segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Mendonça também deve explicações

Por O Globo

E a razão para isso não tem nada a ver com o pedido para investigar Moraes

O Brasil não tem mais dúvidas de que o ministro Alexandre de Moraes deve ser investigado. Há contra ele mais de cinco dezenas de mensagens em que Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master, pede ajuda e conselhos. Justamente a ele, cuja mulher assinou um contrato, editado pelo próprio ministro, de R$ 130 milhões para “consultoria estratégica” diante de órgãos públicos fiscalizadores. Ainda não se sabe se Moraes é culpado, mas apenas uma investigação poderá levar a um processo judicial e, eventualmente, a julgamento. Para se defender, ele terá a seu dispor todas as garantias que nosso ordenamento jurídico prevê.

Lula articula neutralidade do Centrão em eventual 2º turno, por Sofia Aguiar e Lucas Borges Teixeira

Valor Econômico

Petistas avaliam que PSD, União Brasil e Republicanos devem liberar diretórios

De olho em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) articula para manter a neutralidade dos principais partidos do Centrão na disputa pelo Palácio do Planalto. Nas últimas semanas, coordenadores petistas vêm conversando com diferentes legendas e trabalham com a avaliação de que PSD, União Brasil e Republicanos não devem declarar apoio nacional ao candidato do PL, deixando diretórios e filiados livres para se posicionar de acordo com as alianças locais.

Republicanos e União já anunciaram neutralidade no primeiro turno. Para o PT, evitar uma adesão formal dessas siglas a Flávio representaria uma vantagem política, porque ajudaria a preservar a disputa aberta pelos votos dos eleitores que escolherem outros candidatos no primeiro turno.

Flávio Bolsonaro ganhou; e agora? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Otimismo do mercado precisa ser ponderado por realidade política em 2027

A pergunta do título é retórica e especulativa. A duas semanas do primeiro turno das eleições, parte significativa dos agentes do mercado financeiro se mostra eufórica com as perspectivas de uma vitória de Flávio Bolsonaro e do fim da era lulista.

Há motivos concretos para não duvidar da eleição do candidato do PL. Embora empatados dentro da margem de erro, Flávio já aparece numericamente à frente de Lula em algumas pesquisas e, considerando que os institutos sempre subestimaram o percentual de votos do bolsonarismo nas eleições, não será surpresa se ele conquistar a Presidência da República.

Contém informação, por Irapuã Santana

O Globo

O consumidor é tão vulnerável a ponto de não entender que a presença de glúten fará mal a quem tem doença celíaca?

Foi marcada para a próxima quarta-feira uma audiência pública no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para “definir se, nas embalagens de alimentos industrializados, a informação ‘contém glúten’ é suficiente ou é necessário acrescentar a expressão ‘o glúten é prejudicial à saúde dos doentes celíacos’ ”.

Não é uma anedota. O segundo tribunal mais importante do país está debruçado sobre um caso com mais de 2.400 páginas, envolvendo pelo menos 43 cidadãos, empresas, associações, autoridades e instituições formalmente mobilizadas para avaliar a expressão “contém glúten”.

Antes que cheguem os americanos, por Miguel de Almeida

O Globo

Os números do Pisa exibem estagnação educacional, enquanto parte da população discute banheiro unissex

Saiu o resultado do Pisa 2025, e o Brasil continuou repetindo sua performance, digo, papelão. Desde a edição de 2015, nada mudou, com o país sem avançar na avaliação. Na matemática, seis países latino-americanos se saem melhor. Friamente: os números revelam estagnação. E não há desculpa, porque os exames envolvem alunos de escolas públicas e das caríssimas privadas.

Não é só um charuto, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Fumar um charuto fornecido por Vorcaro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões do banqueiro com o escritório da mulher do ministro

Mesmo que seja o caso de investigar todos os magistrados cujos nomes aparecem no celular de Daniel Vorcaro, é preciso começar com alguém. E, se adotado o critério de ir dos indícios mais graves para os menos relevantes, o primeiro da fila é certamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A sugestão do ministro Flávio Dino — investigar todos de uma só vez — é para não fazer nada. O Supremo cairia em tumulto processual, dada a quantidade de magistrados citados, nas mais diferentes situações. Fumar um charuto fornecido pelo ex-banqueiro é quase nada diante do contrato de R$ 130 milhões assinado por Vorcaro com o escritório Barci de Moraes, da mulher do ministro.

O avanço dos houthis pressiona Trump, por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Guerra de Trump contra o Irã espalha caos pelo Oriente Médio, mas acordo não estabiliza região

Para o governo iraniano, o preço do barril virou instrumento eleitoral. Com a guerra entre Teerã e Washington longe de um desfecho e o Estreito de Ormuz em grande parte fechado, o regime e seus aliados perseguem um objetivo: manter o petróleo o mais caro possível até as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro, para enfraquecer Trump. Assim, maior a chance de os republicanos perderem a maioria na Câmara dos Deputados e no Senado.

Essa pressão ganhou um novo instrumento no início de setembro, quando os houthis, grupo rebelde aliado ao Irã, avançaram pela costa oeste do Iêmen, tomaram o porto de Mocha e ocuparam ilhas do Bab al-Mandeb, o estreito que controla o acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez. Até o início do conflito, passavam por Ormuz mais de um quarto de todo o petróleo transportado por mar, um quinto do gás natural liquefeito do planeta e de aproximadamente 20% do comércio global de ureia, fertilizante de que o Brasil é um dos maiores compradores.

Flávio e os EUA, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Em 2025, o bolsonarista comemorou tarifas e sanções dos EUA contra o Brasil

O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) dedica três páginas para descrever como seria a sua política externa. Em termos econômicos, o foco está na abertura comercial, na atração de investimentos, na retomada da adesão à OCDE e na integração tecnológica com outros mercados. Em contradição com gestos e palavras do candidato nos últimos meses, porém, o texto afirma que a diplomacia não será guiada pela ideologia e que negociará com todos os parceiros, entre os quais a China, a União Europeia e os Estados Unidos, de acordo com a defesa do interesse nacional, não com a “simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo”. Certamente é o que a maioria dos eleitores gostaria de escutar.

Suicídio institucional, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O Supremo decidiu não decidir, num momento em que sua reputação está em jogo. Coloca, dessa maneira, toda a sua legitimidade em risco

Embora se possa dizer que o ministro André Mendonça e o grupo que o apoia tenham perdido ao não conseguirem avançar no julgamento do mérito das ações contra o ministro Alexandre de Moraes, uma coisa é certa: o Supremo só perdeu! Perdeu em credibilidade, em confiança da população e no reconhecimento da sociedade. Pode-se ter respeito por uma instituição cujos membros se recusam a julgar um dos seus, como se não fosse um cidadão comum? E o que dirão os eleitores desse país, que prezam as suas instituições e têm uma aversão pela imoralidade?

O STF em modo sobrevivência, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

O show de horrores no STF confirma nossas piores hipóteses

Não estamos apenas diante do corporativismo, mas de uma estratégia de autoproteção perante a possível composição do próximo Senado ou de cenário pior

Sobre a crise do Supremo já se disse quase tudo. Corremos o risco de apenas recapitular o recente show de horrores. É lamentável que alguns ministros tenham confirmado hipóteses a que cheguei em inúmeras colunas nos últimos anos.

Flávio Dino afirmou que vivemos "o momento mais corrupto da história do Poder Judiciário no Brasil". Gilmar Mendes, por sua vez, censurou André Mendonça por expor colegas eventualmente envolvidos em ilícitos e disparou que "até a máfia tem ética". A metáfora descreve a omertà, o pacto de silêncio e proteção existente nas organizações criminosas. Quem rompe o pacto e trai a facção sofre ameaças, ostracismo ou coisa pior.

A crise além do Supremo, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

A crise de credibilidade do STF pode cobrar seu preço em outras instituições

Suspeitas de relações impróprias entre ministros e Daniel Vorcaro precisam ser investigadas

As suspeitas de relações impróprias entre ministros do Supremo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro precisam ser investigadas, inclusive para que se conclua, se for o caso, que não houve irregularidades. Mas, na sessão em que o STF discutiu como examinar as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, os ministros pareceram mais preocupados em administrar a crise do que em esclarecer as suspeitas.

Há duas semanas, escrevi aqui sobre como a crise do Supremo podia transbordar para a eleição e para o TSE. Agora, outro efeito pode aparecer no Superior Tribunal Militar (STM), que ainda precisa decidir se generais, um almirante e o ex-presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado, perderão as patentes.

Brasil, um país dividido, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sofisticado sistema de discriminação racial separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos

Até quando vamos insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado?

O Brasil é um país dividido. Não, eu não estou falando das próximas eleições, da polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158 milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.

Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.

Defesa necessária, por Fernando Neisser* e Oscar Vilhena Vieira**

Folha de S. Paulo

Não faltam sinais de tentativas de interferência estrangeira no pleito deste ano

A efetividade de nossas estruturas jurídicas depende da mobilização de toda a sociedade

[Resumo] Evidências e ameaças de interferência externa nas eleições do Brasil indicam a articulação de uma rede que funde alinhamento ideológico transnacional, pressão diplomática e desinformação para desequilibrar a disputa e fragilizar a imagem de nossas instituições. Leis brasileiras dispõem de amplo arcabouço para enfrentar o problema, porém não são suficientes. A defesa efetiva da democracia exige o empenho concreto de partidos, autoridades e TSE.

O fantasma da interferência estrangeira em processos eleitorais deixou de ser mera teoria conspiratória ou artefato dos tempos da Guerra Fria para se tornar uma prática corrente em tempos de regressão democrática.

A ascensão de lideranças populistas com tendências autoritárias, o acirramento das disputas geopolíticas, a plataformização do debate público e, mais recentemente, os avanços no campo da inteligência artificial recolocaram a questão da defesa da soberania nacional e popular em novos termos.

A combinação deletéria entre campanhas orquestradas por algoritmos, o uso obscuro de dados pessoais, além do emprego sistemático de deepfake, contribui não apenas para desequilibrar processos eleitorais específicos, mas também para corroer a confiança dos cidadãos em suas instituições.

Muitos são os exemplos de incidentes reais. Nos Estados Unidos, o ciclo eleitoral de 2024 foi novamente marcado por alerta oficiais e a descoberta de dezenas de domínios digitais ligados a campanhas de manipulação orquestradas no Leste Europeu.

Na Eslováquia, as eleições de 2023 foram abaladas pela circulação de áudios forjados na véspera do pleito. Na América Latina, o chamado "Hondurasgate" revelou indícios contundentes de uma rede internacional focada em disseminar desinformação coordenada contra governos recém-eleitos ou em campanha, do México à Colômbia, passando pelo Brasil.

Ainda que se possa discutir a respeito do efeito concreto dessas manipulações no resultado dos pleitos eleitorais, as incertezas geradas sobre a capacidade de os cidadãos determinarem democraticamente o seu destino impõem um dever de precaução a todos aqueles comprometidos com a democracia.

Querem alugar o Brasil? Por Ana Luiza Albuquerque

Folha de S. Paulo

Presidente americano promove virada na política externa com endossos públicos, apoio financeiro e ameaças de sanções

No Brasil, Lula constrói campanha em torno do eixo da soberania nacional, na esperança de unir o eleitorado

(Resumo)Neste seu segundo mandato, o presidente Donald Trump vem promovendo uma transformação na política externa dos EUA ao tentar, de forma velada ou mais explícita, influenciar eleições pelo mundo, sobretudo na América Latina. Essa reedição da Doutrina Monroe, em versão século 21, busca afastar a China da região e garantir o predomínio norte-americano. No caso brasileiro, sucessão de tarifaços, declarações dúbias de Trump e atritos diplomáticos inusuais estimulados pela família Bolsonaro causam apreensão sobre risco de interferência na eleição presidencial, com objetivo de favorecer Flávio.

Pressionado diante da divulgação de trocas de mensagens suspeitas com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes argumentou que o relatório apresentado pelo colega André Mendonça, que trouxe à tona as novas informações, foi uma "farsa" produzida "com auxílio de órgão externo, provavelmente estrangeiro", para interferir nas eleições que se aproximam.

Independentemente da intenção de Moraes com essa acusação, ela revela o fantasma que assombra o pleito brasileiro desde muito antes do início oficial da campanha: a possibilidade de escalada da interferência do governo Donald Trump para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL) e prejudicar o presidente Lula (PT).

Em outubro do ano passado, durante as negociações após o primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de "dissidentes políticos" nas eleições presidenciais de 2026, como revelou nos últimos dias o jornal O Estado de S. Paulo.

A grave crise no Supremo, que engoliu o debate eleitoral a poucas semanas do primeiro turno, agora serve como pretexto para que o governo americano considere novamente sanções a autoridades brasileiras, como mostrou a Folha.

Poesia | Confidência do Itabirano, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Chico Buarque - Tua Cantiga