segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Ressaca eleitoral


Wilson Figueiredo
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Em conversas reservadas, segundo informações menos contingenciadas, cedo na segunda-feira o presidente Lula já se convencera de que pouco importa o que as urnas disseram. Dispensava maiores cuidados a situação pós-eleitoral já sem os véus que a encobriam. As eleições foram exclusivamente municipais. Lula decidiu não atribuir ao PMDB peso suficiente para levá-lo a reabrir o ministério e reacomodar interesses menores. O presidente ainda não se refez das cólicas de que foi vítima todas as vezes que precisou acalentar insatisfações na base de sustentação do governo. Na República Velha vigorava a lição que recomendava "deixar como está, para ver como é que fica". Ficava sempre do mesmo jeito, senão pior. Já era o pressuposto de que o que está ruim não escapa do fim. No século 21, ficou diferente. Não é mais como no tempo em que se mudava de Constituição como barata troca de casca. Na verdade, não existe nada tão ruim que não possa piorar. É o ancestral do quanto pior, melhor.

Sem perda de tempo, o presidente emitiu o recado a quem pudesse interessar. Há vencedores por todos os lados mas, da sua cota, pode contar com poucos de bom peso. São Paulo pesou, para menos, por todo o resto: o PT perdeu o equivalente a 10 vezes seu peso político. Lula já pode tornar-se sócio do clube dos que gostam de "tomar o mingau pelas bordas", fundado por Leonel Brizola para fortalecer a democracia no recomeço. Para quê pressa? O tempo ajuda, quando não atrapalha. O PMDB desempenha o rendoso papel de vítima no espaço político nacional, desde que os demais partidos lhe deram acintosamente as costas nas sucessões presidenciais. Nenhum fechou com candidatos do PMDB a presidente. Sob os militares, o velho MDB abrigou todas as tendências políticas, mas de nenhuma teve a menor retribuição. Nada, porém, impede que, na encruzilhada do passado com o futuro, avalie favoravelmente a oportunidade e apresente candidato próprio daqui a dois anos. Vai ver o que é oportunismo. Eis a incógnita que saiu das urnas municipais.

Foi Lula quem recomendou ao PT aumentar a dose da impropriamente chamada federalização das eleições municipais. Vista de onde o presidente se plantou, entre o terceiro mandato que recusa (vá lá, por uma questão de princípio) e a posição de magistrado, com a história ao seu dispor, transferiu sua volta ao Planalto para 2014. Não hesitou em garantir presença nos palanques, como nunca se viu neste país. Arrombou a porta sem se lembrar de que é presidente da República, e não do PT e associados na bacia das almas. Adiou a hora de cuidar da biografia.

Vale pouco o pragmatismo presidencial, sem a garantia contra falha humana e erro eleitoral, como ocorreu no caso da prefeitura paulistana, a jóia da coroa que os eleitores recusaram a Marta Suplicy. A que título se revezam dois Lulas, um generoso com o risco eleitoral alheio e outro que desaparece de cena assim que pinta resultado adverso? São Paulo atravanca o futuro do petismo em sua própria casa. A classe média paulista não faz cerimônia em abster-se, em relação tanto ao petismo quanto ao aguado socialismo pós-Lenin para o século 21. Trata-se de produto que não recuperou posição no mercado democrático, nem sob a forma diluída e abstrata como o PT o oferece. Não basta ser mais barato, se não for legítimo. Qual seja, sem mostrar os benefícios e ocultando as imperfeições que roeram a teoria, cada vez mais distante da prática.

O presidente não é de se aborrecer com o que não dá certo. Parece convencido de que seus erros são menores que os acertos, com base nas pesquisas. Se passar dos 100 por cento de aprovação, estaremos aritmeticamente perdidos. A oposição mostra-se satisfeita no nicho que ocupa. O PT também espera que a História lhe abra a porta para mais de uma reeleição. Uma vez despejado, por falta de sucessor sangue puro, o petismo irá olhar para trás à procura da explicação definitiva e então se dará conta de que pode estar condenado a virar estátua de sal. Então dirá baixinho, como o último dos luízes, depois de mim só a recessão.

Os novos governos e a crise


Claudia Costin
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


No dia 26 de outubro elegemos, no Brasil, novos prefeitos em todos os municípios onde houve segundo turno. Muita comemoração entre os vencedores e alguns gestos bonitos e civilizados dos derrotados. Mas as cidades do País, mal saíram do som dos fogos de artifício, tiveram de se defrontar com algo que nem o feriado emendado do Dia do Servidor Público pôde abafar: muitas das promessas não poderão ser cumpridas - não necessariamente por descompromisso dos eleitos, mas porque, enquanto os dias finais da campanha corriam, a crise, que já parecia séria, assumiu feições com que nem os melhores compêndios de economia ensinaram a lidar. Trata-se, nas palavras do economista-chefe de um dos maiores bancos do País, não de uma recessão pura e simples, mas de uma depressão. A economia mundial não quer mais trabalhar com empréstimos, todos querem entesourar e um pânico generalizado atinge não só a economia virtual, o que Manuel Castells chama de autômato ou o gerenciador eletrônico que comanda as finanças do planeta, mas a economia real, a dos produtos, empregos, salários e aquisições.

E o Brasil? Houve aqui, inicialmente, um esforço governamental grande para tranqüilizar o mercado, assegurando aos agentes que estaríamos imunes ao que se passava em outras terras, dados os inegáveis fundamentos macroeconômicos mais sólidos de que dispomos hoje. O baixo índice de crédito imobiliário era usado para mostrar que não teremos (como não temos) problemas nesse segmento. Não creio que tais garantias tenham sido anunciadas de má-fé. Pouco se sabia ou entendia do que haveria de vir.

Na semana da eleição, o cenário mostrou-se mais claro. O Brasil, que vende commodities a países industrializados, conta com uma estrutura de gastos correntes no setor público muito amarrada e pouca folga para investimentos, vai ser, sim, afetado, não é impermeável ao que se passa lá fora. Acabaram-se os tempos de bonança, de arrecadação alta e dinheiro disponível para os necessários gastos sociais, para obras e aumentos de salários que possam atrair bons quadros para o funcionalismo, especialmente num contexto em que, como divulgou o IBGE, o número de funcionários da administração pública no País aumentou 7,5% de 2005 para 2006, bem mais que o aumento no setor privado. Neste contexto, ganharam os prefeitos reeleitos que se prepararam para os tempos de vacas magras.

Na verdade, vários prefeitos eleitos já admitem rever seus programas de governo e adotar uma postura inicial mais austera. Como bem observam Geraldo Biasoto Jr. e José Roberto Afonso, em artigo do dia 25 de outubro no Estadão, a arrecadação deve cair e será fundamental controlar o gasto de custeio para preservar as ações sociais básicas, vitais em momento de crise para garantir a qualidade de vida da população e os investimentos em infra-estrutura. Acrescentaria investimentos em educação, focalizando o gasto em ações que introduzam maior qualidade no ensino, evitando despesas não diretamente vinculadas à aprendizagem dos alunos. O mecanismo mais fácil para avaliar a importância de uma despesa nesta área é verificar se ela contribuirá para um Ideb (o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica estabelecido e monitorado pelo MEC) mais alto ou não. Mas tudo isso, segundo os autores do artigo, deve se subordinar ao preceito da responsabilidade fiscal e da própria democracia: a despesa de um mandato precisa caber dentro de seu período. Para os prefeitos, nesse sentido, o momento é de priorizar gastos, reavaliar as promessas de campanha, reprogramando o momento certo de honrá-las, e, sobretudo, comunicar com clareza aos eleitores o porquê de suas ações. Transparência aqui é chave e serenidade, uma boa conselheira diante do turbilhão que afeta a economia e agitará, certamente, as ondas das finanças públicas municipais.

Outro governo que terá de repensar suas propostas diante de um novo cenário é o do novo presidente americano. Barack Obama ou John McCain, ambos senadores, têm grande familiaridade com a discussão de orçamentos, que nos EUA confere um papel ainda mais importante ao Legislativo. Suas prioridades em políticas públicas são distintas, mas envolvem gastos que, num contexto recessivo, não podem permitir, como chegou a propor McCain, corte de impostos. Há, em primeiro lugar, o programa contra o aquecimento global, tema negligenciado por Bush, mas assumido por ambos os candidatos. McCain chega a afirmar em seu programa que “os EUA não podem continuar a negar sua responsabilidade na redução das emissões de dióxido de carbono”. E Obama, segundo artigo recente de Richard Holbrook na Foreign Affairs, tem o plano mais completo na área, com metas ambiciosas para redução de emissões de dióxido de carbono e um mecanismo de mercado para compensação de carbono respeitado por economistas de direita e de esquerda. Ora, uma ação consistente nessa direção demanda investimentos importantes. O mesmo se pode dizer do reaparelhamento das Forças Armadas, de algumas ênfases na política externa, como o Afeganistão, ou mesmo a mudança na matriz energética. A recuperação de um papel importante e da respeitabilidade dos EUA no cenário internacional tampouco será levado a efeito sem gastos. No caso específico de Obama, incluem-se também gastos sociais relevantes, como a ampliação dos serviços de saúde e educação.

Novamente, neste caso, a crise obrigará o eleito a priorizar e, assim como no Brasil (provavelmente em maior medida), a convencer o Congresso e os eleitores da justeza das prioridades. Afinal, numa democracia promessas podem ser revistas diante de novas circunstâncias, mas sempre em diálogo com o cidadão e seus representantes.

Claudia Costin, vice-presidente da Fundação Victor Civita, professora do Ibmec-SP, foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado e secretária de Cultura do Estado de São Paulo

De segredos, marcas e eficiência


Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Num volume do século XIX sobre "A Constituição Inglesa", Walter Bagehot reavalia o sistema de governo britânico de maneira que tem sido retomada recentemente. Ele destaca o que chama um "segredo eficiente": enquanto a teoria tradicional, "como consta de todos os livros" (incluído, celebremente, "O Espírito das Leis", de Montesquieu), via o mérito do sistema inglês na separação entre os Poderes Legislativo e Executivo, o "segredo" seria que, na verdade, o que se tem é a fusão completa dos dois Poderes, com o Gabinete como elo decisivo entre eles - e como fator de "eficiência", em contraste com o caráter cerimonial e "dignificado" dos aspectos destacados na visão tradicional.

Naturalmente, este é um ponto relevante da distinção entre os sistemas parlamentarista e presidencialista de governo. Contra certo senso comum em que o presidencialismo surge como o sistema de chefe de Executivo "forte", por ser escolhido diretamente pelos eleitores e não responder perante o parlamento, a fusão parlamentarista redunda em que, especialmente na versão de governo de Gabinete, o chefe do Executivo seja por definição o líder do partido em controle do parlamento, o que evita as dificuldades do "governo dividido" a que se expõe o presidencialismo e em princípio contribui para a eficiência administrativa.

Mas um dos aspectos com relação aos quais Bagehot tem sido retomado é o da eficiência em termos eleitorais e suas relações com a natureza e a dinâmica dos partidos. A evolução que resulta no "segredo eficiente" tem como componente importante o fortalecimento dos partidos, numa dinâmica em que o político interessado em reeleger-se (ou eleger-se) para o parlamento, em vez de ter de empenhar-se em prestar serviços a interesses particularistas e clientelas locais (e competir nisso com seus próprios companheiros de partido), é induzido a valer-se da "marca" trazida pelo partido e a identificar-se com ela. E no confronto das "marcas" partidárias passaríamos a ter alternativas significativas de políticas públicas definidas por referência a categorias amplas e de alcance tendencialmente nacional. Há um claro sentido, assim, em que "eficiência" (eleitoral, mas também supostamente administrativa em consequência) vem a equivaler a um modelo de política "ideológica".

Pode-se encontrar, na literatura corrente, certo recurso abusivo à fórmula do "segredo eficiente". É o caso de M. S. Shugart e J. M. Carey, que, no volume "Presidents and Assemblies", de 1992, usam a expressão "segredo ineficiente" de modo que, além de tornar difícil perceber onde está o segredo, leva eficiência e ineficiência na verdade a se confundirem. Mas o abuso mesmo não deixa de relacionar-se com as complicações reais que cercam o assunto, pois trata-se de designar, a propósito de determinados sistemas presidencialistas, a combinação de práticas eleitorais clientelistas e barganhas pragmáticas no nível do poder legislativo, de um lado, com, de outro lado, a formação de coalizões mais amplas, eventualmente representando alternativas autênticas em termos de políticas, no nível das disputas pela Presidência da República. O Chile anterior à intensificação da polarização política no final dos anos 1950 seria o exemplo por excelência, e o aspecto a ser destacado é o de que a "ineficiência" (ou o "fisiologismo" nosso conhecido) do Legislativo seria um fator favorável à estabilidade do sistema - que, com a polarização, termina mais tarde radicalmente comprometida.

A questão decisiva acaba girando em torno da velha questão de ideologia e pragmatismo e de como combiná-los, e ela é de evidente relevância na política brasileira de agora (embora de maneira menos dramática, ainda bem, do que algum tempo atrás). Acabamos de sair de eleições que permitem a leitura de vitória do PMDB, com sua "marca" tênue e seus caciques regionais pragmáticos prontos à barganha: haverá nisso algo de bom, nas circunstâncias atuais da vida político-partidária brasileira? Há uma maneira de ver as coisas que poderia pretender dar resposta positiva à pergunta por se tratar de eleições municipais. Mas a discussão poderia estender-se no rumo das interpretações da eleição em que se festejou o caráter "racional" da postura do eleitor, tido como atento ao que teria a ganhar ou perder pessoalmente com o acesso à prefeitura de um candidato ou outro. Pondo de lado as complicações que a definição de racionalidade pode envolver, é fácil assinalar como essa postura poderia eventualmente ser contrastada com outra semelhante, a que teríamos na eleição presidencial com o eleitor prestando atenção aos seus ganhos com o programa Bolsa Família - sem falar da decisão de voto pelo eleitor com base em imagens em que esteja envolvida uma identidade popular: populismo, manipulação? Em todo caso, não há como negar que podemos ter aí quando nada a raiz de um processo de fixação de alternativas de política em torno de "marcas" nítidas, ainda que a "ideologia" envolvida possa deixar a desejar quanto ao conteúdo de informação ou uma suposta "racionalidade" correlata.

Ainda um par de perguntas, a serem deixadas no ar. Em primeiro lugar, como avaliar, do ponto de vista de "eficiência" agregadora versus clientelas locais e interesses particularistas, uma iniciativa como o orçamento participativo do PT, ou como fazer dele um instrumento de representação universalista? Em segundo lugar, como distinguir, à parte a liderança pessoal de um Lula ou alianças pragmaticamente convenientes, entre a "marca" pessedebista e a "marca" petista? Não serão melhores, em termos tanto de eficiência eleitoral quanto administrativa, os prospectos de uma "marca" socialdemocrática que o PT traz nas práticas de governo e o PSDB reclama até no nome?

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Nova Bretton Woods


Luiz Carlos Bresser Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A agência que substituir o FMI deverá alertar os países que ultrapassarem o limite de déficit em conta corrente

NOS PRÓXIMOS dias os líderes políticos e econômicos dos grandes países reunir-se-ão para discutir uma nova Bretton Woods, ou seja, uma nova arquitetura e um sistema de regulação mais rigoroso para o sistema financeiro mundial. Aproveitarão também para repassar as medidas que já tomaram para garantir a solvência e para aumentar a liquidez dos bancos.

Nesse ponto, o essencial já foi decidido e está sendo implementado: a recapitalização dos bancos. O crédito, porém, está demorando a ser restabelecido, dada a natural desconfiança dos bancos em relação às demais empresas. Nos Estados Unidos, o Fed vem se encarregando de agir nessa direção; no Brasil, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) já revelou essa disposição, embora aqui o problema dos grandes bancos não seja grave.

Entrementes as previsões quanto às conseqüências reais da crise estão se agravando. O JPMorgan prevê para 2009 queda de 0,5% no PIB dos países ricos e crescimento de 4,2% no dos emergentes. Para o Brasil, as previsões estão tendendo para 2%. Nouriel Roubini fala em estag-deflação. Embora não tenha dúvida quanto à recessão dos países ricos e à diminuição das taxas de crescimento dos emergentes, creio haver excesso de pessimismo. No momento em que as medidas que estão sendo tomadas fizerem efeito -e farão- deixará de haver motivo para a retração violenta da atividade econômica que está sendo prevista.

Como aconteceu em 1929, a crise financeira terá conseqüências reais, mas não serão tão graves porque, ao contrário do que ocorreu naquela época, os governos agora agiram com rapidez e competência para enfrentá-la. Deverão, adicionalmente, tomar medidas fortes para neutralizar a natural contração real da demanda. Medidas dessa natureza começaram a ser tomadas ainda pelo governo Hoover depois de 1929, mas eram tímidas; as políticas mais fortes vieram com Roosevelt, mas em 1933 o desastre já estava feito.

O que constituirá uma nova Bretton Woods em vez de meros remendos à desgovernança montada desde 1971? Nessa questão, é preciso diferenciar o crédito interno a empresas do crédito externo a países para cobrir déficits em conta corrente. No crédito interno, o essencial é uma regulação muito maior sobre os bancos de varejo, ao mesmo tempo em que se tomem medidas duras para reduzir a desintermediação financeira -ou seja, a concessão de crédito por agências que não são bancos comerciais. É necessário também limitar os bônus dos agentes financeiros, porque são uma causa maior de especulação irresponsável.

No plano internacional, o fundamental é limitar o crédito dado aparentemente a empresas, mas que, na verdade, financia déficits em conta corrente. Em Bretton Woods não havia essa preocupação, e o Banco Mundial foi criado para viabilizar déficits em conta corrente ou "crescimento com poupança externa".

Recentemente, ficou afinal claro que os países não crescem com poupança externa, mas com um bom sistema de crédito interno e com suas próprias poupanças. Os déficits em conta corrente são apenas causa de substituição da poupança interna pela externa, e por crises do balanço de pagamentos. A agência internacional que substituir o FMI (Fundo Monetário Internacional) deverá ter como uma de suas atribuições principais alertar publicamente os países que ultrapassarem o limite, a ser convencionado internacionalmente, de déficit em conta corrente.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1136&portal=

domingo, 2 de novembro de 2008

Quanto pior, pior ainda


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Se o governo federal fracassar, a crise também vai atingir os governos estaduais e prefeituras, principalmente os municípios de mais dinamismo econômico e/ou adensamento urbano

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se equilibra, pela segunda vez desde que chegou ao Palácio do Planalto, numa corda bamba. A primeira foi durante a o caso do mensalão, no primeiro mandato, a mais grave crise política de seu governo; a segunda, agora, é a crise econômica que chegou ao Brasil como uma marolinha e foi subindo, subindo, como uma onda de maré que vai arrastando chinelos, toalhas, bolsas, barracas e cadeiras de praia. Na primeira, Lula se saiu muito bem como o “eu não sabia” e o hábil afastamento do governo de todos os envolvidos no escândalo. Na segunda, administra a situação com doses calculadas de baluartismo e otimismo. Ao mesmo tempo, mantém-se a distância segura dos responsáveis pela gestão da crise.


O mar

A marolinha arrasou o crédito, o investimento e o consumo. São pilares da expansão da economia. Além do ataque especulativo dos investidores estrangeiros à Bolsa de São Paulo, sinais de retração da economia vêm de todos os lados. Pequenos bancos e cooperativas de crédito de trabalhadores (a maioria controladas pelos sindicatos) estão na lona, alguns dos quais metidos em operações de risco. O governo socorreu as construtoras com ações na Bovespa, mas há 50 mil construtoras não-atendidas pelo crédito oficial ameaçadas. A Rússia começa a mandar de volta navios carregados de alimentos. A construção naval está perdendo encomendas. Montadoras deram férias coletivas aos funcionários. A Vale do Rio Doce fechou unidades no Brasil, França, Indonésia e China. Esse mar não está pra peixe.

Após a crise de 1929, graças à Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John M. Keynes, que veio à luz sete anos após a Grande Depressão, a intervenção regulatória do Estado na economia sempre foi capaz de mitigar os efeitos da recessão e da depressão. Até os anos 1970, a teoria keynesiana ajudou muitos países a encontrar o caminho do crescimento. Porém, a partir dos anos 1980, foi substituída pelas idéias “neoliberais” de Milton Friedman (1912-2006), Prêmio Nobel de Economia de 1976, e Friedrich A. Von Hayek (1899-1992), que preconizaram o afastamento completo do Estado das ações econômicas reguladoras. O sistema, segundo eles, seria mais eficiente se o mercado fosse livre e soberano. Durante 30 anos a tese funcionou, até que os americanos meteram o pé na jaca e a crise começou.

Para entendê-la, é preciso considerar que a acumulação capitalista aumenta as rendas do capital e da propriedade (lucros, juros e aluguéis) em ritmo sempre maior que o aumento das rendas do trabalho (salários), responsável pela demanda da grande parte do que é produzido. A solução para garantir a demanda e manter o crescimento da produção é o crédito. Graças a isso, o sistema financeiro se impôs cada vez mais ao processo produtivo e gerou uma ciranda de papéis pintados, que vão do dinheiro propriamente dito aos chamados subprimes das hipotecas americanas. Quando a casa caiu, os governos socorreram o sistema bancário para salvaguardar a moeda e restabelecer o crédito. Querem evitar outra grande depressão como a de 1929. Nesse aspecto, é impossível separar o que está ocorrendo lá fora do que acontece aqui no Brasil. O problema é que o crédito exagerado garante o consumo imediato, mas ao mesmo tempo inviabiliza o consumo futuro. A recessão se torna inevitável, apenas pode ser abrandada. Esse é o busílis da crise.

O barco

A expansão da economia brasileira teve dois pilares: um foi a exportação de commodities (minérios, placas de ferro, papel e celulose e produtos agrícolas, etc); outro, a expansão do crédito pessoal, que ampliou o mercado interno e proporcionou a expansão de nossa indústria. No segundo mandato, Lula resolveu apostar na ampliação dos investimentos públicos em infra-estrutura econômica e urbana para alavancar ainda mais o crescimento, além da ampliação dos gastos sociais e das despesas com o funcionalismo. Vem daí a crença de que o crescimento do mercado interno nos bastaria.

A envergadura da crise mundial, com a retração do comércio internacional e o colapso do crédito privado, colocou em xeque essa estratégia. Diante disso, a oposição aposta na débâcle do governo Lula, de olho nas eleições 2010. Será o caminho mais seguro? Não. Se o governo federal fracassar, a crise também atingirá governos estaduais e prefeituras, principalmente os estados e municípios de mais dinamismo econômico e/ou adensamento urbano. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os governadores tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), portanto, estão no mesmo barco. O que os separa é a posição de cada um na embarcação, o grau de responsabilidade perante os problemas e a postura diante da adversidade. Não é a existência da crise mundial e a evidência de que chegou por aqui. Fenômeno objetivo, a crise também pode levar a todos de roldão e favorecer o surgimento de um “salvador da pátria”. Já vimos esse filme.

O terceiro turno

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Iinstituto Vox Populi
DEU EM O ESTADO DE MINAS

Resta um PMDB que, no seu conjunto, ficou quase do mesmo tamanho da eleição passada

Nem bem havia terminado o segundo turno das eleições municipais, na noite do domingo passado, e começava um novo enfrentamento. Até aquele dia, a luta era em torno de fatos, quem teria mais votos, quem venceria e quem seria derrotado. De lá, para cá, trava-se outro combate, agora pelas versões.

Em política, os fatos podem ser, às vezes, menos importantes que as versões. Não são muitas as pessoas que têm a paciência de verificar se elas correspondem, mesmo, à realidade. Faz-se um julgamento rápido de um fato, ele se transforma em lugar-comum, todos o repetem e pronto: some o fato, fica a versão.

No jogo de interesses da política, isso não acontece por acaso. Versões são construídas conscientemente, para servirem a determinados propósitos. Elas não surgem do nada. Como se dizia antigamente, jaboti não sobe em árvore, alguém o coloca lá.

É nesse sentido que se pode dizer que estamos em pleno terceiro turno das eleições, agora para saber quem vai ganhar na guerra das interpretações sobre o que aconteceu este ano, no primeiro e no segundo turnos. Quem for competente nele pode até compensar algum percalço que tenha sofrido.

Exemplo maior disso é a tese da “grande vitória do PMDB”, que vem sendo propagada desde domingo. Ela está em toda parte, virou uma obviedade, e começa a gerar conseqüências políticas de grande importância. De um lado, nas especulações sobre 2010, com a imagem de que o partido teria se transformado na “noiva cobiçada” por todos. De outro, em uma questão concreta e premente, que diz respeito ao equilíbrio de forças no Congresso e à disputa pelas presidências da Câmara e do Senado. Como “grande vitorioso”, o PMDB quer mais do que tem (e que já é muito).

A tese se sustenta em dois fatos, que não justificam a versão. Primeiro, no aumento do número de cidades onde o PMDB elegeu prefeitos. Segundo, em seu desempenho nas capitais.

No conjunto dos municípios brasileiros, o PMDB de fato cresceu, passando de 1.059 prefeitos, em 2004, para 1.203 hoje. Dois comentários: por um lado, com esse crescimento, o PMDB continua menor do que era em 1996 e em 2000, pois, nestas eleições, havia elegido 1295 e 1250 prefeitos, respectivamente.

As 144 prefeituras a mais este ano, por outro lado, estão quase todas na Bahia, onde sim o PMDB teve uma “grande vitória”. De 20, em 2004, foram 114 agora, mais de 65% do crescimento do partido. Ou seja, não houve um fenômeno nacional, mas baiano, com a clara paternidade do ministro Geddel Viera Lima. Tirado o que é dele, resta um PMDB que, no seu conjunto, ficou quase do mesmo tamanho da eleição passada, quando sua tendência de queda histórica viveu mais um capítulo.

Nas cidades médias, o PMDB cresceu em relação ao que era em 2004, mas muito pouco comparado com o tamanho que adquiriu nos últimos três anos. Ou seja, atraindo prefeitos eleitos por outras siglas, ele cresceu mais que nas urnas.

Nas capitais, o PMDB também não teve uma “grande vitória”. Para quem queria conquistar prefeituras país afora, coube-lhe comemorar o acréscimo de apenas uma. No Rio, por mais relevante que seja a cidade, a magra vitória de Eduardo Paes, que teve que mobilizar mundos e fundos, colocando o governador Sérgio Cabral e Lula em seu palanque, para derrotar Gabeira por meio ponto, está longe de ser um resultado extraordinário.

Nas cinco outras capitais em que o PMDB venceu, tivemos a repetição de algo que aconteceu em todo o Brasil, a reeleição dos prefeitos que disputavam no exercício do cargo. Em Salvador, Goiânia, Campo Grande, Porto Alegre e Florianópolis, não foi o PMDB que saiu vitorioso, mas os prefeitos. Como aconteceu com os do PT, do PSDB, do PSB, do PTB, do DEM, do PP e do PCdoB.

Resta o argumento de que cresceu o eleitorado que reside em cidades a serem governadas pelo partido. Ele é certamente maior que no passado, mas daí não decorre nada, se estamos pensando em conseqüências nas eleições presidenciais. Ou alguém acha que a reeleição de João Henrique, em Salvador, afeta a aprovação de Lula na cidade e sua possível influência nas escolhas em 2010?

Se, com resultados reais como esses, o PMDB está tão motivado a ampliar seus espaços de poder em Brasília, imagine-se se tivesse vencido, por exemplo, a eleição em Belo Horizonte. Ia ser difícil conter o apetite de alguns de seus integrantes.

Ajuda planetária


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Assim como a crise financeira atingiu dimensões planetárias, também ganharam as mesmas dimensões os programas de socorro aos países com problemas. Um grupo de 300 banqueiros, reunidos no Instituto para Finanças Internacionais, pressionou para que fossem tomadas medidas combinadas entre o Fed e o FMI para dar liquidez ao mercado internacional de dólar, a fim de impedir que os problemas do sistema financeiro dos Estados Unidos e da Europa se espalhassem, prejudicando economias emergentes. Algumas economias mais frágeis, como as do Leste Europeu e a da Islândia, estão recebendo empréstimos em caráter de emergência do FMI, num novo programa que é considerado um dos maiores da história.

Já o programa de swap cambial do Fed foi concebido para países ameaçados de inadimplência corporativa à medida que os investidores estrangeiros vão embora. Esses países, entre eles Brasil, México e Coréia do Sul, dependem de capital estrangeiro para financiar o comércio e os investimentos.

O economista Claudio Loser, do Centro de Estudos Diálogo Interamericano, de Washington, foi quem melhor resumiu a situação: tanto no Brasil quanto no México, o câmbio se desvalorizou cerca de 40%, um choque muito forte que indica uma debilidade maior do que a prevista, devido à forte vinculação com o mercado de capitais.

Mas foi essa "vinculação forte" com os mercados internacionais que permitiu que nos últimos cinco anos tenha havido, na definição de Ken Rogoff, professor de Harvard, "o mais forte ciclo de expansão da economia mundial, do comércio internacional e da liquidez global da história moderna".

Um exemplo simples de como esse "cassino", como o Presidente Lula qualifica o mercado financeiro, ajudou o fortalecimento da economia brasileira. Entre 72 setores da economia, as instituições financeiras foram responsáveis por nada menos que 28% do aumento de arrecadação este ano. Se a elas somarmos o setor de seguros, outra atividade do setor, chega a 1/3 a contribuição do setor no aumento da arrecadação.

O governo Lula movia o "cassino" ao combinar câmbio valorizado e os maiores juros do mundo, mas cobrava um pedágio, arrecadando Imposto de Renda de Pessoa Jurídica, IOF e contribuições.

Enquanto todos esperavam que a "marolinha" viria do lado bancário, está cada vez mais claro que, no Brasil, ao contrário do resto do mundo, o que está sofrendo mais é o setor real, com o que a equipe econômica não contava.

No Congresso em Brasília não se fala outra coisa, pois a elite parlamentar é composta em grande parte por empresários. Pelas notícias que chegam a cada dia, os problemas vão do etanol, passando por criação e abate de aves e suínos, até o complexo automobilístico e também o eletrônico: a completa ausência de crédito está provocando paralisia quase absoluta de atividades.

Um exemplo básico das dificuldades peculiares ao Brasil: pintos estão morrendo porque não entregaram rações nas granjas, caso de que não se ouviu falar na Europa ou nos Estados Unidos, e nem mesmo em países vizinhos com maiores dificuldades, com a Argentina.

Uma leitura atenta do noticiário, principalmente nos jornais americanos e ingleses, mostra uma faceta da crise que tem sido mascarada pelas declarações de autoridades brasileiras. O programa de troca de moedas, mais do que um prêmio à boa gestão macroeconômica desses países, como destacou o presidente do Banco Central Henrique Meirelles, ressalta a fragilidade das duas grandes economias da América Latina, segundo analistas.

Um desses, Steve Hanke, especialista em mercados emergentes do Cato Institute de Washington e professor da Universidade Johns Hopkins, diz que a decisão do Fed mostra que as moedas "são o calcanhar de Aquiles destes países" e "nunca serão sustentáveis a longo prazo".

O grande investidor George Soros, em artigo no Financial Times, sugeriu que os bancos centrais dos países do centro deveriam criar grandes linhas para swaps com os bancos centrais dos países periféricos qualificados, assim como os países dotados de fortes reservas cambiais, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, China e Japão, deveriam estabelecer um fundo suplementar de desembolso mais flexível.

Essa "receita" está sendo seguida pelo FMI, que em seus programas atuais está utilizando métodos mais flexíveis e praticamente automáticos, sem tanta dependência das famosas "condicionalidades" que engessavam as economias que recebiam a ajuda do Fundo, criando problemas políticos para os clientes-governos.

George Soros também defendeu no mesmo artigo mais crédito de curto e de longo prazo para permitir que os países com posições fiscais sólidas pratiquem políticas de investimento público anticíclico, na mesma direção que está seguindo o governo brasileiro, que já anunciou que reduzirá o superávit primário para financiar obras do PAC. Para Soros, "apenas o estímulo à demanda interna permitirá eliminar o espectro de uma depressão mundial".

Ele prevê que poderá fracassar a Cúpula sobre Mercados Financeiros e Economia Mundial, reunião convocada pelo presidente dos Estados Unidos, George Bush, para o próximo dia 15, com os membros do G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) e mais nações emergentes como Arábia Saudita, África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México, Rússia e Turquia, se os Estados Unidos não derem o exemplo na proteção aos países periféricos contra uma tempestade que se originou em sua economia.

Por enquanto, no entanto, os Estados Unidos estão cuidando apenas dos interesses de suas corporações espalhadas pelo mundo.

Contagem regressiva


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


“O poder real é decrescente, o que une é a perspectiva de poder”, constata o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, invocando lição aprendida com o tio-avô Tancredo Neves para definir o que, na opinião dele, de fato está em jogo agora no embate entre as forças políticas de governo e oposição.

Por esse raciocínio, o governo Luiz Inácio da Silva entrou em ritmo de contagem regressiva e os partidos já trabalham sob a ótica do que vem pela frente.

Para isso é fundamental que dêem boa impressão, se mostrem vitoriosos, posem de poderosos, escondam dificuldades, passem bem longe de autocríticas (em público, pelo menos), esqueçam episódios nefastos, exibam-se em suas versões mais otimistas.

O governo trabalha para impedir a dispersão da tropa, a oposição se empenha para atrair a maior quantidade possível desses soldados e as legendas que gravitam nas áreas de influência dos dois campos buscam as melhores posições para identificar parcerias vantajosas.

“Os aliados do presidente Lula se abrigam sob o guarda-chuva dele e não do PT”, aponta o governador de Minas, que, com isso, quer dizer o seguinte: sem Lula como candidato, arrefecido o ânimo com a eficácia da transferência automática de votos, o campo está fértil para a revisão de parcerias na coalizão partidária que sustenta o governo.

O companheiro mais cobiçado é, claro, o PMDB. Aécio Neves acha que o PSDB reúne todas as condições para conquistar, senão o partido todo e de imediato, pelo menos boa parte dele de forma gradativa: quanto mais competitivos para 2010 os tucanos se mostrarem, mais próximos os pemedebistas tendem a ficar.

Aécio acha, por exemplo, que o PSDB não deve pensar em chapa puro-sangue para 2010. “Parece pretensioso.” Aos tucanos que defendem Serra para presidente e Aécio para vice, parece mesmo é que o mineiro não quer entregar os pontos da pré-candidatura para presidente.

Seja qual for a intenção subjacente, fato é que Aécio defende abertamente a entrega da vaga ao PMDB. “Se o candidato mais viável for o Serra, será o escolhido com o meu apoio. Mas acho que, se queremos somar, não podemos ter uma chapa pronta, temos de abrir e a primazia no caso seria do PMDB.”

Como se vê, o processo ganhou consistência e velocidade.

Só que do outro lado não tem ninguém dormindo no ponto. O governador de Minas não é detentor exclusivo dos ensinamentos sobre os atrativos do poder. O Palácio do Planalto tem ciência de todos eles e já os pôs em prática antes mesmo do fim do segundo turno das eleições municipais.

Computados os resultados da primeira etapa, desenhado o fortalecimento do governador José Serra na vitória do prefeito Gilberto Kassab em São Paulo, revista a tese sobre a influência da popularidade de Lula nas escolhas do eleitor, os governistas fizeram o primeiro movimento.

Produziram declarações em série de apoio a Dilma Rousseff como candidata oficial à Presidência da República, a fim de não deixar Serra capitalizar sozinho o foco da perspectiva de poder.

Conhecidos os eleitos na segunda etapa, o Planalto orientou o segundo movimento: um recuo tático na briga com o PMDB pelas presidências do Congresso, saudações gerais às vitórias do partido, redução dos danos decorrentes das disputais locais entre os dois parceiros e afirmação enfática sobre a importância do papel do partido no governo.

Na verdade, importante mesmo é evitar que o PMDB comece a cumprir algum papel na oposição. Não pela capacidade do partido de mobilizar o eleitorado, porque o jogo agora não inclui a platéia. Mas muito mais pelo senso de oportunidade do partido, cujos passos podem servir como indicador para mudanças ou permanências de expectativas dentro e fora dos limites do terreno político-partidário.

Em português claro, trata-se de evitar, de um lado, e de tentar provocar, de outro, o conhecido efeito manada.

Controle remoto

Nada há de extraordinário no charivari que se desenha no horizonte por causa da eleição para as presidências da Câmara e do Senado. Trocas de comando tranqüilas são raras no Congresso.

No governo Lula mesmo só houve uma, a primeira. Ainda assim, os ungidos da época - José Sarney no Senado e João Paulo Cunha na Câmara - desorganizaram por um ano o ambiente tentando (inutilmente) mudar a Constituição para se candidatarem à reeleição nos respectivos postos.

Quando se tornaram definitivamente companheiros de governo, em 2006, PT e PMDB tentaram controlar a situação com um acerto de alternância válido para os quatro anos seguintes: nos dois primeiros os petistas comandariam a Câmara, os pemedebistas o Senado; nos dois últimos, trocariam entre si os comandos das Casas.

O problema dos acordos políticos firmados com excesso de antecedência é que no meio tempo entram em cena as novas circunstâncias para atrapalhar. Se de perto já é difícil manejar os fatos, quem dirá de longe.

Quanto mais alto, maior o tombo


Eliane Cantanhêde
DEU ENA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Bush já vai tarde, certo? Depende. Para os americanos e para todo mundo, com certeza.

Mas, para o Brasil, ele teve lá suas vantagens. Não deu a mínima para a América Latina e jogou o abacaxi, fatiado em Chávez, Evo Morales e Rafael Corrêa, para Lula -que, sem a mão pesada de Washington, pode brincar à vontade de "líder".

Pragmaticamente, portanto, tanto faria um democrata ou um republicano na Casa Branca a partir de 20 de janeiro de 2009. Mas as relações políticas e diplomáticas, como os seres humanos, não são assim tão pragmáticas, e a "onda" Barack Obama chegou ao Brasil com a força de tsunami que tem no mundo.

Muito por rejeição a Bush, mas também porque Obama é Obama.

O próprio Lula, contrariando a prudência diplomática, não apenas abriu publicamente o seu voto como o fez num cenário para lá de simbólico: Cuba. Foi da ilha que ele declamou toda a sua simpatia pelo democrata, enaltecendo o "ganho extraordinário" de ter um negro na maior potência do planeta.

Lula reproduziu a avaliação que varre Planalto e Itamaraty: o fenômeno Obama equivale a Chávez na Venezuela, ao índio Evo Morales na Bolívia, ao bispo Fernando Lugo no Paraguai e ao próprio metalúrgico Lula no Brasil. A sociedade está exausta das elites e das fórmulas da desigualdade. Parte para outra.

Obama seria o Lula dos EUA, o que, de certa forma, significa ser uma aposta. Apostas se ganham e se perdem. E o país que espera Obama está sacudido pela crise. São 17 bancos quebrando, a recessão chegando e se disseminando pelo mundo.

Ele tem carisma, discurso, voto e boa vontade internacional, mas não tem algo fundamental: receita mágica para debelar a crise. Até porque ninguém tem.

As pesquisas não permitem certezas na eleição desta terça, mas a tendência é a vitória de Obama. E o seu grande trunfo é justamente o seu maior risco: a expectativa.Quanto mais alta, maior o tombo.

O pato, a manada e as reservas


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Dois econometristas saem para caçar patos. O primeiro atira e erra por meio metro à direita. O segundo dispara, erra por meio metro à esquerda e grita, eufórico: "Acertamos".

Seria engraçado, não fosse o fato de que os jornalistas passamos anos acreditando que, de fato, os dois haviam acertado. Reproduzimos passivamente previsões atrás de previsões sobre tudo (juros, câmbio, crescimento, inflação etc.), mesmo quando os "previsores" erram ano após ano.

Desprezamos um ensinamento básico, o de que a atividade econômica é, no fim das contas, o produto de decisões e atitudes de milhões (ou bilhões) de seres humanos, o que, por definição, torna prevê-las tarefa para oráculos -não para economistas, mesmo para os que se acham oráculos.

Comportamo-nos como manada ao repetir dia após dia, para citar só um exemplo, que os US$ 200 bilhões de reservas blindavam a economia. Só agora entra na agenda a dúvida, exposta aliás separada, mas coincidentemente por dois acadêmicos de extremos ideológicos opostos.

Escreve Cesar Benjamin, que foi candidato a vice-presidente pelo PSOL: "A maior parte dessas reservas foi formada com capital externo de curto prazo, atraído ao Brasil pelos juros altos e aqui distribuídos em ativos dotados de elevada liquidez. As reservas brasileiras são a contrapartida de um passivo líquido que, ao se mover, pode reduzi-las a pó".Ecoa Roberto Luis Troster, ex-economista-chefe da Febraban, no mais recente boletim Fipe:

"Preocupa o anúncio de que "US$ 200 bilhões de reservas blindam a economia" sem ressalvar que o volume de capital externo de curto prazo é quase o triplo desse valor".

Pode ser que ambos errem. Mas já engolimos tantos "acertamos" errados que não custa pelo menos parar para pensar.

Recessão e deflação global


Yoshiaki Nakano
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Recessão global combinada com deflação fará estragos profundos no setor real da economia, como nos anos 30

SUPERADO o pânico do mercado financeiro internacional no início de outubro, o medo passa a ser a recessão global, que já dá seus sinais. O problema da inflação já foi retirado da agenda dos bancos centrais, pois ela deverá sofrer queda rápida nos EUA e na Europa e é provável uma deflação no próximo um ano e meio. Uma recessão global combinada com deflação provocará estragos profundos no setor real da economia, como ocorreu na década de 30. O Fed reduziu mais uma vez a taxa de juros e se os demais BCs, de forma coordenada, não reduzirem mais aceleradamente a taxa de juros para evitar uma deflação global, a recessão, além de profunda, poderá ser mais prolongada.

As projeções de crescimento global para este último trimestre do ano e para o primeiro de 2009 já foram revistas por todos e se tornaram negativas. O JPMorgan estima para este trimestre queda do PIB à taxa anualizada de 4% nos EUA, de 3% na Inglaterra e de 2% na área do euro e crescimento da economia global de 0,4% em 2009. Esses números poderão ser revistos para baixo, pois a economia da China poderá desacelerar mais fortemente em 2009, para um crescimento de 6% a 7%.

Nos países emergentes, num primeiro momento, a depreciação da taxa de câmbio vai elevar os preços dos bens comercializáveis, ainda que em menor grau do que nas experiências recentes, e no Brasil a indexação fará persistir a inflação de preços administrados. Mas tudo isso ocorrerá num quadro recessivo, tornando desnecessária a elevação da taxa de juros. Nos demais setores, vamos certamente assistir a uma deflação já no próximo ano.

A perspectiva que a crise financeira abriu para o Brasil é de pressão para a redução da taxa de juros. A taxa de câmbio já sofreu mudança de patamar devido à restrição externa de crédito e à inversão no movimento financeiro de capitais, que deverá persistir por longo período. Ainda, dificilmente cairá da faixa de R$ 2 ou R$ 2,10 e, certamente, não responderá à variação na taxa de juros, enquanto a crise financeira não for resolvida, o que levará de dois a quatro anos. Dessa forma, se a política de meta de inflação do BC tem que atuar hoje sobre a inflação futura, temos é que atuar com a perspectiva de deflação -e não de inflação.

O BC tem a oportunidade de uma redução da taxa de juros mantendo a sua credibilidade e aumentando a confiança, que é o que falta hoje. Uma redução nos custos de captação dos bancos, no momento em que há preocupação com seu prejuízo, é o melhor que se pode fazer para evitar uma crise de confiança. Além disso, o problema mais grave e prioritário no Brasil é a contração no crédito que, se não for restabelecido, poderá provocar uma recessão na economia brasileira. As medidas tomadas pelo BC, de redução no depósito compulsório dos bancos, não estão surtindo os efeitos desejados.

Se o BC paga no over ou em títulos públicos 13,75% sem risco, por que emprestar correndo risco desconhecido, dada a situação de incerteza que vivemos? Num quadro de crise financeira, com travamento do sistema de crédito e perspectiva de deflação, nada melhor do que a redução adicional dos compulsórios e a redução da taxa de juros.


YOSHIAKI NAKANO, 62, diretor da Escola de Economia de São Paulo, da FGV (Fundação Getulio Vargas), foi secretário da Fazenda do Estado de São Paulo no governo Mario Covas (1995-2001).

Eleições e crise


Fernando Henrique Cardoso
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Apurados os votos, algumas análises se confirmaram. Primeiro, a despeito das imperfeições e críticas, nosso sistema político é, de fato, competitivo. Segundo, a competição se dá menos entre partidos do que entre lideranças. Estas não deixam de estar ligadas a partidos, claro, mas, quando aprovadas nas urnas, não consagram automaticamente os seus partidos. Terceiro, por mais que partidos e máquinas governamentais tenham capacidade de arrebanhar votos e por mais que as lideranças possam influir, não decidem os resultados eleitorais, pelo menos nas grandes cidades.

É na campanha que a opinião pública se forma. Têm peso a influência das lideranças, a propaganda, as máquinas partidárias e governamentais, mas é o desempenho do candidato, com seus gestos, discursos e atos, que, finalmente, decide o voto. Ninguém elege um poste. Nada a estranhar nesse processo: é assim que o eleitorado decide nas democracias de massas, com partidos relativamente débeis e personalidades cujo simbolismo ou cujas características podem ou não se ajustar às expectativas momentâneas dos eleitores.

Não se pode dizer que o PT tenha saído eleitoralmente derrotado, pelo bom desempenho que teve nas grandes cidades. Mas saiu, sim, politicamente enfraquecido, pela derrota nas principais capitais, mesmo naquelas em que o presidente Lula se jogou pessoalmente na campanha.

Esse resultado pode ser interpretado de vários modos, todos plausíveis, nenhum conclusivo. Talvez por trás da rejeição ao lulo-petismo nas capitais comece a haver uma sensação ainda não muito nítida, mas presente, de que nem tudo vai tão bem no País, como proclama o presidente, seja devido aos primórdios da crise econômica, seja pela corrupção impune ou, até mesmo, pela “fadiga de material”, depois de tantos anos. Nada disso, entretanto, autoriza a prever os resultados a serem alcançados em 2010, mesmo porque não há conexão direta entre eleições municipais e nacionais. De qualquer modo, as oposições podem sair mais esperançosas, pois o fantasma da avalancha petista ou do eleitor de postes se desvaneceu.

É certo que a instalação da crise econômica no mundo, sem dúvida a maior desde 1930, já está afetando a economia e o sentimento do povo e afetará mais ainda. As oposições não devem, porém, apostar no “quanto pior, melhor”. Que ninguém se iluda: quanto pior, pior. Seria uma vitória oposicionista de curto fôlego, se, ao alcançar o poder, o novo presidente e seu grupo tivessem de continuar apagando incêndios em meio aos escombros deixados na economia real e nas contas públicas pela crise financeira. Não acho que devamos minimizar o que está ocorrendo nem jogar com a crise para construir o futuro eleitoral. O governo já abusou da opinião pública menosprezando a gravidade da situação. No início, mesmo nos Estados Unidos e na Europa, desconheciam-se a extensão e a profundidade da crise, até que se percebeu que ela se havia espalhado por todo o sistema financeiro. A crise de liquidez converteu-se em crise de confiança e tanto bancos centrais como tesouros nacionais foram obrigados a se coordenar e intervir para garantir não apenas a liquidez, mas a solvência do sistema. O custo que o socorro generalizado imporá ao bolso dos contribuintes está por ser avaliado. Certamente eles pagarão a conta dos desatinos cometidos nos países ricos na espiral de endividamento e consumo sem lastro, turbinada por derivativos financeiros.

Entre nós, os efeitos imediatos dessa situação foram a retração de crédito, inicialmente para as exportações, com o corte das linhas de financiamento em dólares, e a desvalorização e a volatilidade acentuadas da taxa de câmbio (o real é uma das moedas mais debilitadas pela crise, apesar das reservas de US$ 200 bilhões). Parte do problema com a taxa de câmbio se deve às posições especulativas anteriormente assumidas por empresas exportadoras que tomaram recursos em dólar, apostando que a moeda americana não sofreria maior desvalorização, e aplicaram esses recursos em reais, para aproveitar dos elevados juros domésticos. Tudo isso nas barbas do Banco Central... Com a mudança no comportamento do câmbio, houve muita procura por dólar para pagamento dos empréstimos contraídos, o que reforçou a desvalorização do real.

Dizer que essa crise não afetará a nossa economia é brincar com o fogo. Haverá, sim, retração, pela diminuição do crédito e pelo encolhimento do mercado internacional e, em menor proporção, do mercado interno. Logo, o crescimento será significativamente menor em 2009 e, provavelmente, em 2010. O governo poderá minimizar a desaceleração se, depois da letargia inicial, agir com presteza e concentrar os gastos naquilo que é essencial: a infra-estrutura e as políticas sociais.

Diante da gravidade do quadro, as oposições e o governo precisam agir responsavelmente. É dever daquelas exigir transparência nas medidas adotadas pelo governo para evitar favorecimentos indevidos a grupos e setores econômicos à custa dos impostos pagos pelo povo. Por outro lado, não deve faltar apoio ao que for necessário e urgente. Todavia, se as oposições quiserem ganhar as eleições presidenciais, terão de ampliar os horizontes de esperança, unindo-se, o quanto antes, em torno de uma chapa que, pela competência, pela seriedade de atitudes e pela trajetória política, desperte a confiança de que o País pode e deve avançar ainda mais rápido e melhor do que tem avançado nos últimos 15 anos.


Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, foi presidente da República

Mesmice e mudança


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)


“Change” – não se trata de slogan publicitário, invenção de marqueteiro, mote novo para velhas camisetas, modismo. O mundo quer mudar, precisa mudar, se permanecer como está, arrebenta.

E, desta vez, diferentemente dos grandes traumas históricos como a Revolução Francesa (1789) e a Primeira Guerra (1914-1918), o clamor pelas transformações é desarmado, pacífico. Civil e civilizado. Em vez de revoluções, contra-revoluções, quarteladas e guerras sangrentas (que trouxeram mais injustiças do que reparações) a arma da mudança está sendo exibida sem medo: o voto. Voto enérgico, convicto, individualizado, livre de fanatismo e truculência.

A sonhada era da mudança só se efetivará se conduzida através da democracia representativa. No grito ou no conchavo, através de golpes ou trambiques ficará tudo na mesma. Genuínas mutações serão possíveis desde que processadas dentro de sistemas onde possam ser livremente implementadas e questionadas.

Qualquer que seja o desfecho da eletrizante disputa eleitoral americana na próxima terça-feira – mundo civilizado está torcendo para a vitória de Barack Obama – evidencia-se que os EUA jamais serão os mesmos. Sarah Palin, a barbie convocada para ser vice do republicano John McCain, é uma caricatura feminina de George W. Bush que por sua vez é uma grosseira caricatura de Ronald Reagan. Uma superpotência não pode resignar-se à condição de álbum de charges.

Barack Obama não é apenas o primeiro candidato negro ou afro-americano com chances de ocupar a Casa Branca. Ele é o único líder político americano que teve a audácia de aposentar os ressentimentos e se assumir como pós-racial. Mais do que isso: pós-religioso, pós-ideológico e pós-nacionalista. Obama encarna a mudança – na biografia, na pessoa, no gesto, nas idéias. Será testado no colégio eleitoral americano, mas tem consciência de que a sua tutora é a opinião pública mundial.

A campanha eleitoral brasileira, embora em outro âmbito, prometia mudança e substância. Ficou na promessa. A surpreendente coligação belo-horizontina PT-PSDB não passou de jogada entre coronéis da nova geração, puro oportunismo, nenhuma fresta inovadora, nenhum contrapeso conceitual.

A grande surpresa – legítimo fenômeno político – foi o desempenho de Fernando Gabeira. Sua derrota por apenas 55 mil votos num eleitorado de cerca de três milhões e meio de votantes não é uma "vitória moral", é uma conquista concreta, inalienável.

Sozinho, com poucos recursos e quase sem suporte partidário, Gabeira enfrentou as máfias ligadas ao crime organizado, neutralizou o poderoso lóbi evangélico, atropelou a tropa de choque do MR-8 a serviço do PC do B e bateu a máquina dos governos municipal e estadual. Foi abatido pela singular abstenção (quase 972 mil ausentes, cerca de 21%), produzida pela antecipação do Dia do Servidor Público para a segunda-feira.

Sua bandeira: mudança. Seu mostruário: ele próprio. Uma postulação política superior, também pós-ideológica, uma coleção de propostas límpidas despojadas do abominável jargão tecnocrático, a honestidade de apresentar-se como gente, a maneira inteligente de tornar ostensiva a estultice dos rivais, foram recompensadas por este formidável retorno eleitoral.

Gerenciado da mesma forma transparente e determinada, este ativo político poderá transformá-lo no agente da grande virada que o Rio aguarda há quase meio século, desde que a capital foi despachada para o Planalto Central.

Embora não seja carioca da gema (nasceu em Juiz de Fora), Gabeira representa a quintessência da sofisticação do Rio. Sem ela, a Cidade Maravilhosa continuará como terra-de-ninguém ou, na melhor das hipóteses, linda trincheira na guerra entre milícias, gangues e polícia.

Uma mudança real em Washington mudará o mundo. A continuada pressão por mudanças no Rio poderá injetar esperanças num cenário desbotado, onde impera a mesmice e o dèjá-vu, interminável festival de reprises.

» Alberto Dines é jornalista

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1135&portal=

sábado, 1 de novembro de 2008

PPS começa a discutir aliança com PSDB para eleição de 2010

Foto: Tuca Pinheiro

Valéria de Oliveira
DEU NO PORTAL DO PPS


Segundo Freire, “a tradição do PPS é a de apontar caminhos e não de esperar para seguir os caminhos definidos por outros”. Aos membros do Diretório Nacional, ele foi enfático ao dizer que “é preciso escolher por onde vamos e não ficar com aquilo que nos restar”. O ex-senador acha que o partido deve trabalhar pela aliança dos dois candidatos tucanos.

O PPS começa, a partir da reunião do Diretório Nacional desta semana, a debater aliança com o PSDB para 2010 em torno das candidaturas dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. “O momento nos impõe a necessidade de apresentar um projeto para o Brasil, nos preocupar em fazer política e não ficar olhando para o próprio umbigo”, disse o presidente Roberto Freire, ao explicar que a discussão sobre sucessão presidencial estava prevista para logo após as eleições deste ano.

Segundo Freire, “a tradição do PPS é a de apontar caminhos e não de esperar para seguir os caminhos definidos por outros”. Aos membros do Diretório Nacional, ele foi enfático ao dizer que “é preciso escolher por onde vamos e não ficar com aquilo que nos restar”. O ex-senador acha que o partido deve trabalhar pela aliança dos dois candidatos tucanos. "Queremos construir uma alternativa para o que está aí (governo do PT). Não tem nada a ver com adesão, até porque ainda não há candidato", diz Freire, ressaltando que o compromisso do partido é com a construção de um novo projeto para o país.

“Não podemos é perder essa oportunidade de exercer nosso papel na sucessão presidencial; precisamos começar a construir o nosso pólo de forças políticas”. Freire confessou que está preocupado com a possibilidade de que a reforma política seja usada contra os pequenos partidos, dando ênfase apenas às janelas para que os políticos troquem de partido. Atualmente, os partidos é que são donos dos mandatos.

Para Gilvan, partido deve investir na política de alianças para crescer

Foto Tuca - Gilvan e Graziela(reunião do DN)

Luiz Zanini
DEU NO PORTAL DO PPS


O dirigente do PPS, Gilvan Cavalcanti, defendeu, nesta sexta-feira, na reunião do Diretório Nacional, que o partido precisa de deixar de lado a política de metas paras eleições e voltar a adotar a política de alianças.

Segundo ele, as metas impostas pela direção partidária acabam não sendo condizentes na maioria das vezes com a realidade de estados e municípios, o que dificulta o alcance dos objetivos estabelecidos. “Diante do resultado que o partido obteve nas eleições municipais deste ano, acredito que a melhor alternativa é restabelecer e centrar fogo na política de alianças”, propôs.

Depois de fazer um breve balanço do desempenho do PPS no Rio de Janeiro e considerar que o partido saiu vitorioso do processo eleitoral, Gilvan disse que o desafio da legenda “será o de pensar política com o fato novo que é a crise financeira mundial”.

No Rio, o PPS elegeu, por exemplo, dois vereadores (Stepan Nercessiam e Paulo Pinheiro) na capital.

FHC quer nome de consenso para 2010


Mônica Ciarelli
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Apesar de Serra e Aécio aceitarem prévias, ex-presidente pede acordo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu ontem um nome de consenso no PSDB para as eleições de 2010. Na véspera, dois potenciais candidatos tucanos, José Serra e Aécio Neves, concordaram com a realização de uma prévia interna para escolha do candidato ao Palácio do Planalto. Tradicionalmente, o nome do concorrente tucano às eleições é decidido em conversas de cúpula.

“Acho que pode haver um nome de consenso no partido. Tenho esperança de que haja uma convergência entre Aécio e Serra. Eles são os potenciais (candidatos) e acho difícil que apareça um terceiro”, disse Fernando Henrique, após participar de um prêmio concedido pela mineradora Vale em homenagem a sua mulher, Ruth Cardoso, que morreu em junho. “Vou trabalhar para que haja um nome de convergência, que para mim pode ser qualquer um dos dois.”

Fernando Henrique descartou a hipótese de ruptura de Aécio com o PSDB caso o partido opte por Serra, que já foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2006. “Não existe essa possibilidade. Isso é absolutamente fora de cogitação”, afirmou.

PMDB

Bem-humorado, o ex-presidente aproveitou o evento para ironizar a recente declaração do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, de que o PT e o PMDB estarão unidos nas eleições de 2010. “Isso tudo é muito variável e daqui a dois anos acho que o Cabral vai estar conosco”, disse.

Sem menosprezar a importância de uma aliança com o PMDB, Fernando Henrique fez questão de ressaltar que fundamental mesmo para os tucanos é defender uma candidatura que o “povo queira”. “O importante para o PSDB e os demais partidos é encontrar bons candidatos. Essas últimas eleições mostraram que nosso eleitor é muito independente. Ele não segue ordem de ninguém nem tem muito amor a nenhum partido político especificamente. Ele quer saber quem na naquele momento assegura um futuro melhor.”

O ex-presidente aproveitou ainda para descartar a possibilidade de voltar a concorrer ao Palácio do Planalto. “Já disse antes que cada um tem de saber o seu momento na história. Meu papel é agora outro”, afirmou.

Um palpite sobre a crise econômica

Fuad Gabriel Yazbeck
Novembro 2008
Fonte: Especial para Gramsci e o Brasil.

Em época de guerra mentira é como terra, e em tempo de crise econômica palpite é dinamite: explode rapidamente e vira fumaça. Mas palpite em ciência é privilégio que se concede apenas aos economistas, eternos profetas do passado.

Diante da grande crise econômica global que ora se anuncia, representada pela falência do sistema financeiro mundial, muito se tem falado e muito ainda se vai falar. Tudo, no entanto, leva a crer que teremos que esperar alguns anos antes do surgimento da teoria que vai explicá-la, tal como a Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de John M. Keynes, que só veio à luz em 1936, sete anos após a Grande Depressão de 1929 que lhe deu causa.

A teoria de Keynes, defendendo a intervenção regulatória do Estado na economia, através de medidas de política monetária e fiscal capazes de mitigar os efeitos perversos dos ciclos econômicos — recessão e depressão —, refutava a chamada Lei de Say (Jean Baptiste Say, 1767-1832), que afirmava ser a oferta a geradora de sua própria demanda, isto é, que a produção de bens, por si só, era capaz de incentivar a demanda por todos os outros bens.

Karl Marx (1818-1883) anteriormente também já havia contrariado as idéias de Say, revolucionando o pensamento econômico com sua obra máxima, O capital, ao afirmar que o modo de produção capitalista continha, na sua própria essência, o germe das crises que haveriam de destruí-lo, na medida em que ao produzir bens, acumulando nas mãos dos capitalistas as rendas resultantes dessa produção, retirava da demanda a renda que seria necessária para a aquisição do que foi produzido.

O capitalismo depois de Marx enfrentou muitas crises, sendo a maior delas a de 1929, explicada por Keynes, que propôs como solução a intervenção do Estado para gerar a demanda que garantiria o pleno emprego dos fatores de produção (e sua respectiva geração de renda), compensando assim a escassez de demanda resultante do “entesouramento” das poupanças acumuladas em mãos dos capitalistas.

A teoria keynesiana resolveu muitos dos problemas econômicos dos países desde seu advento, sobretudo nos próprios Estados Unidos, onde a crise se originou, tal como agora. Até o final dos anos 70 do século passado ela norteou a ação da maior parte dos países no mundo, sobretudo nos então ditos subdesenvolvidos, levando estes a alcançar índices de crescimento inalcançáveis sob a égide exclusiva do liberalismo.

Ronald Reagan, no EUA, e Margareth Thatcher, na Inglaterra, no entanto, a partir dos anos de 1980 se encarregaram de impor ao mundo a substituição das doutrinas de Keynes pelas chamadas idéias “neoliberais”, propagadas por Milton Friedman (1912-2006), prêmio Nobel de Economia de 1976, e Friedrich A. Von Hayek (1899-1992), ambos defensores ferrenhos do afastamento completo do Estado das ações econômicas reguladoras, eis que os sistemas econômicos são tanto mais eficientes quanto mais livres. Ou seja, o mercado é soberano e capaz de resolver todo e qualquer problema que venha a ser criado por ele ou fora dele.

De lá para cá o mundo de fato experimentou uma crescente onda de crescimento, pontuada aqui e acolá por crises ocasionais e localizadas, que pouco comprometiam o progresso do capitalismo sob as leis do livre-mercado de Friedman e Von Kayek, embora já prenunciassem que ele continuava sujeito a crises.

Ocorre, no entanto, que o processo de acumulação no sistema capitalista, ainda que já não mais tão concentrado quanto previsto por Marx, nunca deixou de imperar, pois é próprio da sua lógica acumular riquezas aumentando as rendas do capital e da propriedade (lucros, juros e aluguéis) em ritmo sempre maior que o aumento das rendas do trabalho (salários), e estas comporem a grande massa responsável pela demanda da grande parte do que é produzido. A solução, pela criatividade capitalista, era pois incrementar a demanda por uma forma que mantivesse os níveis de crescimento da produção sem o risco de superprodução e sem comprometimento da acumulação: o crédito.

O sistema financeiro foi assim se sobrepondo lentamente ao sistema produtivo, e esta sobreposição levou à geração de um complexo sistema de papéis de crédito que foram alicerçando outros papéis, que por sua vez geravam mais papéis, e todos eles suportados pela certeza de que as dívidas criadas pelos primeiros seriam honradas, dando suporte a todos os demais. Quando uma pequena fagulha queimou alguns importantes primeiros papéis (os chamados subprimes das hipotecas americanas), destruindo-os, todo o sistema papeleiro começou a ruir, pois o castelo de cartas do crédito exacerbado, tal como o de cartas de baralho, só se mantém de pé enquanto todas estão firmes.

Daí a necessidade de os governos agora intervirem no sistema bancário para salvaguardar a saúde do nutriente da economia, que é a moeda, e mesmo assim ainda considerarem a hipótese de recessão, pois a recuperação dos níveis de produção só será possível e sustentável quando a repartição das rendas entre os fatores se der, em todo o mundo, sem a exagerada necessidade do crédito, que antecipa o consumo mas projeta para o futuro a redução da renda que deveria ser aplicada em novo consumo.

Mas isto também é um palpite.


Fuad Gabriel Yazbeck é economista e professor aposentado da UFJF.


Justiça (não) se faça


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A Câmara dos Deputados está evitando cumprir sentença judicial sobre fidelidade partidária, com um objetivo claro: postergar ao máximo a criação de um precedente de perda de mandato federal por troca de partido, até que o Parlamento crie uma saída para legalizar as mudanças durante um período determinado.

Para isso, se escora no falso argumento de que é preciso aguardar uma manifestação do Supremo Tribunal Federal para só então fazer valer a regra em vigor há mais de um ano.

Apoiada nessa alegação, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou nesta semana um parecer favorável à preservação do mandato do deputado Walter Brito, que mudou do DEM para o PRB no ano passado e, há sete meses, perdeu a condição de ser deputado conforme determinação do Tribunal Superior Eleitoral.

A CCJ, com o aval do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, usa de um sofisma simplesmente porque o Supremo já se manifestou a respeito. No dia 4 de outubro do ano passado, por oito votos a três, confirmou a decisão tomada em 27 de março do mesmo ano pelo TSE que dá a posse dos mandatos aos partidos e não aos candidatos eleitos.

Na essência, não há coisa alguma em aberto nessa questão. A Câmara sustenta sua posição no fato de existir uma representação do procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, pedindo que o STF se manifeste a respeito.

Pois bem: quando o tribunal vier a fazê-lo, a menos que o faça daqui a muitos anos quando a composição do plenário será outra, obviamente repetirá a decisão de 4 de outubro de 2007: quem mudou de partido sem motivação bem fundamentada deve devolver a vaga à legenda pela qual foi originalmente eleito.

Na época, o STF deixou claro que os casos seriam examinados individualmente pela Justiça Eleitoral à qual caberia a última palavra.

Foi o que aconteceu com o deputado Walter Brito. Mudou de partido em setembro de 2007 e passados cinco meses, em março último, o presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, determinou a perda do mandato.

Até hoje a Câmara não cumpriu a sentença e, a despeito da posição oficial do presidente da Casa de “seguir a decisão da Justiça”, não tem a menor intenção de fazer um gesto que possa criar um precedente antes da aprovação de um artifício legal para permitir as trocas e, assim, fugir à rigorosa, porém claríssima, interpretação da Justiça a respeito.

Tanto o TSE quanto o STF entenderam que os mandatos pertencem aos partidos porque, por exigência constitucional, ninguém é candidato em si; o acesso ao mandato é obtido exclusivamente por meio da legenda partidária, o que veda ao eleito o direito de dispor da delegação obtida nas urnas como bem entender.

Na primeira decisão da Justiça Eleitoral a Câmara se recusou a devolver as vagas dos trânsfugas. Os três partidos que mais tinham sofrido perdas, PSDB, DEM e PPS, entraram com mandado de segurança junto ao Supremo que confirmou a tese e remeteu o exame de cada caso ao TSE.

Determinou, portanto, que a Justiça Eleitoral teria o condão de decidir, exatamente como fez o ministro Carlos Ayres Britto em relação ao deputado Walter Brito.

Mas, como a Câmara precisa ganhar tempo, levou o assunto à Comissão de Constituição e Justiça - obviamente majoritária na posição de contornar as normas da fidelidade - no aguardo da entrada em discussão da reforma política proposta pelo Planalto.

Reforma esta cujo único ponto de consenso nos partidos governistas é a liberação geral para as trocas de partidos por um período de 30 dias, seis meses antes das eleições.

Contrapartida

O PT “recuou” da ofensiva na Câmara e resolveu apoiar a candidatura do pemedebista Michel Temer para a presidência da Casa, independentemente da posição do PMDB no Senado, contrário à candidatura do petista Tião Viana.

Considerando que a bancada de senadores do PMDB não fará a gentileza da recíproca e terá para isso todo o apoio da oposição, trata-se, em princípio, de uma trégua com prazo de validade.

O recuo é uma maneira de tentar evitar confrontos recentes entre aliados nas disputas pelo comando no Legislativo, todos eles com desfecho desfavorável ao governo, e negociar.

A oposição, claro, aposta na briga entre PT e PMDB, mas não põe nela todas as fichas porque ainda faltam dois anos para terminar o governo Lula.

Pelo manual da parceria pragmática, não é hora para rompimentos e, portanto, como há interesse de parte a parte, alguém no momento apropriado irá ceder.

Legado


Quem sai aos seus não degenera, ensina o dito confirmado pelo prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes, que anuncia a restauração da ordem pública como a prioridade de sua administração.

É a palavra de ordem da primeira campanha do atual prefeito Cesar Maia nos idos dos anos 90, quando lançou Eduardo Paes na carreira política.

Lula e a "jogatina"


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Nada mais exemplar da maneira de fazer política do presidente Lula do que a diferença entre as atitudes do governo e seu linguajar populista na atual crise financeira internacional. Ao mesmo tempo em que vocifera contra o Banco Mundial, o FMI e o sistema financeiro internacional, que teria se transformado em um verdadeiro cassino segundo suas palavras, o presidente Lula vai inserindo seu governo cada vez mais profundamente na lógica da globalização financeira. Lula reclama em público do que seria um "tratamento privilegiado" que as agências de avaliação de risco dão aos Estados Unidos ou à Inglaterra, enquanto analisam com dureza os países emergentes como o Brasil, cujo risco subiu durante a crise, mesmo com reservas de US$200 bilhões e situação fiscal equilibrada.

Mas, como em questões fundamentais de economia Lula geralmente toma a opção correta, ao contrário do que bravateia, está alimentando o tal "cassino" em parceria com o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos.

O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, definiu com clareza a situação dos países emergentes se referindo a "uma certa ironia da história", a de que atualmente é mais atraente repatriar aos países altamente industrializados o dinheiro investido nos últimos anos com altos rendimentos nas economias emergentes, por causa das medidas aplicadas pelos dirigentes dos países ricos para sustentar os bancos nacionais em dificuldades.

Os EUA, como gestores exclusivos da moeda reserva internacional, colocou em ação pelo mundo um programa de liquidez nas economias necessitadas que, dentro da lógica do sistema monetário e financeiro internacional contemporâneo, faz todo o sentido, na opinião de economistas.

Os países emergentes envolvidos nessa operação - Brasil, México, Cingapura e Coréia do Sul - são os mais inseridos na globalização, alguns com elevado grau de abertura financeira e todos com mercados de derivativos muito fortes.

Em todos eles houve operações de derivativos cambiais, como no Brasil, que prejudicaram empresas. Operações realizadas pelos grandes bancos globais, que o presidente Lula criticou amplamente, primeiro fazendo a acusação errada, de que estariam apostando contra o Brasil.

Constatado o erro, já que empresas como Aracruz e Sadia perderam muito dinheiro justamente porque apostaram na manutenção do real valorizado, Lula passou a criticar genericamente a "especulação". Só não explicou que os perdedores foram basicamente empresas nacionais, e a maioria dos ganhadores está no exterior.

Com a linha aberta pelo Fed, o governo Lula agora estará ajudando os estrangeiros que ganharam "na jogatina do cassino" a levarem seus recursos e lucros para o exterior. O que faz parte do jogo que estamos jogando, e não do jogo que Lula finge jogar.

Essas operações, que o Fed já faz desde 1961 e agora chegaram ao Brasil, não podem ser classificadas como empréstimos, pois não envolvem pagamentos de juros.

A linha para o Brasil tem validade de 6 meses. As moedas estrangeiras ficam depositadas no Fed e não são objeto de negociação, e, no caso do Real, seria inútil tentar vendê-los, por falta de comprador, pois nossa moeda não é conversível. Na definição em economês, trata-se de um contrato para troca de moedas, um mecanismo estabilizador das taxas de câmbio, em relação ao dólar.

Desde o início da crise o Federal Reserve aumentou para US$900 bilhões seus acordos de troca de moedas com dez bancos centrais (Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Nova Zelândia, Japão, Noruega, Suécia, Suíça e Banco Central Europeu) para ampliar a liquidez em dólares nos mercados financeiros globais.

Estão dando liquidez em dólar, para garantir a passagem dos investidores que desejam reconverter seus investimentos para o dólar - e, assim, podem estabilizar as moedas, sem grandes desvalorizações.

Ao contrário dos antigos acordos com o FMI, não há condicionalidades nesses acordos com o Fed, o que tira deles um estigma político. A revista inglesa "The Economist" noticiou em sua recente edição sobre a crise nos países emergentes que vários desses países procuraram o Fed em busca de apoio de liquidez, evitando ir ao FMI, que seria o canal mais adequado, mas politicamente inaceitável para alguns países.

Um desses países foi a Coréia, e por isso o Fed montou uma operação casada com o FMI, que, por sua vez, abriu sua linha de crédito para países de economia mais fraca e que não estavam em condições de bancar exigências ou ter pruridos políticos. Nesse ponto, o Brasil teve vantagens, pois pôde ser tratado como membro importante para o sistema internacional.

Mas, o que o Fed está fazendo, ao aprofundar a integração dos sistemas financeiros nacionais desses países emergentes com o sistema internacional, é inviabilizar que o agravamento da crise propicie o fortalecimento de forças políticas que defendam uma ruptura e a introdução de controles de capitais, por exemplo.

No caso do Brasil, essa intervenção é mais sintomática porque o país é o único cuja moeda não é conversível, e mesmo assim foi incluído no programa pelo tamanho da economia, mas talvez também pelo tamanho do problema de derivativos.

O volume de contratos de câmbio em aberto é de US$50 bilhões, segundo os dados oficiais da BMF. Não é tudo perda, mas é o tamanho da jogatina, como diria Lula. (Continua amanhã)

A escolha de Lula e a de Chávez


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - A Cúpula Ibero-americana, encerrada ontem em El Salvador, acabou servindo para criar uma brecha profunda entre, de um lado, o Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva, acompanhado pela imensa maioria dos participantes, e o duo Venezuela-Bolívia.

Não que já não houvesse divergências grandes de modelo, mas a crise internacional tornou necessário olhar para a frente e decidir se é preciso reformar o capitalismo ou dá-lo como morto.Chávez, mesmo não tendo comparecido à cúpula, pronunciou-se, a propósito dela, no segundo sentido.

"O sistema capitalista sob o impulso do império norte-americano se acabou, entrou em colapso, é preciso criar um novo", disparou.

Evo Morales, da mesma forma, deixou claro que não está de acordo em ajudar a salvar o capitalismo.

Lula, bem ao contrário, está até ansioso para participar de todos os esforços para reformar e, portanto, preservar o capitalismo.

Os líderes presentes à Cúpula assinaram, aliás, documento em que manifestam o desejo de "participar e contribuir ativamente para um processo de transformação profundo e amplo da arquitetura financeira internacional, que estabeleça instrumentos de prevenção e resposta imediata ante futuras crises e garanta uma regulação eficaz dos mercados de capitais".

Posto de outra forma, querem melhorar o sistema que existe, mas não "criar um novo", ao contrário do que pede Chávez.

Nada impede -e é até saudável- que haja enfoques diferentes sobre a maneira de organizar o mundo, em especial depois de uma crise grave. O problema começa quando se pensa em mais integração regional como uma das respostas à crise, como pretende Lula. Integrar-se pressupõe remar numa mesma direção. Cada um correndo para um lado torna ainda mais difícil sair da crise com o menor número possível de feridas.

Eleição imprevisível


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


WASHINGTON - Prever resultado de campanhas eleitorais é arte traiçoeira. Essa tentação deve ser evitada, sobretudo em uma disputa tão complexa e aberta como a norte-americana. Há inúmeros elementos à disposição apontando em sentidos opostos.

O cenário de superfície mostra uma onda a favor do democrata Barack Obama. Por essa lógica, o republicano John McCain estaria marcado para uma derrota sem precedentes na terça-feira.

Só 25% aprovam o governo de George W. Bush, republicano como McCain. A Guerra no Iraque continua um pântano para a Casa Branca. A crise internacional empurra a economia para um buraco sombrio como não se via em décadas.

Quando McCain olha do outro lado do muro, poderia começar a chorar. Obama já gastou US$ 270 milhões em comerciais contra apenas US$ 125 milhões do republicano.

Quem anda nas ruas das grandes cidades percebe fácil: o entusiasmo está do lado do democrata.

Mas eis um fato curioso. As pesquisas não mostram um massacre pró-Obama. Sobretudo porque, por algum motivo obscuro, as margens de erro nos EUA são generosas. Em levantamentos estaduais é comum haver margens de três a quatro pontos percentuais. Assim, estar cinco ou seis pontos à frente não garante muita coisa.

Os indecisos, perto de 8%, são um enigma à parte. A maioria é composta por gente mais velha, de classe média baixa, muitos na zona rural. A América profunda. Não têm o perfil pró-Obama. Seriam, argumentam os republicanos, os envergonhados dispostos a votar no candidato branco na última hora.

Tudo somado, Obama de fato parece estar à frente. Mas não há ainda como assegurar que já tenha encaçapado a vitória. Só saberemos na terça-feira à noite -ou depois, dado o histórico de lentidão na apuração dos votos por aqui.

A renúncia de Jânio leva à ditadura


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Brasília tem pouco ou nada a ver com a renúncia de Jânio Quadros, que abriu o caminho para os 21 anos da mais longa ditadura da nossa tumultuada crônica republicana. Como não tenho a pretensão de fazer História, guio-me pelos passos das pernas curtas e rápidas do meu saudoso amigo Carlos Castello Branco, titular desta coluna no JB , até seu último dia de vida, e que foi assessor de imprensa de Jânio, além de ser o maior repórter político da minha e de todas as gerações.

Nas 132 páginas do seu insubstituível livro A renúncia de Jânio, na edição de 1996 da Editora Revan, o Castelinho disseca a renúncia com a isenção do repórter, a sagacidade do analista e o texto do escritor e acadêmico. Começa depondo desde a manhã do dia 25 de agosto de 1961. Depois da noite insone, um funcionário do Palácio do Planalto sussurrou-lhe que algo ocorria: José Aparecido de Oliveira, secretário particular do presidente, ordenara-lhe retirar documentos importantes e arrumar toda a papelada. Pouco depois, chegou Aparecido e deu a notícia: o presidente renunciou. Já está voando para São Paulo.

Jânio telefonara às cinco da manhã a Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil, e anunciou que tomara uma decisão. Pediu que seguisse para o Palácio e convocasse o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar. Ambos foram comunicados da renúncia.

De volta ao gabinete do Planalto, reuniu os cinco para as sumárias explicações: "Renunciarei agora à Presidência. Não sei assim exercê-la". E finaliza, caprichando na ênfase: "Ela me diz que a melhor fórmula que tenho, agora, para servir ao povo e à pátria, é a renúncia".

Jânio convocou os ministros militares para a comunicação oficial. Pouco depois chegam ao gabinete os ministros da Guerra, general Odílio Denys, da Marinha, almirante Sílvio Heck, e da Aeronáutica, brigadeiro Grum Moss. Jânio repetiu em poucas palavras o relato aos secretários e ao ministro da Justiça.

O brigadeiro Moss tentou o apelo ao bom senso: "Presidente, não faça isso". No que foi secundado pelo almirante Heck: "Este é o maior golpe que sofro na minha vida". O general Denys foi mais longe: não faltava ao presidente o apoio das Forças Armadas, que ali estavam na pessoa dos seus chefes para prestigiá-lo e obedecer a suas ordens. Entendia as dificuldades, mas o presidente devia saber que "esse moço" (clara referência a Carlos Lacerda) é assim mesmo. O marechal Denys pediu que o presidente ordenasse as providências, que elas seriam tomadas: intervenção na Guanabara, fechamento do Congresso. E entrou direto no ponto crucial que desencadearia a crise militar: o governo da República não poderia passar às mãos de João Goulart. Acontece o inacreditável: Jânio intervém e cala os ministros: "Poupem-nos esses constrangimentos, quando nada em homenagem ao meu gesto. Minha decisão é definitiva".

Ora, se os três ministros militares tinham a plena convicção de que a renúncia, sem explicação minimamente verossímil, lançaria o país no torvelinho de uma gravíssima crise, com risco de uma guerra civil, e eles ali estavam com a responsabilidade de preservar a ordem pública e o regime democrático, era transparente a prioridade de, a qualquer preço, evitá-la até as últimas conseqüências para cortar pela raiz a manobra golpista.

Desde o crescente apelo até a virtual detenção do presidente desmiolado. Ou do apelo ao Congresso para não conhecer o documento presidencial antes de um exame de sanidade mental. Se o constrangimento dos ministros é compreensível, a clara percepção da crise militar e política que a fuga de Jânio deixaria como herança exigia e justificava a crescente reação que impedisse a jogada tantas vezes executada como governador de São Paulo. Desde a clara recusa à renúncia, por decisão dos três ministros, ao cerco militar do Palácio para evitar a fuga pela porta dos fundos.

Nunca a passividade, a rendição, o aturdimento da surpresa.

Mais tarde, o bravo senador João Agripino, da UDN paraibana, confessou que procurou encontrar o ministro da Justiça, Pedroso Horta, para tentar pegar o papelucho da renúncia e sumir com ele.

E teria mudado o curso da História.

Mas a nossa conversa não termina aqui.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1134&portal=