quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A crise do STF, as eleições e a agenda nacional, por Fernando Perlatto*

Revista Escuta

Desde o fim da tarde de ontem, já foram publicadas muitas análises sobre a seção do Supremo Tribunal Federal (STF) destinada a discutir a possibilidade da abertura de investigação sobre o Ministro Alexandre de Moraes e suas relações com Vorcaro. Um aspecto ainda pouco explorado diz respeito à intervenção da ministra Carmen Lucia, que, apesar do voto equivocado pela separação dos processos de Moraes e do ministro André Mendonça, foi precisa ao dizer-se “envergonhada” e lamentar que, “em um momento em que o Brasil está a menos de 20 dias da eleição, estarmos todos voltados a questões do Supremo”.

A crise do STF engoliu a agenda nacional. Às vésperas do primeiro turno das eleições, não se discute o Brasil. As grandes questões que deveriam estar postas em debate público – sobretudo o tema da soberania nacional, em um contexto marcado pelos ataques de Trump ao país e aos riscos reais de intervencionismo externo – acabam relegadas a segundo plano. Questões como desigualdade, segurança pública, saúde e educação ficam escanteadas diante de uma agenda capturada pelos desdobramentos dos escândalos do caso Master. 

O debate público dominado pela crise do STF serve aos interesses de Flávio Bolsonaro. E o Ministro André Mendonça, ao insuflar, às vésperas do 07 de setembro, as denúncias contra Moraes (a despeito de sua gravidade), não era ingênuo a isso. Além de criar uma cortina de fumaça que secundariza o entendimento real sobre quais os riscos que a vitória do candidato do PL pode representar para o Brasil, o ambiente de “espetacularização” – como bem definiu a própria ministra Carmen Lucia – joga combustível no sentimento antissistema, que beneficia não apenas Flávio Bolsonaro, mas também candidaturas da extrema-direita ao Senado, que defendem o impeachment dos ministros do STF.

E em meio a essa barafunda, Lula não consegue colocar sua agenda no centro da disputa política. Apesar de suas contradições e limites, o governo Lula III avançou em diversos aspectos e tem realizações importantes, como, por exemplo, a reforma do imposto de renda, a reforma tributária sobre o consumo, a retomada da política de valorização do salário mínimo e a expansão de crédito – que, inclusive, impactam diretamente setores que estão em disputa no eleitorado da “baixa classe média (ou pobres intermediários)”, que como bem destacado por André Singer, em seu novo livro Impasse, representam um grupo amplo da população, que pode definir a eleição –, que poderiam ocupar um espaço importante na agenda nacional. Mas essa agenda não consegue ser disputada, porque o debate público está dominando pela crise do STF.

A imprensa é uma das principais responsáveis por esse cenário. A mesma Folha de São Paulo que lamentou em editorial de 12 de setembro a “indigência” do debate eleitoral é o jornal que relega a segundo plano uma discussão mais ampla sobre os problemas nacionais. Os comentaristas das organizações Globo também reclamam do cenário atual, mas as entrevistas realizadas com os candidatos à presidência no “Jornal Nacional” praticamente só abordaram assuntos ligados à corrupção, que, embora sejam relevantes, rebaixam a conversa pública e não dão conta de abordar os desafios e as questões centrais que o país precisa discutir neste momento.  

As eleições presidenciais deste ano estão sendo tratadas sob uma lógica de normalidade, que não deveria existir. Há quase quatro anos, o país assistiu a uma tentativa de golpe protagonizada pelo mesmo grupo político que tem chances reais de vencer a disputa. Desta vez, porém, em uma conjuntura internacional muito mais adversa às forças democráticas, com Donald Trump à frente do poder nos Estados Unidos e a América Latina sob a hegemonia de governos de extrema-direita. Engolfados pela crise do STF, não conseguimos discutir a gravidade da atual conjuntura e aquilo que verdadeiramente deveria importar nesse momento. A Frente Ampla, que garantiu a vitória de Lula em 2022 diante das ameaças democráticas representadas pelo bolsonarismo parece ter esfacelado.  Ainda há tempo, contudo, para reconstruí-la e impedir o retrocesso.

*Fernando Perlatto, professor, Diretor do Instituto de Ciências Humanas (ICH-UFJF

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