quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Batalha no Rio: Vaticano X Igreja Universal


Milton Coelho da Graça

São 12 os candidatos à Prefeitura do Rio, representando mais de duas dezenas de partidos, mas há outra batalha eleitoral mais importante, que possivelmente será a decisiva.

Marcelo Crivella é candidato do PRB e mais dois pequenos partidos, mas é realmente o candidato do complexo religioso-empresarial-político chamadoIgreja Universal do Reino de Deus.

Crivella, número 2 na hierarquia da Universal, começou sua carreira política em 2002, elegendo-se Senador da República pelo Rio. Foi o segundo mais votado e Sérgio Cabral Filho, o primeiro.

Desde então a Arquidiocese do Rio tratou de empenhar-se nas eleições posteriores para evitar que uma maior influência da Igreja Universal a tornasse majoritária como força religiosa e política. Não consegui saber com certezase a Opus Dei recebeu determinação papal de ajudar esse trabalho em 2004 (nos últimos dias do primeiro turno mais de 300 paróquias se mobilizaram para votar em Cesar Maia para prefeito, que venceu com 50,1% dos votos, com Crivella em segundo lugar). Ou em 2006, quando Cabral se elegeu Governador, derrotando Denise Frossard no segundo turno, porque Denise havia deixado Crivella em terceiro lugar, graças a uma forte mobilização católica nos últimos dias de campanha.

Mas, na atual eleição municipal, a Opus Dei assumiu um papel mais vigoroso, articulando desde 2006 uma aliança. Também não foi possível determinar com certeza em que circunstâncias o governador Sérgio Cabral Filho escolheu Eduardo Paes como seu candidato para a Prefeitura do Rio e até arriscar uma exdrúxula edição do Diário Oficial do Estado, só para anunciar a exoneração dele da Secretaria de Esportes para cumprir o rito da desincompatibilização perante a Justiça . Mas tenho boa informação de que a influência da Opus Dei teve papel muito importante nessas decisões.

Eduardo Paes, dois anos atrás, teve apenas 5,3% dos votos para Governador (contra o próprio Sérgio). Os dois, até outubro de 2006, sempre estiveram em partidos diferentes e nunca manifestaram afinidade política. Só após essa eleição é que Paes se transferiu para o PMDB e Cabral só conseguiu impor o nome dele como candidato do partido depois de um enfrentamento contra Anthony Garotinho e o presidente da Alerj, Jorge Picciani, dominador absoluto do Comitê Estadual do partido. Também não pode se esquecer que, para apoiá-lo com tanta insistência, o Governador deve ter tido um trabalhão para amansar o ódio de Lula e de d. Marisa Letícia pelo deputado federal que tanto atazanou o casal presidencial e um dos filhos naquelas CPIs que tanta agitação fizeram na TV mas até hoje não deram em nada.

Para não haver dúvida de como a Opus Dei atuou fortemente nos bastidores, há menos de duas semanas do dia da eleição, em 20 de setembro, o Vaticano anunciou o envio de uma bênção que o Santo Padre havia dado a Eduardo Paes em outubro do ano passado. Um gesto primoroso, porque, além de Paes – que nunca teve militância católica ostensiva – dois outros candidatos a Prefeito têm essa característica em seu currículo: Alessandro Molon, eleito deputado estadual pela primeira vez, basicamente por sua visibilidade como militante carismático; e Chico Alencar, deputado federal amplamente apoiado pela eleitores católicos admiradores da Teologia da Libertação. Agora, é óbvio, ficou mais fácil explicar aos eleitores católicos em quem devem votar.

A Opus Dei também operou com muita habilidade conseguindo trazer para a candidatura Paes o discreto mas eficiente apoio de importantes lideranças empresariais cariocas, inclusive das Organizações Globo, que não poderiam aceitar uma vitória política desse porte – e logo no Rio - do complexo Rede Record-Igreja Universal.

Será engraçado se a estratégia da Opus Dei funcionar tão bem, tão bem, a ponto de Marcelo Crivella nem ir ao segundo turno. O prefeito Cesar Maia vem prevendo isso em seu ex-blog há várias semanas.

SAIBA MAIS AQUI SOBRE A OPUS DEI

Opus Dei significa Obra de Deus em latim e é o nome de uma organização católica, criada na Espanha em 1928 por Escrivá de Balaguer, (ainda era então um jovem de 26 anos, morreu em 1975 e foi canonizado em 2002). Escrivá a concebeu como uma brigada da fé cristã, formada por padres e leigos, pela preocupação, na década de 20 do século passado, com movimentos em favor de mudanças sociais e idéias republicanas na Espanha, além da tomada do poder pelos comunistas na Rússia.

Hoje com 85 mil membros em 63 países (no Brasil, cerca de 2 mil), dos quais 98% são leigos e uns 200 sacerdotes, a Opus Dei, em seus órgãos de divulgação, inclusive o site (www.opusdei.org.br), afirma que “sua missão consiste em difundir a mensagem de que o trabalho e as circunstâncias do dia-a-dia são ocasião de encontro com Deus, de serviço aos outros e de melhora da sociedade”, além de colaborar “com as igrejas locais, oferecendo meios de formação cristã (palestras, retiros, atenção sacerdotal), dirigidos a pessoas que desejam renovar sua vida espiritual e seu apostolado.” Também explica que “ajuda a encontrar Cristo no trabalho, na vida familiar e nas demais atividades cotidianas”.

Em 1982, o Papa João Paulo II deu uma nova dimensão à Opus Dei, dando-lhe
um status único – prelazia pessoal – em que não está subordinada a qualquer hierarquia católica local, mas sim diretamente ao Sumo Pontífice, através de um prelado nomeado como uma espécie de “executivo-chefe”. Esse “executivo” atualmente é monsenhor Javier Echeverría (o que, de certa forma, demonstra que a influência espanhola persiste).

A revista Veja, em reportagem de 17 de maio de 2006, motivada pelo livro “O código Da Vinci”, ficção de grande sucesso mundial em que um membro da Opus Dei é um assassino, deu outra versão sobre os propósitos da organização e assim explicou o privilégio de ligação direta com o Papa:

“Apoio incondicional a João Paulo II, na defesa dos dogmas e valores católicos ameaçados pela modernidade”. (...) “A idéia de Escrivá (...) era que qualquer católico poderia ser um santo no dia-a-dia, no exercício de sua profissão. Para tanto, não se admite nenhum meio-termo na obediência às orientações da Igreja. A prelazia é ortodoxa em sua condenação ao aborto e ao sexo pré-matrimonial. O perfil típico de seu integrante é um profissional com formação universitária.

“Embora a organização não goste de ser caracterizada como tal, ela é uma espécie de corpo de elite católico. É também uma força conservadora, com contornos de direita. Na Espanha de Escrivá, vários de seus membros foram ministros da ditadura de Francisco Franco.”

A Opus Dei nunca afirmou ser uma organização secreta, mas jornais italianos já divulgaram o que seriam trechos dos estatutos. recomendando que ninguém revele sua condição de membro nem a de companheiros. O respeitado tributarista Yves Gandra Martins, o professor de jornalismo Carlos Alberto di Franco e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alkmin já foram citados publicamente como ligados à organização. Mas, em entrevista à Folha de São Paulo, Alkmin negou: “Não sou da Opus Dei; respeito quem é, mas não conheço.”

ACABE O MAU HUMOR

Se v. quer rir à vontade, vá ao saite www.chargeonline.com.br , onde achará os trabalhos de 40 mestres do cartunismo brasileiro.

ENTRE NO DEBATE

Se v. tiver algum comentário a fazer sobre esta coluna, mande um e-mail para milton@dm.com.br

E NÓS CONVERSANDO...

O presidente Chávez, da Venezuela, anunciou o fim da construção de duas refinarias para petróleo pesado – uma na China, outra na Venezuela. Com isso, a Venezuela reduz custos que a Petrobras continua tendo, exportando petróleo pesado e importando o tipo leve. Enquanto isso, continua sendo empurrado com a barriga o projeto da refinaria Abreu e Lima, projetado para Pernambuco, num consórcio de Petrobras e PDVSA, a estatal petrolífera venezuelana. E cujas negociações começaram muito antes do contrato entre China e Venezuela, para construção das duas refinarias que já estão funcionando.

A CONVERSA PODE ENTERRAR O PRÉ-SAL

A exploração de petróleo a mais de 200 quilômetros da costa e a quatro quilômetros de profundidade, no chamado pré-sal do Oceano Atlântico, exige bem mais do que conversa: grana, muita grana, tecnologia ainda a ser desenvolvida, alternativas de transporte etc. E temos de andar depressa porque as alternativas ao petróleo estão se fortalecendo. A General Motors
está apostando firme no carro elétrico Volt e cuidando inclusive da criação de
uma rede de recarga nos Estados Unidos.. Honda e outras fábricas japonesas também trabalham a mil no carro elétrico e nas pastilhas combustíveis de hidrogênio. Os medos sobre energia nuclear estão se desvanecendo e todos já olham com inveja e se preparam para seguir França e os outros poucos países que há muito tempo reduziram a dependência do petróleo para a produção de energia elétrica.

Toda essa corrida tecnológica pode não acabar com a nossa sede de petróleo, mas certamente contribuirá para a redução da dependência e do preço. Não podemos deixar de pensar que, abaixo de um certo preço do barril, nem valeria a pena fazer furos no pré-sal.

DESTA VEZ LUPI SAI OU NÃO SAI?

Aparentemente chegou ao limite a paciência do presidente Lula para aturar as bobagens do ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Essa última – de usar o FGTS para comprar ações da Petrobras – foi demais. Ao voltar de Nova York, Lula tem a palavra “Lupi” como primeiro item de sua agenda. Façam suas apostas: Como Paulo Pereira da Silva está encrencadíssimo com a polícia e a Justiça, há vários nomes do PDT na lista de possibilidades para assumir o Ministério do Trabalho.

PRA QUÊ TANTO?

As fortunas pessoais em todo o mundo chegavam a um total de 105 trilhões de dólares, segundo estimativa da respeitada consultoria americana Boston Group há um mês, que constatou ter sido 2007 o sexto ano consecutivo de crescimento desse dinheirão, principalmente na América Latina e na Ásia.

Admitindo-se um total de um bilhão e meio de famílias em todo o mundo, uns 11 milhões (1%) tinham mais ou menos 30 trilhões de dólares. Mas desses trintinha, 21 trilhões estão nas mãos (e em cofres) de 11 mil famílias (0,001%) controlam 21 trilhões.

O número 1, como se sabe, é Warren Buffet, que, ainda esta semana, investiu a bagatela de 5 bilhões de dólares no banco Goldman Sachs, que anda meio depauperado. O número 2, o mexicano Carlos Slim, tem muito dinheiro no
Brasil: entre outras coisas, é dono da Claro e sócio dos irmãos Marinho em uma parte das Organizações Globo.

ATÉ ONDE VOTO É TRANSFERÍVEL?

Cientistas políticos de todo o Brasil estão debruçados sobre as últimas pesquisas que mostram a altíssima popularidade do presidente Lula: mais de 70% dos brasileiros aprovam seu governo. Mas Marta Suplicy vai ter de encarar o segundo turno na cidade de São Paulo embora Lula esteja lhe dando o máximo de apoio possível. Fenômeno semelhante está acontecendo em cidades da Grande São Paulo, inclusive em São Bernardo. Dilma Roussef, na intenção de voto para a presidência da República, ainda está ali por volta dos 2%, muito atrás de José Serra e Ciro Gomes.

A dúvida dos cientistas é a seguinte: o presidente conseguiria mesmo eleger um poste na eleição de 2010?



O uso depois, e já, da popularidade de Lula

Jarbas de Holanda

O aumento da aprovação popular ao governo Lula na pesquisa CNT/Sensus divulgada anteontem, de 57,5% para 68,8% entre abril e setembro (enquanto a dele próprio elevou-se ainda mais, de 60% para 77,7%) foi avaliada em seguida tendo em vista sobretudo o potencial e as limitações da transferência da força do presidente para uma candidatura lulista no pleito presidencial e, agora, nas eleições municipais. Outros dados da pesquisa, específicos sobre esse pleito, incluem simulações que apontam o tucano José Serra com intenção de votos entre 38% e 45%, dependendo dos adversários – numa delas, Ciro Gomes com 17,4% e Dilma Rousseff com apenas 8,4%. O que de pronto, segundo Dora Kramer em sua coluna de ontem, reanimou na agenda de boatos de Brasília a retomada da proposta de mudança constitucional para um terceiro mandato consecutivo do atual presidente.

Quanto à transferência de prestígio de Lula na corrida eleitoral deste ano, parte das respostas está sendo dada por índices, contraditórios, do desempenho de candidatos bem identificados com ele, ou mais próximos, na reta de chegada do primeiro turno. O grau de influência mostra-se muito alto no Nordeste – exemplarmente no Recife –, em várias cidades médias e maiores desta região e de outras, bem como na periferia da Grande São Paulo e das metrópoles do Rio e de Belo Horizonte, mas é neutralizado no Centro Sul, de Minas Gerais ao Rio Grande (e também em algumas capitais do Centro-Oeste, do Norte e do próprio Nordeste) pela predominância de lideranças regionais oposicionistas ou de vôo próprio, como Aécio Neves, José Serra e Sérgio Cabral, e de fatores locais, como o enorme desgaste do principal aliado lulista do Paraná, Roberto Requião, e o forte prestígio do prefeito de Curitiba, Beto Richa, candidato à reeleição, ou ainda pelo recall negativo dos governos gaúchos do PT.

Porém, a parte mais importante da avaliação sobre a influência da alta popularidade de Lula nas campanhas eleitorais em curso só poderá ser feita com base nos resultados do segundo turno. Para o qual o presidente combinará o uso ostensivo de seu forte carisma e da bateria de instrumentos da máquina político-administrativa federal – nas disputas que se travarão de Manaus (se o não-lulista Amazonino Mendes não vencer logo em 5 de outubro) a Salvador e a Porto Alegre. Tentando gerar uma “onda vermelha” do lulismo (como a que sufocou o adversário Geraldo Alckmin em 2006), capaz de reverter derrotas ou consolidar vitórias, parciais, no primeiro turno, nos diversos estados e regiões, e de compensar a continuidade da fraqueza eleitoral do PT nos maiores centros do Sudeste e do Sul com uma eleição em São Paulo de Marta Suplicy na capital e demais petistas na Região Metropolitana.

Outro ingrediente do cenário da véspera de conclusão do primeiro turno, ligado à disputa pela prefeitura paulistana mas que tem fortes implicações nacionais, é o acirramento do embate entre Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab para a definição de qual deles vai enfrentar Marta Suplicy na disputa final. Exacerbação que poderá acentuar-se ainda mais se os dois se mantiverem empatados nas pesquisas desta semana, ou que poderá começar a reduzir-se se um deles lograr nítida vantagem. Com a torcida do lulismo para que a persistência do conflito venha a dificultar ao máximo uma posterior soma de votos dos dois concorrentes do mesmo campo político nacional e estadual. E com a preparação do governador Serra para a complicada tarefa de promover a aglutinação desses votos.

Isso num contexto, curioso, em que o presidente Lula e o governador, em face das implicações relevantes para um e outro dessa disputa, terão de empenhar-se a fundo nela. Mesmo sendo conhecidas as preocupações do primeiro com os dividendos (indesejáveis para ele) que o grupo de Marta procurará retirar de uma vitória (contrapondo a expressão que ela ganhará à incerteza político-eleitoral da pré-candidata lulista à presidência, Dilma Rousseff). E mesmo também, no caso de Serra e na hipótese da passagem de Alckmin ao segundo turno, que sejam igualmente conhecidos seus problemas de relacionamento com o candidato do partido. Preocupações e problemas que serão postos à margem pelos projetos contrapostos dos dois atores no controle e na sucessão do governo do estado de São Paulo e na disputa da presidência da República em 2010.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1097&portal=

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Diz a cientista política Lúcia Hippolito:


"Gabeira representa a face mais avançada da esquerda mundial, que não nega a modernidade, não rejeita o mercado nem a globalização e ao mesmo tempo defende as minorias. Ele não ficou embolorado naquela esquerda ultrapassada, albanesa". Gabeira tornou-se um guerrilheiro da lucidez, a materialização das utopias possíveis.

A encruzilhada de Cesar


Ludmilla de Lima, Luiz Ernesto Magalhães e Maiá Menezes
DEU EM O GLOBO


Com fraco desempenho de Solange, base do prefeito se divide entre Paes e Gabeira

Aperspectiva de ficar fora do segundo turno das eleições abriu uma crise no DEM do prefeito Cesar Maia. A insatisfação com o desempenho da candidata Solange Amaral, uma escolha pessoal do prefeito, ganhou voz em reunião na casa do presidente nacional do partido, deputado federal Rodrigo Maia, anteontem. O racha ficou evidente: Cesar e Rodrigo descartaram a possibilidade de apoio a Eduardo Paes (PMDB), primeiro colocado nas pesquisas, enquanto boa parte da bancada na Câmara de Vereadores já optou pelo peemedebista, com quem tem mantido encontros.

A reunião dividiu ainda mais o partido: um grupo defendeu também o apoio velado ao candidato Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS) já na reta final do primeiro turno. Além de irritar os aliados com o veto a Paes, Cesar também os incomodou ao cogitar, num encontro com seu núcleo político no início do mês, na Gávea Pequena, o apoio ao candidato do PRB, Marcelo Crivella. A oposição ao senador une a base do prefeito, que também descarta o apoio à ex-deputada Jandira Feghali (PCdoB), caso seja ela a passar para o segundo turno.

- O clima no encontro é de que foi um erro do prefeito escolher a Solange candidata sem escutar ninguém. Ele vai pagar o preço. Agora é diferente: ao perder o primeiro turno, ele vai ter que dividir decisões com outros atores do partido - afirma um dos participantes da reunião.

Na Câmara do Rio, o interesse por Paes é paroquial. A maioria dos 14 vereadores do DEM está irritada com dificuldades na campanha. Reclamam da falta de apoio da cúpula do partido, que investe em material apenas para poucos candidatos, como o ex-secretário municipal de Obras Eider Dantas e o vereador Carlo Caiado. Paes foi vereador com a maioria deles e manteve o diálogo mesmo ao sair do DEM em 2002, por desavenças pessoais com Cesar e Rodrigo. Há uma queixa ao personalismo do prefeito, que contempla apenas o seu grupo e centraliza as decisões.

- Ninguém anunciou ainda o apoio ao Eduardo temendo perder a legenda por infidelidade partidária. Mas não dá para apoiar o Crivella. Seria suicídio. Além de desagradar a meus eleitores, o senador tem sua base de candidatos nas comunidades. Numa próxima eleição, virariam concorrentes - disse um vereador.

Outro vereador sempre fiel ao prefeito já decidiu o que fazer no segundo turno:

- Os aliados não foram consultados nem em relação a idéias a serem apresentadas no horário eleitoral. A minha opção é pelo Paes. Se quiserem impor outro nome, fico em casa. Ou vou viajar para não ser pressionado.

O discurso é o mesmo de uma vereadora:

- Qualquer escolha do prefeito que não seja o Paes será constrangedora. É melhor viajar para o Paraguai.

"Se meu gabinete falasse...", reage Cesar

No caso de Gabeira, o interesse é dos candidatos com pretensões nacionais de uma aliança em 2010 com o PSDB. Os tucanos no Rio apóiam Gabeira, e uma aliança no segundo turno seria retribuída daqui a dois anos.

O secretário municipal de Transportes, Arolde de Oliveira, confirmou o encontro, mas negou a crise. Ele, no entanto, admitiu uma preocupação com seu futuro político.

- Tenho sete mandatos de deputado federal. Em 2010, sou pré-candidato ao Senado. Mas a precedência é do prefeito Cesar Maia.

O assunto despertou a ira do deputado Rodrigo Maia. Ele nega que na reunião de segunda-feira tenha sido discutido um acordo para o segundo turno no Rio.

- Essa reunião a gente faz toda segunda-feira para traçar a estratégia da semana, o varejo. Não tem a ver com longo prazo. Não é uma reunião da direção do partido, mas de quem ajuda a campanha - disse o filho do prefeito e presidente do DEM, acrescentando que o objetivo do encontro, cujos participantes ele não quis revelar, era decidir o número de placas nas ruas e dividir material de campanha entre os candidatos a vereador.

O prefeito Cesar Maia reconhece as deserções da campanha de Solange. Mas afirma que, como prefeito, também é assediado por candidatos infiéis:

- Probleminhas deste tipo são comuns nas campanhas. O salve-se quem puder proporcional ocorre em todas as eleições. O vereador se aproxima de quem é forte em sua área. Mesmo que tenhamos evitado, isso acontece muito conosco. Vem todo mundo para cima da gente querendo colar. Se há traições, é muito mais em nossa direção. Se meu gabinete falasse...

Todos agora miram no segundo turno

Alessandra Duarte
DEU EM O GLOBO

Gabeira, Jandira e Crivella comentam supostos apoios e traçam estratégias para chegar lá

O candidato do PV à prefeitura, Fernando Gabeira, abriu ontem caminho para receber, caso vá para o segundo turno, o apoio de aliados de Solange Amaral (DEM) ao dizer que a adesão de "pessoas que têm a memória da administração (municipal)" é bem-vinda. Hoje, Gabeira está em quarto lugar, segundo o Datafolha, empatado tecnicamente com Jandira Feghali (PCdoB): ele tem 11% e ela, 13%.

- Não é aproximação. Eles (Solange e seus aliados) são o setor mais bem informado sobre o curso da eleição. Eles acompanham o processo com um nível de profissionalismo que talvez os outros nem tenham. E eles sabem que eu estou no segundo turno. Eu gostaria muito depois, se estiver realmente, de conversar com todos. A minha idéia é formar uma ampla frente; se eu conseguir integrar, na frente, pessoas que têm a experiência e a memória da administração, vai potencializar meu trabalho muito.

Gabeira afirmou, porém, que não fará "o trabalho do voto útil".

- Não vamos fazer o trabalho do voto útil, porque achamos que o voto de consciência vai nos levar ao segundo turno. Respeitamos a candidatura dela (Solange) e não vamos fazer qualquer empenho para que ela saia do seu rumo - disse Gabeira, antes de um debate ontem, no colégio Santo Inácio, com os candidatos Alessandro Molon (PT) e Chico Alencar (PSOL).

Na escola onde estuda Marco Antônio, filho do governador Sérgio Cabral, aliado de Eduardo Paes (PMDB), Gabeira foi cercado por alunos na saída do debate, posou para fotos de celulares e distribuiu autógrafos.

Jandira Feghali (PCdoB), cujo partido já apoiou os governos Moreira Franco e Garotinho, disse que um suposto apoio de aliados de Solange a Gabeira no segundo turno só confirmaria o que chamou de incoerências da campanha do candidato do PV.

- Essa questão do DEM só confirma as incoerências dessa campanha e suas más companhias. Armínio Fraga e Marcello Alencar já chamam atenção e não correspondem a qualquer mudança. É tudo pelo voto - atacou ela.

Integrantes do PSDB (coligado ao PV) dizem que a estratégia da campanha de Gabeira para tentar derrotar Marcelo Crivella (PRB) ou Jandira na disputa por uma vaga no segundo turno é focar nos eleitores indecisos da classe média, onde o verde tem grande potencial de crescimento.
Outra estratégia para a reta final, segundo o próprio Gabeira, é a de não mais ir a debates, para intensificar as agendas nas ruas, pois "a partir desta semana não posso mais encontrar só 50 pessoas, tenho que encontrar 50 mil".

Já Crivella disse que o prefeito deverá convencer seu partido de que apoiá-lo é o caminho mais viável para derrotar Paes no segundo turno:

- Cesar Maia, um homem com experiência política, vai concluir e convencer o seu partido que a viabilidade para ganhar do PMDB é o Crivella - disse o senador, acrescentando que está "flertando com todos": - Espero que estejamos juntos no segundo turno para derrotarmos o PMDB, que quer ser no nosso estado uma hegemonia. Neste momento, a procura pode ser mal interpretada. Pode ser interpretado como desmerecimento das campanhas. Este é o momento de namoro. Casamento, só no segundo turno. Estou namorando, estou flertando com todos, procurando apoios.

Para Solange, a discussão é "intriga da oposição":

- Toda semana tem reunião, desde maio. Essa discussão é intriga da oposição, nota plantada. Eu vou para o segundo turno.

No debate no Santo Inácio, Chico repetiu o discurso de Gabeira, de que a cidade do Rio "precisa de um líder, não de um síndico ou de uma dona-de-casa". Depois, Chico disse que não se tratou de apoio a Gabeira, só da "convergência de opiniões" entre os dois.

COLABORARAM Ludmilla de Lima e Sérgio Duran

A utopia existe


Roberto DaMatta
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Se você é um neoliberal relativamente descrente das utopias, saiba que elas estão mais vivas do que nunca. Onde? Na propaganda eleitoral, é claro, onde um enlouquecido sistema de proporções que desafia o bom senso é compensado.

Vendo-a, você se questiona por que todos esses projetos maravilhosos jamais foram realizados. Mas você logo percebe que - tirando as exceções de praxe - o que os candidatos oferecem são promessas. São planos ideais, musicados em samba, falados ao sabor da empatia e do sorriso, sem nenhuma avaliação de sua exeqüibilidade. E, como o candidato sabe que, uma vez "empossado", ninguém vai cobrar-lhe, porque, afinal, "aquilo foi por conta da campanha eleitoral", aquele instante de fantasias cívicas e sociais, começando pelas alianças partidárias, não é exagero ligar eleição e carnaval.

Aproximar esses momentos é o direito à licenciosidade. É o fato de o candidato (tanto quanto o folião) poder criticar o poder estabelecido sem levar troco. Quanto menor for o prestígio do candidato e quanto mais alto é o cargo que pleiteia, mais carnavalizada será a sua campanha. Como é que esse "pé-rapado-analfabeto" quer ser presidente, governador, deputado, prefeito ou vereador? Como é que esse "joão-ninguém" ousa demonstrar esse rasgo de igualdade e tem o desplante de criticar a pessoa que ocupa um cargo obviamente "superior" e que tem sido possuído por uma autoridade - "alguém" que, bem ou mal, "entende" alguma coisa? Eneas, Deus o tenha, foi um formidável exemplo. Lula foi outro, daí o seu imenso peso simbólico, pólo no qual se assenta uma estrondosa capacidade para tudo dramatizar, logo traduzida em popularidade. Lula é a figura que ousou desafiar a elite brasileira e hoje tem o poder de fazê-la lamber-lhe os pés e beijar-lhe a mão. Quem não se lembra dos avisos desavisados de catástrofe que a sua eleição iria trazer para o sistema?

Em diferentes níveis, outros ilustres desconhecidos caem na mesma plataforma simbólica, provando como, no Brasil, a desigualdade é um valor. De fato, se nossa vida social fosse fundada na igualdade, não "causaria espécie" um desconhecido disputar qualquer cargo público. Mas como conciliar essa liberdade que eventualmente se iguala com um sistema que também se pensa como graduado e constituído de pessoas maiores e menores? Uma sociedade segmentada entre pessoas que podem e indivíduos que não podem?

Entre os poderosos e os que pretendem entrar nesse campo que a todos abre as portas da elitização aristocrática, essa nobreza política - baseada no "quem foi rei, sempre é majestade" -, é preciso cautela. Daí esse estilo de "ser candidato" abusando de promessas, mentindo sobre realizações pessoais ou simplesmente expondo programas políticos realistas. Opção menos rotineira, mas que vai ganhando corpo em cada disputa eleitoral.

Penso que os jingles em ritmo de samba de breque, na voz bem marcada de um sambista que acompanha os candidatos, exprime bem a dificuldade de levar a campanha para o terreno mais sério e desafiador do civismo, fazendo que ela fique no terreno intermediário: entre projetos e promessas inconseqüentes. Ademais, entendo que não deve ser fácil fazer uma campanha eleitoral marcando posições políticas, mas preservando o lado pessoal e os eventuais laços de família ou de amizade que ligam os candidatos entre si. O nosso estilo aristocrático de vida, que logo transforma o candidato pobre, renunciante do mundo, num sofisticado baronete intoxicado de amor por si mesmo, não tem muitas afinidades com o espírito crítico que necessariamente permeia a campanha eleitoral num sistema liberal. Daí o velho dilema: como apresentar o programa e, radicalizá-lo, sem falar em nomes e pessoas? Não é por outra razão que esse momento se caracteriza pela eventual violência alimentada do desequilíbrio entre o programático (sempre, crítico, denunciador, acusatório e fantasioso) e o pessoal (sempre ponderado, realista e concreto). A saída, como estamos sendo obrigados a assistir no "horário eleitoral", é uma mistura de programas de conteúdo cívico sério, que atacam os problemas da cidade ou do estado e de candidaturas messiânicas e carnavalescas que prometem tudo realizar. Nos Estados Unidos, eles - pasmem com quem viu e vê - rezam e cantam o hino nacional; aqui, a invocação carnavalesca relembra que a troca de lugar só pode mesmo ocorrer num tempo extraordinário, provavelmente para, depois da tempestade de votos, tudo continuar como está.

Daí, a combinação estranha de programas e promessas, tocadas ao familiar sambão que emoldura o postulante no esforço de ligá-lo ao único festival brasileiro nacionalmente popular, mas que ninguém, exceto algum antropólogo maluco, deve levar a sério.

PS: Quem achar que sou vago e estou obviamente errado, recorra aos economistas e contorno que, nos últimos dias, descobriram que o responsável pelas tais "leis imutáveis do mercado" é mesmo o estado nacional. Seria bom intercalar Hayek com Polanyi e Hirschman.

ROBERTO DaMATTA é antropólogo.

Uma anistia polêmica


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. A crise econômica internacional já está incentivando a criatividade do mundo financeiro e faz crescer a pressão para a volta à discussão dentro do governo de um tema polêmico: a anistia para o repatriamento de dinheiro hoje no exterior, onde se calcula que existam entre US$100 bilhões e US$250 bilhões pertencentes a brasileiros, sem o registro oficial na Receita Federal. Um volume de dinheiro que pode equivaler às nossas reservas internacionais. Esse montante está à procura de uma legalização, diante das dificuldades cada vez maiores para ser movimentado, devido à legislação internacional mais rígida tanto para coibir a lavagem de dinheiro quanto o financiamento ao terrorismo internacional.

E, com as investigações da Polícia Federal atingindo potencialmente a todos no Brasil, inclusive com escutas telefônicas, não apenas a movimentação desse dinheiro tornou-se perigosa, mas até mesmo falar sobre ele. Na definição de um banqueiro brasileiro, a maior parte desse valor está "esterilizada" no exterior. Se apenas metade do dinheiro que está fora regressar, as reservas cambiais brasileiras ganhariam reforço de US$50 bilhões a US$100 bilhões.

A previsível escassez de financiamentos nos próximos anos já faz com que haja uma ampla movimentação de setores financeiros tentando convencer o governo de que a repatriação desse enorme volume de dólares de brasileiros poderá suprir as necessidades do país nos anos difíceis que se avizinham.

Ao mesmo tempo, poder aplicar no mercado financeiro de emergentes, especialmente o brasileiro, parece ser uma perspectiva mais atrativa do que o mercado internacional.

Já hoje estima-se que boa parte desse dinheiro que está entrando em investimentos nos mercados internos é de brasileiros, que investem oficialmente como se fossem estrangeiros, através de uma off-shore. O que torna o investimento duplamente ilegal quando feito através de fundos que não podem ter investidores brasileiros, como o que o banqueiro Daniel Dantas dirigia e está sendo investigado.

Quando o ministro da Fazenda era Antonio Palocci, a anistia a esse dinheiro enviado e mantido de maneira ilegal no exterior chegou a ser estudada, mas a CPI do Banestado, em 2003, onde as contas CC-5 criadas pelo Banco Central da gestão de Gustavo Franco foram demonizadas, criou um ambiente político refratário ao tema.

O fato é que parte desse dinheiro saiu durante a campanha eleitoral de 2002, com medo de uma vitória de Lula, que já se dissipou completamente, mas não apenas isso. O Brasil, até 1994, teve uma fase sem regras do jogo estáveis, havia sempre o receio de um choque, e as pessoas tinham medo, principalmente em início de governo.

E esse receio já foi muito maior, desde a primeira disputa presidencial de Lula, em 1989. Quem não se lembra do então líder empresarial Mário Amato, que disse que milhares de empresários fugiriam do país caso Lula vencesse?

Os milhares de empresários não fugiram, mas muitos milhões de dólares certamente sim, e curiosamente escaparam do confisco promovido pelo Plano Collor.

São recursos que saíram do país ao longo do tempo, e em muitos casos tiveram origem honesta, mas foram enviados para paraísos fiscais de forma ilegal.

Quanto maior o controle cambial, maior a percepção da fragilidade da economia e maior a evasão de divisas, as leis econômicas ensinam, alegam os defensores da abertura dos mercados financeiros. Por isso, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso existe uma tendência de o Banco Central liberar a circulação de dinheiro.

O objetivo final seria a conversibilidade do real, dar transparência às operações financeiras e tranqüilidade ao investidor, uma demonstração de que a política econômica caminha na direção da liberação e não do controle do câmbio.

Várias medidas foram tomadas ao longo do tempo para liberar a circulação de dinheiro, e as contas CC-5, objeto de investigação daquela CPI, são um canal legal para as remessas ao exterior.

O Banco Central considera que tem condições de controlar esse fluxo de capital e, segundo o governo, existem mecanismos de fiscalização suficientes para garantir que eventuais utilizações de instrumentos legais para enviar ao exterior dinheiro sujo sejam coibidas.

O governo aceitaria a reinternação do dinheiro sem que fosse necessário explicar a origem, e anistiaria o pagamento do imposto de renda devido, cobrando uma multa que poderia ser de cerca de 5%. Muito dinheiro sujo seria legalizado dessa maneira, admitem os defensores da medida, mas alegam que os benefícios para o país seriam compensadores.

O Brasil, em 1964, Itália e Alemanha, mais recentemente, fizeram também esse movimento, e autoridades brasileiras estudaram os mecanismos usados nos outros países.

No governo Castelo Branco, em 1964, foi decretada uma anistia geral durante quatro meses, através do artigo 82 da lei 4.506, que criou a correção monetária. Naquela ocasião, o ministro da Fazenda era Roberto Campos e o do Planejamento, Octávio Gouvêa de Bulhões, e a anistia dispensou a multa, mas cobrou Imposto de Renda do dinheiro que retornou.

A Itália fez o mesmo em 2001 na operação chamada "escudo fiscal", que cobrou 2,5% de imposto de renda para o capital repatriado e lucros futuros. Entre 60 e 80 bilhões de euros entraram no país no período de um ano.

Hoje no Brasil, a grande preocupação é a validade das anistias, que podem ser contestadas na Justiça, dentro da própria Receita Federal, onde o sindicato dos auditores fiscais já se manifestou contrário à medida quando foi estudada em 2003, e pelo Ministério Público, que pode entrar com uma ação contra a decisão do governo.

Lula, a idéia certa, tarde demais


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou no diagnóstico, mas errou no "timing", em seu discurso de ontem na ONU.

Lula disse que "chegou a hora da política". Sempre foi hora da política, mas os políticos, inclusive Lula, demitiram-se da tarefa de pensar e executar políticas públicas que contrariassem os mercados, ainda que minimamente. Logo, a proposta chega tarde. Sugerir que a ONU se incumba de "uma resposta vigorosa" à crise é, de novo, uma tese generosa e eventualmente correta. Mas inviável.

Basta lembrar que, no ano passado, na cúpula do G8, a Alemanha queria discutir alguma resposta (modesta) à desregulamentação dos mercados financeiros, mas os Estados Unidos vetaram.

Lula, que participou do último dia daquela cúpula, não foi nem ouvido nem cheirado. Supor que, agora, os Estados Unidos (e os demais grandes) se dignem a sentar pacientemente com os 191 outros países-membros da ONU para ouvi-los e chegar a uma resposta "vigorosa" é acreditar em Papai Noel.

Além disso, se algum governante -de país rico, de país pobre ou de país emergente- tivesse alguma proposta "vigorosa" a apresentar, já o teria feito ou, ao menos, teria a obrigação de tê-la feito nos incontáveis foros internacionais que se sucedem uns aos outros e produzem toneladas de palavras e nenhuma ação, nenhuma. Por falar nisso, qual é a proposta de Lula?

Vamos ser francos: ninguém sabe direito o que está acontecendo e, por extensão, não pode saber que proposta apresentar para pôr ordem na bagunça. Não foram só as grandes financeiras que foram para o brejo. Junto com elas foram o FMI, o Banco Mundial, o G8 e cia limitada.

Você tem lido alguma idéia, uma que seja, vinda dessas instituições antes onipresentes nas crises?

Afagos de resultados


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Regra geral, o presidente Luiz Inácio da Silva poderia ser menos áspero no uso das palavras. Mas não deixa de ter razão quando chama de “hipócritas” e “oportunistas” os políticos que fazem oposição para as câmeras das emissoras do Congresso e, na hora de ir às ruas pedir votos, são lulistas desde criancinhas.

Se o presidente não estivesse nadando de braçada na avaliação popular, os que hoje se aconchegam para tirar proveito da situação certamente estariam procurando manter dele uma prudente e amazônica distância.

Como de resto parte permaneceu no ataque durante o primeiro mandato até depois da crise do mensalão, quando ainda não era claro se haveria mais quatro anos de Lula outra vez, e parte deixou para mudar de opinião na hora de subir no primeiro palanque da campanha municipal.

Caso a situação venha a se inverter e, por exemplo, um candidato da oposição se converta na expectativa mais viável de poder, Lula voltará a ter os defeitos de sempre.

Por enquanto é um homem perfeito, espontâneo, patrono do idioma do povo, um gênio. Político não briga com pesquisa nem afronta o poderoso, principalmente se há perspectiva de ficar ainda mais poderoso.

É o que se observa na ofensiva dos correligionários do candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin, quando acusam o oponente Gilberto Kassab de fatos sobre os quais sequer teve ingerência. Ou pelo menos não exclusiva.

O nome que ninguém ousa pronunciar é o do governador José Serra, protegido dos ataques pela dianteira nas pesquisas para a eleição de 2010 e a perspectiva de voltarem todos juntos com ele ao poder central. Na impossibilidade de atirar para o alto, o tucanato atira para os lados.

O líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal, por exemplo. Deu anteontem duas entrevistas acusando Kassab e o secretário de Governo municipal, Clóvis Carvalho, de quererem destruir o partido e criar “uma zona de sombra” para levar o eleitorado a acreditar que a administração municipal é do PSDB.

“Não é, é do DEM”, diz o deputado, em franca luta livre com os fatos. Quais sejam: Kassab comanda equipe montada por Serra à imagem e semelhança do PSDB na proporção de 80%, não dá um passo fora do roteiro herdado e transfere veleidades de autonomia para quando, e se, for eleito com os próprios votos.

No deserto

Os pretendentes aos cargos de prefeito e seus encorpados padrinhos deixaram a Associação dos Magistrados Brasileiros falando sozinha sobre os candidatos fichas-sujas.

A AMB já divulgou três listas de postulantes com contas em aberto na Justiça. Pesquisou mais de 1.400 nomes de postulantes nas grandes cidades e chegou à conta de 113 processados.

As informações estão na internet, mas o assunto é ignorado até por parte daqueles que abraçaram com vigor a tese da melhor ética no exame da vida pregressa de candidatos.

Sem a indução dos políticos, o debate não prospera. Com isso, ficam desperdiçados o espaço, os instrumentos (inclusive públicos) e a visibilidade que poderiam ser usados para elevar o grau de educação política do eleitor.

Por oportunismo e auto-referência, preferem se esforçar para mostrar o quanto são amigos do presidente Lula do que estreitar genuínos laços de amizade com o eleitorado.

Régua e compasso

Em julho, o governador do Rio, Sérgio Cabral, qualificou de “imbecis” e “débeis mentais” os policiais que confundiram com traficante e mataram um menino de três anos.

Agora, diz que são “safados” e “vagabundos” os cinco médicos que faltaram ao plantão deixando um hospital público sem atendimento no fim de semana.

Todos provavelmente merecem os adjetivos, mas a população merece mais.

Cabral, que já havia tomado emprestado do governador Aécio Neves o figurino mundano cuidadosamente mantido no limite da responsabilidade, vai incorporando o modelo adotado pelo presidente Lula de tratar questões de governo em termos inflamados, quase como um discurso de oposição.

Lula faz sucesso com essa maneira esperta de escapar das cobranças desviando o foco para a “denúncia” dos problemas como se não tivesse sido eleito exatamente para solucioná-los. É um jeito de demonstrar permanente “preocupação” e, assim, manter acesa a chama da identificação popular.

A fórmula seria perfeita, não fora o senão devidamente estabelecido por Abraham Lincoln em sua célebre frase sobre o caráter perecível e a amplitude restrita da ilusão.

Detalhe

Se o PSDB não consegue administrar uma disputa municipal em condições razoáveis, terá trabalho para convencer o eleitor de que está apto a administrar o País de maneira minimamente aceitável.

Não se ganha de véspera


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

Serra e Aécio, à frente dos governos de São Paulo e Minas, se mantêm como pólos alternativos de poder, apesar do enorme prestígio de Lula

Governo bem avaliado, popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas alturas. Nada, porém, está decidido em relação à sucessão de 2010. Pesquisas de opinião mantêm o favoritismo do governador paulista José Serra (PSDB) para as eleições presidenciais. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), a preferida de Lula, ainda não decolou como possível candidata oficial.

Transferência

É ilusão pensar, porém, que o presidente Lula não tem capacidade de transferência de voto. Tem o suficiente para consolidar e impor o nome de Dilma às lideranças petistas, que relutam em apoiar um quadro sem experiência eleitoral, nem tradição de militância partidária. E também para convencer os aliados dessa opção, deslocando a candidatura do deputado Ciro Gomes(PSB), que continua sendo o nome de maior densidade eleitoral na base governista para disputar a sucessão de Lula. Entretanto, a pesquisa do instituto Sensus, divulgada na segunda-feira, mostra a chefe da Casa Civil atrás de todos os demais possíveis candidatos, do governador mineiro Aécio Neves (PSDB) à ex-senadora Heloísa Helena (PSol).

Vamos aos números: na simulacão espontânea, Lula obteve 23,4% das indicações. Seria o nome imbatível do PT, mas não pode concorrer ao terceiro mandato e já manifestou a intenção de não permitir que a lei seja alterada com esse objetivo. Em segundo lugar, apareceu o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, com 6,7%. Outro tucano, Aécio Neves, chegou a 3,3%. Dilma surgiu em quarto lugar, com apenas 1,9%. É muito pouco para quem vem tendo tanto apoio do governo para se projetar eleitoralmente.

Como Lula não pode ser candidato, ficou fora da pesquisa induzida. O resultado confirmou a tendência que vem se mantendo desde a reeleição do atual presidente da República. Seu prestígio é ascendente, o governo bomba, mas os nomes mais competitivos para a sucessão presidencial continuam sendo os da oposição. Serra permanece na liderança, com índices entre 37% e 45%, a depender de quais sejam os adversários. Quando o nome do PSDB é Aécio, o governador mineiro obtém índices entre 18% e 22%. Dilma fica atrás de Ciro Gomes (PSB) e Heloísa (PSol) em todas as simulações. Mas seu desempenho melhorou. No início do ano, mal passava de 1% das indicações. Nesta pesquisa, variou entre 8% e 12%, dependendo do cenário. É o tal poder de transferência de Lula, que tende a consolidar a candidatura da sua ministra, mas por si só não garante a vitória. Isso dependerá da pegada eleitoral da candidata oficial.

Expectativa

Esse resultado, porém, mina a expectativa de poder que Lula pretende criar em torno de Dilma, para transformá-la numa candidata imbatível. Em contrapartida, os tucanos Serra e Aécio, à frente dos governos de São Paulo e Minas, se mantêm como pólos alternativos de poder, apesar do enorme prestígio de Lula. É aí que entra em cena o desfecho das eleições municipais e os cenários que estão sendo construídos nas urnas para as eleições de 2010.

O resultado das eleições de Belo Horizonte é um vetor importante. Aécio e o prefeito petista Fernando Pimentel, contrariando a cúpula do PT e o Palácio do Planalto, têm possibilidades reais de eleger Márcio Lacerda (PSB), uma invenção política de ambos que deu certo. Se esse resultado se consolidar, a estratégia “pós-Lula” de Aécio para ser o candidato tucano ganha fôlego. É a velha política de conciliação e união nacional mineira renascendo como uma fênix.

Outro vetor é São Paulo, cuja eleição é eletrizante. Se Marta Suplicy (PT) voltar à prefeitura da capital, a candidatura de Serra estará em xeque. Se o vitorioso for o ex-governador Geraldo Alckmin, também. O contencioso criado pela preferência do governador paulista pela candidatura de Gilberto Kassab (DEM) rachou os tucanos paulistas. A melhor alternativa para Serra, portanto, é resolver a disputa interna logo, reelegendo o atual prefeito de São Paulo. Mas essa é uma estratégia de muita fricção, que desgasta o atual governador.

A segunda divisão


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Muitos vaticinam o fim do DEM nas eleições municipais de 2008, ganhando ou perdendo a Prefeitura de São Paulo. O partido, que se renovou, entregou-se às mãos de políticos mais jovens, definiu uma estratégia oposicionista firme no Congresso e vinha tentando se consolidar desta forma, tem análises que asseguram que vai, sim, minguar, mas não desaparecerá do mapa. Há quatro anos, quando, na oposição e caracterizando-se como adversário de um presidente da República já à época com recordes de popularidade, o DEM elegeu 735 prefeitos Brasil afora e ainda se considerava na primeira divisão da política, formando entre os quatro partidos integrantes desta classe, PMDB, PT, PSDB e DEM.

Hoje, avaliações mais realistas do próprio partido indicam que poderá cair para a segunda divisão, se ficar com um perfil parecido ao do PSB, por exemplo, ou ao do PDT. Óbvio que não em ideologia, estratégia política ou método de ação. Mas em tamanho, organização e desempenho. Mais ao PSB que ao PDT.

Além de sobreviver em um patamar onde muitos partidos estão, e continuam fazendo a sua luta política, o DEM vê suas condições para as disputas eleitorais de 2010 de uma forma bastante favorável, a partir da insistência em permanecer na disputa de 2008. O Rio era uma base forte do DEM, mas uma candidata a prefeita sem carisma e um líder-prefeito exaurido, depois de vários mandatos, tiraram as chances do partido este ano. Contudo, e este é o raciocínio que se faz no DEM, não é possível decretar que Cesar Maia seja um peso morto para 2010. Pode liderar a votação do partido no Estado.

O mesmo ocorre em São Paulo, onde, se ganhar, Gilberto Kassab recoloca o DEM na política nacional, mas se perder reúne mesmo assim um tal número de votos que dá ao partido uma outra situação para 2010.

Pelo que conseguiu até agora, Kassab já justificou sua permanência na disputa, considerada absurda quando o adversário Geraldo Alckmin estava em primeiro lugar, com mais de 40%. Numa cidade importante do interior, como Ribeirão Preto, o DEM está em primeiro com 65% numa disputa em que o segundo tem 13%.

Em Curitiba o partido deu a volta na resistência de seus líderes locais e fez a irresistível aliança com Beto Richa (PSDB). Em Florianópolis, disputa uma vaga no segundo turno, ou seja, terá uma votação que pode ter significado no futuro. Porto Alegre é a capital onde o DEM vai pior. O vice-governador Paulo Feijó, que transformou-se em algoz da governadora Ieda Crusius, desfez todo o esforço partidário para dar visibilidade nacional a Ônix Lorenzoni, que não consegue chegar aos dois dígitos na preferência do eleitorado.

Em Belo Horizonte o partido não se intimidou com a força eleitoral do governador e do prefeito e os está desafiando com um candidato para fazer qualquer número de votos, além de disputar cidades, como Uberlândia, em boas condições de vitória.

No Norte, o partido só está competitivo em Belém. O Nordeste é um caso à parte: apenas o PT conseguiu ficar bem em toda a região. O PMDB, que dominava o Maranhão, por exemplo, perdeu o controle do Estado. No Recife, onde governador e prefeito duelam para ver quem vai controlar Pernambuco politicamente, o partido aguarda decisões judiciais que acredita poderem levá-lo a uma melhor situação na disputa agora e para o futuro. Em Salvador, está em primeiro lugar, com chances de vencer. Em Teresina tem a liderança de um dos seus principais políticos da velha guarda, Heráclito Fortes, e em Palmas, bem como no interior do Tocantins, a senadora Kátia Abreu está trabalhando muito para ampliar as bases do partido, com perspectivas de bons resultados. No Ceará há um "outsider" do DEM, Moroni Torgan, que é popular, tem seu eleitorado e não deixa o partido desaparecer no Estado.

O DEM fazia mais coligações antes, hoje está diretamente na briga em 12 capitais e dezenas de grandes cidades. Se confirmar-se a previsão de que vai se reduzir drasticamente, mas vencer em São Paulo, o DEM evitará o rebaixamento à segunda divisão.

Tucano-petismo

Uma antiga impressão sobre a índole política do PSDB deve sofrer agora mudança de rumo. Era evidência incontestável que o PSDB, com a boca torta de oito anos no poder federal, não sabia fazer oposição, e só por isso teria deixado correr solto o governo do PT. Melhor, além de não se opor, namorou o partido lulista em ocasiões especiais, furtivas ou não. O diretório paulista está mostrando que, quando se trata de oposição a si mesmo, o PSDB sabe, sim, fazer muito bem. O palavreado, os movimentos, as chantagens e ameaças dos dois grupos em disputa de poder é uma atividade frenética de oposição, a si mesmo.

É possível que o grupo de Geraldo Alckmin, em que o maior expoente é agora José Aníbal, líder na Câmara, leve adiante as conversas que vinha mantendo com a ministra Dilma Rousseff. O grupo pode somar sua interlocução, também, às estratégias da aliança PSDB-PT em Minas e PSDB-PSB no Ceará, formando um exército partidário com possibilidade, inclusive, de formação de uma nova legenda.

Seja qual for o desenlace, dificilmente o grupo de José Serra permitirá que o grupo de Geraldo Alckmin, minoritário em São Paulo, imponha novamente sua vontade aos demais, ainda que permaneçam todos no PSDB.

Federalização

Seis anos depois de iniciar sua gestão, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera concluir, após as eleições municipais, uma proposta de reforma do ensino médio, grau da educação formal sempre rico em diagnósticos terríveis e pobre em soluções, em sucessivos governos.

A federalização - o ensino médio é, constitucionalmente, de competência dos Estados - é o que se vislumbra como uma das principais saídas para resolver o problema.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

A carapuça de Lula na medida do ministro


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


E m outros tempos e cos- tumes, a esta altura o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, estaria com o pedido de demissão pronto e assinado para entregar ao presidente Lula assim que puder ser recebido no gabinete do Palácio do Planalto.

Lá é verdade que o ministro pode sair pela tangente, alegando que se enrolou num quiproquó por desinformação e que um pedido de desculpas, com o presidente boiando nas águas mansas da felicidade com a escalada dos seus índices de popularidade, a bater recordes que parecem que podem chegar à lua da virtual unanimidade, pode ser e deve ser a saída pela porta dos fundos, olhando para os lados para conferir se os abelhudos não estão na tocaia para badalar o seu momento de infortúnio.

Acontece que Lula pegou pesado e aumentou o constrangimento do ministro. O caso começa com a matéria publicada pela Folha de S.Paulo anun ciando que o governo estava examinando a proposta, apoiada pela União Geral de Trabalhadores (UGT), da liberação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de ações da Petrobras.

Em cima do laço, o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, bateu o martelo confirmando, em entrevista à Rádio CBN, que era favorável à medida que estava sendo examinada pelo governo.

Lula desembarcou em Nova York para o discurso inaugural na Assembléia das Nações Unidas (ONU) sufocado pela irritação com a notícia lida nos jornais durante a viagem e desabafou, sem medir palavras, com extrema violência: "O governo não está preparando no- vas ações da Petrobras. Em momento de crise, a gente não pode tomar nenhuma medida precipitada".

No crescendo foi às nuvens: "Eu acho abominável fazerem manchete irresponsável sobre esse assunto, sem nunca terem conversado comigo, sem que eu tivesse sequer pensado nessa idéia". Na marcha batida, piorou o soneto: "Isso é uma coisa que eu nunca falei. Para dizer que o presidente pensa alguma coisa dessa magnitude deveriam ter a responsabilidade de me consultar, ou de consultar o ministro da Fazenda, ou o presidente do Banco Central ou o ministro do Trabalho".

Mas se o episódio é curioso ao expor o bastidor do governo e as dificuldades de entendimento do maior ministério de todos os tempos, com 38 ministros e secretários batendo cabeça nos corredores superlotados do palácio na Esplanada dos Ministérios, certamente deixará seqüelas, com a UGT estimulada a ativar a mobilização para pressionar o governo a apoiar o ministro do Trabalho, que bate em retirada fugindo da conversa...

Por enquanto, com o vento a favor, Lula passará por cima do incidente, mais para o cômico do que para sério, nas asas tão confiáveis como as do Aerolula do recorde de popularidade em 77.7%. Está com a casa arrumada, dono e senhor do governo e do PT.

Na exemplar competência da entrevista emoldurada na seção Coisas da Política do JB de ontem, o jornalista Tales Faria extraiu do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), o roteiro óbvio do segundo maior partido do país, que abandonou o muro para cair nos braços do governo. Em acordo aberto, com a participação negociada às claras no toma-lá-dá-cá. E com a exigência sem novidade, além da sua confirmação pelo presidente do partido: o PMDB quer a vice-presidência na chapa da ministra-candidata Dilma Rousseff.

O que depende de Lula e de mais ninguém. O PT queimou os seus quadros no fogaréu dos escândalos do mensalão e do caixa 2. Os demais aspirantes do segundo escalão já se recolheram aos seus lugares. Não há novidades arranhando a porta. Lula jogará pesado para viabilizar a sua candidata. Antes de conhecidos os resultados da eleição de 5 de outubro para prefeitos e vereadores, qualquer especulação não irá além do palpite. E palpite, como pode confirmar o ministro Carlos Lupi, às vezes queima a língua.

A reta final

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Ínstituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS



Talvez seja hora de olharmos as eleições municipais pela sua própria importância, não pelo que “querem dizer” a respeito das eleições presidenciais

Daqui a 10 dias, o evento político mais importante do ano estará em seus momentos finais. No próximo dia 5, à noite, na imensa maioria das cidades brasileiras, os resultados da eleição municipal serão conhecidos, salvo em um ou outro lugar onde a apuração estiver atrasada. Algumas ficarão para o último domingo de outubro, quando termina o segundo turno, mas serão poucas.

São mesmo importantes as eleições municipais? Parece uma pergunta de resposta óbvia, mas não é. Vale a pena discutir o porquê.Existe um tipo de importância que elas não têm. Ao contrário do que insistem em especular muitos analistas e observadores, as eleições municipais pouco ou nada impactam nos resultados das eleições presidenciais que a elas se seguem em nosso calendário eleitoral.

Já fizemos seis eleições municipais desde a redemocratização, quatro depois que voltamos a ter eleições presidenciais pelo voto direto. Não são muitas, mas são suficientes para aprender algumas coisas com elas.

Vimos partidos saírem grandes de algumas e nem conseguirem lançar candidato próprio a presidente dois anos depois. Vimos partidos médios, em termos do número de prefeitos eleitos, fazerem presidentes. Vimos lideranças receberem sua consagração no plano local e nada significar nacionalmente. Chegamos a ver um derrotado em disputa de prefeito virar presidente. Não foram poucas as tendências de uma eleição municipal que não tiveram qualquer conseqüência.

O que essas eleições mostraram são coisas que todo mundo sabe: que os governos estaduais quase sempre se saem vitoriosos, arrebanhando a maior parte das prefeituras; que elas cimentam o caminho de lideranças emergentes, seja em carreiras parlamentares ou no executivo nos estados; que nelas os partidos tendem a fazer combinações ditadas por lógicas estritamente locais, o que torna quase impossível contabilizar vencedores e vencidos no plano nacional.

As deste ano estão sendo assim, apesar da insistência de alguns em procurar nelas significados e projeções sobre o que pode acontecer em 2010. É mania que não dura muito, porém, pois logo estaremos discutindo os cenários da próxima eleição presidencial em seu lugar adequado.

Perde-se, contudo, algo relevante quando as eleições municipais são avaliadas dessa maneira. É como se elas só interessassem se tivessem um hipotético “significado nacional”, sem o qual se tornariam irrelevantes.

Note-se que os eleitores não pensam assim, pelo que se pode ver nas pesquisas. Muito ao contrário, as pessoas comuns olham as eleições locais com atenção e interesse. Maior, quanto mais intenso seu relacionamento com os serviços públicos municipais, como os de educação e saúde. Os eleitores de menor renda são os que mais sabem quanto é relevante o prefeito ou prefeita de suas cidades, assim como quem os vai representar nas Câmaras de Vereadores.

Talvez seja hora de olharmos as eleições municipais como esses eleitores, pela sua própria importância, não pelo que “querem dizer” a respeito das eleições presidenciais. É pura conseqüência do centralismo de nosso sistema político, em que a figura solar do presidente ofusca nossa visão a respeito de seu todo, cada parte do qual é relevante na democracia.

Sábias são as pessoas comuns, que, quando votam para prefeito, escolhem apenas os prefeitos.

A procriação precoce


José de Souza Martins*
DEU EM O SÃO PAULO


É destes dias a constatação, por meio de pesquisa, da precocidade da iniciação sexual de meninas e meninos da classe média. Uma pesquisa com mais de 6 mil alunos de escolas particulares, entre 13 e 16 anos de idade, mostrou que 22% já haviam tido a primeira relação. Nesse grupo, 72% dos adolescentes tinham tido mais de uma parceira; e 44% das adolescentes tinham tido mais de um parceiro. Embora a pesquisa se circunscreva à classe média, as indicações indiretas sugerem que o cenário se repete em relação às outras categorias sociais, ainda que com intensidades diferentes.

A implicação imediata desses resultados é a de que a cultura da sexualidade está mudando rápida e intensamente. Mas é, também, a de que a concepção de casamento e família está sendo profundamente afetada, bem como a de procriação. As muitas evidências de procriação irresponsável, não raro precoce, sugerem um problema social fora de controle, com tendência a agravar-se. Há um número provavelmente crescente de crianças que nascem condenadas a uma socialização mutilada, seja por falta de maturidade social e econômica dos pais, seja pela ausência do pai ou mesmo da mãe.

Estamos em face de um claro processo de desagregação do grupo social tradicional de referência para o nascimento e a primeira socialização das crianças, que é a família. Esse processo pode, eventualmente, ser contido, mas não há como revertê-lo em relação ao já ocorrido, ainda que muitos jovens enfrentem madura e corajosamente as conseqüências da sexualidade antecipada.

Um dos principais fatores dessas mudanças está no amadurecimento desigual das novas gerações: mais cedo na sexualidade e mais tarde no plano econômico e produtivo. O abismo é preenchido por uma sociabilidade nova e improvisada, até criativa, que discrepa da fundada na família. O jovem, hoje, flutua nessa cultura intermediária e indefinida, sem uma base institucional própria de apoio. No passado recente, amadurecia-se por igual, de modo que o amadurecimento sexual acompanhava o amadurecimento econômico (e a autonomia) e a constituição de família própria. A sociedade se desenvolvia, em termos pessoais e sociais, em ritmos iguais, nos seus vários planos. O desencontro dos planos e dos ritmos da mudança social responde por comportamentos que se tornam problemáticos porque ocorrem fora do contexto apropriado e de apropriadas relações sociais, como é o caso de ser mãe ou pai sem ter condições de constituir família.

*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de O Sujeito Oculto (Ordem e transgressão na reforma agrária), Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2003;A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008).


O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1096&portal=

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Gabeira diz que tomou a frente no caso do Galeão


Alessandra Duarte
DEU EM O GLOBO


"É melhor ter uma pessoa criativa e independente a ter uma pessoa obediente", diz, referindo-se a Paes

Repetindo a palavra "líder" cinco vezes em seu discurso ontem no Clube de Diretores Lojistas do Rio, o candidato do PV a prefeito, Fernando Gabeira, intensificou sua estratégia de campanha: mostrar-se como alguém que pode construir parcerias com os governos federal e estadual, não por ser "amigo do presidente e do governador"- numa referência ao candidato Eduardo Paes (PMDB) -, mas por sua liderança:

- Ouvimos os candidatos dizerem que são amigos do presidente e do governador. Isso é muito bom, mas não basta. É preciso ser um líder, e é preciso ser independente e criativo. Vejam o caso do Aeroporto do Galeão. Eu entrei em cena, denunciei o processo de decadência do Galeão, pedindo apoio para a recuperação e defendendo a concessão à iniciativa privada. O governador também defende isso. E o presidente aceitou a tese. Trabalhamos juntos, e não somos amigos. É melhor ter uma pessoa criativa e independente a ter uma pessoa obediente e sem capacidade de criação. Por isso, para o próprio Lula e para o próprio Cabral, eu sou o melhor candidato, embora eles ainda não reconheçam isso, porque a cegueira partidária não permite que eles vejam isso.

Gabeira voltou a marcar diferença entre seu discurso e o de Paes, que tem se apresentado como síndico:

- Não acredito que a campanha vai se dar entre um candidato de esquerda versus um de direita. Vai se dar entre um candidato que se propõe a ser síndico e um que se propõe a ser o líder. E, no segundo turno, vai haver um líder político propondo conduzir a cidade, e alguém dizendo que será um bom síndico, o que é importante, mas não é decisivo.

Dança de votos no Rio


Maiá Menezes
DEU EM O GLOBO

Gabeira e Jandira avançam onde Paes perdeu; peemedebista tira votos de Crivella

Líder nas últimas pesquisas, o candidato do PMDB a prefeito, Eduardo Paes, perdeu espaço entre os eleitores mais ricos para Fernando Gabeira (PV) e Jandira Feghali (PCdoB). Caiu de 30% para 21% entre os que ganham mais de dez salários mínimos, enquanto Gabeira foi de 20% para 31%; e Jandira, de 7% para 15%. Se recua por um lado, Paes avança por outro, em terreno associado ao senador Marcelo Crivella (PRB): entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, oscilou de 27% para 30%; Crivella caiu de 28% para 22%.

A comparação entre os dados das duas últimas pesquisas Datafolha mostra o troca-troca na corrida rumo ao segundo turno das eleições à prefeitura do Rio. E ajuda a explicar as estratégias de Gabeira e Jandira, de olho em uma vaga na disputa: o alvo agora é o eleitorado de Paes, já que acreditam que Crivella está em curva de queda.

- Um candidato com crescimento repentino (como Paes) não tem voto consolidado. Ele não tem nada de sólido - diz o coordenador dos programas de TV de Jandira, Paulo de Tarso, responsável pelas inserções que lembram o discurso duro de Paes, na CPI dos Correios, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de atrair o chamado voto de opinião, agora o desafio é conquistar o eleitorado popular que oscila de Crivella para Paes. Jandira adotou discurso voltado para áreas de "menor grau de informação e renda". Os ataques serão dirigidos ao peemedebista, a quem chama de "almofadinha".

Paulo de Tarso explica que o alvo é Paes porque Crivella tem "percentual de votos mais consolidado". O senador, no entanto, já deu outra explicação: teria havido um pacto de não-agressão entre os dois, ambos da base do governo Lula.

"Havia uma idéia de desperdício de voto"

Defendido pela candidata do PCdoB, o voto útil não é bandeira de Gabeira, que ontem, no programa eleitoral, argumentou: "Agora, as pessoas podem votar no candidato que consideram o melhor e participar de uma campanha vitoriosa". Em agenda ontem, no Centro do Rio, dentro da estratégia de "desconstruir" o discurso do candidato do PMDB, Gabeira fez duras críticas a Paes.

- Havia uma idéia de desperdício de voto. Depois da pesquisa, podemos deixar claro que é possível chegar ao segundo turno. Acredito que isso (votar em Gabeira) vire um movimento - disse o publicitário Lula Vieira, coordenador dos programas de TV de Gabeira, informando que, também de olho no eleitorado perdido por Crivella, está ampliando a participação popular no programa.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 19 pela TV Globo, Paes aparece com 26%; Crivella, com 18%; Jandira com 13%; Gabeira com 11%; Solange Amaral (DEM) com 5%; Alessandro Molon (PT) com 4%, Chico Alencar (PSOL) com 3%; e Paulo Ramos (PDT) com 2%. O percentual de indecisos, que não variou em setembro, foi de 6%.

Para Paes, o que importa é que tem mantido um equilíbrio em todas as faixas de renda. Ele afirma que manterá a linha propositiva, sem reagir a ataques dos adversários.

Crivella alega que há erros na metodologia da pesquisa mas reconhece que, em algumas regiões da cidade, enfrenta "oscilações". No fim de semana, ele criticou o governador Sérgio Cabral, padrinho de Paes.

O cientista político Eurico Figueiredo vê instabilidade nos números de Crivella:

- Ele ainda tem gordura a perder.


E prevê mais pedras na direção de Paes:


- Todos vão atacá-lo. Como a subida dele foi rápida e forte, não deu tempo de cristalizar o eleitor.

O fim do mundo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. "Se não aprovarem o pacote até sexta-feira, não teremos segunda-feira", comenta um executivo financeiro brasileiro diante das negociações que se desenrolam no Congresso em Washington. Esse é o tom catastrófico, com a previsão do fim do mundo, que está sendo usado pelas autoridades econômicas dos Estados Unidos na tentativa de colocar contra a parede a maioria democrata, de cuja adesão depende a aprovação das medidas. O Partido Democrata está em uma sinuca de bico. Se não aprovar o pacote de U$700 bilhões do governo, que tem o objetivo de reorganizar o mercado financeiro, mas ninguém sabe que resultado terá, será culpado pela crise que inevitavelmente virá, com conseqüências imprevisíveis, até mesmo não termos uma segunda-feira no dia 29 de setembro.

Se, no entanto, aprová-lo nos termos em que foi para o Congresso, os democratas estarão se submetendo ao rolo compressor republicano, o que já se mostrou altamente prejudicial quando ajudaram a aprovar o Patriotic Act, em conseqüência dos atentados de 11 de setembro de 2001, e depois foram acusados de terem dado suporte a atitudes radicais do governo, inclusive escutas ilegais e torturas a presos políticos.

Aprovar poderes ilimitados para o secretário do Tesouro, mesmo que tenham perspectiva concreta de poder a partir de 15 de janeiro do ano que vem, sem que os cidadãos comuns que não conseguem pagar suas hipotecas tenham algum tipo de alívio, seria dar um aval ao governo republicano que causou toda essa tragédia econômica.

Aprovar um socorro aos bancos e banqueiros que quebraram, sem limitar seus ganhos daqui para frente seria o mesmo que admitir que ninguém tem que ser punido pela ganância e pela irresponsabilidade que o candidato democrata Barack Obama aponta como as verdadeiras razões da crise.

O pacote de socorro que o governo republicano montou no último fim de semana tornou-se o ponto central da campanha presidencial, e nem mesmo o candidato oficial, o republicano John McCain, encontra ambiente político para dar um aval cego à administração Bush.

Ele criticou o governo por não ter se adiantado à crise, e disse que não é possível dar um poder tamanho ao secretário do Tesouro Henry Paulson, que, pelo projeto apresentado, poderia definir unilateralmente o que fazer com o dinheiro aprovado pelo Congresso e seria inimputável em qualquer instância judicial.

McCain está propondo que uma comissão de "notáveis", mesmo que partidários, tenha a incumbência de acompanhar e fiscalizar as decisões da Secretaria de Tesouro durante os dois anos estimados para a limpeza do mercado financeiro.

Obama também não está disposto a dar "um cheque em branco" para a administração Bush, e leva a discussão para a proteção aos mutuários da casa própria. O que retirará de sua candidatura a ameaça de ser considerada co-responsável por qualquer medida impopular que venha a ser tomada pelo governo na defesa dos interesses de Wall Street, que Obama coloca como contrários aos interesses da "Main Street" (rua principal), ou seja, a população de maneira geral, que não tem dinheiro aplicado, mas sofre com as conseqüências da crise na economia real.

Há também um consenso entre os candidatos de que uma nova regulamentação do mercado financeiro deverá surgir dessa crise, com um acompanhamento mais próximo e mais firme de agências reguladoras, novas ou mais provavelmente as já existentes, mas com poderes reforçados e, mais importante até, falando entre si, para que o acompanhamento do que acontece no mercado tenha mais transparência. E as informações possam ser consultadas pelos participantes do jogo, sejam os investidores pessoas físicas, sejam as empresas.

Uma das razões por que os próprios bancos pararam de emprestar dinheiro entre si, na semana passada, foi que não havia informações confiáveis no mercado sobre que instituições tinham crédito podre, e em que quantidade.

Parece inevitável que o mercado financeiro não seja mais o mesmo daqui para frente, e que alguns investimentos desapareçam, por falta de ambiente propício a alavancagens estratosféricas como vinha acontecendo.

Um tema que já se discute abertamente, mas não agrada aos participantes do mercado financeiro, e muito menos aos candidatos, é a conseqüência de todo esse movimento de salvamento na economia real.

O próximo presidente, a ser eleito em novembro, receberá o país com o enorme déficit fiscal ocasionado pela guerra do Iraque e aumentado pelo pacote que está em debate no Congresso.

O programa de impostos que os dois candidatos apresentaram já não tem mais nada a ver com a realidade, nem os cortes prometidos por Obama para as classes mais baixas, nem o aumento apenas para os mais ricos.

Também McCain não poderá manter sua promessa de permanecer na política de Bush de incentivar as classes produtoras cortando impostos, e nem garantir que não aumentará os impostos de ninguém.

Parece inevitável, embora dificilmente o tema venha a ser puxado por qualquer dos candidatos, que um aumento de impostos em 2010 aconteça diante do aumento dos gastos públicos já contratados.

Como o orçamento de 2009 já estará aprovado pelo Congresso com base na proposta do atual governo, a calibragem desse aumento terá que ser feita no segundo ano da próxima administração, quando já teremos uma idéia de como o novo governo estará lidando com a "herança maldita" recebida da gestão Bush.

Isso na suposição de que o pacote será aprovado ainda esta semana, e que o fim do mundo não chegará na próxima segunda-feira.

E ainda abanamos o rabo


Clovis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Um grande craque do mundo financeiro, com experiência nos dois lados do balcão (governo e iniciativa privada), escreve para corrigir uma informação da coluna: foram seis de oito, e não três de cinco, as financeiras independentes de banco que quebraram nos Estados Unidos.

Poderia ter acrescentado que foram todas as oito, agora que a Morgan Stanley e a Goldman Sachs tomaram a iniciativa de abandonar a independência (e a conseqüente regulação bem mais frouxa, quando não inexistente) para se tornarem bancos também. O "New York Times" diz que o pedido é o reconhecimento de que "seu modelo de finanças e investimento tinha se tornado demasiado arriscado e que necessitavam do colchão de depósitos bancários".

Será que agora o Brasil e seus analistas vão abandonar o complexo de vira-lata (apud Nelson Rodrigues) e deixar de abanar o rabinho ante as miçangas oferecidas pelos colonizadores, no caso, os colonizadores financeiros? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um orgasmo quando o Brasil foi alçado a "investment grade", palavra que ele disse nem saber pronunciar direito. Mas era a "declaração", segundo Lula, de que o Brasil "é um país sério".

Bobagem, Lula. O pessoal que diz quem é e quem não é "investment grade" não viu (ou viu, mas ficou quieto, o que é suspeito) todas essas grandes e históricas firmas financeiras deixarem de ser sérias até o ponto de quebrarem.

Outra coisinha: foi o pessoal da Goldman Sachs quem inventou a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) para designar as supostas potências mundiais do ano 2020. Se não enxergaram os riscos que corriam em 2007/2008, serão capazes de enxergar lá longe? A crise deixou evidente que acreditar nessa gente é acreditar em duendes. Prefiro jogar os búzios ou consultar cartomantes.

Marcação homem a homem


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os dois até usam a mesma expressão. O presidente Luiz Inácio da Silva e o governador José Serra prometem mergulhar “de cabeça” no segundo turno para tentar eleger os respectivos candidatos à Prefeitura de São Paulo.

É possível que nenhum dos dois tenha a intenção explícita de medir forças - o governador certamente não tem -, mas, uma vez iniciado o embate da reta final, será inevitável a “leitura” antecipada do embate presidencial de 2010.

Serra é o candidato mais cotado entre os nomes apresentados ao eleitor nas pesquisas e Lula, o mais lembrado nas citações espontâneas, já avisou mais de uma vez aos oponentes que não perderá a chance de eleger o sucessor.

Portanto, nada mais óbvio: lutando na mesma praça em regime de exclusiva dedicação ostensiva, ambos roubarão a cena principal oficialmente reservada a Marta Suplicy e ao adversário a ser definido nas próximas duas semanas - Geraldo Alckmin ou Gilberto Kassab.

Ainda que procurem fugir dos temas nacionais, durante as três semanas de campanha entre o primeiro turno e a etapa final, presidente e governador terão suas ações examinadas sob a ótica da política nacional e da disputa federal daqui a dois anos.

Com a popularidade de Lula chegando aos píncaros (77,7% na pesquisa CNT/Sensus de ontem), o governador José Serra é o menos interessado em confrontos diretos.

Tanto que a idéia de Serra é ficar dentro do cardápio local. Argumenta que por onde anda ninguém lhe cobra a abordagem de assuntos de caráter nacional - políticos muito menos - e diz que o eleitor não se lembra de falar no presidente quando o diálogo é com o governador.

Se, como afirma, escuta a voz da rua, Serra também se pauta pelas pesquisas. E estas não o aconselham a confrontos. Mostram o eleitorado refratário a brigas partidárias e indicam que uma parcela significativa de adeptos do governo Lula hoje é bastante sensível à perspectiva de amanhã votar em Serra para presidente.

Por isso mesmo, no seu discreto roteiro do primeiro turno, o governador seguiu os passos da agenda presidencial em São Paulo. Osasco, São Bernardo, Suzano, Guarulhos e Diadema são alguns exemplos de municípios onde Lula esteve e Serra viu-se obrigado, por pressão dos correligionários, a visitar logo depois.

Apenas para marcar presença, sem ataques contraproducentes. No segundo turno, a idéia da marcação homem a homem persiste, bem como a intenção de atuar sem extrapolar o limite da fidalguia taticamente mais conveniente.

Só que não jogará como quiser; terá de levar em conta as circunstâncias, cujas condições serão impostas pelo presidente Lula. Se a ele convier a amenidade, o ambiente será ameno. Mas se considerar a eleição de Marta como ponto de honra e achar para isso oportuno partir “para cima”, o governador terá de escolher entre revidar ou ouvir calado.

Lembrando que não é Lula e sim seus adversários que precisam se preocupar com eventuais desgastes resultantes de conflitos. A confortável situação do presidente dispensa tais precauções. Ele transita em patamar muito acima dos oponentes e dispõe de salvo-conduto para pintar e bordar em seus discursos sem o menor risco.

O presidente pode vir a alterar seus planos no segundo turno em virtude das implicações nacionais futuras, mas até o presente momento não dá sinal de compartilhar da política de boa vizinhança. Ao contrário.

No fim de semana Lula esteve em São Paulo para mais um ato público de ajuda à sua candidatada e tripudiou sobre as agruras do campo adversário.

Chamou os adversários de Marta de “hipócritas”, fez piada do mote “com Lula tudo bem” consagrado pelo candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, chamou de “oportunista” o DEM e ainda fez pouco do partido de Gilberto Kassab, por fazer oposição a ele no Congresso e se fingir de governista nos palanques.

Ambos engoliram calados os desaforos, produzidos no afã do presidente de conclamar o eleitorado a eleger a candidata do PT no primeiro turno.

Hipótese fora de cogitação no PT, mas a única em que Lula e Serra poderiam preservar com segurança o clima de cordialidade atual, evitando o risco de freqüentar o mesmo ambiente em posições francamente opostas antes do início oficial da campanha de 2010.

O astro


Mal saiu a pesquisa CNT/Sensus indicando o nome do presidente Lula como o mais lembrado para a próxima eleição presidencial, Brasília já pôs em sua agenda de boatos a retomada da proposta de mudança na Constituição para dar a ele a chance de mais uma eleição consecutiva.

Conviria ir devagar com o andor antes de interpretar esse resultado como um aval ao terceiro mandato. A pesquisa não pergunta o que pensa o eleitor sobre a mudança na regra do jogo. Além disso, se esses números fossem reproduções fiéis das vontades, os 1,9% dados a Dilma Rousseff na mesma lista enterrariam desde já a candidatura da ministra.

As tropas de Napoleão


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Tudo faz sentido. Nos EUA, onde as pessoas perdem suas casas e são chamadas a pagar a conta da crise financeira, Bush vai ladeira abaixo. Já no Brasil, o Ipea informa que 13,8 milhões pularam de faixa social entre 2001 e 2007. A aprovação do governo beira os 70%, e a popularidade de Lula bate recordes, a caminho dos 80%. O efeito Lula nas eleições municipais é óbvio. E a capacidade dele de transferir votos em 2010 e emplacar o sucessor? Pelo andar da carruagem e das pesquisas, a tese do terceiro mandato vai recrudescer e ele terá dois caminhos: ou se render às pressões da companheirada e à própria coceira continuísta, ou tentar se transformar no principal, talvez decisivo, cabo eleitoral.

Dilma Rousseff, potencial beneficiária dessa herança, teve apenas 1,9% das manifestações espontâneas da pesquisa CNT-Sensus de ontem, mas isso quer dizer pouco a dois anos da eleição. O importante, por ora, é que ela é a primeira entre os presidenciáveis lulistas, atrás só dos tucanos José Serra, favorito, e Aécio Neves, em segundo.

Comparação: em Belo Horizonte, a candidata Jô Moraes, do PC do B, disparou nas primeiras pesquisas, mas, com a propaganda eleitoral e a força do governo do Estado e da prefeitura, passou a comer poeira.

Márcio Lacerda, PSDB-PT-PSB, assumiu a liderança.

Outra: em Recife, dez entre dez transeuntes apostavam que o ex-governador Mendonça Filho, do DEM, estava virtualmente eleito.

Mas o poder de Lula, do governador Eduardo Campos (PSB) e do prefeito João Paulo (PT) são irresistíveis, e o petista João da Costa, um desconhecido, já prepara a posse.

Dilma está hoje como Lacerda e Costa no início da campanha, tranqüilona, esperando sentada a chegada das tropas de Napoleão. Sentada, diga-se, em cima do pré-sal, do PAC, do Bolsa Família e dos quase 80% de Lula. Para pânico da oposição, ou ele se elege, ou pode eleger até um poste. Mais um, ou uma.

A ofensiva fiscalista dos governadores


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Passadas as eleições, os governadores estaduais devem desencadear uma ofensiva sobre o Congresso e o Judiciário para influir na votação de mais de 40 projetos que aumentam os gastos públicos. Na mira dos governadores estão inclusive leis já aprovadas e sancionadas, como aquela que estabelece o piso salarial dos professores.

A aprovação do piso salarial dos professores da rede pública já havia acionado a luz amarela no gabinete dos governadores, mas uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à TV Brasil, na última semana, levou os Estados a acionar seus mecanismos de defesa.

"Se for aprovado no Congresso um acordo entre os líderes, certamente que não vetarei", disse Lula em referência ao projeto que acaba com o fator previdenciário, em tramitação no Senado.

São dois os projetos que alteram regras atuais da Previdencia sob a análise dos congressistas. Um deles indexa os benefícios ao salário mínimo. O outro acaba com o fator previdenciário.

Segundo cálculos das assessorias técnicas dos governadores, a despesa previdênciária deve atingir 7,11% do PIB em 2008 e 11,23% em 2050, de acordo com os números e as regras atuais. Se a extensão da regra do reajuste do salário mínimo a todos os benefícios previdenciários for aprovada, esse percentual passará para 18,17% do PIB em 2050.

Considerando-se apenas o projeto que revoga o fator previdenciário e altera a regra do período base de cálculo do salário-de-benefício (elimina média longa desde julho de 1994 e restringe à média curta dos últimos 36 meses), o impacto será de 16,35% do PIB em 2050.

São duas medidas do tipo que podem levar ao rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco (muito embora elas não estejam com o prestígio muito em alta atualmente, quando seus palpites são favoráveis, sempre merecem os aplausos do governo federal).

O que alarma governadores é que o chamado espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal parece estar desencarnando da União, como demonstram o aumento dos gastos com pessoal e declarações como a de Lula à TV Brasil.

Bem ou mal os Estados se adaptaram à LRF. Até a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, acabou de apresentar o primeiro orçamento equilibrado de seu conturbado governo. Alagoas parecia um caso perdido, mas aos poucos procura se ajeitar. Aécio Neves acertou as contas deixadas por Itamar Franco. São Paulo, que já estava arrumado, pode agora apresentar suas melhores planilhas de investimentos dos últimos anos.

Dos mais de 40 projetos com impacto fiscal, os que causam maior impacto nos Estados são o do piso dos professores e o que regulamenta o que é gastos com Saúde nos Estados. Só em São Paulo, esse projeto da saúde, se aprovado, teria um impacto equivalente a R$ 1,450 bilhão. Isso sem falar que a exclusão do gasto com inativos como despesa de saúde abre precedente para medidas parecidas na educação.

No caso dos professores, o que está em jogo não é propriamente o piso de R$ 950. Estados mais ricos, como São Paulo, já pagam mais que esse valor a seus professores. O que está em jogo são alguns penduricalhos colocados no Congresso - mas sancionados por Lula - ao projeto do governo, como a invasão de competências estaduais e municipais e, o que é mais grave, a reintrodução na economia do veneno da indexação.

Ocorre que a lei prevê o reajuste anual automático do piso nacional pela variação do valor mínimo por aluno do Fundeb. Procuradores estaduais e secretários de Educação, reunidos, concluíram que a norma é inconstitucional, pois invade a competência de Estados e municípios e contraria a norma constitucional de que só lei específica pode determinar aumento de salários dos servidores públicos.

O salário dos professores, portanto, foi indexado ao piso. O governo resolveu então enviar um outro projeto ao Congresso que substitui esse critério de reajuste pela variação do INPC, o que à primeira vista parece mais razoável, mas tem o inconveniente de reintroduzir no setor público e na economia brasileira o veneno inflacionário da indexação de preços e salários. A emenda saiu pior que o soneto: indexa o salário dos professores ao piso e indexa o piso ao INPC.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1095&portal=