sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Um homem insubstituível

Rubens Bueno*

"Menor que o meu sonho não posso ser" (Lindolfo Bell)



Muito se lamentou a morte de Luiz Felipe Haj Mussi. Muitas também foram as homenagens. Mas é o passar dos dias que nos revela o tremendo vácuo, a enorme falta que o dr. Mussi está fazendo. E o pior, a triste falta que dr. Mussi fará, dia após dia, a todos os que tiveram o privilégio de conviver com sua gentileza e generosidade e puderam contar com seu aconselhamento e amizade.

Tenho certeza que falo por muitos.

Dono de um saber na área do Direito como poucos já dominaram, Mussi dedicou grande parte de seu tempo a formar políticos conscientes de seu papel e da ética da qual não poderiam jamais afastar-se um milímetro que fosse. Sem nada exigir, chegou a viajar por estradas muitas vezes ruins eperigosas para dar palestras no interior no Paraná, onde quer que o PPS precisasse dele para fazer cursos de Formação Política. Simplesmente porque ele considerava importante o contato, por menor que fosse, da prática política das regiões mais afastadas com o debate dos compromissos que os representantes precisam assumir. Ele acreditava na semente.

Da mesma forma adentrou às universidades, em todo o estado, para defender o parlamentarismo em memoráveis debates com estudantes e professores, em 1993.

Mesmo sem ter pretensões políticas como costuma considerar-se hoje, dr. Mussi doou um tempo precioso de sua vida a redigir a reforma do Estatuto, o Código de Ética e o Regimento Interno do PPS. A cada congresso nacional do partido que se aproximava, coordenava uma comissão para rever e alterar itens do estatuto, para adequar o partido aos novos tempos, propostas que seriam submetidas ao plenário do congresso.

É que Luiz Felipe Haj Mussi fazia política de verdade. E acreditava nisso. Poderia dizer-se que ele trabalhava nos bastidores se essa palavra não estivesse tão desgastada, com sentido até pejorativo. Seria como, no cinema, alguém que trabalhe atrás das câmeras. Há muito que se fazer, que avaliar, discutir, aprofundar para que decisões sejam tomadas com segurança, para que sejam seguidas com consciência.

Pois o dr. Mussi, desembargador aposentado, muito ligado à família, que fazia questão de ter sempre por perto, ainda conseguia dedicar tempo a discussões partidárias, a análise de assuntos os mais variados para que o PPS sempre encontrasse um norte, o norte claro, correto, coerente, ético e transparente como sempre defendeu.

E nunca perdeu a capacidade de indignar-se. Ele, que não precisava arregaçar as mangas, passava horas e horas debruçado sobre ações, representações e o que mais achasse que precisava ser feito em função de determinado assunto. No dia mesmo em que morreu, segunda-feira 21 de setembro, dr. Mussi havia decidido entrar com representação contra a decisão do presidente Lula de indicar o advogado geral da União, José Antonio Dias Toffoli, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Estava indignado que nenhuma das entidades que representam advogados, magistrados e ministério público o tivesse feito, em função das condenações já sofridas por Toffoli, sem falar dos concursos em que foi reprovado.

Ganhou no TSE sua proposta de liberar a internet para os partidos divulgarem seus candidatos, quando ainda era vedado. Agora o Congresso Nacional amplia considerávelmente o que êle defendia: a Internet é uma conquista da Humanidade pela liberdade de informação e expressão. Preparou ação junto STF para tentar uma Súmula Vinculante que declarasse inelegíveis candidatos processados e condencados em segunda instância, dentre outros crimes, o do desvio de dinheiro público.

Dr. Mussi era assim. Incansável. Determinado a fazer deste um mundo melhor. Um mundo que, para nós que ficamos, e falo também do PPS pelas dezenas de manifestações recebidas de todo o Paraná e do Brasil e, tenho certeza, por muita gente outra, um mundo agora irremediavelmente mais pobre.

Assim como a saudade que a família vai sentindo aos poucos, aumentando sempre, sem possibilidade de ser preenchida ou sequer amenizada, também o PPS começa a perceber que, diferente do que se prega, há sim pessoas insubstituíveis. E certamente Mussi é uma delas.

Seus sonhos continuam maiores que os poucos 64 anos de sua vida!

*Rubens Bueno, ex-deputado federal, é presidente do PPS do Paraná

Troca-troca

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Termina amanhã o prazo para os políticos dançarem conforme a música, trocando de parceiros e de partidos de olho nas eleições de 3 de outubro de 2010.Nessa festança, o que menos conta é a harmonia programática e ideológica. Em geral, o sujeito vai do baião ao balé clássico num rodopio.

Não é o caso de Marina Silva, que abriu a fila, saindo do PT para o PV e para a disputa presidencial. Mas talvez seja o de todo o resto. Atrás dela, Flávio Arns recuou do PT e voltou ao PSDB, e o ex-secretário de São Paulo Gabriel Chalita trocou o PSDB pelo PSB de Ciro Gomes. O PMDB não ficaria fora da orgia.

Na cúpula, apesar da guerra e dos insultos públicos, nem José Sarney e Renan Calheiros, de um lado, nem Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, de outro, se mexeram. Daí para baixo, todos são pé de valsa.

No Espírito Santo, a ex-candidata a vice de Serra em 2002, Rita Camata, sai do PMDB para o PSDB. Em Brasília, o ex-governador e ex-senador Joaquim Roriz desiste do PMDB e adere ao PSC, do qual você provavelmente nunca ouve falar.

Chama-se Partido Social Cristão e já pulou para 17 deputados federais. Não pela religiosidade...

Os empresários estão na dança. O "ideológico" Paulo Skaf, da Fiesp, relutou entre meia dúzia de siglas até se fixar no socialista PSB; o "esquerdista" Ivo Rosset, da Valisère, adere ao PT, dos trabalhadores. O "ambientalista" Guilherme Leal, da Natura, filia-se ao PV de Marina.

E a turma do governo também está ativa. Nunca antes neste país, ao que se lembre, o presidente do Banco Central e o chanceler, embaixador de carreira, assumem uma sigla partidária. Meirelles foi para o PMDB, e Amorim, para o PT. Tudo pode acontecer.

Só faltava o Ciro voltar ao berço e transferir o domicílio eleitoral para São Paulo, que ele xinga há tantos e tantos anos. Não falta mais. E o que ainda falta? O Serra e o Aécio procurarem as suas turmas. Tarde demais. O prazo acabou.

A sorte numa sexta-feira

Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


RIO DE JANEIRO - Hoje é um dia especial. Não vou percorrer labirintos em Tegucigalpa nem mergulhar nos abismos oceânicos, de onde se extrai petróleo. Hoje é sexta, e o que acontecer em Copenhague terá um efeito direto em nossas vidas.

Hoje é sexta. Vou ouvir, como sempre, as batidas do baile funk, um ou outro tiro perdido, motoristas tresloucados tomando as ruas, enfim, hoje em dia, acontece nas noites de sexta quase tudo o que era reservado ao sábado no poema de Vinicius de Moraes.

Oitenta e cinco por cento dos cariocas, dizem as pesquisas, querem a Olimpíada no Rio. Os habitantes de Tóquio querem menos a escolha de sua cidade. Apenas 56%. Em Chicago há movimento contrário, pois temem-se os gastos excessivos e a roubalheira de políticos.

As autoridades declararam feriado, há festas programadas na orla. Espero encontrar a feira livre na Nossa Senhora da Paz. É tempo de jabuticabas e surgiu uma romã imensa, cinematográfica.

Dizem que Lula falará sobra a importância da Olimpíada para a autoestima dos brasileiros.

Nem sei se isso procede, mas, autoestima pra cá, autoestima pra lá, estamos sempre vivendo o mesmo enredo.

Deveria haver uma hora para cessar a autoestima. Meia noite é pouco, reconheço. Mas, às duas da manhã, quando todos os bares já fecharam, todas as autoestimas deveriam também ser negadas. Hora em que deveríamos aceitar o nosso destino e dormir em paz, como quem mora em Tóquio, Chicago ou Madri.

Se o Rio vencer, esperam-se investimentos maciços. Tivemos um Pan que nos deixou alguns elefantes brancos e muitas dúvidas sobre a aplicação do dinheiro.

Em caso derrota, com as ruas cheias e alguma bebida, talvez seja preciso acalmar as pessoas.
Convocou-se uma festa antecipada. De qualquer forma, à noite dançamos o funk.

O pódio sonhado

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


O Brasil amanhece hoje sonhando com o ouro olímpico. Se o Rio for indicado como sede das Olimpíadas, o impacto econômico será de uma dimensão que pode resgatar a cidade do seu longo processo de perda de importância econômica. E se não for escolhido? Bom, agora que o diagnóstico está feito, os projetos identificados, os cálculos realizados, por que não tocá-los?

Os economistas Sérgio Murashima, consultor da Fundação Instituto de Administração da USP, e Roberto Brito de Carvalho, da PUC de Campinas, acham que a mágica das Olimpíadas é criar o fator propulsor, a força que empurra todos os governantes e empresários na mesma direção; reorganiza as prioridades; cria uma pressão do tempo. Isso faz diferença.

Conversei com os dois ontem na Globonews para avaliar esse impacto econômico.

São autores de estudos que pegam aspectos diferentes da questão econômica das Olimpíadas. Murashima fez um estudo a pedido do Ministério dos Esportes.

Roberto Brito fez uma análise sobre o que aconteceu com o turismo nas cidades que foram sede de Jogos.

— Em todas, houve um aumento do turismo de forma permanente. Ele sobe na época dos Jogos, e durante todos aqueles dias, a cidade será exposta. Isso acaba atraindo turistas de forma permanente. Só não aconteceu em Sidney porque em 2001 houve a crise do 11 de Setembro que reduziu o turismo no mundo inteiro — diz Roberto.

Murashima diz que há impactos imediatos e de segundo grau em ser escolhido: — O primeiro é a união das instâncias governamentais.

Agora, o município, o estado e o governo federal estão juntos. Segundo, os empresários reorganizam seus projetos numa mesma direção.

No estudo que fez, Murashima diz que os investimentos feitos para os Jogos têm efeitos multiplicadores — em termos de produção, valor adicionado, massa salarial, emprego, arrecadação de impostos — tão grandes que interessam ao país todo.

— As obras feitas no Rio vão comprar produtos e serviços de outras cidades, portanto, o benefício será nacional — explicou.

Mas será que não há muito mito em torno do assunto? Afinal, no Pan foi aquela festa e depois verificou-se que a cidade estava com uma coleção de espaços vazios.

Houve desperdício de dinheiro.

Mais de R$ 80 milhões foram gastos no Maria Lenk, hoje subutilizado; R$ 14 milhões foram gastos no velódromo que ninguém sabe hoje para que serve, e o Parque Aquático Júlio De Lamare vai ser demolido.

Roberto disse que todos os casos bons que encontrou nos seus estudos sobre cidades-sede mostram que foi preciso pensar em obras multiuso com planejamento para depois dos Jogos. Há riscos de elefantes brancos, claro, mas até os erros de cidades que foram sede podem orientar um planejamento mais bem feito para a fase posterior aos Jogos.

Há quem diga que é investimento demais, afinal, das cidades que disputam hoje, o Rio foi a que propôs um volume maior de recursos: US$ 14 bilhões, ou cerca de R$ 24 bilhões. Para efeito de comparação: a refinaria Abreu e Lima, no Nordeste, está saindo quase pelo mesmo preço. O cálculo da refinaria da Petrobras com a PDVSA, inicialmente orçada em R$ 8 bilhões, pode chegar aos mesmos R$ 24 bi.

Murashima diz que pelas contas que fez, a dinâmica econômica que esses investimentos vão gerar em termos de criação de emprego, atividade econômica, retorno direto e indireto fará com que em alguns anos haja o retorno para os cofres públicos de 97% do dinheiro investido.

O Rio tem problemas tão imensos quanto sua beleza.

São grandes, mas não insolúveis.

A expectativa da escolha da cidade como sede de Olimpíadas produziu uma sensação gostosa de que é possível superar os problemas porque todos vão trabalhar juntos, porque as prioridades serão as conhecidas e elas serão atacadas.

E se perdermos? Bom, nunca houve tanta chance como agora, mas se o Rio perder ele pode fazer uma de duas coisas: desmontar a festa e chorar as mágoas achando que nunca vai se reerguer, ou juntar todos esses diagnósticos, estudos, projetos e trabalhar na direção da solução dos problemas.

A cidade que um dia foi capital, que é a porta de entrada do Brasil, que tem beleza comemorada no mundo inteiro sabe o que precisa.

Não tem vocação para pólo industrial. Isso é melhor esquecer.

O Rio é software e não hardware. É turismo, logística, cultura, informação, serviços.

Precisa de investimentos em infraestrutura de transporte que façam com que chegar ao Rio e se deslocar por ele seja uma tarefa menos penosa. Por isso, é tão sedutor olhar os projetos de um Galeão modernizado, metrôs em outros pontos da cidade, ônibus de alta capacidade em faixas exclusivas.

Precisa enfrentar o problema da violência, claro, o mais difícil dos gargalos. Tem que tirar proveito da sua zona portuária cheia de beleza e história. De Buenos Aires a Belém, todas as cidades conseguem revitalizar a área do porto, menos o Rio. E mais do que nunca o Rio precisa de resgate do meio ambiente.

Das nossas irracionalidades, a maior é estragar tanta beleza com poluição.

Uma Olimpíada é um fator indutor. Se for com ela será mais fácil. Mas não pode ser o único caminho que nos levará ao pódio com o qual sonhamos.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Sabia

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O presidente deposto de Honduras, Manoel Zelaya, jantou com o assessor especial da Presidência da República Marco Aurélio Garcia (foto), em Brasília, quando aqui esteve para um encontro com o presidente Lula. Velho interlocutor da esquerda latino-americana, Garcia soube que Zelaya preparava a volta para Honduras e contava com o apoio do presidente cubano, Raúl Castro, cujos serviços secretos ajudaram na operação, e do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, que usou as velhas rotas sandinistas para infiltrar Zelaya no território hondurenho.

Chamado de ''presidente'', Serra ataca oposição

Gustavo Porto e Brás Henrique, Ribeirão Preto
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Segundo ele, opositores na Assembleia ficam concentrados em atrapalhar construção de presídios, ou falando mal de concessões que não estão certas

Chamado de "futuro presidente da República" por políticos governistas e até adversários, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), disparou críticas ontem aos deputados que lhe fazem oposição na Assembleia. Em sua avaliação, eles não têm discurso contra seu governo e escolheram temas como construção de presídios e concessões de rodovias para atacá-lo.

"Devo dizer que nem sempre é fácil para a oposição fazer um discurso em São Paulo, por isso ficam concentrados em atrapalhar a construção de presídios, ou falando mal das concessões que não estão certas e coisas dessa natureza, menores dentro de um debate político mais amplo", disse Serra, durante inauguração de obra em Ribeirão.

Ainda em seu discurso, ele voltou a comparar os investimentos feitos pelo governo paulista no Estado aos do governo federal. "Conseguimos manter o elevadíssimo nível de investimentos este ano, cerca de R$ 20 bilhões, que chegam perto de todo investimento federal."

Citou ainda uma série de obras estaduais para a região de Ribeirão Preto. "O Estado está bem e isso é muito bom. Pelo povo, que merece, e pela contribuição ao País, porque em São Paulo são arrecadados 45% a 50% dos tributos do Brasil", afirmou.

MÉDICOS

Possíveis adversários na disputa pelo governo de São Paulo em 2010, o deputado Antonio Palocci (PT) e o secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin (PSDB), se encontraram ontem durante evento em Ribeirão. "Saudações médicas", foi a frase de Alckmin a Palocci, ao ser cumprimentado pelo deputado. Ao lado de Serra e do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), Alckmin e Palocci participaram da solenidade que marcou o início das transmissões digitas de EPTV, afiliada da Rede Globo no interior paulista.

"Eleição é no ano que vem e tudo o que é feito neste ano é esquentamento de motores, mas acho que nada se decide na verdade", disse Palocci. O deputado, no entanto, considerou "positiva" a filiação ao PSB do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. "É saudável que um empresário se filie, acho que é positivo para a democracia brasileira."

Já Alckmin ironizou a ansiedade de políticos e jornalistas a respeito das definições para 2010.

"Os dois ansiosos, políticos e jornalistas, é que ficam querendo antecipar as coisas."

PSB atende a Lula e fixa domicílio de Ciro em SP

Carolina Mandl e Murillo Camarotto, do Recife
DEU NO VALOR ECONÔMICO

O PSB anunciou ontem que Ciro Gomes fará hoje a troca do seu domicílio eleitoral para São Paulo, o que abre a possibilidade de o deputado estadual disputar o governo do Estado em 2010. A troca, porém, atende mais a uma demanda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que ao desejo do partido de lançar Ciro na disputa estadual, segundo apurou o Valor na cúpula do PSB.

Diferentemente de Lula, que quer unir os aliados apenas em torno do nome da ministra Dilma Rousseff para a sucessão presidencial, a sigla liderada pelo governador pernambucano Eduardo Campos segue defendendo a inclusão também do nome de Ciro para o Planalto. O PSB enxerga na distribuição das candidaturas uma forma de fortalecer o campo governista, isolando a oposição em torno de um só candidato. Porém, ciente de que precisará do apoio político de Lula para manter uma candidatura própria, o partido viu na mudança de domicílio uma forma de afagar o presidente, não fechando as portas para nenhuma das duas disputas.

A confecção de alianças com outros partidos é vital para uma candidatura presidencial competitiva do PSB, sigla que vê 2010 como uma grande oportunidade para ganhar musculatura na política nacional. Lula poderia intermediar uma aliança com o PDT, do ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi. Isso daria ao PSB mais tempo de inserção na televisão com a propaganda eleitoral, por exemplo.

Ontem, ao anunciar a mudança de seu domicílio eleitoral, após reunião com o governador de Pernambuco, Ciro afirmou que o partido não trabalha hoje com seu nome para a sucessão do governador José Serra (PSDB) mas também não rechaçou que isso venha a ocorrer. Isso vai depender do desempenho do deputado nas próximas pesquisas: se ele apresentar chances de vitória, poderá partir para essa disputa.

O Palácio dos Bandeirantes não é o desejo do Ciro, que argumenta ter falta de intimidade com a rotina de São Paulo. O deputado mencionou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, recém filiado ao PSB, como um nome interessante para o governo paulista.

Por enquanto, Skaf é o preferido do PSB para a eleição em São Paulo, apesar de a direção do partido admitir a falta de identificação dele com a sigla. O nome do dirigente é visto como uma oportunidade de trazer o empresariado para o PSB, fazendo a sigla ganhar mais expressão. Porém, o desempenho de Ciro nas próximas pesquisas e a definição dos nomes do PT para o pleito é que vão definir para qual cargo o deputado vai se candidatar.

Caso concorra mesmo ao Planalto, Ciro afirmou que seu discurso será pautado no compromisso com a continuidade dos avanços obtidos na gestão Lula. "A política brasileira é tão débil que quando se troca João por Maria tudo vai por água abaixo. Por isso, nossa primeira tarefa é a institucionalização do desenvolvimento conquistado", afirmou.

Apesar do alinhamento com o governo atual, a direção do PSB acredita que, como presidente, Ciro poderia fazer mais pelo país do que Dilma. Na avaliação do PSB, o discurso será de um olhar para o passado, para o governo Lula, enquanto que o de Ciro vai mirar o futuro. Além disso, o deputado voltou a alfinetar a aliança entre PT e PMDB, colocando em xeque a sua consistência política.

Diante desse quadro, o PSB admite que eventuais trocas de rusgas entre as candidaturas de Dilma e Ciro não são uma possibilidade totalmente descartada.

O deputado também acredita que a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a quem chamou de "grande brasileira", poderá ter problemas com seu partido, o PV, em um eventual segundo turno entre Dilma e Serra. Na avaliação de Ciro, o PV poderia colocar Marina em situação delicada, caso decidisse apoiar o tucano.

Apesar do visível entusiasmo pela disputa presidencial, reforçado pelo crescimento apresentado nas últimas pesquisas de intenção de voto, Ciro foi cauteloso nas palavras. "Pesquisas feitas a tal distância das eleições devem ser vistas com precaução e humildade", disse o deputado, que desconsiderou a possibilidade de ser vice na chapa de Dilma.

Ciro comparou o estágio atual de sua candidatura ao período de treinos livres da Fórmula 1. "É nesses treinos que se revelam quais carros vão ser competitivos. Não é uma etapa irrelevante, mas há outros treinos", afirmou.

As velocidades da economia mundial

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Há os países que já saíram do atoleiro, há os que se recuperam de forma clara e há os que ainda patinam

CHEGAMOS ao último trimestre de 2009 com as principais economias do mundo funcionando a três velocidades diferentes. Países como o Brasil e a Austrália já saíram do atoleiro e devem entrar em 2010 com o motor próximo de sua potência total. Se ainda não engataram a quarta marcha, estão muito perto de fazê-lo. Já não precisam mais da força das despesas públicas e do superestímulo monetário para fazer andar o setor privado.

Em um segundo grupo -do qual a China é o melhor exemplo- a economia também se recupera de forma clara, mas com forte ajuda do setor público. Finalmente, um terceiro grupo ainda patina mesmo com a forte ajuda dos governos. Esse é o caso dos países mais avançados, como os EUA, a Inglaterra e a Europa Unida. As estatísticas econômicas divulgadas nos últimos dias reafirmam essa imagem que construí para o leitor da Folha há algumas semanas.

Os EUA e seus companheiros do G7 continuam a lutar com a perda de empregos e a queda da renda do trabalho. Os dados referentes a setembro continuam apontando para desocupação em alta e consumo fraco. A recuperação da produção industrial esperada para os próximos meses ainda está sujeita a altos e baixos pela incerteza sobre estoques e demanda final.

Com o consumidor pressionado e o nível de ocupação da estrutura produtiva ainda muito abaixo do potencial, a volta do investimento ainda é um sonho. Embora essas economias devam sair da recessão nos próximos meses, muitos analistas projetam um período de crescimento muito frágil no começo do próximo ano. Alguns temem inclusive outro período de recessão.

No caso da China, os dados recentes mostram uma recuperação mais acentuada da produção industrial e da atividade em geral. Os gastos públicos e os programas setoriais de incentivos ao consumo têm acelerado a atividade local e compensado a perda da força das exportações. O PIB chinês cresce a taxas superiores a 8% ao ano, número fantástico em um mundo sem o consumismo do americano.

Por outro lado, as economias asiáticas que vivem do dinamismo chinês estão se beneficiando da recuperação no país de Mao via maiores exportações de seus produtos. Como já disse a meus leitores, a questão nessa parte do mundo é o que acontecerá com o setor privado quando os gastos públicos voltarem ao normal -e certamente voltarão- em 2011.

Finalmente no grupo formado por economias que começam a voar em céu de brigadeiro, os governos começam a desarmar os mecanismos de estímulos monetários e fiscais estabelecidos durante a crise. Os BCs do Brasil e da Austrália já deram indicações de que vão elevar os juros nos próximos meses para evitar um superaquecimento de suas economias.

O quadro descrito trata de questões conjunturais importantes, mas que escondem um movimento de longo prazo que quero trazer ao leitor da Folha nas próximas colunas.

Estamos vivendo um tempo de extraordinárias mudanças no equilíbrio econômico do mundo. Alguns sinais desse fenômeno são ainda muito sutis e podem passar despercebidos pelo analista menos cuidadoso. Mas a divisão entre ganhadores e perdedores nesse processo vai depender de uma leitura correta dos governos nacionais sobre os novos tempos e as medidas a serem tomadas.

Seria muito bom para nós, brasileiros, que o governo Lula deixasse a euforia de lado e voltasse sua atenção para uma nova agenda estratégica para o Brasil.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Dos dois lados, sinais de disposição ao diálogo

Ricardo Galhardo Enviado especial
DEU EM O GLOBO

Micheletti baixa o tom com o Brasil e Zelaya diz estar disposto a se submeter à Justiça, embora imponha condições

TEGUCIGALPA. Dez dias depois do retorno do presidente deposto Manuel Zelaya a Honduras, os dois lados do conflito, que já dura mais de três meses, deram ontem sinais de disposição para dialogar. O presidente interino, Roberto Micheletti, baixou o tom com o Brasil, suspendendo o ultimato para que Brasília definisse o status de Zelaya e prometendo não tomar “medidas adicionais” contra a embaixada brasileira, onde o presidente deposto está abrigado. Mas a mudança mais forte veio de Zelaya, que disse estar disposto a se submeter à Justiça e aceitou ter seus poderes reduzidos — caso seja restituído na Presidência.

— Que me tirem o poder — disse ele, segundo o relato de um grupo de seis deputados brasileiros que chegou ontem a Honduras para avaliar a situação política do país. — Estou disposto a ir aos tribunais para responder aos processos que há contra mim, não tenho problema quanto a isso. Voltei porque sou inocente.

Zelaya, no entanto, lembrou que hoje não há diálogo com o governo interino. E condicionou suas propostas de concessão à mediação da crise pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e à assinatura do acordo de San José, que prevê sua restituição no cargo. Apenas depois disso, disse, estaria disposto a flexibilizar os termos.

De duas a quatro semanas de negociação Uma comissão da OEA chega hoje a Tegucigalpa para articular um diálogo. Zelaya entregou uma carta a John Bihel, assessor da Secretaria-Geral da OEA, indicando cinco nomes para compor uma mesa de negociação.

Micheletti faria o mesmo. Segundo Bihel, a OEA está otimista sobre um acordo.

Mas o grupo de deputados brasileiros acredita que o processo pode ser lento. Segundo Zelaya, as negociações levariam de duas a quatro semanas. Mais que isso, diz Zelaya, a população não iria aceitar.

Além da reunião com Zelaya na embaixada, os deputados estiveram no Congresso e na Suprema Corte, onde receberam a garantia de que o governo interino não invadirá a representação.

No Congresso, o presidente da Casa, Alfredo Zaafreda, ligado a Micheletti, se comprometeu a votar uma moção que prorroga o prazo de dez dias dado sábado pelo governo interino para que o Brasil defina o status diplomático de Zelaya.

Ao mesmo tempo, a chegada da comissão da OEA (a mesma que foi proibida de entrar no país domingo) prepara o caminho para a reunião de chanceleres prevista para o dia 7 e aumenta a pressão por acordo.

População volta a encher bares e restaurantes A sensação no meio político hondurenho é que a situação caminha para um pacto. O grande entrave é a falta de garantias quanto a seu cumprimento.

— O governo ainda não aceitou um acordo que passa pela restituição porque acha que Zelaya não vai cumpri-lo e vai retomar o tema da Constituinte — disse ao GLOBO o empresário Adolfo Facussé, presidente da Associação Nacional dos Industriais.

Apesar do repúdio de amplos setores da sociedade hondurenha, Micheletti continua protelando — agora por pelo menos mais um dia — a revogação do decreto que suspende os direitos civis e impede a liberdade de imprensa.

Enquanto isso, a resistência ao golpe continua impedida de se manifestar. Um protesto em frente ao Canal 36, depredado na segunda-feira pelas tropas de repressão, foi abortado em função da presença de centenas de militares no local. A saída foi mudar o lugar da manifestação para a porta da embaixada dos EUA mas, devido à forte repressão dos dois últimos dias, apenas algumas dezenas de pessoas se arriscaram a participar do ato.

Ontem magistrados da Suprema Corte, que apoiaram o golpe, se reuniram com Micheletti para avaliar o decreto. Na segundafeira, o presidente interino prometeu ao Congresso que retiraria o decreto depois de uma consulta à Suprema Corte e à Justiça eleitoral. Mas Micheletti pediu mais um dia para consultar, desta vez, o Colégio de Ministros, antes de revogar o ato.

Enquanto isso, nas ruas de Tegucigalpa, o povo hondurenho pôde desfrutar pela primeira vez desde a volta de Zelaya ao país, na segunda-feira passada, de uma noite normal, sem toque de recolher. Isso fez com que a população, em especial os jovens, lotasse bares para colocar em dia a vida social

Crise afeta comércio com Honduras

Geralda Doca
DEU EM O GLOBO

BRASÍLIA. As relações entre o governo brasileiro e o hondurenho azedaram também do lado comercial e não só na questão diplomática, depois da crise gerada pela deposição de Manuel Zelaya e do apoio do Brasil à sua recondução. Embora o comércio entre os dois países seja pequeno, tanto as exportações brasileiras quanto as importações vêm caindo ao longo do ano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento.

Além disso, entre janeiro e agosto, 71 empresas brasileiras deixaram de vender seus produtos em Honduras.

Ainda há 542 exportadores registrados.

Entre janeiro e agosto, as vendas totalizaram US$ 56,6 milhões, o que representou queda de 41% frente ao mesmo período do ano passado.

As importações brasileiras caíram 42,7%, no mesmo período, chegando a US$ 2,5 milhões.

Entre os produtos mais vendidos para Honduras estão fumo, papel, pisos, sementes, alumínio, chassis com motores e algodão.

Do lado das importações, destacam-se trapos, cordéis, aparelhos elétricos, fios e cobertores

2016 é hoje

Luiz Ernesto Magalhães e Fernando Duarte Enviados especiais • Copenhague
DEU EM O GLOBO

Rio pode realizar sonho antigo

Pela primeira vez desde a década de 30, quando o Rio disputou sediar uma olimpíada, a cidade chega hoje à final da eleição para os Jogos Olímpicos de 2016.

Desde 96, o Rio tem se aproximado mais do sonho de receber atletas do mundo inteiro. Em Copenhague, às 14h de hoje, será anunciado o nome da cidade vencedora.

Na véspera da escolha, autoridades e cidadãos brasileiros, na capital da Dinamarca, vestiram a camisa do Rio, numa espécie de boca de urna. O jornal britânico “The Times” acha que é justo o Rio ganhar.

Boca de urna pelo Rio

Na véspera da eleição, brasileiros fazem lobby frenético junto a delegados do COI

Os brasileiros que estão em Copenhague defendendo a candidatura do Rio a sede dos Jogos de 2016 tiveram que mostrar ontem, véspera da eleição, fôlego olímpico para enfrentar uma verdadeira maratona em busca de votos. O esforço não é à toa: afinal, pela primeira vez desde a década de 30, quando o Brasil começou suas tentativas para sediar as Olimpíadas, o país é finalista da disputa. A partir de 1996, o Rio candidatou-se mais duas vezes, sem passar da primeira fase. Para que hoje o sonho vire realidade — o resultado será anunciado às 14h (horário de Brasília)—, valeu de tudo, em Copenhague, ontem, para cativar os integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI).

Aproveitando que a prefeitura da cidade dinamarquesa convidara representantes de todas as delegações para circular de bicicleta pela cidade, o Brasil mostrou que não está lá a passeio: levou logo uma enorme Bandeira do país — providência básica, mas esquecida pelos Estados Unidos, pela Espanha e pelo Japão. Atletas brasileiros que inicialmente participariam da “bicicleata” foram deslocados para o Hotel Marriott, quartel-general do lobby verde e amarelo. Nos corredores, os delegados do COI eram disputados pelos candidatos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez parte do frenético lobby pelo Rio e passou boa parte do dia no hotel, onde teve encontros reservados com os eleitores. Uma das conversas ao pé de ouvido foi com o presidente do COI, Jacques Rogge. Na véspera, ele já tinha jantado com delegados do COI. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também tentou angariar votos.

No vale-tudo da reta final, o escritor Paulo Coelho, que almoçou com esposas de delegados, prometeu até mesmo plantar bananeira na Praia de Copacabana se o Rio ganhar a eleição.

— Terei 70 anos em 2016, mas disse às senhoras que, se o Rio ganhar, vou plantar uma bananeira na Praia de Copacabana. É só começar a treinar aos 68 — disse Coelho.

A boca de urna olímpica do Brasil teve até ajuda do sobrenatural. A médium Adelaide Scritori, que afirma incorporar o espírito do Cacique Cobra Coral e ser capaz de controlar o tempo, passou parte da tarde sentada discretamente a uma mesa do restaurante do hotel Skt Petrick, base da campanha da Rio 2016. A médium fez projeções espirituais sobre o tempo nas cidades-candidatas, num esforço para ajudar o Rio. Na campanha para 2012, Adelaide afirma ter ajudado Londres, que venceu a disputa com Paris.

A médium tirou fotos em frente a uma praça onde as torcidas de Rio, Madri, Tóquio e Chicago vão se concentrar amanhã. O assessor de Adelaide, Osmar Santos, disse que ela, que tem um convênio com a prefeitura do Rio para prever o tempo, viajou com recursos próprios à Dinamarca.

— Se ela acertar em Olimpíada como acerta nas previsões do tempo, vai chover votos para o Rio — disse o secretário da Rio 2016, Ruy Cezar.

Assessores dos governos se dedicaram a revisar informações técnicas.

Um grupo coordenado por Ruy Cezar passou mais de quatro horas debruçados sobre um laptop. Um dos segredos guardados a sete chaves é o vídeo produzido pelo cineasta Fernando Meirelles, que será exibido na apresentação brasileira.

— Dizem que é emocionante. Ao que eu saiba, assistiram ao vídeo apenas o presidente, o governador e o prefeito — disse o presidente da Câmara do Rio, vereador Jorge Felippe.

Apesar da intensa campanha próRio, os representantes do Brasil encontraram tempo para encontros com os adversários. Após o mal-estar entre as candidaturas do Rio e de Madri, o rei Pelé conversou com o rei espanhol Juan Carlos I, antes da abertura da assembleia do COI, evento presidido pela rainha da Dinamarca, Margrethe II, e pelo príncipe consorte Henrik. Em almoço oferecido pelos nobres, Lula posou para fotos com a a primeira-dama americana, Michelle Obama.

Uma semana nervosa para Arthur Nuzma

A votação de hoje tem sabor especial para os moradores do Rio, que torcerão pela cidade na Praia de Copacabana, a partir das 10h — onde haverá shows num palco montado em frente ao Copacabana Palace —, mas importância ainda maior para um carioca em especial: Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro desde 1995. Nada mais natural que Nuzman mostrasse sinais de nervosismo em Copenhague. Numa recepção para a imprensa brasileira, segunda-feira, ele tinha lágrimas nos olhos ao descrever suas expectativas da Rio 2016. Em tom de desabafo, celebrava as notícias de que a candidatura carioca era a favorita: — Muitos não acreditavam que o Rio poderia chegar até aqui. Provamos que temos condições de apresentar um projeto vencedor.

O Rio-2016 e a liberdade de opinião

Juca Kfouri
Comentário para o Jornal da CBN desta sexta-feira, 2 de outubro de 2009.

Para tristeza dos xiitas, dos que imaginam que os outros sejam tão sabujos como eles são, a discussão em torno da candidatura do Rio para ser sede da Olímpiada de 2016 está sendo exemplar.

Digo e provo.

Eu, por exemplo, sou contra e torço para que daqui a pouco o mundo saiba que a Olímpiada será em Madri, embora deva ser em Chicago.

Terei uma grande surpresa se der Rio, a cidade incomparavelmente mais bonita entre as quatro candidatas, mas num país que nem sequer tem uma Política Esportiva, razão pela qual não merece sediar os Jogos Olímpicos.

Para não falar em superfaturamentos e coisas do gênero.

Mas esta não é posição do Sistema Globo de Rádio ou das Organizações Globo, que apoiam o Rio-2016.

Assim como a "Folha de S. Paulo", ontem, fez editorial apoiando o Rio, mas publicou, em sua primeira página, uma chamada para minha coluna, cujo título era "Nem Rio, nem Brasil".

Se o Rio vencer, não vou ficar triste, e vou me preparar para fiscalizar e cobrar todas as promessas.

Se o Rio perder, não vou ficar feliz, e vou continuar a cobrar uma Política Esportiva que permita, um dia, que o Rio seja sede da Olímpiada.

Cidade Maravilhosa - Daniela Mercury - XV Jogos Pan-Americanos

Bom dia!
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Quem, afinal, é "o cara"?

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Imaginar que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, estará em Copenhague para a decisão sobre a cidade que sediará as Olimpíadas de 2016 porque Lula o incentivou é tão bobo quanto imaginar que Lula pudesse pedir a ele que não fosse, para ajudar o Brasil. Pois o governador do Rio, Sérgio Cabral, no afã de emplacar uma vitória que lhe será fundamental para a campanha de reeleição, chegou a imaginar essa interferência de Lula, e até recentemente estava certo de que Obama não estaria presente.

Pelo visto, “o cara”, que é mais esperto politicamente, fez o contrário e desembarcou em Copenhague anunciando que sugerira a Obama estarem juntos por lá.

Uma vitória de Chicago amanhã deixará a sensação de que a presença de Obama foi decisiva, e de que ele é que é realmente “o cara”.

Uma vitória do Rio de Janeiro será certamente uma vitória política de Lula, e de mais ninguém, e reforçará sua importância nesse mundo multipolar, onde tudo se resolve na base do prestígio político e de interesses econômicos, especialmente eventos como as Olimpíadas, que atraem a atenção de bilhões de pessoas pelo mundo.

O governo brasileiro se empenhou com todos os seus trunfos para que o Rio de Janeiro seja o vencedor, e o chanceler Celso Amorim deixou clara a estratégia ao dizer que as prioridades da política externa eram a eleição da ministra do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie para um tribunal da Organização Mundial do Comércio e a escolha do Rio para a sede das Olimpíadas de 2016.

Por isso, o Brasil abriu mão de apoiar o brasileiro Márcio Barbosa para a presidência da Unesco, que contava com o apoio dos Estados Unidos e dos países europeus, para assumir a candidatura do egípcio Farouk Hosni, polêmico por suas declarações antissemitas de que queimaria pessoalmente livros em hebraico que encontrasse nas bibliotecas do Egito.

Tão controvertido que perdeu a disputa pela secretariageral na Unesco para a búlgara Irina Bukova, até então um azarão. Também na OMC não conseguimos emplacar a candidatura da ministra Ellen Gracie.

Resta saber se a estratégia estava completamente equivocada, ou se a cereja do bolo, a sede dos Jogos Olímpicos, vai ser conquistada amanhã.

Tudo conspira a favor da escolha do Rio de Janeiro, embora os especialistas digam que nada dessa política externa que os países jogam influencia tanto quanto a própria politicagem interna dos delegados do Comitê Olímpico Internacional (COI), que teriam seus próprios interesses e trocariam votos e favores com visões bem mais prosaicas que nem Obama nem “o cara” poderiam atender.

Mas, de qualquer maneira, o mundo está favorável a novas governanças, e o prestígio dos países emergentes cresce à medida que é necessário ampliar os poderes e dividir responsabilidades.

O G-20, transformado em instância de decisão multipolar, substitui o antigo G-8, que reunia os países desenvolvidos e mais a Rússia, e demonstra o poder político ampliado de países como Brasil, Índia, África do Sul, Coreia do Sul, México.

Mesmo que a politicagem interna do COI seja mais relevante para os votos do que a política internacional, é claro que o crescente prestígio do Brasil nos fóruns internacionais dá um peso especial à candidatura do Rio, e o fato de que nunca uma Olimpíada se realizou na América do Sul é mais um bom argumento para que o COI se insira nesse novo mundo que está sendo organizado depois da crise econômica internacional, que abalou os alicerces do velho mundo unipolar.

A candidatura do Rio é um anseio nacional, em busca de uma oportunidade de mostrar uma nova face do país, assim como a de Moscou e a de Pequim já surpreenderam o mundo.

Desse ponto de vista de política externa, uma vitória do Rio sobre a Chicago de Barack Obama seria uma reafirmação dessa nova ordem internacional, e uma demonstração de que um presidente com visão de mundo mais ampla, e que faz questão de que os Estados Unidos não se portem como os senhores do Universo, pode ter sua influência política contestada por novos atores globais.

Dentre esses, certamente o presidente Lula é dos mais destacados, e seu empenho pessoal na realização dos jogos certamente pode pesar na decisão de países do terceiro mundo, como os árabes e os africanos, cujos votos o Itamaraty tanto cultivou.

Se, no entanto, nossos sonhos de grandeza forem atropelados pela vitória de Chicago será hora de encarar a realidade e reconhecer que, pelo menos por enquanto, na hora decisiva, “o cara” continua sendo o presidente dos Estados Unidos.

A decisão do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de se filiar ao PT nos derradeiros momentos do prazo que a lei dá a quem quer se candidatar nas eleições de 2010 demonstra que ele tem projetos eleitorais, mesmo que ainda indefinidos.

É mais um dos muitos paradigmas que esse diplomata tem feito questão de quebrar ao longo de sua permanência à frente do Itamaraty, transformando uma “carreira de Estado” em mais um cargo político a serviço do governo.

Ele já estivera nos palanques de reeleição do presidente Lula, e fora criticado por isso. Com sua filiação partidária, Celso Amorim só faz validar a tese de que o governo Lula usou a política externa brasileira para fazer um contrapeso a uma política econômica conservadora que adotou internamente.

A tendência a um esquerdismo anacrônico de nossa política externa, em certos momentos claramente antiamericana, e as proximidades políticas com a Venezuela e seus satélites na América do Sul, obedeceriam a uma orientação petista representada pela atuação do assessor especial Marco Aurélio Garcia.

A posição assumida na crise de Honduras seria a expressão dessa contrapartida.

Depois do Carnaval

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Nos próximos quatro meses quase tudo o que os políticos e os partidos falarem sobre a eleição presidencial de 2010 será produto dos respectivos desejos, tentativa de despiste do adversário ou fruto de mera especulação.

Só no fim de fevereiro, início de março é que começa a ser mais seguro comprar as declarações de suas excelências pelo valor que são vendidas por seus autores.

Não é por acaso que o governador de São Paulo - hoje o candidato a presidente do PSDB -, José Serra, resiste todas as pressões, insiste em marcar aquela data para o anúncio da candidatura e ainda se dá a prudência de acrescentar: "Se candidatura houver."

Tampouco é a toa que o presidente Luiz Inácio da Silva avisou ao provável candidato do PSB, deputado Ciro Gomes, que em fevereiro daria a ele uma resposta sobre a possibilidade de apoiar duas candidaturas presidenciais - a de Ciro e a de Dilma Rousseff.

Isso a preço de hoje, pois a lógica ainda aconselha a uma certa desconfiança acerca dos planos de Lula, apesar (ou até por causa) da assertividade das respostas do mundo oficial quanto à confiança do presidente na eleição de Dilma.

Portanto a mais recente novidade, sobre a hipótese de o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ser vice na chapa de Dilma pode se juntar às versões segundo as quais o governador de São Paulo teria a tendência a concorrer à reeleição por achar "muito difícil" bater Dilma na disputa presidencial; Lula torce pela vitória de Serra; o PT acha Aécio Neves um candidato quase imbatível, do mesmo jeito que em 2006 diziam preferir Serra a Geraldo Alckmin como oponente; Ciro Gomes seria vice na chapa da ministra da Casa Civil; Antonio Palocci na última hora entraria em cena; Dilma seria vice de Ciro; Fernando Henrique Cardoso seria absolutamente contrário à chapa "puro-sangue" no PSDB; o PMDB estaria fechado, sem retorno possível, com a candidatura Dilma.

Nada, nesta altura, está fechado: ao contrário, está tudo em aberto no aguardo da passagem do tempo, do efeito das pesquisas, da negociação dos acertos regionais, das tentativas de conquistas de aliados, das ofertas, das reações aos balões de ensaio soltos no ar, dos prazos legais, dos humores, de todas as circunstâncias, notadamente as ligadas à redução de poder de fato do presidente em fim de mandato. Isso se ocorrer tudo dentro do institucionalmente normal no processo.

Ao fim de fevereiro faltará um mês para que os candidatos deixem os postos que ocupam na máquina federal. Só aí já se poderá ter uma boa alteração no cenário.

Uma coisa, por exemplo, são as declarações feitas por um ministro no exercício de suas funções de subordinado direto do presidente sem a menor intenção de deixar o cargo antes do previsto. Outra bem diferente - ou até, não - serão suas reais intenções na condição de candidato em busca de votos e do melhor espaço no Estado onde tentará conquistá-los.

O tratamento que se dá à questão da chapa pura Serra-Aécio no PSDB hoje é um, quando o governador de Minas é, para todos os efeitos, pré-candidato presidencial e, para efeito efetivo, o guardião dos votos do maior segundo colégio eleitoral do País. Mas só poderá ser outro quando abril se aproximar e, assim, vencer a data de Aécio Neves deixar o Palácio Tiradentes - seis meses antes da eleição -, anunciando seu destino político.

Bem como será só a partir daí é que se poderá pôr à prova a firmeza do compromisso firmado entre PT e PMDB para a composição da chapa presidencial.

Roncos da reação

O líder do PT na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza, é integrante da tropa contrária à emenda constitucional, de iniciativa popular, propondo o veto a candidatos condenados em primeira instância por homicídio, estupro, tráfico de drogas, racismo, uso da máquina e desvio de verbas públicas.

Para ele, a emenda pode ser comparada à lei do "velho Oeste, quando se pegava um suposto ladrão de galinhas e o levam à forca". Um sofisma, pois lá era rito sumário. Cá, há o inquérito policial, a denúncia do Ministério Público e a condenação do juiz.

Telhado

Se na próxima eleição quiserem levantar a bandeira da ética, dos bons costumes da lisura dos homens e das mulheres na política, os tucanos terão de trabalhar para explicar o passivo de processos judiciais e inquéritos policiais de José Camilo Zito, prefeito de Caxias, presidente regional do PSDB e, hoje, em alta cotação para disputar o governo do Rio de Janeiro em 2010.

De Gabeira a Zito é uma involução e tanto.

25ª hora

Sábado é o último dia para filiação - incluídas as transferências de uma legenda para outra - partidária para quem quiser ser candidato a presidente, governador, senador ou deputado no ano que vem.

Velho inimigo

Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A América Latina está de novo ameaçada pelo autoritarismo. Nesta ameaça, o golpe em Honduras é apenas um caso. A Argentina está tentando aprovar num Congresso moribundo uma lei de tendência claramente autoritária para controlar os meios de comunicação. Em outros países da região os governantes tentam suprimir pilares importantes da democracia.

Nas minhas férias em Nova York dei uma passadinha no Centro de Estudos Brasileiros na Universidade de Columbia. O economista Tom Trebat me perguntou: — A censura está voltando no Brasil? Em seguida falou da sua preocupação com a suspensão judicial da publicação de reportagem no “Estadão”.

Ele sabe a diferença do que está acontecendo em outros países, mas acha que a região está passando por um momento estranho.

O caso da Argentina é preocupante. Conversei sobre isso com o jornalista Ariel Palácios no prêmio Comuniquese. A manobra do casal Kirchner é aprovar a Lei dos Serviços Audiovisuais no Senado antes de dezembro. Na Câmara já foi aprovada. A lei é ruim e essa pressa é pior. Na Argentina, há uma distância de seis meses entre eleição do Congresso e sua posse. A eleição já aconteceu, o governo perdeu a maioria, muita gente não teve o mandato confirmado. Ou seja, deputados e senadores já quase sem mandato vão decidir um assunto dessa relevância.

A lei impede a formação de redes nacionais de TV, mas abre exceções para o governo, os sindicatos e a Igreja Católica.

É esse monstrengo que o governo que tem baixa popularidade tenta aprovar num Congresso com os dias contados para acabar. Se houvesse alguma dúvida sobre o caráter autoritário das intenções dos Kirchner bastaria lembrar a tentativa de intimidação do jornal “Clarín”.

Na Venezuela, inspirador dos governos neopopulistas, o projeto de desmonte da imprensa já está bem mais adiantado; no Equador o caminho traçado é o mesmo.

O princípio da alternância do poder está demolido na Venezuela e sob ameaça na Colômbia, Bolívia e Equador.

Foi uma tentativa do presidente Manuel Zelaya de ameaçar esse princípio que detonou o desmoronamento institucional de Honduras.

Nada justifica os atos dos atuais governantes, mas o que está ocorrendo tem que ser visto pelos dois lados: os neopopulistas avançam sobre as instituições, solapando a democracia, e a direita reage à velha moda.

Os golpes, como o de Honduras, têm uma dinâmica conhecida.

Ao tomarem o poder, os ditadores usam pretextos.

No Brasil foi o de que o presidente João Goulart incitara os militares de baixa patente e planejava instituir uma república sindicalista.

Em Honduras foi a tentativa de Zelaya de fazer uma consulta popular inconstitucional.

A declaração do governante de Honduras ontem parecia saída do túnel do tempo. “Zelaya foi deposto por ser esquerdista”, disse.

Aqui, possíveis excessos e erros de Jango seriam corrigidos pela eleição presidencial prevista para 1965. Lá as eleições já estavam marcadas para novembro.

Normalmente os golpes têm apoio em vários setores da sociedade, do contrário não ocorreriam e isto também não os legitima. Em Honduras empresários, Igreja e uma parte da sociedade apoiam o governo. No Brasil, em 64, os militares tiveram o apoio da classe média e de vários outros setores. Ocorre depois uma fase em que os golpes escalam. Aconteceu no Brasil no AI-5. Acaba de acontecer em Honduras esta semana. O que levou 21 anos para acabar no Brasil pode acabar em pouco tempo em Honduras, se acontecer o cenário benigno.

Mas o episódio, seja qual for o desfecho, traz lições preciosas para o Brasil. A diplomacia brasileira tem sido tão criticada internamente porque o caso Honduras exibiu uma síntese dos defeitos da política externa dos últimos anos. O Brasil quebrou o princípio da não ingerência, deixouse liderar por Hugo Chávez, improvisou em assunto sério, exibiu um julgamento com dois pesos e duas medidas e fez pouco da inteligência dos brasileiros.

É difícil escolher qual das duas versões é mais desonrosa para a mais profissional diplomacia da América Latina. A oficial, de que o país nada sabia; ou a que parece mais óbvia que é ter concordado com o plano de Chávez.

A política de não-intervenção em assuntos internos não significa um simples lavar as mãos. Há muito tempo evoluiu para uma defesa de princípios. É correto o Brasil fazer o que fez no início: não reconhecer o governo resultado da quebra da ordem institucional, manter o embaixador no Brasil, esfriar as relações, defender nos organismos internacionais a volta do presidente eleito e cortar programas de ajuda. Nada disso é intervenção, mas ao mesmo tempo não é lavar as mãos.

O erro foi entrar na refrega política interna deixando a embaixada virar centro de agitação partidária. O mais sensato seria ter feito esforços com outros países para garantir uma eleição de um novo governo que unisse os hondurenhos.

A indignação do governo Lula com o governo Micheletti é justa. Só não é coerente com o silêncio que o Brasil fez diante das sucessivas investidas contra os princípios democráticos.

Na América Latina todo o cuidado é pouco. Esta é uma região que já errou demais.

Personagens de um filme antigo

Demétrio Magnoli
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Honduras condensa o conflito, repetido vezes sem conta na História da América Latina, entre uma democracia oligárquica e o impulso do caudilhismo. A primeira singularidade da crise atual encontra-se no seu enquadramento no cenário da "revolução bolivariana" de Hugo Chávez, que conferiu dimensões internacionais ao confronto entre o pretendente a caudilho e as instituições políticas do sistema oligárquico hondurenho. A segunda singularidade, nos erros crassos cometidos pela política externa brasileira, que contribuíram para a espiral de violência em que ingressa o país centro-americano.

A crise foi desatada pela tentativa de Manuel Zelaya de circundar o ferrolho constitucional armado para perpetuar o sistema oligárquico. O líder fraco, oriundo de um dos partidos do condomínio hegemônico, só agiu porque tinha o respaldo da Venezuela chavista. O impasse político e legal foi resolvido por um golpe institucional, conduzido pelo Exército, mas amparado pelo Congresso e pela Corte Suprema, que instalaram o governo provisório de facto de Roberto Micheletti. A ruptura foi condenada pela totalidade dos países americanos, de acordo com a Carta Democrática Interamericana, mas a mediação do costa-riquenho Óscar Arias fracassou, pois os contendores acreditaram que podiam prevalecer sem um compromisso.

Zelaya só teria uma chance realista de prevalecer se contasse com a interferência ativa dos EUA ou se tivesse amplo respaldo popular. Os EUA de Barack Obama pretendem deixar para trás o estigma do intervencionismo na América Central e, mesmo condenando o golpe, não se engajariam a fundo na defesa de um aliado de Chávez. A maioria dos hondurenhos não se importa com a sorte do rancheiro que sonhou ser condottiere. Então, quando as coisas pareciam resolvidas, a aventura do retorno clandestino, patrocinada pela Venezuela e, talvez, por Cuba, deflagrou o drama que está em curso.

É mais razoável acreditar em duendes que na versão do governo brasileiro, pela qual Zelaya se materializou sem aviso diante da embaixada em Tegucigalpa. Os indícios, contudo, não autorizam a imaginar que o Brasil tenha participado da urdidura do retorno clandestino. Uma narrativa mais sóbria sugere que Chávez, com a finalidade de instalar o presidente deposto na sede diplomática brasileira, promoveu o vazamento de um plano original de colocá-lo no escritório hondurenho da ONU.

A história rocambolesca será toda contada, um dia. Por enquanto, sabe-se apenas o que está aos olhos de todos: o Brasil permitiu a transformação de sua embaixada na tribuna de agitação política do alto da qual um caudilho frustrado clama pela insurreição. A imprudência, que compromete a credibilidade da diplomacia brasileira, poderia ter um desenlace administrável, sob duas condições alternativas: se Zelaya tivesse força popular para derrubar Micheletti ou se o fato consumado impusesse por si mesmo uma solução negociada aos contendores. Como nenhuma dessas condições é verdadeira, Lula e Celso Amorim correm o risco de aparecer como aventureiros que jogam nos dados a sorte de um país pobre e convulsionado.

O compromisso é o destino provável de contendores fracos, explicou dias atrás o ex-ministro Luiz Felipe Lampreia. A análise tem sentido, mas exclui dois elementos complicadores. De um lado, Zelaya não reconhece a sua fraqueza, em razão do engajamento irrestrito do Brasil na operação do retorno. De outro, Micheletti não enxerga um mediador confiável e teme as consequências da restauração de um líder que se imagina forte e deve tudo a Chávez. São esses os motivos da paradoxal radicalização dos contendores fracos, que avançaram até a beira do precipício da guerra civil.

O Brasil, que pretendia liderar, perdeu por sua própria culpa a condição para mediar. O representante dos EUA na OEA estava certo ao dizer que Zelaya "deve desistir de agir como se estivesse estrelando um filme antigo" - e mais ainda ao apontar a "especial responsabilidade de prevenir a violência" que recai sobre os ombros de uma diplomacia brasileira incapaz de controlar o ator canastrão hospedado na embaixada.

A saída para o impasse não pode prescindir de eleições livres e limpas, monitoradas por observadores internacionais. O estado de sítio implantado em Honduras e a repressão deflagrada contra os opositores ameaçam a legitimidade do processo eleitoral. É precisamente o que busca Chávez, quando estimula a radicalização de Zelaya. O Brasil teria o dever de agir na direção oposta, insistindo no diálogo. Mas preferiu dinamitar as pontes, substituindo a diplomacia pela ideologia.

No Itamaraty, é a hora e a vez dos amadores. Na reunião de emergência da OEA convocada para dar uma resposta à declaração do estado de sítio, o Brasil alinhou-se à Venezuela e rejeitou as sugestões moderadas dos EUA, provocando o fracasso do encontro. Feito o estrago, a diplomacia brasileira diagnosticou, pela voz do embaixador Ruy Casaes, que "a OEA está caminhando para um absoluto estado de irrelevância", e o ministro Amorim passou a dirigir apelos ao Conselho de Segurança da ONU. A ideia de sabotar os esforços de Washington na organização hemisférica para, então, solicitar ajuda de Washington na organização mundial constitui mais uma inovação piramidal dos luminares que dirigem nossa política externa.

A falência do Brasil como mediador não suprime a oportunidade para uma solução negociada, cuja base só pode ser o Plano Arias. Desde a decretação do estado de sítio, os EUA passaram a agir mais firmemente, embora com discrição, e surgiram sinais de divisão na elite política e empresarial hondurenha. Lula e Amorim, personagens do filme antigo dirigido por Chávez, dependem como nunca do sucesso da operação americana de bastidores. Se ela não funcionar, pesará sobre o governo brasileiro parte da responsabilidade por um desfecho trágico que podia ter sido evitado.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.

Itamar, a esfinge mineira

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), aproveitou a entrega da Ordem do Ipiranga, na terça-feira, para um jantar com aliados do PMDB e do PPS no Palácio dos Bandeirantes, no qual buscou se aproximar do ex-presidente Itamar Franco (PPS), peça-chave no xadrez político mineiro de 2010. Participaram do encontro o senador Pedro Simon (PMDB-RS), o governador de Santa Catarina, Luiz Henrique (PMDB), o ex-ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal Maurício Correa e o presidente do PPS, Roberto Freire, todos amigos do ex-presidente da República.

Nos rapapés, Serra lembrou que Itamar teve a coragem de fazer o Plano Real e foi único presidente a eleger o sucessor, desde Arthur Bernardes. Conhecido por seu estilo “mercurial”, Itamar sempre teve uma relação tensa com os tucanos paulistas. Agora, seu destino político é uma incógnita, pois pode se candidatar ao Senado, disputar o governo de Minas ou ser o vice na chapa de Serra, indicado por Aécio Neves (PSDB).

Novidades nos palanques

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Quem te viu, quem te vê... Ninguém dava a menor bola para assuntos internacionais e de defesa, nem mesmo políticos, muito menos candidatos, mas essa tendência vem se invertendo desde a campanha presidencial de 2006 e são dois temas que têm tudo para render bons debates -e tomara que boas entrevistas- com os presidenciáveis de 2010.

Com Barack Obama saindo do olimpo e recuperando a condição de mero mortal, com as lições ainda mal digeridas sobre a crise financeira internacional, com a ampliação da presença militar norte-americana na Colômbia, com os tropeços (e bocejos) da Unasul e agora com Honduras servindo de laboratório para uma infinidade de discussões latino-americanas...

Bem, Dilma, Serra (ou Aécio), Ciro e Marina vão ter que estudar muito. Sem esquecer dos caças da FAB, dos submarinos, do reflexo geopolítico do pré-sal e da inescapável discussão sobre a questão nuclear, seus limites econômicos, militares, políticos, como Irã no meio.

Nesses dois campos, Dilma leva vantagem. Não por ela, que não tem se metido na área internacional e jamais foi ou será ligada à questão de defesa, de estratégia militar -ou melhor, de militares mesmo. Mas porque o governo Lula, como em praticamente tudo, pegou o bonde que vinha do governo FHC andando e pisou no acelerador.

Não é à toa que o chanceler Celso Amorim sai do PMDB (de onde ele começou a dizer ontem que nunca foi de fato...) e entra no PT. Se na eleição passada ele e o polêmico secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, já frequentavam palanques e debates por convocação direta de Lula, imagine-se agora.

Dilma sai da quimioterapia e mergulha na campanha, montando o time, a estratégia, o discurso.

Amorim está dentro. Porque a política externa e a estratégia de defesa estão muitíssimo dentro. Ou, como diriam os diplomatas, estão "in".

De trogloditas e radicais

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está certo quando diz, como o fez em recente entrevista, que não haverá "trogloditas" na disputa presidencial de 2010. É claro que o conceito de "troglodita" varia de pessoa para pessoa. Há muita gente preconceituosa que acha o próprio Lula um troglodita incorrigível.

Do meu ponto de vista, o último troglodita que se apresentou a uma eleição presidencial foi Fernando Collor de Mello, em 1989. De lá para cá, pode ter havido candidatos rotulados de radicais, mas eu não confundo uma coisa e outra. Acho até que radicais são necessários, se a palavra for tomada pelo que significa e não pelo peso político que a ela passou a se atribuir.

Ir à raiz das questões (ser radical portanto) não só é necessário como é saudável, mais ainda em um país como o Brasil que prefere contornar o toco em vez de atacá-lo.

Ou, na melhor das hipóteses, encara os problemas devagar demais, o que tende a perpetuá-los e eventualmente agravá-los. Tome-se o caso da educação. Nos dois governos mais recentes, avançou-se claramente tanto em matéria de universalização como em aperfeiçoamento dos processos de avaliação, passando ainda por maiores possibilidades de acesso dos mais pobres à universidade.

Basta? Não, diria um radical. O problema da qualidade continua proporcionando ao Brasil vexame internacional atrás de vexame internacional, sempre que o país participa de provas globais.

É difícil resolver o problema ou avançar ainda que seja um pouco?

Claro que é. Mas é para isso que servem os radicais. Ou para pôr na agenda da próxima campanha eleitoral a necessidade de uma revolução (outra palavra radical) na educação ou, no mínimo, para forçar os não radicais, que são os que têm mais chances eleitorais, a serem um pouquinho menos mansos.

Esforço adicional no primeiro turno

Maria Inês Nassif
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A estratégia eleitoral que vem sendo montada por dirigentes do PT nacional parte de um cálculo que é menos eleitoral e mais institucional: não se trata simplesmente de eleger a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, mas proporcionar a ela, no caso de vitória, mais conforto do que teve o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus dois mandatos. O menor dos problemas da administração petista foram os governadores - inclusive os dos partidos adversários - e essa experiência não recomendaria despender grandes esforços para eleger preferencialmente candidatos do PT. A maior dificuldade, a formação de maiorias políticas dentro do Congresso Nacional - lá, Lula conseguiu base de apoio instável e sem qualidade. Uma bancada petista maior e mais densa seria o fator de governabilidade que faltou aos governos do partido. Articulações político-eleitorais que partem desses pressupostos podem explicar uma tendência quase suicida de dirigentes nacionais do partido de sacrificar candidaturas petistas com chances de vitória não tão pequenas em alguns Estados.

Dentro desse raciocínio, o primeiro e o segundo turno passam a ter uma importância semelhante na estratégia do partido. Dilma Rousseff tem grandes chances de ir ao segundo turno e polarizar com um candidato de oposição, se conseguir tempo suficiente de propaganda eleitoral de rádio e televisão para se apresentar como a candidata de Lula e se credenciar aos votos "lulistas". A transferência de votos não é, afinal, propriamente uma impossibilidade quando um presidente da República tem uma aprovação que beira os 80%. Uma aliança grande o suficiente para garantir tempo de propaganda eleitoral de rádio e televisão é importante para isso. Mas, mais do que simplesmente ser uma passagem de Dilma para o segundo turno, o primeiro turno define a composição do Legislativo.

Nessas eleições, são renovados dois terços do Senado, uma quantidade de representantes que pode determinar a maioria na Casa pelos próximos dois mandatos presidenciais. Serão eleitos dois representantes por Estado em outubro do ano que vem. Na Câmara, cujos representantes são escolhidos pelo voto proporcional, conseguir uma grande bancada petista depende necessariamente do desempenho do partido nos Estados com mais representantes - São Paulo, em disparado, que tem 70 dos 513 deputados; Minas, 53; Rio, 46 e Bahia, 39. Nessas quatro unidades da federação, concentram-se também quase metade dos eleitores que votarão no sucessor de Lula: 22,35% deles estão em São Paulo, 10,745% em Minas, 8,6% no Rio e 7% na Bahia, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Por maior que seja o desempenho do PT no Norte e no Nordeste, por conta da popularidade de Lula, não há como viabilizar a candidatura de Dilma sem ao menos dividir os votos dos tucanos nesses Estados. E é impossível eleger uma grande bancada de deputados sem ter um bom desempenho eleitoral neles.

Essa equação complicada envolve a tentativa de dirigentes de intervir fortemente na eleição paulista, se necessário impondo aos postulantes do partido ao governo do Estado a candidatura de Ciro Gomes (PSB) ao Palácio dos Bandeirantes - sim, essa hipótese é ainda a que mais atrai os petistas próximos ao presidente Lula porque se aposta que Ciro rivalize melhor com o PSDB em território serrista, porque ele é um candidato que usará o seu palanque de candidato a governador para atacar Serra candidato a presidente e porque isso manteria o deputado fora da disputa presidencial (como isso depende do domicílio eleitoral, esse assunto se resolve em definitivo até amanhã, quando se encerra o prazo legal para que Ciro transfira seu título de eleitor do Ceará para o Estado).

O PT paulista, assim, pode se tornar o alvo preferencial das interferências dos dirigentes nacionais do partido porque o Estado é o mais cotado contendor do PSDB à Presidência, o governador José Serra; é o mais monolítico reduto tucano - o partido de Serra está no poder estadual há 26 anos - ; tem a maior bancada federal do país; e, por fim, porque o petismo, que nasceu em terras paulistas, está em declínio.

O problema é saber como se comportam os eleitores dos atuais deputados petistas do Estado numa eleição que não estará polarizada entre o PT e o PSDB, e para que lado vão os eleitores dos candidatos a presidente sem a carona de uma polarização estadual. Em 2006, o candidato do PT a presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, teve 36,7% dos votos; a candidata ao governo, Marta Suplicy, não teve muito menos, ficou com 31,6% da votação. Da mesma forma, os candidatos do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, e ao governo do Estado, José Serra, tiveram uma votação parecida no primeiro turno - Serra foi eleito com 57,9% dos votos e 54,4% dos eleitores paulistas ajudaram a levar Alckmin para o segundo turno com Lula. A estrondosa votação tucana ajudou o PSDB a elevar a sua bancada federal - elegeu 18 deputados, contra 11 nas eleições de 2002. O impacto sobre a bancada petista da votação do PSDB, no entanto, não foi drástico: o partido fez 14 deputados federais, contra 18 nas eleições passadas. Em 2002 e 2006, os dois partidos que tiveram melhor desempenho para a Câmara dos Deputados no Estado foram as legendas que polarizaram nas eleições para o governo. Se o partido entrar em cena em favor de Ciro, é duvidoso que carregue a mesma bancada federal.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Concentração de terras cresce

Jacqueline Farid, RIO
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Desigualdade de 2006 supera a de 1985, diz IBGE.


Concentração de terras piorou nos últimos 20 anos

Censo do IBGE mostra nível de desigualdade superior a 1985 e 1995

A agropecuária brasileira permanece marcada pela desigualdade e com um nível de concentração de terras cada vez mais grave, como mostra o Censo Agropecuário 2006, divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O censo retrata as mudanças ocorridas no setor na última década, já que o levantamento anterior refere-se a 1996. No entanto, a concentração de terras permanece praticamente inalterada há mais de 20 anos, desde 1985.

Segundo o IBGE, enquanto as propriedades de menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7% da área agrícola, a área dos estabelecimentos de mais de 1.000 hectares concentram mais de 43%.

O Índice de Gini - medida internacional de desigualdade - no meio rural chegou a 0,872, superando o dos anos de 1985 (0,857) e 1995 (0,856). Pela tabela de Gini, que vai de zero a 1, quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade na renda.

Como comparação, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), também do IBGE, divulgada há três semanas, mostrou o índice de 0,521 para o rendimento total do trabalho no Brasil em 2008.

O Gini brasileiro, um dos mais altos do mundo, vem recuando nos últimos anos. Mas a pesquisa revela que a desigualdade é ainda maior no campo.

"As diferenças na área dos estabelecimentos agropecuários continuam a caracterizar a manutenção da desigualdade na distribuição de terra no País nos últimos censos", conclui o estudo, que revela, ainda, a baixa escolaridade dos produtores, assistência técnica limitada e uso indiscriminado de agrotóxicos, além de importante presença da agricultura familiar na produção de alimentos.

A evolução do Gini da estrutura agrária, no entanto, foi muito diferente entre as unidades da Federação. Em São Paulo, passou de 0,758 no censo anterior para 0,804. No Maranhão, recuou de 0,903 para 0,864. No Censo 2006, o maior índice de Gini estava em Alagoas (0,871), enquanto o menor foi apurado em Roraima (0,664).

O técnico do IBGE responsável pelo Censo Agropecuário, Antonio Carlos Florido, disse que os dados de Gini devem ser analisados com cautela, já que nem sempre a concentração reflete uma situação desfavorável para os produtores.

Segundo Florido, o arrendamento de algumas grandes propriedades para um grande número de produtores, para exploração de uma cultura como a soja, pode provocar distorções em algumas regiões, mostrando que há muitos estabelecimentos muito pequenos, mas isso não é um dado negativo, já que estão sendo gerados trabalho e produção nessas pequenas fatias de terra.

Ele ressalta que um dado importante revelado pelo Índice de Gini é que, apesar da manutenção das desigualdades na média do País, a concentração diminuiu em quase 50% dos municípios. De acordo com o IBGE, em 2.360 municípios houve redução do índice, ainda que o nível tenha prosseguido, na maior parte, elevado.

O secretário executivo e ministro interino do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Daniel Maia, também alerta que é preciso avaliar os resultados com cautela. Segundo ele, "o que existe no Brasil é uma concentração da produção de terra e não da propriedade", afirmou.

Ainda de acordo com ele, há lugares em que esse dado não é negativo. "Se há duas grandes propriedades numa região, e em uma delas há muitos assentamentos, a tendência é de elevação do Gini."

Repressão nas ruas reforça estado de sítio

Ricardo Galhardo Enviado especial • TEGUCIGALPA
DEU EM O GLOBO

Forças de segurança dispersam violentamente manifestantes em Tegucigalpa e Justiça Eleitoral se une à pressão por revogação de decreto

Amparada no decreto PCM-016 que suspende as liberdades civis por 45 dias, a Polícia Nacional hondurenha, apoiada pelas Forças Armadas, dispersou a golpes de cassetete e bombas de gás lacrimogêneo um protesto contra o fechamento de meios de comunicação e expulsou um grupo de sem-teto que ocupava há três meses um prédio público em protesto contra a destituição do presidente Manuel Zelaya em 28 de junho.

Enquanto a polícia agia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedia ao presidente interino, Roberto Micheletti, a revogação do decreto. Com o pedido, a Justiça Eleitoral se junta ao Congresso, setores do empresariado e da Igreja Católica na reação contra a truculência do governo interino.

Apesar dos incidentes, as negociações por uma saída para a crise política avançam. Amanhã, uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA) deve chegar a Honduras para articular um acordo.

O prédio do Instituto Nacional da Agricultura (INA) foi cercado por centenas de homens armados nas primeiras horas da manhã. Um dos pontos do decreto prevê a desocupação de prédios públicos. Na véspera, os semteto da Via Campesina haviam sido advertidos e ontem foram despejados.

Mas não houve violência.

Pouco depois, cerca de mil simpatizantes de Zelaya se reuniram na porta da Rádio Globo, invadida, depredada e tirada do ar pelas forças de repressão na segunda-feira, para protestar contra o cerceamento à liberdade de imprensa. Depois de duas horas de manifestação, a tropa de choque decidiu agir. Sem sequer tirar a máscara contra gás lacrimogêneo, o comandante da tropa fez sinais para que os manifestantes se retirassem.

Enquanto a multidão saía em passeata rumo ao Canal 36, emissora de TV que também foi depredada e tirada do ar, os policiais atacaram com bombas de gás e golpes de cassetete. Centenas de agentes surgiram das esquinas e encurralaram os manifestantes, entre eles mulheres e idosos que fugiram em disparada. Em minutos as ruas estavam vazias. O único vestígio era o cheiro de gás lacrimogêneo.

O porta-voz da polícia, Daniel Molina, disse que ninguém foi detido.

Segundo ele, a ação se deu em cumprimento ao decreto. Perguntado sobre o fato de a medida ter sido rejeitada pelo Congresso, respondeu: — Mesmo assim (o decreto) continua em vigência.

‘Foi destituído por seu esquerdismo’

O TSE, que em Honduras representa um poder independente, engrossou o coro contra o estado de exceção. Em reunião com Micheletti, os magistrados pediram a revogação do decreto.

— Pedimos respeitosamente que o decreto seja revogado para que não haja nenhum questionamento sobre a legitimidade da eleição — disse o magistrado David Matamoros.

Anteontem, depois de receber pedido idêntico do Congresso, Micheletti recuou e disse que consultaria o TSE e a Suprema Corte. Enquanto isso, o decreto continua em vigor. Apesar de terem seus equipamentos danificados, tanto a Rádio Globo quanto o Canal 36 continuam em atividade na internet.

Amanhã deve chegar a Honduras uma missão da OEA com o objetivo de preparar terreno para uma reunião entre os dez chanceleres da América Central semana que vem. Ontem, o chileno John Biehl, assessor do secretáriogeral da OEA, José Miguel Insulza, esteve reunido com Zelaya na embaixada brasileira. A expectativa é de um acordo na próxima semana.

— Desta vez encontramos mais boa vontade em ambos os lados — disse Biehl.

A jornais latino-americanos, Micheletti disse que está disposto a se afastar do poder se isso ajudar numa saída para a crise. Para ele, no entanto, ainda não é o momento de “se sentar” com Zelaya. Micheletti classificou como inconstitucional uma proposta que incluía tropas estrangeiras no país e afirmou que Zelaya foi destituído por seu “esquerdismo e corrupção”.

“Ele foi um presidente liberal, como eu. Mas se tornou amigo de Daniel Ortega (presidente da Nicarágua), (do venezuelano Hugo) Chávez, (do equatoriano Rafael) Correa e (do boliviano) Evo Morales.” Sobre a derrubada, acrescentou: “Nosso único erro foi tirálo da forma como tiramos. No resto, atuamos com a lei.”

Orçamento SP: Serra eleva verba de habitação e transporte

Catia Seabra
Fernando Barros De Mello
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Pré-candidato a presidente prioriza setores que são objeto de disputa entre PSDB e PT

Em Orçamento enviado à Assembleia, recursos para transportes sobem 43% e, para habitação, 12%; saúde cresce 7% e educação, 5%

Objeto de disputa entre PT e PSDB, o setor de transportes sobre trilhos e os investimentos em habitação são os que mais engordarão no Orçamento do governo de São Paulo para o ano eleitoral de 2010. O governador do Estado, José Serra, é pré-candidato tucano a presidente da República.

Como antecipado pela Folha, o Orçamento não prevê reajuste para servidor público.Em comparação ao Orçamento deste ano, a dotação da Secretaria de Transportes Metropolitanos -maior parte dela destinada a obras- crescerá 43%, passando de R$ 5,8 bilhões para R$ 8,3 bilhões no ano que vem, segundo proposta encaminhada ontem pelo governo à Assembleia Legislativa.

O aumento é significativo se confrontado com a proposta para a educação. Comparado ao valor aprovado para este ano, o reajuste das despesas para a área será de 5,25%: de R$ 22,4 bilhões para R$ 23,6 bilhões.

Alvos de recente duelo entre Serra e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, os programas de habitação terão um aumento de 12%, de R$ 1,747 bilhão para R$ 1,959 bilhão. Deste total, R$ 600 milhões serão destinados ao Programa de Urbanização de Favelas e Assentamentos Precários.

Para saúde e segurança pública, a estimativa de aumento de despesa supera 7%.

Pela proposta, a projeção de investimentos -obras e novos projetos- para 2010 é de R$ 21,9 bilhões, a maior de todo o governo Serra. Em 2007, os investimentos somaram R$ 9,5 bilhões. Em 2008, foram R$ 14,8 bilhões. Para este ano, a estimativa é de R$ 20.593 bilhões. A meta do governo Serra é investir R$ 66,7 bilhões durante todo o mandato.

Recuperação

Para o ano que vem, o governo Serra prevê uma receita total de R$ 125,535 bilhões, 6,7% maior do que o previsto para 2009 (R$ 118,2 bilhões).

Para chegar a esses números, o Estado apostou na recuperação da economia. Em abril, no auge da crise internacional, o governo fez uma projeção bem menos otimista ao enviar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) à Assembleia.

Na LDO, o governo apresentou uma estimativa de receita de R$ 116,02 bilhões, excluídos cerca de R$ 9 bilhões de receitas extraorçamentárias.

"Na época, fomos bem mais parcimoniosos. A expectativa era de queda de R$ 4 bilhões de receita. Agora, acreditamos que será possível atingir a previsão do Orçamento", justificou o secretário de Planejamento, Francisco Vidal Luna.

A concretização dessa receita dependerá, porém, do sucesso da emissão de títulos no mercado. Para garantir um aporte de R$ 900 milhões, o governo obteve autorização para venda de títulos como antecipação de créditos que tem a receber.

O Estado pode receber, de uma só vez, créditos cujo pagamento seria diluído em até dez anos. Antecipará o recebimento de dívidas que, no ano passado, foram parceladas dentro do PPI (Programa de Parcelamento Incentivado).

Já a execução de outros R$ 4,8 bilhões depende da liberação de empréstimos com agentes financeiros, enquanto R$ 2,7 bilhões representam parcela da venda da Nossa Caixa.

Ontem, Serra disse que há previsão de venda de ativos para manter o nível de investimento.

"Mesmo para o ano que vem, há previsão também de alienação de ativos. No fundo, é troca de ativos, trocamos uma coisa pela outra", afirmou o governador paulista.Sobre uma possível venda da Cesp (Companhia Energética de São Paulo), o pré-candidato tucano afirmou: "Estamos aguardando a regulamentação da questão das concessões das hidrelétricas em geral, no Brasil e no sistema Cesp".

Filiado, Meirelles mira vaga de vice de Dilma

Célia Froufe, GOIÂNIA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No dia em que se filiou ao PMDB de Goiás, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, reagiu com naturalidade à especulação de que seria um nome para vice na chapa presidencial da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. "Agora, é normal que isso ocorra. E é legítimo." Mas garantiu que a decisão sobre sua candidatura a "qualquer cargo eletivo" sairá só em março, mês em que vai tirar férias de 15 dias para reunir-se com políticos e andar pelo País. Se optar por concorrer, deixará o comando do BC.

Caso contrário, ficará à frente da autoridade monetária até dezembro de 2010, como já lhe pediu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Só vou desviar minha atenção (do BC) em março", afirmou. Até lá, segundo ele, será "100% Banco Central".

O clima de comício marcou a filiação de Meirelles, que ouviu sugestões para que se candidatasse ao Senado, a vice-presidente e até à Presidência. "Você é um nome que o PMDB terá para qualquer cargo neste País", disse o prefeito de Aparecida de Goiânia, Maguito Vilela. "O PMDB está escancarado para o senhor se candidatar ao que quiser", emendou o prefeito de Goiânia, Iris Rezende.

O presidente da Câmara, Michel Temer, licenciado da presidência do PMDB e nome forte do partido para vice de Dilma, não foi ao evento.

Meirelles teve "dia de candidato", com apertos de mão, fotos, aplausos e entrevistas interrompidas por fogos de artifício. A trilha sonora da cerimônia foi o Tema da Vitória, que ficou conhecido por ser tocado toda vez que o piloto Ayrton Senna ganhava corrida na Fórmula 1.

"CIDADANIA POLÍTICA"

Empenhada em selar a aliança com o PMDB para 2010, Dilma elogiou a filiação de Meirelles. Sem falar da possibilidade de ele ser vice na chapa petista, defendeu o direito à "cidadania política" dos ministros. "Acho importante que participem politicamente, escolham seus partidos e vão militar", disse ela, em Curitiba.

Alternando negativas sobre a decisão de se candidatar e sinais de que está pronta para a corrida, Dilma afirmou que não deixará que o giro de pré-campanha que pretende fazer pelo País atrapalhe seu trabalho no governo. "Também tenho um direito sagrado à militância e à cidadania."

Além de visitar um hospital oncológico e abrir um congresso sobre fundos de pensão, a ministra afagou o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB): "Temos um caminho conjunto no futuro. Pelo menos espero que sim."

Ela jantaria na casa do governador. Requião, que resiste em compor com o PDT um palanque para Dilma, brincou: "Vamos jantar o coelho que o presidente Lula preparou."

Colaborou Clarissa Oliveira