sociais) que já
existem as condições necessárias e suficientes para que determinadas tarefas
possam e, portanto, devam ser resolvidas historicamente (devam, já que a
não-realização do dever histórico aumenta a desordem necessária e prepara
catástrofes mais graves).
O erro em que se incorre freqüentemente nas
análises histórico-políticas consiste em não saber encontrar a justa relação
entre o que é orgânico e o que é ocasional: chega-se assim ou a expor como
imediatamente atuantes causas que, ao contrário, atuam mediatamente, ou a
afirmar que as causas imediatas são as únicas causas eficientes. Num caso, tem-se excesso de “economicismo” ou
de doutrinarismo pedante; no outro, excesso de “ideologismo”. Num caso, superestimam-se as causas
mecânicas; no outro, exalta-se o elemento voluntarista e individual. (A distinção entre “movimentos” e fatos
orgânicos e movimentos e fatos de “conjuntura” ou ocasionais deve ser aplicada
a todos os tipos de situação, não só àquelas em que se verifica um processo
regressivo ou de crise aguda, mas àquelas em que se verifica um processo
progressista ou de prosperidade e àquelas em que se verifica uma estagnação das
forças produtivas.) O nexo dialético
entre as duas ordens de movimento e, portanto, de pesquisa dificilmente é
estabelecido de modo correto; e, se o erro é grave na historiografia, mais
grave ainda se torna na arte política, quando se trata não de reconstruir a
história passada, mas de construir a história presente e futura: os próprios
desejos e as próprias paixões baixas e imediatas constituem a causa do erro, na
medida em que substituem a análise objetiva e imparcial e que isto se verifica
não como “meio” consciente para estimular à ação, mas como auto-engano. O feitiço, também neste caso, se volta contra
o feiticeiro, ou seja, o demagogo é a primeira vítima de sua demagogia.
[O fato de não se levar em consideração o
momento imediato das “relações de força” liga-se a resíduos da concepção
liberal vulgar, da qual o sindicalismo é uma manifestação que acreditava ser
mais avançada quando, na realidade, representava um passo atrás. Com efeito, a concepção liberal vulgar, dando
importância à relação das forças políticas organizadas nas diversas formas de
partido (leitores de jornais, eleições parlamentares e locais, organizações de
massa dos partidos e dos sindicatos em sentido estrito), era mais avançada do
que o sindicalismo, que dava importância primordial à relação fundamental
econômico-social, e só a ela. A
concepção liberal vulgar também levava em conta implicitamente esta relação
(como transparece através de muitos sinais), mas insistia mais na relação das
forças políticas, que era uma expressão da outra e, na realidade, a englobava.
Estes resíduos da concepção liberal vulgar podem ser encontrados em toda uma
série de análises que se dizem ligadas à filosofia da práxis e deram lugar a
formas infantis de otimismo e de estupidez.]
Estes critérios metodológicos podem adquirir
visível e didaticamente todo o seu significado quando aplicados ao exame de
fatos históricos concretos. Seria
possível fazer isso com utilidade para os acontecimentos que se verificaram na
França de 1789 a 1870. Parece-me que,
para maior clareza da exposição, seja necessário abranger todo este período. De
fato, só em 1870-1871, com a tentativa da Comuna, esgotam-se historicamente
todos os germes nascidos em 1789, ou seja, não só a nova classe que luta pelo
poder derrota os representantes da velha sociedade que não quer confessar-se
definitivamente superada, mas derrota também os novíssimos grupos que
consideram já ultrapassada a nova estrutura surgida da transformação iniciada
em 1789 e demonstra assim sua vitalidade tanto em relação ao velho como em
relação ao novíssimo. Além do mais, com
os acontecimentos de 1870-1871, perde eficácia o conjunto de princípios de
estratégia e tática política nascidos praticamente em 1789 e desenvolvidos
ideologicamente em torno de 1848 (os que se sintetizam na fórmula da “revolução
permanente”: seria interessante estudar em que medida essa fórmula passou para
a estratégia mazziniana — por exemplo, para a insurreição de 1853 em Milão — e
se isto ocorreu conscientemente ou não) [24].
Um elemento que mostra a justeza deste ponto de vista é o fato de que os
historiadores de modo nenhum concordam (e é impossível que concordem) na
fixação dos limites daquela série de acontecimentos que constitui a revolução
francesa. Para alguns (Salvemini, por
exemplo), a revolução se completa em Valmy: a França criou um novo Estado e
soube organizar a força político-militar que o sustenta e que defende sua
soberania territorial. Para outros, a revolução continua até Termidor, ou
melhor, eles falam de muitas revoluções (o 10 de agosto seria uma revolução em
si, etc; cf. La Révolution française de A. Mathiez, na coleção Colin) [25]. A
maneira de interpretar o Termidor e a ação de Napoleão apresenta as mais agudas
contradições: trata-se de revolução ou de contra-revolução?, etc. Para outros, a história da Revolução continua
até 1830, 1848, 1870 e mesmo até a guerra mundial de 1914.
Em todas estas maneiras de ver há uma parte
de verdade. Realmente, as contradições
internas da estrutura francesa, que se desenvolvem depois de 1789, só encontram
uma relativa composição com a Terceira República, e a França tem sessenta anos
de vida política equilibrada depois de oitenta anos de transformações em ondas
cada vez mais longas: 1789, 1794, 1799, 1804, 1815, 1830, 1848, 1870. É exatamente o estudo dessas “ondas” de
diferente oscilação que permite reconstruir as relações entre estrutura e
superestrutura, por um lado, e, por outro, entre o curso do movimento orgânico
e o curso do movimento de conjuntura da estrutura. Assim, pode-se dizer que a mediação dialética
entre os dois princípios metodológicos enunciados no início desta nota pode ser
encontrada na fórmula político-histórica da revolução permanente.
Um aspecto do mesmo problema é a chamada
questão das relações de força. Lê-se com frequência, nas narrações históricas,
a expressão genérica: relações de força favoráveis, desfavoráveis a esta ou
àquela tendência. Assim, abstratamente,
esta formulação não explica nada ou quase nada, pois não se faz mais do que
repetir o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez como fato e outra
como lei abstrata e como explicação. Portanto, o erro teórico consiste em
apresentar um princípio de pesquisa e de interpretação como “causa histórica”.
Na “relação de força”, é necessário
distinguir diversos momentos ou graus, que no fundamental são os seguintes:
1) Uma relação de forças sociais
estreitamente ligada à estrutura, objetiva, independente da vontade dos homens,
que pode ser mensurada com os sistemas das ciências exatas ou físicas
[26]. Com base no grau de
desenvolvimento das forças materiais de produção, têm-se os agrupamentos
sociais, cada um dos quais representa uma função e ocupa uma posição
determinada na própria produção. Esta
relação é o que é, uma realidade rebelde: ninguém pode modificar o número das
empresas e de seus empregados, o número das cidades com sua dada população urbana, etc. Este alinhamento fundamental permite estudar
se existem na sociedade as condições necessárias e suficientes para uma sua
transformação, ou seja, permite verificar o grau de realismo e de viabilidade
das diversas ideologias que nasceram em seu próprio terreno, no terreno das
contradições que ele gerou durante seu desenvolvimento.
2) O
momento seguinte é a relação das forças políticas, ou seja, a avaliação do grau
de homogeneidade, de autoconsciência e de organização alcançado pelos vários
grupos sociais. Este momento, por sua
vez, pode ser analisado e diferenciado em vários graus, que correspondem aos
diversos momentos da consciência política coletiva, tal como se manifestaram na
história até agora. O primeiro e mais elementar é o econômico-corporativo: um
comerciante sente que deve ser solidário com outro comerciante, um fabricante
com outro fabricante, etc., mas o comerciante não se sente ainda solidário com
o fabricante; isto é, sente-se a unidade homogênea do grupo profissional e o
dever de organizá-la, mas não ainda a unidade do grupo social mais amplo. Um segundo momento é aquele em que se atinge
a consciência da solidariedade de interesses entre todos os membros do grupo
social, mas ainda no campo meramente econômico.
Já se põe neste momento a questão do Estado, mas apenas no terreno da
obtenção de uma igualdade politico-jurídica com os grupos dominantes, já que se
reivindica o direito de participar da legislação e da administração e mesmo de
modificá-las, de reformá-las, mas nos quadros fundamentais existentes. Um terceiro momento é aquele em que se
adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu
desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo
meramente econômico, e podem e devem tornar-se os interesses de outros grupos
subordinados. Esta é a fase mais
estritamente política, que assinala a passagem nítida da estrutura para a
esfera das superestruturas complexas; é a fase em que as ideologias geradas
anteriormente se transformam em “partido”, entram em confrontação e lutam até
que uma delas, ou pelo menos uma única combinação delas, tenda a prevalecer, a
se impor, a se irradiar por toda a área social, determinando, além da unicidade
dos fins econômicos e políticos, também a unidade intelectual e moral, pondo
todas as questões em torno das quais ferve a luta não no plano corporativo, mas
num plano “universal”, criando assim a hegemonia de um grupo social fundamental
sobre uma série de grupos subordinados.
O Estado é certamente concebido como organismo próprio de um grupo,
destinado a criar as condições favoráveis à expansão máxima desse grupo, mas
este desenvolvimento e esta expansão são concebidos e apresentados como a força
motriz de uma expansão universal, de um desenvolvimento de todas as energias
“nacionais”, isto é, o grupo dominante é coordenado concretamente com os
interesses gerais dos grupos subordinados e a vida estatal é concebida como uma
contínua formação e superação de equilíbrios instáveis (no âmbito da lei) entre
os interesses do grupo fundamental e os interesses dos grupos subordinados,
equilíbrios em que os interesses do grupo dominante prevalecem, mas até um
determinado ponto, ou seja, não até o estreito interesse
econômico-corporativo. Na história real,
estes momentos implicam-se reciprocamente, por assim dizer horizontal e
verticalmente, isto é, segundo as atividades econômico-sociais (horizontais) e
segundo os territórios (verticalmente), combinando-se e cindindo-se
variadamente: cada uma destas combinações pode ser representada por uma própria
expressão organizada econômica e política. Deve-se ainda levar em conta que
estas relações internas de um Estado-Nação entrelaçam-se com as relações
internacionais, criando novas combinações originais e historicamente
concretas. Uma ideologia, nascida num
país mais desenvolvido, difunde-se em países menos desenvolvidos, incidindo no
jogo local das combinações. (A religião,
por exemplo, sempre foi uma fonte dessas combinações ideológico-políticas
nacionais e internacionais; e, com a religião, as outras formações
internacionais, como a maçonaria, o Rotary Club, os judeus, a diplomacia de
carreira, que sugerem recursos políticos de origem histórica diversa e os fazem
triunfar em determinados países, funcionando como partido político
internacional que atua em cada nação com todas as suas forças internacionais
concentradas; mas religião, maçonaria, Rotary, judeus, etc., podem ser
incluídos na categoria social dos “intelectuais”, cuja função, em escala
internacional, é a de mediar entre os extremos, de “socializar” as descobertas
técnicas que fazem funcionar toda atividade de direção, de imaginar
compromissos e alternativas entre as soluções extremas) [27]. Esta relação entre forças internacionais e
forças nacionais torna-se ainda mais complexa por causa da existência, no
interior de cada Estado, de várias seções territoriais com estruturas
diferentes e diferentes relações de força em todos os graus (assim, a Vendéia
era aliada das forças reacionárias internacionais e as representava no seio da
unidade territorial francesa; assim, na Revolução Francesa, Lyon representava
uma conexão particular de relações, etc.).
3) O
terceiro momento é o da relação das forças militares, imediatamente decisivo em
cada oportunidade concreta. (O
desenvolvimento histórico oscila continuamente entre o primeiro e o terceiro
momento, com a mediação do segundo.) Mas
também esse momento não é algo indistinto e identificável imediatamente de
forma esquemática; também nele podem-se distinguir dois graus: o militar em
sentido estrito, ou técnico-militar, e o grau que pode ser chamado de
político-militar. No curso da história,
estes dois graus se apresentaram numa grande variedade de combinações. Um exemplo típico, que pode servir como
demonstração-limite, é o da relação de opressão militar de um Estado sobre uma
nação que procura alcançar sua independência estatal. A relação não é puramente militar, mas
político-militar: com efeito, este tipo de opressão seria inexplicável sem o
estado de desagregação social do povo oprimido e a passividade de sua
maioria. Portanto, a independência não
poderá ser alcançada com forças puramente militares, mas com forças militares e
político-militares. De fato, se a nação oprimida, para iniciar a luta pela
independência, tivesse de esperar a permissão do Estado hegemônico para
organizar seu próprio exército no sentido estrito e técnico da palavra, teria
de esperar bastante tempo (pode ocorrer que a reivindicação de ter um exército
próprio seja concedida pela nação hegemônica, mas isto significa que uma grande
parte da luta já foi travada e vencida no terreno político-militar). A nação oprimida, portanto, oporá
inicialmente à força militar hegemônica uma força que é apenas
“político-militar”, isto é, oporá uma forma de ação política que tenha a
virtude de determinar reflexos de caráter militar, no sentido de que: 1) seja
capaz de desagregar intimamente a eficiência bélica da nação hegemônica; 2) obrigue
a força militar hegemônica a diluir-se e dispersar-se num grande território,
anulando grande parte de sua eficiência bélica.
No Risorgimento italiano, pode-se notar a ausência desastrosa de uma
direção político-militar sobretudo no Partido de Ação (por incapacidade
congênita), mas também no partido piemontês-moderado, tanto antes como depois
de 1848, não certamente por incapacidade, mas por “malthusianismo
econômico-político”, ou seja, porque não se quis sequer fazer menção à
possibilidade de uma reforma agrária e porque não se queria a convocação de uma
assembléia nacional constituinte, mas se pretendia apenas que a monarquia
piemontesa, sem condicionamentos ou limitações de origem popular, se estendesse
a toda a Itália, através da simples aprovação de plebiscitos regionais.
Outra questão ligada às anteriores é a de ver
se as crises históricas fundamentais são determinadas imediatamente pelas
crises econômicas. A resposta a essa questão está implicitamente contida nos
parágrafos anteriores, onde são tratadas questões que constituem um outro modo
de apresentar aquela a que nos referimos agora; mas é sempre necessário, por
razões didáticas, dado o público específico, examinar cada modo sob o qual se
apresenta uma mesma questão como se se tratasse de um problema independente e
novo. Pode-se excluir que, por si mesmas, as crises econômicas imediatas
produzam eventos fundamentais; podem apenas criar um terreno mais favorável à
difusão de determinados modos de pensar, de pôr e de resolver as questões que
envolvem todo o curso subseqüente da vida estatal. De resto, todas as afirmações referentes a
períodos de crise ou de prosperidade podem dar margem a juízos
unilaterais. Em seu compêndio de
história da Revolução Francesa (ed. Colin), Mathiez, opondo-se à história
vulgar tradicional, que aprioristicamente “encontra” uma crise para coincidir
com as grandes rupturas de equilíbrios sociais, afirma que, por volta de 1789,
a situação econômica era bastante boa no nível imediato, pelo que não se pode
dizer que a catástrofe do Estado absoluto tenha sido motivada por uma crise de
empobrecimento (cf. a afirmação exata de Mathiez) [28]. Deve-se observar que o
Estado estava envolvido numa crise financeira mortal e se punha a questão de
saber sobre qual das três ordens sociais privilegiadas deveriam recair os
sacrifícios e o peso de um reordenamento das finanças do Estado e da
Coroa. Além do mais, se a posição
econômica da burguesia era próspera, certamente não era boa a situação das classes
populares das cidades e do campo, especialmente destas últimas, atormentadas
pela miséria endêmica. De qualquer modo,
a ruptura do equilíbrio entre as forças não se deu por causas mecânicas
imediatas de empobrecimento do grupo social interessado em romper o equilíbrio,
e que de fato o rompeu; mas ocorreu no quadro de conflitos superiores ao mundo
econômico imediato, ligados ao “prestígio” de classe (interesses econômicos
futuros), a uma exasperação do sentimento de independência, de autonomia e de
poder. A questão particular do mal-estar ou do bem-estar econômicos como causa
de novas realidades históricas é um aspecto parcial da questão das relações de
força em seus vários graus. Podem-se
produzir novidades ou porque uma situação de bem-estar é ameaçada pelo egoísmo
mesquinho de um grupo adversário, ou porque o mal-estar se tornou intolerável e
não se vê na velha sociedade nenhuma força capaz de mitigá-lo e de restabelecer
uma normalidade através de meios legais.
Pode-se dizer, portanto, que todos estes elementos são a manifestação
concreta das flutuações de conjuntura do conjunto das relações sociais de
força, em cujo terreno verifica-se a transformação destas relações em relações
políticas de força, para culminar na relação militar decisiva. Se não se verifica este processo de desenvolvimento
de um momento a outro — e trata-se essencialmente de um processo que tem como
atores os homens e a vontade e capacidade dos homens —, a situação se mantém
inoperante e podem ocorrer desfechos contraditórios: a velha sociedade resiste
e garante para si um período de “tomada de fôlego”, exterminando fisicamente a
elite adversária e aterrorizando as massas de reserva; ou, então, verifica-se a
destruição recíproca das forças em conflito com a instauração da paz dos
cemitérios, talvez sob a vigilância de um sentinela estrangeiro.
Mas a observação mais importante a ser feita sobre qualquer análise concreta das relações de força é a seguinte: tais análises não podem e não devem ser fins em si mesmas (a não ser que se trate de escrever um capítulo da história do passado), mas só adquirem um significado se servem para justificar uma atividade prática, uma iniciativa de vontade. Elas mostram quais são os pontos de menor resistência, nos quais a força da vontade pode ser aplicada de modo mais frutífero, sugerem as operações táticas imediatas, indicam a melhor maneira de empreender uma campanha de agitação política, a linguagem que será mais bem compreendida pelas multidões, etc. O elemento decisivo de cada situação é a força permanentemente organizada e há muito tempo preparada, que se pode fazer avançar quando se julga que uma situação é favorável (e só é favorável na medida em que esta força exista e seja dotada de ardor combativo). Por isso, a tarefa essencial consiste em dedicar-se de modo sistemático e paciente a formar esta força, desenvolvê-la, torná-la cada vez mais homogênea, compacta e consciente de si. Isso pode ser comprovado na história militar e no cuidado com que, em qualquer época, os exércitos estiveram preparados para iniciar uma guerra a qualquer momento. Os grandes Estados foram grandes Estados precisamente porque sempre estavam preparados para inserir-se eficazmente nas conjunturas internacionais favoráveis; e essas eram favoráveis porque havia a possibilidade concreta de inserir-se eficazmente nelas.
*Antonio Gramsci (1891-1937). Caderno 13 (1932-1934) – Cadernos do Cárcere, v.3 – p.36-46. 3ª edição, 2007. Civilização Brasileira.

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