O Estado de S. Paulo.
Presidente da Corte não debateu a participação de Moraes na sessão de anteontem
A sessão do fim do mundo no Supremo Tribunal
Federal (STF) produziu dois derrotados e um vencedor. O maior penalizado foi o
tribunal, que lavou roupa suja em praça pública e viu demolida a credibilidade
que restava. Também levou a pior o presidente, Edson Fachin, que ignorou o
alerta dos colegas de que a sessão seria um verdadeiro massacre. Ele encerrou o
dia ainda menor.
Alexandre de Moraes saiu vitorioso. Mesmo sem ver arquivados os indícios de que mantinha relação suspeita com Daniel Vorcaro, o ministro ficou mais perto de se safar de um inquérito. Esse cenário se desenhou com a colaboração de Fachin. Na avaliação de colegas, o presidente poderia ter sido mais firme na condução da sessão.
Ser firme não significa gritar de volta, mas
impor objetividade na votação e impedir que o rolo compressor do grupo de
Moraes obstruísse os trabalhos, em uma referência a um comportamento típico dos
parlamentares.
Fachin poderia ter pautado discussões que não
aconteceram. Por exemplo, se o próprio Moraes estaria apto a votar. No início
da sessão, o presidente questionou se algum ministro se declarava suspeito ou
impedido para participar do julgamento. Apenas Dias Toffoli e Kassio Nunes
Marques se manifestaram.
Moraes e seu grupo argumentaram que não havia
pedido de abertura de inquérito contra ele. Verdade. Mas o próprio Fachin usou
o raciocínio lógico para explicar o que estava em jogo: se a petição contra o
colega não fosse arquivada, seria necessário apurar os indícios apresentados.
Nesse cenário, o debate preliminar poderia
desaguar na abertura de investigação contra Moraes. Portanto, se o ministro
participou da votação da questão de ordem, que abordou pontos técnicos sobre o
surgimento dos indícios, poderia votar também a respeito da abertura de
inquérito sobre si mesmo.
O voto de Moraes é fundamental para definir o
futuro dele. Hoje, há quatro ministros para cada lado no plenário. O placar
ficaria empatado em um eventual julgamento sobre a abertura de inquérito,
contando com o próprio voto do suspeito. No direito penal, adota-se o
entendimento mais benéfico ao investigado diante de empate.
Para coroar a vitória de Moraes, Flávio Dino,
aliado de primeira hora, pediu vista e deve devolver o caso para o plenário
somente depois das eleições. Até lá, o grupo aposta que os ânimos tenham
esfriado – e, quem sabe, um novo escândalo deixe esquecidos os indícios contra
Moraes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário