O Estado de S. Paulo
Planos e projetos provavelmente logo aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo país escandinavo
Num quadro global de brutalidade, incerteza
econômica, protecionismo e insegurança inflada pelas pretensões imperiais de
Donald Trump, o Brasil tem conseguido evitar conflitos, manter a estabilidade
política e sustentar a atividade econômica, o emprego e uma inflação tolerável,
embora distante da meta de 3%.
Os números mostram um mercado de trabalho em condições favoráveis no trimestre encerrado em maio, com desocupação abaixo de 6% e nos mais baixos níveis da série iniciada em 2012. O quadro é manchado pela informalidade, pelo subemprego e pelas condições da camada inferior da classe média e dos grupos pobres. Mas a pobreza extrema foi quase erradicada há alguns anos e pouquíssimos brasileiros ainda enfrentam a fome.
Se nem tudo anda bem e falta muito trabalho,
muito investimento e muita reforma para garantir condições decentes a milhões
de brasileiros, é preciso reconhecer, no entanto, a modernização econômica, as
melhores condições educacionais e a maior oferta de trabalho a profissionais
com alguma qualificação.
Não se trata apenas de favorecimento a uma
parcela da mão de obra. A atualização de vários segmentos de negócios torna
indispensável um melhor preparo de mais trabalhadores. Isso é bem visível na
agropecuária e perceptível também nas atividades urbanas. Os drones tornaram-se
frequentes na paisagem rural, favorecendo o uso eficiente de recursos e,
portanto, o aumento da produtividade. Os efeitos da modernização do campo
aparecem na indústria, nas contas externas e nas condições de consumo no dia a
dia. Em Brasília, no entanto, a ação dos líderes políticos do campo ainda
contrasta, frequentemente, com a evolução tecnológica do setor.
Contas externas saudáveis, apesar das tensões
internacionais, têm favorecido, pelo menos até agora, alguma tranquilidade
econômica num ano de eleições importantes. O Brasil exportou no primeiro
semestre produtos no valor de US$ 184,8 bilhões e acumulou superávit comercial
de US$ 42,4 bilhões, 40,3% maior que o de igual período do ano anterior.
A China continua sendo o maior mercado para
produtos brasileiros, principalmente matérias-primas e bens semielaborados. Nos
Estados Unidos, principal destino dos produtos industrializados, surgiram
barreiras criadas num dos arroubos políticos de Donald Trump. Negociações
apoiadas por importadores americanos poderão, talvez, atenuar as perdas, mas
exportadores já estão procurando alternativas.
O acesso a novos compradores poderá depender,
no entanto, de alterações nos produtos e de mais investimentos, mas pouco se
divulgou, até agora, sobre esses detalhes. Na Argentina, importante mercado
mesmo após a ascensão de Javier Milei, a atuação crescente da China tem sido
avaliada, no Brasil, como novidade preocupante. O governo paulista, no entanto,
declarou a intenção de condecorar o presidente argentino com a Ordem do
Ipiranga. A decisão parece compatível com o uso, pelo governador de São Paulo,
num evento público, do boné trumpista com a inscrição “Make America Great
Again”. O boné pode ter sido abandonado, pelo menos de forma ostensiva, mas o
trumpismo é revalorizado na homenagem ao companheiro argentino. A homenagem a
um governante vizinho, de toda forma, é um ato diplomático, de civilidade e
compatível, normalmente, com o interesse público.
Todo esse quadro parece normal, saudável,
muito mais tranquilo do que em grande parte do mundo e até admirável num ano de
eleições disputadas com algum radicalismo. Mas há algo um tanto estranho nessa
aparente tranquilidade. A campanha é marcada por diferenças ideológicas
importantes e por desavenças políticas significativas, mas, por enquanto, sem
debates e sem grandes choques de propostas.
De fato, quase nada se tem falado, até agora,
a respeito de propostas, programas e projetos. Do presidente em busca de
reeleição pode-se esperar, quase certamente, alguma intenção de continuidade,
mas ele mesmo já insinuou a intenção de acrescentar alguma novidade, se
continuar no posto. Não apresentou detalhes, no entanto, nem foi além de vagas
promessas de maior ousadia transformadora. Do lado oposicionista, a figura mais
visível praticamente se limitou, por enquanto, a prometer a libertação do pai,
em prisão domiciliar depois de condenado por crimes associados a uma tentativa
de golpe. Outros possíveis candidatos têm sido mais propositivos, com base em
suas experiências administrativas, mas falta uma definição clara, no entanto,
de como vão participar do jogo eleitoral.
Parte do eleitorado está comprometida
partidária ou ideologicamente. Grande número de eleitores, no entanto, parece
continuar à espera de propostas mais organizadas e mais claras. Na maior
economia do Hemisfério Sul, com enorme potencial de crescimento, mais de 200
milhões de habitantes, muita desigualdade e pobreza decrescente, mas com
aspectos tão evitáveis quanto inaceitáveis, uma disputa eleitoral se desenvolve
com notável miséria de ideias e propostas. Planos e projetos provavelmente logo
aparecerão, mas o atraso já é assustador, como seria até mesmo num tranquilo
país escandinavo.

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