domingo, 17 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

G20 é oportunidade para revisão na política externa

O Globo

Encontro não trará anúncios de vulto capazes de projetar Brasil — e, mesmo ausente, Trump fará sombra ao evento

O encontro dos líderes do G20 no Rio de Janeiro será uma espécie de teste para a política externa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o primeiro dos dois eventos globais sediados pelo Brasil neste mandato — o outro será a 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), programada para 2025 em Belém. Com a cúpula das 20 maiores economias do mundo e convidados, Lula recepcionará representantes de 40 países. Entre eles, os líderes das duas maiores potências do planeta: o americano Joe Biden e o chinês Xi Jinping. O encontro traz um sinal positivo de retorno do Brasil à cena global e lançará os holofotes sobre o país. Ao mesmo tempo, também evidencia as limitações da diplomacia petista. Não há como evitar concluir que as pretensões brasileiras a exercer maior protagonismo se frustraram com a vitória de Donald Trump nas eleições americanas. Mesmo ausente, Trump certamente fará sombra sobre as discussões.

Compensações sem soluções - Merval Pereira

O Globo

Para Mangabeira Unger, reduzir a carga horária, mesmo que sem reduzir o salário, não vai ajudar a melhorar a vida do trabalhador, muito menos aumentar a produtividade do brasileiro

O debate sobre a carga de trabalho no Brasil surgiu ao mesmo tempo em que o impacto da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos animou a direita brasileira e internacional. Pode não ter sido intencional, mas a deputada do PSOL que propôs a medida demonstra mais uma vez que a esquerda pensa mais em medidas compensatórias para amenizar o cotidiano dos menos favorecidos do que em estímulos para que esses mesmos tenham perspectivas de um futuro melhor.

Reduzir a carga horária, mesmo que sem reduzir o salário, não vai ajudar a melhorar a vida do trabalhador, muito menos aumentar a produtividade do brasileiro. Essa é uma nova iniciativa do que o ex-ministro Mangabeira Unger, professor emérito de Harvard, chama de “pobrismo”, como as políticas sociais da Bolsa Família, uma das facetas da vida econômica brasileira, em contraposição ao “rentismo financeiro”.

O Coro dos contentes - Bernardo Mello Franco

O Globo

Entidades fazem terrorismo econômico para barrar debate sobre escala 6x1

A Confederação Nacional do Comércio adverte: reduzir a jornada de trabalho pode provocar uma “onda de demissões” no país.

Desde a semana passada, entidades patronais fazem alertas, ameaças e previsões catastróficas. O objetivo é interditar o debate sobre o fim da escala 6x1, em que o trabalhador tem apenas um dia de descanso por semana.

O presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Paulo Solmucci, classificou a proposta como uma “ideia estapafúrdia”. “Já estamos com dificuldades enormes com trabalhadores”, esbravejou.

O presidente da Federação do Comércio de Minas Gerais, Nadim Donato, projetou uma quebradeira de pequenas e médias empresas em todo o país. “Essa mudança terá consequências graves, fazendo com que elas fechem as portas”, garantiu.

O surto terrorista está aí - Elio Gaspari

O Globo

Em dezembro de 2022, George Washington de Oliveira Souza pretendia explodir um caminhão de combustível perto do aeroporto de Brasília. Esse cidadão havia comprado seis armas de fogo e disse que tinha explosivos guardados. Durante os primeiros dias de 2023, convocava-se gente para o que seria a “Festa da Selma”, em Brasília. A 8 de janeiro, centenas de pessoas invadiram e depredaram o Supremo Tribunal Federal, o Congresso e o Palácio do Planalto.

No início do segundo semestre deste ano, pipocaram pelo país incêndios em matas, e a Polícia Federal abriu pelo menos 85 inquéritos para investigar suas causas criminosas.

Finalmente, na quarta-feira passada, Francisco Wanderley Luiz atirou uma bomba caseira diante do Supremo Tribunal Federal (STF) e em seguida explodiu-se. O cidadão tinha militância política e em 2020 disputou uma cadeira de vereador em Rio do Sul (SC), conseguindo 98 votos.

Há um surto terrorista no país. À primeira vista, é difuso. Francisco Wanderley, por exemplo, seria um “lobo solitário”. As investigações dirão se tinha cúmplices.

EUA sob Trump serão animal perigoso – Dorrit Harazim

O Globo

Gente minimamente sensata faria bem em manter distância dos escolhidos pelo presidente eleito para o primeiro escalão

Estonteado desde a derrota de 5 de novembro, o Partido Democrata americano nem sequer teve tempo de lamber as feridas pela perda tríplice da Casa Branca, da maioria no Senado e da maioria na Câmara. A cada dia Donald Trump oblitera um pouco mais os vestígios restantes da infeliz candidatura de Kamala Harris. O tratamento de choque é ardilosamente calibrado. Todo dia o ex e futuro presidente anuncia novo indicado para compor o primeiro escalão de seu governo.

A lista inicial é puro-sangue, de lealdade irrestrita e obrigatória ao chefe. De resto, os indicados são ecléticos, e pessoas minimamente sensatas fariam bem em deles manter distância. A seguir, algumas pinceladas, começando pelo mais polêmico e insustentável dentre eles — Matt Gaetz, designado por Trump para procurador-geral/ministro da Justiça dos Estados Unidos.

O Brasil deixará legado no G20 - Míriam Leitão

O Globo

A presidência do Brasil vai deixar algo concreto para os participantes: um instrumento estruturado na luta contra a fome e a pobreza

A presidência do Brasil no G20 vai deixar um legado concreto. O mais importante deles é a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que está formatada de maneira bem objetiva. Serão mobilizados recursos que já existem para financiar a implantação de grandes programas com eficiência comprovada. A assistência técnica será dada por países em desenvolvimento que implantaram esses programas com sucesso. Um deles é o Bolsa Família do Brasil, outro é o programa de microcrédito de Bangladesh, voltado para as mulheres. Há outros. E para dar mais concretude à Aliança, haverá um secretariado na FAO, de 2025 a 2030, para cuidar desse assunto. A Aliança será lançada nesta segunda, o primeiro evento da cúpula, quando se saberá a lista final de quem aderiu.

Trump joga Lula nos braços de Xi Jinping - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Vitória do republicano nas eleições americanas aproxima o petista do presidente chinês. Reposicionamento deve ficar claro em reunião do G20

Quem quiser que se iluda. A eleição de Donald Trump empurra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma maior aproximação com a China de Xi Jinping, que está de braços abertos para o colega brasileiro. Não é preciso dar um cavalo de pau na política externa brasileira para isso — quem dará são os Estados Unidos. E, também, não se trata de uma opção ideológica do governo brasileiro, mas de uma decorrência natural e pragmática das relações comerciais entre esses três países e do lugar que o Brasil ocupa na geopolítica mundial, em especial na América Latina, após as eleições norte-americanas.

Esse reposicionamento deve ficar evidente na reunião do G20, o grupo dos países mais ricos do mundo, do qual o Brasil faz parte. A eleição de Trump frustra os avanços previstos para o encontro, como a assinatura dos acordos para o combate à fome no mundo e o debate sobre a taxação dos muito ricos. Essas propostas foram pactuadas entre Lula e o presidente Joe Biden, que chega ao encontro como “pato manco”, enquanto Xi Jinping se torna a principal estrela da reunião no Rio de Janeiro, que começa amanhã.

A esquerda não é woke - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro sustenta que pautas identitárias parecem de esquerda, mas na verdade foram colonizadas por ideologias de direita

"A Esquerda Não É Woke", de Susan Neiman, tenta pôr um pouco de ordem filosófica à barafunda conceitual que se tornou o mundo moderno. Neiman critica as ideias que aparecem sob o rótulo de pensamento woke, por vezes também chamado de identitarismo, mas o faz com uma perspectiva de esquerda raiz (ela se declara socialista), o que a distingue de autores que foram por esse mesmo caminho com uma pegada mais conservadora (James Lindsay e Helen Pluckrose) ou liberal (John McWhorter e Yascha Mounk).

Para Neiman, o, vá lá, wokismo parece de esquerda porque surgiu de emoções originalmente ligadas a essa corrente política, como empatia para com os marginalizados, indignação em relação ao destino dos oprimidos e vontade de fazer justiça. Mas emoções sem um pouco de razão para ordená-las são um perigo.

Terrorista do Jair - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Francisco deu a vida para tentar ressuscitar o ciclo de violência que Bolsonaro armou no Planalto em 2022

Um terrorista do Jair se explodiu tentando levar junto o Supremo Tribunal Federal. Seu nome era Francisco Wanderley Luiz.

Alguém pode dizer: "não era um bolsonarista, era um maluco". Mas isso supõe uma separação muito mais clara entre essas duas categorias do que a que se vê nos fatos.

O guru do bolsonarismo era o Olavo, que não sabia se a Terra era redonda e jurava que a Escola de Frankfurt havia composto as músicas dos Beatles. Os bolsonaristas nos deram os tuítes do Carluxo, o ministro da Cultura que plagiava Goebbels, os irmãos Weintraub, Sara Winter, Padre Kelmon, fanfics de pedofilia da Damares, cloroquina para ema, a teoria de que vacinas causariam Aids, o Partido Novo.

Trump nomeia birutas, vigaristas e Musk – Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Indicações incluem um ministro da Defesa da Fox News e outro que brinca com urso morto

Donald Trump indicou Robert F. Kennedy Jr para o departamento (ministério) da Saúde. Kennedy é antivacina e difunde teorias da conspiração variadas. Em 2014, largou um cadáver de filhote de urso no Central Park, Nova York. Achou divertido. Dizia ter encontrado o bicho por aí, atropelado. Talvez o comesse.

Kennedy tem ficha extensa de biruta. É advogado, ambientalista. Foi candidato independente a presidente neste ano. Era democrata. É filho de Bobby Kennedy, senador assassinado em 1968. É sobrinho de John Kennedy, assassinado em 1963.

A inutilidade de leis sem o consenso das regras - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Em paralelo à destruição institucional, todo meliante cobiça assento legislativo

"O Brasil já se encontra em estado de máfia", diz o secretário nacional da Segurança Pública. A frase é tão alarmante quanto a do novo presidente do Superior Tribunal de Justiça: "O maior incentivo ao desmatamento no Brasil é a desmoralização das forças da lei". Esta tem alcance prático e teórico. O Ibama aplicou 57,8 mil penas por crimes ambientais nos últimos cinco anos, mas só 8,8% foram pagos. Entre este ano e 2026, 9.100 punições completarão cinco anos. Isso significa que prescrevem, cerca de R$ 2,4 bilhões não mais precisarão ser pagos. Já se foi o ministro da motosserra, o Freddy Krueger da mata, mas a boiada continua passando impune.

Um fantasma sobre o G-20 - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Aliança de Trump, Bolsonaro, Milei e Trump: tudo a ver com explosões no STF bem o perigo que representam China, Rússia, Irã e os grupos terroristas”. Ficou um cheiro de ameaça no ar

No Brasil, o esforço do governo Lula é para prestigiar a rede de comando legalista das Forças Armadas, de um lado, e cobrar a responsabilidade de militares golpistas, de outro. Nos EUA, Donald Trump sinaliza o oposto: punição aos militares liberais, pró-democracia, direitos humanos, meio ambiente e minorias, e premiação para radicais e retrógrados. Lula precisa do trigo, Trump investe no joio.

Trump quer exibir poder incontestável - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Nomeações visam capturar instituições tradicionalmente protegidas do uso político-partidário

As nomeações de Donald Trump para a Direção Nacional de Inteligência (DNI), o Pentágono e a Procuradoria-Geral visam a capturar as instituições do Estado tradicionalmente protegidas do uso político-partidário. Os potenciais efeitos são o enfraquecimento da democracia, ganhos para os inimigos dos EUA e esfacelamento do Partido Republicano.

Indicada para supervisionar as 16 agências de inteligência, Tulsi Gabbard tem encampado posições da Rússia e da Síria. Em 2017, a então deputada democrata se reuniu com o ditador sírio, Bashar Assad, embora os EUA tivessem rompido relações com o regime. Ela repetiu os desmentidos da Rússia, que apoia a Síria, do uso de armas químicas do regime sírio contra seu próprio povo.

Falta de vontade política nesta COP - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Esta conferência climática, a COP-29, em realização em Baku, capital do Azerbaijão, tem muito de mistura de pessimismo com falta de vontade política para concluir acordos práticos.

Seu avanço se limita a acordo prévio para regulamentar o mercado global de carbono, que ainda precisa mostrar como vai funcionar, entre tantas disposições anteriores também acordadas que passam por recuos.

Em vez de conter as emissões de gases do efeito estufa (GEE), tal como decidido no Acordo de Paris, de 2015, o mundo todo – alguns países mais e outros menos – vem contribuindo para aumentá-las. No ano passado, cresceram 1,3%. O grande objetivo é restringir a temperatura média da Terra a 1,5 grau centígrado acima dos níveis pré-industriais.

Poesia | A Dialética Platónica, de Fernando Pessoa

 

Música | Dalva de Oliveira - Hino ao amor (Edith Piaf e M. Manot)

 

sábado, 16 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC que impõe escala de trabalho 4x3 seria um erro

O Globo

Mudança traria mais despesas para empresas, maior informalidade e queda no rendimento do trabalhador

Não, a sexta-feira não deve ser o novo sábado, como quer a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). O texto pretende impor uma semana de quatro dias de trabalho e três de descanso (4x3), com redução no limite de horas trabalhadas de 44 para 36, sem aumento da carga diária de oito horas nem redução de salário. Apresentada sem nenhum embasamento técnico, a PEC recolheu assinaturas suficientes para ser discutida, ganhou apoio de ministros, parlamentares e do vice Geraldo Alckmin. Quem defende a mudança parece crer que o avanço da tecnologia permitiria à força de trabalho uma rotina menos intensa, sem perda de produtividade. Imagina que, para dar conta do trabalho, as empresas contratariam mais funcionários, reduzindo o desemprego. Na teoria, parece bonito. Na prática, o resultado seria outro.

A Constituição e o milagre da democracia - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

A sobrevivência do regime democrático depende do compromisso de vencedores e derrotados de se submeterem às regras do jogo

Democracia e constitucionalismo são conceitos políticos distintos. À democracia importa que o poder seja exercido pela maioria dos cidadãos. Já ao constitucionalismo, preocupa que o poder seja exercido dentro de certos limites, mesmo que esse poder decorra da vontade da maioria. Há, portanto, uma tensão permanente entre democracia e constitucionalismo.

Nos regimes democráticos os governos são escolhidos por meio do voto. Os postulantes que receberem mais votos, devem assumir o poder. Os que perderem, vão para a oposição. A sobrevivência do regime depende do compromisso de vencedores e derrotados de se submeterem às regras do jogo. O que não é tarefa fácil, dados os incentivos a abusar do poder por parte de quem está no governo e de subverter a ordem por quem está fora dele. Como pontua o cientista político Adam Przeworski, "o milagre da democracia é que forças políticas conflitantes obedeçam aos resultados das votações".

Vencer os extremos é preciso – Dora Kremer

Folha de S. Paulo

É de se desconfiar da facilidade com que defensores de anistia a Jair Bolsonaro decretaram o 'enterro' da ideia

A tentativa de atentado a bombas na praça dos Três Poderes mostrou que o espaço síntese da representação da República ainda é um lugar vulnerável a ação de extremistas, sejam dementes ou agentes conscientes de orquestração liberticida.

A radicalização está presente, ativa, ataca em qualquer lugar e em qualquer momento sem que possamos dizer que somos pegos de surpresa, embora um tanto desprevenidos. A intolerância incorporou-se ao cotidiano. Instalou-se como um tumor que se não for combatido o quanto antes ameaça o país de metástase.

Aceitem a prisão - Alvaro Costa e Silva

Folha S. Paulo

Ex-presidente quer jogar o país na fogueira, que já começou a queimar com o corpo em frente ao STF

Da frustração e ódio curtidos e expostos nas mídias ao terrorismo trapalhão (mas não menos perigoso) é um pulo. O segurança do Supremo Tribunal Federal testemunhou o momento em que, próximo à estátua da Justiça, o homem se deitou, colocou o artefato na cabeça e esperou a explosão.

A vítima foi identificada como Francisco Wanderley Luiz, dono do carro que também explodiu no estacionamento da praça dos Três Poderes. Era mais um brasileiro confuso, enganado e teleguiado, cujo corpo ficou horas no chão.

Conhecido como Tiu França, trabalhava como chaveiro em Rio do Sul, Santa Catarina. Nas eleições municipais de 2020, candidatou-se pelo PL, campeão de verbas no fundo de campanha, e não conseguiu se eleger; gastou do próprio bolso R$ 500 e teve 98 votos.

Conta que não fecha - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Reduzir jornada de trabalho faz sentido, mas texto da PEC contém erro de tabuada que explica em parte a baixa produtividade do Brasil

O que me impressionou no caso da PEC do fim da escala 6x1 é que cerca de duas centenas de parlamentares tenham chancelado uma proposta que contém um erro grotesco de tabuada.

texto da PEC fala em semana de trabalho de 36 horas, com oito horas diárias ao longo de quatro dias por semana. Non sequitur. 8x4=32. Se a ideia é perfazer 36 horas em quatro dias, é necessário que a jornada tenha 9 horas.

Errar é humano, mas instituições precisam desenvolver mecanismos de correção do erro. Surpreende-me que nenhum dos signatários tenha solicitado a retificação do texto antes de a história crescer tanto.

Um fim para a escala 6x1 – Pablo Ortellado

O Globo

É uma jornada exaustiva e desumana, em que os trabalhadores têm um único dia de descanso

Em setembro do ano passado, o balconista de farmácia Rick Azevedo publicou um vídeo no TikTok desabafando contra a opressiva escala 6 por 1, pela qual o funcionário trabalha seis dias consecutivos para poder descansar um. O vídeo teve enorme repercussão nas mídias sociais e deu origem a um abaixo-assinado, a mobilizações de rua e, mais recentemente, a uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) prestes a ser apresentada na Câmara dos Deputados. A PEC quer reduzir a jornada de trabalho no Brasil. Desde a greve dos entregadores em 2020, conhecida como “breque dos apps”, o país não assistia a uma mobilização tão genuína de trabalhadores exigindo direitos e melhorias nas condições de trabalho.

A demanda pela redução da jornada de 44 horas é antiga, e passou da hora de o Brasil adotá-la. Ela gerará algum inconveniente para as empresas e a economia, mas o benefício para a vida dos trabalhadores é maior que as dificuldades. Estas são passageiras e serão assimiladas em um ano ou dois.

Os despertos e os sonâmbulos – Eduardo Affonso

O Globo

Lavagem cerebral levou um fanático a se explodir em frente ao STF. É a sina dos militantes extremados

Foram dois golpes no período de apenas nove dias. O primeiro fez “tchan” em 27/10, com a consumação da derrota nas eleições municipais. O segundo fez “tchum” em 5/11, na recondução triunfal de Trump à Casa Branca. E... “tchan tchan tchan tchan!”. O movimento woke completou com sucesso seu projeto de harmonização facial da esquerda (a brasileira, a americana), deixando-a desfigurada e (espera-se) com vergonha de se olhar no espelho.

Para onde terá refluído a maré virtuosa que arrastou multidões na marcha pelos direitos civis, em 1963, com Martin Luther King compartilhando seu sonho de que “os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes de donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade”? Ou a que lotou a Praça da Sé e tantas outras do Brasil, em 1984, exigindo o voto direto para presidente e o retorno pleno à democracia?

A economia cresce; inflação e juros também – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Trump deve mesmo impor o pesado aumento de tarifas de importação que prometeu. Isso provocará forte elevação de preços

Setembro, conhecidos agora todos os dados, foi um mês bom para a atividade econômica. Setembro foi também o mês do Rock in Rio. Não se trata de simples coincidência. Grandes espetáculos movimentam amplos setores da economia, especialmente serviços: hotéis, restaurantes e bares, viagens, para citar os mais evidentes.

Há algumas semanas, na Inglaterra, o Banco Central notou uma inesperada alta na inflação quando se esperava estabilidade. Procura daqui e dali, a única coisa de diferente que acontecia eram os shows de Taylor Swift, por diversas cidades. Era isso mesmo, inflação de serviços.

Por aqui, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) mostrou sólida expansão de 0,84% em setembro, na comparação com agosto. O número saiu nesta semana. Na comparação com setembro do ano passado, a expansão foi de 5,1%, melhor resultado desde julho de 2022. Todos os setores cresceram: indústria, vendas no varejo, prestação de serviços. E isso combina com os dados do IBGE sobre o mercado de trabalho.

Um pacote salva-emenda - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O Supremo tem a obrigação de derrubar a fraude em que consiste o projeto de lei por meio do qual o Congresso finge dar transparência à gestão de emendas parlamentares.

Leia o troço, ministro Dino. O bicho esculacha princípios constitucionais criando a categoria-concessão “mais transparência”, com o que pretenderá convencer trouxas (ou trouxas de ocasião) de que uma luzinha acesa no canto do breu absoluto resultaria em claridade e clareza.

Se ainda norteado pela guarda da Constituição, o STF não pode manter o controle de constitucionalidade subordinado a acordo político que só produziu “me engana que eu gosto”. Ou se terá deixado enganar. Os maledicentes lembrarão que o autor do projeto, deputado petista do Maranhão, é aliado do senador-togado Dino.

Surpresa esperançosa - Cristovam Buarque

Veja

A realização de um Enem para os professores é boa ideia

Quando a proposta de um piso nacional para o salário dos professores foi apresentada no Senado, sugeria-se também um piso nacional para o conhecimento dos professores. A ideia do piso salarial foi aprovada no Congresso e sancionada pelo presidente Lula em 2008, mas a ideia do piso do conhecimento ficou esquecida. Em um dos artigos deste espaço em VEJA, “Aos mestres, com carinho”, publicado em agosto, sugeri a ideia desse piso do conhecimento sob a forma de um Enem do professor. Seria um passo para criar um nível mínimo de qualificação docente em todo o território nacional. Ainda que décadas após a proposta inicial, foi uma surpresa esperançosa saber que alguns meses depois o governo adotaria a ideia. Seria positivo complementar a proposta do Enem de mestres com um outro projeto, aprovado pelo MEC em 2003 e suspenso a partir de 2004, de certificação federal com gratificação federal para os professores estaduais ou municipais.

Um manifesto certeiro - Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Sindicatos e partidos condenam a pressão do mercado para o governo cortar despesas sociais e investimentos

“Mercado financeiro e mídia não podem ditar as regras do País” proclama o Manifesto assinado por sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos.

Já no parágrafo de abertura, o ­texto dos inconformados vai ao cerne da orquestração financeira e midiática: “­Temos acompanhado, com crescente ­preocupação, notícias e editoriais na mídia que têm o objetivo de constranger o governo federal a cortar ‘estruturalmente’ recursos orçamentários e outras fontes de financiamento de políticas públicas voltadas para a saúde, a educação, os trabalhadores, aposentados e idosos, bem como os programas de investimento na infraestrutura para o crescimento”.

Mal-estar da civilização e a democracia em xeque (II) - Marcus Pestana

Há uma agenda desafiadora a ser enfrentada nesses últimos três quartos de Século XXI, englobando crescimento econômico, combate às desigualdades, sustentabilidade ambiental, solução para conflitos regionais como os da Ucrânia e do Oriente Médio, redesenho da globalização com a geração de soluções compartilhadas envolvendo problemas complexos como as grandes correntes de imigração e a integração econômica menos excludente e concentradora.

Enquanto governos autoritários avançam em soluções, já que conseguem unilateralmente adotar medidas sem nenhum debate democrático, freios, contrapesos e controles sociais, a democracia patina em produzir resultados para a população, entre outros motivos, pela dificuldade de governabilidade, num ambiente caracterizado pela fragmentação social e a consequente pulverização partidária e parlamentar, o que impossibilita ações mais assertivas, ousadas e profundas, proporcionais à complexidade da agenda que nos desafia.

O som e a fúria de Othon Bastos - Pablo Spinelli*

No momento vivemos tempos explosivos, desafios à democracia, a elegia à ignorância, ao sectarismo. Bombas explodem na capital federal, central do Brasil, dias depois do lançamento do filme sobre a morte e a morte de Rubens Paiva. Donald Trump é eleito. Dentre outros motivos, por falta de história e por murros em pontas de facas equivocadas – a mais especial, o papel coadjuvante do tema da paz pelos democratas e pelos analistas políticos. O arauto da paz foi Trump. Uma velha pergunta ressurge: O que fazer?

Eis que surgem lições, sugestões e um sopro de esperança com a peça “Não me entrego, não!”, de autoria de Flávio Marinho, a partir da biografia de Othon Bastos, que aos 91 anos, mostra seu amor ao teatro, à profissão de ator, sem firulas quanto à dureza do ofício de interpretar tantos que pode se perder em si mesmo, uma dialética entre o ego e o outro, numa conjuntura da supremacia do primeiro sobre o segundo.

Poesia | A espantosa realidade das coisas, de Fernando Pessoa

 

Música | Claudinor Germano - Madeira que cupim não rói (Capiba)

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Atentado expõe os riscos da radicalização

O Globo

Mesmo que sejam ato isolado, explosões em Brasília mostram que as autoridades não aprenderam todas as lições do 8 de Janeiro

É grave o atentado na Praça dos Três Poderes, em Brasília. O autor parou um carro carregado de explosivos num estacionamento da Câmara, incendiou o veículo, caminhou em direção ao prédio do Supremo Tribunal Federal (STF), arremessou outros explosivos contra o prédio ao lado da escultura que representa a Justiça, depois se matou em nova detonação. O mais preocupante é que tenha chegado tão perto do Supremo e do Palácio do Planalto, expondo mais uma vez a vulnerabilidade do coração da República.

Tal fragilidade ficara evidente no trágico 8 de janeiro de 2023, quando, tentando tomar o poder, golpistas invadiram a Praça dos Três Poderes e depredaram Congresso, Palácio do Planalto e STF. As novas explosões mostram que, aparentemente, as autoridades não aprenderam todas as lições que deveriam ter aprendido no episódio.

Nem foi a primeira vez que atos terroristas abalaram a capital. Em 2022, no ambiente polarizado depois da eleição, radicais tentaram explodir um caminhão de combustível perto do Aeroporto de Brasília. A tentativa só não deu certo porque o motorista percebeu um objeto estranho e chamou a polícia. Houve também sabotagens a torres de transmissão de energia e mobilização armada em acampamentos.

Vera Magalhães - Terrorista explode farsa da anistia

O Globo

Extremistas não querem conciliação, mas vingança contra aqueles que seu líder máximo trata como traidores da pátria

Chama a atenção a desfaçatez com que os principais líderes bolsonaristas, alguns dos quais estavam no Congresso na noite de quarta-feira e puderam ouvir as explosões, rapidamente se puseram a minimizar a gravidade do novo ataque à Praça dos Três Poderes, menos de dois anos depois do 8 de Janeiro. Pudera. O ato, não importa se planejado por Francisco Wanderley Luiz de forma isolada, explodiu não só um carro e seu perpetrador, mas a indecente defesa da tal anistia para os golpistas de 2023 — que, na verdade, nunca teve a ver com a preocupação legítima com aqueles que são réus ou já foram condenados, mas com a vindoura fase da responsabilização dos financiadores, insufladores e idealizadores das sucessivas tentativas de golpe urdidas por Jair Bolsonaro e seus apoiadores.

Não que o roteiro traçado pelo ex-presidente e reverberado por deputados e senadores a ele vinculados tivesse chance de prosperar. Mas o sucesso eleitoral de alguns dos candidatos da direita, o crescimento da ala mais estridente do bolsonarismo em câmaras municipais e, depois, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos deram gás ao discurso de que os ventos sopravam pela “conciliação” nacional.

Bernardo Mello Franco – Pacifismo de ocasião

O Globo

A polícia ainda vasculhava os arredores do Supremo em busca de explosivos quando Jair Bolsonaro, logo ele, fez um apelo à “pacificação nacional”. “Já passou da hora de o Brasil voltar a cultivar um ambiente adequado para que as diferentes ideias possam se confrontar pacificamente”, escreveu.

O capitão classificou o atentado de quarta-feira como um “fato isolado”, executado por alguém com “perturbações na saúde mental”. “Isso tem de ser tratado como o que foi: um ato de loucura de uma pessoa”, reforçou seu escudeiro Ciro Nogueira.

As investigações dirão se o chaveiro Francisco Wanderley Luiz agiu mesmo sozinho ao levar bombas para a Praça dos Três Poderes. O ato pode ter sido solitário, mas não foi isolado. Está ligado à espiral de violência política que começou com faixas pedindo um novo AI-5 e culminou na intentona golpista do 8 de janeiro.

Bomba implodiu a anistia de Bolsonaro – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O uso da violência por extremistas de direita no Brasil pode, sim, ser enquadrado como terrorista, porque visam desestabilizar a ordem pública e atacar instituições democráticas

O objetivo de Francisco Wanderley Luiz, autor das explosões na Praça dos Três Poderes, era matar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, segundo depoimentos de familiares à Polícia Federal (PF). Ele também havia revelado à ex-mulher, Dayane Dias, que pretendia se matar após o atentado, o que acabou ocorrendo durante o confronto com a segurança do STF. Chaveiro, de 59 anos, Wanderley fora candidato a vereador do PL, em 2020, no município de Rio do Sul (SC). Era um bolsonarista fanático.

Desde a derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, Wanderley falava que pretendia matar o ministro Moraes, tendo se preparado para isso longamente. Fez viagens a Brasília, visitou o plenário do Supremo, percorreu corredores da Câmara e rondou a Praça dos Três Poderes, tudo registrado em postagens nas redes sociais. No começo da noite de quarta-feira, impedido de entrar no prédio do STF, lançou uma bomba contra a estátua da Justiça, duas contra os seguranças do Supremo e se matou, ao acionar uma quarta bomba sob a cabeça, após se deitar no chão.

Medos e pânicos do Brasil com Trump - Janaína Figueiredo

O Globo

Nomeação de Marco Rubio para comandar a política externa americana foi a confirmação de um dos piores cenários imaginados para um governo Trump 2

Quando o nome do senador da Flórida Marco Rubio foi confirmado como a escolha de Donald Trump para chefiar o Departamento de Estado, a sensação no governo brasileiro foi a de que os piores cenários imaginados para um governo Trump 2 estavam se confirmando. “A cada nomeação, só piora”, comentou uma fonte diplomática, que enumerou alguns dos medos e pânicos do Brasil em relação ao republicano que se tornou líder da extrema direita global.

Os medos do governo Lula são muitos e incluem eventual sabotagem da agenda ambiental brasileira, até mesmo da COP 30, que será realizada em 2025 em Belém. O evento é uma das grandes apostas do governo em sua estratégia de inserção nos grandes debates globais, e o negacionismo climático de Trump, temem em Brasília, poderia enfraquecer o encontro.

Jornada necessária – Flávia Oliveira

O Globo

O clamor por qualidade de vida inundou as redes sociais, tomou o debate público, alcançou Congresso Nacional, empresariado, Palácio do Planalto. Por trás da insatisfação com a escala que impõe a empregados seis dias de trabalho, um de folga, está o bem-viver, sinônimo de mais tempo para família, estudo, formação profissional, lazer, saúde, consumo. Um século atrás, quem anunciou isso aos quatro ventos, com outras palavras, foi Henry Ford, pioneiro da indústria automobilística dos Estados Unidos. Ele fundou a Ford Motor Company; foi o primeiro a aplicar a montagem em série para produzir carros maciçamente; dobrou para US$ 5 diários o salário mínimo dos operários; e, em 1926, implementou a escala de cinco dias de trabalho, dois de folga, 40 horas semanais de jornada. Fez tudo isso em prol do capitalismo.

Tiro pela culatra – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Autor das explosões conseguiu o oposto do que pretendia: fortaleceu Moraes, enfraqueceu Bolsonaro

O tiro saiu pela culatra e as explosões na Praça dos Três Poderes produziram efeitos opostos aos pretendidos pelo seu autor, Francisco Wanderley Luiz. Se ele planejou enfraquecer o Supremo e fortalecer o golpismo, acabou unindo as instituições e as forças democráticas e isolando bolsonaristas e radicais em geral. E, afinal, foi a única vítima do seu próprio ato terrorista.

As duas explosões, uma à frente do STF, a outra próxima ao Congresso, confirmam o poder da internet, o quanto o discurso do ódio está disseminado e como cidadãos e cidadãs estão reféns da guerra ideológica.

Louco ou golpista? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Bolsonaristas se apressam a pintar autor de ataque como lobo solitário; apenas investigações dirão se ele agiu só ou se teve apoio material

Só o aprofundamento das investigações dirá se o homem que desferiu o ataque com bombas a Brasília e morreu numa das explosões é um louco que agiu sozinho ou se fazia parte de uma trama golpista mais ampla.

O vídeo do sistema de segurança do STF que mostra os instantes finais do agressor é sugestivo de uma ação suicida, o que favorece a hipótese do desequilíbrio mental. Mas as imagens não descartam a possibilidade de ele ter contado com apoio logístico e/ou financeiro de atores com uma agenda mais política que psicológica. O homem tinha história de militância na extrema direita. É preciso aguardar o resultado das apurações.

Bolsonaro e seus sequazes não querem esperar. Eles se apressam em pintar o perpetrador como um desvairado que agiu só. Fazem-no por um motivo bem concreto. Não querem ser relacionados a mais um ataque contra a democracia.