quarta-feira, 19 de julho de 2023

Roberto DaMatta - Classe ou parentesco?

O Globo

Eleito prefeito de sua cidade, ele não nomeou nenhum parente ou amigo. Foi posto pela esposa de quarentena amorosa

Um leitor interessado na questão há de perguntar: trata-se de uma reflexão ou de uma escolha? No que eu replico: as duas coisas! Porque estou focando um sistema cultural reacionário (contrarreformista, pós-aristocrata, escravista, elitista, mesquinho e autoritário) que, a partir das consequências engendradas pela Revolução Industrial e pelo ambíguo triunfo do liberalismo, funciona por meio de um sistema de classes contratualista, mas continua inevitavelmente enredado numa cadeia de relacionamentos imperativos, definidores irredutíveis de identidade e posicionamento social axiomático, como rezam as nossas sacralizadas certidões de nascimento. Esse “papel” que legalmente nos inaugura e atesta legalmente a nossa origem. Documento “mãe” que informa e legitima nossa entrada como atores neste palco que — como dizia Shakespeare — é a existência.

Zeina Latif - O governo não pode temer o debate

O Globo

O amadurecimento do debate facilita o avanço em temas polêmicos ou que demandam enfrentamento de grupos organizados

Com frequência se minimiza a importância do debate público tecnicamente embasado em dados e evidências, mas trata-se de ingrediente essencial para o avanço de reformas estruturantes, inclusive em contextos de alternância de poder, reduzindo o risco de um governante não dar sequência a reformas iniciadas pelos antecessores.

O amadurecimento do debate facilita o esforço e até empurra a classe política para avançar em temas polêmicos ou que demandam enfrentamento de grupos organizados. O debate tecnicamente robusto reduz o espaço de manipulação de informações com vistas a ganhar a opinião pública. Um exemplo recente, na discussão da Reforma Tributária, foi afirmar que os pobres serão prejudicados, quando pesquisas mostram o contrário.

Fernando Exman - Fim de ciclo no STF com uma pauta robusta

Valor Econômico

Presidente da Corte aposenta-se no dia 28 de setembro

Cinquenta e oito dias separam o fim do recesso do Judiciário e a aposentadoria da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, no dia 28 de setembro. Se tudo correr como o planejado no STF, será um período intenso, com uma lista de julgamentos que inclui a descriminalização do uso pessoal de drogas e do aborto, a implementação da figura do juiz de garantias e o marco temporal para a demarcação de terras indígenas.

Uma pauta que desperta paixões. O julgamento sobre a implementação do juiz de garantias, por exemplo, deve marcar, na prática, a estreia do ministro Cristiano Zanin, além de mobilizar garantistas e lava-jatistas.

Hélio Schwartsman - Inimigo público

Folha de S. Paulo

Inércia do procurador-geral contribuiu para deterioração da democracia

Custa-me crer que figuras de escol do governo Lula cogitem de reconduzir Augusto Aras ao posto de procurador-geral da República (PGR)Lula, não custa lembrar, foi eleito prometendo recompor a democracia brasileira, e Aras é, na minha avaliação, um dos grandes responsáveis pela deterioração por que ela passou nos últimos anos.

Eu não saberia precisar se o PGR cometeu ou não crimes omissivos. Penso que o debate jurídico-filosófico é válido, mas, politicamente, a questão nem se coloca. Nessa esfera, não vejo como deixar de classificar o PGR como um inimigo público. Vejamos por quê.

Bruno Boghossian - Aras é um pacote completo

Folha de S. Paulo

Políticos festejam ação da PGR contra excessos da Lava Jato, mas é impossível ignorar pacote completo

Para conseguir o cargo pela primeira vez, Augusto Aras piscou para Jair Bolsonaro. O aspirante ao comando da PGR driblou a eleição para a tradicional lista tríplice e moldou uma candidatura que agradava ao presidente. Definiu seu perfil como conservador, defendeu um alinhamento com a agenda do governo e disse que ações de proteção do meio ambiente "não podem ser radicalizadas".

Foi "amor à primeira vista", como disse Bolsonaro. E era só o começo. Sentado na cadeira, Aras ofereceu um procurador-geral que não incomodava e, em momentos de crise, ajudava a desviar alguns disparos feitos pelo caminho. Foi reconduzido ao cargo sem esconder essa aliança.

Wilson Gomes* - Quem teme o professor doutrinador?

Folha de S. Paulo

O mérito da extrema direita foi extrair do medo e da raiva do brasileiro o combustível para sua boataria

Fábulas são eficientes recursos pedagógicos. Fábulas infantis foram usadas desde sempre para que toda noite as crianças assimilem valores, representações e significados compartilhados em sua comunidade.

E tão cientes estamos de que se educa por meio de mitos, relatos e lendas mais do que por qualquer outro meio, que até os textos sagrados mais arcaicos, transmitidos oralmente ou por escrituras, são em grande parte coleções de histórias.

Há vários lugares-comuns nas histórias que contamos. Um desses lugares-comuns diz respeito aos personagens usados para se colocar os ouvintes exatamente na posição cognitiva e na disposição emocional que o narrador deseja.

O bicho-papão, por exemplo, representa o que nos assombra e deve ser temido, a condensação do mal. O sedutor —que, literalmente, nos desvia do caminho— é outro lugar-comum das fábulas moralizantes. Não por nos assombrar, mas, ao contrário, porque captura nosso desejo, como o lobo mau que desencaminhou a menina do chapeuzinho vermelho e a levou sorrateiramente à floresta sombria.

Vinicius Torres Freire - A Epidemia mundial de calor

Folha de S. Paulo

Notícias de verão tórrido do Norte falam de crise climática, mas falta consciência do desastre

A primeira semana de julho teve os dias mais quentes de que se tem registro na história, uma medida lá não muito precisa, mas que diz algo sobre a que fim chegou o nosso tempo. Chegam mais números do calor. O Hemisfério Norte torra outra vez no verão, com um El Niño. Fala-se de aquecimento global, de crise climática, embora a maioria de nós reaja como passantes diante de um acidente de trânsito horrível, mas que será esquecido no dia depois de amanhã.

No Canadá, desde a primavera o fogo já levou uma área que equivale a duas vezes e meia a do estado do Rio de Janeiro. Alguns de nós soubemos disso por causa da notícia da nuvem de fumaça em Nova York. Em Phoenix, Arizona (EUA) fez mais de 43,3º por 19 dias seguidos. Conta-se que governos da metade norte do planeta abrem prédios com ar condicionado a fim de aliviar o calor, que os chineses dizem que suas cidades se tornaram saunas, que escolas fecham, que a Europa do frio da nossa imaginação tropical torra de novo.

Marcelo Godoy - Parem de matar os mortos

O Estado de S. Paulo

Sergio Moro viveu dias de Alexandre de Moraes na Lava Jato; e Moraes viverá dias de Moro?

Em Non gridate più (Não gritem mais), Giuseppe Ungaretti inicia seu poema com o verso “Cessate d’uccidere i morti” – Parem de matar os mortos, na tradução de Aurora Bernardini. O leopardiano Ungaretti fazia as palavras assumirem uma intensidade em que um simples vocábulo se tornava um termo elegante, no qual vagavam fantasia e sentimento.

Mas, se aos poetas é possível levar ao verbo o inexprimível, aos iracundos permite-se apenas a aridez monótona, vulgar, cansativa e vexatória do xingamento. Dar a Alexandre de Moraes a alcunha de “comunista” mostra que o criador do apodo não leu sequer uma linha do autor que tanto odeia: Karl Marx. Ele escreveu há quase dois séculos, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, que a reação do partido da ordem diante de qualquer ação da oposição era sempre o mesmo e invariável veredicto: “socialismo!”. “Até mesmo o liberalismo burguês é declarado socialista.” O desenvolvimento cultural, a reforma financeira, a construção de ferrovias e o “defender-se com um porrete quando se é atacado com um florete”: tudo era socialismo.

Nicolau da Rocha Cavalcanti - O perigoso encanto da indignação

O Estado de S. Paulo

Se o Brasil for apenas o país da indignação, ele continuará a ser exatamente isto: um país com muitos motivos para indignar-se

Por suas desigualdades, preconceitos, privilégios, incertezas e injustiças, o Brasil oferece muitíssimas ocasiões de indignação. E, verdade seja dita, nós sabemos aproveitar as oportunidades. Não temos receio de expor nossa revolta e perplexidade diante dos variados absurdos que testemunhamos frequentemente.

A proficiência brasileira na indignação é refletida em expressões famosas, que fazem parte de nossa identidade nacional. O Brasil não é para amadores. No Brasil, até o passado é incerto.

Podemos ser sinceros? Indignar-se é muito bom. Quando nos indignamos, sentimo-nos valentes, corajosos, despertos, responsáveis, comprometidos com o interesse público, não ingênuos, não manipulados. De alguma forma, indignar-se é colocar-se num lugar superior. Significa dizer: nesta situação, eu faria diferente. Se tivesse poder, se ocupasse aquele cargo, eu atuaria de modo muito melhor, mais digno, mais assertivo. A mensagem é unívoca. Se dependesse de mim, o Brasil seria bem melhor.

Fábio Alves - A virada da inflação

O Estado de S. Paulo

A inflação no setor de serviços ainda preocupa, mas o pior cenário já parece ter passado

Depois de causar um estrago na credibilidade de bancos centrais ao redor do mundo e de forçar um dos maiores ciclos de alta de juros desde a década de 1980, no caso dos Estados Unidos, a inflação global parece ter finalmente virado a chave, e os preços de bens e serviços começam a subir a um ritmo mais lento de forma consistente, embora estejam ainda em patamar desconfortável.

O processo de desinflação global começou pela queda nos preços de bens industriais, de alimentos e de energia, após a redução do impacto da pandemia de covid-19 nas cadeias mundiais de produção e também dos efeitos da guerra na Ucrânia. Com isso, os preços do petróleo, do gás natural, de grãos, de metais e de outras commodities recuaram de níveis recordes.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Apesar de avanços, governo precisa evitar retrocessos

Valor Econômico

O viés intervencionista do PT se manifesta ainda no desejo de minar aspectos da Lei das Estatais

Embora haja avanços na agenda econômica, o principal deles, a aprovação histórica da reforma tributária na Câmara dos Deputados, ainda há muitos desafios a serem enfrentados a curto e médio prazos no país. A reforma tributária terá de ser analisada pelo Senado, que vai precisar fazer correções sem perder o foco na aprovação do texto. Outro tema importante na área econômica são as mudanças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), instância que julga litígios entre contribuintes e a Receita Federal. O Planalto conta com as novas regras do Carf - também pendentes do escrutínio pelos senadores depois de passarem pela Câmara - para assegurar o cumprimento do arcabouço fiscal, que se apoia em forte crescimento das receitas. A legislação que substitui o teto de gastos enfrentará mais uma votação dos deputados, prevista para agosto.

Poesia | Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade, com Georgette Fade

 

Música | João Donato - Minha Saudade

 

terça-feira, 18 de julho de 2023

Merval Pereira - Momento ‘estratégico’

O Globo

Lula tem falado de maneira consistente e persistente de questões estratégicas, e está em curso no governo uma agenda de controlar o desmatamento

O Brasil vive “momento especial de ouro”, repete o presidente Lula, convencido de que a questão climática não é mais um tema do futuro, mas é “agora que está acontecendo”. Esse estado de espírito otimista, explicitado na reunião da América Latina com a União Europeia que termina hoje em Bruxelas, tem base em dados que ainda serão divulgados oficialmente. Eles apontam uma queda consistente do desmatamento na Amazônia de 33,6% nos seis primeiros meses do ano, e neste mês a queda será altamente consistente, um mês em que o desmatamento deveria estar no pico, como antecipam membros do governo.

Lula, que antecipou esses números em Bruxelas, considera extremamente importante o encontro porque pode ajudar a concluir o acordo tão sonhado com a União Europeia. Nos encontros em Bruxelas, ele reiterou que o país não abre mão das compras governamentais, que vê como oportunidade para pequenos e médios empreendedores brasileiros. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul deve sair até o fim do ano.

Carlos Andreazza - Papo reto

O Globo

O discurso de Barroso corrobora a noção popular de uma elite dirigente corrompida que, violando o pacto republicano, existiria exclusivamente em função dos próprios interesses.

Escrevi outro dia sobre quão ridículo é pretender dar conselhos a um presidente da República. O mesmo serve à pretensão de aconselhar ministro do Supremo. A cousa deixa de ser apenas ridícula quando o aconselhamento consiste na forma de expressão única ante a impossibilidade — afetiva — de criticar objetivamente.

Ministros do Supremo têm de falar menos — e se abster de eventos políticos e empresariais — não porque assim evitarão alimentar os inimigos da democracia; mas porque, pervertidos em debatedores e palestrantes, aviltam o signo de comedimento que fundamenta o papel que deveriam cumprir na República.

Aviltam a República. Papo reto.

A fala de Luís Roberto Barroso no congresso da UNE — a do “nós derrotamos o bolsonarismo” — é deletéria não porque ofereça carne a teorias da conspiração. Hipótese em que teríamos mero equívoco tático. (O bolsonarismo não precisa de fatos para barbarizar.) É nociva porque mais uma num conjunto de posturas que subsidia, na sociedade não radicalizada, a percepção da Corte constitucional não como o Poder que faz a balança, mas como corporação interferente e desequilibradora.

Convém sair da bolha e cair na real. O discurso de Barroso — sobretudo a presença num ato de militância política — corrobora a noção popular de uma elite dirigente corrompida que, violando o pacto republicano, existiria exclusivamente em função dos próprios interesses.

Míriam Leitão - O espaço da mulher no governo Lula

O Globo

Temos tolerado o intolerável em se tratando de exclusão dos que não são homens, brancos, héteros no Brasil

É natural que o governo se organize com as forças que o apoiam para ter maior capacidade de aprovação de medidas no Congresso. Não é natural que os cargos das mulheres sejam os primeiros a entrarem na mira para serem ocupados por homens.

Na última semana, a lista das posições em disputa pelo Centrão eram principalmente as entregues às mulheres. A escolha do deputado Celso Sabino para o Ministério do Turismo é um ato normal de governo, afinal a ex-ministra Daniela Carneiro saiu do União Brasil e teve uma passagem irrelevante pelo cargo.

É preciso separar o que é o normal da política do que é reflexo da longa exclusão feminina da estrutura de poder. Não é que um homem não possa ser nomeado para uma posição ocupada por mulheres. Mudanças e trocas acontecem em qualquer governo.

Luiz Carlos Azedo - Rumos na economia opõem Haddad e Campos Neto

Correio Braziliense

Ministro da Fazenda conquistou a confiança do mercado, tem mais prestígio do que o presidente do Banco Central, que será carbonizado se não baixar a taxa de juros, em 13,75%

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, voltou a criticar a taxa de juros praticada pelo Banco Central, que está em 13,75%. A queda de 2% na atividade econômica em maio, medida pelo Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) do BC, confirmou as previsões da equipe econômica e tende a politizar a discussão.

A queda do PIB já promove nova fricção entre o governo e o presidente do BC, Roberto Campos Neto. “Prévia” do Produto Interno Bruto (PIB), o índice indica a evolução da economia brasileira, mês a mês. O debate sobre a taxa de juros será a “flor do recesso” do Congresso, porque o Comitê de Política Monetária do BC, composto pelo presidente e pela diretoria da instituição, somente se reunirá em agosto.

Para reduzir a inflação ao centro da meta, com amplo apoio do mercado, neste semestre, Campos Neto manteve o arrocho no crédito, mas o remédio virou veneno. O PIB cresceu 2,9% em relação a 2021. Seria muito maior sem o crescimento negativo trimestre. Há expectativa de que os juros sejam reduzidos, em razão da ata da última reunião do Copom.

Dora Kramer - Dores do parto à direita

Folha de S. Paulo

Racha pode ser mortal ou apenas consequência do renascimento

Depois de anos atuando como figurante engajada e influente, porém algo envergonhada, a direita brasileira vem de recente entrada na cena principal da política. Toda catita, sem receio de dizer o seu nome.

Dentre as novidades com as quais se depara na condição de coprotagonista, está a divisão interna. Rusgas públicas de tendências até então eram características da esquerda, mas não só. O MDB, nossa legenda mais longeva, sobrevive há quase 50 anos sendo uma federação de grupos quase sempre divergentes.

A tensão é do jogo e tende a explodir como espetáculo quanto mais relevantes se tornam os jogadores. Não fossem Jair Bolsonaro ex-presidente da República e Tarcísio de Freitas governador de São Paulo ninguém daria atenção à treta naquela reunião do PL sobre a votação da Reforma Tributária.

Hélio Schwartsman - Reforma agrária no Legislativo

Folha de S. Paulo

Constituinte armou complô contra São Paulo quando criou teto de deputados federais

A democracia brasileira é representativa. Isso significa que os tamanhos de bancadas de deputados e de algumas Casas legislativas deveriam ser proporcionais à população. Assim, a cada novo Censo, deveria ocorrer um processo de recalibragem.

Há uma chance de que isso ocorra nas câmaras municipais. É que a Constituição estabelece um teto para o número de vereadores de cada cidade segundo o total de habitantes. E, pelos novos dados, 140 municípios precisariam cortar edis, e 198 poderiam a partir de agora expandir seus plenários. A doutrina entende que reduções são obrigatórias, e as ampliações, opcionais.

Alvaro Costa e Silva - Lira em ritmo de Safadão

Folha de S. Paulo

Jornalistas não seriam bem-vindos ao cruzeiro no mar do Caribe

Em 1960, Jânio Quadros atravessou o Atlântico a bordo do Aragon, navio da Mala Real Inglesa com destino a Londres. Era segredo, mas o furão Joel Silveira conseguiu embarcar também e relatou o que viu no livro "Viagem com o Presidente Eleito", que reli agora pensando na falta que fez um repórter de olho em Arthur Lira durante o cruzeiro de Wesley Safadão nas águas do Caribe.

Joel mostra um Jânio diferente daquele que encantou 5,6 milhões de eleitores trajando paletó escuro pontilhado de caspa (ou seria talco?), colarinho e gravata soltos, amarfanhado e despenteado, óculos pesados escorregando até a ponta do nariz.

Joel Pinheiro da Fonseca - ‘Dizem especialistas’ não funciona mais

Folha de S. Paulo

Com as redes sociais, e todo mundo publicando suas opiniões, o jogo mudou

Uma manchete de março na Folha: "Inflação dará alívio a pobres e pesará mais na classe média, dizem especialistas". Nesse e em outros casos —que são comuns na imprensa toda— , a presença dos "especialistas" aumenta ou reduz a confiabilidade do enunciado?

No passado, o especialista era a palavra final. Ele tinha uma formação que o habilitava a opinar com conhecimento de causa. A imprensa fazia sua parte dando espaço. E enquanto a imprensa determinava o debate público —quem estava nela, existia; quem não estava, não existia— , dar voz ao especialista bastava para que ele fosse a autoridade publicamente reconhecida. A falta de vozes contrárias dava à voz do especialista uma autoridade automática que, ao menos em tese, era justificada por seu conhecimento.

Maria Cristina Fernandes - Bolsonaro é o maior derrotado pela arruaça de Roma

Valor Econômico

Alexandre de Moraes sai do episódio com uma renovada união do Supremo em torno de si

O ex-presidente Jair Bolsonaro é o maior perdedor do incidente da sexta-feira no aeroporto de Roma. O tira-teima das versões sobre o ocorrido depende das imagens do aeroporto requisitadas pela Polícia Federal, mas parece improvável que o ministro Alexandre de Moraes viesse a colocar sua reputação - e seu mandato - em risco inventando uma agressão contra si e sua família.

Se ainda não se sabe quantos foram os envolvidos nas agressões, não parece haver dúvida sobre os crimes pelos quais podem vir a responder - de lesão corporal, crime contra a honra e injúria, até ameaça contra o estado democrático de direito. No limite, se juntarão às centenas de presos pelos atos de 8 de janeiro e darão argumentos aos representantes mais extremados do bolsonarismo no Congresso Nacional que a causa ainda arregimenta eleitores a enfrentar riscos em sua defesa.

Daniela Chiaretti - Roma, 42ºC. E o clima no conflito geracional

Valor Econômico

Juventude se divide entre debater o problema climático e se sentir impotente para a participar da solução

Roma, 42ºC. Parece filme, mas é a previsão de temperatura para esta terça-feira, 18. Faz um calor infernal na capital da Itália neste verão, e em boa parte da Europa. O continente já viveu a estação mais quente dos registros em 2022, segundo estudo da Organização Meteorológica Mundial e do European Union’s Copernicus Climate Change Service. A temperatura está 2,3ºC acima dos níveis pré-industriais. O nível do mar bateu recordes e o derretimento dos glaciares foi sem precedentes. Na Europa morreram 16.365 pessoas no ano passado por conta do clima, a maioria pelas ondas de calor. Inundações e tempestades causaram US$ 2 bilhões em prejuízos. A Bloomberg praticamente desenhou o que está acontecendo e disse mais: há forte probabilidade de 2023 ser o ano mais quente nos registros globais.

A Europa é o continente que aquece mais rápido no mundo. O Canadá está esquentando duas vezes mais rápido do que o resto dos países. Nos Estados Unidos, a previsão de dias de intenso calor para esta semana colocou em alerta um terço da população - mais de 113 milhões de pessoas -, da Flórida à Califórnia e subindo até o Estado de Washington. O Serviço Nacional de Meteorologia pediu às pessoas que não subestimem os riscos à vida. No sábado, termômetros da cidade de Phoenix, Arizona, registraram 48ºC.

Eliane Cantanhêde - As chances de Augusto Aras

O Estado de S. Paulo

Entre uma nova mulher e um novo Zanin, Lula ficará com um novo Zanin para o STF

Por que Augusto Aras é defendido até pelo líder do governo no Senado, Jaques Wagner, para continuar à frente da Procuradoria Geral da República (PGR)? Porque ele agrada à direita e à esquerda, depois de acabar com a Lava Jato, e porque, assim como foi uma mão na roda para Jair Bolsonaro, poderá ser, se já não está sendo, também para Luiz Inácio Lula da Silva.

Da mesma forma que Aras arquivou as queixas, suspeitas e provas, até mesmo da CPI da Covid, contra Bolsonaro, seus filhos, ministros e aliados, ele é visto como um PGR capaz de engavetar tudo o que puser o mandato de Lula em risco, ou constranger o atual presidente. Tudo pela “governabilidade”?

Jorge J. Okubaro* - Nem só barganha, nem só sorte

O Estado de S. Paulo

Lula vem agindo e negociando. Cede em muitos pontos, tenta resistir em outros e, assim, começa a contabilizar vitórias

Não terão sido poucos os que se surpreenderam com um título publicado há uma semana no caderno Economia &Negócios do Estadão. “Especialistas veem novo ciclo econômico”, informava o jornal. A aprovação da reforma tributária em dois turnos na Câmara dos Deputados (ainda falta a aprovação do Senado) poderá atrair mais investimentos e melhorar a produtividade, explicava em seguida. Surgem com mais frequência notícias sobre reativação da economia e redução da inflação. Vitórias do governo no Congresso Nacional, de sua parte, amenizam a sensação de risco à governabilidade.

Há os que não creem em informações desse tipo, pois estão convencidos de que não há salvação fora das fantasias disseminadas pelo governo anterior. Para estes, não haverá futuro sem o bolsonarismo e seus ludibrios.

IEPfD | Recompor a política e ampliar a democracia – Seminário 2

 

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Descobertas do Censo trazem novos desafios para a sociedade

Valor Econômico

Revelação mais impactante é que a população aumentou menos do que se esperava

À medida que as descobertas do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 são analisadas, novos desafios emergem e demandam respostas da sociedade. A primeira delas e mais impactante é que a população aumentou menos do que se esperava. O IBGE constatou que a população cresceu 0,52% em média, ao ano, entre 2010 e 2022, praticamente a metade das décadas anteriores. Foi a menor taxa em 150 anos, desde o primeiro Censo, em 1872. Assim, o Brasil chegou a 2022 com 203 milhões de habitantes, apenas 6,5% a mais do que os 190,8 milhões do censo anterior, feito em 2010.

A população cresceu 12 milhões de pessoas, 5 milhões a menos do que os 17 milhões esperados, e não se sabe exatamente o motivo. Há algumas hipóteses, entre elas as mortes causadas pela pandemia de covid-19, certamente subestimada em 700 mil pessoas, as mortes causadas por uma epidemia de zika alguns anos antes, a emigração dos mais jovens diante do enfraquecimento da economia e a queda da natalidade. Todas elas juntas talvez ajudem a explicar o que aconteceu.

Poesia | Pablo Neruda - Hoje a noite posso escrever os versos mais tristes

 

Música | João Donato - Nasci para bailar (João Donato e Paulo André Barata) | Instrumental SESC Brasil

 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Fernando Gabeira - Extrema direita e a tática do escândalo

O Globo

Os últimos acontecimentos no interior do PL mostram que o bolsonarismo não tarda muito a virar a mesa

Um dos problemas de estudar a História da extrema direita é que, às vezes, durmo no sofá e tenho curtos pesadelos. Supremacia branca, antissemitismo, homofobia, raiva de mulheres — cada grupo tem seu gosto, e juntos formam a chamada direita alternativa — alt-right.

Uma coisa que aprendi nas horas de estudo e vigília é que a extrema direita tem uma tática de escandalizar para emergir no chamado mainstream. Foi assim quando Hillary Clinton, nas eleições de 2016, mencionou a alt-right. Muitos grupos celebraram por terem sido citados.

— Conseguimos entrar na cabeça dela — postaram nas suas redes.

Sou pai de professora e tenho tudo para estar indignado com o deputado Eduardo Bolsonaro, que comparou os mestres brasileiros a traficantes de drogas.

No entanto não posso deixar de colocar sua fala no contexto, como dizíamos antigamente. O pai foi derrotado na votação da reforma tributária.

Nesse quadro de isolamento, uma tábua de salvação é precisamente dizer algo bombástico. Os adversários comentam e movem processos, o próprio governo manda investigar.

Um encontro insignificante de pessoas que defendem armas acaba tendo uma divulgação que o salvou de passar completamente em branco, ou em cinza, dependendo de como se avalia o anonimato.

Miguel de Almeida - A direita e a extrema direita

O Globo

No momento em que escrevo, Bolsonaro se assemelha ao aspartame, ambos com muito passado e nenhum futuro. Intitulado líder da direita brasileira, se encontra encostado como funcionário bem remunerado do Valdemar; no papel de mau oficial, ainda em liberdade, observa seus arruaceiros atrás das grades.

Nem muito longe que o esqueçam, nem muito perto que o comprometam, antigos correligionários saem disfarçadamente da cena do crime; pé atrás de pé, traçam no chão uma linha de separação, a começar pela nominação — Bolsonaro seria de extrema direita; eles, como Valdemar, aquele que paga o salário, ou ainda Ciro Nogueira ou Marcos Pereira, se dizem apenas de direita.

Seria educativo não fosse balela, a denominação gritada pelos ex-bolsonaristas: o que é ser direita e extrema direita? A diferença estaria entre aquele que já fugiu e o que ainda não caiu a ficha.

Dois momentos recentes, de fato constrangedores pelo mau roteiro, escandem o desabrigo dos extremistas do capitão.

Ricardo Henriques* - Economia Criativa como ativo de desenvolvimento

O Globo

Para explorar esse potencial, o Brasil deve investir em educação, capacitação profissional e infraestrutura, bem como em políticas públicas que incentivem a inovação e a proteção dos direitos autorais

Num mundo em que máquinas e sistemas de inteligência artificial avançam cada vez mais sobre empregos tradicionais, é fundamental identificar setores onde a mão-de-obra humana continue sendo a mais valorizada. A economia criativa emerge como alternativa particularmente relevante, com enorme potencial a ser aproveitado pelo Brasil.

Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em relatório de 2022, o setor representa 3,1% do PIB mundial, promovendo inclusão social, diversidade cultural e desenvolvimento humano. Além de representar um caldeirão preenchido pelo encontro da arte com a cultura, cruciais para o desenvolvimento de habilidades como raciocínio crítico e criatividade, envolve também a produção e o comércio de bens e serviços baseados intensivamente em conhecimento.

Bruno Carazza* - A reforma ministerial necessária e indesejada

Valor Econômico

Ampliar a base é preciso, mas amigos serão sacrificados

Dia 25 de abril de 1996, meia-noite. No gravador em que registrou o cotidiano de seus oito anos de governo, Fernando Henrique Cardoso relatava que aquele havia sido, se não o mais difícil, com certeza o mais duro dia desde que assumira a Presidência da República, em 1º de janeiro do ano anterior.

FHC havia acabado de chegar do apartamento de sua ministra da Indústria, Comércio e Turismo, Dorothea Werneck, aonde fora comunicar a decisão de demiti-la. Segundo o registro, publicado na primeira edição de seu Diários da Presidência (1995-1996), a conversa durou quase três horas, houve choro de ambas as partes, desabafo, queixas e até uma ponta de arrependimento.

Dorothea Werneck era uma ministra de perfil estritamente técnico. Formada em economia na UFMG, foi aluna do famoso curso de mestrado montado por Mário Henrique Simonsen na FGV e depois se doutorou no Boston College, nos EUA. De volta ao Brasil, trabalhou no Ipea e foi professora da UFRJ.

Angela Alonso* - Notícias políticas do Censo

Folha de S. Paulo

Novo quadro populacional dá pistas sobre caminhos da esquerda e direita no país

ex do Brasil atrapalhou o Censo, mas os números não guardaram mágoa e na sua cesta informativa, trouxeram até boas novas para o seu algoz.

Uma notícia é que o país envelheceu. No Censo anterior, os brasileiros tinham filhos suficientes para replicar o volume populacional. Agora o quadro é outro. Foi-se a janela demográfica —muitos jovens, poucos velhos. Estamos na vereda de EuropaJapão e outras partes onde nasce cada vez menos gente, desequilibrando as gerações, com muitos avôs e poucos netos.

descenso da fecundidade começou aqui nos anos 60 e foi rapidíssimo. Meio século depois, a taxa de crescimento médio anual é de 0,52%. Isto é, o país conta agora com metade dos brasileirinhos necessários para substituir os brasileirões. As mulheres em idade reprodutiva estão tendo poucos filhos ou nenhum. O país da juventude agrisalhou.

E a política com isso? Se nas eleições futuras a distribuição geracional do voto de 2022 se mantiver, a direita pode comemorar. Na última eleição, a juventude apertou muito o 13, e os cabeças brancas foram mais de 22. No médio e sobretudo no longo prazo, a diminuição do número de jovens pode estreitar o eleitorado de esquerda.

Marcus André Melo* - Reforma tributária nos EUA e no Brasil

Folha de S. Paulo

O sucesso legislativo inesperado de novos arranjos tributários

"Até uma ordem de monges trapistas fez lobby a favor de tratamento tributário especial". Com isso Jeffrey Birnbaum e Alan Murray descrevem o estado do regime tributário americano pré-1986 em "Showdown in Gucci Gulch: lawmakers, lobbyists, and the unlikely triumph of tax reform" (Confronto na Gucci Gulch: parlamentares, lobistas e o triunfo inesperado da reforma tributária). Os autores descrevem o labirinto da mudança que ninguém esperava que fosse aprovada.

Foi a reforma histórica do imposto de renda nos EUA, aprovada no governo Reagan "contra tudo e contra todos". Os lobistas que se reuniam cotidianamente na "Gucci Gulch" —a sala no Congresso onde se instalavam com suas gravatas Gucci— eram totalmente céticos. Foram todos pegos de surpresa. A reforma eliminou milhares de isenções, regimes especiais e deduções que se acumulavam desde 1913, quando o imposto foi criado.

Felipe Moura Brasil - O verdadeiro massacre da cultura pelo poder

O Estado de S. Paulo

O legado de Milan Kundera serve de alerta contra o massacre da cultura pelo poder

“A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.” A frase é dita por Mirek, em 1971, três anos após a ocupação soviética da Tchecoslováquia, para explicar aos amigos por que guarda seus “escritos comprometedores”, contidos em diário, correspondências e minutas de reuniões.

Os amigos apontam a imprudência de Mirek, que se convence, ao menos, de levar o material para “lugar seguro”, porque a Constituição “garante a liberdade de palavra, mas as leis punem tudo que pode ser qualificado de atentado à segurança do Estado”.

E “nunca se sabe quando o Estado vai começar a gritar que essa palavra ou aquela atentam contra a sua segurança”.

Denis Lerrer Rosenfield* - O pagador de impostos

O Estado de S. Paulo

A política extrapola o Orçamento, excedendo os seus limites e comprometendo o próprio funcionamento da economia, em prejuízo do pagador de impostos

O cidadão, o pagador de impostos, foi o grande ausente dos debates da reforma tributária. Afinal, é ele que financia o Estado, devendo ser, por via de consequência, o seu destinatário. Discute-se como aumentar os impostos, distribuir fatias do Orçamento para assegurar votações legislativas, setores da economia são privilegiados com reduções de alíquotas, enquanto outros são prejudicados, sem que tenha entrado em discussão o ponto central, a saber, uma redução da carga tributária ou uma melhor avaliação dos gastos em cada ministério, nos diferentes Poderes e nas esferas estaduais e municipais. A coisa pública, a do cidadão, é considerada como a coisa de alguns.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Atenção com inadimplência deve ser permanente

Valor Econômico

O governo deve evitar a tentação de criar novos planos voltados à indução de um consumo desenfreado

A campanha eleitoral começava a pegar tração na noite de 25 de agosto de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva, novamente na condição de candidato do PT à Presidência da República, prometeu renegociar as dívidas de pessoas físicas negativadas. “Aliás, uma coisa importante: nós temos quase que 70% das famílias brasileiras endividadas, e a grande maioria delas é mulher, 22% endividadas, porque não podem pagar a conta de água, a conta de luz, a conta do gás. Nós vamos negociar essa dívida”, assegurou Lula, nos minutos finais de sua entrevista ao “Jornal Nacional”, da TV Globo. “Pode ficar certo que nós vamos negociar com o setor privado e com o sistema financeiro, porque nós precisamos fazer com que o povo brasileiro volte a viver com dignidade”, acrescentou.

O tema tinha apelo. Também era objeto dos discursos de seus adversários, desde que o agravamento da conjuntura econômica após a pandemia de covid-19 deixou milhões de pessoas em delicada situação financeira. Nas contas do governo, os números são diferentes daqueles citados por Lula em agosto passado. Mas também são alarmantes: em maio, 70 milhões de brasileiros eram considerados inadimplentes, o que representava aproximadamente 42% da população adulta brasileira. São pessoas que não têm conseguido quitar suas dívidas.

Nesse triste quadro, de acordo com estimava feita pelo Executivo quando enfim foi publicada a medida provisória que instituiu o programa de renegociação de dívidas, posteriormente batizado de Desenrola Brasil, quatro em cada dez famílias estavam com dívidas em atraso acima de três meses - principalmente de cartão de crédito, contas básicas (água, luz, gás e telefonia) e no varejo.

Poesia | Manoel Bandeira - Belo Belo

 

Música - Paulinho da Viola - Amor é assim