"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)
O filme A Última Casa atingiu o nível de
milhões de expectadores ao redor de um mundo em que, assim como a casa em
ruínas da família Delgado, a Democracia está com riscos de desabar em muitos
casos. A volta da incerteza sobre a Democracia está acompanhando as incertezas
sobre o futuro da humanidade. O suspense está no ar e percebemos que esse é o
gênero que muito tem animado o olhar dos jovens na atualidade. Muito diverso do
suspense-denúncia da ganância do “livre mercado” que observamos em dois filmes
de Steven Spielberg: “Tubarão” (1975) e “Jurassic Park: O Parque dos
Dinossauros” (1993). Nesses dias de iliberalismo político observamos os jovens
testando suas ansiedades em filmes de roteiros sombrios, como que se estivessem
antevendo um tragédia que não se sentem capazes de evitar. Isso exposto, nos
faz pensar de como o filme “A Odisseia” (2026) ganhou um profundo silêncio
entre os jovens.
Não podemos deixar despercebido que a família
Delgado é resultado do enlace de imigrantes nos Estados Unidos onde Jason (nome
que nos faz lembrar a sequência de filmes de terror “Sexta-feira 13”, iniciada
em 1980) é um Engenheiro desempregado que está “afogado” em dívidas. Greta Lee
– celebrizada por sua atuação no filme romântico “Vidas Passadas” (2023) – faz
a personagem materna do filme, e pouco se sabe dela além de sua capacidade em
cuidar dos seus familiares com o reaproveitamento das sementes. Não há nenhuma
menção de como os dois se conheceram. Isso não é importante num mundo em que as
relações sociais foram transferidas para as telas dos smartphones. Os dois
filhos vivem a clássica relação do irmão mais velho e a irmã mais nova, mas o
evento que faz iniciar a trama os faz repensar essa relação ao longo do filme.
Trata-se de uma desolada classe média
norte-americana em que os vizinhos não se comunicam e a Casa seria um refúgio
de segurança e manifestação de seu individualismo. Nessa sociedade fragmentada,
o sistema político funciona como se fosse um condomínio de casas, mantendo a
sociedade isolada. E o evento que causa pânico na família Delgado aprisiona
todos no isolamento como se fosse uma forma de manter a resistência. Nos
primeiros momentos aparece uma frase das “Teorias Conspiratórias”: “Isso é
coisa do Governo”. Mas uma criança diz: “Parece que querem nos punir”. Como se
houvesse uma divindade nos julgando em algum lugar.
O confinamento social nos reinsere a inversão
do “Mito da Caverna” de Platão (428 A.C. – 347 a.C.). Segundo o filósofo grego,
presos acorrentados numa caverna achavam que as sombras refletidas na parede da
mesma eram monstros reais. No filme, as sombras eram monstros reais enquanto
que a família estava presa numa fantasia de harmonia. “Vamos sobreviver”. Como
se esse fosse o legado futuro da humanidade que desfere um arrepio diante das
palavras como Democracia e tolerância política. Além disso, muitos na juventude
não reconhecem na sabedoria e no método científico uma oportunidade de sair do
confinamento de suas realidades. Os jovens desejam os vazios de sabedoria dos
pátios escolares ao contrário da persistência da “pesca” de animais, que Jason
empreende no filme em uma sequência de experiências. Temos um debate sobre o
conteúdo que se deve estudar numa realidade atípica, ou seja, “vamos aprender
algo que vocês precisam saber para o usarem no futuro”: limpar peixes.
Os pescadores foram convidados para seguir
Jesus Cristo. E o engenheiro revela que um dia foi um pescador. O peixe está na
simbologia do cristianismo assim como a compaixão. Os dois elementos estão no
filme de uma forma que talvez poucos tenham percebido, uma vez que uma leitura
sobre um filme nos faz muito pensar sobre os malefícios que desejam para o
sistema democrático, principalmente através de atalhos por experiências de
“democraduras” (perfis autoritários com legitimidade no voto).
Neste sentido, provavelmente essa seja a explicação da aparição do Leviatã no filme. Então, o livro de Tomas Hobbes (1588 – 1679) emerge das profundezas do mar de nossas considerações como se estivesse a clamar por mais atenção. Hobbes escreveu Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil (1651) em plena Guerra Civil Inglesa, o que nos instiga a pensar sobre um contexto de muitas conjecturas sombrias no debate do sistema político. Dividido em quatro partes, nos chama a atenção que a Terceira Parte se chame “Do Estado Cristão” que antecede “Do Reino das Trevas”. Uma suposta explicação para um desfecho do filme numa bela crítica aqueles que observam pontos positivos numa suposta “democracia imediata e polarizante”.
*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.

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