O Globo
Cármen Lúcia mexeu com os sentimentos mais
íntimos dos brasileiros e brasileiras, mas foi incapaz de comover seus pares
Nélson Rodrigues dizia que o jornalismo moderno era tão comedido que, se o mundo acabasse, daria a manchete sem ponto de exclamação. Pois hoje resolvi usar o ponto de exclamação para transmitir minha indignação. O sinal mais claro da degradação moral que atingiu os integrantes do plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) foi a revolta que a fala da ministra Cármen Lúcia provocou entre seus pares. A única componente do plenário que se solidarizou com o povo brasileiro em seu sentimento coletivo de vergonha acabou tratada como uma traidora do corporativismo que toma conta da mais alta Corte de Justiça do país.
A única magistrada a evidenciar que o Supremo
provocou um “mal-estar cívico” na sociedade brasileira — devido à exposição de
desavenças e bate-bocas durante as sessões — mexeu com os sentimentos mais
íntimos dos brasileiros e brasileiras, mas foi incapaz de comover seus pares,
perdidos numa guerra vergonhosa pelo poder no STF, para evitar que um dos seus
seja investigado. Tentam, assim, manter a intocabilidade deles próprios,
provavelmente sentindo-se ameaçados de vir a ser descobertos malfeitos com que
nem sequer sonhamos, embora de alguns deles já saibamos o suficiente para
desejar que também sejam investigados.
Ao pedir desculpas ao presidente do tribunal,
aos colegas e ao povo brasileiro “por não ter conseguido ajudar a acalmar os
ânimos de forma mais eficaz”, Cármen Lúcia criticou a repercussão dos casos às
vésperas das eleições, afirmando que tal situação faz mal “não apenas ao Poder
Judiciário, mas ao país inteiro”. Note-se que, em nenhum momento, apontou o
dedo a seus pares, nem ao ministro Alexandre de Moraes, aquele a quem os
ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes não tiveram pudor de ajudar fingindo
estar em busca da verdade, quando o melhor caminho para isso seria justamente a
investigação.
Ela teve o cuidado de se referir aos
problemas como causas da decepção da sociedade com o STF, sem se referir ao
causador deles, que arrastou consigo a credibilidade da instituição basilar da democracia
brasileira. A mesma discrição teve o presidente do Supremo, ministro Edson
Fachin, que tentou levar a sessão adiante para evitar o que todos temíamos: seu
adiamento em proteção ao colega, mesmo que para isso fosse preciso levar por
água abaixo a reputação do tribunal.
Não estavam ali para defender a instituição,
como falsamente alegou Dino para pedir vista, quando todos já sabiam de véspera
que o faria, mas para defender seus próprios interesses, tão interligados aos
de Moraes, expostos nos diálogos que manteve com o banqueiro-bandido Daniel
Vorcaro por meio de um sistema de visualização única que pretende não deixar
rastros de quem escreveu a mensagem.
O mesmo sistema que o próprio Moraes
criticou, como indicativo de que a mensagem continha algum indício de crime
para ser apagada de propósito. São esses os indícios que se buscam na
investigação barrada, com cenas teatrais de indignação por parte de Gilmar, que
— provou-se depois pela troca de mensagens entre ele e os ministros Kassio
Nunes Marques e Luiz Fux — queria mesmo era tirá-los do julgamento para
beneficiar Moraes.
Nunes Marques sentiu o golpe e pediu para
sair do julgamento e também da sala, para talvez não ouvir o que falariam dele.
Fux resistiu e negou as acusações de Dino. Pelo uso das informações que vieram
na última leva de transcrições do celular de Vorcaro, ele e Gilmar tiveram
conhecimento de eventuais relações dos ministros com o banqueiro, e era essa
pescaria que pretendiam para atacar seus colegas. Fizeram o mesmo que acusaram o
ministro André Mendonça de ter feito.
Outro aspecto revelador da baixeza moral que
predomina no plenário do Supremo foi a maneira como Gilmar, e sobretudo Dino,
destrataram Fachin. Este já deveria imaginar o que encontraria pela frente
quando enfrentasse Gilmar, pois o conhece bem, e a seus métodos. Enfrentar um
plenário onde atuam Moraes, Dino e Gilmar não é para almas sensíveis, pessoas
educadas, sérias e equilibradas como Fachin.

Um comentário:
Armaram um circo para criar um impasse institucional - antessala doo Golpe d
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