domingo, 26 de julho de 2026

É preciso entender o que os números querem dizer, por Dorrit Harazim

Por O Globo

Por mais essenciais que sejam, estatísticas acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações

Cada nova edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública merece atenção e esquadrinhamento, sobretudo porque o retrato final continua a apontar para uma sociedade doente — doente de violência. Não foi diferente na semana passada, quando o Fórum Brasileiro de Segurança Publica divulgou os dados do seu 20º levantamento nacional. No geral, houve melhora considerável: pela primeira vez em duas décadas o número de mortes violentas por 100 mil habitantes ficou abaixo de 20. Em 2017, era bem pior: 31,2 mortes por 100 mil habitantes. Soa pouco? No Japão, esse índice fica em 0,3; na Itália e Coreia do Sul, não chega a 0,7; e nos Estados Unidos, estacionou em torno de 4,0 por 100 mil habitantes.

Na contramão da nossa melhora geral ficaram os feminicídios e a violência policial brasileira, as duas faces mais ignóbeis da brutalidade institucionalizada — uma do Estado, a outra privada. Saber que as polícias brasileiras mataram 60.558 pessoas em uma década e causaram a morte de 18 vítimas por dia em 2025 é aterrador, e a ausência gritante de corretivos para esse fato deveria chocar em dobro. Mas números, estatísticas, planilhas e gráficos, por mais essenciais que sejam, acabam passando ao largo de quem não tem tempo para dar vida a abstrações.

Essa espécie de anestesia defensiva não é coisa nossa, faz parte do viver e do conviver universal. Por sorte, volta e meia aparece alguma alma criativa determinada a dar materialidade à abstração. Um desses espécimens é o americano David Garrett, integrante do Institute for Primary Facts, que se dedica a dar visibilidade física a documentos públicos de interesse nacional. Garrett e sua turma decidiram tirar da abstração os 3,5 milhões de páginas sobre a teia de crimes do traficante sexual Jeffrey Epstein, liberadas pelo Departamento de Justiça no início do ano. Primeiro, imprimiram todas elas, folha por folha. Depois as encadernaram. Disso resultaram 3.437 volumes de 800 páginas cada, enfileirados de alto a baixo em um espaço cultural de Manhattan situado a dois quarteirões da cela em que Epstein foi encontrado morto. Batizaram a instalação de Donald J. Trump e Jeffrey Epstein Memorial Reading Room e abriram as portas ao público durante três semanas de maio.

Aos visitantes não era permitido manusear os volumes para não repetir o desleixo do Departamento de Justiça, que divulgou os documentos sem encobrir os nomes de todas as vítimas. Por que então visitar o memorial de documentos sem poder lê-los? Porque o propósito é outro.

— A presença física dos documentos ajuda a compreender a escala do crime — acredita Garrett. — Neste espaço você tem 8 toneladas de provas de um dos piores crimes da História americana.

O presidente nunca chegou a ser formalmente questionado sobre suas relações com Epstein. Ainda assim, um imenso painel com a timeline da relação entre os dois personagens faz parte da mostra.

— Trump está citado 38 mil vezes nos documentos, e pessoas de seu ministério também estão mencionadas — justifica Garrett.

A instalação é itinerante. Em junho, ela fincou pé em Washington, a pouco mais de 1 quilômetro da Casa Branca, com o mesmo propósito: fazer o visitante perceber a materialidade das provas e a dimensão do que foi ocultado para proteger os culpados. Sobreviventes do abuso em série, jornalistas, membros do Congresso e do Judiciário podem solicitar acesso aos volumes, que logo mais serão expostos em outras cidades. Por onde circula, o Memorial acende 1.400 velas amarelas para cada vítima de Epstein e sua coterie de depravados. Mas talvez seja preciso fazer um puxadinho se algum dia o Departamento de Justiça for liberar os restantes 3 milhões de documentos ainda trancafiados.

Wall of Tears (Muro de Lágrimas) foi uma iniciativa mais modesta, mas igualmente impactante pela surpresa, destinada a humanizar números. Numa manhã de fevereiro último, um mural de 15 metros de comprimento e 3 metros de altura surgiu afixado no muro de um quarteirão do Brooklyn, distrito de Nova York. Era uma instalação do artista plástico Phil Buehler em homenagem às 18.457 crianças mortas em Gaza entre o 7 de outubro de 2023 e 19 de junho de 2025. Feita de vinil resistente a água e com proteção UV, o mural listava apenas os nomes das crianças em ordem cronológica de suas mortes, o gênero, e o sinal de “-1” para bebês de menos de 1 ano de idade. À distância o mural parecia uma arte abstrata. De perto, a realidade impedia a fuga. De repente o noticiário de números adquiria vida.

Catorze anos atrás, uma instalação montada na avenida principal de Sarajevo cobriu o mundo de vergonha por ter silenciado sobre o massacre de bósnios na guerra dos Bálcãs. Em memória ao 20º aniversário do cerco à cidade, 11.541 cadeiras vermelhas vazias foram dispostas em fila sobre um interminável tapete também vermelho, representando cada vida perdida (inclusive 1.500 crianças). Uma orquestra silenciosa, com coro também em silêncio, marcou a dor coletiva.

É bom evocar a teimosia do ser humano em buscar linguagens múltiplas para comunicar o indizível. O mapa da violência no Brasil pede nossa ajuda.

 

Nenhum comentário: