O Estado de S. Paulo
Sem coligações internas, Flávio pede ajuda da direita, mas qual direita? A internacional
O senador Flávio Bolsonaro lançou a
candidatura à Presidência no seu pior momento, com o barco fazendo água, falta
de material e fuga de mão de obra para consertar as avarias. Adernando, sem
rumo e sem apoio político interno, ele pediu “união” da direita nacional, mas
recorre à ação da direita internacional. Ou, mais diretamente, à ingerência
externa nas eleições brasileiras.
A presença de Javier Milei à convenção deste sábado é um troféu dessa estratégia, mas o que mais pesa é a presença oculta de Donald Trump, que atacou o Brasil com mais 37,5% de tarifas e tentou enviar dois funcionários do Departamento de Estado para bisbilhotar o processo eleitoral e o TSE, sem sucesso. Não por coincidência, a tentativa ocorre dias depois de Flávio repetir o erro do pai que decretou sua inelegibilidade, reunindo embaixadores estrangeiros para mentir sobre o processo eleitoral e pedir “observadores internacionais” em outubro.
Flávio falou, Trump acatou, mas o governo
Lula negou o visto para os dois funcionários, conforme a jornalista Janaína
Figueiredo. Trump e Flávio vão ter de se contentar com uma ingerência americana
bem mais tradicional, a espionagem da CIA. Do que a CIA é capaz? Boa coisa não
é.
Com PP, Republicanos e União Brasil pulando
do barco, Flávio chegou à convenção sem coligações, palanques regionais, uma
vice e sem Michele, que mandou vídeo. O tempo de TV na campanha será reduzido e
o repertório de versões para as suas muitas encrencas se esgotou. Como explicar
o inexplicável?
O presidente Lula, porém, não pode dormir
tranquilo, já contando com um quarto mandato. Há muitas indefinições, os
índices estão cristalizados e as dificuldades de Flávio não têm transferido
votos para ele, apenas jogado esses votos ao vento, para quem puder pegar.
Ronaldo Caiado tenta.
Logo, o grande obstáculo de Lula não é o
primeiro turno contra Flávio, mas um segundo turno contra ele e os demais
juntos, Caiado, Zema e Renan, todos de direita. Não se identificam com Flávio,
mas, acima disso, são contra a esquerda, anti-PT e anti-Lula. Como eles,
milhões de eleitores e eleitoras, que podem definir o jogo na reta final.
Com a derrota de Flávio, o destino do
bolsonarismo vai se transferir para Michele e entrar em parafuso. A de Lula
será o fim do lulismo e o maior desafio do PT será inventar um sucessor, hoje,
fora do alcance de lupas, binóculos e sensores.
Em qualquer hipótese, nem o eleitorado de
direita e extrema direita, nem o de esquerda e centro-esquerda vai evaporar e a
polarização da sociedade vai continuar. Portanto, 2026 é rito de passagem. O
futuro, a 2030 pertence.

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