quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Opinião do dia: Luiz Sergio Henriques* - As esquerdas na democracia de 1988

O ocaso dos comunistas do PCB terá deixado algumas referências para a reconstrução da esquerda: uma reconstrução que deve ser, antes de mais nada, cultural: faltam-nos categorias e modos de pensar minimamente articulados. Mas tais referências parecem em grande parte ainda muito marginais em relação ao sentimento médio das pessoas de esquerda – tanto dos intelectuais quanto dos “simples”, tanto dos políticos quanto dos homens e mulheres da cultura. Ter ignorado, desde sua gênese, a complexidade social brasileira e o percurso acidentado da redemocratização terá sido, nesta hipótese, o pecado original – “oriental” – do petismo.

Na teoria, o Gramsci petista – que houve e se disseminou em discurso frequentemente martelado na academia e fora dela – muitas vezes foi mero expediente para encobrir arraigadas convicções marxistas-leninistas típicas da extrema-esquerda. Na política concreta, de resto muito mais fundamental do que o plano da doutrina, o petismo nunca esteve à altura de uma reflexão sobre o que merece viver e o que merece morrer em nossa tradição republicana: uma reflexão sempre difícil e incompleta sobre o conflito e a conciliação entre os valores liberais, as regras da democracia e as instâncias de igualdade que a esquerda por definição tem o dever de elaborar permanentemente.

*Luiz Sérgio Henriques é editor do site "Gramsci e o Brasil" [www.gramsci.org]. “As esquerdas na democracia de 1988”. In: As esquerdas e a democracia, coletânea organizada por José Antonio Segatto, Milton Lahuerta e Raimundo Santos. Brasília, Verbena Editora/FAP, dezembro de 2018.

Rosângela Bittar - Desafio aos liberais

- O Estado de S.Paulo

Burocracia gera corrupção, mas a ausência de burocracia também gera corrupção

Isolados e influentes, dois grupos, com argumentos e propostas divergentes, já produziram um efeito essencial no governo Bolsonaro: os princípios da doutrina liberal perderam o papel de denominador comum e estão em processo de revisão, sobretudo para incorporar nuances que desafiam a imaginação do ministro Paulo Guedes.

De um lado, estão os liberais exaltados do Ministério da Economia, sempre distraídos e descompromissados da política. De outro, um grupo de ministros, de diferentes áreas e formação, que têm em comum o fato de não aceitarem, sem conhecimento prévio, mudanças radicais que afetem a própria existência de sua função. O projeto de reforma do Estado foi a primeira vítima do teste de estresse. Com seu curso suspenso pelo presidente Jair Bolsonaro, a razão, mencionada à época, foi o temor de que esta reforma pudesse provocar a eclosão de manifestações de rua, a começar dos por ela atingidos e terminar ninguém saberia dizer onde.

Esse temor esteve mesmo presente lá atrás, quando Lula foi solto e clamou por rebeliões contra o governo, exortação que caiu como uma bomba no deserto. Diante da esterilidade, o governo, então, engavetou esta preocupação e acabou deixando escapar sua real motivação.

As razões são fortes, de princípios, e se fizeram notar só agora devido à profundeza da reforma do Estado. Ministros que nunca contestaram o liberalismo mas guardam uma visão diferente sobre a estrutura e o papel do Estado, questionaram a forma superficial como o assunto foi tratado no posto Ipiranga. A proposta de emenda constitucional foi elaborada por um pequeno grupo do setor de desburocratização, liderado por Paulo Uebel, todos especialistas nos meandros da iniciativa privada. Tomaram decisões drásticas sobre função, papel, carreiras, instituições e pessoas da esfera pública sem discutir suas ideias com os atingidos pela transformação. Setores que, por sinal, sofreriam o impacto paralisante pois, aí sim, a reação prevista seria dura e abrangente.

Vera Magalhães - Reforço positivo

- O Estado de S.Paulo

O PIB mais 'parrudinho' do terceiro trimestre veio bem a calhar para Guedes

Paulo Guedes deverá usar o número positivo do PIB do terceiro trimestre como um antídoto para o risco de retrocesso em sua agenda de reformas.

Como já escrevi algumas vezes neste espaço, a soltura de Lula abateu a “linha de montagem” de projetos do ministro da Economia quando ela alçava o voo depois da promulgação da reforma da Previdência.

As três propostas de emendas à Constituição mandadas ao Senado tiveram boa acolhida dos parlamentares, boa vontade da cúpula da Casa, que rapidamente tratou de distribuir as relatorias e deslanchar a discussão, mas a reforma administrativa foi barrada pela circunstância política.

Agora, diante de números que indicam, na leitura da equipe econômica, que o caminho receitado desde a campanha está gerando frutos, de forma ainda lenta, mas contínua, Guedes deverá fazer nova tentativa junto a Jair Bolsonaro para reabilitar a reforma administrativa.

O ministro acha que enviá-la à Câmara, por onde vai começar a tramitar, ainda neste ano, será sinal de que o caminho será mantido e acentuado no ano que vem, contrariando as hesitações manifestadas até pelo presidente.

Seria uma forma, ainda, de o Posto Ipiranga terminar o primeiro ano de mandato renovando a carta branca que lhe foi conferida na largada. A menção de Bolsonaro a que lhe teriam pedido a “cabeça” do ministro soou como um recado do chefe ao ministro de que ninguém é insubstituível. Nesse cenário, o PIB mais parrudinho do terceiro trimestre veio bem a calhar.

Luiz Carlos Azedo - Uma notícia boa

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Bons resultados econômicos são um fator de estabilidade política, ao lado do comportamento responsável do Congresso, apesar do ambiente de radicalização ideológica”

Ultrapassando as expectativas, o PIB brasileiro cresceu 0,6% no 3º trimestre. Na comparação com o mesmo período de 2018, o salto foi de 1,2%. Com isso, chegou a R$ 1,842 trilhão. Segundo o IBGE, agropecuária (+1,3%), indústria ( 0,8%), principalmente, a construção civil, e serviços (0,4%) lideraram a expansão da economia. O consumo das famílias cresceu 0,8% e o investimento, 2%. A queda de 0,4% das despesas de consumo do governo completam o cenário, o que levou a uma reavaliação da projeção do PIB para 2019. No acumulado do ano até setembro, o PIB cresceu 1%. Com isso, já se projeta um PIB de 1,2% neste ano.

O presidente Jair Bolsonaro comemorou o resultado, e os analistas do mercado financeiro reiteraram a avaliação corrente de que a economia vai no rumo correto, apesar dos problemas. O PIB ainda está 3,6% abaixo do pico da série, atingido no primeiro trimestre de 2014. O resultado mantém a economia brasileira em patamar semelhante ao que se encontrava no 3º trimestre de 2012. Mesmo assim, fortaleceu a equipe econômica e possibilita a Bolsonaro construir uma narrativa de retomada do crescimento no primeiro ano de seu governo, cujo desempenho ainda deixa a desejar em termos de resultados econômicos.

Fernando Exman - Será ruim retaliar com Alcântara

- Valor Econômico

Lançamento comercial só deve ocorrer em 2022

A intempestiva ação do presidente americano, Donald Trump, que ameaçou taxar produtos brasileiros chegou em péssima hora para os defensores do acordo de salvaguardas tecnológicas, assinado com os Estados Unidos, para viabilizar o Centro Espacial de Alcântara. Será negativo, contudo, se esse acordo passar a figurar em uma eventual lista de potenciais retaliações aos EUA.

Nada mais natural que a oposição aproveite a oportunidade de criticar o governo pelas concessões feitas aos americanos, sem que as esperadas contrapartidas tenham se concretizado. Talvez apenas o presidente Jair Bolsonaro e sua família acreditaram que o Brasil teria um tratamento privilegiado dos EUA, em razão de sua vitória na eleição do ano passado.

O acordo de salvaguardas tecnológicas não entra nesse balaio. Ele assegura que o Brasil se compromete a proteger as tecnologias americanas, as quais, segundo dados do governo, estão em aproximadamente 80% dos componentes utilizados em foguetes e satélites do mundo.

Ricardo Noblat - A liberdade de expressão, segundo Bolsonaro

- Blog do Noblat | Veja

Como o presidente interpreta a Constituição

Em sua 11ª entrevista exclusiva em 11 meses para a TV Record, o presidente Jair Bolsonaro negou a Lula o que concedeu ao seu filho Eduardo e ao ministro Paulo Guedes, da Economia.

Disse não ver como direito de expressão as críticas que Lula lhe faz. Disse que ao falarem sobre um novo Ato Institucional nº 5 Eduardo e Guedes apenas exerceram o seu direto de expressão.

Quando Eduardo acenou com uma versão atualizada do AI-5 para conter manifestações de ruas que estão em falta no Brasil, Bolsonaro, pressionado, o desautorizou: “Isso não se diz”.

Uma vez que Guedes seguiu os passos de Eduardo, Bolsonaro achou melhor então defender os dois. O AI-5 foi o ato que permitiu à ditadura de 64 fechar o Congresso e suspender os direitos civis.

Está na Constituição:
“É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”.
Também está na Constituição:

“Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, […] sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

Criticar o governo e o próprio presidente da República não atenta contra o Estado de Direito. Ameaçar com a reedição de um ato ditatorial atenta, sim, e foi o que fizeram Eduardo e Guedes.

Hélio Schwartsman - Includente de responsabilidade

- Folha de S. Paulo

Governador deveria responder objetivamente pelos desdobramentos de operações grandes

Nove jovens que se divertiam num baile funk no sábado à noite morreram pisoteados, como consequência de um tumulto que se seguiu a uma perseguição policial. Na hipótese mais benigna para a polícia, foi uma operação desastrosa —mal concebida, mal executada e totalmente dispensável. Na mais verossímil, houve abusos criminosos por parte de policiais. Não vejo motivo para duvidar dos vídeos e dos depoimentos que reforçam a segunda hipótese.

Num país um pouco mais decente, a cúpula da Polícia Militar já teria apresentado seu pedido de demissão, e estaríamos discutindo se o governador cometeu ou não crime de responsabilidade. Mas estamos no Brasil, e os mortos são provavelmente todos pobres. Será uma surpresa para mim se o inquérito concluir que houve abusos e identificar seus autores.

Bruno Boghossian – Não vai mudar

- Folha de S. Paulo

Papo 'linha dura' na segurança vem casado com apatia em relação a vítimas inocentes

A Polícia Militar foi a Paraisópolis para impedir a realização de um baile funk. Um dos agentes ficou escondido atrás de uma parede e, entre uma risada e outra, agredia com um pedaço de madeira os frequentadores, que saíam do pancadão com as mãos para cima.

Um vídeo com essas imagens apareceu depois que nove jovens morreram durante uma operação na favela paulista, no domingo (1º). A PM correu para divulgar a informação de que a cena nada tinha a ver com a tragédia do fim de semana. A gravação havia sido feita no dia 19 de outubro, na mesma região.

A ideia era rebater parte das críticas à atuação dos policiais que encurralaram milhares de pessoas no episódio mais recente, fazendo com que vítimas fossem pisoteadas nas vielas. Mas a resposta foi esclarecedora por outro motivo. Comprovou que a truculência policial é um método mais do que recorrente por ali.

Vinicius Torres Freire - Torcida cresce muito mais que o PIB

- Folha de S. Paulo

Há brotos verdes, mas ritmo anual de crescimento ainda é o menor desde 2017

A economia cresceu 1% nos últimos quatro trimestres —no último ano, pois. É o ritmo mais lento desde o terceiro trimestre de 2017, quando o país acabava de sair da recessão.

Mas, a julgar pela comemoração da torcida oficial, oficialista ou oficiosa, parece que o PIB divulgado nesta terça-feira (3) teria começado a crescer em desabalada carreira, como diziam jornais de antigamente. Só que não.

Sim, há pequenas notícias positivas. O crescimento de trimestre para trimestre melhorou desde abril, quando se temia uma recaída na recessão. Mantida a mesma toada do segundo e terceiro trimestres deste 2019, o PIB terá crescido 2,2% ao final de 2020.

Ainda será uma pobreza, mas de longe o melhor resultado desde 2014. Quanto a 2019, o crescimento deve ser ainda um tico menor do que o de 2018, menos de 1,3%, afora milagres. De qualquer modo, este trimestre final do ano deve ser melhor.

Ruy Castro* - O amigo Bozo

- Folha de S. Paulo

Bolsonaro saliva para Trump e recebe bofetadas em troca

Donald Trump, quando quer insultar seu desafeto Jeff Bezos, dono da Amazon e do jornal The Washington Post, chama-o de Jeff Bozo. Comparar alguém ao famoso palhaço da televisão americana parece ser a suprema ofensa. Não por acaso, é assim também que multidões de brasileiros se referem, sem cerimônia, a um amigo de Trump: Jair Bolsonaro —o Bozo.

Mas será Trump tão amigo assim de Bolsonaro? Esta semana, Trump aplicou em Bolsonaro e, consequentemente, no Brasil, mais uma bofetada na área econômica. Em nova medida protecionista dos interesses americanos, sobretaxou o aço brasileiro em 25%. Outras medidas recentes de Trump incluíram a manutenção do embargo da carne bovina brasileira nos EUA e não estar nem aí para a sonhada candidatura do Brasil à OCDE. Preferiu apoiar a candidatura da Argentina.

Merval Pereira - Liberdade de imprensa incomoda autoritários

- O Globo

Ao desagradar a ambas as partes nos extremos, a imprensa profissional e independente mostra que está no caminho certo

Estamos assistindo no país, já há algum tempo, um desfile sistemático de ataques a órgãos de imprensa que não é coisa nossa apenas, mas de variados países com governos populistas, de esquerda ou de direita, que não convivem bem com a imprensa independente.

Essa nova onda da direita autoritária segue-se a outra, da esquerda também autoritária, que dominou a América Latina durante anos. Na Argentina dos Kirchners, na Venezuela de Chavez e Maduro, na Bolívia e no Equador, no Brasil de Lula, sempre a tal da “midia” virava o bode expiatório de governantes que não querem ver seus segredos e desvios revelados.

Ataques aos órgãos de imprensa acontecem quando a democracia não é um regime respeitado por quem está no poder. Quando na oposição, esses mesmos políticos adoram ver seus adversários sob críticas, as mesmas que rejeitam quando governo.

É o caso de agora com o presidente Bolsonaro, que investe contra os meios de comunicação quando lhe são críticos, como a Rede Globo, o jornal O Globo, a Folha de S. Paulo, e distribui benesses para aqueles que abdicam da missão jornalística de fiscalizar os governos para bajulá-los, em troca de vantagens indevidas.

Zuenir Ventura - Desejo de destruição

- O Globo

Bem fez Fernanda Montenegro, que não respondeu aos xingamentos

Quando você pensa que já viu de tudo, até que a Terra é plana e que “DiCaprio paga pra tocar fogo na Amazônia”, amanhece com o novo presidente da Funarte afirmando, acredite, que o rock não só ativa a droga como “alimenta uma coisa muito mais pesada, que é o satanismo”. Como Lulu Santos, eu fico com o funk. Bem fez Fernanda Montenegro, que não respondeu aos xingamentos do secretário de Cultura, “um tal de Roberto Alvim”, no dizer de quem o nomeou. Em vez de bater boca com a insensatez reinante, ela preferiu atender aos admiradores que têm lotado seu espetáculo “Nélson Rodrigues por ele mesmo” e fizeram de seu livro “Prólogo, ato e epílogo” um campeão de vendas. Outro é o “Essa gente”, de Chico Buarque, um autor que, se o presidente gostasse de ler, não leria.

Os responsáveis atuais pela cultura podem ser birutas, mas pelo menos um não rasga dinheiro. O “tal”, quando ocupou uma diretoria na Funarte, convidou a esposa para gerenciar um fundo de R$ 3,5 milhões. Ela podia ter dito “sim” na cama, mas preferiu oficializar em documento: “Eu, Juliana Galdino, aceito o convite do sr. Roberto Rego Pinheiro (o nome civil de Alvim) para diretora artística do teatro Plínio Marcos”. Por que o presidente da República não protestou contra o ato de nepotismo do subordinado? Estranhou quem não conhece a tradição dos Bolsonaro, que nomearam 102 pessoas com laços de família, inclusive ex-sogros.

Bernardo Mello Franco - A dobradinha de Aras e Damares

- O Globo

Ao capturar o Conselho Nacional dos Direitos Humanos, o governo dá mais um passo para o autoritarismo. Desta vez, com ajuda do procurador-geral da República

A procuradora Deborah Duprat é conhecida por defender os direitos humanos e o respeito às minorias. Sua independência honra o Ministério Público,
mas tem incomodado o governo Bolsonaro.

Nos últimos meses, Duprat se opôs a medidas como a liberação do porte de armas, a nomeação de militares para a Comissão de Anistia e a ordem para comemorar o golpe de 1964 nos quartéis. Foi retaliada com ataques e tentativas de intimidação.

Em abril, sete deputados do PSL se organizaram para torpedeá-la na Câmara. Em agosto, um deles pediu a abertura de processo disciplinar contra a procuradora. Alegou que ela exerceria “atividade político-partidária” ao emitir notas técnicas contra projetos que considera inconstitucionais.

Míriam Leitão - PIB e Pisa dão avisos ao país

- O Globo

PIB de um trimestre pode ser recuperado, uma geração perdida na educação, não. Manter o ministro Weintraub é continuar errando na área

A economia cresceu um pouco mais do que se imaginava no terceiro trimestre. O desempenho dos estudantes brasileiros é ligeiramente melhor do que o da última avaliação em 2015. O PIB ainda está 3,6% abaixo do ponto onde estava antes de entrar na recessão. Os dados dos alunos em ciências, leitura e matemática ficaram estagnados na década, por erros dos governos anteriores. Projeta-se para o PIB um crescimento de pouco mais de 1%. Na educação, os temores são de que 2019 tenha sido um ano perdido.

Os indicadores da economia no terceiro trimestre foram divulgados no mesmo dia em que saiu o resultado da avaliação feita no ano passado com os estudantes de 15 anos pela OCDE em 79 países. É impossível não olhar ao mesmo tempo para os dois conjuntos de dados. PIB e Pisa trazem alertas diferentes, em tempos distintos, aos quais devemos estar atentos. Qualquer país que pense em crescimento sustentado olha os números da educação com a mesma atenção que dedica aos de produção, investimento e consumo.

O resultado do PIB foi bom. Esperava-se 0,4% e a alta foi de 0,6% no terceiro trimestre. O investimento subiu pelo segundo trimestre consecutivo. A construção civil também está positiva. A indústria extrativa deu um salto por causa do petróleo. Há também alguns dados decepcionantes, mas o resumo de tudo é que os economistas começam a rever a previsão de 2020 para um pouco mais de 2%. O ritmo é lento, mas o país está melhorando. O PIB ainda não voltou ao nível pré-crise, do primeiro trimestre de 2014. Contudo, está 4,9% acima do ponto a que chegou no quarto trimestre de 2016, depois de dois anos de recessão forte.

Elio Gaspari - O mundo irreal de Doria e Guedes

- O Globo | Folha de S. Paulo

Até agora, quem apareceu quebrando os outros foram policiais

Exatamente uma semana depois de a PM de Wilson Witzel ter sujado a festa do Flamengo, o governador João Doria disse no domingo que “São Paulo tem uma polícia preparada, equipada e bem informada.” Naquela hora, os corpos de nove jovens estavam no necrotério, pisoteados depois de uma entrada truculenta de sua PM num pancadão de Paraisópolis. Nas bancas e na rede, nesse mesmo domingo, estava também a entrevista do ministro Paulo Guedes à repórter Ana Clara Costa, na qual ele explicava o “timing” de suas reformas:

“Você dá pretexto para os outros fazerem bagunça. (...) Chamar pra rua manifestação ordeira e pacífica, como a que fazem quase todo fim de semana, problema nenhum. Agora, chamar para a rua para fazer igual no Chile e quebrar tudo foi uma insanidade, irresponsabilidade.”

Há algumas semanas, o general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, acompanhando uma ameaça vinda de um filho do presidente, havia cantado a pedra do perigo chileno como justificativa para um surto ditatorial: “Acho que, se houver uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter.”

Luiz Gonzaga Belluzzo - O Papa Francisco e o esterco do diabo

- Valor Econômico (3/12/2019)

Documento aponta males da supremacia dos mercados financeiros e suas consequências sobre a vida dos homens

Em carta aos jovens economistas do mundo, Papa Francisco sugeriu que se reunissem na cidade de Assis, Itália, entre 26 e 28 de março de 2020 para repensar uma nova doutrina econômica para o mundo.

Uma doutrina que vá além das “diferenças de credo e nacionalidade”, inspirada “na fraternidade, sobretudo para os pobres e excluídos”.

Em 2013, o Papa Francisco ofereceu aos cristãos a Primeira Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”. Assim como as encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris de João XXIII, a exortação apostólica de Francisco abordava as vicissitudes e esperanças da vida cristã no mundo contemporâneo.

Também em 2013, Francisco lamentou o Espírito desse mundo que reduz o Homem “a uma única das suas necessidades: o consumo e, pior ainda, o ser humano é considerado também um bem de consumo que pode ser utilizado e jogado fora. Inversamente, “a solidariedade, o tesouro do pobre, é considerada contraprodutiva, contrária à racionalidade financeira e econômica”. Isto deve-se “a ideologias promotoras da autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, que negam o direito de controle dos Estados”.

Já em 2015, durante outra audiência no Vaticano, o Papa disse que “o dinheiro é esterco do diabo”, acrescentando que, quando o capital se torna um ídolo, ele “comanda as escolhas do homem”. Aprisionado nas engrenagens impessoais da economia sem alma, o Homem sem Escolhas entrega seu destino ao diabo e seus estercos.

Na edição de 17/5/ 2018, o Osservatore Romano registra a divulgação do documento Oeconomicae et pecuniariae quaestiones elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé. O texto de 16 páginas contém “considerações para um discernimento ético acerca de alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro”.

O que a mídia pensa – Editoriais

Os 9 de Paraisópolis – Editorial | Folha de S. Paulo

Ação vil da PM precisa ser motivo de vergonha, punição e mudança de orientação

Foi acaciana e protocolar a primeira reação do governador João Doria (PSDB) à tragédia de Paraisópolis, em que nove jovens de 14 a 23 anos morreram pisoteados. Disse o tucano, no conforto das redes sociais: “Determinei (...) apuração rigorosa dos fatos para esclarecer quais foram as circunstâncias e responsabilidades deste triste episódio”.

Pouco depois dessa manifestação de escassa empatia e solidariedade, Doria enveredou por um discurso tortuoso que, pela vizinhança da mortandade, soou como ameaça de mais truculência e justificação da catastrófica investida da Política Militar que comanda.

“As ações na comunidade de Paraisópolis e em outras comunidades de São Paulo, seja por obediência da lei do silêncio, por busca e apreensão de drogas ou fruto de roubos, vão continuar”, disse.

Poesia | Graziela Melo -A carta triste

Era uma
Triste
Carta
As linhas
Choravam
Mágoa
As letras
Pingos de dor
A cada vírgula
Saudade
E sofrimentos
De amor...

A cada ponto
Um desaponto,
Em cada canto
Um desencanto

E quanto
Pranto!
Que desalento
Que sofrimento
Seria maior?

A carta triste
Nem foi
Descoberta
Sem letra
Certa
Sem porta
Aberta
Perdeu-se
No asfalto
Na rua
Deserta...

A carta
Se foi
Perdida
Dos homens
Na noite
Sem luz
Na rua
Sem gente
Como
Semente
Que não
Reproduz.

A carta
Da dor
E do sofrimento
Por um momento
Seguiu
No tempo
No instante
Infinito
Da madrugada.

Surgiu
Do nada
Ao nada
Se foi.

Quando?
Não sei
Pois quando
A encontrei
Já se
Desfolhava.

E o vento
A soprava
Com todo
Furor.
A carta
Triste,
Tristemente
Contava
A sombria
História
Que a vida
Levou...

Música | Miguel Rios y Joan Manuel Serrat - Cantares

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Opinião do dia – Norberto Bobbio*

Aqui preciso que a concepção negativa em Marx é ainda mais evidente se comparada com aquela extremamente positiva de seu grande predecessor e antagonista, Hegel. Quanto à relação entre sociedade civil e estado, a posição de Marx é antitética à de Hegel: para Hegel, o estado é “racional em si e para si”, o “deus-terreno”, o sujeito da história universal: em suma, o momento final do Espírito Objetivo; como tal, é a superação das contradições que se manifestam na sociedade civil. Para Marx, ao contrário, o estado é tão só o reflexo destas contradições, não sua superação, mas sua perpetuação. Não só para Hegel, resto, mas para a maior parte dos filósofos clássicos, o estado representa um momento positivo na formação do homem civil, O fim do estado é ora a justiça (Platão), ora o bem comum (Aristóteles), ora a felicidade dos súditos (Leibniz), ora a liberdade (Kant), ora a máxima expressão do ethos de um povo (Hegel). O estado, de praxe, é considerado como a saída do homem do estado de barbárie ou do estado de natureza caracterizado pela guerra de todos contra todos, como domínio da razão sobre a paixão, da reflexão sobre o instinto.

*Norberto Bobbio (1909-2004). “A Teoria das formas de governo”, p. 182, 1ª edição. Edipro, 2017 (tradução de Luiz Sérgio Henriques).

Josias de Souza - Huck encara sucessão de 2022 como ‘maratona’

Blog do Josias | Uol

Candidato não declarado ao Planalto, o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, compara seu projeto presidencial com uma corrida de longa distância. "Ele diz: 'Tenho que ter cuidado, porque isso é uma maratona", conta Roberto Freire, presidente do Cidadania, partido que ambiciona a filiação de Huck.

Numa maratona, o corredor precisa combinar força física e equilíbrio mental. Quem se deixa levar pela ansiedade, apressando demais o passo na largada, arrisca-se a perder o fôlego antes de cruzar a linha de chegada. "Ele está certo. Faltam três anos para a eleição. Não tem razão para se precipitar", aprova Freire.

No caso de Huck, a ausência de pressa não se confunde com inação. Ao contrário, ele segue uma estratégia metódica. Na prática, realiza uma campanha invisível. Percorre o país, reúne-se com lideranças comunitárias locais, apoia movimentos apartidários de formação política e articula-se com um seleto grupo de políticos e formuladores de políticas públicas.

Nos últimos meses, Huck conversou com políticos de quatro partidos: Cidadania, PSDB, DEM e Podemos. Em privado, alguns dos interlocutores declaram-se impressionados com a desenvoltura do personagem. Os mais impactados avaliam que o astro de TV reúne potencial para se firmar como novidade em meio à polarização que opõe Jair Bolsonaro e Lula.

• Alternativa à polarização
No inicio de novembro, Huck reuniu-se em Brasília com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Já havia conversado com o presidente da legenda, Antônio Carlos Magalhães Neto, prefeito de Salvador. Ao trocar ideias com os correligionários, Maia disse apostar que a sociedade vai se cansar da disputa entre polos extremos.

O DEM sonha com a candidatura de Maia, mantém um pé na canoa do governador paulista João Doria (PSDB) e tem três filiados na equipe ministerial de Bolsonaro. Mas o presidente da Câmara avalia que, se a economia não deslanchar, o eleitor pode encontrar em Huck a novidade que procurava ao optar por Bolsonaro na sucessão de 2018.

Roberto Freire faz a mesma aposta: "A sociedade vai fugir da polarização. Não dá mais para votar num candidato apenas para evitar o outro. Isso é um desastre para o país. É preciso construir uma alternativa que expresse o desejo de votar em algo mais construtivo. O Huck reúne as condições para representar esse desejo".

Merval Pereira - Um século antecipado

- O Globo

Nesses 11 meses de governo, Bolsonaro já quis se livrar de Moro, mas verificou que seria uma perda considerável para seu apoio popular

O que já circulava como rumor nos grupos políticos mais próximos do presidente Jair Bolsonaro, ontem virou realidade. Em entrevista ao Estadão, o articulador político do Palácio do Planalto, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, disse que uma chapa de reeleição com o ministro Sérgio Moro de vice “seria imbatível” na disputa de 2022. “Ganhava no primeiro turno, disparado”, avaliou.

Não é a primeira vez, antes de completar um ano de mandato, que Bolsonaro, que garantira na campanha ser contra a reeleição, aparece nas especulações de seu entorno, e nas suas próprias, como candidato. Mas, como costuma dizer o presidente da Câmara Rodrigo Maia, daqui a até 2002, em política, falta “um século”.

O tempo da política nada tem a ver com o calendário gregoriano, assim como o tempo da economia costumeiramente depende da situação política, e vice-versa. No momento, o governo Bolsonaro vive esse dilema. A perspectiva política é sombria em grande parte dos países, em especial aqui na América do Sul, e por isso o presidente orientou seu ministro da Economia Paulo Guedes a suspender temporariamente as reformas.

Carlos Andreazza - Paulo Guedes está irritado

- O Globo

Talvez já não se sinta um superministro

As revoltas recentes na América Latina, sobretudo no Chile, têm servido como desculpa para justificar tanto o ímpeto autocrático do bolsonarismo — o recrudescimento, por exemplo, do discurso que legitima algo como um novo AI-5 caso evento parecido ocorresse no Brasil — quanto as dificuldades do governo Bolsonaro, especialmente em matéria econômica.

Diga-se que ninguém se valeu mais deste recurso — da muleta do quebra-quebra chileno —do que Paulo Guedes.

As rebeliões no continente, aliás, iluminaram o que havia muito estava nu: que o ministro jamais poderia ser agente educador-moderador do presidente-imperador, e pelo fato de que o Posto Ipiranga sempre esteve muito mais próximo da mentalidade bolsonarista, com sua vocação para o conflito e a ruptura, que do lugar de equilíbrio institucional fetichizado por empresariado e mercado financeiro.

As rebeliões no continente — à luz do que manifestam nossos governantes — deveriam nos lembrar de que não há uma tradição democrática no Brasil, e que os limites definidos pela democracia tendem mais a incomodar que confortar. Guedes está irritado. Reage não se opondo — não raro oferecendo tortuosos argumentos — aos que surfam a tentação de atribuir os percalços da agenda reformista liberal ao que seriam excessos da democracia. Seria mais fácil com menos — já nos ensinou Carlos Bolsonaro.

Nas palavras de Guedes, somente na semana passada, as convulsões na América Latina tentaram autorizar uma aberração inconstitucional — excludente de ilicitude em operação de Garantia da Lei e da Ordem — e aliviar a carga de uma constatação: a de que seu programa de reformas estruturais parou. Por ordem do presidente: parou.

Edmar Bacha* - Liberalismo tropical

- O Globo

Não há como arguir que a abertura comercial deva ser feita apenas depois da redução do custo Brasil

Em reunião com representantes da indústria química, o ministro Paulo Guedes disse que “não vamos soltar a indústria estrangeira em cima da indústria nacional antes de nós simplificarmos impostos... É uma abertura gradual... e vai ser feita em cima de energia barata, de custos de logísticas mais baratos”.

Em artigo no GLOBO (27/11), Rubens Penha Cysne adverte que “determinadas reformas podem sempre ser contraproducentes se implantadas na ausência de outras que naturalmente as complementem. Por exemplo, abertura econômica sem que se complete minimamente o dever de casa da infraestrutura e do sistema tributário”.

O que surpreende é que tanto Guedes como Cysne defendem a abertura, porque sabem que ela é essencial para o Brasil se tornar um país rico. Não obstante, no atual governo ela vai ficando para as calendas, para quando tivermos uma infraestrutura supimpa e um sistema tributário de primeiro mundo.

Essa postura não tem respaldo nem na teoria nem na prática. Tomemos a questão da deficiência da infraestrutura, parte integrante do “custo Brasil”, que faria os preços dos produtos brasileiros se tornarem maiores dos que os de nossos parceiros comerciais. Se isso fosse verdade, e houvesse abertura, raciocinando por absurdo, o Brasil pouco exportaria, e haveria uma avalanche de importações.

José Casado - Jair Bolsonaro triplica a aposta

- O Globo

Presidente usa os índios num jogo institucional de alto risco

Jair Bolsonaro resolveu flertar com a possibilidade um choque com o Supremo e o Congresso. Simultaneamente. Insiste em testar os limites institucionais usando, como instrumento, a desmontagem do sistema jurídico de proteção aos direitos da população indígena.

É sua terceira tentativa, em 11 meses, de reescrever na prática o trecho da Constituição que reconhece aos índios “organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.

No primeiro dia de governo, Bolsonaro transferiu ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos a gestão dos direitos indígenas. Repassou a Funai e a demarcação de terras para a Agricultura. Fez isso numa Medida Provisória (nº 870).

Bernardo Mello Franco - Um símbolo da desigualdade

- O Globo

Em 2004, uma foto aérea transformou Paraisópolis em símbolo da desigualdade brasileira. Quinze anos depois, a favela passa a ser marcada pela violência policial

De um lado do muro, um edifício de luxo, com duas quadras de tênis e uma piscina por andar. Do outro, dezenas de barracos com tijolos aparentes, espremidos pela geografia caótica das favelas.

Em 2004, a foto de Tuca Vieira transformou Paraisópolis num símbolo da desigualdade brasileira. Quinze anos depois, a favela paulistana passa a ser associada à violência policial na periferia.

Uma operação da PM na madrugada de domingo terminou com nove jovens mortos. As vítimas tinham entre 14 e 23 anos. Estavam num baile funk, interrompido com bombas de gás e balas de borracha.

Os exames de necropsia ainda vão verificar se os jovens morreram pisoteados, como sustenta a versão oficial. Mesmo assim, já se sabe que a tragédia foi provocada por uma ação desastrada, que mostrou despreparo e truculência da polícia.

O baile reunia cerca de 5 mil pessoas. A pretexto de prender dois suspeitos, os PMs provocaram pânico e encurralaram a multidão. Quem tentou fugir do tumulto foi agredido com golpes de cassetete. Moradores filmaram o espancamento de jovens caídos.

Míriam Leitão - Por ironia, inimigo dos EUA somos nós

- O Globo

O ataque de Trump ao Brasil é um choque de realidade para o governo Bolsonaro. Países têm interesses, e não amigos ideológicos

O setor do agronegócio dos Estados Unidos é o que mais está sentindo o efeito da guerra comercial criada pelo presidente Trump contra a China. Por isso, ontem, ele inventou um inimigo externo, tática que sempre usa para camuflar seus erros. Desta vez, o inimigo somos nós. E conosco, por ironia, está a Argentina. Os dois países estariam, na delirante explicação de Trump, desvalorizando a moeda deliberadamente para aumentar suas exportações. E de novo mira no aço e no alumínio que já enfrentaram barreiras no governo dele.

Esse é o estilo Trump. Ele cria uma crise contra outros países, dá aos produtores americanos a impressão de que está agindo, e depois faz da retirada do problema, que ele mesmo criou, a sua vitória. Caberá à diplomacia brasileira defender os interesses do Brasil. Ela poderá constatar neste caso o que tem sido dito por todos os analistas que entendem de diplomacia e de comércio exterior, sobre a natureza das relações internacionais.

O que Trump mostrou ontem ao governo Bolsonaro é que países têm interesses e não amigos ideológicos. A resposta de Bolsonaro de que ligaria para ele porque são amigos é patética, tanto que no final do dia já tinha recuado. É preciso ter uma resposta formulada de maneira estratégica. Trump tudo faz de caso pensado e numa entrevista, depois dos ataques matinais no Twitter, voltou a falar contra o Brasil, argumentando que a desvalorização cambial estaria sendo “muito injusta para os nossos industriais e muito injusta para os nossos fazendeiros”.

Luiz Carlos Azedo - Tragédia na vida banal

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“A repressão policial às manifestações culturais da periferia não é eficaz, apenas amplia a base social do crime organizado. Se fosse, não existiria mais pancadão em São Paulo”

Notável geógrafo, o falecido professor Milton Santos era um observador arguto da vida banal nas periferias do mundo, ou seja, o dia a dia dos cidadãos afetados pela globalização, com suas desigualdades e grande exclusão. Dedicou a vida a analisar sua época, com um olhar crítico sobre o atual modelo de relações internacionais, constituído entre 1980 e 1990, e que está sendo posto em xeque tanto no centro como nas periferias do mundo.

Sua geografia desenvolveu novos conceitos sobre espaço, lugar, paisagem e região, nos quais o fator humano tem um papel central. Sempre pôs uma lupa no uso político dos territórios para compreender o desenvolvimento. Teria hoje 93 anos se fosse vivo e, com certeza, do alto da pilha dos seus 40 livros publicados e com o prestígio de doutor honoris causa em mais de 20 universidades do mundo, seria mais uma voz a subir o tom diante da tragédia deste fim de semana em Paraisópolis, a maior favela de São Paulo.

Dizia que a captura das políticas públicas pelos grandes interesses privados acaba por deixar ao relento o cotidiano da população de baixa renda, que se vê obrigada a buscar alternativas de sobrevivência numa espécie de beco sem saída social, porque esses interesses estavam mais voltados para o lucro do que para os objetivos das políticas urbanas e sociais. Segundo ele, a vida banal é desprezada pelo poder público e, no espaço urbano onde essa ausência é maior, surgem as soluções improvisadas, as transgressões e a economia informal (o gás, a gambiarra, o gatonet, a proteção a agiotagem etc.), que muitas vezes acaba capturada pelo crime organizado, que achaca, chantageia e mata, seja ele o tráfico de drogas, sejam as milícias.

Ricardo Noblat - Doria, um governante sem compaixão

- Blog do Noblat | Veja

A chacina de Paraisópolis
A falta de experiência política foi um trunfo usado por João Doria para se eleger prefeito e governador de São Paulo em menos de quatro anos. Pois ela agora se voltou contra ele depois da chacina que deixou nove mortos e 12 feridos na favela de Paraisópolis, a maior da capital paulista, onde moram cerca de 100 mil pessoas.

Somente um político amador, e também insensível, agiria como ele agiu e diria o que ele disse quando ainda jaziam insepultos os corpos dos jovens entre 14 e 23 anos que tentavam escapar com vida da fúria de policiais despreparados. Ou melhor: da fúria de policiais preparados para bater e matar se necessário ou não.

Ao invés de reagir com indignação ao que aconteceu e que poderá lhe custar a carreira, Doria disse sobre a chacina, uma espécie de mini Carandiru que manchará sua biografia para sempre:

“A letalidade foi provocado por bandidos e não pela polícia, tanto que o baile continuou. Nem deveria ter sido realizado. A polícia segue rigorosamente todos os protocolos. Não significa que seja infalível, mas a política de segurança pública não vai mudar.”

E foi em frente no mesmo tom:

Paulo Hartung* - A reforma do Estado e a refundação do Brasil

- O Estado de S.Paulo

É preciso reconstruir a nossa máquina governativa, em todos os seus estratos

A impositiva mudança de rumo na História do Brasil passa necessariamente pela refundação do Estado. Para entrarmos no trilho que nos poderá levar a um caminho de prosperidade compatível com nossas potencialidades é preciso reconstruir a máquina governativa, que, ao longo dos séculos, dá prioridade ao patrimonialismo e ao privilégio, desviando-nos do caminho da igualdade de oportunidades, da inclusão social e do desenvolvimento socioeconômico sustentável.

A dramática realidade de desigualdade e baixa mobilidade social remonta a uma sociedade constituída sobre o colonialismo e o escravagismo. Construímos um país que ostenta distância abissal entre quem tem acesso à instrução e aos bens e serviços do progresso e os empobrecidos que quase nada têm para subsistir e cuja possibilidade de ascender a outra posição socioeconômica é quase nula.

Isso tem muito que ver com a estrutura de Estado que vem sendo historicamente montada. Para não nos afastarmos muito na linha do tempo, basta olhar para o getulismo, a ditadura militar e a Constituinte de 1988 e perceberemos o vulto fortalecido de um Estado concentrador de renda e de oportunidades, e perversamente promotor de desigualdades.

Eliane Cantanhêde - Infernópolis

- O Estado de S.Paulo

Nove jovens mortos. Mas, com o excludente de ilicitude, vai ficar ainda mais macabro

Ao se transformar em Infernópolis, Paraisópolis confirma várias certezas num momento em que os governos e um lado doentio da sociedade aprovam e estimulam armas, polícias violentas e matanças de criminosos a qualquer custo. Não faltam “cidadãos do bem” pregando, sem um pingo de pudor, que “bandido bom é bandido morto”. Mas não são os bandidos, ou não só eles, que estão morrendo.

A palavra de ordem vem do próprio presidente da República e dos seus filhos, vai descendo para os governadores, atinge as secretarias de Segurança e, claro, chegam à ponta: os próprios policiais, que são pagos para defender vidas humanas e acabam virando ameaças à sociedade. Não raro, cidadãos e cidadãs acabam tendo tanto medo do policial fardado quanto do bandido que surge do nada.

As investigações continuam para estabelecer responsabilidades e circunstâncias, mas o fato nu, cru e cruel em Paraisópolis é que nove jovens, entre 14 e 23 anos, morreram de maneira estúpida e inadmissível numa invasão policial num baile funk de fim de semana. Mais uma vez, como já é corriqueiro no Rio, por exemplo, nove famílias, uma comunidade, uma cidade, um Estado e um país sofrem a dor da morte, da violência, do descaso com a vida. E por quem? Por agentes do Estado, pagos inclusive pelos pais, mães, amigos e vizinhos das vítimas de Paraisópolis.

Ana Carla Abrão* - Democracia e justiça social

- O Estado de S.Paulo

Se por um lado os governos petistas passaram mais de uma década distribuindo benesses particulares – de forma mais ou menos republicanas –, o presidente Bolsonaro, orgulhoso representante da direita, hoje vacila em avançar nas correções

Há dois temas que deveriam ser capazes de unir os extremos políticos de um país como o Brasil: o combate às desigualdades sociais e a defesa da democracia. Afinal, são esses os alicerces para que justiça social e garantia das liberdades e direitos individuais estejam sempre protegidos. Mas nem esses, que são conceitos universais, têm gerado a convergência necessária para o nosso avanço.

Justiça social não combina com defesa de grupos específicos de interesse e não conversa com a proteção de privilégios – nem à direita e nem à esquerda. E se houve algo a que o nosso país se acostumou ao longo dos últimos anos foi com uma perversa combinação de clientelismo e patrimonialismo, extraindo o pior do que um Estado pode ser para os seus cidadãos. Essa combinação gerou um Estado ineficiente, pouco efetivo e que reforça as diferenças econômicas e sociais e coloca a população refém do seu próprio governo. Nesse contexto, as forças políticas tendem a ceder às pressões de alguns grupos e a defender políticas públicas e práticas que pouco fazem pelo interesse geral, mas muito agradam a alguns poucos privilegiados. Reformas estruturais são relegadas e condenam o País a um crescimento medíocre. Mas garantem-se votos para as próximas eleições, reforçando o mesmo ciclo.

Pedro Fernando Nery* - Inflacionista nutella

- O Estado de S.Paulo

Enquanto os mais ricos se protegem com aplicações financeiras, os mais pobres não possuem instrumentos para se defender da 'ditadura' da hiperinflação; a concentração de renda piora

Chama-se Teoria Monetária Moderna (MMT, na sigla em inglês). Desconhecida até pouco tempo, ganhou notoriedade por parlamentares mais à esquerda no Partido Democrata americano, como Ocasio-Cortez e Bernie Sanders. Oferece a prescrição dos sonhos para qualquer político: em linhas gerais, o governo poderia gastar sem precisar aumentar impostos. O lema é que governos jamais vão quebrar, se imprimem a própria moeda.

É claro que a modinha já chegou aqui e na semana passada desembarcou no Brasil Randall Wray, professor expoente da MMT. Criticou as políticas do atual governo, mesmo trazido por um órgão federal (a Fiocruz, há muito caixa de ressonância da pauta do funcionalismo). Também participou de evento organizado por sindicatos de servidores.

O leitor pode se espantar com a autodenominação “moderna” da teoria. Afinal, o teste da impressora é um pelo qual o País já passou diversas vezes na tentativa de financiar o Estado de forma indolor. A emissão de moeda e a hiperinflação desorganizava a economia e deixava os miseráveis mais miseráveis. O próprio Wray admitiu no tour brasileiro que a MMT não traz nada de novo e faz a ressalva de que a emissão pode ter como consequência a inflação, mas é difícil conciliar os alertas tímidos com os slogans mais animados do movimento.

Wray veio ensinar a missa ao padre. Vá lá, a simpatia pela MMT na política americana é compreensível para o país que emite dólar, tem histórico de juros baixos e não viveu em décadas recentes episódios de hiperinflação. Aqui, não faz sentido ignorar o problema fiscal e cair no conto de que a impressora resolva os problemas.

De fato, recebeu críticas da esquerda nesse sentido. Na revista Jacobin, o jornalista Doug Henwood apontou neste ano que a MMT está enraizada em um contexto de país rico e na noção do excepcionalismo americano: “Seria triste ver a esquerda socialista, que parece mais forte do que esteve em décadas, cair nesse óleo de serpente. É um fantasma, um sonho febril e imperial, não uma política econômica séria”.

Anjana Ahuja* - Mudanças climáticas em ponto crítico

- Valor Econômico

Estamos caminhando para a transformação do planeta em uma estufa

Quatro anos atrás foi Paris; nas próximas duas semanas será Madri. O cenário muda, mas a mensagem não: o mundo está ficando sem tempo para frear uma mudança catastrófica no clima. Os esforços feitos para honrar a promessa de Paris 2015 de limitar o aumento da temperatura média global a menos de 20 C, preferencialmente 1,5º C, acima da média pré-revolução industrial, têm sido “totalmente insuficientes”, segundo o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). António Guterres, num pronunciamento feito na Espanha antes do encontro CoP-25 sobre o clima, para negociar o sistema de negociação de emissões, alertou que a Terra caminha para um “ponto sem retorno”. Ele culpou os políticos por continuarem subsidiando os combustíveis fósseis e se recusando a taxar a poluição.

Talvez Guterres tenha lido um artigo publicado na “Nature” na semana passada, especulando que o planeta pode já ter chegado a um estado crítico de aquecimento e que agora estaria condenado, climaticamente falando. A análise de “nove pontos climáticos críticos” conclui que estamos numa “emergência planetária” e possivelmente caminhando para a transformação do planeta numa estufa.

Algumas mudanças climáticas, como o derretimento descontrolado das camadas de gelo, eram historicamente previstas para ocorrer na eventualidade de as temperaturas globais médias subirem 5º C, mas modelos mais recentes reduziram parte dessas margens para algo entre 1º C e 2º C.

Andrea Jubé - As ‘fake news’ e os dois coelhos da cartola

- Valor Econômico

Depoimento de Joice pode ser divisor de águas na CPMI

No dia 26 de junho, um falso portal de notícias publicou uma falsa entrevista do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), onde ele atacava o governo e o presidente Jair Bolsonaro com frases grosseiras e ofensivas.

Foi uma operação sofisticada, muito além do mero impulsionamento de notícias falsas. Antes de publicar o conteúdo fraudado, o portal fantasma (www.portal79.news) funcionou durante um mês, com o mesmo logotipo e reproduzindo integralmente matérias do site original, o Portal 79 (www.portal79.com.br), a fim de imprimir credibilidade ao material.

Entretanto técnicos do site verdadeiro haviam detectado a clonagem desde o início e acompanharam diariamente os desdobramentos da fraude. Quando a entrevista falsa foi ao ar, o diretor de redação do Portal 79, Higor Trindade, acionou o senador. Foi instaurado inquérito na Polícia Federal. A investigação corre em sigilo, mas os investigadores já descobriram que a página fantasma que saiu do ar estava hospedada na Romênia.

Alessandro Vieira diz que o objetivo da fraude era criar desconforto entre ele e o governo e setores da direita. Ele se declara “crítico ao governo”, mas jamais daria as declarações de baixo calão que lhe foram atribuídas.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro apequena a Presidência

- Folha de S. Paulo

Defeito primordial do mandatário é a falta de comprometimento com a democracia

Discordo da avaliação do secretário de Comunicação Social da Presidência, Fábio Wajngarten, expressa em artigo publicado na segunda (2). O editorial da Folha “Fantasia de imperador” não desrespeitou a figura institucional do presidente da República; é Jair Bolsonaro quem apequena o posto.

Seu defeito primordial é a falta de comprometimento com a democracia, que fez questão de expressar antes, durante e depois da campanha que o sagrou presidente. É meio assustador que os brasileiros tenham escolhido para liderá-los um sujeito que defendeu a tortura e o fuzilamento de adversários, mas esse é um efeito adverso possível da soberania popular. Temos de viver com isso.

Ao defeito primordial somam-se vários outros. Bolsonaro parece incapaz de distinguir entre o público e o privado, comportando-se como se a Presidência fosse uma extensão de sua casa e não um Poder da República, limitado por outros Poderes, por princípios constitucionais e por leis. Embora não chegue a ser surpreendente, é chocante a forma como ele instrumentaliza o cargo para desferir ataques a desafetos políticos e à imprensa.

Pablo Ortellado* - Até quando?

- Folha de S. Paulo

Polícia Militar de São Paulo adota postura corporativa tentando proteger policiais que podem ter cometido crimes

Ao que tudo indica, na madrugada de domingo, a Polícia Militar de São Paulo atacou de surpresa uma festa de rua em Paraisópolis com mais de 5.000 pessoas. Sem emitir aviso, policiais cercaram e atiraram bombas de estilhaço e balas de borracha sobre uma multidão desavisada de adolescentes que se divertiam numa noite de sábado.

Os jovens fugiram desesperados por escadarias, vielas e becos e foram encurralados e agredidos por policiais.

Tentando fugir da violência arbitrária da polícia, cinco adolescentes e quatro jovens morreram pisoteados: Bruno Gabriel dos Santos, 22, Denys Henrique Quirino da Silva, 16, Dennys Guilherme dos Santos Franco, 16, Eduardo da Silva, 21, Gabriel Rogério de Moraes, 20, Gustavo Cruz Xavier, 14, Luara Victoria Oliveira, 18, Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16, e Mateus dos Santos Costa, 23.

A Polícia Militar mais uma vez se fechou em movimento de autoproteção corporativa. Em movimento reflexo negou de pronto as acusações e se apressou em proteger os pares.

Joel Pinheiro da Fonseca* - Por uma literatura verdadeiramente democrática

- Folha de S. Paulo

Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto

Entre a possível volta do AI-5 e a escolha de Elizabeth Bishop como homenageada da Flip, difícil saber qual o mais grave. Bishop, afinal, nem brasileira é. E, como se isso não bastasse, defendeu o golpe militar em uma carta. Se esse é o tipo de escritor que a esquerda democrática celebra, que esperança teremos?

Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto, pois a sensibilidade de um povo é formada pelas obras de arte. Quisera eu que o problema fosse só a Bishop. Examinando literatura brasileira, contudo, constato que não se salva um.

Guimarães Rosa foi outro perigosamente circunspecto quanto à ditadura militar. Para completar, em sua obra maior, promove a homofobia ao “salvar” Riobaldo da homossexualidade com a revelação do sexo de Diadorim. Nelson Rodrigues, então, foi apoiador explícito do regime militar. O que de bom pode sair de uma mente dessas?

Voltemos ao “clássico” Machado de Assis. Agora celebrado como um “autor negro”, ele foi na verdade alguém que escondeu sua negritude, buscando incorporar-se à elite branca. Teve ainda o despautério de, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, colocar o ex-escravo Prudêncio açoitando um escravo seu; falsa simetria criada para igualar opressores e oprimidos.

O que a mídia pensa – Editoriais

Nova ameaça do amigo Trump – Editorial | O Estado de S. Paulo

Guia espiritual, modelo ideológico e inspirador diplomático do presidente Jair Bolsonaro, o presidente norte-americano, Donald Trump, voltou a ameaçar o Brasil com barreiras à importação de aço e alumínio. Segundo ele, o governo brasileiro vem promovendo “maciça desvalorização” de sua moeda e prejudicando, com esse expediente, o comércio exterior dos Estados Unidos. A acusação e a ameaça valem também para a Argentina. A depreciação do real e do peso barateia produtos brasileiros e argentinos, facilitando uma competição desleal com os industriais e agricultores americanos. Essa é a essência do argumento. Teria sentido se a acusação fosse verdadeira. Mas chega a ser uma perversão acusar os governos de Brasília e de Buenos Aires pela desvalorização de suas moedas nacionais. Trata-se de evidente fenômeno de mercado, como percebe qualquer pessoa razoavelmente informada.