domingo, 19 de julho de 2009

As amizades colloridas

Ruth de Aquino
DEU NA REVISTA ÉPOCA


Algumas imagens falam mais que mil palavras. A foto de Lula e Collor em Palmeira dos Índios, Alagoas, é tão expressiva que não precisaria de legenda. Olho no olho, sorriso autêntico de afeto, abraço forte e cúmplice sem constrangimento. Não foi uma foto posada ou armada. Era o lançamento da obra de uma adutora, do PAC. Sem necessidade, Lula reforçou o gesto com palavras: “Quero fazer justiça aos senadores Fernando Collor e Renan Calheiros, que têm dado uma sustentação muito grande aos trabalhos do governo no Senado”.

Mesmo que a memória do Brasil seja curta, mesmo que você não tenha pintado a cara de verde e amarelo e saído às ruas em 1992 para pedir o impeachment do presidente Collor por corrupção, esse momento histórico está impresso na retina dos brasileiros. Houve um surto de patriotismo ético. O país apeara do poder o falso caçador de marajás, o defensor ilusório dos descamisados. Um populista de direita que tinha construído jardins babilônicos em sua residência em Brasília, com cinco cachoeiras acionadas por mecanismo eletrônico. Algo comparável, em cafonice e megalomania, ao castelo do deputado mineiro Edmar Moreira, o bom companheiro avesso a julgamentos entre iguais.

Collor já tinha envergonhado a nação em 1989, na campanha para a Presidência, ao aplicar golpe baixo no adversário do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Exibira na televisão o depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando-o de pressão para abortar a filha dos dois.

Mesmo depois da eleição e do impeachment de Collor, Lula foi implacável – e com muita propriedade. Em 1994, quando Collor foi absolvido pelo STF, o petista disse: “Como cidadão brasileiro que tanto lutou para fazer a ética prevalecer na política, estou frustrado, possivelmente como milhões de brasileiros. Só espero que não apareça um trambiqueiro querendo anistiar Collor da condenação imposta pelo Senado”. A condenação era a inelegibilidade por oito anos.

Foi autêntico o abraço afetuoso de Lula e Collor. A palavra “ética” sumiu dos discursos do presidente

A palavra “ética” sumiu do discurso de Lula. Hoje, seus compadres e amigos pertencem às oligarquias que combateu como inimigas do povo.

O comício da semana aconteceu num estádio de futebol para 500 sem- -terra, agricultores, funcionários públicos, donas de casa, prefeitos e políticos de Alagoas. Dilma Rousseff, no palanque, exaltou a origem nordestina de Lula. Lula comparou Collor a Juscelino Kubitschek. Um jornal distribuído no evento deu manchete com o apoio de Lula ao candidato Collor.

Houve gente que sentiu nojo. Petistas se sentiram traídos e se perguntaram até onde Lula pode ir em nome da tal governabilidade. Mas é tudo tática. O rol de notícias da semana nos faz crer que assistimos a um gigantesco Casseta & planeta.

Edmar Moreira foi absolvido. O filho de Sarney, Fernando, foi indiciado por desvio e formação de quadrilha. A filha, Roseana, pagou R$ 4,3 milhões – de verba pública – por uma exposição do banqueiro amigo Edemar Cid Ferreira. O governo Lula assumiu o comando da CPI da Petrobras. E, de quebra, o Conselho de Ética do Senado, que blindará Sarney. O novo presidente do Conselho, indicado por Renan Calheiros, é o peemedebista Paulo Duque, de 81 anos: “Será que Renan me escolheu por meus olhos azuis?” Duque não teme cobranças e diz não dar muita importância à opinião pública, porque “ela é muito volúvel”.

Lula provocou os senadores da oposição: “São bons pizzaiolos”. A categoria dos pizzaiolos profissionais reagiu irada: “Não roubamos dinheiro público”.

Com o forno quente na cozinha da Casa-grande, é compreensível o alívio de Sarney diante do recesso: “Graças a Deus”. Será que o presidente do Senado vai interromper nas férias sua coluna na Folha de S.Paulo? Seria uma pena. A última foi sobre “a guerra de titãs entre Windows e Google”. Sarney se espanta com os chips e a teia de aranha virtual. E saúda como “um milagre” o Google Earth, “com sua capacidade de mostrar na tela a casa de todo mundo no mundo, inclusive a minha”. Aquela de R$ 4 milhões em Brasília também, senador? Encerra seu artigo com a máxima: “Aos vencedores, as batatas”. Seria melhor “aos vencedores, a pizza”. De lulla.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Sêneca e Sarney

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Ao encerrar diante de um plenário vazio o semestre mais horroroso da história do Senado Federal, o senador pelo Amapá, dono do Maranhão e vice-rei do Brasil, José Sarney, fez a apologia de Lúcio Aneu Sêneca, conhecido como o Moço, o Estóico e, em rodas mais exigentes, como o Pulha.

Sarney finge agilidade, mas é antes de tudo um leviano: não pensa, embroma, não escreve, enrola, não discursa, engrola. Queria uma figura da antiguidade para espelhar-se, de preferência um senador romano e com o nome começando por um “s”. Na pressa, o dedo podre parou em Sêneca.

Ferrou-se: o estoicismo do espanhol de Córdoba era, aparentemente, de fancaria: envolveu-se com a sobrinha do imperador Cláudio, que por isso o desterrou, mais tarde engraçou-se com a imperatriz Agripina, que fez dele o preceptor do seu filho Nero. Agradecido, ao tornar-se imperador, converteu o mestre no principal conselheiro.

Sêneca foi extremamente complacente com a tirania de Nero e chegou a escrever uma hedionda e hipócrita justificativa ao senado romano sobre o assassinato da velha amiga Agripina. Sua tibieza diante do despotismo e a obsessiva acumulação de riquezas foram denunciadas pelos contemporâneos que viam nelas a negação da pregação estóica. Quando o povo começou a reclamar contra Nero, aderiu à conspiração de Pisão. Descoberto, foi obrigado a suicidar-se.

Símbolo das contradições de Sêneca é uma de suas mais famosas tiradas: “Eu elogio a vida, não a que levo, mas aquela que deve ser vivida.” Por isso não encontrava qualquer contradição entre o seu pretenso estoicismo e a fortuna material que acumulou. Alegava que o sábio não precisa ser pobre desde que o seu dinheiro seja ganho de forma decente. Sarney deve à legião de admiradores algumas explicações a respeito desta controversa proposição.

Solidário com o guru romano, na derradeira catilinária semestral Sarney investiu pesadamente contra a mídia e, sobretudo, contra o Estadão, que iniciou a série de denúncias contra os atos secretos. Ingrato, deixou mal o jornal que o acolhe às sextas-feiras, a Folha de S.Paulo, que tanto se esforça para acompanhar o competidor. Sêneca inspirou-o também neste aspecto ao designar o único medium da época, as Actas Diurnas, como “folhas linguarudas”.

Sarney, porém, é espécime único, fora de série, incomparável. As circunstâncias que o produziram resultam de uma raríssima combinação de ingredientes, aliás todos diminutivos: malandrinho, cinicozinho, oportunistazinho.

Fazia parte da “banda de música” da velha UDN e, ao contrário dos camaradas, avalizou em 1964, sem pestanejar, todos os arbítrios da Redentora. Serviu-a fielmente e quando a ditadura começou a soçobrar, passou-se para o grupo oposto. Tancredo o escolheu como vice não pelos atributos, mas pela mediocridade.

As façanhas posteriores têm sido muito lembradas ultimamente, porém poucos recordam a despudorada adesão à candidatura de Lula em Agosto de 2002, quando deixou escapar esta pérola de pragmatismo: “já que um dia será preciso engolir um triunfo do PT, melhor que fosse logo e acabasse depressa”. Sêneca seria mais gracioso e retórico, diria a mesma coisa de forma a converter-se em inspiração aos pósteros.

Agradecido, o então candidato Lula não viu qualquer perversidade na manifestação do ex-adversário e novo aliado. No berreiro dos palanques é impossível reparar em sutilezas ou examinar a decência das claques. Agora, no recesso parlamentar, talvez consiga o distanciamento para perceber o emaranhado de equívocos nos quais se envolveu a partir do momento em que colocou o sub-Sêneca como figura central do jogo político do próximo ano.

É sabido que Sarney nunca foi uma individualidade, agora ficou visível que, na realidade, é uma patota. Patota na qual militam soberanamente dois enxotados da vida pública: Fernando Collor de Melo e Renan Calheiros. E não contente, escolheu como guarda-costas e fiscal do decoro senatorial, um suplente do suplente de um senador fluminense que estreou dizendo que “não existe independência na política”.

Sêneca não merecia ser enxovalhado desta maneira.

» Alberto Dines é jornalista

Lula e a UNE

Suely Caldas
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Nos últimos dias o presidente Lula declarou seu apoio incondicional e elogiou o presidente do Senado, José Sarney, chamando-o de "pessoa especial". Na quarta-feira, em Alagoas, abraçou Fernando Collor e agradeceu a ele e ao senador Renan Calheiros o apoio ao seu governo.

Nenhuma manifestação da outrora aguerrida, combativa e irreverente União Nacional dos Estudantes (UNE), que há 17 anos comandou os caras-pintadas pelas ruas do País, protestando contra a corrupção no governo e pedindo o impeachment de Collor. No governo Lula a UNE calou diante do mensalão e de tantos outros atos de corrupção, chegou a defender Calheiros no episódio da pensão paga por uma empreiteira a sua ex-namorada, paralisou diante dos inúmeros escândalos envolvendo Sarney e família e silenciou ante a imagem do efusivo abraço entre Lula e Collor.

Afinal, o que aconteceu com a UNE e os estudantes?

Na quinta-feira a direção da UNE recebeu Lula como principal orador da abertura de seu 51º Congresso Nacional. O presidente lembrou de seus idos de sindicalista radical e disse ter passado o tempo em que "encostar-se no governo significava cooptação". A UNE não encostou, grudou no governo Lula. Tem recebido generosidades e retribuído com aplausos, adesão e apoio político, mesmo quando Lula perdoa corruptos e diz que assina um cheque em branco para o ex-deputado cassado Roberto Jefferson. Não é cooptação? Vamos aos fatos. Em 2004 o governo repassou R$ 199 mil de verbas federais para a UNE e, a partir de 2005, mais R$ 10 milhões - dos quais R$ 7 milhões entre janeiro de 2008 e fevereiro de 2009. Além disso, a Petrobrás, com R$ 100 mil, e a Caixa Econômica Federal, com R$ 30 mil, patrocinaram a Bienal da Cultura da UNE, em Salvador, que ainda levou R$ 2,5 milhões dos cofres públicos.

"Nos anos de Fernando Henrique tínhamos muitas dificuldades de diálogo", explicou a presidente da UNE, Lúcia Stumpf, em entrevista publicada no Estadão em 5 de março, ao comparar a relação da entidade com os dois governos.

Além dos R$ 10 milhões, Lula e as estatais doaram para esse 51º Congresso mais R$ 920 mil, dos quais a Petrobrás - com sua esquisita e sem critérios política de patrocínios - participou com R$ 100 mil. Agradecida, a direção da UNE tratou de retribuir: saiu em defesa da estatal e condenou a investigação, pela CPI, de suspeita de desvios de dinheiro na Petrobrás. Condenar a apuração de fraudes com dinheiro público é algo inédito na história da UNE (como diria Lula, nunca antes neste país) que contribui para afastar cada vez mais os estudantes que deveria representar.

Com a popularidade pessoal em alta, Lula extrapola ao sair por aí vinculando sua imagem ao que há de mais atrasado no País, elogiando as oligarquias que ele tanto combateu e denunciou, abraçando Collor e ignorando o movimento que se espalhou pelo País pedindo seu impeachment, humilhando os senadores do PT ao obrigá-los a defender Sarney e assumirem o papel de coniventes com os escândalos de que o senador é acusado. Para Lula tudo vale para atrair o que há de pior no PMDB e garantir seu projeto de eleger Dilma Rousseff e continuar no poder. Os senadores petistas até pararam de justificar a defesa de Sarney com o argumento da governabilidade. Diante da enxurrada de denúncias indefensáveis o argumento se esvai. Afinal, complacência com o desvio de dinheiro público não pode servir de apoio a nenhuma governabilidade.

Lula arrisca perder popularidade política, mas se acontecer ele recua rapidinho. A UNE é que corre riscos mais graves. Sua imagem, hoje, entre os estudantes é de uma entidade pelega, financiada e dependente do governo Lula, que ignora as carências estudantis e, quando se envolve na luta política do País, escolhe o lado errado, da corrupção, dos oligarcas que exploram o Estado há décadas. No auge da pressão popular para tirar Renan Calheiros da presidência do Senado os universitários do Rio de Janeiro organizaram uma passeata. Não tiveram o apoio e ainda foram reprovados pela UNE, que saiu em defesa de Calheiros.

Sem lideranças respeitadas e reconhecidas, os estudantes tendem a não se interessar e fugir da luta política numa fase da vida em que a contestação é útil para a formação e a inserção do jovem na sociedade no futuro. Mas esse é o jeito Lula de governar. Ele, que tanto combateu o peleguismo no passado, hoje usa o dinheiro público para comprar o apoio de parlamentares (o mensalão, as emendas), de sindicalistas (as centrais sindicais acabam de ser contempladas) e da UNE.

*Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio

Recordações (Poesia)

Graziela Melo

Como
As aves
Que voam
No infinito

De sua própria
Liberdade

Eu quis
Rever no tempo
As aventuras,
As almas
Mais puras

A infância
A puberdade!

Ví meu pai
Minha mãe
Seus amigos!


As árvores
Do qintal...

A negra velha
Sempre
De avental!

Ví o mesmo sol
A mesma lua!!!

Aquele padre
E seus mistérios...

Crianças mortas,
Rostos tristes
Bocas tortas...

O enterro,
A santa burra
A burra santa
E o cemitério!!!


Rio de Janeiro, 14/12/07

As categorias de Arendt

Celso Lafer
DEU NA FOLHA DE S. PAULO / +MAIS!

Coletânea de artigos esmiúça os principais conceitos da pensadora, como "banalidade do mal"

Entre o Passado e o Futuro" é o título do primeiro livro de Hannah Arendt publicado no Brasil. É um conjunto de ensaios que ela qualificou como exercícios do pensamento político.

A obra é o fruto, como diz no prefácio, da interação entre experiência vivida e pensamento.

Tem a característica de ser altamente representativo da maneira pela qual Hannah Arendt [1906-75] abriu novos horizontes para a reflexão política no século 20.

"Hannah Arendt - Entre o Passado e o Futuro" é o título do conjunto de estudos dedicados ao seu pensamento organizado por Adriano Correia e Mariangela Nascimento. É um título muito apropriado porque os ensaios reunidos no livro são exercícios sobre o pensamento político de Hannah Arendt. Estão voltados para trabalhar o significado e o alcance das categorias que ela elaborou para lidar com o ineditismo das rupturas históricas trazidas pelo século 20.

Essas categorias são um movimento complexo de recuperação e reformulação da tradição do pensamento político, como lembra Newton Bignotto no prefácio em que discute a presença e a recepção da obra arendtiana. Propiciaram um léxico próprio, de que são exemplos termos como mal radical, banalidade do mal, totalitarismo, trabalho, obra, ação, "amor mundi", natalidade, pluralidade, esfera pública.

Neste sentido, aponto que o primeiro mérito deste livro é o de ser uma substantiva contribuição para a compreensão do vocabulário arendtiano, voltado para pensar e lidar com os acontecimentos sem o apoio do corrimão dos sistemas que se revelaram insubsistentes.

Adriano Correia é um estudioso de primeira linha de Hannah Arendt. É responsável pela organização de dois livros anteriores sobre sua obra e autor de uma primorosa e sintética introdução ao seu pensamento. Neste volume, trata da decisiva relação entre natalidade e "amor mundi" no percurso reflexivo arendtiano, rastreando com percuciência a sua matriz em santo Agostinho, sobre quem Hannah Arendt escreveu a sua tese de doutoramento.

Carmelita Brito de Freitas Felício examina como Arendt trabalhou o kantiano conceito do direito à hospitalidade universal à luz da experiência dos refugiados e da persistência do problema na agenda internacional, apontando afinidades entre a autora e [o filósofo francês Jacques] Derrida.

Mariangela M. Nascimento explora as reflexões arendtianas sobre a esfera pública, como a confluência das falas e do agir humano, e aponta a sua relevância para a discussão da democracia no Brasil.

Estamos no mundo

Theresa Calvet de Magalhães, que é uma grande conhecedora da obra de Hannah Arendt e colaborou com Adriano Correia na revisão técnica da admirável tradução por ele empreendida do texto arendtiano "Trabalho, Obra, Ação", analisa, no percurso reflexivo arendtiano, por que cabe afirmar que "estamos no mundo e não somos apenas do mundo".

Isso exige criar, politicamente, uma confiança no mundo para ir além do "névoa-nada" do "Eclesiastes".

Maria de Fátima Simões Francisco faz uma sutil análise de como Hannah Arendt, para se contrapor à tradição do pensamento político que se inicia com Platão e que subordina o agir ao pensar, constrói a razão de ser da "polis" grega como espaço público, tendo como ponto de partida a oração fúnebre de Péricles. Indica como a apropriação seletiva empreendida por Arendt, de ingredientes da "vita activa" no mundo grego, tem inspiração na "Ilíada" e não na "Odisseia" porque esta trata do retorno à esfera doméstica, depois dos feitos públicos da Guerra de Troia.

Vinícius Silva de Souza discute o conceito de liberdade em Hannah Arendt como uma atividade da vida política e não como uma expressão do livre arbítrio da consciência.

Rosângela Chaves examina como a análise arendtiana do antissemitismo moderno, enquanto cristalização de elementos que vieram a se configurar no totalitarismo, tem, entre seus ingredientes, uma sutil leitura da obra de Proust.O fecho do volume é de Bethânia Assy, outra grande estudiosa da obra de Hannah Arendt, a quem se deve a percuciente introdução à edição brasileira de "Responsabilidade e Julgamento" [Cia. das Letras].

Bethânia Assy explora o "distinguo" arendtiano entre o que somos e quem somos indicando como o "quem somos" é a base da singularidade da personalidade ética.

Os desafios da compreensão da política no século 20 instigaram a reflexão de Hannah Arendt. O seu vocabulário é uma expressão disso, pois busca propiciar o inter-relacionamento entre compreensão e conhecimento. Este livro é uma contribuição de qualidade para o entendimento da grande obra de Hannah Arendt, na qual se mesclam, de maneira superior, conhecimento e compreensão.

CELSO LAFER é ex-ministro das Relações Exteriores do governo FHC e autor de "Hannah Arendt - Pensamento, Persuasão e Poder" (Paz e Terra), entre outros livros.

HANNAH ARENDT - ENTRE O PASSADO E O FUTURO Organização: Adriano Correia e Mariangela NascimentoEditora: Editora da Universidade Federal de Juiz de Fora (tel. 0/xx/32/3229-7646)
Quanto: R$ 20 (150 págs.)

Freyre, Euclides e o Brasil

Daniel Piza
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /Caderno 2

Gilberto Freyre é o autor mais influente do Brasil. Suas ideias se veem em muitos dos romancistas brasileiros (José Lins do Rego, Jorge Amado, até Chico Buarque e no tropismo sociológico de tantos mais), na música popular, no cinema (Glauber Rocha, Cacá Diegues, Walter Salles Jr.), na crônica como a esportiva (ele prefaciou O Negro no Futebol Brasileiro, de Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que sempre falava na "saúde de vaca premiada" dos jogadores brasileiros). Também se veem na mídia e no cotidiano, como quando as pessoas se gabam da miscigenação (Carlinhos Brown: "O brasileiro nasce com uns pontos a mais no QI por ser uma mistura de raças"). Mesmo a cordialidade que Sergio Buarque criticou como impedimento à necessária separação entre público e privado, três anos depois de Casa Grande e Senzala, foi, sob um ângulo freyriano, distorcida para um elogio da doçura nacional.

É claro que Freyre não é o inventor da noção do brasileiro como um povo diferente, especial, que se distingue do europeu por agir com o coração. "A civilização é triste", lemos ainda hoje de economistas sérios. E gente como José Sarney, o oligarca, garante: "A maior contribuição do Brasil ao mundo é a alegria." Oswald de Andrade, que andou às turras com Freyre nos anos 30, no conflito entre modernismo paulista e regionalismo nordestino, disse as mesmas coisas em seus manifestos, influenciado pelos conceitos de Freud como repressão. Esse espírito faz parte, claro, do período da formação moderna da nacionalidade, que seria sintetizado institucionalmente no governo getulista, quando samba e futebol viraram os símbolos ufanistas que são até agora. Mas Freyre foi quem fez a base conceitual de tudo isso.

É claro que tal formação foi um contraponto fundamental ao que se dizia até a República Velha, em ensaios como os de Paulo Prado e Oliveira Lima, cujo teor era que a mistura enfraquecia a raça brasileira e lhe dava melancolia. Como ser contra mestiçagem, alegria, etc.? Mas já está na hora de ultrapassar a idade mítica da identidade nacional e testar com rigor a veracidade dessa auto-imagem. Freyre, por sinal, como todo autor muito citado e pouco lido, é distorcido à beça. Sempre fez questão de dizer que não era a favor do "dionisíaco", como um Zé Celso, mas de uma combinação entre ele e o "apolíneo", ou seja, entre a cultura intuitiva e informal com a racional e dedutiva - o que até o fez cometer o equívoco de apoiar a ditadura militar de 1964. De qualquer modo, sua herança se tornou nociva principalmente porque coloca como vetor principal da cultura o perfil racial. E confundi-lo com os costumes, as artes e os esportes nunca fez bem a lugar nenhum.

Exemplo disso tudo é a visão que ainda parece dominante sobre Euclides da Cunha, essa visão "telúrica" (como diria Zé Celso, que adaptou Os Sertões para o teatro), que quer fazer dele um "advogado dos sertanejos" pura e simplesmente, pondo de canto sua visão determinista de progresso, suas contradições, seus dilemas em relação ao Brasil. Euclides continuou social-darwinista até a morte, acreditando que deveria haver um Darwin para a espécie humana e um Newton para a ordem moral. Mesmo no póstumo As Margens da História, por exemplo, ele elogia o bandeirante Raposo Tavares por ir desbravando o País e escorraçando os índios. No entanto, Freyre fez dele um precursor de sua obra, como se Os Sertões se resumisse a um encantamento pelo "Brasil profundo", sertanejo, rural. Não.

Como nota Marco Antonio Villa na antologia Os Sertões de Euclides da Cunha: Releituras e Diálogos (Editora Unesp), organizada por José Leonardo do Nascimento (que analisa a força das "frases-síntese" do autor), considerá-lo apenas como "livro de denúncia", quase como se Euclides tivesse se convertido aos conselheiristas, não dá. Villa descreve as diferenças entre as reportagens de Euclides em Canudos, para o Estado, e o texto final de Os Sertões, cinco anos mais tarde. Simpatias com figuras do Exército desaparecem, comoções com a dor dos sertanejos aumentam; nesse período em que redige o livro, a desilusão com a República brasileira o faz adotar um tom mais grave. Mas Euclides continua a dividir o mundo em raças "fortes" e "fracas". Que Freyre tente atenuar esse problema não deixa de ser absurdo.

Cada lado do espectro ideológico, na verdade, segue tentando "roubar" Euclides para si. Ele não era nem o panfletário quase bíblico que defende a cultura autóctone, nem o positivista empedernido que confunde progresso e autoridade. Se mostrou que a suposta civilização pode ser mais bárbara que os tais bárbaros, jamais deixou de vê-los assim, como "bárbaros", embora fortes e adaptados a seu meio. Euclides era mais contraditório, complexo - uma mescla intensa e genial de idealista e fatalista. Numa das frases coligidas em outro lançamento, Migalhas de Euclides da Cunha (editora Migalhas), organizado por Miguel Matos, ele diz com todas as letras: "Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora." Aqui dá uma volta em Freyre, a quem a civilização também parecia apavorar, não por seus racismos e suas guerras, mas por suas exigências. Mistura racial não assegura vocação democrática. Democracia precisa ser construída duramente contra privilégios senhoriais.

CADERNOS DO CINEMA

Harry Potter é o tipo de obra que os críticos amam odiar. Li dois dos sete livros e acho que J.K. Rowling se apropria demais de narrativas alheias para contar a velha história folhetinesca do bem contra o mal. Mas em cinema a mistura de ambiente escolar, histórias de feitiços e ação funciona melhor. O quarto filme, Harry Potter e o Cálice de Fogo, extrai muita força da combinação de fantasia com esportes e das sugestões de que Harry e Valdemort são mais parecidos do que querem acreditar. Já nesse sexto filme, Harry Potter e o Enigma do Príncipe, a química aparece pouco. Ele se arrasta, sem ter diálogos ou situações que preencham o tempo com reflexão, e cenas agitadas como a do quadribol parecem repetição lá do primeiro episódio. A melhor parte da história, que conta a infância de Valdemort, pesa pouco no conjunto. Só as sequências finais, como a da caverna de cristais, assustadora para a criançada, quebram a monotonia, além de alguns efeitos especiais. O problema do filme não é falar de paixões adolescentes; é não ter quase nada a falar.

ZAPPING

A minissérie Som & Fúria é uma das melhores coisas da TV brasileira neste ano. Adaptada por Fernando Meirelles de um programa canadense, conta a quase improvável história de uma trupe shakespeariana no Teatro Municipal de São Paulo. Escrevo na quinta-feira, dia seguinte ao da exibição do sexto dos doze capítulos, em que a companhia finalmente encena Hamlet. Foi excelente. Andréa Beltrão comoveu até os ferros do Viaduto do Chá em seu monólogo. Felipe Camargo faz um doce amalucado, mais lúcido do que os que o cercam. Dan Stulbach atingiu um recurso raro, o de se deixar transformar pela força do teatro sem abandonar seu jeito de burocrata ambicioso. Todas as atuações mostraram autenticidade, adaptadas à agilidade da montagem, e a série prova que é possível fugir ao naturalismo sem cair no barroquismo. Ao contrário do que andei lendo, acho as gozações contra diretores e críticos reais muito legais, em oposição à cultura nacional do compadrio.

A série também aponta para os defeitos do cinema nacional, ainda dividido entre filmes de favela, comedinhas de situação e exercícios experimentais. Tomara que inspire mudanças no cinema e na TV: existe público, sim, para a inteligência.

POR QUE NÃO ME UFANO

Nhonhô Ribamar mandou anular todos os atos secretos do Senado, que antes dizia desconhecer. E deu sinal para a CPI da Petrobras, que, como vai ser controlada pelos governistas, só terá a função de dividir as atenções quando a nobre casa voltar do recesso. Seu filho foi indiciado, sua fundação será investigada, sua imagem está mais queimada que os marimbondos de fogo. Mesmo assim, continua no cargo (ou continuava até quinta passada), com apoio do presidente Lula e de sua candidata, Dilma Rousseff. Em outras palavras, o maior partido do Brasil, o PMDB, é um partido de aluguel, sem presidenciáveis, tão fisiológico quanto a menor das legendas. E ainda há quem chame isso de maturidade democrática.

INTÉ
Tiro duas semanas de férias. Esta coluna volta em 9/8.

Quem quer Constituinte é o povo, diz Zelaya

Fabiano Maisonnave
Enviado Especial a San José (Costa Rica) e Manágua (Nicarágua)
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Em entrevista à Folha, hondurenho afirma que golpe aconteceu porque ele tentou dar mais poder decisório à população

Presidente deposto afirma que pressão internacional deve ser maior e nega papel central de Hugo Chávez nas decisões de seu governo

Três semanas após ter sido detido e expulso de Honduras, o presidente deposto Manuel Zelaya, 56, não parece disposto a fazer concessões nos pontos evocados para justificar o seu afastamento. Pretende levar adiante o seu projeto de convocar uma consulta sobre a Assembleia Constituinte porque, diz, é uma demanda popular. Também defende a aliança com o presidente Hugo Chávez e não descarta uma nova candidatura à Presidência caso haja mudança nas regras.Em entrevista à Folha na Embaixada de Honduras na Nicarágua, Zelaya cobrou o aumento da pressão internacional contra o governo do presidente interino, Roberto Micheletti, e disse que o único país que tem influência em Honduras são os Estados Unidos.

A conversa foi gravada na sexta à noite -antes, portanto, das negociações que aconteceriam ontem na Costa Rica.

FOLHA - O sr. tem aprovação de 46%, segundo o instituto Gallup, mas as instituições do Estado hondurenho, como o Congresso, o Supremo e a Promotoria, apoiam o governo interino. Como se daria a governabilidade caso o sr. retome a Presidência?

MANUEL ZELAYA - Melhor do que a que eles estão tendo agora. Eu nunca tive o apoio desses setores. Eu não necessito deles realmente porque há independência de Poderes. Não me preocupa o problema político, o que me preocupa é o respeito à lei e à democracia.

FOLHA - Alguns dos seus assessores, como o atual ministro da Defesa, permaneceram no seu governo até o final, mas agora estão com Micheletti. Por que isso ocorreu?

ZELAYA - É como se você passasse para outro meio de comunicação. Se a concorrência lhe paga mais, qual é o problema? Vivemos num mundo livre. Judas pediu 30 moedas para vender o Senhor. É parte da vida, não há por que se preocupar.

FOLHA - O sr. está disposto a abandonar a proposta do referendo sobre a Constituição?
ZELAYA - Essa não é uma decisão minha, é uma decisão jurídica. É preciso buscar uma decisão jurídica. É um problema de vontade política, não posso trair o povo inteiro e deixar o processo.

FOLHA - A principal acusação contra o sr. é a de que queria a reeleição. Qual é sua posição sobre o tema?

ZELAYA - O governo não tem nenhuma possibilidade de fazer o processo de reeleição. É problema de uma Assembleia Constituinte que se estabeleça noutro governo, não no meu.

FOLHA - Mas o sr. não tem uma posição sobre a reeleição?

ZELAYA - Não tenho hoje nenhum interesse nisso. Acho que é um tema de discussão futura, não no meu governo.

FOLHA - O sr. foi eleito por um dos partidos mais tradicionais de Honduras, e a sua cúpula deixou de apoiá-lo e respalda o golpe. Quem mudou, o sr. ou o seu partido?

ZELAYA - Não há uma ruptura total com a cúpula, só parte dela. Há deputados e prefeitos que me apoiam; tenho 70% da base política. Ou seja, talvez seja um grupo de ultradireita conservadora que, com o tempo, se acomoda no poder.

FOLHA - Mas o sr. não mudou a sua ideologia, a forma de ver o país durante o mandato?

ZELAYA - Fui coerente com a minha campanha. A minha proposta tinha um slogan que se converteu em ideologia: o "poder cidadão". Dar poder ao cidadão para que ele seja protagonista do seu destino. A primeira lei que aprovei foi de participação cidadã, e o que estava fazendo agora é um processo de participação. Tenho sido coerente com as minhas posições.

FOLHA - Mas a convocação de uma Constituinte não estava em sua proposta de campanha.

ZELAYA - O mecanismo não é importante, mas o objetivo. O objetivo de transformação é o que tem de valer. A Constituinte é um processo de mudança que surge do pedido do povo. O que faz um governante é escutar o seu povo. Não estava propondo uma Constituinte para o meu governo. A única coisa que propus é que era preciso escutar o povo. O povo enviou ao meu gabinete 500 mil assinaturas que diziam: "Queremos ser consultados". E estabelecemos um processo de consulta para ver a opinião pública. E isso foi o que provocou a ruptura e o golpe. Não temem a consulta. O que eles temem é que o povo se organize, que tenha voz, que possa tomar decisões. Isso lhes causa terror. Porque, se o povo começa a tomar decisões, é preciso haver justiça e igualdade.

FOLHA - Por que o sr. decidiu levar adiante a consulta de 28 de junho apesar da proibição da Justiça e do Congresso?

ZELAYA - Um juiz de segunda instância suspendeu um decreto feito pelo governo. Não declarou ilegal, mas suspendeu. O primeiro decreto se chamava "consulta popular". O Conselho de Ministros se reuniu e fez outro decreto, que não foi suspenso. Esse outro decreto se chama "pesquisa de opinião", não estava suspenso e não tinha nenhuma ilegalidade. Todo o resto é uma invenção da conspiração.

FOLHA - Um dos pontos mais criticados é a sua aliança com Hugo Chávez. Houve influência dele no processo constituinte e há alguma influência durante as negociações?

ZELAYA - O único país que realmente tem influência em Honduras são os EUA. O presidente Chávez não tem nenhuma influência em Honduras. Ele tem o reconhecimento hondurenho de sua liderança como democrata e como um presidente muito ativo na América Latina. É um preconceito querer converter os processos naturais de mudança em Honduras em processos ideológicos.

FOLHA - O Brasil suspendeu vários acordos após o golpe, entre os quais a cooperação em saúde. O sr. defende que as sanções incluam medidas em áreas sociais?

ZELAYA - A comunidade internacional está tomando medidas, mas são insuficientes. O povo está nas ruas resistindo, a comunidade internacional está pressionando, mas os golpistas são intransigentes.

FOLHA - No caso do Brasil, o sr. acha que governo pode fazer mais do que já anunciou?

ZELAYA - Até o momento, estamos atuando nos organismos multilaterais. Acho que devemos continuar chegando a um consenso. Com o governo brasileiro, estou muito satisfeito.

FOLHA - Com relação aos EUA, por que o sr. pediu o bloqueio das contas e bens dos envolvidos no golpe?

ZELAYA - A comunidade internacional, com esse golpe, deve ter a lição de que não bastam medidas diplomáticas, mas mecanismos efetivos que realmente os afetem, tais como medidas econômicas e restrições à sua circulação em diferentes países.

FOLHA - Como o sr. imagina que será lembrado na história?

ZELAYA - Como quem luta por causas justas e não aceitou a submissão e a imposição.

História de duas repúblicas

Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A determinação com que Itamar priorizou a luta contra a inflação e a feliz escolha de FHC resgataram a República

F OI O REAL que redimiu a Nova República, da mesma forma que a velha só se consolidou com o saneamento financeiro de Campos Sales.

Nascida sob a inspiração da ordem e do progresso, a primeira República não teve em seus oito anos iniciais nem uma coisa nem outra, sob a sombra do encilhamento, da crise da dívida, das atrocidades de Floriano, do levante da Armada, da Revolta Federalista, dos massacres de Canudos. Já se ia esquecendo o sonho republicano quando a estabilização política e econômica criou condições para as realizações dos governos de Rodrigues Alves e de Afonso Pena, período de apogeu do regime.

Arco de tempo parecido acompanhou o conturbado começo da Nova República. Os funestos agouros despertados pelo precoce desaparecimento de Tancredo Neves confirmaram-se com a marcha batida para a hiperinflação após o insucesso do Plano Cruzado. Nem as generosas promessas da Constituição de 1988 conseguiram sobreviver ao confisco da poupança, aos escândalos e ao trauma do processo e do impedimento de Collor.

A determinação com que o presidente Itamar Franco priorizou a luta contra a inflação e a feliz escolha de Fernando Henrique Cardoso e seus colaboradores possibilitaram compensar tantos fracassos anteriores e resgatar a República. A consolidação da estabilidade e os aperfeiçoamentos institucionais no governo de Fernando Henrique fizeram o resto: abriram espaço que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva soube firmar e desenvolver.

Graças ao mérito de sua própria política e ao contexto externo propício, o atual governo acelerou o crescimento, expandiu o consumo de massa, ampliou programas sociais, elevou o prestígio do país no exterior. Não é exagero comparar alguns desses resultados aos alcançados no apogeu da República Velha.

Era nisso que eu pensava ao ouvir os oradores que se sucediam na sessão do Congresso Nacional em comemoração dos 15 anos do Plano Real. Celebrávamos uma vitória penosa, depois de muitas derrotas, no recinto que era naquele momento testemunha muda de outro persistente fracasso: o da incapacidade da autorreforma das instituições no espírito republicano de abolir privilégios e corrupção.

O paradoxo de Campos Sales é que, ao mesmo tempo em que saneava a economia, se acomodava à "política de governadores", desvirtuamento do ideal republicano e causa da perpetuação das oligarquias estaduais. Governar ficou mais fácil, mas, a médio prazo, a traição da República provocaria o movimento tenentista, as insurreições dos anos 20 e a Revolução de 30, pondo fim àqueles instantes fugazes de apogeu.

O presidente repete agora o erro de predecessores ao manipular os vícios do sistema e pô-los a serviço da ilusão de governabilidade sem consistência ou durabilidade. Pela origem popular e história de vida, ele, como ninguém, teve potencial tão decisivo para servir de modelo para educar o povo que o adora.

Será ingenuidade esperar que deixe de ser complacente com o pior de nossa herança e de endossar com o prestígio pessoal a corrupção que degrada as instituições, a impunidade que desmoraliza o povo?

Na véspera dos 25 anos da Nova República, se ele quiser, ainda tem tempo para assegurar vida longa a este rebrotar da democracia, encarnando os valores republicanos de austeridade e lisura legados por Tancredo Neves, Ulisses Guimarães e Mario Covas.

Rubens Ricupero, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Governo Lula ainda paga CPMF em seus contratos

Regina Alvarez e Leila Suwwan - Brasília
DEU EM O GLOBO

Prática generalizada dá prejuízo de milhões aos cofres públicos

Apesar de o presidente Lula repetir que o imposto sobre cheques foi derrubado pelo Senado mas que não viu um só empresário reduzir os 0,38% dos preços dos produtos, a CPMF continua incorporada aos custos de contratos do governo federal com a iniciativa privada, um ano e meio depois de ter sido extinta. O Tribunal de Contas da União (TCU) constatou, em pelo menos 20 auditorias realizadas em 2008 e este ano, que empresas e órgãos do governo ainda repassam o equivalente ao valor do tributo inexistente para fornecedores, que o embolsam com lucro, informam Regina Alvarez e Leila Suwann. Para o TCU, há indício de que a prática seja generalizada na administração pública, e o prejuízo para os cofres públicos é de milhões de reais.

Contratos do governo ainda incluem a extinta CPMF

Tributo derrubado há um ano e meio é embolsado por fornecedores da iniciativa privada, com prejuízo de milhões aos cofres públicos

Um ano e meio após ser extinta, por decisão do Congresso Nacional, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) continua incorporada aos custos de contratos do governo com a iniciativa privada.

Em pelo menos 20 auditorias realizadas em 2008 e 2009, o Tribunal de Contas da União (TCU) constatou que empresas e órgãos do governo continuam repassando o valor do tributo já extinto para os fornecedores, que o embolsam como lucro.

Segundo o TCU, há indício de que a prática é generalizada na administração pública. Embora não esteja totalizado, o prejuízo para os cofres públicos é de milhões de reais. Em apenas um dos contratos auditados em 2008, o TCU constatou o pagamento indevido, por empresa do governo, de R$ 3,38 milhões relativos ao tributo.

Quando voltou a criticar o fim da CPMF, quarta-feira, o presidente Lula estocou também os empresários, como fizera anteriormente: — A mesquinhez política acabou com a CPMF. E não vi nenhum empresário diminuir 0,38% no custo do produto que ele fabricava e que vendia para o povo consumidor deste país.

Pela investigação do TCU, o governo está dando a sua contribuição para elevar os lucros dos empresários e os custos dele próprio, já que deixou de recolher o tributo, mas continua pagando.

Até dezembro de 2007, as empresas contratadas pelo setor público podiam incorporar a alíquota de 0,38% da CPMF no valor dos contratos.

Assim, recebiam o valor que teriam de repassar no recolhimento do tributo, neutralizando esse custo nas obras e serviços. Nas grandes obras de infraestrutura, a praxe era incluir o tributo no cálculo do BDI (Bonificações e Despesas Indiretas).

— Não é mais uma questão tributária.

É uma questão orçamentária.

As empresas estão cobrando o imposto e não repassam para o governo — alerta o ministro do TCU André Luiz de Carvalho, relator de alguns dos processos em que foi identificada a cobrança indevida da CPMF.

Problema atinge obras de estradas

Entre esses processos, está o da construção da usina de Candiota III, em Candiota, no Rio Grande do Sul — uma obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) — em que o TCU identificou R$ 3,38 milhões pagos indevidamente. A direção da estatal responsável, a Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE), subsidiária da Eletrobrás, alegou que não adotara providências para o expurgo do tributo por entender que haveria orientação específica do governo nesse sentido, o que não ocorreu.

Nesse caso, o TCU determinou o expurgo dos valores em setembro de 2008, o que foi feito de novembro a janeiro de 2009, “em valores ligeiramente superiores ao indicado pelo tribunal” , segundo a empresa. “A manifestação do diretor-presidente substituto (da empresa) ilustra situação que pode e deve estar ocorrendo em toda a administração federal”, informa a auditoria do TCU.

O problema identificado pelo TCU nos contratos do governo ganha contornos de gravidade por atingir também as obras rodoviárias, vultoso setor de investimento público. Em junho, o TCU deu prazo para que a Superintendência do Dnit em Sergipe cobrasse a devolução da CPMF que vinha pagando, desde janeiro de 2008, a três empresas de engenharia que trabalham na adequação de rodovias na divisa com a Bahia — obra com aporte de R$ 11 milhões. A CPMF continuou embutida nos pagamentos às empreiteiras após as medições durante 2008. O gestor tentou argumentar que não fez esse pagamento, mas o valor consta no BDI do projeto.

Em sua decisão, o relator desse processo, José Jorge, reiterou que os casos estão pipocando em decisões recentes do TCU: “Verifico, na recente jurisprudência desta Corte, que esta não é a primeira vez que o tribunal se depara com a incidência indevida da CPMF. Em outras oportunidades, o tribunal tem determinado a oitiva prévia das partes (...) e, em seguida, concluído pela ilegalidade da cobrança, determinando, então, a exclusão do referido tributo dos contratos.

Como voam os rios

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O avião em que voa o suíço Gerard Moss parece laboratório. E é. Ao lado do piloto fica uma engrenagem que lembra uma coleção de grandes tubos de ensaio. Sua missão, a cada decolagem, é capturar a umidade externa, que depois vai ser condensada nos tubos e guardada em miúdas gotas que serão estudadas. Elas trazem informação preciosa: onde nascem as chuvas

Elas nascem na terra, no céu, nos rios, nos oceanos, e debaixo da terra. Árvores da Amazônia jogam um papel fundamental nesse complicado processo. Uma grande árvore consegue evaporar até 300 litros num dia. A floresta é inigualável na capacidade de concentrar umidade no ar. Os ventos empurram essas massas de vapor de água. Elas são imensas, comparáveis aos rios. Por isso, os cientistas as chamam de “rios voadores”.

Enquanto ouvia a explicação de cientistas e de Gerard Moss na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), semana passada, em Manaus, não pensava em nada mais. Fascinada, acompanhava as explicações que transformava em notas rápidas para o meu b l o g ( w w w. m i r i a m l e i tao.com). Nas salas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a internet wireless funcionava, permitindo o fluxo de informação.

Já havia lido sobre os rios voadores, mas nada como ouvir de perto sobre os estudos que tentam desvendar mais um dos mistérios da Amazônia. Quanto da nossa chuva, devemos à floresta? Já se sabe que é grande parte.

— Um dos dados captados pela pesquisa é que a vazão de um dos rios voadores que estudamos, indo da Amazônia para a área mais degradada de São Paulo, foi de 3.200 metros cúbicos por segundo. Esse volume de água é 27 vezes a do Rio Tietê, é maior do que a do São Francisco. Não é perene.

Nem tudo será chuva.

Por isso, se diz que é vapor de água precipitável. Mas é água passando lá em cima — diz Moss.

Ele chegou no painel sobre rios voadores, na SBPC, avisando aos alunos e professores presentes que não é cientista e até já foi acusado de vulgarizar a ciência, mas que passar informação para a população é fascinante. Ajuda a proteger a Amazônia, ainda mais.

— Para mim, desmatamento não é uma estatística.

Eu voo no Brasil há 20 anos e vi a degradação avançando. Sou sentimental, eu sei, mas se tivéssemos noção do valor da Amazônia, lutaríamos para manter cada árvore em pé.

O Brasil é campeão das chuvas. Aqui, chove três vezes mais do que nos EUA.

Desorganizar esse regime de chuvas é o maior risco agora. O desequilíbrio de um sistema delicado e complexo que cria dependências mútuas — a chuva precisa da floresta, que precisa da chuva, que cai lá e no resto do Brasil — é um dos riscos neste momento de mudança climática. A Amazônia tem que ser estudada: cada árvore, cada fenômeno.

Por isso, sua ocupação pela ciência vai nos dar mais do que a ocupação pelos madeireiros, pelo fogo que prepara os pastos, pelo rebanho que ocupa os pastos, pela soja e outras culturas que podem vir depois.

Ou não. Pior é o aspecto da terra calcinada que fica na maioria dos casos após essa entrada predatória.

No Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) tem um bosque que se chama: Bosque da Ciência.

Nesse bosque, mora uma árvore mais velha que o Brasil. Tem 600 anos. O tronco já tem cavidades, mas ela está viva; quem sabe por ter um tronco assim é que sobreviveu tanto tempo, porque é espécie madeireira.

Os galhos têm poucas folhas, mas é pela época do ano, explicou o cinegrafista da Rede Amazonas. Em outras épocas fica mais frondosa. Mas foi debaixo dessa Tanimbuka que Juliana Rosa, produtora do Espaço Aberto, pôs quatro cadeiras de vime, emprestadas pelo instituto, para que a gente gravasse o programa desta semana, que vai ao ar na quinta. Sentaramse comigo o químico Ângelo da Cunha Pinto, da UFRJ, o biólogo Philip Fearnside, e Gerard Moss.

Fearnside é o segundo cientista mais citado no mundo quando o tema é aquecimento global. Seu sotaque não nega que é estrangeiro, mas sua história assegura que já é brasileiro.

Está no país desde 1974. É pesquisador do Inpa há 31 anos. Tanto ele quanto o suíço Gerard Moss usam o pronome “nós”, quando se referem aos brasileiros.

Fearnside acha que será um erro se optarmos por asfaltar a BR-319. Ele disse, no programa, que ela incentivará a ocupação da floresta mais preservada, não foi feito trabalho decente de proteger a área em volta, há alternativas melhores, e não foi feito estudo de viabilidade econômica. Será mais um dos desastres irracionais que acontecem na Amazônia.

Racional é pesquisá-la porque da sua biodiversidade exuberante quase nada sabemos, confirmou o professor Ângelo. Moss contou um pouco de como são feitos os difíceis e caros voos para se pegar no ar material para estudar os rios voadores. Ele chegou para a entrevista com uma camisa escrito, de um lado, “Brasil das Águas”, de outro, “Petrobras”.

O primeiro nome é de um projeto ao qual se dedicou por cinco anos, de recolher com voos rasantes de hidroavião água dos rios para analisar a qualidade. O segundo nome é da patrocinadora dos estudos.

O que vi e ouvi, na viagem da semana passada, confirma o que vi em outras. O dilema entre agronegócio e Amazônia não existe. Sem a floresta não seríamos o que somos em produção de alimentos.

Como disseram os professores com dados e ênfase: a floresta presta serviços ambientais ao país e ao mundo. É hoje o tempo de a economia ouvir o que a ciência tem a dizer. Amanhã pode ser muito tarde.

Com Alvaro Gribel

"AIDA" (Part 1) - Giuseppe Verdi

Vale a pena ver o vídeo

Clique o link abaixo
http://www.youtube.com/watch?v=f3DYA1uhR8g

sábado, 18 de julho de 2009

A crise não viaja

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando o então presidente da República José Sarney se afastava do País costumava-se dizer que "a crise viajou". Se a memória não falha, quem disse pela primeira vez a frase foi o então senador Fernando Henrique Cardoso.

Mas, agora, com Sarney na presidência do Senado, passe ele suas férias na ilha de Curupu ou no exterior, a crise não viajará nem arrefecerá. Bobagem imaginar que duas semanas de recesso do Congresso tenham o poder de amenizar uma situação que, em cinco meses, não fez outra coisa além de se agravar.

Ao presidente do Senado apetece considerar que a crise é resultado de "uma campanha pessoal do jornal O Estado de S. Paulo" que obrigou "outros jornais e televisão a repercuti-la".

A despeito da fidalguia do senador de atribuir ao Estado um poder de influência grande o bastante para arrastar atrás de si a concorrência; não obstante a descortesia de imputar aos demais veículos de comunicação nacionais e internacionais traços de indigência e carência de discernimento, sua avaliação do caso é tão certeira quanto o foi na análise que balizou sua decisão de ascender pela terceira vez à presidência do Senado.

Na "prestação de contas" do primeiro semestre de mandato apresentada ontem para um plenário pleno de cinco senadores, o presidente da Casa falou uma verdade: "Infelizmente, avaliei mal."

Lamentavelmente, foi a única dita em sua inteireza. No restante do discurso, Sarney variou entre a mentira, a meia-verdade e as tergiversações habitualmente de plantão.

O cotejo entre os fatos, seus atos, seu discurso de posse e sua prestação de contas o demonstra.Ontem afirmou ter sido candidato quase obrigado. "Fui convocado e aceitei minha candidatura para servir ao País."

No fim do ano passado, quando o amigo Marcos Vilaça ainda tentava demovê-lo da empreitada e convencê-lo a disputar a presidência da Academia Brasileira de Letras - um fecho de biografia muito mais seguro que o comando do conturbado Senado -, Sarney aludiu a razões familiares e concluiu: "O destino me leva à política."

Numa nova conversa com o amigo, em março último, deu-lhe razão, mostrou-se arrependido da escolha e aventou a hipótese de renúncia antes do término do mandato, ao completar 80 anos de idade, em abril de 2010.

Foram razões políticas e não deveres cívicos que fizeram Sarney atender aos apelos do PMDB - interessado no comando do Congresso todo -, ao DEM - empenhado em impedir que o PT ocupasse o cargo - e interpretasse como incentivo a estratégica neutralidade do presidente Luiz Inácio da Silva em relação à candidatura do correligionário Tião Viana.

Segue a prestação de contas de ontem com o presidente do Senado afirmando que em seu discurso de posse enfatizou "a necessidade de fazermos uma reforma administrativa" para fazer frente aos "sérios problemas que precisavam ser enfrentados".

No discurso de posse, Sarney não só não enfatizou como sequer citou reforma alguma. Só depois de lido o pronunciamento escrito é que anunciou de improviso o corte de 10% nas despesas.

Um mero factoide (no dia seguinte, manchete dos jornais) diante da enormidade das mazelas depois reveladas.

Naquele discurso, aliás, Sarney dizia que acima de tudo estava a "independência, a autonomia e a dignidade da Casa". Seria esse o seu lema, ainda que ao sacrifício dos "deveres de amizade, deveres políticos ou partidários".

A submissão ao Palácio do Planalto e a invocação de todos os deveres há cinco meses negados testemunham a quebra do compromisso assumido.

"As circunstâncias", disse ele ontem, transformaram a "reforma" em "pretensa crise de desmoralização do Senado" e inviabilizaram "a discussão dos grandes temas do nosso momento político".

Quais sejam, as medidas provisórias, as reformas política e tributária e a crise econômica mundial. Para esta última, Sarney nomeou uma comissão de notáveis, cuja única função seria imprimir majestade ao início do seu mandato, pois concretamente não haveria nada que pudesse propor. Como, de resto, não o fez e o mundo ainda assim se acalmou.

Sobre as MPs, sua única atitude foi dar ao Palácio do Planalto na companhia do presidente da Câmara, para saber de que forma seria mais conveniente ao presidente da República se conduzir o assunto no Congresso.

A respeito das reformas política e tributária, atribuir o fracasso à crise é retirar da leniência do Executivo e da indiferença do próprio Legislativo suas inestimáveis contribuições.

Mas, segundo as contas prestadas pelo presidente do Senado, a adversidade não o impediu "de tomar as medidas necessárias para a modernização" da Casa, o "saneamento dos graves problemas de natureza ética e legal que foram revelados" - na maioria, pela "campanha pessoal do jornal O Estado de S. Paulo".

Assegurou não ter titubeado em agir. E citou, uma a uma, as decisões tomadas sob intensa pressão. Entre as quais se inclui o afastamento de Agaciel Maia, ora em gozo de licença-prêmio.

Lula defende adversários históricos

Ana Paula Scinocca
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente "esquece" o que disse e sai em defesa de Sarney, Maluf e até do ex-inimigo Fernando Collor

Se o presidente Lula chamasse o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva para um debate sobre a honestidade dos políticos e o papel desempenhado por figuras como José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor, o encontro terminaria mostrando, de maneira insólita, o quanto um diverge do outro. Ou quanto o Lula presidente resolveu adaptar aos tempos atuais tudo o que disse o Lula sindicalista e político da oposição ao longo de duas décadas - anos 80 e 90.

O Lula sindicalista denunciaria os "300 picaretas do Congresso", "o grileiro" Sarney e seu patrimonialismo, "a falta de honestidade" de Maluf, além de defender o impeachment de Collor, acusado de comandar um esquema com o ex-tesoureiro PC Farias. Desde que colocou a faixa presidencial, em 2003, Lula passou por uma série de experiências que o fizeram ir além da renúncia ao que disse. O presidente passou a julgar os políticos por critérios especiais, comportando-se com um juiz da história.

Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), um aliado de primeira hora do governo Lula, o presidente vive agora uma fase que merece uma reprimenda a la rei de Espanha. "Lula tem 80% de popularidade. Nunca um presidente teve esse índice. O sucesso deve ter subido à sua cabeça, pois só isso pode explicar o bando de bobagens e coisas que ele tem feito. Eu vou repetir o que o rei da Espanha (Juan Carlos) disse ao Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Cala-te, cala-te Lula", disse o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

A governabilidade máxima e a qualquer custo também ajudaria a explicar o comportamento.
Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da PUC-SP e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lula teve de fazer concessões antes mesmo de chegar à Presidência, o que definiu o estilo camaleônico atual. "O Lula tem defendido pessoas que têm importância em seus postos ou partidos. Tanto o presidente quanto o partido dele, o PT, tiveram que fazer concessões. Só que Lula se adaptou mais rápido a elas", avaliou Teixeira.

POLARIDADE

Na linha "esqueçam o que eu disse", o Lula presidente saiu nos últimos dias em defesa de adversários históricos, que ele tratava como inimigos, e de teses que sempre rejeitara. O Lula de hoje acha o Congresso "a caixa de ressonância da consciência política da sociedade no dia da votação" e as pessoas que lá estão, como o presidente José Sarney (PMDB-AP), a quem em 1986 chamara de "grileiro", de pessoa "com história e incomum". Ao mesmo tempo, como um político acima dos políticos, chamou os senadores de "pizzaiolos".

Lula também já "abençoou" Severino Cavalcanti (PP-PE), hoje prefeito de João Alfredo (PE), que se viu obrigado a renunciar ao comando da Câmara e ao mandato, em 2005, acusado de praticar "mensalinho" na Casa.

COLLOR

Na semana passada, em visita a Palmeira dos Índios, em Alagoas, sepultou as divergências com Collor - inclusive o fato de em 1989 o ex-presidente ter levado ao programa de campanha na TV a mãe de uma filha do então adversário fora do casamento -, para sair em defesa do hoje senador. Três anos atrás, com Collor à beira de ser eleito para o Senado, Lula sentenciou: "O que não vai melhorar é se o Collor se eleger senador."

Em Palmeira dos Índios, no último dia 14, de microfone na mão, Lula anunciou a mudança.

"Quero fazer justiça ao Collor", disse ele. Além da "justiça" a Collor, a quem o presidente elogiou pela sustentação política dada ao governo petista, Lula comparou o ex-presidente alagoano ao também ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Com popularidade em alta, Lula diz o que quer, se contradiz, e não derrete sua gordura eleitoral.

Pelo contrário. Até aqui, segundo pesquisas, ele está na condição de maior cabo eleitoral da próxima eleição, no ano que vem.

O recesso começou tarde

Coisas da Política :: Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O bem-vindo recesso parlamentar deveria ter começado no princípio do mês e terminar no início da campanha eleitoral do próximo ano, prazo mínimo para os eleitores e a população esquecerem a pior temporada do pior Congresso de todos os tempos.

Mas, baixando a terra e pisando com cuidado para não sujar os sapatos, ninguém saiu ileso da sucessão de escândalos que desmoralizou o Congresso, exibiu a fragilidade da oposição – que pode ser avaliada pelo 8 a 3, resultado de pelada, da composição da CPI da Petrobras, com o governo senhor da presidência e da relatoria. Quando recomeçar o espetáculo, com a CPI coberta pela poeira do cerrado, todo o elenco estará cuidando do voto para mais um mandato.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nos dias que passou em Brasília, cuidou mais da campanha da sua candidata, a ministra Dilma Rousseff, do que da papelada que não lê e da qual toma conhecimento pelo resumo de meia dúzia de linhas digitadas por seus assessores.

Na pré-campanha de um descaro sem paralelo, o presidente no azul do céu da popularidade, acima de 80% nas últimas pesquisas, vê-se no espelho como o dono do país. As viagens semanais, quando está no país, acompanhado da ministra Dilma, para as visitas às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o reforço do Minha Casa Meu Voto, ainda nos primeiros passos, com a promessa da construção de 1 milhão de residências populares, coadunam-se bem com o pacote do Bolsa Família, do Bolsa Escola, do aumento do salário mínimo, do Pró-Uni que promete universidade para todos.

A vaidade do improvisador fluente subiu à cabeça, e não é boa conselheira. A chalaça insultuosa de chamar os senadores que combatem o governo na CPI da Petrobras de "bons pizzaiolos" deflagrou a reação do plenário, inclusive dos aliados, com as exceções de praxe do cordão que cada vez aumenta mais. Vários senadores, inclusive da ala governista, subscreveram o requerimento do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) propondo um voto de censura ao presidente. Advertido, Lula caiu em si e manifestou seu arrependimento pela frase infeliz.

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), passou o dia em seu gabinete, evitando comentar as novas denúncias contra ele e pessoas de sua família. E, ao deixar o gabinete, quando os repórteres perguntaram como se sentia com as férias parlamentares, desabafou: "Graças a Deus!".

É cedo para tentar especular sobre os próximos desdobramentos da crise do Congresso, na campanha eleitoral que deverá pegar fogo no próximo ano, depois da trégua das festas natalinas, da passagem de ano e do fim das férias escolares. Não é apenas a desmoralização do Legislativo que envolve os partidos e enxovalha lideranças atingidas por denúncias que estão sendo investigadas, que recomenda cautela nas análises, penduradas em tantas dúvidas.

O favoritismo da candidata Dilma Rousseff, herdeira da popularidade do presidente Lula e que começa a chegar às ruas das capitais e grandes cidades, ainda não foi submetido ao teste do confronto com as oposições. Enquanto o esquema governista tem uma candidata, com o apoio do presidente Lula, a oposição desperdiça o tempo com as hesitações entre dois e três pretendentes, incluindo o deputado Ciro Gomes (PSDB-CE), que confirma ser a Presidência sua ambição prioritária. O chove-não-molha entre os governadores José Serra, de São Paulo, e o mineiro Aécio Neves, engessa a oposição, fragilizada no Congresso e que se sustenta com a atuação vigorosa de meia dúzia de senadores e deputados. Poucos deputados. O presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), é candidato declarado a vice-presidente na chapa oficial, com o apoio de Lula. E tem conseguido preservar a Casa do descalabro moral do Senado.

Um inesperado sinal de que a desmoralização do Congresso começa a chegar à rua: a passeata dos estudantes, promovida pela União Nacional de Estudantes e outras entidades – que reuniu 2 mil pessoas, pelos cálculos da Polícia Militar, e mais de 5 mil segundo os manifestantes – no desfile pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para o 51° Congresso Nacional da UNE. A UNE foi agraciada pela Petrobras e por órgãos públicos federais com a verba de R$ 920 mil. Não faltará dinheiro para a campanha oficial.

Anormal e imoral

Cristovam Buarque
DEU EM O GLOBO


No Brasil, é normal seus dirigentes serem vistos e sentirem-se como casta, com privilégios muito além dos direitos aos quais o povo tem acesso. Os serviços de saúde e educação à disposição das famílias dos eleitos são completamente diferentes daqueles dos seus eleitores.

Ninguém se espanta com o fato de o teto do salário no setor público ser 25 vezes maior que o piso salarial do professor — cujo valor, apesar de tão pequeno, até hoje, um ano depois de sancionado, ainda é contestado na Justiça, como inconstitucional.

É visto como natural que a parcela rica do Brasil tenha o maior índice de cirurgias plásticas de rejuvenescimento em todo o mundo e a parcela pobre não tenha acesso nem mesmo às mais fundamentais operações; que os 10% mais ricos tenham esperança de vida de 72 anos e os 10% mais pobres de apenas 45 anos. Todos aceitam que milhares peçam esmolas para comprar comida e remédios que enchem as prateleiras de farmácias e supermercados.

Considera-se normal que o 1% mais rico da população receba 20,5% da renda nacional e os 50% mais pobres recebam apenas 13,2%; que 19% das casas não tenham água encanada e 51% não tenham saneamento ou esgoto.

Aceitamos que 50 milhões dependam de ajuda no valor de R$ 182 por mês para a sobrevivência de toda a família, R$ 6 por dia, sem chance de trabalho com salário digno.

É natural que crianças vivam nas ruas, sejam mendigos, pivetes, prostitutas, trabalhadores, e não estudantes; que 11% delas cheguem aos 10 anos sem saber ler; e 60 abandonem a escola a cada minuto do ano letivo, antes da conclusão do ensino médio; e que, entre as que permanecem, muitas vejam a escola como um restaurantemirim que fornece merenda.

É aceito que os professores tenham a menor remuneração entre os profissionais com formação equivalente; que deem aulas em escolas sem água nem luz, raras com computadores e sistemas de vídeo. Ficou normal que as escolas tenham se transformado em campos de batalha, os professores sejam agredidos, as aulas viraram balbúrdia.

Mesmo sem guerra, nos acostumamos com 125 mil pessoas mortas por ano em consequência da violência. Aceita-se que o país com um dos cinco maiores territórios do mundo — além de litoral e espaço aéreo — não apoie suficientemente suas Forças Armadas para defenderem esse patrimônio.

Não discutimos sequer o fato de conviverem 4,5 milhões de universitários ao lado de 14 milhões de analfabetos adultos e 40 milhões de analfabetos funcionais; de que, 121 anos depois da abolição da escravatura, a cor da elite seja tão predominantemente branca quanto era durante a escravidão; é aceito como normal que as universidades sejam ocupadas, na imensa maioria, por jovens brancos e as prisões, por jovens negros; que em 120 anos da República, o Brasil tenha uma escola diferente para os ricos, na qualidade, da escola para os pobres; e que, depois de 20 anos de democracia, a corrupção seja vista como uma prática comum em todos os níveis da sociedade, especialmente entre os políticos.

É normal que nossas reservas florestais sejam devastadas sistematicamente; e que, apesar de todas as evidências da catástrofe do aquecimento global, abramos mão de bilhões de reais em impostos para viabilizar o aumento na venda de automóveis privados, sem buscar uma reorientação dessa indústria, como forma de manter o emprego do trabalhador, o bem-estar do consumidor e o equilíbrio ecológico, a serviço das próximas gerações.

É normal prender quem rouba comida ou remédio para os filhos e deixar solto quem rouba bilhões mas pode pagar bons advogados.

E é normal, nos dias de hoje, que os partidos que lutavam contra as injustiças tenham optado pelo abandono dos sonhos, entregando-se às mesmas práticas do passado e esquecendose de suas promessas. Na República, que comemora 120 anos, é normal que a justiça, a escola, a saúde, o transporte, a moradia, a cultura sejam tão diferenciados, conforme a classe social, que as pessoas não pareçam compatriotas.

No Brasil, o anormal é normal; por isso, o normal é anormal. E imoral.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF).

Sarney se diz injustiçado e culpa a imprensa

Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS: Senador evita responder a apartes dos colegas e pede que respeitem seu silêncio

BRASÍLIA. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), aproveitou o último dia antes do recesso parlamentar para, em discurso diante de um plenário vazio, com apenas cinco senadores, reafirmar que ficará no cargo para enfrentar a crise. Evitando usar as palavras renúncia e afastamento, Sarney disse que é a terceira vez que assume o comando do Senado e que sempre o encontrou em meio a crises. O senador acusou a imprensa de fazer uma campanha pessoal contra ele.

- Os desafios, a carga de trabalho, os insultos, as ameaças não me amedrontaram e não me amedrontam.

Para os poucos senadores presentes, ele leu o discurso "Uma prestação de contas" da cadeira de presidente, sem esconder o abatimento. Concluiu citando Sêneca, filósofo e escritor do Império Romano: "As grandes injustiças só podem ser combatidas com o silêncio, a paciência e o tempo".

Agradeceu aos partidos que sustentam sua gestão, inclusive o PT. E lamentou ter perdido o apoio do DEM. Disse que só disputou a eleição porque foi convocado pelo seu partido e admitiu, pela primeira, vez que avaliou mal os desafios da missão:

- Esqueceram o Senado para invadir minha vida privada e a de minha família.

Sarney tentou demonstrar que as turbulências não paralisaram a Casa, e enumerou 40 medidas tomadas por ele neste primeiro semestre para corrigir irregularidades e distorções administrativas. Ao ser questionado por jornalistas, ao deixar o plenário, Sarney pediu para que respeitassem o seu silêncio.

Ao discursar, enfrentou constrangimentos, em apartes de Cristovam Buarque (PDT-DF) e Álvaro Dias (PSDB-PR). O pedetista pediu que Sarney entregasse ao presidente Lula o balanço das atividades do Senado para que ele entenda que "não pode humilhar" a Casa, chamando senadores de pizzaiolos.

Evitando polemizar, Sarney respondeu que mandaria cópia do relatório a Lula e que transmitiria as observações do pedetista. Já Álvaro Dias demonstrou incômodo com as declarações do presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), que disse não se preocupar com a opinião pública.

- Atue junto ao Conselho de Ética para que ele possa julgá-lo de forma transparente, imparcial e responsável que exige a sociedade brasileira, especialmente junto ao presidente do Conselho de Ética - pediu.

Sarney evitou responder. Mas lembrou de um episódio entre os dois, quando Dias o procurou no Maranhão, para convidá-lo a ingressar num partido que iria fundar. Diante desse relato, o presidente do Senado acrescentou que, se tivesse que procurar alguém para testemunhar sobre sua vida pública, escolheria o colega do Paraná.

Discurso de fiiliação do ex-Presidente Itamar Franco ao PPS

“Que importa saber qual o caminho que cada indivíduo segue para encontrar a verdade remota. Não há apenas uma estrada que conduza à sua solução.”
Quintus Aurelius, prefeito de Roma

Sinto-me feliz pelos inúmeros convites que recebi de várias agremiações, todas do mais alto valor cívico. Resolvi pelo PPS, presidido pelo meu líder na Câmara dos Deputados, Roberto Freire, quando exerci a Presidência da República.

Não há como desconhecer o passado de lutas do partido e do líder, sem nenhuma motivação que não fosse a ideologia, sem nenhum interesse contestável, fiéis à missão política maior que é a de defender os princípios democráticos.

Tocqueville disse que como o passado deixa de lançar luz sobre o futuro, o espírito do homem vagueia na obscuridade.

É oportuno analisar este pensamento, quando se COMEMORAM os 15 anos do plano real.

E, neste momento, informo que Três desafios eram prioritários, quando assumimos o governo federal, em dezembro de 1992:

-manter o Estado de Direito;

-recuperar a auto-estima do povo brasileiro;

-controlar a inflação e estabelecer o valor da moeda.

O Plano Real, em seu conjunto, não era estático. Ele preconizava a necessidade da reforma tributária e fiscal, visando liberar nosso parque produtivo de obstáculos burocráticos e também criava condições para um novo pacto federativo, nova maneira de dividir encargos e responsabilidades entre os Municípios, Estados e União.

A ausência dessas providências complementares, se reflete hoje no chamado “custo Brasil”, deixando os Estados e Municípios em situação constrangedora, em áreas como a educação, saúde e segurança.

Eis alguns fatos:

- Em fevereiro de 1994 é assinada a Medida Provisória da URV;

-abril de 1994 os juros alcançaram 60 % e a inflação mensal 50%;

-ainda em abril Era fechado o acordo com os credores externos;

- em Junho de 1994 é sancionada a Lei Anti-Truste;

-Finalmente, Em 1° de Julho de 1994, entra em vigor o Plano Real.

Não se pode modificar a história ou intimidar os historiadores, falseando versões sob argumentos personalistas.

A moderna sociedade industrial arrisca perder o indivíduo no meio da massa, favorecendo a sua alienação. o enfraquecimento dos partidos aumenta o isolamento do homem.

O amor a crítica e ao debate, o apego às prerrogativas da cidadania, o dever político no seu mais nobre e dignificante sentido, a irresistível vocação para a vida pública, não são privilégios dos mineiros.

Mas devemos orgulhar-nos, por todas as razões, do fato de ser a comunidade mineira, por influência dos fatores de ordem histórica e social, aquela onde o sentimento dos interesses coletivos, a compreensão do múnus cívico, e essa indomável e altiva tendência política nunca perderam sua forma e constância: Em Minas habituamos a ver o Brasil acima das conveniências.

Rosseau, em “os Devaneios do Caminhante Solitário”, já alertava para a destruição dos recursos naturais do Planeta. Mas também Dizia que a verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela o homem é cego; ela é a luz da razão.

Por outro lado, Hoje fala-se muito em meio-ambiente, ao se mencionar a sustentabilidade. aliás, Em nosso governo foi criado o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal.

Mas, não se pode esquecer que o termo sustentabilidade abrange outras áreas do universo político, como o campo ético, o da educação e a retomada da consciência de um patrimônio moral e espiritual, tudo isso muito longe de uma desmedida ação compressora da publicidade governamental, rolo implacável, azeitado por recursos orçamentários em nível antes nunca vistos, levando à indiferença das elites e ao anestesiamento das massas.

Corremos perigo quando o Governo se expande em demasia e foge de suas responsabilidades, transformando-se em único defensor de interesses.

O Ministro de Negócios Estrangeiros da Alemanha, Joschka Fischer, o mais popular político do país durante o governo Schroder, revelando toda sua perplexidade com os rumos do continente, ao final dos anos 40, parafraseou a angústia de São Pedro e iniciou seu célebre e controverso discurso na Universidade Humbold de Berlim com o famoso “Quo Vadis”, no caso inquirindo a Europa.

Acredito ser o momento de fazer o mesmo, pois o Brasil vive hoje uma das mais importantes etapas de sua história, exigindo de nós um esforço conjunto do que verdadeiramente se caracteriza como sustentabilidade, pois vivemos hoje um autêntico jejum da atividade política autêntica – o exercício da cidadania.

Corre também perigo a democracia, quando o Governo age para assegurar a um partido político a manutenção do poder a qualquer custo, transformando-a numa espécie de sátrapa, onde impera um servilismo contumaz.

Está chegando a hora da regeneração política do País, aviltado por um populismo inconseqüente, o que não se casa, Por exemplo, com o abandono dos aposentados, que foram os que fizeram ontem o que hoje desfrutamos.

Está entre os mais respeitáveis valores republicamos o que diz que não pode haver aliança entre a política maior e àquela menor, que atende inconfessáveis interesses privados.

As reiteradas ações do governo, destinadas a favorecer o culto da personalidade, pode levar-nos a uma espécie de cesarismo caboclo, altamente comprometedor da saúde republicana.

O exercício do poder impõe a seu titular austeridade e gravidade, muito longe de uma certeza messiânica, de incontinências verbais, de esforços destinados a negar o passado e a contribuição de antecessores.

A República não aceita a existência de atos administrativos secretos, inconcebíveis pela violência contra a Constituição, onde princípio basilar exige a publicidade de todos os atos. nem estudos que afetam sobremaneira os estados.

Senhor governador, tenho certeza que vossa excelência está atento à questão da renovação das concessões de geração, transmissão e distribuição das empresas do setor elétrico, que afeta a cemig, três marias em particular e muito aos consumidores mineiros. parece que o governo federal, segundo se noticia, está dividido.

O PPS, líder Roberto, deve acompanhar de perto o desenvolvimento desse assunto.

Governador Aécio Neves:

“Seja um libertador de idéias reprimidas”.

Olhos na Estrela Polar acima do horizonte ou no sol do meio dia, pois, às vezes, a latitude política pode não ser confiável.

Obrigado amigos do PPS!

Obrigado aos que aqui vieram!

Como dizia o poeta e cancioneiro juizforano, Roberto Medeiros, pé no chão e olhos nas estrelas.
Lembremo-nos, Senhor Governador, dos versos de Geraldo Vandré:

“Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Muito Obrigado!

Itamar Franco

Belo horizonte, 06 de julho de 2009.

Uma cilada

Paulo Pinheiro, vereador (PPS) no Rio.
DEU EM O GLOBO

Está no "Aurélio": cultura e o conjunto de características humanas que se criam e se preservam através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. Portanto, privatizar a cultura vai contra a natureza do próprio termo usado pa­ra designá-la. Respiro aliviado por saber que 0 Teatro Municipal do Rio conseguiu escapar da cilada contida no argumento de que a transferência de gestão para a iniciativa privada daria mais transparência à sua administração.

É lamentável o fato de os governos preferirem entregar a terceiros as atribuições que, costitucionalmente, sempre foram suas. Em médio prazo, tal atitude só pode gerar a desqualificação das instituições publicas.

O primeiro semestre de 2009 foi marcado por discussões nas casas legislativas do Rio sobre os projetos que criam as Organizações Sociais - autorização concedida pelo poder publico.a entidades de direi­to privado sem fins lucrativos para executar atividades em diversas áreas. Na mesma época, a prefeitura optou por enviar à Câmara um projeto mais amplo, contemplando também a educação, a saúde,o meio ambiente e o esporte.

O objetivo de ambos os projetos está ligado ao interesse dos gestores públicos de fugir das amarras da Lei das Licitações, do rigor do regime jurídico único (estabilidade do funcionalismo publico) e das obrigações com os tribunais de contas.

É possível detectar incoerências entre os autores das duas propostas: enquanto o Estado pede autorização para habilitar pessoas jurídicas em OSs sem necessidade de experiência anterior, a prefeitura diz que só habilitara PJs com pelo menos dois anos de experiência.

A falta de coerência também esta presente em outro fato: na Alerj, pa­ra conseguir a maioria dos votos favoráveis, 0 governo aceitou retirar do projeto um dos seus principais equipamentos, 0 Teatro Municipal. Já na área municipal, foram retira­dos os mais importantes equipa­mentos das áreas de educação e saúde. Apesar de serem flagrantes incoerências, a retirada do Municipal, das escolas e dos hospitais desse imbróglio nos deixa um pouco menos preocupados.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Os rios voam

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Seis da manhã no resto do país, lá ainda eram cinco, quando o carro entrou no campus da centenária Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O motorista reduziu a velocidade: “Aqui a gente tem que ir bem devagar para não atropelar os bichos.

Preguiça ainda dá tempo de ver, mas cotia aparece do nada.” Assim deve se chegar à Amazônia: com respeito, devagar. A informação surge do nada.

Nossa maior floresta é a maior floresta do mundo. A gente só acha que aquele mundo é simples quando está longe; mais perto, mais difícil de entender ele é. Tenho ido lá para ver um pedacinho por vez. Desta vez, fui à reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus.

No pouco que vi, aprendi muito. Fui, convocada pelo Globo Amazônia, um projeto que tem levado os repórteres da Rede para reportagens, reuniões, entrevistas, no local do nosso maior desafio. Madruguei para entrar ao vivo no Bom Dia Brasil.

A SBPC foi, quando o Brasil precisou, centro de resistência política. Hoje, porque disso o Brasil precisa, escolheu o tema: “Amazônia, Ciência e Cultura”. Numa reunião dessas, só se consegue ver uma parte daquele mundo de aulas, palestras, mesas-redondas e cursos. Os eventos ocorrem simultaneamente, o Campus é enorme.

Só a área verde é equivalente a 700 mil campos de futebol. As construções são em pontos diferentes e distantes, a logística da cobertura tem que ser estudada com cuidado.

Nas salas de aula, as explicações técnicas são dominantes, mas há a hora de ver o panorama. Foi assim que o professor Ângelo da Cunha Pinto, da UFRJ, numa aula sobre química das plantas, saiu dos taxóis e alcalóides à convocação de pesquisa em massa na Amazônia.

Os recursos de pesquisas fizeram como os portugueses, se concentraram no litoral.

Não que devam agora ser reduzidos os investimentos em centros de outras regiões, mas é preciso aumentar o que vai para a Amazônia.

Só 4,5% dos mestres e doutores do Brasil estão lá.

— Como Getúlio um dia pensou em ocupar a região com soldados da borracha, temos agora que convocar os mestres e doutores da Amazônia — disse.

A Academia Brasileira de Ciências tem feito a mesma convocação, a pioneira Bertha Becker tem apontado nessa direção há anos. Eles têm razão: não se protege o que não se conhece; não se transforma em valor econômico o que não foi entendido.

Entender é exercício caprichoso, que exige tempo. O erro do professor de Harvard Mangabeira Unger foi achar que sabia tudo, antes de ver de perto e com calma o que nos tem assombrado há séculos.

Ele tinha soluções prontas e frases feitas. Errou no diagnóstico e, pior, deixou remédios aviados que terão efeitos colaterais.

Mandar os cérebros na frente, explorar com a razão, ocupar com o entendimento.

Essa é a única coisa sensata a fazer diante de uma encruzilhada na qual estão os destinos do Brasil e do mundo.

Com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), numa viagem anterior, aprendi o que é o BoomColapso. A tese, recentemente publicada na “Science”, mostra com estatísticas irrecorríveis que a ocupação desordenada, feita por motosserras, correntões e fogo, produz surtos de crescimento seguidos de colapsos. As áreas atacadas dessa forma medieval até crescem, por pouco tempo; até produzem riqueza, apropriada por poucos; mas depois retornam a quadros agravados de pobreza e violência. O progresso é breve; a destruição e miséria, permanentes.

O Brasil é dividido em regiões e estados para organizar a geografia e a política, mas, na vida real, o Brasil é uma continuidade por terra, mar e ar. Blocos de umidade se formam sobre a Amazônia, correntes de ar levam a umidade para o resto do país nos “rios voadores”. Nem todo vapor de água será chuva, por isso os cientistas falam em umidade precipitável.

Diante de um mapa mundi , o professor Pedro Leite da Silva Dias explicou que sobre três regiões do mundo se formam imensas massas de umidade: Amazônia, África e Indonésia. Essa água em forma gasosa é transportada para outras regiões do globo terrestre. São responsáveis em grande parte pelas chuvas do mundo. Como se dá essa formação de massas úmidas? Como elas são transportadas? De onde exatamente vêm? Os cientistas estão estudando isso há anos. Já no fim dos anos 70, o professor Eneas Salati fez modelos. Em 1985, uma parceria entre a NASA e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), aprofundou os estudos dos JBNs, Jatos de Baixo Nível.

O professor José Marengo batizou os JBNs com o feliz nome de “rios voadores”. A nova e complexa metodologia de pesquisa foi explicada pelo professor Marcelo Moreira numa aula tão técnica que tive saudades da “banda diagonal endógena”. Achei que os economistas são simples, e o economês, língua corrente. O desafio da pesquisa é captar no ar o vapor de água, condensá-lo, para estudar fisicamente as gotas.

— Precisamos conversar com as moléculas, perguntar de onde elas vêm. Elas têm características diferentes dependendo da origem — explicou, claro como água limpa, Pedro Leite Dias.

Mas quem vai pegar gotas no ar? Quem é o louco? Gerard Moss entra em cena.

Suíço, no Brasil há duas décadas, apaixonado por rios e florestas, Moss foi empresário, hoje voa pela ciência.

Meu espaço acabou.

Amanhã eu conto o resto.

Com Alvaro Gribel

Tensão se amplia em Honduras com anúncio da volta iminente de Zelaya

EFE E AFP
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Segundo Chávez, líder deposto retornaria ao país ?nas próximas horas?, complicando ainda mais possível acordo

A expectativa da volta do presidente deposto Manuel Zelaya causou ontem uma nova escalada de tensões em Honduras. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou, em visita à Bolívia, que o retorno de Zelaya era iminente e disse que o líder deposto estaria disposto "a arriscar a vida" para isso. "Zelaya disse que nas próximas horas entrará em Honduras e estamos com ele. É preciso apoiá-lo", disse Chávez.

Em resposta, o presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, acusou países da região de "infiltrar uma grande quantidade de gente" em seu país para cometer "atos guerrilheiros". Ele disse que 56 nicaraguenses teriam sido presos em protestos contra seu governo em Tegucigalpa e advertiu que o Exército e a polícia hondurenhos estariam preparados "para repelir tentativas de intervenção estrangeira" no país.

"Temos certeza de que o apoio estrangeiro (a Zelaya) já está dentro de Honduras", afirmou Micheletti à rede de rádio e TV colombiana RCN. "As manifestações aqui nunca haviam sido tão violentas e além disso foram usados lemas de países da América do Sul."

Chanceler do governo destituído, Patrícia Rodas tinha dito na quinta-feira que Zelaya poderia até já estar em Honduras e seu objetivo era estabelecer uma nova sede para sua administração, de onde ele lideraria a "batalha final contra os golpistas". Horas mais tarde, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, acusou o Exército hondurenho de ter realizado um movimento militar "impressionante" na fronteira.

O porta-voz das Forças Armadas de Honduras, Ramiro Archaga, negou a informação. E a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pediu que outros países não interfiram em Honduras e advertiu contra "ações que poderiam levar à violência".

Ontem pela manhã, 500 simpatizantes de Zelaya bloquearam as principais estradas de acesso a Tegucigalpa pelo segundo dia consecutivo. O governo de facto adiantou o salário dos professores numa tentativa de evitar que eles se juntassem aos manifestantes.

ENCONTROA escalada da tensão aumenta a pressão sobre o encontro, previsto para hoje, na Costa Rica, entre representantes dos governos de Zelaya e de Micheletti. Mediador das negociações, o presidente costa-riquenho, Oscar Arias, propõe a formação de um governo de reconciliação em Honduras e diz que a normalização da situação deve passar pela volta de Zelaya ao poder.

Sindicatos hondurenhos ameaçam iniciar uma greve geral se não houver acordo até amanhã. Mas as posições dos dois lados parecem irreconciliáveis. Zelaya quer voltar ao poder de forma incondicional, embora tenha dito na ONU que não pretende se eleger novamente. Micheletti - que é apoiado pelas Forças Armadas, a Suprema Corte e o Congresso - diz que pode deixar o cargo, que assumiu após o golpe, desde que Zelaya não volte.

"Se Zelaya desistir de incitar um movimento revolucionário no país e de voltar (ao poder) eu cedo meu cargo", afirmou Micheletti à RCN. "Não queremos ficar como os venezuelanos, os equatorianos e os bolivianos. Queremos um país livre e democrático."

Zelaya foi expulso de Honduras no dia 28 por militares que o enviaram de pijama para a Costa Rica. Segundo os golpistas a ação foi necessária porque o presidente queria violar a Constituição hondurenha, organizando uma consulta popular sobre uma emenda que lhe permitiria se eleger novamente. Para os golpistas, a iniciativa seria uma indicação de que Zelaya pretendia seguir o caminho de Chávez, seu aliado nos últimos anos.

Agora, a oposição hondurenha acusa o venezuelano de estar por trás dos planos do presidente deposto para voltar ao país secretamente. Os EUA também condenaram o golpe, mas têm aconselhado Zelaya a só retornar a depois de um acordo.

No dia 5, Zelaya tentou entrar em Honduras, mas seu avião foi impedido de aterrissar em Tegucigalpa e ele foi obrigado a ir para El Salvador.