Sei que não é fácil manter um posicionamento otimista diante do que aí está. E precisamos atentar para a possibilidade de termos um regime político cada vez menos representativo, e, por extensão, cada vez mais medíocre ou até truculento no Brasil. Daí a necessidade de recuperarmos a credibilidade do processo democrático.
Na verdade, as nossas instituições se
aproximam da inoperância, tamanho os desmandos verificados nos últimos
tempos. Das denúncias que atingiram em cheio o Congresso Nacional às suspeitas
envolvendo alguns ministros do Supremo Tribunal Federal e destas ao
comprometimento de figuras de diversos escalões do Poder Executivo com casos de
corrupção. Dir-se-ia que as instituições estão em pandarecos, carcomidas. Há um
cheiro de República Velha no ar.
Enfim, um cenário que pode levar a impasses
consideráveis. Nem é preciso dizer que eu gostaria de estar tremendamente
equivocado. Como ninguém vive por muito tempo em meio a tantas crises, o
desfecho pode ser aquele da imposição de uma ordem autoritária. É sempre
assim quando as instituições batem cabeça. Daí o imperativo de se buscar
novas opções e fazer novas propostas, antes que o descrédito e o desânimo
cresçam ainda mais no país.
De fato, o que fazer, diante de tal
quadro?
É muito difícil responder a esta pergunta, quando não temos partidos políticos verdadeiramente preparados para o exercício de sua função, ou seja, a de se fazer intérprete dos anseios da sociedade civil junto ao Estado e não o contrário, como tem ocorrido até aqui. Com efeito, houve época no Brasil em que os partidos - dos conservadores aos reformadores ou mesmo revolucionários - possuíam quadros da maior relevância e empenhados na defesa dos interesses nacionais, independentemente de suas concepções.
Não custa nada reconhecer isso. Podemos divergir de um Afonso Arinos de Melo Franco, de um Raul Pilla, de um Juscelino Kubitschek, de um Tancredo Neves, de um San Tiago Dantas ou de um Luiz Carlos Prestes e Giocondo Dias, mas não podemos colocar em causa o compromisso de cada um deles com o Brasil. As nossas instituições, tanto do interior do Aparelho de Estado quanto fora dele, estampavam nomes de grande respeitabilidade e responsabilidade. E foi assim que o Itamaraty alinhou quadros como Rio Branco, Joaquim Nabuco e Alberto da Costa e Silva. O mesmo podemos dizer das Forças Armadas, onde pontificavam figuras da qualidade de Cândido Rondon, Euclides da Cunha, Henrique Teixeira Lott e Euclides Figueiredo.
Mais: fazem muita falta hoje ao país os intelectuais, formuladores e artistas que, atuando nos movimentos sociais, culturais e políticos, estavam perfeitamente comprometidos com os ideais de mudança, encarnando o que a nossa cultura tinha de melhor. Penso em Oscar Niemeyer, Ferreira Gullar, Darcy Ribeiro, Di Cavalcanti, Candido Portinari, Nise da Silveira, Tarsila do Amaral, Milton Santos, Rubem Braga, Graciliano Ramos, Nelson Werneck Sodré, Cecília Meireles, Alceu Amoroso Lima, Leôncio Basbaum, Djanira, Cora Coralina, Ismael Silva, Waldemar Henrique, Elisete Cardoso, Noel Rosa, Cartola, Humberto Mauro, Nelson Pereira dos Santos, Plínio Marcos, Bibi Ferreira, Ariano Suassuna, Villa-Lobos, Alberto Passos Guimarães, Caio Prado Júnior, Hélio Silva e tantos outros de igual valor, expressando a pluralidade brasileira sempre.
Eu me recuso a acreditar que nós,
brasileiros do século XXI, vamos virar as costas ao legado de tantos lutadores
sociais, a começar por Sepé Tiaraju, Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Cipriano
Barata e Gregório Bezerra. E não é possível que nós, brasileiros do século XXI,
vamos virar as costas também a homens da fibra de Barbosa Lima Sobrinho, Sobral
Pinto, Prudente de Morais, neto, e Modesto da Silveira, incansáveis sempre na
batalha pelos direitos humanos e da cidadania. Sem dúvida, não haveria a Democracia,
como que materializada na Constituição de 1988, sem esse acúmulo de lutas e sem
essa imersão na realidade sensitiva do país.
Mesmo entidades da sociedade civil, outrora
particularmente presentes sobre a cena nacional, encontram-se hoje desmobilizadas
ou fragilizadas. Por fim, e talvez justamente por esses fatos todos, não
dotamos o Brasil de um projeto de nação para os tempos que correm. Contudo, já
tivemos projetos nacionais significativos e poderíamos citar alguns exemplos
nessa linha. São eles: o Plano de Metas de JK, as Reformas de Base de João
Goulart e o Plano Real de Itamar Franco. Sem dúvida, esses projetos
representam pouco mais de dez anos na História da República, mas é um porto
seguro para avançarmos.
Creio que é necessário mudar o rumo da prosa,
como se diz. Não há outra saída a não ser encarar a situação de frente. E o
pior é que os problemas estruturais se avolumam, a saber: tensões sociais e
violências de todo tipo, desemprego crônico às portas de uma nova revolução
industrial, questões ligadas ao equilíbrio ambiental e ao saneamento básico,
cidades irrespiráveis e intransitáveis, perda avassaladora de identidade
nacional. Só não vê quem não quer: o Brasil, dessa forma, corre o risco de
ficar para trás ou algo ainda pior.
Retomar o fio da meada, isto é,
reunir novamente as condições políticas e institucionais me parece
crucial para sairmos do atoleiro em que nos encontramos. Para isso é
necessário refazer os partidos, mobilizar as entidades representativas da
nação, revitalizar as instituições de Estado, encontrar meios de dar esperanças
aos jovens, aos trabalhadores das fábricas, por conta própria ou aos
homens do campo, assim como aos fazedores de cultura. É fundamental
que a população crie mecanismos para cobrar mais dos seus representantes
também, fiscalizando para onde caminham as verbas públicas, por
exemplo.
O Brasil precisa urgentemente se repensar. Ou mais até: se refundar, rompendo com este mal-estar cívico apontado pela ministra Cármen Lúcia.
*Ivan Alves Filho, historiador.

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