domingo, 20 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Todos no STF precisam seguir a Constituição

Por O Globo

Alexandre de Moraes tem de ser investigado — todos são iguais perante a lei

Numa de suas falas procrastinatórias na sessão vergonhosa do dia 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Flávio Dino disse que não leva em conta em seus julgamentos o clamor popular. “Não me importa se haverá no meu Instagram ou no meu Facebook milhares de mensagens dizendo da impunidade da corrupção”, afirmou. Não está errado, nenhum juiz deve agir de modo diferente. Dino também assegurou que todos os magistrados têm de seguir apenas a lei. E, de novo, acertou.

Ocorre, porém, que esses argumentos são todos falaciosos. Ninguém pede que a Corte julgue de acordo com a opinião pública. O que se exige é exatamente aquilo que Dino se recusou a fazer: seguir a literalidade de nosso ordenamento jurídico. A Constituição afirma expressamente: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Senadores dirão o que será o amanhã da Presidência e do STF, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Estão em disputa 54 das 81 cadeiras do Senado, duas por estado e pelo Distrito Federal. As pesquisas mostram vantagem expressiva da direita e da centro-direita

Embora não tenha centralidade na decisão da maioria dos eleitores, a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) impactou a disputa pelo Senado, que tem o poder de homologar a indicção de seus magistrados e mesmo aprovar o impeachment. Caso seja reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, terá a possibilidade de indicar mais quatro ministros; Flávio Bolsonaro, se vitorioso, já disse que pretende indicar seis, para essas quatro vagas, e mais duas que pretende abrir com os impeachments dos ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino.

O Supremo em crise, democracia em risco, por Roberto Amaral*

“O Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze ministros, escolhidos dentre os cidadãos com mais de 35 anos de idade e menos de sessenta e cinco anos de idade, de notável saber jurídico e reputação ilibada.” (Constituição Federal, art. 101)
 
O que mais ressalta nessa tragédia é isto: ao invés de estarmos tratando da ameaça eleitoral da extrema-direita, combatendo-a, somos obrigados a nos voltar para a rotina da crise do Poder Judiciário, a um tempo núcleo e expressão da crise política. 

Esta, a que mais nos incomoda, é ainda mais profunda e mais grave do que parece à primeira vista, empobrecida pela miopia crassa da grande imprensa e pelo simplismo dos “especialistas” por ela selecionados. Refiro-me ao desalinho político que, em outubro, pode jogar nosso país e nossa gente em abismo sem fundo. A erosão do STF, portanto, não tem autonomia. Fruto da crise política — a mais profunda nos quadros da República —, põe em risco a democracia. Grave em si mesma, trabalha para convencer o povo, principalmente os mais desvalidos, de que a democracia é um fracasso. Eis como se abre o espaço no qual viceja o discurso, a ideologia do desalento, do desengano, da desesperança. É a promessa do caos.

É quando emerge o discurso do totalitarismo. 

Os tempos de Daniel Vorcaro, por Míriam Leitão

O Globo

O rastreamento do dinheiro de Vorcaro está sendo bem sucedido. Ele agora aposta nas confusões do STF e numa troca de governo

O que Daniel Vorcaro não esperava no tempo da economia está virando realidade: o rastreamento do dinheiro externo tem sido bem sucedido e estão sendo encontrados mais ativos do que ele acreditava que o processo de liquidação conseguiria achar. O liquidante contratou empresas especializadas em rastreamento. Foi localizado um fundo que havia recebido fluxo de recursos através de vários intermediários, entre eles Antônio Carlos Freixo Júnior, o mineiro. Os ativos do fundo, na ordem do bilhão, foram congelados e serão usados como pagamento do passivo de Vorcaro. Há outros ativos sendo rastreados.

Enquanto isso, na Casa da Justiça, a vida do ex-banqueiro, que comprava políticos e juízes, tem sido facilitada pela confusão. Se todos brigam e não se sabe sequer quem está na relatoria do Caso Master no STF, Vorcaro pode fazer o que fez sexta: pedir o relaxamento da prisão. Seus advogados aguardam o tempo certo para pedir a nulidade do processo.

Meia-palavra basta, por Merval Pereira

O Globo

Ministros que não se ressentem de elogiar a ética dos mafiosos diante das câmeras de televisão e no plenário do Supremo são contra o Código de Ética proposto por Edson Fachin e Cármem Lúcia

Todos já vimos filmes ou séries sobre grupos criminosos, estrangeiros ou brasileiros, em que as cenas mais perversas surgem com naturalidade. Parece coisa inventada, tamanhos os absurdos narrados. Quem acreditaria que um ministro do Supremo recebe dinheiro para dar sentenças favoráveis ou contrárias, dependendo do cliente? Quem imagina uma prostituta recusando sair com um ministro do STF porque precisaria de um michê dez vezes maior para servir a ele? Quem poderia acreditar que um ministro do Supremo receberia dinheiro através de terceiras pessoas, como um cunhado,, ou um filho, ou uma esposa? Ministro do STF tem dinheiro para ser proprietário de um resort no Paraná?

Precisamos falar sobre Kevin, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Kassio Nunes Marques se declarou impedido no caso Master, mas será o árbitro da eleição

A semana começou com dois ministros do Supremo sob suspeita de receber agrados de Daniel Vorcaro. Terminou com cinco, incluindo o presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Kassio Nunes Marques foi o destaque da rodada. Seu nome apareceu em mensagens pouco edificantes no celular do dono do Master. Os diálogos tratam de valores, viagens e mulheres. Não necessariamente nessa ordem.

Numa conversa, o banqueiro orienta um auxiliar a alugar a “melhor casa do Rio” para o “ministro KN”, que se hospedaria com o desembargador Newton Ramos e outros convidados.

Falta foco à diplomacia americana, por Elio Gaspari

O Globo

A divulgação dos documentos de outubro do ano passado e de janeiro passado que continham o que seriam as condições para a abertura de negociações comerciais com o Brasil mostra algo inquietante: a diplomacia americana perdeu o foco, virou assembleia estudantil.

O conjunto de condicionantes virou um terreno baldio, fica a impressão de que os diversos lobbies de Washington passavam pelo rascunho e jogavam seus pleitos. A Boeing quer que as empresas aéreas brasileiras só comprem seus produtos. As big techs querem continuar fazendo o que bem entendem e os plantadores de soja querem que o Brasil ajude a “estabilizar o comércio mundial de soja”. Traduzindo: querem que o agro brasileiro ajude a turma da soja americana.

As propostas americanas foram rechaçadas, até porque essas negociações não podem ser conduzidas como pacotes. Cada item é um item e conversa-se devagar. Lidos de uma vez, parecem um instrumento de capitulação.

Os itens que tratam da próxima eleição brasileira são de uma ignorância abissal, como se em Pindorama houvesse um candidato prometendo melar o pleito.

A diplomacia americana já foi outra, ela dava pouco espaço ao improviso, ajudava os lobbies, porém mantinha a elegância.

A diplomacia trumpista é arrogante e vazia. O melhor que se pode fazer nesses casos é ficar longe. Bater boca não adianta nada e tentar negociar a sério poderá ser possível, mas dará muito mais trabalho, pois não havendo foco, não haverá prioridades.

Duas palavras, por Dorrit Harazim

O Globo

É sobre Ed Sheeran que recai a dúvida de como atravessar o rio da vida que agora se impõe à sua frente

“Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida — ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”

A consideração tem pedigree nobilíssimo (Nietzsche) e volta e meia surge na tela de quem navega na web entre citações de autoajuda. Ainda bem, senão seria preciso enfronhar-se na obra possivelmente impenetrável de que foi pinçada (“Schopenhauer como educador”, de 1874). A consideração nietzschiana tem mil e uma utilidades — serve tanto para desancar os juízes do nosso Supremo Tribunal Federal como para, aqui, explicar o dilema que na semana passada incendiou a cena musical planetária.

Lula x Lula, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Na reta final das eleições, a polarização Lula versus Bolsonaro virou Lula versus Lula, com Flávio Bolsonaro jogando parado e o candidato a um quarto mandato concentrando todas as atenções e toda a indignação nacional com qualquer coisa que aconteça, inclusive, ou principalmente, os escândalos do Supremo Tribunal Federal (STF).

É surpreendente que os R$ 134 milhões do contrato de Alexandre de Moraes façam mais estrago na campanha de Lula do que os R$ 131 milhões do filme Dark Horse na de Flávio. Um suspeito é ministro do STF que nem sequer foi nomeado por Lula. O outro é, ele próprio, candidato à Presidência.

O Brasil e o mundo, por Celso Lafer

O Estado de S. Paulo

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países

Traduzir necessidades internas em possibilidades externas é o grande desafio da política externa dos países. Na interligação do nacional e do global se situa o juízo diplomático que está voltado para avaliar perspectivas, possibilidades, dificuldades e resistências.

No entendimento da nossa circunstância diplomática, Helio Jaguaribe aponta que é preciso tanto perceber e analisar o Brasil na perspectiva do mundo, quanto pensar e avaliar o mundo na perspectiva do Brasil. Ambas obedecem a uma dialética de mútua complementariedade que, na sua dinâmica, oferece as indicações de como concretizar necessidades internas em possibilidades externas, em distintas conjunturas históricas.

Sem avanços à vista, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

A perda de credibilidade do sistema de Justiça brasileiro e os riscos geopolíticos acarretados pela eleição, seja de Lula ou de Flávio Bolsonaro, inibem investimentos em áreas estratégicas, no momento em que o mundo vive uma revolução tecnológica que aumentará o abismo entre países avançados e os que seguem a reboque, como o Brasil.

Com US$ 77 bilhões, o Brasil é o quinto maior destino de investimento estrangeiro direto (IED), depois de Estados Unidos, Singapura, Hong Kong e China. Concorrentes diretos, México e Índia receberam em torno de metade desses valores em 2025.

Esses investimentos são atraídos pelo tamanho do mercado, recursos naturais, matriz energética limpa, agronegócio, infraestrutura e oportunidades na transição energética. Tudo isso é bom.

'Dark Horse' foi o caixa 2 do tarifaço, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

É preciso parar de tratar o assunto como a história de um filme ou a discussão sobre as inconsistências no seu financiamento

Coisas parecem claras ao pensar em caso como caixa 2 para desviar dinheiro que Vorcaro roubava dos aposentados para financiar uma tentativa de golpe

Novas evidências sugerem que "Dark Horse" foi o caixa 2 do tarifaço.

Eduardo Bolsonaro foi para os Estados Unidos na mesma época em que começaram os pagamentos de Daniel Vorcaro para o caixa do filme. Até pouco tempo antes, como mostrou reportagem de Breno Pires na revista piauí de setembro, os esforços de captação de recursos para "Dark Horse" haviam tido pouco sucesso.

Reportagem de Leticia Casado para o UOL em 13 de setembro mostrou que, no celular de Daniel Vorcaro, havia uma mensagem do publicitário Thiago Miranda com o texto "Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme".

Brasil de instituições em ruína e mal-estar econômico facilita projetos autoritários, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Desgosto antissistêmico, que vem desde 2013, piora com notícias de crime no poder

Mais dificuldades na economia, corrupção e tolerância com autocratas são alerta

O Brasil prepara a cama para quem venha a tentar uma solução autoritária? Para um autocrata eleito pela coalizão dos desesperados com os espertos do status quo?

Imagine-se uma situação em que seja extensa a sensação de baderna e descontrole, de expansão do crime e de ameaça a valores que constituem a identidade de seu grupo; um ambiente de notícias de corrupção, de padecimento socioeconômico e de cinismo em relação ao sistema de governo, sentimentos então exacerbados por pânicos político-morais manejados de modo a dar sentido a tudo isso.

Apertemos os cintos; as lideranças sumiram, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não se vê um gesto nem se ouve uma voz capaz de inspirar e dar segurança ao país sobre o rumo a seguir

Enquanto uns se omitem e outros atuam em causa própria, locupletam-se todos e o Brasil que se vire

O cenário de total desacerto que assola a República encontrou o Brasil na orfandade em matéria de lideranças capazes de iluminar um caminho para a saída da crise.

O chefe do Executivo só tem olhos para o umbigo da reeleição; tira o corpo fora e transfere responsabilidade ao presidente do Supremo Tribunal Federal, que é desacatado por seus pares, enquanto o comando do Congresso entrega-se ao exercício da omissão e os governadores se calam. Não é com eles.

Educação tem nome próprio, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Paulo Freire propõe um método de conscientização como centro de sua teoria pedagígica

Foi autor de um pensamento cultural de alcance universal, com a educação como prática libertária

Se existisse o Prêmio Nobel da Educação, teria havido provavelmente a chance de o Brasil contar pela primeira vez com essa láurea. E o contemplado não poderia ser outro senão aquele cujos 105 anos agora se celebram, in memoriam: Paulo Freire, um dos três intelectuais mais citados na área de ciências humanas no mundo, com 48 títulos de doutor honoris causa por universidades como Harvard, Oxford e Cambridge, em várias das quais foi professor. Na França, incluído entre os 12 maiores educadores da história da humanidade.

Não fale sobre política, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro mostra equívocos de idealizações de inspiração liberal

Autora defende intervenções ambientais para mudar mentalidades

Faço algumas restrições a "Don't Talk About Politics", de Sarah Stein Lubrano, mas o livro é muito bom. É um banho de ciência cognitiva. Recorrendo a exemplos da literatura psicológica e da vida real, ela mostra que várias das nossas idealizações sobre política estão erradas. A esfera pública não é um "mercado de ideias" do qual sempre saem vencedores os melhores argumentos, e o cidadão não é um ator racional que se deixa persuadir por fatos e por lógica.

Tortas na cara, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

A forma ideal de protestar contra alguém sem precisar alvejá-lo com balas de verdade

Noel Godin empastelou Bill Gates, Nicolas Zarkozy, Jean-Luc Godard e Marguerite Duras

Como não pensaram nisso antes? De tanto assistir às antigas comédias-pastelão de O Gordo e O Magro, em que multidões levam na cara tortas de creme atiradas pela dupla ou por uns contra os outros, demorou, mas alguém viu nelas um objeto ideal de protesto, uma forma de desmoralizar um inimigo sem precisar alvejá-lo com balas de verdade. A inspiração veio da obra-prima de Laurel & Hardy, o curta "The Battle of the Century", produzido por Hal Roach em 1927 –mais de 3.000 tortas atiradas em apenas 3min40 de filme, disponível no YouTube.

Poesia | Menina e Moça, de Machado de Assis

 

Música | Elis Regina – O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc)