sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Entrevista - Luiz Werneck Vianna. ‘Segundo governo Dilma. Guinada à direita? Não! Um ‘cavalo de pau'.

• “A pior coisa que ocorreu foi o desencanto e o fato de o país olhar em torno e ver que não há nenhum projeto de futuro que seja persuasivo, que mantenha capacidade de encantamento; estamos sem rumo”, lamenta o sociólogo.

Por Patricia Fachin. Colaboração de César Sanson - IHU On-Line

“O governo está perdido e confuso. A situação é preocupante”. A resposta direta e sem rodeios é do professor Luiz Werneck Vianna, sociólogo brasileiro que acompanha com inquietação as medidas anunciadas pela presidente Dilma nos primeiros 50 dias de seu segundo mandato. Embora enfatize que “o rumo dos acontecimentos no primeiro mandato dela apontava para uma direção de retorno da inflação e baixo crescimento”, para o eleitor há surpresas no segundo governo, “porque foi dito uma coisa e outra coisa foi feita”, pontua.

De acordo com o sociólogo, embora na campanha eleitoral PT e PSDB fizeram esforços para aparesentar programas políticos e econômicos distintos, há uma coalização entre os partidos, que se expressa na nomeação do Levy. "Um diálogo que está implícito aí é o Levy e o seu programa econômico, que é o programa econômico do PSDB. Então, num certo sentido, há uma coalizão aí não declarada".

Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, Werneck Vianna identifica ainda mais dois problemas centrais que estão por trás do atual momento político e econômico do país. O primeiro, esclarece, é a aposta da presidente no “caminho do nacional desenvolvimentismo. Esse caminho está exausto. Ele teve seu momento décadas atrás, mas agora não há como continuar. O mundo evoluiu e não há mais folego para uma política desse tipo”.

Segundo ele, "faltou coragem intelectual e competência também para admitir que as circunstâncias foram outras. Então, levou-se até o fim essa possibilidade esgotada na campanha eleitoral, mas com o fim da campanha eleitoral, não havia prerrogativa se não mudasse”.
O segundo problema diz respeito à relação da presidente com o PT. “Que está havendo atritos e ruídos na relação da presidente com o PT, que é o partido dela, é evidente. Isso está presente no cotidiano, estampado nos jornais. E isso é muito perigoso, porque a presidente precisa de um partido que a sustente”, enfatiza.

Diante da queda de popularidade da presidente Dilma pouco mais de um mês depois de assumir o segundo mandato, o sociólogo é enfático: “Agora é difícil para ela, porque ela fez uma campanha política dizendo que estava tudo bem. Mas de qualquer forma, ela tem de dizer que se antes estava tudo bem, agora a situação é outra e é preciso fazer mudanças, ou seja, que neste momento ela precisa fazer uma mudança de rumo no que se refere a aspectos da sua política. Mas ela não fez nada: mudou e não falou nada; ficou muda”.

Nos últimos dois anos, Werneck Vianna esteve entre os sociólogos brasileiros que acompanharam as causas e as consequências das manifestações de massa que iniciaram em 2013 e assegura que embora não tenha havido um retorno de manifestações massivas no país, “a insatisfação agora é mais funda. Se ela vier à tona vai ser muito difícil domesticá-la, porque aí diz respeito aos rumos do país e não a políticas setoriais como foi em 2013, quando as manifestações foram organizadas em torno de políticas públicas específicas, como da saúde, do transporte. Agora, se vier, virá por uma agenda geral”.

Ele sugere que em algum momento os partidos políticos “mais responsáveis e presentes” terão de encontrar uma “saída para o impasse que aí está para evitar o terremoto que pode abalar as estruturas políticas do país, ameaçando as conquistas que fizemos ao longo desse tempo”.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line - Sendo sociólogo, como o senhor está enxergando o Brasil hoje, considerando que há dois anos ocorreram manifestações em massa, depois a presidente Dilma foi reeleita, e já no primeiro mês do segundo mandato, a popularidade dela caiu por conta dos ajustes anunciados, entre eles, as medidas de austeridade, como o aumento dos impostos, o aumento da energia, o aumento da gasolina, a crise da Petrobrás? O que está acontecendo?

Luiz Werneck Vianna – O governo está perdido e confuso. A situação é preocupante.

IHU On-Line - O senhor percebe mudanças no governo Dilma em relação ao discurso que levou à reeleição da presidente e o primeiro mês e meio de sua gestão? Concorda com as teses de que o governo deu uma guinada à direita ou pode-se dizer que se trata de um governo de continuidade?

Luiz Werneck Vianna – Uma guinada à direita não é bem o caso; ela deu um “cavalo de pau”. O rumo dos acontecimentos no primeiro mandato dela apontava para uma direção de retorno da inflação e baixo crescimento econômico – tudo isso estava no radar. Aliás, as candidaturas de oposição batiam exatamente nessa direção, na necessidade de mudança na orientação.
O problema da Dilma é que ela pensa que é economista; ela pode ser tudo, mas ela não é a economista que ela pensa que é. Tanto que quando ela assumiu as rédeas da economia, junto com o Mantega, ela enfiou o país num beco sem saída. Então, não tinha jeito, tinha de mudar.

IHU On-Line – Considerando esse cenário previsto anteriormente de baixo crescimento para este ano, então não há surpresa em relação às mudanças anunciadas no segundo mandato ou há?

Luiz Werneck Vianna – Não, certamente. Mas para o eleitor há, porque foi dito uma coisa e outra coisa foi feita. Agora, o caminho em que a situação se encontrava não permitia a reiteração, porque era o caminho errado. E não à toa Dilmafoi chamar economistas que na verdade perfilavam o programa do adversário.

IHU On-Line – Foi acertada a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda?

Luiz Werneck Vianna – Acho que foi, porque se ela continuasse no caminho em que estava, a crise seria maior ainda.

IHU On-Line - Quais são as principais crises e contradições do atual governo Dilma?

Luiz Werneck Vianna – Ela apostou no caminho do nacional desenvolvimentismo. Esse caminho está exausto. Ele teve seu momento décadas atrás, mas agora não há como continuar. O mundo evoluiu e não há mais folego para uma política desse tipo. A globalização e a internacionalização da economia são um fato, são uma realidade.

IHU On-Line – O governo Lula iniciou seu mandato com o projeto nacional desenvolvimentista. Em que momento o governo Dilma, como continuidade do governo Lula, deveria ter mudado de projeto ou deveria ter percebido que este projeto estava esgotado, como o senhor está dizendo?

Luiz Werneck Vianna – Faltou coragem intelectual e competência também para admitir que as circunstâncias foram outras. Então, levou-se até o fim essa possibilidade esgotada na campanha eleitoral, mas com o fim da campanha eleitoral, não havia prerrogativa se não mudasse.

IHU On-Line - As circunstâncias das quais o senhor fala, que deveriam ter levado a uma mudança de projeto, foram consequência de fatores internos ou externos? Pode exemplificar alguns?

Luiz Werneck Vianna – As duas coisas. Os internos são a baixa capacidade de investimento, o afastamento do empresariado do governo Dilma, e o desencanto com uma proposta que já estava claro que já tinha dado o que tinha que dar.

IHU On-Line - Qual é o significado da eleição de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados e de Renan Calheiros no Senado?

Luiz Werneck Vianna – A eleição de Renan Calheiros era muito esperada, inclusive porque ele é muito confiável do ponto de vista do governo. Por outro lado, Cunha vinha acumulando forças em nome de algumas coisas até importantes, como a independência do Poder Legislativo, e ele foi capaz de galvanizar em torno dele o baixo clero e setores inconformados com a política do governo, inclusive da própria base aliada, conforme se viu.

IHU On-Line - Que papel jogará o PMDB no segundo mandato de Dilma?

Luiz Werneck Vianna – O PMDB é chave. Ele está mais encorpado e autonomizado agora em relação ao governo. OPMDB percebeu que estava sendo alijado pelo governo e esse foi um dos motivos, inclusive, que propiciou a maciça adesão, por parte do PMDB, à candidatura de Eduardo Cunha. Enfim, as urnas apontavam para o fato de que o PMDB tinha se fortalecido, mas a presidente, que tem um vice-presidente do PMDB, não reconhece o fato e montou um ministério com uma influência reduzida do PMDB, e o PMDB reagiu. Além do fato de o Eduardo Cunha agrupar em torno dele todas as demandas corporativas na classe política e também de agrupar a reação a essa agenda comportamental, digamos, libertária, de alguns setores, como o tema da sexualidade, do aborto. Então, ele se tornou um candidato muito poderoso por vários motivos. Ele tem uma agenda política, uma agenda corporativa e uma agenda das questões comportamentais. Agora a presidente vai ter de saber coexistir e conviver bem com ele. A situação é preocupante.

IHU On-Line – O senhor concorda com a tese de que o governo Dilma está muito isolado neste segundo mandato? Se sim, quais são as razões e os possíveis riscos disso?

Luiz Werneck Vianna – Que está havendo atritos e ruídos na relação da presidente Dilma com o PT, que é o partido dela, é evidente. Isso está presente no cotidiano, estampado nos jornais. E isso é muito perigoso, porque a presidente precisa de um partido que a sustente.

IHU On-Line – Quais são as razões dos atritos entre ela e o partido? Isso representa uma crise ainda maior do próprio partido?

Luiz Werneck Vianna – Um dos motivos é que tal como o PMDB, as facções majoritárias do PT foram deslocadas na hora da composição do governo: os homens da democracia socialista passaram a ter uma posição mais encorpada do que as correntes majoritárias do PT. Então isso também pesa. Além do fato de que a presidente não é capaz de justificar, de forma clara, para o mundo da política, para os eleitores, para os cidadãos em geral, qual é o sentido da política dela, ou seja, por que ela adotou a linha, em termos de programa econômico, do seu adversário. Isso tem de ser dito e explicado. Ela tem de apresentar um diagnóstico. Agora é difícil para ela explicar, porque ela fez uma campanha política dizendo que estava tudo bem. Mas de qualquer forma ela tem de dizer que se antes estava tudo bem, agora a situação é outra e é preciso fazer mudanças, ou seja, que neste momento é preciso fazer uma mudança de rumo no que se refere a aspectos da sua política. Mas ela não fez nada: mudou e não falou nada; ficou muda.

IHU On-Line - É possível identificar um núcleo duro hoje no governo?

Luiz Werneck Vianna – É o pessoal do teu estado, a Democracia Socialista do Rio Grande do Sul, a Dilma, Aloizio Mercadante, que não é o “Ás” da política que dizem que ele é.
Tudo vai depender do que o PT vai fazer, especialmente o Lula. A presidente precisa ter um partido que a sustente. Se ela ficar sem partido, vamos repetir o caso do Collor e aí o impeachment seria inevitável. A pior coisa que ocorreu foi o desencanto e o fato de o país olhar em torno e ver que não há nenhum projeto de futuro que seja persuasivo, que mantenha capacidade de encantamento; estamos sem rumo e não podemos ficar assim.

IHU On-Line – Essa falta de encantamento não é repentina. O que houve? Não foi diagnosticada a tempo?

Luiz Werneck Vianna – Sem dúvida, mas isso aconteceu por causa do pragmatismo. O pragmatismo é bom em política, mas ele não pode prescindir de um elemento de convicção. A ética da responsabilidade – essas categorias célebres da obra de Weber - é incontornável, mas ela não pode abdicar de uma ética de convicção. O que ocorreu ao longo desses governos foi que as convicções foram jogadas fora, postas embaixo do tapete. A ética de responsabilidade nos levou ao pragmatismo que só consultou as suas razões e pôs a marca maior no presidencialismo de coalizão que temos, que é uma forma degradada de política.

IHU On-Line - Assiste-se hoje a um crescente movimento interno no PT com a convocatória “Lula 2018” como tábua de salvação da continuidade do PT no poder. Como interpreta esse movimento?

Luiz Werneck Vianna – Isso a meu ver não ajuda porque apenas põe em parêntese quatro anos. Quatro anos é muito tempo. Como era o mundo há quatro anos? Como era o Brasil há quatro anos? Diferente e, em alguns casos, radicalmente diferente. As coisas não vão permanecer iguais até que chegue a hora da convocação da próxima sucessão presidencial. O que se tem de pensar é como garantir condições de operação do governo que aí está.

IHU On-Line - Parcela do movimento social brasileiro tem levantado a bandeira da reforma política. Como interpreta essa bandeira no contexto da atual conjuntura?

Luiz Werneck Vianna – O presidente da Câmara já assumiu o compromisso de levar a iniciativa legislativa que já existe a voto. Isso vai encontrar uma decisão, mas é claro que isso vai demorar porque o projeto de reforma que está no Congresso agrada apenas parcialmente, mas não agrada a todos. Vai ser difícil encontrar um consenso, mas como a opção foi de encaminhar a reforma política de modo “fatiado”, é possível que os aspectos de difícil aceitação sejam logo rejeitados e as partes, digamos, mais saudáveis da reforma persistam. Esse é um caminho possível.

IHU On-Line - Diante das manifestações que ocorreram em 2013 e no passado, vislumbra a possibilidade de novas manifestações por conta do aumento da tarifa de energia, do provável aumento da tarifa de água - já anunciado -, e do aumento da gasolina, que possivelmente irá gerar aumento no valor da passagem do transporte público e dos alimentos?

Luiz Werneck Vianna – Tem havido algumas movimentações, especialmente em São Paulo, mas elas não têm, pelo menos por enquanto, a mesma envergadura do que se encontrou em 2013. E as manifestações de massa, se vierem, virão por essa agenda que você mencionou, por conta do custo de vida, da inflação.

IHU On-Line – Há razões para ir às ruas hoje como se teve em 2013?

Luiz Werneck Vianna – A insatisfação agora é mais funda. Se ela vier à tona vai ser muito difícil domesticá-la, porque aí diz respeito aos rumos do país e não a políticas setoriais como foi em 2013, quando as manifestações foram organizadas em torno de políticas públicas específicas, como da saúde, do transporte. Agora, se vier, virá por uma agenda geral.

IHU On-Line – E se as manifestações vierem, poderá haver risco de impeachment?

Luiz Werneck Vianna – Penso nessa possibilidade com muita preocupação porque não gosto dessa saída institucional, mas, como disse o senador Cristovam Buarque, em declaração recente no Senado, isso já está nas ruas. Mas isso seria, a meu ver, um terremoto. A presidente tem de procurar dialogar. Um diálogo que está implícito aí é o Levy e o seu programa econômico, que é o programa econômico do PSDB. Então, num certo sentido, há uma coalizão aí não declarada.

Os principais protagonistas da política brasileira deviam propor uma saída suprapartidária no sentido de defender as instituições e a democracia brasileira. André Lara Rezende escreveu há poucos dias um artigo no Estadão em que os últimos parágrafos são dedicados precisamente a essa possibilidade de uma “quase que” – não estou dizendo “de” - união nacional.

Mas precisa de muita maturidade para realizar isso, porque do contrário essa crise pode se tornar infernal, especialmente se ocorrer a reiteração de movimentações massivas como aquelas de 2013, onde certamente o termo impeachment vai aparecer. É necessário evitar isso urgente. Mas está difícil ver quem seria um dos portadores dessa boa mensagem.

IHU On-Line - O governo em negociação com as centrais sindicais não voltou atrás e sequer negociou as medidas de redução do direito ao seguro-desemprego e de mudanças nas regras de pensão por morte e o auxílio-doença. Como interpretar esse endurecimento do governo?

Luiz Werneck Vianna – Essa foi também uma coisa mal conduzida. Que há distorções, há, que há fraude, há. Que isso tem de ser corrigido, tem, mas isso tem de ser dito. Isso tudo tinha de ser concebido de forma consensual, as centrais sindicais tinham de ser chamadas e a situação tinha de ser exposta para mostrar qual é o tamanho da fraude e do buraco que as distorções têm trazido para a política fiscal brasileira, e aí chegar a um consenso. Mas não, o assunto caiu como um relâmpago de cima para baixo.

IHU On-Line – Algumas notícias dos últimos dias informam que o ex-ministro Mantega havia dito aos representantes das centrais sindicais, no ano passado, que ajustes seriam feitos neste ano. Mas essa questão não foi informada nas eleições. Por quê?

Luiz Werneck Vianna – O debate eleitoral foi muito pobre. O tema da distribuição de renda, por exemplo, não apareceu nas eleições. Thomas Piketty fazendo um sucesso danado nas livrarias e na imprensa, mas esse tema passou ao largo nas eleições e ninguém quis se aventurar nele. Todas as questões polêmicas foram contornadas no debate eleitoral por falta de coragem política de apresentar as ideias com medo da perda de votos.

A presidente da República é claramente favorável ao aborto, mas essa é a última questão que ela irá trazer para o debate. Com essa covardia política, conforme denunciou o candidato do PV, Eduardo Jorge, de os candidatos não apresentarem de fato suas posições, elas não vêm à tona e não resulta em educação cívica, e a política fica uma coisa meio eleitoreira.

IHU On-Line - Outro movimento social, ao lado da CUT, que tem endurecido o discurso contra o governo é o MST, principalmente após a nomeação de Kátia Abreu. O governo corre o risco de perder apoio junto a bases tradicionais do movimento social?

Luiz Werneck Vianna – O MST é ambivalente; foi assim com Lula também. O MST é outro que não se assume, não sai do armário. O MST é o que: um movimento social ou um partido político?
Faz falta, no sistema político brasileiro, um partido que tenha mais representação agrária real. O MST poderia ter se tornado esse partido ou então, se não quisesse, que fosse uma facção de outro partido, como, por exemplo, do PT. Mas não quis; ele prefere atuar como movimento social, mas é muito dependente do governo. Quem dá dinheiro para o trabalho do MST, para as escolas do MST? De onde vem esse dinheiro? É do governo. Então, é um movimento muito ambivalente e não creio que o MST tenha esse poder de fogo.

IHU On-Line - Como o senhor está “lendo” a atual crise da Petrobras?

Luiz Werneck Vianna – Essa é uma crise terrível porque afeta uma empresa que é um símbolo do país, do desenvolvimento e da industrialização do país. A Petrobras cresceu demais, cresceu mais do que podia e com uma velocidade que não permitiu que os passos fossem bem calculados. Foi uma corrida vertiginosa contra o tempo à base de uma visão mágica de que com o pré-sal nós iriamos saltar para o mundo desenvolvido. Claro que o pré-sal é um recurso importante, mas isso tudo exigia mais ponderação, um cálculo mais refinado. Mas uma ambição desmedida tomou conta do governo. A empresa tem de ser defendida e tem de ser regenerada.

IHU On-Line – Como o avalia a renúncia coletiva da direção da empresa, na semana passada?

Luiz Werneck Vianna – Ao que tudo indica a Graça Foster desistiu, não suportou mais o curso dos acontecimentos. APetrobras foi muito mal administrada politicamente e não só politicamente, mas gerencialmente. A empresa precisa ter sua lógica própria. Rebaixar o preço da gasolina como se fez, penalizou a Petrobras. Vamos ver se a empresa consegue se recuperar agora.

IHU On-Line - Há possibilidades de um novo partido que preencha o vácuo do PT? Como vê a articulação em curso a partir do Rio e de São Paulo em torno da criação de um partido similar às experiências do ‘Syriza’ da Grécia e do ‘Podemos’ da Espanha?

Luiz Werneck Vianna – Em primeiro lugar, fala-se disso (do surgimento de um partido como o Podemos no Brasil), mas não há esboço disso (da criação do partido no Brasil) nem de longe. Em segundo lugar, tanto o movimento grego como o espanhol são movimentos de jovens educados politicamente, com trajetórias políticas articuladas. A juventude brasileira não está nesse nível; ela está ainda viciada nos manuais revolucionaristas das décadas anteriores. Então não tem novidade política e intelectual nesses movimentos juvenis. Basta ver os black blocs; é um modelo exemplar disso. Uma das moedas correntes na juventude é o anarquismo, mas com o anarquismo não se faz o poder, oPodemos, não se faz o Syriza.

IHU On-Line – O anarquismo já está superado enquanto uma “possibilidade” para se chegar ao poder, ou uma reação ao poder instituído?

Luiz Werneck Vianna – O anarquismo tem lá os seus encantos poéticos, agora, para governar o mundo é preciso algo além disso. Mas voltando ao ponto, a juventude brasileira não está se educando para uma intervenção do tipo da que ocorre na Espanha e na Grécia; ela está olhando para o passado e é prisioneira de uma história que já passou, ainda vive no bovarismo. Os jovens não são modernos. Não estou vendo até agora algo que reitere a experiência espanhola e grega. Não vejo pistas e indícios disso.

IHU On-Line - O que o futuro reserva ao Partido dos Trabalhadores? Conseguirá recuperar a vitalidade que um dia teve com as “ruas” ou sobreviverá apenas de sua história?

Luiz Werneck Vianna – O futuro a Deus pertence, agora, o que o PT trouxe na época de sua formação está perdido. Se ele terá condições de encantar e reanimar de algum modo a sua vida e ter um discurso persuasivo para a população, vai depender dele. Ainda não deu os sinais disso. O PT hoje é um partido sem intelectuais.

IHU On-Line – Ao mesmo tempo alguns intelectuais estão tentando pensar novos rumos para a esquerda no Brasil. O que falta para eles?

Luiz Werneck Vianna – É, há, mas essas esperanças dos gregos e dos espanhóis, a meu ver, são muito ingênuas porque não há nada que esteja fermentando em nossa sociedade que indique essa possibilidade. Acho que vamos ter de contar com os partidos que estão aí. Inclusive, tentei sinalizar nesta entrevista, em algum momento, a necessidade de os partidos mais responsáveis e presentes encontrarem uma saída para o impasse que aí está e para evitar o terremoto que pode abalar as estruturas políticas do país, ameaçando as conquistas que fizemos ao longo desse tempo. O melhor instrumento que nós temos é a Carta de 88 e as suas instituições. Então, temos de vigiar essa crise com recursos institucionais que estão ao nosso dispor, como o Ministério Público, o Judiciário. Temos de impedir que essa crise desate uma situação incontrolável de todos contra todos.

Fernando Gabeira - Os suspeitos de sempre

- O Estado de S. Paulo

Escolheram mais um suspeito de sempre. Essa frase, de um jornalista americano, sobre o novo presidente da Petrobrás é precisa.

Certamente não se referia à trajetória pessoal de Aldemir Bendine. Ele ignora que o banqueiro guarda dinheiro no colchão ou que fez um empréstimo generoso à socialite Valdirene Aparecida Marchiori. Creio que queria apenas dizer que o governo arruinou a Petrobrás e dificilmente encontrará alguém, dentro dos seus quadros, capaz de reconstruí-la.

Era preciso um novo presidente com capacidade e autonomia. Se alguém com talento conseguisse sobreviver no governo, decerto seria alvejado pelos atiradores do PT ao revelar alguns vestígios de autonomia.

O PT completou 35 anos com festa. E de alguma forma lembrando a frase "cuidado com os idos de março". É uma data do calendário, talvez o dia 15, lembrada pelo assassinato de César. Os idos de março sempre evocam momentos trágicos para um governo.

No caso brasileiro, o grande adversário do PT é sua própria visão de mundo. O partido considera manobra golpista a enxurrada de dados sobre corrupção na Petrobrás e outros órgãos do governo. Por exemplo, um ex-gerente, em delação premiada, disse que o PT recebeu mais ou menos US$ 200 milhões em propinas, na área de abastecimento. O partido nega.

Usando o senso comum, parece-me absurda a controvérsia em torno de meio bilhão de reais. Se esqueço de pagar uma água de coco no bar do Baiano, no Flamengo, ele é o primeiro a me lembrar que faltam R$ 5. Se tenho direito a troco de apenas R$ 1, reclamo prontamente. Como é possível que uma verba de R$ 500 milhões, oriunda de contratos reais da empresa, transite tão etereamente a ponto de uma intensa investigação não determinar sua trajetória?

A decisão do PT de negar todas as evidências é a manobra mais perigosa que o partido já engendrou nos últimos anos. Dizem os jornais que na festa de aniversário, em BH, o PT prometeu manifestações públicas para defender o governo e isolar o golpismo. Isso é mais animador, pois pode precipitar a realidade. Bandeiras e camisas vermelhas acusando a Lava Jato de manobra golpista podem revelar ao partido um pouco da realidade.

Ando muito pelas ruas. Mas pode ser que ande pelas ruas erradas e tenha uma falsa impressão. Mas a pesquisa Datafolha mostrando a queda na aceitação de Dilma confirma minhas intuições. Não será fácil de novo desfilar com macacões laranja defendendo uma Petrobrás que a maioria acredita ter sido saqueada pelo PT e aliados. Com que palavras de ordem sairão às ruas? "A Petrobrás é nossa" não é um refrão aconselhável para as circunstâncias. Resta talvez a resistência a um golpe hipotético.

E talvez nisso esteja a grande esperança do PT. Um golpe seria sua redenção, a condição de vítima talvez sepultasse o peso dos bilhões roubados da Petrobrás. Mas não há golpe no horizonte. As próprias condições de inserção internacional do Brasil já sepultaram qualquer solução fora da lei. Resta o desenrolar implacável de um processo de corrupção gigantesco que atrai a atenção mundial, porque ocorreu numa empresa globalizada.

A tática de negar sua responsabilidade neste processo histórico será um dado decisivo na história do PT. Muitos já denunciam o medo de Lula e Dilma de discutir abertamente o que se passou na Petrobrás. Pode ser que Lula, Dilma e o PT analisem como coragem sua disposição de enfrentar o processo afirmando que tudo o que o partido recebeu foi doação legal. Mas de onde veio o dinheiro senão do saque da Petrobrás?

No momento é possível reunir a coragem para negar. Mas com o avanço das evidências seria preciso uma coragem muito maior para negar também a lucidez das instituições jurídicas e da opinião pública nacional.

Pela experiência, o que acontece nesses casos é sempre muito doloroso. O PT ainda está um pouco escondido, mas pode observar, por exemplo, o que aconteceu com Graça Foster e Nestor Cerveró: tornaram-se máscaras de carnaval; os vizinhos ergueram faixas contra Graça.

O partido, contudo, escolheu o caminho mais espinhoso para enfrentar o processo. Como no passado, tentará convencer as pessoas de que estão erradas e foram manipuladas pela imprensa.

Outro dia, um homem na rua me disse: "Às vezes me arrependo de ser consciente. Se fosse apenas desligado do Brasil, não sofreria tanto. É muito duro para as pessoas, presenciando um processo com números, nomes de contratos, delatores premiados e tudo o mais, assistirem a alguém dizer que tudo isso é uma grande manobra. Querem me convencer de que sou maluco". Disse ao homem que era um processo mais amplo e, no fundo, está em jogo isto mesmo: ou se pune a corrupção, prendem-se as pessoas e se obriga os partidos a pagarem um enorme preço político, ou então a tática do PT triunfou.

Será preciso enlouquecer todo um país. É uma jogada de alto risco. No mensalão, de punhos erguidos, descobriram a realidade dos presídios e trataram de sair fora, deixando nas grades as secretárias que fechavam envelopes.

Em caso de vitória, terão de governar um País enlouquecido. Em caso de derrota, as consequências são imprevisíveis. Desde a camisa de força até cumprir inversamente a profecia de Delúbio Soares de que o mensalão com o tempo será uma piada. É o próprio PT, com o tempo, que pode virar uma piada.

Se esse é o caminho escolhido, então que vengan los toros. Marqueteiros de todo o País, uni-vos em torno da grana que ainda está nos cofres e provem que essa montanha de dinheiro roubado é apenas miragem, que Pasadena foi um bom negócio e a Petrobrás vai bem, apenas ameaçada pelos inimigos externos.

Procurem fazer um bom trabalho. No mensalão, lembrem-se, sobrou para os marqueteiros. Milhões de dólares rolam pelos computadores num simples toque no teclado. Mas isso não significa que sejam invisíveis.

O empresário de Santa Catarina que tinha 500 relógios num cofre tem lá sua lógica. O tempo está contra a quadrilha, é preciso detê-lo de qualquer forma.
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*Fernando Gabeira é jornalista

Merval Pereira - Temer defende distritão

- O Globo

O vice-presidente da República, Michel Temer, telefona para entrar no debate a favor do distritão, sistema eleitoral em que os candidatos a deputado federal mais votados em cada estado são eleitos, sem depender de coligações partidárias nem de votos na legenda. Temer alega razões "de natureza jurídica e política" para apoiar a mudança, e diz que o voto proporcional anula um preceito básico da democracia: a maioria pratica os atos de governo, respeitando a minoria.

Algumas ideias sobre o tema foram colocadas no papel pelo vice-presidente, que ressalta que presidentes, governadores, prefeitos e tribunais governam por meio do critério da maioria. Em um trabalho sobre o tema que me enviou, ele lembra que os três primeiros se elegem por essa forma exigindo-se, às vezes, maioria absoluta. Nos tribunais, as decisões judiciárias, que são atos de governo, se dão por maioria de votos. Na visão de Michel Temer, o parlamentar que vota a favor ou contra um projeto de lei está praticando ato de governo, e agindo em nome do povo.

O sistema proporcional cria situações que, para ele, negam a regra básica de que todo o poder emana do povo, e que o desejo da maioria deve prevalecer. Uma hipótese a que Temer se referiu no trabalho serve de exemplo, a partir de um caso concreto: um deputado federal eleito com cerca de 1.600.000 votos conduziu pela legenda mais quatro ou cinco deputados. Um deles com 285 votos. Um candidato de outra legenda com 128.000 votos não foi eleito em face do chamado quociente eleitoral.

"Quem representava mais corretamente a regra segundo a qual o poder emana do povo, o de 285 ou o de 128.000 votos?", pergunta Temer. Para rebater a tese de que o distritão enfraquece os partidos políticos, em favor de uma ação personalista do deputado - como advertiu ontem aqui o cientista político Jairo Nicolau -, Temer ressalta que hoje o sistema proporcional prestigia o partido político em detrimento da vontade da maioria popular, e, para ele, entre dois valores constitucionais, vontade majoritária e partido político, deve prevalecer o primeiro.

Ele acha que, ao contrário, o distritão favorecerá os partidos, que não terão que fazer coligações e poderão reduzir o número de candidatos, escolhendo um grupo mais homogêneo para a disputa. Como o Supremo já decidiu pela fidelidade partidária daqueles que são eleitos pela legenda, Temer diz que a emenda constitucional que vier a estabelecer o voto majoritário incluirá no artigo seguinte a fidelidade como critério.

Ele lembra que quando o partido organiza a sua chapa de deputados federais, que pode ser uma vez e meia o número de cadeiras que cabem ao estado, vai se procurar candidatos que às vezes não têm mais do que 500 votos, apenas para engordar o quociente partidário. Ou, então, uma figura muito popular e fora dos quadros partidários que possa trazer um milhão e meio ou dois milhões de votos.

Não significa que tais cidadãos não possam concorrer, diz Temer. Poderão fazê-lo e se eleger, mas não levarão consigo deputados que não tiveram votos ensejadores da maioria. Temer considera certo que os partidos meditarão sobre quantas vagas poderão obter. Se forem 5 ou 6, o partido não lançará mais do que 12 ou 15 candidatos, tornando mais programáticas a fala no rádio e na televisão e nos materiais de propaganda e menos custosas as campanhas eleitorais.

Temer, no entanto, não é contra a ideia de "distritalização" do voto para os deputados estaduais e para os municípios com mais de 200 mil eleitores. Nessas hipóteses, sim, escreveu ele, as regiões do estado ou do município devem ter representação regional nas Casas legislativas. A representação se torna mais efetiva já que aproxima o eleitor do eleito.

Ele defende a adoção do distrital misto, metade eleito pelo voto majoritário e metade pelo distrito, porque há figuras de expressão, mas que não têm base distrital. No caso dos estados e municípios vale a regionalização. O deputado estadual e o vereador legislam para o todo estadual e municipal, mas levarão para as Casas legislativas as aspirações parciais dos seus distritos para formação da vontade global do estado ou do município.

Não é o caso, ressalta Michel Temer, do deputado federal que, sendo representante de todo o povo brasileiro, ao contrário dos senadores, que representam os estados, legisla para todo o país, avaliando as aspirações do povo brasileiro do seu "distritão" (Estado).

Bom Carnaval a todos. A coluna volta a ser publicada na quinta-feira, dia 19.

Dora Kramer- Equilíbrio, volver

- O Estado de S. Paulo

A situação de atrito entre os Poderes Executivo e Legislativo não pode durar para sempre. Uma hora as coisas terão de se acomodar em seu estado natural, que é o de um equilíbrio minimamente razoável nessa relação.

O que se tem hoje é uma circunstância anômala em que o presidente da Câmara dos Deputados parece concentrar toda a força e a presidente da República, representar a figura de maior fragilidade política do País. Impraticável a permanência desse cenário pelos próximos quatro anos.

Tal anomalia serve de alimento à impressão de que a interrupção do mandato de Dilma Rousseff é uma possibilidade concreta e iminente. Como se o Brasil já não estivesse afundado em problemas suficientes para se envolver agora num processo de impeachment de maneira ainda artificial.

Primeiro, porque não há o fato objetivo; segundo, não há consenso social; terceiro, não há concordância entre partidos; quarto, não há solução institucional boa à vista; quinto, a presidente foi reeleita para resolver os enguiços que criou.

A começar pelo restabelecimento de uma convivência equilibrada com o Poder Legislativo, mandamento pétreo da Constituição. A imposição de uma derrota atrás da outra à presidente Dilma no Congresso expõe com todas as letras, pontos e vírgulas o despreparo dela tanto para compreender o que seja um Parlamento quanto para conduzir essa relação ou mesmo para escolher as pessoas certas para a ajudarem na tarefa da interlocução com a sociedade e a mediação política.

Portanto, a articulação política do governo do jeito como foi montada não anda. Isso não faz do deputado Eduardo Cunha a solução de todos os males. Entre outros motivos, porque a ascensão dele não é causa, mas consequência de um passivo acumulado durante os primeiros quatro anos de mandato da presidente Dilma na relação do governo e do PT com seus aliados.

O desequilíbrio entre os dois Poderes não é novidade. A submissão do Legislativo às benesses oferecidas pelo Executivo sempre foi a tônica das coalizões formadas ao arrepio de identidades programáticas. Com o PT isso se aprofundou porque o partido julgou inesgotável e eterno o seu poder de tratar aliados como escravos, mercadorias.

Enquanto a companhia do partido, a liderança de Lula e a bonança de governo rendiam votos, tudo correu bem. O vento virou, mas a onipotência turvou a visão das nuvens no horizonte e, quando a tempestade desabou, foi de uma vez.

O excesso de supremacia de um Poder sobre o outro não faz bem a ninguém, muito menos à República. A exorbitância é um mal em si. O PT é prova disso. Quis demais e está vendo o risco de por tudo a perder.

O PMDB, Eduardo Cunha e base parlamentar rebelada não poderão manter tensão permanente sem que em algum momento isso renda danos. É a teoria da madeira que bate em Chico bate em Francisco. Não demora emerge revolta entre os revoltosos.

A oposição faz o seu papel. Fiscaliza, bate e cobra. Mas aos governistas conviria que substituíssem as facas por conversas de gente grande.

Embolada. Além de outras agruras, o PT enfrenta a falta de um bom roteirista. O partido resolveu levantar suspeita sobre a Polícia Federal, o Ministério Público e a Justiça em decorrência da Operação Lava Jato.

Deixa mal a presidente Dilma, que atribui (indevidamente) o sucesso das investigações ao rigor do governo dela no combate à corrupção. Ao mesmo tempo, os petistas pedem CPI para investigar a Petrobrás no governo Fernando Henrique baseados no depoimento do ex-gerente Pedro Barusco, acusado pelo PT de ser um bandido indigno de crédito.

Breve pausa. Bom carnaval para quem é da folia, bom descanso para quem é do sossego. Até sexta, dia 20.

Bernardo Mello Franco - O guardião da ética

- Folha de S. Paulo

O Congresso deve ter um ano agitado, com a investigação de dezenas de parlamentares citados na Operação Lava Jato. A tensão está no ar, mas ainda há quem diga não estar preocupado com o volume de acusações contra colegas. É o caso do senador João Alberto Souza, do PMDB do Maranhão.

Aos 79 anos, ele vai presidir o Conselho de Ética, que julga os processos de quebra de decoro. Foi indicado por Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos principais políticos citados no escândalo da Petrobras.

Na contramão do noticiário, João Alberto diz não saber quais colegas correm o risco de serem denunciados ao Supremo Tribunal Federal por suspeita de receber propina.

"Quem foi citado até agora? Eu ainda não vi nada. Estou no Senado todo dia e não vi", diz ele. "Não tem nenhum fato concreto. Não existe nada, só especulação", insiste.

O senador presidirá o Conselho de Ética pela quinta vez. Em 2001, tentou arquivar processo contra Jader Barbalho (PMDB-PA), que seria preso meses depois no escândalo da Sudam. "A questão do Jader não me convenceu. Tenho a consciência tranquila", diz, ao relembrar o caso.

Ele contesta a ideia de que foi escolhido para blindar Renan. "É uma especulação que eu não aceito. Não sou guiado por ninguém", afirma.

A pressão da opinião pública não costuma dobrar o senador. Em 2013, ele foi o único a votar contra a cassação imediata de colegas condenados a mais de quatro anos de prisão. A proposta passou por 61 votos a 1.

Aliado de José Sarney, o maranhense entrou na política pela Arena, partido que sustentava a ditadura militar. Em 1990, era prefeito de Bacabal e assumiu o governo do Estado após a renúncia de Epitácio Cafeteira. A Assembleia alegou que a posse era ilegal. Ele cercou o palácio e se fechou no gabinete com a faixa no peito e um revólver 38 na mão. "Naquela época, todo mundo andava armado", justifica. E hoje? "Não ando mais", responde.

Rogério Furquim Werneck - Entre o espelho e o marqueteiro

• De desastre em desastre, a presidente Dilma se vê com espaço de manobra cada vez mais restrito

- O Globo

Fevereiro vem impondo duro choque de realidade a quem ainda não se dera conta da extensão do despreparo da presidente Dilma para enfrentar a grave conjunção de crises com que agora se depara. Na esteira de uma atuação espantosamente desastrada, o Planalto parece ter estreitado ainda mais o já reduzido espaço de manobra com que contava para lidar com leque tão amplo de dificuldades.

O primeiro desastre foi o retumbante fracasso do pretensioso esquema de segurança parlamentar que, supostamente, estaria garantido pelas forças políticas representadas no novo ministério. Apesar de todo seu empenho, o Planalto não conseguiu evitar que o Deputado Eduardo Cunha, notório desafeto de Dilma, conquistasse a presidência da Câmara em primeiro turno, com 267 votos. Não bastasse seu candidato ter tido pífios 136 votos, o PT se viu completamente alijado da Mesa Diretora da Câmara.

Quatro dias depois, para grande irritação do Planalto, a oposição, apoiada por 52 parlamentares da base aliada do governo, conseguiu aprovar a instalação de nova CPI da Petrobras na Câmara, prontamente autorizada pelo presidente da Casa. E foi só o começo. A presidente vem tendo desgostos quase diários com o que vem ocorrendo naquela Casa.

Ainda atordoado pela consciência da precariedade do seu apoio parlamentar, o Planalto logo se viu às voltas com novas trapalhadas na condução da crise da Petrobras. Indignada por ter o Conselho de Administração da empresa admitido que os ativos da companhia poderiam vir a sofrer baixas contábeis da ordem de R$ 88 bilhões, Dilma anunciou que Graça Foster seria afastada da presidência da estatal.

Como já havia feito com Guido Mantega na Fazenda, a presidente pediu a Graça Foster e demais diretores que permanecessem no cargo até que fosse concluído o problemático fechamento do balanço da empresa. Para sua grande surpresa, a diretoria recusou-se a desempenhar tal papel. Preferiu demitir-se em bloco. E Dilma viu-se, de repente, obrigada a encontrar, em 48 horas, um nome com perfil adequado que se dispusesse a assumir a presidência da Petrobras em meio à grave crise que atravessa a empresa.

Entalada nessa posição tão difícil, a presidente poderia ter aproveitado a oportunidade para escolher um nome respeitável e independente, que fosse capaz de repassar a empresa a limpo. Mas preferiu uma solução caseira, que lhe permitisse manter a presidência da empresa sob seu estrito controle e assegurar a blindagem que obceca o Planalto: impedir que o Conselho de Administração e a cúpula do governo venham a ser de alguma forma responsabilizados pelo que aconteceu na Petrobras.

Foi um erro grave. É bem provável que a presidente se arrependa amargamente de ter perdido a oportunidade de pôr em marcha um esforço convincente de reconstrução da Petrobras em outras bases. Dilma parece ainda não ter percebido que, a esta altura, já não será no âmbito da própria estatal que afinal será estabelecido se o Conselho de Administração da empresa ou o Planalto devem ou não ser responsabilizados pelo que aconteceu. E que, caso ela própria venha a ser responsabilizada de alguma forma, estará em posição muito menos confortável do que estaria se pudesse ostentar empenho inequívoco e genuíno em passar a estatal a limpo no seu segundo mandato.

No governo, houve quem se queixasse de que, na escolha do novo presidente da Petrobras, Dilma teria tomado uma decisão solitária, sem consultar ninguém. A informação de que só consultou a si mesma é mais uma evidência de que a presidente, desalentada, quem sabe pela qualidade da assessoria de que se cercou, tem-se mantido preocupantemente isolada.

O que agora se noticia é que, alarmada com a rápida queda de sua popularidade e com a extensão da deterioração de sua imagem, Dilma estaria convencida de que precisa se reaproximar de seu marqueteiro. Uma reação redondamente equivocada. Passar a entremear consultas ao espelho com sessões de ilusionismo não é exatamente o tipo de arejamento de que a presidente precisa.

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Rogério Furquim Werneck é economista

Eliane Cantanhêde - Com requintes de crueldade

• Muitas orelhas arderam, mas Eduardo Cunha foi o centro da conversa de Lula e Dilma

- O Estado de S. Paulo

O ano político costuma começar só depois do Carnaval, mas até isso mudou: 2015 começou seco, quente e antes da hora em Brasília, com a presidente Dilma Rousseff sambando no Planalto, o PT desafinando no Congresso e os dois derrapando na avenida.

A sequência de derrotas do Planalto e do PT é impressionante pela quantidade e pela rapidez. Dilma e seu partido não conseguem passar um único dia sem levar uma bordoada, seja pelos índices da economia, seja pelo desastre agora literal da Petrobrás, seja pela dinâmica do Congresso.

Só até aqui e só no Congresso: a eleição do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para a presidência da Câmara, as assinaturas para uma nova CPI da Petrobrás, a aprovação do Orçamento Impositivo, o PT excluído tanto da Mesa Diretora da Câmara quanto do comando da estratégica Comissão da Reforma Política.

A caminho da Bahia, onde vai passar o Carnaval e ouvir os orixás do marketing, Dilma deve estar pensando que é mais fácil dormir com inclementes atabaques e tamborins do que com um barulho desses. Mas não é só. A guerra do Congresso do PMDB contra o Planalto de Dilma e de sua ala do PT tem requintes de crueldade.

Sabe o Orçamento Impositivo? Pois é. Incluiu os deputados e senadores recém-eleitos, o que onera as emendas parlamentares em mais R$ 2,4 bilhões. Uma cereja salgada e ardida para as contas já desandadas do governo Dilma. E quem jogou lá a novidade foi um senador "aliado", o ex-líder do governo Romero Jucá - que apoiou ostensivamente o tucano Aécio Neves em 2014.

E o PMDB precisava mesmo eleger o deputado Leonardo Picciani (RJ) líder do partido na Câmara? Ele é filho do cacique carioca Jorge Picciani, comandante da tropa anti-Dilma e pró-Aécio Neves na campanha presidencial do Rio. Não foi mera demonstração de independência em relação ao Planalto, foi uma demonstração de força, uma provocação.

E mais: precisava ter aprovado o "convite" para os 39 ministros de Dilma irem ao Congresso, um a cada semana, para ajoelhar e rezar? O Executivo vai passar o ano de joelhos diante do Legislativo. E nem pode reclamar, porque a artilharia está engatilhada do outro lado da Praça dos Três Poderes. Qualquer coisa, será detonada.

Por falar nisso, já está armada para depois da Quarta-Feira de Cinzas a nova derrota do Planalto - e muito particularmente do ministro da Fazenda, Joaquim Levy: com mais de 600 emendas, a votação do projeto para acabar com velhas mamatas trabalhistas e previdenciárias e tentar melhorar um pouquinho as contas públicas vai virar uma carnificina.

O horizonte político, portanto, está cristalino. Dilma e o PT não terão vida fácil. E quem comanda a oposição não é o PSDB, não é o DEM, não é o PPS. É o PMDB, que arrastou os tucanos de roldão para a incômoda posição de coadjuvantes, de oposicionistas de segunda linha que aplaudem e agradecem os ataques do PMDB ao PT hoje, mas podem virar alvo dos estilhaços amanhã. Em 2018, por exemplo.

Enquanto o vice-presidente Michel Temer se preserva no aconchego do lar, o PMDB de Eduardo Cunha está na ofensiva contra Planalto/PT e não dá chance ao PSDB de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra nas movimentações do Congresso, nas atenções do Planalto, nas derrotas impostas a Dilma, nos sustos no PT e, particularmente, nos espaços de mídia.

Dilma erra uma atrás da outra, o ex-presidente Lula está indócil, o PT perde todas no Congresso, a Petrobrás explode, mas quem aparece nas TVs, nos rádios, nos jornais e nas revistas não é o líder da oposição, o PSDB, e sim do PMDB - que, oficialmente, é governo.

Haverá mil e uma versões para o encontro de ontem entre Dilma e Lula em São Paulo, com muitas orelhas ardendo, mas de uma coisa ninguém duvide: Eduardo Cunha foi o centro das atenções.

Cora Rónai - Uma ideia discutível

- O Globo / Segundo Caderno - 12/2/215

Acho inteiramente equivocada essa onda de impeachment. Dilma Rousseff é uma das pessoas mais incompetentes a ocupar a presidência, mas foi eleita pela maioria dos votos válidos. Se os seus eleitores foram incapazes de enxergar além das imagens enganosas da propaganda, se caíram no discurso petista de ódio e de desconstrução dos adversários, se o seu marqueteiro era melhor do que o do Aécio ou o da Marina, se genuinamente acham a "presidenta" a pessoa ideal para o cargo, azar (de fato) o nosso.

Não há nada que não se saiba hoje que já não se soubesse antes.

Sim, Dilma disse uma coisa na campanha e fez outra após a reeleição; mas isso é surpresa? Ela já havia dito, com todas as letras, que em campanha faz-se o diabo; pois fez. Esperavam outra coisa de uma pessoa que falsifica currículo Lattes?

Sim, ela está metida até os cabelos no escândalo da Petrobras, seja por omissão, seja (mais uma vez) por incompetência pura e simples: o tempo dirá. Mas qual é a novidade? Ou seus eleitores maiores de idade, alfabetizados e vacinados não sabiam disso?

É claro que, se estiver ativa e diretamente implicada na roubalheira, a coisa muda de figura; corrupção é crime com o qual não se deve ter contemplação, e aí impeachment é o mínimo que se espera. Mas, até aqui, não existem provas reais do seu envolvimento.
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O impeachment é uma péssima ideia por muitos motivos.
Ao contrário do que pregam os governistas aos quatro cantos, ele não é uma ruptura do tecido democrático; é uma das suas ferramentas essenciais. Ou alguém consegue imaginar um processo de impeachment contra Kim Jong-Un ou Raúl Castro?

Mas o que é que o país tem a ganhar nesse momento com um eventual impeachment? Michel Temer na presidência? Novas eleições, ainda por cima num clima de total instabilidade política? Com a militância petista em grau de histeria máxima e o MST cumprindo a promessa de parar o país, chantagem que já havia sido explicitada quando Marina disparou nas pesquisas?

Para quê?

Ninguém vai conseguir consertar o Brasil de uma hora para outra. A inflação não vai diminuir por passe de mágica, as crises de água e de energia não vão desaparecer, o estado não vai encolher, ou no mínimo se "desaparelhar" do dia para a noite. Tudo isso vai tomar tempo, e a conta vai ser alta para todos nós; mas vai ser alta, sobretudo, para quem quiser sanear o governo.

Se Dilma for defenestrada, seu sucessor, ou sucessora, vai amargar as consequências do que ela plantou, enquanto o PT posará como vítima de golpe em mais um 3 x 4 Photoshopado para a História.

Não haverá melhor cenário para a reeleição de Lula em 2018. Até lá, tudo o que estiver dando errado no país será culpa de quem estiver no lugar de Dilma, a Incompreendida.

Que ela termine o mandato que recebeu dos eleitores, e que a conta metafórica da sua incompetência vá para quem de direito.

A conta real já estamos pagando.

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Gostei muito do que o senador Cristovam Buarque escreveu sobre o assunto no Facebook, na terça-feira:

"Mesmo previsto na Constituição, uma democracia não resiste com impeachment de presidente a cada quatro eleições. Por isso, este não deve ser desejo de democrata brasileiro, três presidentes apenas depois do Collor. Ao contrário, um democrata deve desejar que todo presidente termine o mandato para o qual foi eleito com mais voto que seu adversário. Mas, para isso, o democrata que está no poder deve entender quando surgem movimentos populares de descontentamento. Perceber as razões disto, fazer sua autocrítica, abrir diálogo com todas as forças da nação, construir uma agenda de consenso, reorientar o comportamento ético e programático do governo".
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Enquanto isso, rola nas redes sociais um intenso movimento a favor do impeachment. As pessoas estão convocando amigos, conhecidos e seguidores a ir para as ruas no dia 15 de março, caras pintadas, vestindo verde e amarelo; várias páginas no Facebook reproduzem variações de um mesmo texto, que já recebi também por e-mail e por WhatsApp.

"Nosso protesto é pacifico, não serão permitidas bandeiras e camisas de partidos políticos, e vândalos e black blocs serão detidos e entregues à policia pela própria população" - diz um trecho particularmente otimista: black blocs detidos pela população? Só vendo. "Haverá jovens, adultos e idosos na manifestação. Pedimos que todos vão de verde e amarelo como em 1992, com as cores do Brasil e as caras pintadas. Quem não puder se deslocar até os locais combinados reúna a vizinhança, vá pra calçada de casa de cara pintada, saia do sofá e fique na porta demonstrando sua indignação!"

É bom ver as pessoas mobilizadas. Sou inteiramente a favor de irmos para as ruas protestar; povo na rua manda sempre um recado muito eloquente ao governo, que passa a trabalhar melhor e a tomar mais cuidado com o que faz. Mas acho uma pena que esse chamado tão oportuno esteja vinculado à ideia de impeachment. Não só pelo que escrevi acima, mas também porque suponho que há muitíssimo mais gente simplesmente descontente com o governo do que torcendo por impeachment. 

Para que afastar potenciais manifestantes?

Mas, enfim, tudo isso está no futuro. Por enquanto é carnaval, e multidão só mesmo nos blocos e na Sapucaí.

Bênção, padrinho - ITV

• Dilma é mera continuidade de Lula. Os equívocos, a corrupção e os descaminhos começaram lá atrás, no governo dele. A presidente é hoje coadjuvante

A presidente da República incluiu na sua agenda de compromissos para hoje, mas não o tornou público, um encontro com seu padrinho político. Dilma Rousseff parece não fazer a menor ideia sobre como exercer o papel para o qual foi reeleita em outubro. O que terá Lula a lhe ensinar, posto que carisma político não se transfere?

A princípio, Dilma tentou manter a conversa distante dos olhos da imprensa. Forjou uma agenda oficial em São Paulo no intuito de incluir o encontro com Lula entre um compromisso e outro, sem que ninguém soubesse. Como tem acontecido com tudo em que se mete, a presidente falhou no intento e a reunião dos dois petistas virou notícia.

Ao longo do primeiro mandato, foram frequentes estas sessões de aconselhamento. Quando o calo apertava, Dilma acorria a Lula. Passados quatro anos de gestão, a presidente parece ter aprendido pouco sobre o ofício e ainda depende do socorro do tutor. Pobre de um país que tem um governo assim. Nem 39 ministros dão jeito...

Mas, já que terá a oportunidade, Dilma poderá aproveitar a ocasião para aprender com Luiz Inácio Lula da Silva as artes de como pilotar a máquina de assaltar o Estado que ele instalou desde que o PT chegou ao poder. As recentes revelações da Operação Lava Jato mostram que o plano saiu fora do script e agora ameaça o projeto de poder petista. A presidente não tem sabido o que fazer.

Certamente Lula vai lhe sugerir as artimanhas que sempre adotou nos seus oito anos de governo: lotear cargos, distribuir benesses, ressuscitar párias da política, azeitar o balcão de negócios que une interesses privados a projetos políticos financiados com dinheiro público. Assim é o modelo de gestão de Lula.

É possível que o ex-presidente também avise Dilma que ele mesmo já está pondo em prática as velhas táticas de reação que usa quando vê o PT acuado: tentar igualar todos na lama; jogar o foco de denúncias no passado quando o presente está pegando fogo; posar de vestal e ameaçar com o rigor da Justiça quem ousa dizer a verdade. É o que capatazes do partido - com Rui Falcão e José Eduardo Cardozo à frente - já começaram a fazer.

Dilma está perdida, mas o PT não se dará por vencido. É quase certo que a presidente ouça de seu tutor que ele já se prepara para tentar voltar ao posto máximo da República daqui a quatro anos. A ela, cabe a função de fazer o serviço sujo, reverter os erros que cometeu e limpar o caminho para pavimentar a pretensão. Falta, porém, combinar com o eleitorado.

A narrativa faria todo o sentido não fosse por um motivo: a presidente é mera continuidade de Lula. Os equívocos, a corrupção e os descaminhos começaram lá. O ex-presidente se move para preservar o esquema criminoso de predação ao patrimônio público e manter o país na marcha a ré em que se meteu nestes últimos 12 anos. Dilma é coadjuvante.

Hélio Schwartsman - No reino da farsa

- Folha de S. Paulo

É claro que, com este Congresso, quase tudo se transforma em farsa, mas a ideia de orçamento impositivo não é absurda.

Historicamente, os primeiros parlamentos só emergiram como instituições relevantes depois que conquistaram o direito de interferir sobre as finanças do Estado. Antes disso, não dá nem para cogitar de falar em tripartição do poder, que está na base das democracias modernas.

Em tese, faz todo o sentido que o Orçamento da União, isto é, o plano de investimentos proposto pelo governo e revisado pelo Legislativo, se torne meta obrigatória para o Executivo e não mera autorização. É só assim que a principal decisão de política pública tomada pela nação ganha legitimidade. Também é assim que as coisas funcionam nos países desenvolvidos. Se surgirem imprevistos, volta-se a discutir o problema.

Mas, como tudo por aqui é uma pantomima, a versão brasileira do orçamento impositivo se tornou um mecanismo que concede a cada um dos 594 parlamentares o direito de destinar a seus redutos eleitorais R$ 16,3 milhões em obras e quejandos.

Isso é uma perversão em todos os sentidos. De forma mais óbvia, transforma dinheiro público em dividendo eleitoral que é apropriado por um político em particular. Isso já quebra a ideia de eleição justa.

De modo mais estrutural, a prática, além de ser caracterizada pela baixa eficiência nos gastos, funciona como lubrificante não só para a corrupção como também para chantagens políticas. Quando tudo no país só se move com o beneplácito da Presidência, ela se torna o alvo e a fonte de todos os males.

Sim, o orçamento deve ser impositivo, mas dificultando ao máximo as emendas paroquiais. Talvez devêssemos proibir o governo federal de financiar pequenas obras. O dinheiro para esse tipo de despesa deve transitar só por vias mais institucionais, como os fundos de participação de Estados e municípios.

Celso Ming - Ainda mais devagar

- O Estado de S. Paulo

Em 2 de fevereiro celebra-se, em Punxsutawney, Pensilvânia, Estados Unidos, o Dia da Marmota. É quando as autoridades locais, vestidas de fraque e cartola, esperam que a marmota saia da toca. Conforme a sombra projetada, os entendidos têm uma indicação da duração do inverno.

O Banco Central do Brasil também tem sua marmota. Leva nome e sobrenome de Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br). É o indicador que todos os meses antecipa a evolução do PIB, aparentemente com mais rigor do que a obtida pela avaliação da sombra projetada por um bicho simpático.

O IBC-Br ontem divulgado, apenas dez dias depois do Dia da Marmota, mostrou que, em dezembro, a renda nacional recuou 0,55%, submetidos os números aos devidos descontos sazonais. Isso aponta para uma queda do PIB, em 2014, de 0,15%.

O IBC-Br é um cálculo que simplifica a complexa metodologia das Contas Nacionais. Mas, com uma antecedência de mais de 30 dias (o PIB de 2014 só será divulgado no dia 27 de março), dá uma ideia do ritmo da atividade econômica.

Não será surpresa se os dados definitivos mostrarem uma variação negativa do PIB em 2014. O comportamento da economia aponta boa probabilidade de que isso aconteça. E os primeiros números de janeiro a vêm confirmando. É fator que define um arrasto também negativo para este ano. Assim, precisará de mais energia para uma arrancada para o positivo.

É pura mistificação a explicação repetida pelo governo Dilma para esse mau desempenho. Não é a crise externa ou a seca que o vem provocando. A área do euro, que vem sendo mais duramente castigada pela crise, deverá ter crescido pelo menos 0,8% em 2014, conforme apontam as projeções da revista The Economist. O PIB vai mal em consequência das escolhas equivocadas de política econômica feitas nos últimos quatro anos, como esta Coluna apontou tantas vezes.

E se a seca tivesse sido obstáculo relevante, o setor mais vulnerável à estiagem, como não pode deixar de ser a agricultura, estaria prostrado. No entanto, em volume, a produção de grãos em 2014 cresceu 2,5%, como mostram as estatísticas do IBGE. E as perspectivas da próxima safra, que deveria estar sendo ainda mais duramente atingida, são promissoras. O IBGE projeta uma produção 4,4% mais alta e a Conab, outro organismo que monitora os resultados, trabalha com 3,4% . Isso não significa que o PIB da agricultura vá aumentar na mesma proporção porque esse indicador depende dos preços. Já é fato sabido que as cotações internacionais das commodities estão em queda firme.

O ajuste fiscal colocado em prática pela equipe do Ministério da Fazenda não é o único fator que tende a inibir a atividade econômica ao longo de 2015. Há o baixo nível de confiança que adia não apenas o consumo, mas, também, projetos de investimento.

Mas a maior incerteza, capaz de derrubar a produção e a renda, é a que cerca os suprimentos de energia elétrica e de água tratada. Em caso de racionamento, cada vez mais provável, o setor produtivo poderá enfrentar retração de até 1,5%, dependendo de sua intensidade e de quando começará.

Vinicius Torres Freire - Até parece que a seca acabou

• Aguinhas de fevereiro e confiança na sorte, na recessão e no tarifaço esfriam conversa de racionamento

- Folha de S. Paulo

O apagão de janeiro e as chuvas frustrantes desse mês passado causaram um rebuliço de conversas sobre racionamento de eletricidade. Bastaram alguns milímetros d'água em fevereiro para esfriar a agitação, no governo inclusive; a atenção do público, de resto, não dura muito para quase qualquer assunto. Por ora, a intenção é empurrar o assunto com a barriga e não tratar de racionamento até o final de março.

Oficialmente, vai haver uma reunião de revisão do estado de pré-calamidade no fim de fevereiro, mas o pessoal mais político do governo está animado com a "hidrologia favorável" até o final de março.

Pode ser. É contar com o azar. No final de dezembro, estimava-se que a água que entraria nas represas do Sudeste em janeiro seria equivalente a 100% da média histórica. Entrou um terço, por aí.

Assim, o governo federal decidiu seguir o caminho suave, digamos. Em parte, deixa estar para ver como ficam os reservatórios, se possível esticando a corda até o final das águas no centro-sul do país, em março, tal como o fez o governo FHC em 2001. Em parte, adota "medidas de racionalização".

Por exemplo, o governo tenta um jeito de fazer com que as empresas se virem a fim de arrumar energia, seja recorrendo aos geradores delas ou por meio de um racionamento na conversa ("poupem aí, tá?"). Confia ainda em que o aumento de preços, o tarifaço da eletricidade, reduza o consumo, o que é uma crença razoável, embora esteja difícil de estimar de quanto será o desestímulo do uso de energia.

Pergunte-se, de passagem: se o governo acredita nisso agora, no efeito do preço no consumo, porque não o fez quando os reservatórios baixavam rapidinho em 2014? Por cabeça dura, demagogia, irresponsabilidade e incompetência.

O consumo tem de fato caído. Na estimativa preliminar da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica para os primeiros dez dias de fevereiro, o consumo teria caído mais de 6% em relação ao mesmo período do ano passado. A economia está cada vez mais lerda, a conta da eletricidade está cada vez mais cara e o calor diminuiu. Ou seja, "só está bom porque está ruim". Ainda assim, a geração de energia nas hidrelétricas caiu mais de 10% em relação ao início de fevereiro de 2014.

É preciso ressaltar que o governo deixa como está para ver como é que fica com base em estimativas otimistas: de que mesmo chovendo menos que a média histórica em fevereiro e março vai haver água bastante para produzir energia durante todo o período seco no centro-sul (de abril a novembro). 

"Otimistas" em relação ao que estimam empresas, consultores e economistas do setor privado. Pode ser que o pessoal do setor privado esteja alarmado além da conta, como foi um pouco o caso em 2013 e no início de 2014. Desta vez, no entanto, parecem mais ponderados que o governo quase inerte.

Muita gente entendida do assunto diz que não haverá como evitar racionamento se não chover pelo menos a média histórica em fevereiro e março. Mesmo neste início de fevereiro menos seco, chove menos que a média registrada desde 1931. No entanto, a gota d'água animou os políticos (mas não os técnicos) do governo federal e Geraldo "Não Vai Faltar Água" Alckmin.

Míriam Leitão - A hora é agora

- O Globo

O Rio de Janeiro tem que começar a fazer racionamento de água porque pode faltar água em plena Olimpíada. São Paulo tinha que ter racionado desde o ano passado. Pelo menos, a multa sobre quem consome muito deveria ter sido adotada no ano eleitoral de 2014. O governo Federal deve começar o racionamento de energia porque não fez a racionalização quando havia tempo.

O grau de irresponsabilidade dos governantes é espantoso. O Brasil está à beira do colapso do abastecimento de água em São Paulo, está com graves problemas em outras cidades do país, o Rio se prepara para hospedar um grande evento no ano que vem. Eles ficam contando as gotas de chuva ou cavando mais fundo para ver se encontram algo. A cada sinal positivo, adiam decisões inevitáveis.

O que não deveria ser sequer pensado é o rodízio de água. Na Califórnia, chegou a ser reduzida a oferta em 85% porque é proibido fazer rodízio. Empresas não podem deixar de entregar, mas podem reduzir bastante a entrega para haver um pouco de água para todos, todos os dias.

O racionamento só pode ser evitado quando planos de contingência são feitos com antecedência. Foi só elevar 0,8% o nível do Paraibuna para o Rio de Janeiro adiar medidas emergenciais sobre a água. São Paulo encontrou um quarto volume morto no Cantareira. Elevou-se um pouquinho o nível da represa Billings e isso bastou para que fossem adiadas medidas de contingência. Tudo deveria ter sido feito antes para evitar o rodízio, porque este tem que ser o último recurso.

O governador Luiz Fernando Pezão deve saber, mas como não demonstra, é preciso que alguém lhe diga: a administração de um recurso vital como a água tem que ser planejada de forma plurianual, e os reservatórios estão muito baixos neste segundo ano de seca. As chuvas que porventura caírem sobre os reservatórios vão apenas recuperar parte do que foi perdido. Precisamos chegar em 2016 com um nível confortável.

Quando não se controla uma das variáveis, atua-se sobre outras. Elementar. Por isso, em vez de esperar a chuva - elemento fora do controle - um governo previdente atua onde tem ingerência e monta plano para os piores cenários.

Dias atrás, entrevistei o climatologista Carlos Nobre. Ele disse:

- O risco de colapso de abastecimento de água em São Paulo é real. Deve ser levado muito a sério. Se não chover 60% a 80% acima da média histórica, o que é improvável, não haverá outra solução a não ser uma drástica redução de consumo.

Perguntei a ele se, em caso de chuva nesse volume improvável, a situação poderia se normalizar. Ele respondeu: "Normalizar, não. Não existe essa possibilidade, pode levar anos até se normalizar."

O Rio, segundo ele, tem que fazer um plano de contingência já de olho nas Olimpíadas de 2016. Não deve esperar para ver o que acontecerá porque "o Rio é São Paulo amanhã". E, nesse amanhã, o ano que vem, teremos o maior evento esportivo do mundo.

O governo Federal cometeu uma lista exaustiva de erros, e o setor elétrico hoje é politraumatizado. O nível de água nos reservatórios subiu para 17,74% no Sudeste e Centro-Oeste. Alta de um ponto percentual em fevereiro. Bom, porque perdemos quase três pontos em janeiro, mês de recarga no sistema. Não é hora de relaxar nem de improvisar.

De olho nas urnas, os governantes adiaram as más notícias, principalmente a presidente Dilma Rousseff e o governador Geraldo Alckmin. Mas o eleitor é mais sábio do que pensam os propagandistas. Se o governo Dilma não tivesse tido a insensatez de reduzir o preço da energia e incentivado o consumo em 2013, se tivesse começado programas de racionalização quando os alertas foram feitos, o Brasil não estaria correndo os riscos que corre.

O mesmo vale para o governador Geraldo Alckmin. Será que ele pensou mesmo que se falasse a verdade sobre a escassez de água, se tivesse elevado o custo para os maiores consumidores, teria perdido a eleição? O eleitor é capaz de reconhecer um problema e valorizar o governante que age com prudência.

As águas de março fecham o verão. Em abril, chove um pouco. Depois, vem o longo tempo seco. O clima está mudando. Nossa energia depende da água. A hora de agir é agora.

José Aníbal - Quem ataca reputações?

• O aparato estatal foi usado para forjar suspeitas contra a integridade de adversários, como eu. Isso é a vileza em seu estado mais imundo

- Folha de S. Paulo

O Supremo Tribunal Federal, enfim, decidiu arquivar a investigação sobre o envolvimento de parlamentares de partidos de oposição ao governo federal no caso Siemens.

Após 15 meses de diligências, concluiu-se que são insustentáveis os indícios apontados no documento apócrifo arranjado pelo ex-deputado estadual Simão Pedro (PT-SP), atualmente secretário municipal de Serviços de São Paulo.

Quem atenta contra as reputações? Os que não gozam de nenhuma. É assim desde que os homens passaram a se reunir em praças para discutir questões públicas. O difamador é um personagem tão velho quanto a política. Aliás, o lamaçal da campanha do ano passado e a degradação atual deixam claro como o governo Dilma Rousseff é terreno fértil para esses tipos.

O que houve não foi maledicência. Foi um crime. Como nos anos dourados do ditador Josef Stálin, na União Soviética, o aparato estatal foi utilizado para forjar suspeitas contra a integridade de adversários. É a vileza em seu estado mais imundo. As forças democráticas do nosso país devem estar mobilizadas para identificar e rejeitar novas ameaças dessa máquina difamadora, que quer aprofundar seu enraizamento no poder a qualquer custo.

O documento surgiu com o então deputado estadual Simão Pedro, chegou ao Ministério da Justiça via Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e foi parar nas mãos do diretor-geral da Polícia Federal, que mandou investigar.

O ex-diretor da divisão de transportes da Siemens Everton Rheinheimer negou que fosse o autor da denúncia. O ex-deputado Simão Pedro negou que tenha produzido o documento. O Cade negou que o recebeu ou que o repassou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Apenas este se calou.

Depois de três dias fugindo da imprensa, José Eduardo Cardozo assumiu que encaminhou o dossiê apócrifo à Polícia Federal. Como não existe protocolo de entrada do documento na PF, ficou provado que o ministro repassou-o adiante, digamos assim, "por fora".

Na ocasião, o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, disse à TV Globo que não havia ninguém com "foro privilegiado (parlamentares) sendo investigado ou sequer indícios de seus envolvimentos".

O juiz federal Marcelo Cavali considerou que "os elementos obtidos pela autoridade policial [...] são fragilíssimos em relação às autoridades". A procuradora Karen Kahn, do Ministério Público Federal, manifestou-se contra o envio do inquérito ao Supremo, mas, por insistência de um delegado da PF de São Paulo, o juiz o enviou ao STF.

O Supremo, por sua vez, mandou para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que pediu mais informações: o que havia recebido era insuficiente.

O delator --que reiterou nunca ter falado comigo-- fala novamente. A partir daí, só calúnia. Diz que foi orientado a "tratar com José Aníbal, deputado estadual". Nunca fui deputado estadual! O procurador-geral, no entanto, sem se dar ao trabalho de ir ao Google, manifesta-se pela instauração da investigação.

Na ocasião publiquei nota dizendo que a manifestação de Janot era "temerária e extremamente perigosa para a democracia".

O caso não pode se encerrar com o arquivamento da denúncia. Seu desdobramento natural é o desbaratar da operação política por trás das fraudes documental e processual.

Quem é o autor da falsificação que ocupou a mais alta corte do país, inutilmente, por 430 dias? Quem a "esquentou" dentro do governo, transformando o apócrifo em prova documental? Qual deles enganou a imprensa e a opinião pública deliberadamente? É isso o que a Justiça deve esclarecer a partir de agora.

Usar o Estado para fabricar crimes políticos atenta contra a democracia. É a forma de criminalizar o direito de divergir, de combater e de se posicionar. Movo ação contra Simão Pedro, José Eduardo Cardozo e Everton Rheinheimer por denunciação caluniosa. A infâmia e o infame vão aparecer.

É Dilma quem, ironicamente, corre sérios riscos biográficos. Os fatos atentam contra a reputação de seu governo. São os fatos, e não documentos forjados. É melancólico ver o Ministério da Justiça, por onde passaram Diogo Antônio Feijó, Tancredo Neves, Paulo Brossard e José Gregori, tornar-se um buraco quente onde se "esquentam" dossiês.

Imagino calafrios institucionais quando ouço que o ministro José Eduardo Cardozo já esteve cotado para assumir a vaga de Joaquim Barbosa no STF. Seria o sinal derradeiro de que Dilma mandou o juízo às favas e abraçou-se de vez com a mentira e com o fracasso.
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José Aníbal, 67, economista, é senador suplente pelo PSDB-SP. Foi deputado federal e presidente nacional do partido

O PT no contra-ataque – Editorial / O Estado de S. Paulo

Já que o governo não consegue sair das cordas, o PT resolveu que é hora de salvar a própria pele. O presidente nacional do partido, deputado estadual paulista Rui Falcão, interpretando o sentimento de profunda apreensão que assalta os petistas às vésperas do ingresso da Operação Lava Jato na fase de indiciamento dos políticos envolvidos no escândalo da Petrobrás, anunciou a decisão de interpelar a força-tarefa daquela operação - ou seja, a Polícia Federal e o Ministério Público - e também os investigados que estão fazendo acordos de delação premiada. A tese de Falcão é que os delegados e procuradores federais estão criando condições para que a operação se transforme em instrumento da oposição para "criminalizar" o PT.

Por sua vez, obedecendo à orientação do Palácio do Planalto - que responde ao aumento da pressão do partido para que o governo cumpra sua parte, que é a de pelo menos defender a presidente da República -, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, valeu-se de entrevista ao Estado para requentar a tática lulopetista de dividir o País entre "nós" e "eles". Para Cardozo, "eles" estão tentando "apagar o passado e criar um clima passional" contra Dilma Rousseff.

Em ambas as manifestações fica clara a intenção de aplicar a velha tática diversionista: se não dá para sair do buraco, traga os inimigos para dentro dele. No que se refere ao escândalo da Petrobrás, por exemplo, o PT já não se dá ao trabalho de negar que membros importantes do partido tiveram participação na esbórnia. Empenha-se agora em demonstrar que "eles" também têm culpa. O ministro da Justiça insistiu em que "os depoimentos da Lava Jato mostram que a corrupção da Petrobrás começa muito antes do governo Lula". Também Rui Falcão bateu na tecla de que os indícios de corrupção nos governos do PSDB devem ser "devidamente investigados".

De qualquer modo, já é um avanço Cardozo admitir que houve corrupção na Petrobrás. Até pouco tempo atrás, qualquer menção a esse assunto era repelida pelos petistas sob o argumento de que por detrás das denúncias se ocultava a intenção dos inimigos do povo de privatizar a estatal.
Há que se reconhecer, ainda, que o ministro da Justiça evoluiu também em outro ponto importante: "O caixa 2 eleitoral, por exemplo, tem que ser considerado crime". Sem efeito retroativo, obviamente, diria Delúbio Soares, o campeão dos "recursos não contabilizados".

Preocupado em aliviar o peso das acusações contra seu partido, que só aumentará na próxima fase da Lava Jato, Rui Falcão insiste na afirmação de que todas as doações de empreiteiras para campanhas eleitorais do PT foram "feitas legalmente". É até provável que seja isso mesmo. Mas a formalização legal de uma doação não elide o fato de ela ter sido o produto de um arranjo criminoso. E é disso que se trata.

Em seu pronunciamento, ao contestar o trabalho da força-tarefa que investiga o escândalo, Falcão acabou comprometendo a posição oficial do governo Dilma, que procura fazer crer que o escândalo só existe porque ele, o governo petista, autorizou, apoia e estimula as investigações. Além disso, Falcão acabou admitindo, implicitamente, com uma frase infeliz, a participação do PT na farra da propina: "Se disserem que a gente recebeu dinheiro de propina, é porque os demais também receberam". "Também" receberam?

O presidente do PT traduziu a preocupação de todo o partido de blindar o tesoureiro da legenda, João Vaccari Neto, de acusações sobre propinas. A mobilização que Falcão articula se deve ao papel de grande e reconhecida importância e competência com que o tesoureiro petista se empenha há uma década no trabalho vital de captação de recursos para as atividades partidárias, particularmente as dispendiosas campanhas eleitorais. Favorece também a imagem de Vaccari dentro do partido seu desempenho à frente da cooperativa habitacional dos bancários, a Bancoop, que lhe trouxe problemas com muitos cooperados, a polícia e a Justiça, mas deixou feliz gente da nomenklatura petista, inclusive Lula.

A contraofensiva petista está armada para tentar impedir que as investigações da Operação Lava Jato devastem o partido. Resta saber se haverá dedos suficientes para tapar todos os buracos que não param de surgir no imenso dique que ainda retém o mar de lama.

Febre do dólar – Editorial / Folha de S. Paulo

• Alta da moeda americana não é ruim em si, mas velocidade da mudança indica problemas no ambiente econômico

No Brasil, o valor do dólar é visto pela população como termômetro para verificar se a economia está com febre. Quando a moeda americana sobe demais, conclui-se que há problemas; quando o real se valoriza, confia-se que tudo vai bem.

Trata-se, naturalmente, de uma simplificação. O dólar caro tem vantagens, como recompor parte da rentabilidade perdida nas exportações, algo crucial para a combalida indústria brasileira.

A maior parte dos analistas parece concordar que o ambiente econômico de hoje não só favorece a perda de valor do real como também a torna desejável. A combinação de preços menores de matérias-primas vendidas pelo país, grande deficit nas contas externas e crescimento zero do PIB recomenda tal rearranjo.

O desconforto decorre antes da velocidade da mudança. Nas últimas semanas, a cotação do dólar disparou, passando de R$ 2,80. A escalada sinaliza deterioração da confiança, no caso atual por razões em grande medida internas.

Aumentou, por exemplo, a preocupação quanto à execução da nova política econômica, que se baseia no aperto do Orçamento e do crédito público para reorganizar as finanças do país. Assim o Banco Central terá facilitada sua missão de controlar a inflação, de modo que, adiante, os juros sejam reduzidos e a economia volte a crescer.

Em janeiro, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciou cortes de gastos e alta de tributos que, juntos, somam R$ 50 bilhões. A cifra representava 70% do ajuste necessário nas contas para atingir a meta de superávit primário (o saldo de receitas e despesas antes dos juros) deste ano, de 1,2% do PIB.

Esse cálculo pressupunha deficit zero em 2014 e um cenário de estagnação econômica --duas premissas ora abandonadas. O saldo do ano passado se revelou negativo (um rombo de 0,6% do PIB), ao passo que as projeções mais recentes apontam para uma recessão. Se confirmada, o resultado seria uma arrecadação menor.

A queda da popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) e a sensação de que o Congresso dificultará a aprovação das medidas completam o quadro propício para a especulação. Daí a disparada do dólar e dos juros no mercado.

Especulações à parte, é no mínimo prematuro concluir que Levy não conseguirá cumprir a meta orçamentária. Por outro lado, a nova realidade política do Congresso, que buscará uma pauta mais independente do Executivo, exige uma mudança de atitude na coordenação política do governo.

Congressistas e sociedade devem ser convencidos de que o ajuste é necessário. Só assim será possível cumprir as metas --e baixar a febre.

Ajuste fiscal é que pode garantir conquistas sociais – Editorial / O Globo

• Se o ordenamento das contas públicas for barrado, a crise se aprofundará, sem possibilidade de geração de renda, empregos e melhores salários

É do jogo democrático pressões e contrapressões dentro do Congresso Nacional em relação a políticas e iniciativas adotadas pelo governo. Já no início de uma nova legislatura o parlamento terá se pronunciar nos próximos dias, aprovando ou não, sobre algumas medidas de grande importância para o êxito do ajuste fiscal que a nova equipe econômica pôs em andamento.

Os mercados têm reagido com apreensão (que se reflete, por exemplo, na forte desvalorização sofrida pelo real neste mês de fevereiro) ao fato de que parte das pressões contrárias ao ajuste é exatamente do partido da presidente Dilma, o PT, o que complica a obtenção de votos favoráveis entre os demais deputados e senadores que formam a base parlamentar do governo.

Essa reação negativa vinda da própria base identifica equivocadamente no ajuste a supressão de direitos e conquistas sociais, o que seria uma contradição em relação ao discurso que elegeu a presidente, tese que tem sido defendida pela oposição.

O ajuste é, no momento, a única forma de se assegurar a continuidade dos alegados direitos e conquistas sociais que o próprio governo deseja preservar, como afirma o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Com as finanças públicas em total desequilíbrio e inflação elevada, a economia brasileira não terá condições de se recuperar, e pode até mesmo ver a crise se agravar pela perda de confiança dos canais de financiamento do país. A política de correção de rumos que está sendo executada pela nova equipe econômica não é, nesse sentido, uma contradição com o propósito de se gerar mais renda, emprego e melhores salários. Ao contrário.

Não fazer o ajuste significará a perda do “grau de investimento” na nota de risco do país, com desdobramentos péssimos: crédito externo escasso e mais caro, logo, maior desvalorização cambial; portanto, mais pressões inflacionárias, e, em decorrência, juros mais elevados, para conter a alta de preços. No fim desse túnel, recessão sem perspectiva de retomada do crescimento.

Se tudo isso não bastasse, as medidas provisórias para as quais o governo busca aprovação no Congresso não significam supressão de direitos, mas sim a eliminação de notórias aberrações que distorcem os benefícios previdenciários e a natureza do seguro social. Os gastos com seguro-desemprego tiveram um crescimento explosivo no período em que houve a criação de maior número de empregos formais no país, simplesmente porque as regras se tornaram um estímulo ao desemprego voluntário. Quanto aos benefícios previdenciários, também é notória a distorção. Os gastos com pensão por morte ultrapassam, de longe, os parâmetros de qualquer outro sistema previdenciário, sem distinguir viúvos e viúvas com ou sem dependentes do segurado.

Depende de o Congresso entender esse quadro ou contribuir para a economia se aprofundar no poço em que mergulhou.

Portela - Samba Enredo 2015

Vinicius de Moraes- Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado é uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
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Vinicius de Moraes, in 'Antologia Poética'