Folha de S. Paulo
Discurso de Flávio Bolsonaro reforça seu
alinhamento com a estratégia golpista do pai
Atuação do senador desafia a divisão entre
bolsonarismo radical e centrão
Para quem gosta de dividir a direita entre
fisiológicos do centrão e radicais bolsonaristas, Flávio
Bolsonaro é um problema: é tão golpista quanto o pai e tão,
digamos, enrolado quanto os Ciros Nogueiras deste mundo.
Em nome da responsabilidade jurídica, devo
dizer que ainda não está provado que Flávio
Bolsonaro é ladrão.
Tudo o que sabemos é que Flávio empregava parentes de um miliciano que participavam de um esquema de rachadinha, pagou por uma mansão com empréstimo camarada do Banco de Brasília (o mesmo do caso Master), pediu 130 milhões para o dono do Banco Master para fazer um filme que ninguém até agora explicou como pode custar tudo isso, certificou-se de que o dinheiro circularia pelos Estados Unidos, onde seu irmão Eduardo conspira contra o Brasil, e, descobrimos esta semana, emitiu notas fiscais por serviços prestados ao ecossistema Master.
Também sabemos que os aliados de Flávio
no Rio de
Janeiro deram bilhões de reais de aposentados para o Banco
Master, e que os aliados de Flávio no Distrito
Federal queimaram bilhões do Banco de Brasília (o mesmo que
ajudou Flávio a comprar a mansão) para salvar o Master, o que pode ou não ter
relação com a generosidade de Daniel Vorcaro enquanto patrono da sétima arte.
O que está provado para além de qualquer
dúvida é que Flávio Bolsonaro é golpista como o pai. Sua participação, semana
passada, em um evento
organizado pelo site Brazilian Report, certamente seria admitida nos
tribunais como teste de DNA positivo.
Para comemorar os quatro anos desde que Jair
Bolsonaro se dirigiu a uma plateia de embaixadores para mentir
que as urnas eletrônicas brasileiras eram fraudadas, Flávio Bolsonaro se
dirigiu a uma plateia de embaixadores para mentir que as urnas eletrônicas
brasileiras são fraudadas.
Como Jair quatro anos atrás, Flávio não se
limitou a enunciar imprecisões; disse, maliciosamente, coisas que sabia que
eram falsas, sempre com o intuito de enfraquecer a confiança dos brasileiros em
sua democracia.
Esse foi um dos principais achados do inquérito
do golpe: os bolsonaristas sabiam que as urnas eletrônicas eram seguras.
No celular de Mauro Cid foi
encontrado um diálogo com outro oficial golpista em que o assessor de Bolsonaro
dizia exatamente isso: não havia nada de errado com as urnas.
A investigação da Polícia Federal também
provou que a auditoria promovida pelo PL de Bolsonaro não
encontrou nada de errado com as urnas, o que não impediu Valdemar da
Costa Neto de dizer o contrário para o público brasileiro
durante a tentativa de golpe. Valdemar, é óbvio, deveria estar preso por isso.
Quando o Brasil elegeu Jair Bolsonaro
presidente da república em 2018, tinha poucas dúvidas sobre sua natureza
autoritária. Mas associava, erroneamente, o radicalismo a um certo purismo
moral, como se o radical sempre aplicasse a si mesmo o rigor que pretende impor
aos seus adversários.
Flávio Bolsonaro é, sob esse aspecto, um
exemplo pedagógico.
Prova que o ódio dos radicais à democracia
não se deve à existência de eventuais roubalheiras, mas sim ao risco, presente
mesmo nos piores regimes democráticos, de ter que passar a chave do cofre para
o adversário quando se perde eleição

Nenhum comentário:
Postar um comentário