Folha de S. Paulo
A razão que faz funcionar a inteligência
artificial não é a mesma do pensamento essencial ao mistério do mundo
As máquinas deixam claro que a existência
ultrapassa a lógica
A IA anda
à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The
New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia
aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.
Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.
Mas as máquinas deixam claro que a existência
ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se
mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz
funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial
fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges
bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O
mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual"
(em "O Aleph").
Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É
só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis,
a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda
cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes
do pensamento, da criação ou do trabalho científico.
Tudo disso difere da combinatória dos saberes
armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama
de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores.
Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução
rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou
busca de sentido para as coisas.
Mas há criações humanas que, sem serem meras
combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra
o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas
não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza
está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).
É assim que a matemática, indo além da
medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a
realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor,
costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do
século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas
equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.
Agregadas como pensamento, matemática,
música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade
da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação
neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.
A soberania tecnológica de uma nação depende
hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim
de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres.
Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa
própria espécie.
*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor,
entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

Nenhum comentário:
Postar um comentário