domingo, 10 de março de 2013

"Acho um absurdo não investigar Lula"

Merval Pereira - Autor de "Mensalão"

Respondendo às mesmas perguntas, ficam claros os diferentes pontos de vista dos jornalistas Merval Pereira e Paulo Moreira Leite não apenas em relação ao julgamento do mensalão – descrito e interpretado em tempo real nos livros dos dois autores –, mas também sobre os desdobramentos das sentenças na política brasileira e no combate à corrupção.

Confira os principais trechos das entrevistas.

ZH – Algo muda na política e no combate à corrupção após o julgamento?

Merval Pereira – Não é uma mudança imediata, mas é uma marca na política. O que coíbe o crime é o receio de ser punido, de "ir em cana" mesmo. Alguns réus tinham a convicção de que seriam absolvidos. Marcos Valério, por exemplo, ficou esses anos todos em silêncio por isso. Com a condenação, essa expectativa muda. A outra mudança é o político perder a certeza de que voltará a ser eleito, a ser perdoado pelo eleitor. Essa segunda parte é mais demorada ainda. O PT ficou definitivamente marcado. Perdeu qualquer condição de defender ética na política. Mas eles já estão em outra.

ZH – Se mais réus fossem absolvidos, o brasileiro teria igual respeito pela atuação da Corte?

Merval – Dependeria muito do comportamento dos juízes. Se todos resolvessem fazer um papel de contraponto, como se dispôs (o ministro Ricardo) Lewandowski, haveria uma gritaria muito grande. Mas veja bem, a decisão de condenar José Dirceu por formação de quadrilha se deu por cinco votos a quatro, e ninguém contestou os votos de Rosa Weber e Cármen Lúcia.

ZH – Existe a chance de uma investigação contra o ex-presidente Lula prosperar?

Merval – Não tenho opinião sobre o rumo da investigação, mas acho um absurdo não investigar. Poxa, o capitão do seu time é condenado, você é o principal beneficiado e não haverá investigação? Tem de investigar e, se for o caso, se não for achado ou comprovado nada, absolver. Mas manter uma figura intocável, eu acho um absurdo.

"O ambiente era de cobrança por condenação"

Paulo Moreira Leite - Autor de "A Outra História do Mensalão"

ZH – Algo muda na política e no combate à corrupção após o julgamento?

Paulo Moreira Leite – Não compartilho desse otimismo todo. Fico preocupado ao ver a Justiça usar diferentes pesos e medidas. O desmembramento do processo, por exemplo, ocorreu com os mensalões tucano e do DEM, mas não com esse. Até aqui, quais foram as consequências do julgamento? A determinação do Supremo de cassar os mandatos dos parlamentares, uma atribuição que, segundo a Constituição, cabe a outro poder, o Legislativo. Temo não evoluirmos no combate à corrupção, mas na criminalização da política.

ZH – Se mais réus fossem absolvidos, o brasileiro teria igual respeito pela atuação da Corte?

Moreira – Receio que uma atitude mais serena do tribunal seria uma decepção. Havia um ambiente de cobrança por condenação. José Dirceu era o grande troféu. Em certo ponto, havia a impressão de que a pena de determinada pessoa podia não ser justa para ela, mas que serviria para dar exemplo. Mas estamos falando de direitos individuais.Contradições, quando apareciam, não eram questionadas, eram votadas. Cada ministro tinha sua opinião e seguia em frente.

ZH – Existe a chance de uma investigação contra o ex-presidente Lula prosperar?

Moreira – Não acredito que Marcos Valério aguardaria uma sentença de 40 anos para falar se tivesse provas. A princípio, Lula já foi ouvido, por carta precatória. Mas você pode transformar uma fagulha em fogueira, criar constrangimento. É uma possibilidade.

Fonte: Zero Hora (RS)

Voltado para 2014, Campos aumenta cuidado com imagem

Governador de PE diz que só pensa em 2013, mas ampliou agenda, dá mais entrevistas e lançou perfil no Instagram

Provável candidato do PSB usa estratégia similar à de Lula e tem 41 pessoas no seu grupo de comunicação

Daniel Carvalho

RECIFE - O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), diz estar com a cabeça em 2013 e afirma que as eleições presidenciais serão discutidas só em 2014. Mas sua agenda e sua estratégia de comunicação já o indicam como candidato ao Planalto.

Além de ter subido o tom em críticas recentes ao governo federal, Campos anda com a agenda repleta de encontros com empresários, políticos diversos e jornalistas e até lançou um perfil "nacional" no Instagram -rede social de compartilhamento de fotos.

Seu perfil, administrado por assessores, adotou o BR no nome, em vez do estadual PE: eduardo campos br.

Até ontem pela manhã, 651 seguidores visualizavam 79 imagens do governador em momentos de trabalho e de descontração com a família.

Campos ainda mantém intactos dois hábitos: sempre olhar para as câmeras das TVs durante as entrevistas e sempre andar acompanhado de cinegrafista e fotógrafo.
O grupo de comunicação do governo tem 41 funcionários. A equipe distribui textos à imprensa com destaque a declarações do governador e transmite ao vivo pelo site eventos oficiais.

Essa estrutura, segundo o governo, é a mesma desde 2007, quando Campos assumiu o primeiro mandato.

Divulgação

O governador e presidente nacional do PSB também tem cuidado da sua imagem. Nos eventos públicos, por exemplo, adota estratégia semelhante à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Seu fotógrafo oficial sempre distribui cartões aos fãs que posam para fotos com o governador e depois querem uma cópia de recordação.

Esses eventos, antes acompanhados só pela imprensa local, agora contam com jornalistas de outros Estados, que passaram a ver Campos criticar o governo federal.

Entre os alvos estiveram o financiamento da saúde, o deficit habitacional, as desigualdades regionais e o desempenho da economia.

O governador ainda diz combater o que chama de velha política, numa crítica ao embate de PT e PSDB.

Para Adriano Oliveira, professor da Universidade Federal de Pernambuco, caso a presidente Dilma Rousseff dê um ultimato, Campos terá de se decidir logo. Aliado do Planalto, o PSB chefia dois ministérios (Integração Nacional e Secretaria de Portos).

Segundo a legislação eleitoral, ele tem até o fim de março de 2014 para deixar o cargo e disputar a eleição.

Fonte: Folha de S. Paulo

O xadrez da Esplanada

Dilma Rousseff volta a discutir com Michel Temer, esta semana, o espaço dos aliados na nova composição do governo

Paulo de Tarso Lyra

A decisão da presidente Dilma Rousseff de promover “ajustes pontuais” na Esplanada dos Ministérios para reorganizar a base aliada abriu uma disputa intensa entre os partidos, sobretudo PMDB, PR, PDT e PSD. A expectativa é que a presidente possa anunciar os primeiros nomes já nesta semana, após a segunda reunião que terá com o vice-presidente Michel Temer. O anúncio já foi adiado diversas vezes e, quanto mais o tempo passa, mais complexa fica a distribuição das peças no tabuleiro do xadrez político. Como complicador, ainda há os vetos e os apoios dentro de cada legenda.

Temer é o interlocutor oficial do PMDB. No almoço com Dilma, após o anúncio da liberação de R$ 33 bilhões para obras do PAC nas áreas de saneamento e habitação, ela avisou que, esta semana, conversará com os demais partidos. “Por ser o mais importante partido da coalizão, começaremos a resolver essa equação pelo PMDB. Depois, virão as demais legendas”, confidenciou ao Correio um interlocutor do governo.

No primeiro encontro com Dilma, o PMDB apresentou o seguinte cenário: o deputado mineiro Antônio Andrade para a Agricultura; o titular da pasta, Mendes Ribeiro, seria deslocado para a Secretaria de Assuntos Estratégicos no lugar de Moreira Franco, que seria promovido à Secretaria Nacional de Aviação Civil. A proposta atenderia algumas questões. Mendes, que luta contra um câncer, não seria desprestigiado em um momento de fragilidade física e emocional. E Moreira Franco ocuparia o cargo de um técnico, Wagner Bittencourt. Na visão de alguns peemedebistas, isso diminuiria a pressão por atenção do governador do Rio, Sérgio Cabral, irritado com a derrubada dos royalties e com a candidatura do senador Lindbergh Farias (PT) ao governo do Rio em 2014.

Perdas e ganhos

Mas nem todos no partido concordam com a proposta. Para esse grupo, a ascensão de Moreira Franco atenderia os pleitos de Temer, não os do PMDB fluminense. Se a troca não for feita, Mendes Ribeiro teria que reassumir o mandato de deputado federal no lugar de Eliseu Padilha (PMDB-RS). Padilha, que sempre foi próximo ao PSDB, transformou-se em um hábil negociador pró-governo, importante para conter os dissidentes da bancada comandados pelo deputado Lúcio Vieira Lima (BA).

O PR também precisa chegar a um consenso, se deseja realmente ser contemplado pelo Planalto na minirreforma ministerial. Há quase dois anos, o partido sonha em retomar o Ministério dos Transportes, perdido após a exoneração de Alfredo Nascimento, no meio de 2011. Assim como o PMDB, contudo, o partido admite que é muito difícil que a presidente tire o atual titular da pasta, Paulo Sérgio Passos. A presidente até toparia colocá-lo como secretário executivo, se a legenda indicasse o senador Blairo Maggi (MT).

Mas o PR prefere outro nome — o do deputado Luciano Castro (RR) —, o que emperra as articulações, embora ele seja funcionário de carreira do setor. Para não ficar de fora da máquina, os integrantes do PR aceitam como contrapartida retomar o controle da Valec — estatal criada para administrar as ferrovias federais — e a presidência do rico Departamento Nacional de Infraestrutura Nacional (Dnit), bem como as superintendências estaduais.

O PDT vive uma situação curiosa. A legenda comanda o Ministério do Trabalho e não tem nenhuma perspectiva de perdê-lo ou de ganhar mais espaço. O problema é que o partido vive uma guerra interna. Os pedetistas esperavam que o atual ministro, Brizola Neto, tivesse condições de controlar o partido e conduzir a pasta. Não fez nem uma coisa nem outra. Acabou fortalecendo o atual presidente da legenda, Carlos Lupi, que trabalha para voltar ao posto que ocupava. Dilma não quer e espera que o PDT apresente outra opção para substituir Brizolinha.

De todos, a situação mais tranquila é a do PSD. A legenda assumirá o recém-criado Ministério da Micro e Pequena Empresa. O provável nome é o do vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.

Fonte: Correio Braziliense

A conta da fidelidade na mesa da reforma

Karla Correia, Leandro Kleber

A renovação dos votos de fidelidade entre PT e PMDB para as eleições presidenciais de 2014 envolve muito mais do que as juras pela manutenção da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer. O dote negociado entre a presidente e o vice busca recompor parte do espaço perdido pelo PMDB desde o segundo mandato do governo Lula, quando o partido chegou a dominar 32% dos recursos de investimentos da União.

As cifras em jogo giram em torno de R$ 1,5 bilhão, no mínimo. Esse é o montante de recursos previsto para os investimentos dos dois principais órgãos negociados com os peemedebistas: a pasta da Agricultura e a Secretaria de Aviação Civil. A conta leva em consideração apenas o que está previsto na Lei Orçamentária de 2013, ainda encalhada no Congresso, à espera de votação. As emendas parlamentares podem para inflar — e muito — esse montante.

A reacomodação do PMDB no governo foi tema de almoço entre Dilma e Temer na terça-feira passada e deve voltar à mesa esta semana, em uma nova rodada de negociações. A maior preocupação é acalmar as bancadas mais irritadas da sigla, a de Minas Gerais, que abriu mão da candidatura própria à prefeitura de Belo Horizonte em 2012 em favor do petista derrotado Patrus Ananias; e a do Rio de Janeiro, às turras com o PT local, que insiste em lançar o senador Lindbergh Farias para o governo fluminense contra o virtual candidato de Sérgio Cabral, o vice-governador Luiz Fernando Pezão.

Hoje, o PMDB comanda seis ministérios, um a menos que em 2007, primeiro ano do segundo mandato de Lula. Mas seu poderio na Esplanada caiu significativamente. No início da administração Dilma, as pastas sob responsabilidade do PMDB representavam apenas 18% do Orçamento da União para investimentos, contra 26% do PR e 31% do PT. “Foi um encolhimento brutal. Falam em seis ministérios do partido, mas não tem como contabilizar nisso a Secretaria de Assuntos Estratégicos, que praticamente não tem orçamento”, reclama um cacique peemedebista.

PMDB perdeu espaço

O governo Dilma representou uma migração de poder econômico do PMDB em direção ao PT. Em 2003, ainda sem o PMDB em sua base de sustentação, Lula deu 16 ministérios ao PT, para administrar 38% dos recursos totais da União para investimentos. O PL do vice-presidente José Alencar, hoje PR, detinha apenas o Ministério dos Transportes, mas essa pasta, sozinha, dava conta de 24% do montante de investimentos, que colocava o partido no segundo lugar em poderio econômico. Reeleito em 2006, depois de sobreviver à crise do mensalão, Lula destinou sete ministérios ao PMDB, que passou a administrar a maior fatia de recursos entre os partidos da base. Os 32% do orçamento de investimentos controlados pela sigla representavam R$ 12,8 bilhões em 2007, distribuídos entre as pastas de Saúde, Minas e Energia, Integração Nacional, Defesa, Comunicações, Agricultura e Assuntos Estratégicos.

Ainda com as feridas abertas pela crise de 2005, o PT comandava 15 ministérios, mas tinha sob seu controle apenas 18% dos investimentos da União. Era superado pelo PR, ainda à frente do Ministério dos Transportes, com 27% dos investimentos; seguido de perto pelo PP, que, à frente da pasta de Cidades, controlava 17% dos recursos para investimentos da Esplanada.

Fonte: Correio Braziliense

Renda para sair da miséria não paga nem dieta básica

Governo adota R$ 70 para erradicar pobreza extrema, mas comida requer R$ 103

Linha baixa para deixar de ser miserável facilita cumprir promessa que será vitrine de Dilma para reeleição em 2014

João Carlos Magalhães, Johanna Nublat

BRASÍLIA - Os R$ 70 mensais per capita que a gestão Dilma Rousseff estabeleceu como linha de corte para erradicar a miséria são insuficientes para comprar os alimentos da dieta mínima recomendada pelo próprio governo federal.

Simulações da Folha mostram que, para adquirir as porções de comida estabelecidas no "Guia Alimentar para a População Brasileira", do Ministério da Saúde, seriam necessários, no mínimo, R$ 103 mensais -ou quase 50% a mais do que os R$ 70.

A diferença confirma aquilo que estudiosos já apontam desde 2011, quando o governo federal anunciou a criação da "linha oficial" da miséria, nunca atualizada pela inflação: ela é baixa demais.

A escolha do valor tem contornos eleitorais porque é a partir dele que Dilma vai mensurar seu esforço para erradicar a miséria no país, promessa feita em 2010 e futuro cerne de sua propaganda para tentar a reeleição em 2014.

Foi a partir desse critério também que, há mais de duas semanas, a presidente anunciou o fim da "miséria cadastrada" -por ter zerado, com uma expansão do Bolsa Família, o número de miseráveis no cadastro federal de pessoas com baixa renda.

Ao escolher uma linha baixa, Dilma tornou mais fácil cumprir a promessa -já que um teto menor acarreta menos pessoas extremamente pobres a serem resgatadas pelos programas sociais.

Apesar de o consumo alimentar mínimo ser um dos critérios mais tradicionais no desenho de linhas de miséria, não há unanimidade sobre a maneira de defini-las.

Por isso, diferentes entidades estipulam diferentes valores -a FGV (Fundação Getulio Vargas), por exemplo, tinha uma linha de R$ 138, quase o dobro dos R$ 70.

Preços mais baixos

O valor mínimo para pagar a dieta básica recomendada pelo governo se baseou nos preços médios captados em 19 cidades pelo Dieese.

A reportagem aglutinou os preços mais baixos encontrados, mesmo que em diferentes municípios, sem levar em conta a variedade de alimentos nas refeições e desconsiderando a inflação a partir do início do ano (os preços disponíveis eram os de janeiro).

Os preços individuais de cada cidade mostram um cenário ainda mais oneroso. Em Campo Grande, por exemplo, a dieta mínima custaria R$ 129; em São Paulo, R$ 155; em Manaus, R$ 193.

Os preços foram calculados antes da desoneração da cesta básica anunciada na sexta-feira, que não alteraria, no entanto, as conclusões.

Plano alimentar mínimo é rico em calorias, mas pobre em nutrientes

Segundo especialistas, com essa dieta é possível ficar obeso e desnutrido ao mesmo tempo

Nutricionista afirma que guia do governo está desatualizado; ministério diz seguir normas internacionais

Especialistas que analisaram a dieta criada pela Folha para testar o limite da linha de miséria de R$ 70 afirmaram que fazer uma alimentação realmente equilibrada sairia ainda mais caro.

"Com todas essas calorias e na falta de vários nutrientes, podemos manter o peso elevado, mas sem saúde. Vai ter uma população até obesa, e desnutrida. Essa dieta teria que ser mais cara", afirma Celso Cukier, médico nutrólogo do Instituto de Metabolismo e Nutrição.

Para a nutricionista funcional Daniela Jobst, apesar de ser o último documento oficial, o guia do Ministério da Saúde está desatualizado.

Jobst trocaria, por exemplo, uma porção de cereais e uma de leite por mais uma de carne ou ovos.

"Essa diretriz é muito básica. Tem muita porção de farináceos, que até são mais baratos. As coisas boas para a saúde acabam sendo mais caras", afirmou a especialista em nutrição funcional.

Procurado, o Ministério da Saúde afirmou que o guia, de 2006, é o documento mais recente com diretrizes alimentares, baseadas em recomendações internacionais.

De acordo com o ministério, o documento está em reavaliação, feita rotineiramente. A pasta não quis, no entanto, se manifestar sobre o teor da reportagem.

Alternativas

O fato de R$ 70 não serem suficientes para comprar os alimentos da dieta não significa que quem ganha menos do que esse valor morreria de fome.

Boa parte dos miseráveis usa restaurantes populares (com refeições por R$ 1,25), se alimenta do que planta ou coleta, recebe comida como esmola, come na escola ou troca pequenos serviços por alimentação.

Fonte: Folha de S. Paulo

Equívocos e preconceitos - Merval Pereira

O economista e professor da UFRJ Mauro Osório, especialista em planejamento urbano e estudos sobre o Rio, diz que a percepção de que o Estado do Rio e suas municipalidades brigam por privilégios inaceitáveis está "ancorada em equívocos", e demonstra que muitos deles têm origem em distorções de cunho político e econômico. O primeiro equívoco é o de que o estado já disporia de boa soma de recursos públicos e teria inclusive uma das maiores cargas tributárias no cenário federativo.

Essa versão foi divulgada há alguns anos pelo Banco Mundial e pelo Ipea, mas Osório diz que, quando comparamos a carga tributária das 27 unidades federativas brasileiras, o Estado do Rio fica apenas na 21ª posição. Na versão do Ipea, as duas maiores cargas tributárias seriam a do Distrito Federal e a do Rio. Curiosamente, a capital e uma ex-capital do país.

"Provavelmente, relacionaram equivocadamente alguma contribuição arrecadada nessas regiões, mas diretamente direcionada ao poder federal". Reforçando a tese de que não temos privilégio tributário, ao estudarmos a receita pública municipal per capita, através de dados do Finbra/MF, vemos que, na média, a totalidade dos municípios fluminenses apresentou, no ano de 2011, uma receita pública per capita de R$ 2.160,10, contra uma receita pública per capita para a totalidade dos municípios da Região Sudeste de R$ 2.009,67. Ou seja, a receita pública média dos municípios do Rio é bastante próxima à média dos municípios dos demais estados da Região Sudeste.

Não existe, por exemplo, uma situação de privilégio no Estado do Rio relativamente a Minas, como afirmou nos debates, no dia da votação, uma deputada federal mineira. O que temos são alguns poucos municípios com privilégio do ponto de vista da receita pública. Entre os municípios com alta receita pública, principalmente advinda dos royalties, Osório cita Quissamã, Macaé e Armação dos Búzios, com receitas públicas, em 2011, de, respectivamente, R$ 10.225,11; R$ 7.296,35; e R$ 5.681,94.

No entanto, ressalva Mauro Osório, temos que ter claro que os privilégios em termos de receita pública entre os municípios fluminenses são a exceção e não a regra. Fazendo um ranking, por exemplo, dos municípios da Região Sudeste com maior receita pública per capita, vemos, entre os 20 primeiros colocados, Quissamã na 5ª posição, Macaé na 11ª e Búzios na 20ª. Além desses municípios fluminenses, verifica-se apenas Porto Real, na 4ª posição, mas a sua forte receita pública per capita municipal advém do fato de estar instalada em seu território a Peugeot Citroën.

Nesse ranking, aparecem nas três primeiras posições os municípios de Presidente Kennedy (ES); São Gonçalo do Rio Abaixo (MG); e Paulínia (SP). O que ocorre no Estado do Rio é uma má distribuição das receitas de royalties interna, entre os municípios, explica Osório. "Mas o estado como um todo não apresenta qualquer privilégio tributário no cenário federativo".

Além disso, há diversos municípios, principalmente na periferia da Região Metropolitana do Rio, com uma receita pública per capita extremamente baixa, sendo inclusive que, em 2011, populosos municípios da periferia da Região Metropolitana - São Gonçalo, São João de Meriti, Belford Roxo e Nova Iguaçu - possuíam uma receita pública per capita inferior a R$ 1.000,00. Isso ocorre, além do fato da má distribuição dos royalties internamente no Estado do Rio, principalmente, pela regra brasileira atual do Fundo de Participação dos Municípios, prejudicial aos municípios com grande densidade populacional. "Ou seja, não é razoável discutir a questão dos royalties como se eles fossem a única receita municipal e não levando em conta a necessidade de discutir também a regra atual de partição dos recursos do Fundo de Participação dos Municípios e também o dos Estados", adverte.

Com relação aos municípios, ele diz que a situação é ainda mais grave, pois a maioria dos municípios fluminenses possui dependência dos royalties igual ou superior a 10% do total da receita pública municipal. Entre os dez municípios mais dependentes de royalties, o quadro de dependência percentual é a seguinte: São João da Barra, 74,2%; Campos, 61,2%; Rio das Ostras, 56,5%; Casimiro de Abreu, 48,3%; Carapebus, 44,8%; Quissamã, 43,7%; Cabo Frio, 40,9%; Armação dos Búzios, 40,3%; Parati, 36%; e Silva Jardim, 35%.

Fonte: O Globo

Pente fino - Dora Kramer

Com críticas duras à administração Dilma Rousseff - política e economicamente falando -, o governador de Pernambuco já começou a passar em revista as possíveis tropas.

Estado por Estado, bancada por bancada, Eduardo Campos tem conversado com dissidentes dos partidos (de governo e oposição) onde há potencial de alianças em 2014. Não se apresenta claramente como candidato a presidente - deixa uma porta aberta para recuar, se necessário -, mas diz o suficiente para o interlocutor compreender do que se trata, enxergá-lo como um atrativo e discorrer livremente sobre os respectivos cenários regionais.

Na semana passada, o governador fez alguns desses encontros cujos efeitos em breve deverão começar a aparecer: deputados federais de variados partidos vão a Pernambuco para visitar Eduardo Campos. Sob qualquer pretexto.

Podem alegar curiosidade a respeito de obras como podem também dizer que querem ver de perto os efeitos da seca, bem como a razão pode ser a medida provisória que retira os portos das administrações estaduais. Tanto faz, já que a ideia é transmitir sinais exteriores de abundância.

No meio político isso se chama "adensar o entorno". É justamente o que tem tentado fazer o governador. O discurso está redondo, na opinião de quem ouviu. Bate na maneira de a presidente administrar e na forma de se relacionar com aliados.

Poupa o ex-presidente Lula, a quem se diz grato, mas deixa patente que eleitoralmente não deve nada a Dilma. Ao contrário, desenvolve o raciocínio de que em 2002 e 2006 os aliados surfaram, por assim dizer, na onda de Lula, mas em 2010 deram o sangue para eleger a sucessora.

Nesse ponto entra o assunto da entrega ou não desde logo dos cargos federais do PSB. Eduardo Campos alega que não pode criar problemas para o partido, notadamente aos prefeitos e governadores.

Vai estender a corda e, se quiser adotar uma análise que ouviu de um dos candidatos a combatente em sua tropa, tem argumento pronto: os cargos atuais representam um acordo da eleição de 2010, mas não significam a promessa de compromisso futuro, muito menos eterno.

Resumo: Eduardo Campos está buscando base política para avaliar a conveniência de se lançar e, se assim decidir, o fará na condição de candidato do contraponto, nunca do confronto.

Querer e poder. Duas evidências emergiram da derrubada dos vetos presidenciais à lei de distribuição dos royalties do petróleo. Uma: o governo federal não exerce poder moderador sobre sua maioria no Congresso e não enfrenta questões polêmicas. É bravio em céu de brigadeiro.

Outra: quando quer, o Legislativo não se submete ao Executivo. O problema é que essa disposição só dá sinal de vida quando está em jogo o interesse dos parlamentares de jogar para a plateia de seus Estados.

Sem lei. A canoa das ilegalidades do MST virou (não é de hoje), porque deixaram ela virar. O governo federal revogou, na prática, legislação que impunha restrições e punições a invasores e os governos estaduais, responsáveis diretos pela segurança do público, em sua maioria fazem vista grossa.

Um grupo de 500 sem-terra vem de invadir a fazenda da senadora Kátia Abreu, assumindo tratar-se de um "ato de sabotagem" contra o agronegócio e a favor da reforma agrária.

Os funcionários da fazenda recolheram-se em seus alojamentos e ali ficaram até que os invasores armados com foice resolvessem terminar o "protesto" que nada lhes custou.

Entram, destroem o que bem entendem e saem sem serem importunados porque as autoridades não enxergam nessas e em tantas outras violências afronta alguma ao Estado de Direito.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Olha o diabo aí! - Eliane Cantanhêde

Na sexta-feira, dias depois de dizer que "a gente faz o diabo na eleição", a presidente Dilma interpretou a candidata na TV e anunciou um saco de bondades que ela mesma vetara seis meses antes.

O DNA da proposta de acabar com os impostos federais da cesta básica é curioso: foi gerada no PT, abortada por conveniência do governo e reencarnada, graças ao PSDB, no corpo de uma medida provisória. Aprovada no Congresso, foi vetada por Dilma e agora anunciada como se fosse novinha em folha.

Para chegar a tanto, Dilma e sua equipe de marketing devem ter concluído que o bônus do anúncio para milhões pela TV abafaria o ônus do grito da oposição e das crítica dos chatos de três ou quatro jornais.

A questão da oportunidade foi decisiva. Em setembro, época do veto, Dilma ainda dava de ombros para o risco de inflação e ainda não tinha sido tão ostensivamente empurrada para a campanha por Lula.

Agora, a coisa mudou. Na sexta-feira, saiu o índice de inflação de fevereiro, maior do que o mercado esperava, e era justamente o Dia da Mulher, que é mais da metade do eleitorado. Perfeito para o conteúdo e o tom do pronunciamento.

Dilma desonerou a cesta básica, incluiu novos produtos e conta com a redução do preço de carnes, café, manteiga, óleo, sabonete e pasta de dente. Também prometeu uma política de defesa do consumidor e um centro integrado de proteção à mulher em cada Estado. Uma beleza!

Encerrou incluindo um autoelogio típico de candidatos num recado aos agressores de mulheres: "Não esqueçam jamais que a maior autoridade desse país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem". Só faltou o "votem em mim!".

O impacto popular é óbvio, mas isso tudo deixa dúvidas: por que fazer o diabo a tanto tempo da eleição? Afinal, o que -ou quem- Dilma, Lula e João Santana tanto temem?

Fonte: Folha de S. Paulo

Cristal partido - Tereza Cruvinel

Se Dilma ainda quiser exercer o poder moderador da União, poderá valer-se da MP que destina os recursos dos royalties à educação para negociar uma fórmula que beneficie os estados não-produtores sem ferir a expectativa de receita do Rio e do Espírito Santo

Nunca se soube quem foi que sugeriu à presidente Dilma Rousseff o jogo ambíguo que ela adotou na questão dos royalties do petróleo. Na primeira rodada, contemplou os estados produtores (Rio e Espirito Santo), vetando os artigos que repartiam, também, os recursos oriundos das jazidas já licitadas. Na segunda, liberou sua base parlamentar para derrubar os vetos. Se a decisão foi solitária, tanto pior. Faltou quem sugerisse à mãe do PAC atuar também como mãe da federação, que saiu do episódio com o tecido esgarçado. Faltou ainda quem dissesse à candidata Dilma que a briga entre os estados poderá ter, até mesmo, consequências eleitorais.

O governador do Rio, Sergio Cabral, que suspendeu todos os pagamentos do estado e tem falado até em insolvência com as perdas que teve, na campanha de 2014 terá que explicar aos fluminenses seu apoio à reeleição de Dilma, num estado onde a aliança eleitoral PT-PMDB já está rompida no plano local. Mas, ainda que Cabral permaneça na aliança, a questão dos royalties já fez do Rio e do Espírito Santo campos férteis para os adversários da presidente. Aécio Neves e Eduardo Campos podem sensibilizar o terceiro maior colégio eleitoral do país dizendo que, se eleitos, vão rever o que o deputado Garotinho chama de “tunga dos royalties”. Os votos do Rio (onde Lula ganhou em 2002 e 2006) serão fundamentais para Dilma. Aécio tentará repetir o feito de JK, obtendo votação avassaladora em Minas. Eduardo Campos pode rachar o Nordeste. São Paulo, em 2014, será terra de ninguém, onde tudo poderá acontecer.

Mas se o problema eleitoral é dos candidatos, o federativo é do país. O angu de caroço está feito, e todo mundo vai meter a colher. Esta semana aportarão no Supremo dois tipos de ação. A dos parlamentares derrotados, pedindo a anulação da sessão, dificilmente será acolhida. Seria ingerência demais num rito interno do outro poder. O resultado foi por maioria esmagadora e a condução do senador Renan Calheiros foi calculadamente serena e firme. Ele precisava, e conseguiu, confirmar sua autoridade sobre o conjunto bicameral. Já o mandado de segurança dos governadores deve resultar na concessão de liminar, suspendendo a mudança nas regras até que ocorra o julgamento de mérito sobre a constitucionalidade da lei sancionada.

Quem tem agora uma chance de atuar positivamente na recomposição do tecido federativo esgarçado é o próprio Congresso. Na quarta-feira, 13, todos os governadores estarão na Câmara, a convite do presidente Henrique Eduardo Alves, para discutir o pacto federativo. Este convite, como registrado por esta coluna, foi feito em seu segundo dia como presidente da Casa. Antes, portanto, do agravamento do conflito dos royalties. O que ele propunha era a pactuação de uma agenda mínima e consensual sobre os principais problemas tributários e federativos. O líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, diz que esta agenda, agora, tornou-se mais urgente. “Vamos ouvir os governadores e dizer a eles que algumas soluções podem ser construídas dentro do próprio Congresso”.

Por exemplo, através da medida provisória que altera as regras de correção das dívidas dos estados, da qual Cunha é relator, da MP que unifica o ICMS e do projeto que regulamenta a partilha do Fundo de Participação dos Estados, que têm como relator o senador Walter Pinheiro. Mas se Dilma ainda quiser exercer o poder moderador da União, poderá valer-se da MP que destina os recursos dos royalties à educação como espaço de renegociação de uma fórmula que atenda a duas exigências: garantir o acesso dos outros estados à riqueza do petróleo, sem ferir a expectativa de receita do Rio e do Espírito Santo, derivadas dos contratos já assinados.

Tudo é eleição

Prefeitos de capitais e governadores de todos os partidos foram aquinhoados pela presidente Dilma com milhões e bilhões do PAC-2 na quarta-feira passada. No paralelo, todos fizeram muita política na passagem por Brasília. O governador Eduardo Campos, que voltou rouco para Recife, apresentou os prefeitos do PSB ao prefeito de Porto Alegre, José Fortunatti, do PDT, dando os primeiros pontos na costura de uma aliança. Fortunatti é candidato a presidente da Frente Nacional de Prefeitos, e deve ter o apoio dos socialistas, contra o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que vem sendo pressionado pelo PT a concorrer. A eleição será no dia 23.

Eduardo Campos vem se exercitando no papel de articulador dos interesses federativos e quer ter o apoio da entidade nas negociações com o Governo e o Congresso.

Agora sai?

Os peemedebistas ouviram da presidente que, a partir do dia 10 de março, que vem a ser hoje, ela começaria efetivamente a tratar da reforma ministerial, que ela chama de ajustes. A impaciência está aumentando.

O PDT também não vê a hora de emplacar o deputado Manoel Dias no lugar de Brizola Neto no Ministério do Trabalho.

Já o PSD poderá ver Afif Domingos ministro depois que o Senado aprovou o projeto, votado antes pela Câmara, que cria o Ministério da Micro e Pequena Empresa. Amanhã, Dilma recebe a senadora do partido e líder ruralista Kátia Abreu. Uma conversa promissora, que não ficará no protesto da senadora contra a invasão de sua fazenda pelos sem-terra.

Fonte: Correio Braziliense

O quartel da PE e a morte de Rubens Paiva - Eli Gaspari

O silêncio dos comandantes militares em torno dos crimes cometidos em quartéis por oficiais que cumpriam ordens dos hierarcas da ditadura teve três efeitos sucessivos:

No primeiro, negando que as torturas e os assassinatos tenham ocorrido, contaminaram as instituições militares nacionais. (Salvo para quem acredita que cerca de 40 guerrilheiros do Araguaia desapareceram a partir de outubro de 1973, sem que o Exército tenha conseguido capturar um só deles. Em maio de 1945 havia cerca de 20 pessoas no bunker de Hitler em Berlim, sumiu só uma.)

Noutro efeito, mais recente, a responsabilidade nominal e exclusiva deslizou para oficiais que à época eram, no máximo, coronéis. Na maioria dos casos, capitães ou majores com cerca de 30 anos. Todos condecorados com a Medalha do Pacificador pelos ministros Lyra Tavares, Orlando Geisel, Dale Coutinho e Sylvio Frota. Não há notícia de oficial repreendido por prática de torturas ou de execuções.

Percebe-se agora um terceiro efeito: o deslizamento para a memória de oficiais mortos. Exemplo dessa tendência é o envolvimento do então coronel Ney Fernandes Antunes, comandante do Batalhão da Polícia do Exército do Rio na morte do ex-deputado Rubens Paiva no DOI do I Exército, que funcionava no mesmo quartel, na Rua Barão de Mesquita. Essa associação remonta aos anos 80 e partiu do tenente-médico Amilcar Lobo, preciosa testemunha da agonia do preso, na madrugada de 22 de janeiro de 1971. Diante do silêncio dos chefes militares, ressoam as denúncias de que ele presenciou torturas. Uma coisa é certa: se ele não sabia de tudo o que acontecia lá, sabia o suficiente para perceber a extensão dos crimes ali praticados. Ele e todos os seus chefes. O coronel morreu nos anos 70, não pode se defender, nem se explicar.

O comandante do 1º Batalhão da PE não tinha jurisdição sobre o DOI, que funcionava num pavilhão dentro do seu quartel. Cláudio Fonteles, membro da Comissão da Verdade, produziu um documento dizendo que o assassinato de Paiva foi "consumado no Pelotão de Investigações Criminais do PIC do DOI/Codi do I Exército." É um detalhe, mas não existia PIC do DOI. O PIC era do batalhão da PE. Funcionava no mesmo pavilhão que o DOI e seus oficiais circulavam pela central de suplícios. Em São Paulo, não se associa o quartel do 8º Batalhão da PE com as torturas do DOI porque o destacamento funcionava noutro prédio, a centenas de metros de distância, em área urbana civil.

Rubens Paiva foi examinado por Amilcar Lobo numa cela da carceragem, quando agonizava. Pela sua narrativa, acompanhava-o um major do DOI e, no dia seguinte, o tenente Armando Avólio Filho, do PIC, disse-lhe que o preso morrera. Na tarde anterior um militar do batalhão teria visto Rubens Paiva sendo espancado por um oficial do DOI. Esse testemunho está ao alcance da Comissão da Verdade e de suas averiguações.

Entre outubro de 1970 e junho de 1971, o DOI foi comandado pelo major José Antônio Nogueira Belham. Um documento datilografado, com data de 21 de janeiro de 1971, quando Paiva chegou ao DOI, tem uma nota manuscrita informando que "dois cadernos de anotações" do preso foram entregues ao "maj [major] Belham" e devolvidos. Ele poderia estar de férias nesses dias e a anotação ter sido posterior. Nesse caso, na madrugada dos mistérios o DOI estaria sob a chefia do subcomandante, o major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, que está morto.

Tendo chegado a general, depois de passar para a reserva, Belham ocupou um cargo de confiança no governo de Lula, a vice-presidência da Fundação Habitacional do Exército. Foi demitido em 2010 porque encrencou-se com as viúvas dos 18 militares mortos durante o terremoto do Haiti. Nesse episódio, explicou-se: "Posso ser veemente na defesa das minhas ideias, mas jamais estúpido, grosseiro, ou mal-educado: duvido que haja alguém, homem ou mulher, que tenha convivido comigo nos 46 anos de Exército e 12 anos de Fundex, que diga isso de mim".

Aos 78 anos, Belham pode contar o que acontecia naquele pavilhão onde praticavam-se mais que grosserias contra homens e mulheres. No mínimo, lembrar quais eram os oficiais e sargentos que lá poderiam estar na madrugada de 22 de janeiro, quando o cadáver de Paiva foi retirado do prédio. (Num episódio similar, ocorrido com Chael Charles Schreier dois meses antes, o Centro de Informações do Exército operou a desova tentando, sem sucesso, internar seu cadáver no Hospital Central da corporação.)

Pela rotina de hoje, o Exército registra que, entre 1970 e 1975, um oficial ficou à disposição da Presidência da República, serviu no gabinete do ministro, ou ainda no comando do I Exército. O curioso olha e presume: ele esteve no Gabinete Militar do Planalto, foi oficial de gabinete do ministro e tornou-se ajudante de ordens do comandante da tropa do Rio. Nada disso, o capitão serviu no SNI, no CIE ou no DOI da Barão de Mesquita.

No caso de Paiva simulou-se sua fuga, num teatrinho durante o qual teria sido sequestrado enquanto era levado numa diligência. No episódio, terroristas teriam incendiado o Volkswagen em que ele viajava, escoltado pelo capitão Raimundo Ronaldo Campos e dois sargentos do DOI. Todos vivos. Se os deslizamentos não forem contidos, o caso Rubens Paiva terminará assim: ele foi massacrado na PE do coronel Ney Fernandes Antunes (que não comandava o DOI), e o responsável pode ter sido o então major Demiurgo. Quem sabe, o comboio da desova poderia ter sido organizado só pelo major Freddie Perdigão Pereira, do CIE. Todos mortos, como Rubens Paiva.

Modos

Ninguém está livre de ter um piti e o doutor Joaquim Barbosa mostrou que é chegado a um descontrole.

Da próxima vez que ele mandar alguém "chafurdar no lixo" e decidir desculpar-se, poderá fazê-lo pessoalmente. Pedir desculpas por intermédio da assessoria de imprensa é coisa de barão de uma elite que se julga acima da choldra.

Em 2009, um policial de Boston foi chamado a uma cena em que um negro forçava a porta dos fundos de uma casa. Ao interpelá-lo, teria sido insultado. O negro era o professor Henry Louis Gates, professor de Harvard e dono da casa. Por causa do insulto, prendeu-o e o companheiro Obama disse que o policial agiu "estupidamente".

Ao contrário do que aconteceu com Barbosa, no episódio a bola estava dividida, mas o presidente dos Estados Unidos deu-se conta de que não devia ter dito o que dissera. Convidou Gates e o policial para tomarem uma cerveja na Casa Branca.

Madame Natasha

Madame Natasha zela pelo idioma e concedeu uma bolsa de estudos ao governo de São Paulo, que mantém uma "Divisão Policial de Portos, Aeroportos, Proteção ao Turista e Dignitários".

Natasha acredita que poderiam dizer "proteção ao viajante".

Do contrário, justifica-se a ação da quadrilha que roubava objetos nas malas dos passageiros no aeroporto de Cumbica. Se elas pertenciam a um simples contribuinte, estariam desprotegidas.

Venezuela

A próxima novidade que virá da Venezuela será uma lenta reaproximação diplomática com os Estados Unidos.

No vácuo desta iniciativa poderá sair da sombra uma abertura com Cuba, com quem já rolam conversas.

Fonte: Folha de S. Paulo / O Globo

Ação social de Chávez - Míriam Leitão

Por que choram os venezuelanos que choraram nos últimos dias? Hugo Chávez era de fato amado por uma parte da população. As suas políticas sociais foram erráticas mas produziram efeitos quantificáveis. As escolas bolivarianas com tempo integral viraram um programa restrito, já as pensões se espalharam. As misiones usam 25% do gasto social, mas têm falhas administrativas graves.

Choram porque foram beneficiados por alguns dos vários programas sociais criados e se sentiram parte do país nos discursos e na maneira de governar do presidente morto. Nos programas sociais houve falhas; no discurso, o velho populismo. Mas Chávez fez o que outros governantes da Venezuela não fizeram.

O histórico dos seus programas sociais é tão tumultuado quanto era a sua forma de governar. As misiones permaneceram, mas algumas com mais eficácia que outras. São mais de 40 misiones : programas sociais para atacar um específico problema. A Mercal leva alimentação de baixo custo aos mais pobres; Barrio Adentro tem a função de melhorar a oferta de saúde aos mais pobres; as misiones educativas , aumentar a matrícula escolar e qualidade das escolas. Elas foram criadas à margem da estrutura administrativa de governo, o que provocou duplicação do esforço, desperdícios. A Vivienda urbanizou áreas pobres, mas construiu muito menos do que se propôs.

Todos os programas continuam dependentes de fatores externos, como as receitas do petróleo, e por isso nos 14 anos de governo houve oscilação dos gastos com esses programas. A Barrio Adentro depende ainda dos médicos cubanos. Um estudioso da ação social de Hugo Chávez, o pesquisador Carlos Aponte Blank, acha que o maior defeito dos programas foram as prioridades cambiantes e a falta de sustentabilidade.

Houve fases. Na primeira, de 1998 a 2003, uma das estrelas era a escuela bolivariana de horário integral. A meta era universalizar esse formato, mas o programa estagnou. Foi criado o programa Plan Bolívar 2000, para atender às emergências sociais. Houve corrupção e o programa foi abandonado. E assim, vários outros. A polarização política na Venezuela impede que setores contrários a Chávez reconheçam os avanços; já o chavismo utiliza os programas de forma demagógica. O ideal seria ter políticas sustentáveis e a cultura do direito do cidadão.

O aumento dos beneficiários de pensões para pessoas com mais de 60 anos foi constante nos 14 anos. Em 1998, havia apenas 16% da população com direito ao benefício. Pulou para 27% em 2004, 40% em 2007, e 43,3% em 2009, e nos últimos anos deve ter chegado a 50%. A redução da pobreza só aconteceu após 2004. Quando ele assumiu, 50% dos venezuelanos estavam abaixo da linha da pobreza, em 2004 o número havia piorado para 53%, em 2007 caiu para 33%, e em 2011 foi a 31,9%. As maiores quedas da mortalidade infantil e do analfabetismo foram nos anos recentes.

"A melhora de boa parte dos indicadores aconteceu entre 2004 e 2007, fase em que é maior a bonanza petroleira e em que também são maiores os gastos sociais", diz Carlos Aponte Blank. O gasto social por habitante voltou a subir nos últimos dois anos por causa da eleição.

O grande mérito de Chávez foi tentar reduzir o histórico abandono da população pobre da Venezuela, mas as políticas sociais não têm sustentabilidade fiscal, nem se consolidaram como uma política de Estado. São ainda o velho assistencialismo paternalista.

O choro coletivo em Caracas traz a marca de uma região que ou excluiu os pobres ou os atendeu com políticas apresentadas como bondades de um "pai dos pobres". Esse pêndulo entre exclusão é manipulação é o maior erro histórico da América Latina.

Fonte: O Globo

O futuro da revolução bolivariana - Michel Zaidan Filho

A morte do líder venezuelano, Hugo Chaves, anunciada nesta terça-feira provocará a mesma comoção popular da morte de Getúlio Vargas, no Brasil, Peron, na Argentina ou do presidente Salvador Allende, no Chile. Trata-se do desparecimento da personalidade política latino-americana mais importante, depois de Fidel Castro (ainda vivo), de quem Chaves deveria se transformar em legatário e herdeiro.

A obra do chefe da revolução bolivariana pôs na ordem do dia a necessidade de uma política externa comum, independente e alinhada com o sul. Os logros dessa tentativa, independentemente das controvérsias, ensombreceu o prestígio internacional de Lula, como protagonista da unificação latino-americana. Chaves foi o político que vai se aproximou de Cuba e de Fidel. Foi o que levou mais longe a tentativa de inversão de prioridades tanto da política externa independente como na nacionalização, estatização e distribuição de rendas em seu país. De certa forma, influenciou a eleição de Evo Morales na Bolívia e de Rafael Correia no Equador. A presidenta argentina o tinha em grande prestígio. E a nossa dirigente nacional o declarou amigo do Brasil.

De toda maneira, era uma referência muito importante na mudança de orientação da política externa do subcontinente americano. A revolução bolivariana, como chamava Chaves, demarcou a linha divisória entre os países da zona de influência do dólar (e da ascendência norte-americana nesses países) e os países caracterizados por uma política externa independente, multilateral, sul-sul, como a do Brasil. Giro muito importante para o fortalecimento do MERCOSUL e da mudança dos nossos países nas relações internacionais. Deixamos de ser meros caudatários da política externa norte americana e passamos a ter voz ativa no cenário mundial.

É certo que tudo isso se deu num contexto onde a América Latina deixa de ser prioridade da política norte-americana, mais preocupada com a Ásia Central e o Oriente Médio. Mas até por isso mesmo abriu-se uma imensa janela de oportunidades para os países latino-americanos lutarem pelos seus interesses estratégicos e se unirem, apesar da diversidade existente entre eles.

O futuro da revolução bolivariana é o futuro do legado dessa política externa e vai depender muito dos esforços de cada um dos membros da aliança comercial e alfandegária sulamericana de levar adiante essa construção, até como homenagem ao líder venezuelano.

Michael Zaidan, sociólogo e professor da UFPE

Lula desembarcou na Italia! - Giovanni Menegoz

Lula lá gritavam os petistas em campanhas eleitorais memoráveis do passado recente brasileiro. Hoje, o Lula lá pode se referir a um País distante, do outro lado do Oceano, que se chama Itália. O Lula em questão se chama Beppe Grillo, um ex cômico italiano, que mais de cinco anos atrás, precisamente a 8 de setembro de 2007, organizou e presidiu numa praça de Bolonha o dia do “vai tomar no c...”, o Waffanculo Day.

A partir deste dia, teve origem um movimento, chamado de 5 Stelle (5 Estrelas) que liderado pelo ex cômico cresceu enormemente, principalmente através da rede Internet, e chega hoje a se constituir isoladamente na primeira força política italiana (25,55%), somente superada pelas duas frentes, uma de centro-esquerda, liderada por Bersani, do Partido Democrático (29,54%) e outra de centro direita, liderada por Berlusconi do Partido das Liberdades (29,13%) que até hoje forneciam ao sistema político italiano a característica de bipolarismo Não é fácil definir o Movimento 5 Stelle devido ao fato de que Beppe Grillo è hoje uma metralhadora que atira em todas (ou quase) as direções.

Sistema partidário e sindical a ser colocado na lata do lixo, fim dos partidos e das centrais sindicais com o conseqüente fim dos financiamentos públicos a estas entidades, moralidade pública a ser restabelecida, prisão para os corruptos, ataques a todas as figuras políticas hoje em evidência, inclusive através de insultos pessoais, e muitas outras propostas, grandes partes das quais extremas e radicais que atingem o setor econômico, institucional e social, como o cancelamento da dívida pública, a ruptura com a União Européia, a volta da lira, a renda de cidadania (uma espécie de bolsa-família para os desempregados), o fim imediato ao financiamento público dos meios de comunicação, a implantação da democracia direta via Web, a conseqüente superação do Estado, etc.

Esta mistura de propostas, algumas razoáveis, outras anárquicas, outras reacionárias, e outras ainda oníricas, fazem deste Movimento um grande pólo atrativo para uma parte significativa dos cidadãos italianos, que aderiram em grande número ao movimento. Desde as eleições passadas de 2008, o centro-direita perdeu cerca de 6.000.000 de votos, grande parte dos quais carreados para o Movimento 5 Stelle, e o centro-esquerda cerca de 3.500.000, aproximadamente um terço, também transferido na mesma direção. Tudo isso faz do Movimento 5 Stelle uma grande força política na Itália, fato que lembra um pouco o que aconteceu no Brasil a partir do momento que o PT surgiu em nosso cenário.

A frase de Lula “trezentos picaretas no Congresso” hoje tem uma correspondência enormemente amplificada em seus conteúdos, de grande impacto sobre a opinião pública, devido principalmente à forte crise que atinge a Itália, em que o desemprego alcança quase 3.000.000 de pessoas (entre os jovens o índice de desemprego è mais de 35% e entre mulheres chega a quase 45%), mais de 3 milhões de famílias estão abaixo da linha de pobreza e outras 3 milhões próximas dela. O centro-esquerda, cuja componente principal è o PD, conseguiu conquistar, em razão das regras eleitorais, a maioria absoluta da Câmara dos Deputados, mas no Senado, mesmo tendo o maior número de cadeira, não conseguiu o mesmo. Isso significa ingovernabilidade, em um País que até às vésperas das eleições apontava para um governo de centro-esquerda majoritário e estável.

A nova situação tem pegado de surpresa as forças políticas tradicionais que agora se movimentam em busca de soluções devido à nova situação. O centro-esquerda recolheu o desafio e se declarou dispposto a um confronto construtivo com o Movimento 5 Stelle. Mas a direita italiana também não está parada. Ela sabe que uma parte consistente de seu eleitorado a abandonou, tratando-se agora de movimentar-se para não perder suas posições até agora predominantes na cena política italiana. Um aspecto interessante das criticas avançadas pelo Beppe Grillo durante a campanha eleitoral é que ele não ataca a Igreja, não contesta os privilégios que ela detém na Itália.

Poucos dias passados as eleições, Grillo recebeu a visita de um sacerdote cujo conteúdo da conversa não foi revelado. Por outro lado, Grillo também tem recebido representantes do artesanato e da pequena indústria, que podem ser no terreno político as pontas de lança de um setor importante da economia italiana, quando se sabe que a pequena e média indústria estão localizadas majoritariamente no Norte da Itália, onde uma quantidade enorme de votos, antes de centro direita, vazaram para o Movimento 5 Stelle. É de outro dia a informação que a Goldmann Sachs, através de um seu porta-voz, manifestou satisfação pelos resultados eleitorais italianos. Tudo isso aponta para um jogo politicamente muito sofisticado onde o menor erro na estratégia do centro-esquerda pode colocar tudo a perder.

A convergência do Movimento 5 Stelle com círculos econômicos e religiosos italianos, tradicionalmente de direita, se vier a se concretizar, podem criar uma mistura explosiva do tipo a que conheceu a Itália na ascensão do fascismo. Em um quadro de graves dificuldades econômicas e sociais, a convergência desta força insurgente, de caráter fundamentalista e anárquica, com os poderes econômicos constituídos e consolidados historicamente, não è uma boa solução no sentido de favorecer avanços sociais dentro de um processo de ampliação da democracia.

Pelo contrario, isso se presta a uma mera reciclagem da política na base de que “tudo deve mudar” para que “tudo continue como está”. Certamente não está no horizonte a perspectiva de que aquele País esteja a risco quanto ao funcionamento das instituições democráticas.

Aqui no Brasil, o fenômeno parecido que foi a ascensão do PT ao poder, apesar de alguns pensarem que podia levar a implantação de um regime de tipo totalitário, ou outros, de um regime tipo socialismo-real, mas de inspiração não comunista, evoluiu pelo contrario em direção a um regime populista fortemente pragmático que não pôs em risco o funcionamento das instituições.

A realidade è que a direita italiana, como força política que dirigiu a Itália desde o fim da 2ª guerra mundial, em sua busca pela manutenção do poder, vai fazer de tudo para impedir que o centro-esquerda reverta a situação, manobrando hoje, inclusive se for o caso, utilizando o Movimento 5 Stelle, em vista da manutenção de interesses econômicos dos quais ela è expressão.

No momento que escrevemos, não sabemos qual será o desfecho do contencioso italiano porque as coisas mais importantes ainda devem acontecer. O PD, diversamente do que aconteceu aqui no Brasil, quando o PT conseguiu explodir para cima levando Lula ao governo em uma composição com os donos do poder (bancos, grandes grupos empresariais, exportadores e importadores), è uma grande força política italiana e com grande experiência no assunto.

Hoje, por exemplo, o PD nega terminantemente qualquer possibilidade de acordos com o PDL de Berlusconi (è isso è correto), e oferece o flanco ao Movimento 5 Stelle, manifestando-se disposto a trabalhar em cima de pontos programáticos também presentes nas pregações do Beppe Grillo, mas sem abrir mão de princípios que se chocam com aqueles defendidos pelo ex-cômico. Também é um ponto de interrogação de como os grillinos (assim são chamados na Itália os aderentes ao Movimento 5 Stelle) irão se comportar no Parlamento, visto que na Itália não existe vinculo de mandato.

Uma observação a título de conclusão è a seguinte: visto que no Brasil vivemos hoje um tempo, guardadas as diferenças, que poderíamos definir como de época “pós-Grillo”, o PD italiano, que sempre encarou de forma positiva o governo do PT e os diversos governos populistas da América Latina, tem a oportunidade agora de refletir melhor acerca das verdadeiras características destes governos e dos processos políticos e econômicos em curso no nosso Continente, hoje que è chamado a lidar com o Lula deles.

Giovanni Menegoz, jornalista, ensaísta e tradutor.

Crítica a um modo de produzir riqueza - José Arthur Giannotti

Leia a seguir um trecho de Considerações Sobre o Método, estudo de José Arthur Giannotti escrito para a nova edição de O Capital, de Karl Marx, cujo primeiro de três volumes chega às livrarias dia 21

O primeiro volume d'O Capital - Crítica da Economia Política foi publicado em 1867, na Alemanha. Embora seu autor, Karl Marx, já tivesse emigrado para Londres em 1850, ele continuava a manter profundas relações com os alemães e os líderes dos movimentos operários que participavam das políticas revolucionárias espalhadas por toda a Europa.

O Capital não foi escrito com intenções meramente teóricas, não pretendia elaborar uma nova visão dos acontecimentos econômicos nem aspirava a ser mais uma notável publicação do mercado editorial: o que a obra pretendia era criticar um modo de produção da riqueza essencialmente ancorado no mercado, isto é, na troca de produtos sob a forma mercantil. Como é possível que uma troca que equalize produtos possa sistematicamente produzir excedente econômico? Criar tanto riqueza como pobreza? Em sua análise, Marx pretende mostrar que esse excedente provém da diferença entre o valor da força de trabalho e o valor que o trabalhador cria ao pô-la em movimento. Espera, assim, provar cientificamente a especificidade da exploração do trabalho pelo capital, inserida num modo de produção que leva ao extremo o tradicional conflito de classes que marca toda a história. No limite, esse conflito não teria condições de ser superado?

No entanto, se o livro desde logo é arma política, não é por isso que foge dos padrões mais rigorosos que regem as publicações universitárias. O fato de nem sempre ter sido bem acolhido pelos pensadores acadêmicos não quer dizer que sua composição e seus passos analíticos deixem de seguir uma metodologia rigorosa e cuidadosamente traçada, buscando uma nova interpretação que pudesse pôr em xeque o pensamento estabelecido.

Essa intenção crítica já se evidencia no subtítulo da obra. A economia política foi o primeiro esboço daquela ciência que hoje conhecemos sob o nome de economia. Como veremos, haverá uma ruptura de paradigma entre essa forma antiga e a nova, que a disciplina assume no século 20. Tal ciência nasce estudando como se constrói e se mantém a riqueza das nações, como se desenvolvem o comércio, o crédito, o juro, o sistema bancário, o imposto, o Estado e assim por diante. Lembremos que o Estado, como formação política separada da totalidade da polis, somente se configura de modo pleno no Ocidente a partir do Renascimento. De certo modo, a economia política é a primeira forma de pensar as relações de produção, o metabolismo do homem com a natureza - retomando a linguagem favorita do jovem Marx - que as desliga de intervenções políticas diretas. Note-se que o Estado sempre esteve presente no desenvolvimento capitalista, mas o mercado, principalmente na sua fase adulta, recusa essa interferência acreditando ser mais eficaz do que qualquer intervenção pública.

Nos meados do século 19, observa o próprio Marx, a nova ciência se apresentava como um bom raciocínio formal: "A produção é a universalidade, a distribuição e a troca, a particularidade, e o consumo, a singularidade na qual o todo se unifica". Encadeamento superficial, porque deixa de lado a história. Esse comentário aparece numa famosa introdução de 1857, que acompanharia o livro Contribuição à Crítica da Economia Política, o qual pretendia estudar à parte o método da nova ciência inspirando-se na lógica hegeliana, cujo debate estava aceso entre os alemães, mas deixou de ser publicado por causa de sua complexidade. Paradoxalmente, porém, se tornou um dos textos clássicos da dialética materialista. Somente veio à luz, de forma definitiva, na coletânea de escritos inéditos conhecida como Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Esboços da Crítica da Economia Política). Ao lê-lo, desde logo percebemos que Marx critica seus pares não apenas porque desenvolvem teorias incompatíveis com os dados empíricos, mas sobretudo porque aceitam uma visão errônea da natureza do próprio fenômeno econômico, tomando como real o que não passa de ilusão criada pelo próprio capital.

Vamos tentar mostrar os primeiros passos dessa crítica de natureza lógica e ontológica, que, por ser a mais radical, muitas vezes tem sido deixada de lado. Por sua complexidade, por certo exigirá do leitor um esforço suplementar.

II

O estudo da produção, distribuição, troca e consumo segue em geral as linhas de um raciocínio correto, mas deixa de lado a íntima conexão das atividades elencadas. Em particular ignora o lado histórico da produção, cuja forma varia ao longo do tempo conforme se moldam seus meios. Além do mais, se a estrutura das atividades econômicas depende de seu tempo, não é por isso que elas seguem uma evolução linear. Depois da quebra do comunismo primitivo, os sistemas produtivos se articularam em modos conforme se configurou a propriedade dos meios de produção. Somente no capitalismo todos os seus fatores assumem a forma de mercadoria, o que logo desafia o pensamento: como um sistema nessas condições, quando as partes são trocadas por seus valores, pode gerar um excedente econômico? A mercadoria não se confunde com um objeto de troca tribal, situação em que, por exemplo, um saco de alimentos não pode ser trocado por uma canoa, embora esta possa ser trocada por uma mulher. Nem se confunde com o escambo. Suas primeiras formas se encontram nas trocas regulares e por dinheiro entre comunidades separadas. Uma análise dos fenômenos econômicos deve capturar as diferentes formas dessas trocas de um ponto de vista histórico.

Ao dotar os conceitos de historicidade, Marx atenta para as diferentes vias de suas particularizações, assim como para as diversas maneiras pelas quais o universal e o particular se relacionam. "Se não há produção em geral, também não há igualmente produção universal. A produção é sempre um ramo particular da produção - por exemplo, agricultura, pecuária, manufatura, etc. - ou uma totalidade. Mas a economia política não é tecnologia." Essa observação é muito importante para compreender o sentido da totalidade tal como é pensada por Marx. Já lembramos que uma das origens de seu pensamento foi a dialética do idealismo absoluto. É sintomático que durante a redação do primeiro volume d'O Capital ele tenha relido a Ciência da Lógica de Hegel. O vocabulário e a inspiração desse livro, que funde lógica e ontologia, provocam nos comentadores de Marx as maiores dores de cabeça e os maiores desatinos.

Para Hegel, um conceito geral, como mesa, não é apenas o que um olhar captura como propriedades comuns de várias mesas. Também não se particulariza somando determinações, propriedades predicáveis (mesa de escrever, mesa de comer...). O conceito fruta, por exemplo, não é o conjunto das propriedades inscritas em geral nas frutas. O conceito hegeliano já traz em si o princípio de sua diferenciação. Nada tem a ver com o freguês que, ao comprar frutas, recusa laranjas, peras e figos, porque não encontra em cada coisa a universalidade que as engloba.

Este exemplo - a relação entre o gênero da fruta e suas espécies - se assemelha à relação da produção em geral e suas particularizações. Os gêneros vivos passam a existir mobilizando duas forças contrapostas, o masculino e o feminino, que geram indivíduos igualmente polarizados. Não acontece o mesmo com a produção que se realiza na agricultura, na pecuária, na indústria, cada uma negando a outra de tal modo que se separam na medida em que conformam a unidade geral? Um modo de produção como um todo (produção, distribuição, troca e consumo) não tem suas partes ligadas por essa mesma negatividade produtora? E o mesmo não acontece com os diversos atos de produzir que se diferenciam desde que possam ser igualizados por um padrão tecnológico comum que se expressa no valor? Por sua vez, não forma uma estrutura dotada de temporalidade própria?

Mas se, ao criticar a economia política positiva, tal como se configurava até o século 19, Marx se inspira na dialética hegeliana, não é por isso que aceita mergulhar nos mares do idealismo. Seria muito estranho que um materialista pudesse acreditar que tudo o que é venha ser manifestação do Espírito Absoluto. Marx, que tinha formação de jurista, também passara pela crítica que os neo-hegelianos de esquerda haviam feito a seu mestre. O desafio era dar peso ao real quando a dialética tudo reduz ao discurso do Espírito.

III

No posfácio dos Grundrisse, Marx explicita sua concepção de concreto, o qual, insiste, seria a síntese de várias determinações, isto é, de propriedades atribuídas a algo posto como sujeito de predicações. Não é por isso que o real resultaria do pensamento como se brotasse do cérebro, mas é o pensar, por meio de suas representações, que isola na totalidade do real aspectos que essa própria totalidade diferenciou. O conceito deve, pois, nascer do próprio jogo do real acompanhado pelo olhar do cientista. A mais simples categoria econômica, o valor de troca, pressupõe a população, uma população produzindo em determinadas condições, e também certos tipos de famílias, comunidades ou Estados. O erro dos lógicos formais e dos economistas é duplo. Primeiro, fazer do valor de troca uma propriedade de um objeto trocável em qualquer situação histórica, deixando de diferenciar a troca de presentes entre certas etnias indígenas, a troca de indivíduos por dinheiro num mercado de escravos e assim por diante. Aqui cabe investigar como o valor de troca de cada um desses produtos está ligado ao todo do processo produtivo. É preciso, em contrapartida, sublinhar que somente no modo capitalista de produção todos os seus insumos estão sob a forma de mercadoria. Mas isso somente se torna possível, do ponto de vista da formação histórica, quando aparece no mercado uma força de trabalho desligada de qualquer outro vínculo social. No entanto, do ponto de vista formal, cada objeto conformado para ser mercadoria é posto em comparação com qualquer outro que venha ao mercado em busca de uma medida interna de trocabilidade. Numa situação de mercado, os valores de um escravo trazido de Angola e de outro trazido da China podem ser traduzidos na mesma moeda, mas todo o processo de capturá-los e transportá-los pressiona para que eles tenham medidas diferentes. Não é o que tende a acontecer num modo de produção em que todos os insumos provenham da forma da mercadoria.

Nesse sistema o valor de uso do produto fica bloqueado enquanto estiver no circuito das trocas, e seu valor de troca passa a ser expresso nos termos de qualquer outro produto que costuma aparecer no mercado. O valor de uso de um pé de alface que produzo para a venda precisa se exprimir numa certa quantidade de valor correspondente a cada um dos objetos que comparecem ao mercado. Todos os produtos se tornam, assim, comparáveis. Note-se que essa abstração que captura a determinação valor de troca é feita pelo próprio processo de troca - o pensamento apenas recolhe a distinção feita. Além do mais, esse valor, assim constituído, contradiz a existência do valor de uso no qual se assenta. O valor de troca depende do valor de uso, mas o nega, bloqueia seu exercício, coloca-o entre parênteses. Para chegar até o consumo, a fruta deixa de ser comida para se consumir como objeto de troca, objeto cuja produção foi financiada em vista de sua comercialização.

Para Marx, embora o concreto, o real oposto ao pensamento humano, se apresente como síntese de determinações, estas não são aspectos que os observadores encontrariam na realidade sensível para serem, em seguida, alinhavados numa coisa pensada. Por todos os lados assistimos a relações de troca, mas o cientista precisa levar em conta que essa relação depende de produtores que vivem e operam segundo certos costumes, nos quais os indivíduos, sempre socializados, estão ligados a famílias e a outras unidades sociais. Sabemos que antigamente as relações de troca mercantil apareciam entre as comunidades, quando essas relações sociais deixavam de operar. Somente no capitalismo é que elas fazem parte do sistema como um todo e se dão em sua pureza formal.

Ao introduzir a categoria de modo de produção, Marx rompe definitivamente com o paradigma seguido pelos economistas de sua época. Se a economia política pretendia estudar como se gera a riqueza social, acreditava-se que ela deveria começar estudando o ato produtivo mais simples, o ato de trabalho. Mas o homem é um ser eminentemente histórico e social, cada totalidade produtiva situa o ato de trabalho num lugar muito determinado. Esse é um princípio de que Marx não abre mão. Desse modo, imaginar que o processo produtivo pudesse se fundar no ato individual de trabalho equivale a considerar a atividade de Robinson Crusoé, isolado na sua ilha, como a matriz da produção de riqueza social. Mas o próprio Crusoé não trabalha segundo moldes que ele aprendeu na Inglaterra de seu tempo? Não podemos, pois, perder de vista que o ato de trabalho se integra na totalidade do processo produtivo segundo a trama das outras determinações primárias: distribuição, troca e consumo. A trama categorial define a totalidade do processo. Ademais, como veremos, nem todo ato de trabalho numa empresa vem a ser socialmente produtivo do ponto de vista da criação de valor.

José Arthur Giannotti é professor emérito de filosofia da USP, pesquisador do CEBRAP, autor, entre outros livros, de Lições de Filosofia Primeira (Companhia das Letras)

Fonte: Sabático / O Estado de S. Paulo

A ideologia das aspas - Roberto Romano

Jean-Pierre Faye, linguista e autor de fina análise do discurso totalitário, mostra a troca e a circulação das palavras nas formas ideológicas. Termos gerados no Uso social da direita no espectro político não raro integram falas e textos da esquerda. O contrário também ocorre com frequência. Ao trânsito de vocábulos ou slogans Faye chama “ferradura ideológica”, a qual prende as falas no itinerário sinistro cujo fim é a perda de sentido lógico ou ético. A expressão “nacional-bolchevismo”, cunhada para acolher um movimento que pretendia unir elementos do fascismo e do comunismo, mostra à saciedade a pertinência da proposta elaborada por Faye (no livro Linguagens Totalitárias).

As expressões verbais enunciam sentimentos, raciocínios, verdades ou mentiras. A dissimulação dos corpos se amplia nos artifícios retóricos e surgem os que ludibriam e os enganados. O realismo político define-se como arte de tratar com má-fé a própria mente para depois iludir os tolos com mágica oracular. Instalados no poder, os truculentos costumam ser francos entre seus pares, camaleões ou raposas diante da massa humana que os aplaude ou apupa. Na praça eles defendem nobres ideais, mas nos palácios empregam a tortuosa razão de Estado.

Nuclear na ética, a consciência nos conduz acima das feras, orienta a razão, que sem ela ignora a diferença entre o bem e o mal (Rousseau). A sua expulsão da ordem política deveria prevenir os que hoje se alimentam do poder concedido pelas urnas. Recordemos: “AS favas, sr. presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”. Assim falou o ministro do Trabalho e da Previdência Social na edição do AI-5, em 1968. Comprovando o itinerário proposto por Faye, parte da esquerda brasileira assume atitude idêntica e joga hoje no lixo a consciência. Ela trairia um falso moralismo. Nos extremos ideológicos a recusa da consciência se arrima na salus populi, outro item da ardilosa razão de Estado.

Como agem os que, no poder, ironizam quem ainda sente o que os gregos chamavam aidós, ou seja, vergonha de praticar coisas erradas? Eles começam desacreditando a consciência ética. Como não sentem rubor, dizem que a política não se faz sem colocar as mãos na torpeza (uso ignaro das teses enunciadas por Sartre, o autor de As Mãos Sujas). Certa feita, em réplica à luta pela moralidade no Brasil, um realista afirmou que apelar para a noção de consciência era algo irrelevante e ridículo. Mengele, escreveu ele, também possuía consciência. A mesma pessoa afirmou rir às escâncaras quando escuta alguém invocando a consciência como critério de ação e juízo. As vítimas de Mengele não riram, com certeza, diante de seus atos e palavras. Nem as vítimas das ditaduras que amestraram o Brasil no século 20.

Com a zombaria os realistas (no poder ou na sarjeta, não raro os dois lugares se confundem) sempre usam aspas para desqualificar quem ainda não se deixou prender pelo cinismo ou pela tibieza. Aspas foram inflacionadas na propaganda fascista, nazista e comunista. É preciso arrancar um indivíduo da vida pública? Aspas no seu nome, em seus títulos, nacionalidade, condição humana!

Victor Klemperer, outro estudioso que observou técnicas fascistas da fala, nota o uso das aspas no extermínio dos que desafiam oficialismos. “A língua do Terceiro Reich tem horror da neutralidade, porque ela sempre precisa de um adversário e sempre precisa derrubar este adversário.” Se os revolucionários espanhóis têm uma vitória, se possuem oficiais ou um quartel- general, eles são ditos “vitoriosos” ou “oficiais”. A mesma regra foi usada contra os russos que teriam uma “estratégia”. A Iugoslávia teria um “marechal”, Tito. Chamberlain, Churchill, Roosevelt eram “estadistas”; Einstein,um ”pesquisador científico”; Rathenau, “um alemão”; e Heine, escritor “alemão”.

O uso das aspas, para expor os inimigos ao ridículo, generalizou-se no fascismo de tal modo, diz Klemperer, “que nenhum artigo de jornal ou discurso impresso deixava de estar delas apinhado (...). As aspas pertencem tanto à língua impressa do Terceiro Reich quanto à entoação de Hitler e Goebbels, elas são intrínsecas às duas” (LTI: Lingua Tertii Imperii). É bom recordar tais frases quando militantes e teóricos do poder usam aspas para desqualificar seus críticos. O mais comum na língua do governismo brasileiro é escrever que a corrupção imaculada não é aceita pelos “ditos intelectuais”. Semelhante tática eivada de misologia mostra que de libertário e democrático o discurso e a prática nada têm.

Outro vezo fascista era negar aos intelectuais de certa origem (racial, política, ideológica, religiosa) os títulos acadêmicos. Quando as aspas se mostravam insuficientes, era proibido nomear alguém (professores, médicos, advogados,juízes em desgraça) segundo os seus diplomas universitários. Os judeus foram os mais humilhados. Mas a técnica foi aplicada a outros inimigos do Reich (Bruno Betlelheim, The Informed Heart: the Human Condition in Modern Mass Society). O método não vicejou apenas entre os fascistas de direita. Os da esquerda também usaram aspas para desacreditar inimigos. As formas de governo liberais eram ditas “democráticas”, os professores não ortodoxos em termos de stalinismo eram “intelectuais”, etc. Comunhão negra dos nada santos militantes, diria Merleau Ponty. A técnica da desqualificação é a mesma, porque é o mesmo estilo de fazer política: aniquilar quem pensa diferente. Tal é a regra dos que agora ovacionam os palácios brasilienses.

Filósofo, professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),

Fonte: O Estado de S. Paulo

Chorinho brasileiro - Tânia Maria,.Flavio Bala - saxofone

Valsa à mulher do povo – Vinicius de Moraes

Oferenda

Oh minha amiga da face múltipla
Do corpo periódico e geral!
Lúdica, efêmera, inconsútil
Musa central-ferroviária!
Possa esta valsa lenta e súbita
Levemente copacabanal
Fazer brotar do povo a flux
A tua imagem abruptamente
Ó antideusa!

Valsa

Te encontrarei na barca Cubango, nas amplas salas da Cubango
Vestida de tangolomango
Te encontrarei!
Te encontrarei nas brancas praias, pelas pudendas brancas praias
Itinerante de gandaias
Te encontrarei. Te encontrarei nas feiras-livres
Entre moringas e vassouras, emolduradas de cenouras
Te encontrarei. Te encontrarei tarde na rua
De rosto triste como a lua, passando longe como a lua
Te encontrarei. Te encontrarei, te encontrarei
Nos longos footings suburbanos, tecendo os sonhos mais humanos
Capaz de todos os enganos
Te encontrarei. Te encontrarei nos cais noturnos
Junto a marítimos soturnos, sombras de becos taciturnos
Te encontrarei. Te encontrarei, oh mariposa
Oh taxi-girl, oh virginete pregada aos homens a alfinete
De corpo saxe e clarinete
Te encontrarei. Oh pulcra, oh pálida, oh pudica
Oh grã-cupincha, oh nova-rica
Que nunca sais da minha dica: sim, eu irei
Ao teu encontro onde estiveres
Pois que assim querem os malmequeres
Porque és tu santa entre as mulheres
Te encontrarei!