sexta-feira, 4 de abril de 2014

O projeto nacional de Eduardo Campos

Da vitória em 2006 até hoje, socialista expande influência no Estado e rompe com o PT, visando a candidatura presidencial

Jornal do Commercio (PE)

Terça-feira, 10 de janeiro de 2006. Na sede estadual do PSB, localizada no bairro do Espinheiro, os principais nomes do Partido Socialista Brasileiro reuniram-se para bater o martelo em prol da candidatura do então deputado federal Eduardo Campos ao governo do Estado. As articulações já estavam sendo maturadas, mas foi a partir daquele dia que a postulação de Eduardo passou a ser trabalhada mais intensamente. O objetivo: acabar com a hegemonia do então governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) – que já estava há sete anos no comando do Executivo – em Pernambuco.

Após a reeleição de Jarbas, em 2002, o PSB começou a passar por um processo de reorganização. Naquele ano, a legenda lançou Dilton da Conti para disputar o governo. O socialista saiu do pleito com 3,7% dos votos válidos. Depois de inúmeras lideranças migrarem para o “outro lado”, os membros do partido decidiram reagir. O PSB precisava apresentar alguém que pudesse vencer o candidato que seria colocado por Jarbas quatro anos depois.

Com um mandato de deputado estadual e três de federal, Eduardo era tido como a nova liderança do PSB. A aposta se fortaleceu depois que o socialista assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2004, no primeiro mandato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No ano seguinte, saiu da pasta e, com a morte de Miguel Arraes, seu avô, passou a comandar o PSB nacionalmente. Em Pernambuco, era dado início ao trabalho de tentar conquistar novos aliados.

A pré-candidatura de Eduardo foi alvo de questionamentos. O socialista iria enfrentar duas grandes forças em Pernambuco: o então candidato governista Mendonça Filho (à época, no PFL, hoje DEM), apoiado por Jarbas Vasconcelos, e Humberto Costa (PT), que contava com o apoio do ex-presidente Lula.

Os atos normalmente eram esvaziados, até que surgiu a ideia de lançar a Tribuna 40. Num caixote de madeira e sem recursos suficientes para grandes estruturas, Eduardo ocupava as praças das cidades para fazer comícios. Os atos aconteciam as terças e as quintas, sempre com poucos líderes políticos. Ele tinha o apoio do PR, PDT, PSC e PP.

Seu primeiro ato como candidato aconteceu na comunidade Ilha de Deus, na Imbiribeira. O ponto era estratégico pela ligação que o ex-governador Miguel Arraes tinha com a localidade. O ato, assim como os que vieram em seguida, não mobilizou muitas lideranças.

A situação de Eduardo começou a mudar no final de agosto. Quase dois meses após o início oficial da campanha, as denúncias que atingiam o então candidato Humberto Costa no envolvimento na máfia dos vampiros, esquema de superfaturamento na compra de produtos hemoderivados no Ministério da Saúde, começavam a favorecer Eduardo. Com o crescimento do socialista nas pesquisas, não demorou muito para o candidato do PSB polarizar com Mendonça Filho. Em setembro, os levantamentos de intenções de voto já mostravam Eduardo à frente de Humberto.

Na análise do cientista político Túlio Velho Barreto, a crise vivenciada por Humberto foi determinante para a vitória de Eduardo. “Humberto era a bola da vez, era do partido do presidente Lula. E de certa forma Lula não deu prioridade, estava com os dois”, destaca. Barreto ainda destaca que as acusações de Mendonça direcionadas a Eduardo sobre o caso dos precatórios não tiveram efeito porque já tinham se tornado “ultrapassadas”.

Eduardo saiu do primeiro turno com 33% dos votos, enquanto Mendonça obteve 39% e Humberto alcançou 25% da preferência do eleitorado. No mesmo dia, o PT anunciou o apoio ao socialista no segundo turno. As demais legendas que faziam parte da coligação de Humberto seguiram a decisão dos petistas. Logo o palanque de Eduardo cresceu. No segundo turno, ele venceu Mendonça com quase 30 pontos de vantagem.

Já no primeiro governo foi apoiado por uma ampla base governista, o que contribuiu para assegurar o segundo mandato com facilidade. No pleito de 2010, enfrentou o senador Jarbas Vasconcelos nas urnas, numa disputa em que foi acusado pelo peemedebista de cooptar prefeitos e lideranças municipais. Com o apoio de quase 400 candidatos da proporcional e boa aprovação do governo, Eduardo venceu a eleição com mais de 80% dos votos válidos.

O segundo mandato foi ainda mais confortável para o governador. A oposição ao seu governo foi diminuta, apesar do barulho feito por alguns nomes na Assembleia Legislativa, a exemplo do deputado estadual Daniel Coelho (PSDB). Com a quase unanimidade dos deputados na Casa de Joaquim Nabuco, os projetos de interesse do governo não sofreram dificuldades para serem aprovados.

Foi no pleito municipal de 2012 que Eduardo Campos testou sua popularidade. Num caminho de afastamento do PT, Eduardo articulou candidaturas do PSB em várias cidades do País onde o os petistas tinham o monopólio eleitoral. A principal vitória foi no Recife, com o então candidato Geraldo Julio (PSB), que disputou contra Humberto Costa.

Geraldo, um técnico desconhecido, venceu no primeiro turno e Humberto ficou como terceiro colocado. Em outras cidades do País, Eduardo manteve o distanciamento do PT, ao mesmo tempo em que se aproximou do PSDB em palanques locais.

Após a eleição, o socialista começou a intensificar seus movimentos de olho na disputa nacional. O cientista político Túlio Velho Barreto destaca que a coligação com o PT foi mantida até o momento em que os socialistas eram beneficiados pela aliança. Para ele, caso o ex-presidente Lula ainda estivesse no Planalto, Eduardo não teria se desvinculado do PT. “Ele sempre nutriu (o desejo de disputar), mas a relação nunca foi harmônica. Porém, com Lula ele não estaria se mexendo. Com Dilma, ele se acha um ator competitivo”, avaliou.

Os resultados obtidos pela sua gestão em Pernambuco contribuíram para a inserção dele em nível nacional. As participações em palestras e eventos com o empresariado se tornaram constantes em 2013 e, com a economia brasileira enfraquecida, a gestão da presidente Dilma Rousseff passou a ser alvo de críticas do governador.

Também no ano passado, o arco de aliança que dá sustentação ao governo Dilma passou a ser criticado por Eduardo. No dia 18 de setembro, após um encontro que reuniu os principais nomes do PSB nacional, o governador e presidente do partido anuncia a saída da legenda do governo federal. Neste momento, ele deu o principal passo para selar o afastamento do PT e se colocar como uma opção à disputa presidencial.

No mês seguinte, Eduardo conseguiu o primeiro e principal apoio para consolidar seu projeto presidencial. Com o pedido de registro do Rede Sustentabilidade vetado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o socialista garantiu o apoio da ex-ministra Marina Silva, até então segunda colocada nas pesquisas de intenção de voto. Marina se filiou ao PSB no dia 5 de outubro e será anunciada como vice-presidente na chapa de Eduardo ainda este mês.

Até o final do ano passado, o PSB ainda intitulava-se como um partido da base aliada. Porém, no último mês, a legenda assumiu a voz de oposição. As críticas ao governo Dilma também foram intensificadas e a promessa é de que a postura de Eduardo seja ainda mais dura até a eleição. Hoje, o gestor deixa o governo estadual para entrar de vez na disputa pelo Palácio do Planalto.

Após encontro com Aécio, Lacerda comunica a aliados que não será candidato ao governo de Minas

O prefeito se reúne nesta manhã com o vereador Daniel Nepomuceno (PSB), o presidente do partido na capital, e outras lideranças para discutir os rumos do partido

Alessandra Mello, Alice Maciel – O Estado de Minas

O prefeito Marcio Lacerda (PSB) não vai deixar a Prefeitura de Belo Horizonte. A decisão foi tomada depois de um encontro com o senador Aécio Neves (PSDB), nessa quinta-feira, na capital mineira. Lacerda já comunicou sua decisão aos principais aliados e ao vice-prefeito, Délio Malheiros (PV), que estava em Portugal, em evento oficial, aguardando uma sinalização do prefeito para voltar e assumir o cargo. Délio permanece na Europa e só retorna ao Brasil no dia 12. O prefeito se reúne nesta sexta-feira de manhã com o vereador Daniel Nepomuceno (PSB), o presidente do partido na capital, João Marcos Lobo, e o presidente do Atlético, Alexandre Kalil (PSB), para discutir os rumos do partido nas eleições e as futuras coligações. Os tucanos, ainda nessa quinta-feira, foram comunicados da desistência de Lacerda e já contam com o apoio do PSB à candidatura do tucano Pimenta da Veiga, já lançada.

As pistas sobre a desistência do prefeito foram dadas ontem ao longo do dia e também logo após o encontro com o senador, que durou cerca de uma hora. Nenhum deles deu entrevistas, mas, por meio de sua assessoria, Aécio disse que a conversa entre os dois foi muito boa e que “estarão todos juntos” nas eleições para o governo do estado. Ao deixar o apartamento de Aécio, na capital mineira, Lacerda prometeu dar entrevista hoje durante a posse do novo governador, Alberto Pinto Coelho (PP), na Assembleia Legislativa, para comunicar sua decisão, o que foi considerado mais um indicativo da desistência, já que na cerimônia estará presente o candidato do PSDB ao governo, Pimenta da Veiga.

Além disso, o fato de o prefeito ter publicado ontem o anúncio do aumento de passagem dos ônibus urbanos foi interpretado como sinal da permanência de Lacerda, pois ele poderia ter deixado para o sucessor o ônus do aumento.

O presidente do PSDB, Marcus Pestana, disse que a conversa reservada entre Aécio e Lacerda foi muito boa e que o prefeito sempre afirmou, em encontros anteriores, o desejo de terminar seu mandato. No entanto, ele não adiantou a decisão de Lacerda. “Estaremos juntos, e o prefeito terá papel central nas eleições de 2014, 2016 e 2018 , já que ocupa hoje o segundo cargo mais importante no estado, a prefeitura de Belo Horizonte”.

As especulações sobre uma possível candidatura de Lacerda, que praticamente já estava descartada – tanto que a direção do PSB mineiro chegou a anunciar uma aliança com o PSDB –, ganharam força no início da semana. Anteontem ele admitiu pela primeira vez a possibilidade de disputar e defendeu a necessidade de uma “nova via” na disputa eleitoral, que conta também com o candidato do PT, Fernando Pimentel. Se fosse concorrer, Lacerda teria até hoje para renunciar ao cargo de prefeito.

Tendências
A expectativa agora é que as duas legendas caminhem juntas na disputa pelo comando do governo do estado, apesar de o PSB ter um outro pré-candidato, o ambientalista Apolo Heringer, ligado à Rede e que obteve semana passada o apoio formal da ex-senadora Marina Silva, pré-candidata a vice-presidente na chapa do governador de Pernambuco, Eduardo Gomes (PSB).

Entrevista de Aécio Neves à Reuters

BRASÍLIA (DF) – Em entrevista concedida à Agência Reuters, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, respondeu perguntas sobre as eleições, o sentimento de mudança que predomina na maior parte do eleitorado, as propostas do PSDB para a economia, as relações com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), reajuste do salário mínimo, a Copa do Mundo, o setor elétrico e a responsabilidade fiscal dos estados.

A seguir, os trechos da entrevista concedida nesta quinta-feira

Eleições
O que diferencia essas eleições das outras eleições é um claro sentimento de mudança. O dado relevante em pesquisas nesse momento é este, o que capta sentimentos e não o que capta intenção de voto com candidaturas ainda com níveis de conhecimento tão distintos entre elas. Isso passa a ter alguma importância após a exposição de todos os candidatos. Esse sentimento de mudança é absolutamente o oposto e inverso daquele que tínhamos em 2010, em que havia sentimento de continuidade, com a economia crescendo a 7,5 por cento, emprego crescendo 10 por cento, o presidente Lula com altíssima popularidade.

Sentimento de mudança
Vou voltar a 2010, existia naquele momento o sentimento de continuidade, e a candidata do governo só foi vista como tal a partir de julho. Então, para ter um paralelo, a Dilma só vestiu o figurino da continuidade, a mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a mulher do homem, a continuadora da obra do Lula, só foi passar o (José) Serra no final de julho, quando as pessoas passam a estar atentas ao processo eleitoral. Agora é hora do combate político, como nós estamos fazendo, da demonstração das fragilidades do governo, mas isso se transformar em ativo é só no final de julho. A economia está mostrando a absoluta crise que estamos vivendo e de incerteza em relação ao futuro. Na infraestrutura o Brasil patina e nos indicadores sociais paramos de avançar.

Essa última pesquisa Ibope mostra que 64% querem mudanças profundas. Desses, 70% não sabem quais são os nomes dos candidatos de oposição ainda. Então, só o tempo e a exposição nos veículos de massa vão nos permitir (subir nas pesquisas). Nós temos que ter a capacidade para as pessoas olharem para nós e enxergarem na nossa candidatura a mudança segura que o Brasil precisa. Esse é o termo, nós somos a mudança segura. Pela experiência que temos, pela capilaridade que temos no país, pelo conjunto de pessoas qualificadas que estão no nosso entorno. Então eu tenho muita confiança de que nós vamos vestir esse figurino na hora certa e acho que a partir de julho e agosto as pesquisas passam a ser um fator importante.

Pesquisas
Setenta por cento da população não sabem quem é Aécio Neves, 80 % não sabem o que Eduardo Campos (governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência pelo PSB) fez. É o desconhecimento. O fato de os dois candidatos da oposição nunca terem disputado uma eleição nacional faz com que haja, sobretudo na Região Nordeste, no meu caso, e na população de baixa renda um desconhecimento ainda muito grande. Isso não nos assusta, exatamente porque no momento certo as pessoas buscam uma candidatura que representa mudança. E elas precisarão ver essas candidaturas falarem, precisarão se confrontar com essas candidaturas. Isso só vai acontecer efetivamente nos grandes veículos de comunicação a partir do final da Copa do Mundo. Até lá não há razões concretas para uma mudança efetiva nas pesquisas de intenção de votos. Há no humor das pessoas.

PSDB e economia
No primeiro momento, eu acho que uma eleição do PSDB traz um efeito positivo, inverso ao efeito Lula de 2002, cuja eleição gerou um clima de incerteza muito grande, o dólar e a inflação dispararam. Uma eleição do PSDB terá efeito inverso. Vai tranquilizar mercados, vai de alguma forma já na largada transmitir uma sinalização de confiança para atores e parceiros externos, e temos que utilizar esse nosso ativo para dar a largada em algumas ações que acho que são necessárias.

Em primeiro lugar, no campo tributário. Temos que dar sinalização de que acabarão essas desonerações pontuais, vamos em seis meses apresentar uma proposta de simplificação do sistema tributário que nos dará espaço para uma gradual diminuição da carga. O que será uma questão de impacto que vamos fazer, nós vamos restringir o aumento dos gastos correntes em relação ao crescimento da economia. Os gastos não crescerão mais do que a economia como crescem hoje. Essa conta não vem fechando.

Ministérios e Secretaria de simplificação do sistema tributário
Primeiro, algumas questões são simbólicas, não só pelos valores. Nós vamos cortar pela metade o número de ministérios que está aí. Vamos criar apenas uma secretaria extraordinária de simplificação do sistema tributário com os melhores especialistas do setor para num prazo de seis meses ter uma proposta que permita a partir da simplificação abrir espaço para ao longo do tempo ter uma diminuição da carga. Essa secretaria é para apresentar a proposta ao Congresso e depois ela é extinta.

Nós vamos sinalizar de forma muito clara que no Brasil governado por nós haverá respeito absoluto aos contratos, nós queremos estimular a parceria com o setor privado em todas as áreas que isso for possível, desde que interesse ao Estado brasileiro.

Gastos do governo
É quase como uma lei de responsabilidade federal. Já existe nos Estados e municípios e não existe para a União. Nós vamos resgatar uma política fiscal austera, transparente, que foque no centro da meta (de inflação) e não no teto na meta como está sendo feito hoje. Não espero facilidades, não vamos esperar um ambiente de tranquilidade no início do governo. Mas uma certeza que eu posso dar é que, se vencer as eleições, não governarei de olho nas curvas de popularidade. Se eu precisar passar quatro anos devendo popularidade para fazer o que tem que ser feito, eu vou fazer. É a única chance que nós temos de resgatar parte das conquistas que estão indo embora. Infelizmente, a agenda de hoje é a agenda de 10 anos atrás.

 Enquanto nós devíamos estar falando em aumento da competitividade da nossa economia, estamos voltando a falar de crise de confiança, volta de inflação. Essa sim é a herança maldita que o PT vai deixar ao sucessor.

Eu posso dizer que estou preparado para as medidas impopulares, vamos limitar gastos correntes, vamos qualificar os gastos públicos. E aí trago minha experiência de Minas Gerais, que acho que é muito relevante. Minas é o único Estado hoje que avalia o conjunto, 100 por cento dos seus servidores, que recebem um bônus no final do ano quando atingem a meta estabelecida. Acho que temos que ter metas também para o governo federal.

Setor Elétrico
Temos que primeiro respeitar os contratos que estão assinados, mas nós vamos abrir discussão sobre, por exemplo, o setor do petróleo. Se em determinadas áreas é mais vantajoso fazer pelo modelo de concessão ou pelo modelo de partilha. Vamos discutir isso à luz do dia, sem o viés ideológico. Do ponto de vista das concessões de energia, repito, respeitado o que está aí, todos queremos que haja o barateamento do custo de energia. Energia cara é aquela que você não tem. E hoje ela está faltando.

Política de reajuste do salário mínimo
Ela foi uma conquista e não penso em mexer na política do salário mínimo. Temos é que investir fortemente na formalização do mercado de trabalho. É um dos instrumentos que temos para ajudar a diminuir o déficit previdenciário. Isso vem acontecendo inclusive, reconheço, mas temos que ser mais eficazes na política de estímulo à formalização. Mas não é uma questão que esteja na prioridade, defender uma nova política de reajuste que não garanta um crescimento real. Essa é uma conquista que temos que conviver com ela. Foi uma conquista, até porque foi feita também com o nosso apoio. Não acredito que haja espaço para modificação, pelo menos no curto prazo, na política do salário mínimo.

Eduardo Campos
Não conheço com profundidade as propostas do Eduardo Campos. O que eu vejo com alegria, até porque se trata de um candidato que esteve nas hostes governistas, participou do governo Lula e a própria Marina, que deve ser sua vice, também participou, vejo com muita alegria que eles venham para o campo oposicionista. E que eles passem a incorporar um discurso que nós já vínhamos defendendo há muito tempo, de eficiência na gestão pública, do desalinhamento ideológico na política externa, uma nova interlocução com o mundo desenvolvido.

Tenho defendido a fuga dessas amarras da relação aduaneira que impediu o Brasil de firmar acordos bilaterais com vários países do mundo. Em 10 anos, firmamos acordos com Egito, Palestina e Israel. O México, que compete conosco, está fazendo uma lista de reformas muito interessantes que não fizemos e então é uma bola da vez muito mais interessante que o Brasil. O que eu vejo é que há no discurso do Eduardo uma aproximação ao nosso discurso: respeito ao mercado, uma gestão mais profissional, com acompanhamento mais efetivo das políticas sociais.

Acho que pelas responsabilidades dos gestores do PSDB, teremos uma capacidade mais clara de representar mudanças. Mas a candidatura do Eduardo é essencial para o jogo político.

Copa do Mundo e eleições
É uma coisa nova, vamos ter que aprender. Não acho que o resultado dentro de campo influencie o resultado fora de campo. Acho que talvez na década de 1970. O Brasil está evoluído para isso. O que pode influenciar é o resultado fora de campo, da fragilidade da nossa infraestrutura e da nossa mobilidade. Do que foi prometido extra campo, principalmente em mobilidade, 23% (do proposto) serão entregues. 77% não. Isso pode ser cobrado.

A responsabilidade por essa baixa entrega não é culpa, também, dos governos estaduais?
Eu acho que não, porque esse compromisso com mobilidade é do governo federal. Mas claro que, como vimos nas manifestações, todos os governantes sofreram. Acho que aí há um efeito colateral do hiper presidencialismo que vivemos no Brasil. A força do poder central é tão grande, para o bem, para distribuir benesses e dizer que o Brasil superou a miséria, mas também na cobrança. Quando veem transporte caótico e saúde trágica, eu acho que o governo federal é o primeiro, mas não obstante acho que governos estaduais também sofrerão.

Roberto Freire: Em defesa da Petrobras, patrimônio dos brasileiros

Por: Brasil Econômico

Não há um só dia em que não surjam novas denúncias envolvendo a Petrobras, que nos últimos anos foi levada pelos governos do PT às páginas policiais dos jornais. As revelações estarrecedoras sobre a nebulosa compra de metade de uma refinaria em Pasadena, nos Estados Unidos, em 2006, por US$ 360 milhões, como aval da então chefe do Conselho de Administração da estatal, Dilma Rousseff, mostram a que ponto chegou o desmantelo da principal empresa brasileira a partir da gestão temerária do petista José Sérgio Gabrielli, ainda no governo Lula.

Um ano antes da compra, a companhia belga Astra Oil havia pagado US$ 42,5 milhões pela mesma refinaria, o que significa que houve uma inexplicável valorização de 1.500% em 12 meses. Para piorar, em razão de duas cláusulas no contrato, a estatal teria de garantir aos belgas uma rentabilidade de 6,9% ao ano independentemente do resultado obtido pela refinaria, além de comprar os outros 50% da empresa em caso de uma disputa judicial, o que acabou acontecendo.

Ao todo, o rombo nos cofres da Petrobras foi de US$ 1,2 bilhão. Oito anos depois da desastrosa operação aprovada pelo conselho que presidia, Dilma culpou Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da estatal, responsável pela elaboração de um resumo executivo "técnica e juridicamente falho" que avalizava a compra da refinaria. Pois o documento resumido que teria omitido as tais cláusulas foi feito a quatro mãos por Cerveró e Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento e Refino da empresa até o ano retrasado e preso recentemente pela Polícia Federal, suspeito de participar de um esquema de lavagem de dinheiro.

Na era petista, um escândalo leva a outro, e são tantos, e tão graves, que é difícil acompanhar tudo sem perder o fio da meada. A desculpa esfarrapada de Dilma, que recorre ao velho jargão "eu não sabia" utilizado tantas vezes por seu antecessor, não se sustenta. Se o resumo formulado por Cerveró causou prejuízo à Petrobras, porque o ex-diretor, ao invés de demitido, foi alocado na diretoria financeira da BR Distribuidora, subsidiária da estatal?

Ademais, como se tratava de um parecer não detalhado, a atual presidente deveria ter se debruçado sobre a versão completa do relatório, que provavelmente adormeceu sobre sua mesa, antes de aprovar a transação. Entre as consequências deletérias de tamanho descalabro administrativo, estão a derrocada financeira da Petrobras, coma perda de metade de seu valor de mercado desde 2010 (de R$ 380 bilhões para R$ 179 bilhões) e o aumento da dívida (de R$ 180 bilhões para R$ 300 bilhões), o que derrubou a empresada 12ª para a 120ª posição no cenário mundial.

O governo petista apela a ameaças e chantagens na tentativa de impedir a instalação de uma CPI para investigar as denúncias. Em meio ao mar de lama em que se transformou a maior empresa brasileira, a comissão parlamentar é uma reação necessária da cidadania, interpretada pelo Legislativo, em defesa do patrimônio nacional que vem sendo dilapidado. Ao contrário do que prega o PT, a Petrobras não ficará manchada por uma CPI.

O que destrói sua reputação são os escândalos que se acumula me parecem não ter fim, desde falta de transparência na divulgação de informações ao mercado e manipulação de dados até compras suspeitas de refinarias, pagamento de propinas e loteamento político. É preciso salvar a Petrobras.

Roberto Freire é deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Murillo de Aragão : Sociedade começa a sentir os efeitos do malogro do governo

Salvação é que o governo é grande e a sociedade, desorganizada

O Tempo (MG)

Em fevereiro de 2013, escrevi um texto para a imprensa com o título “Fracasso assintomático” (“Brasil Econômico”, 26.2.2013). A tese central do artigo era a de que o governo fracassava, ainda que os sintomas, à época, não fossem sentidos de forma clara.

A prova era a imensa popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT), que estava em alta. Em março daquele ano, ela chegou ao seu ponto mais alto, com 63% de avaliação ótimo/bom (pesquisa Ibope de março/2013). De lá para cá, começou a descer a ladeira.

No entanto, mesmo reconhecendo a situação, afirmei então que o “imenso favoritismo de Dilma Rousseff para 2014” se encontrava “em xeque”. Minha afirmação, que se revelou precisa à luz dos números de março deste ano, partia de uma cuidadosa avaliação de quatro dimensões relevantes: econômica, gerencial, social e política. E de como elas se relacionavam com a campanha de Dilma para a reeleição.

Dizia, ainda, que o maior adversário dela era “o seu próprio governo e estilo de gestão. E a incapacidade de transformar sucesso econômico e popularidade em poder político”. Pois bem, um ano depois, o vaticínio se mostra atualizado. E, pior para ela, o que era assintomático se transformou em uma pletora de sintomas. O sucesso econômico já não é reconhecido, e a sua popularidade está em baixa.

Naquele tempo, o ambiente econômico, apesar de o tomate ter causado estragos na inflação do ano passado, não contaminava as expectativas da população. Apenas o mercado (mais) e o empresariado (menos) estavam desencantados com o Planalto. Hoje, temos um majoritário sentimento de desapreço e desconfiança do mercado e do empresariado.

Em outro texto (“A crise de confiança que ameaça as relações com o setor privado”, O TEMPO, 27.3.2013), apontei a grave crise de credibilidade que se avizinhava. Dizia: “O governo vem enfrentando uma séria ameaça de crise de confiança junto ao setor privado. A ameaça está evidente no aumento das críticas feitas ao comportamento do governo em suas iniciativas, bem como na incapacidade de fazer a economia funcionar com mais vigor e, ainda, com a possibilidade de a inflação subir ainda mais. É tudo o que o governo não gostaria de enfrentar no início do processo eleitoral”.

Adiante, acrescentava que os “governos devem gerenciar as expectativas”. De lá para cá, o Executivo foi absolutamente ineficaz na gestão das expectativas. E, para piorar, parece não saber o que fazer. Está perdido e cada vez mais dependente do eleitorado, das políticas assistencialistas e do carisma de Lula. O que, no limite, é inacreditável em uma gestão que começou coberta de expectativas positivas.

Voltando ao texto de fevereiro de 2013, afirmei existir uma relação autoritária entre o governo e o Congresso que foi “mitigada nos governos FHC e Lula” e que tal fato tensionava “a relação com partidos” e prometia “emoções fortes em 2013 e 2014 na política”. Não precisava ser adivinho para prever que a inconsistência política do governo resultaria em confusões.

O atual governo fez, pelo menos, três “milagres”. Transformou Eduardo Cunha em um poderoso líder político, viabilizou a existência do Orçamento Impositivo e, ainda, despertou o Congresso da letargia em relação aos vetos presidenciais. Em breve, o Congresso vai mudar as regras de pagamento das dívidas dos Estados com a União. Outra proeza resultante do desgoverno político.

A salvação de Dilma é que o governo é muito grande e a sociedade, desorganizada. A oposição parece trabalhar “part time”. E a popularidade remanescente de Dilma ainda pode fazer a diferença a seu favor.

Cientista Político

Merval Pereira: Fora do compasso

O Globo

Curiosamente, a presidente Dilma tem feito tudo certo com relação à compra da usina de Pasadena pela Petrobras, mas com oito anos de atraso. Mandou demitir o diretor a quem atribuiu um relatório falho que induziu o conselho que presidia ao erro e, diante da afirmação de seu advogado de que recebera os documentos completos sobre as compra com 15 dias de antecedência, negou peremptoriamente a versão.

Parece ter razão, pois o advogado, que aparentava ter informações para encostar a presidente na parede, na verdade, estava sendo apenas leviano.

A fama de centralizadora de Dilma não se justifica nesse episódio, pois ela deixou que circulasse a versão oficial da Petrobras de que a compra de Pasadena fora um bom negócio durante vários anos, quando já estava convencida, pelo menos desde 2008, de que o conselho fora ludibriado por um relatório falho por incompleto.

O mais estranho, no entanto, é que permita que autoridades sob seu comando continuem divulgando a versão de que nada houve de errado na compra da refinaria, mesmo depois que ela, de próprio punho, admitiu que fora um mau negócio que nem deveria ter sido autorizado.

Ninguém menos que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse recentemente que o negócio de Pasadena não teve problema. Nesse caso, o governo está atingindo o auge de sua incompetência, desmentindo a própria presidente para defender os membros da corporação responsáveis pelo mau negócio. E evitando que uma CPI do Congresso investigue o assunto seriamente, coisa que os órgãos de fiscalização governamentais não poderão fazer por constrangimentos próprios do corporativismo.

Disse que a presidente está fazendo tudo certo mas tenho que me retratar, pois, com as manobras incentivadas pelo Planalto, não haverá investigação sobre a suspeita compra da refinaria em Pasadena, assim como outras suspeitíssimas refinarias, uma na Argentina, vendida a amigos dos Kirchner, e outra em Pernambuco, feita para agradar o bolivariano Hugo Chávez.

Se contarmos a refinaria boliviana que foi confiscada por Evo Morales à força das armas sem que o país reagisse, temos a Petrobras usada para ajudar a política de aproximação com os governos populistas da América Latina, com prejuízos em série. E a compra da refinaria de Pasadena, a quem ajudou?

Cheiro de queimado
Certos políticos, quando aparecem apenas por gestos inusitados, acabam pagando pela exibição. A ex-deputado Angela Guadagnin saiu dançando miudinho para comemorar a absolvição de um colega corrupto, no que ficou conhecido como “a dança da pizza!”, e não foi reeleita.

O deputado André Vargas levantou o punho à moda dos “revolucionários” para constranger o presidente do STF, Joaquim Barbosa, que estava ao seu lado no Congresso. Agora, corre o risco de perder o mandato acusado de corrupção.

Quando apanhado em flagrante tendo recebido um fogão e uma geladeira de presente de casamento em 2011 do bicheiro Carlinhos Cachoeira, o então senador Demóstenes Torres foi à tribuna para se fazer de inocente. Disse que não poderia devolver presentes, e que não sabia que Cachoeira era bicheiro.

As investigações mostraram que a amizade entre o senador e o bicheiro era mais que isso, era um contrato de trabalho. Ele ajudava Cachoeira em no Congresso, o aconselhava, e recebia em troca mais que simples presentinhos de casamento.

A reação de André Vargas, vice-líder do PT, ao ser apanhado em flagrante usando um jato alugado pelo doleiro Yousseff, que está preso, foi semelhante, mas desastrada. Disse que pediu o avião por que as passagens estavam caras, depois disse que pagara o combustível — que custaria muito mais que os voos comerciais para sua família — e adiante admitiu que nem o combustível saiu de seu bolso.

Vargas alegou que conhecia Yousseff há mais de 20 anos, e que não sabia que era doleiro. Mais adiante, quando gravações da Polícia Federal mostraram-no como intermediário de um negócio entre o doleiro e o Ministério da Saúde, que rendeu a lavagem de dinheiro de mais de R$ 30 milhões, segundo a PF, Vargas admitiu na mesma tribuna que fora “imprudente” ao aceitar o jatinho.

O PSOL pediu uma investigação sobre o deputado “revolucionário” à Comissão de Ética da Câmara. É provável que, como no caso do senador do DEM, a PF tenha outras gravações de conversas de André Vargas com o doleiro.

Dora Kramer: Interpretação ardilosa

- O Estado de S. Paulo

A decisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre a CPI da Petrobrás, soa confusa à primeira vista. Para todos os efeitos houve um mero adiamento com a transferência da palavra final para a Comissão de Constituição e Justiça.

Não é bem assim. Na realidade, a interpretação de Calheiros foi ardilosa. Ao fim e ao cabo, admite apenas duas possibilidades: ou a criação de uma CPI para investigar vários outros assuntos além da Petrobrás ou CPI nenhuma. A hipótese de uma comissão exclusiva para tratar da petroleira está afastada. Como queria o governo.

O estratagema será repetido em relação à CPI mista proposta pela oposição que terá o mesmo destino. A comissão engloba Câmara e Senado, diz respeito ao Congresso cujo presidente é Renan Calheiros.

Em movimento combinado com o Planalto, o senador decidiu que, no decorrer das investigações fatos novos podem ser incluídos no escopo da CPI. Da mesma forma, as comissões de inquérito podem ser iniciadas com a inclusão de assuntos estranhos à pauta original do chamado fato determinado.

Trocando em miúdos, isso significa que se o Supremo Tribunal Federal não acatar o mandado de segurança a ser impetrado pela oposição para assegurar o direito da minoria, as comissões de inquérito poderão ser permanentemente manipuladas pela maioria governista.

Pelo seguinte: bastará daqui em diante que o governo proponha a inclusão de quaisquer temas em propostas de CPIs para que o assunto que incomode à maioria, dona do comando da investigação, seja relegado a um plano secundário e acabe não sendo objeto de exame.

Por essa regra o Brasil não teria tido comissões de inquérito como a dos anões do Orçamento, do PC Farias e dos Correios, todas estimuladas e alimentadas por parlamentares do PT. Quando na oposição, o partido atuou dentro da baliza legal que garante à minoria um campo de atuação.

Tanto é que são exigidas assinaturas equivalentes a um terço da composição das duas Casas e não da maioria. Tal princípio visa a conferir legitimidade ao pleito, garantindo a expressão da minoria. Interpretações como as de Renan Calheiros permitirão que o governo se imponha sempre, em prejuízo do direito da minoria de investigar a maioria.

Sobras. No Senado a oposição soma 20 parlamentares. Foram obtidas 31 assinaturas para a CPI da Petrobrás. Na Câmara, os oposicionistas são 120 (incluídos os deputado do PSB), mas as assinaturas chegaram a 232.

Pesadelo. O pior cenário em exame no Palácio do Planalto para a próxima legislatura, caso a presidente Dilma Rousseff venha a ser reeleita, é uma possível eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara porque estaria nas mãos dele qualquer pedido de impeachment porventura apresentado contra ela.

Nos devaneios palacianos, Cunha não hesitaria em dar prosseguimento à proposta.

Papo de tucano. A conversa no jantar na casa do senador Cássio Cunha Lima quarta-feira em Brasília era a próxima pesquisa Datafolha, cujo campo foi iniciado no dia seguinte à apresentação da propaganda de televisão do candidato do PSB, Eduardo Campos.

O anfitrião levantou-se e disse aos companheiros de PSDB: "Essa coincidência é reincidente". De acordo com seus apontamentos, no ano passado o instituto entrou em campo nos dias 11 e 12 e outubro, logo após o término das inserções do PSB.

Naquela pesquisa Campos teve 15%, seu melhor índice. Na seguinte, caiu para 11%. O desejo dos tucanos é que o Datafolha tivesse esperado as inserções de Aécio Neves marcadas para a próxima terça-feira.

Luiz Carlos Azedo: A CPI do caos

Uma CPI em plena campanha eleitoral pode virar um furacão. Basta surgir um documento comprometedor ou um dos investigados resolver falar

Correio Braziliense

A estratégia da presidente Dilma Rousseff para enfrentar a CPI da Petrobras parece seguir a Teoria do Caos, criada pelo meteorologista Edward Lorentz, que simulou no computador a evolução das condições climáticas. Ele imaginava que pequenas modificações nas condições iniciais acarretariam alterações também pequenas na evolução do quadro como um todo, porém, o resultado foi o contrário: provocaram efeitos desproporcionais. Para períodos curtos (um ou dois dias), os efeitos eram insignificantes; quando o período era longo (cerca de um mês), as pequenas modificações produziam padrões totalmente diferentes, até exagerados: “O bater das asas de uma borboleta aqui, pode gerar um furacão no outro lado do mundo”, afirmou Lorentz.

Efeito Borboleta
A frase é mais verdadeira do que se imagina, pois sua fórmula matemática permite explicar quase todos os fenômenos que acontecem no universo, da formação de cabelos à movimentação das estrelas nas galáxias. Demonstra um padrão de organização dentro de um fenômeno desorganizado, ou seja, dentro de uma aparente casualidade. No caso da CPI da Petrobras, porém, a estratégia de provocar o caos é de alto risco. Tudo começou com um tiro no pé da própria presidente Dilma Rousseff, que acusou o então diretor da área internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, de omitir informações ao Conselho de Administração da empresa sobre o contrato de compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Segundo a presidente da República, só aprovou a compra porque não tinha informações corretas. Era presidente do Conselho de Administração da empresa à época em que chefiava a Casa Civil do governo Lula. A compra da refinaria causou prejuízos da ordem de US$ I bilhão à Petrobras.

A transação é objeto de investigação do Tribunal de Contas da União, do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. Cerveró foi demitido da empresa por ordem de Dilma, mas o ex-presidente Sérgio Cabrielli ainda defende a operação. Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, atual presidente do Conselho de Administração, contrariou a presidente da República e, estranhamente, defendeu a operação: 

“Tenho certeza de que o conselho agiu corretamente na ocasião. O conselho é formado por pessoas da mais alta competência dos setores público e privado. Analisou com toda a discriminação e a profundidade necessárias”, declarou. Na mesma quarta-feira, o advogado de Cerveró havia dito que todos os integrantes do conselho receberam o contrato de compra com 15 dias de antecedência.

A tempestade
A Petrobras está no meio da tempestade. A oposição quer investigar também os indícios de pagamento de propina a funcionários da petroleira pela companhia holandesa SBM Offshore; as denúncias de que plataformas estariam sendo lançadas ao mar sem equipamentos primordiais de segurança; e o suposto superfaturamento na construção de refinarias no Rio de Janeiro e Maranhão. Para impedir as investigações, parlamentares da base pedem apuração de denúncias sobre prática de cartel na aquisição dos metrôs de São Paulo e do Distrito Federal, obras do porto de Suape e contratos específicos da refinaria de Abreu e Lima. Miram os governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição; e de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), que concorrerá Presidência da República.

Uma CPI em plena campanha eleitoral pode virar um furacão. Basta surgir um documento comprometedor ou um dos investigados resolver falar o que sabe, como aconteceu na CPI dos Anões, que atingiu em cheio a liderança do PMDB na Câmara, em 1993, e na dos Correios, em 2005, que recentemente levou a cúpula do PT à cadeia. Mesmo quando houve pizza, os envolvidos amargaram desgastes eleitorais. No caso da CPI do Caos, o preço a pagar aos aliados também não será pequeno. A manobra de Renan Calheiros no Senado pode ter outros objetivos além de ganhar tempo e lavar as mãos, como Pilatos. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), e o líder da bancada do PMDB, senador Eunício de Oliveira (PMDB-AL), que recusaram convites para as pastas da Integração Nacional e do Turismo, são candidatos aos governos do da Paraíba e do Ceará, respectivamente.

Uma comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) para investigar, além da Petrobras, o cartel no metrô de São Paulo e as obras do porto de Suape, em Pernambuco, estados governados por oposicionistas, foi protocolada ontem. Subscrevem a proposta 219 deputados e 32 senadores, segundo anunciou o líder do governo no Congresso Nacional, José Pimentel (PT-CE). É a resposta do Palácio do Planalto ao pedido de CPI para investigar a Petrobras protocolado pela oposição no Senado, cuja instalação o presidente da Casa, Renan Calheiros, encaminhou para avaliação à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). PT e PMDB se uniram para barrar as investigações porque as diretorias da Petrobras e suas subsidiárias formam um espécie de condomínio dos partidos da base do governo.

Claudia Safatle: Inflação alta reacende o debate para 2015

Choque ou gradualismo para debelar a inflação

Valor Econômico

Será difícil para o Comitê de Política Monetária (Copom) encontrar motivos reais e objetivos, exclusivamente na inflação, para terminar o ciclo de aumento da taxa de juros que começou em abril de 2013 e já elevou em 3,75 pontos percentuais a taxa Selic, de 7,25% ao ano para 11% ao ano. O IPCA de abril pode vir ainda salgado, na casa dos 0,70%, e entre julho e novembro a inflação subirá, podendo exceder o teto de 6,5%.

O choque dos preços dos alimentos tende a ser parcial e temporário, mas isso já está no cenário de referência do relatório de inflação do Banco Central, que considera factível 6,1% de IPCA para o ano. Não está na conta do BC o risco crescente de racionamento de energia, que teria que ser tratado como um tremendo choque de oferta.

No comunicado da reunião de quarta feira o Copom deixou claro que a trajetória de elevação dos juros se encerra em breve, já agora com a Selic em 11% ao ano ou, no máximo, com mais uma elevação de 0,25 ponto percentual em maio. Ontem, os economistas do setor financeiro se dividiram entre essas duas hipóteses.

Afora o imprevisível, tudo indica que a inflação e o crescimento já estão dados para 2014. O IPCA na casa dos 6% e o PIB não muito diferente de 1,5% a 2%. A presidente Dilma Rousseff, portanto, encerraria seu governo com uma inflação média de 6,08% e crescimento médio de 2,01% do PIB. Do governo Sarney para cá ela perderia apenas para Lula na política de combate à inflação, cuja média foi de 5,79%. No crescimento, ganharia apenas de Collor de Mello, que no curto período de governo obteve 1,29% negativos. Mas certamente ganha de todos na menor taxa de desemprego de 5,1% (em fevereiro) que pode, contudo, não ser um fenômeno duradouro.

A grande indagação é sobre o próximo governo. Há questões que se apresentarão de forma contundente seja quem for o presidente eleito. Algumas delas já estão sendo objeto de debate entre os economistas, como a que discute o gradualismo ou tratamento de choque no combate à inflação. Tema que foi tratado no livro de 1970 do ex-ministro e professor Mário Henrique Simonsen, intitulado "Inflação - Gradualismo versus Tratamento de Choque", onde ele expõe as opções e mostra que cada estratégia implica em maior ou menor custo social no curto e no longo prazo.

Para lidar com os preços represados dos combustíveis, energia e tarifas de ônibus, essa é uma decisão que terá que ser tomada logo no início de 2015. Se for feita a opção pela correção de preços de uma só vez, com um tratamento de choque, pode-se ter ganhos de expectativas e de confiança relevantes de forma que apenas uma parte do aumento dos preços controlados seja repassada para a inflação. Essa, porém, não seria uma questão isolada. Ela teria que se compor com decisões duras tanto na política fiscal quanto na monetária e, a partir desse ponto, começam a ser feitas as contas.

Há economistas que defendem um renovado esforço de superávit primário, de pelo menos 2,5% do PIB, desde que livre de receitas não recorrentes e de manobras contábeis. O país, portanto, não escaparia de um aumento da carga tributária mediante, por exemplo, com a extinção das desonerações da folha de salários feitas nos últimos anos e a volta da cobrança da Cide.

A um reforço fiscal se somaria, ainda, um novo aperto monetário para conter a inflação e promover a sua convergência para a meta.

Seguindo os argumentos de quem advoga o tratamento de choque, os juros reais hoje estariam aquém do necessário para derrubar a inflação.

Especialistas partem da seguinte conta: tomando 4% como a taxa neutra de juros, com a Selic em 11% e o IPCA em 6%, o juro real atual seria de somente 0,70%.

Há dois pressupostos nesse raciocínio: primeiro, que a correção geral dos preços represados aumentaria a inflação de 2015 para 7%; e, segundo, que cada ponto percentual a mais na Selic acima da taxa neutra reduz o IPCA em 0,4 ponto percentual, entre o quinto e o oitavo trimestre após a subida dos juros.

Por esses cálculos, o juro em janeiro de 2015 teria que saltar para 16,75% para se colher, em 2016, a inflação na meta de 4,5%.

No governo, não se acredita muito nessa história de juros neutro. "Isso é igual a bruxa. Dizem que existe mas ninguém nunca viu", comentou um economista oficial.

Outra questão inquietante é a trajetória da inflação de serviços e, nesse aspecto, é curiosa a comparação com 2002. O IPCA acumulado em doze meses em dezembro daquele ano era de 12,5% e a inflação de serviços, de 5,47%. Hoje o IPCA de doze meses é de 5,7%, mas os serviços sobem 8,16%. Como este é um setor que não sofre a concorrência dos importados, fica sujeito ao descasamento entre oferta e demanda, emoldurado pelo pleno emprego.

O que é visível nas discussões em curso e que, certamente, vão embalar a campanha eleitoral é a dimensão nada desprezível dos problemas que se formaram e terão que ser enfrentados a partir do próximo ano para, mais à adiante, colocar a economia brasileira na trilha do crescimento.

A opção também pode ser pelo gradualismo, que parece menos penoso para a atividade econômica, já que a tendência do tratamento de choque é gerar um quadro mais recessivo no curto prazo embora de mais rápida recuperação. Tal decisão teria que ser confrontada com os custos sociais de cada opção.

O país experimentou a política de tratamento de choque no governo Castello Branco, com Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões, e colheu as taxas de crescimento do "milagre econômico". Nos Estados Unidos, Paul Volcker, presidente do Fed, preferiu combater a inflação de dois dígitos, no fim dos anos 70 e início dos 80, com um choque de juros.

Os sinais da presidente Dilma para os preços de energia, cujo ajuste deve começar só em 2015, sugerem gradualismo caso seja reeleita.

No ano em que o Plano Real completa duas décadas, o Brasil ainda se vê diante de um processo inflacionário persistente e resistente. Perdeu-se, em 2006, quando o IPCA caiu para 3,14%, a grande oportunidade de resolver esse assunto.

Sandro Vaia: Tragédias e farsas

Por Blog do Noblat

Prometo que não vou citar o Marx do 18 Brumário e dizer que a História se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Embora a tentação seja grande, muitos já o fizeram, e a obviedade pode ser cansativa, às vezes.

Relendo “João Goulart, uma biografia”, do professor e pesquisador Jorge Ferreira, um livro denso e fartamente documentado sobre a vida do ex-presidente deposto em março de 1964 por um golpe militar, as pessoas que regem suas crenças pelo facilitário do maniqueísmo — e acreditam que a vida não passa de uma luta entre o bem e o mal — encontrarão motivos para abrir preocupantes fendas em sua muralha de convicções inabaláveis.

Jango era um líder revolucionário determinado a quebrar os padrões clássicos de dominação com ousadia e arrojo político ou um líder reformista vacilante que não foi capaz de conciliar os interesses de quem o empurrava para a aventura e quem queria manter o status quo a qualquer custo, sem ceder um anel, quanto mais os dedos?

Pois é possível ser uma síntese das duas coisas, como o livro prova com exemplos exaustivos, assim como é impossível negar que ele foi retirado do poder ilegalmente por um clássico golpe militar, um quartelazo à latino-americana.

O truque semântico de chamar o golpe de contragolpe preventivo que evitou a instalação de uma ditadura comunista sofre do paradoxo insanável de sugerir que o antídoto contra a implantação de uma ditadura seja a instalação de outra ditadura.

Fazer apostas sobre qual seria a pior alternativa é um jogo que padece de lógica, porque uma delas se materializou e não há como comparar os estragos que fez aos estragos hipotéticos que a outra faria. Um jogo inútil de soma zero.

As circunstâncias históricas detalhadas à exaustão no livro de Ferreira são irrepetíveis.Não há nenhuma semelhança entre a moldura histórica da época e a que enquadra hoje as críticas que se fazem ao tipo de governo — ou desgoverno — que o PT exerce, e sua assombrosa sede de perpetuação no poder. São situações, conjunturas e ambientes históricos diferentes. Por isso, repetir 50 anos depois a marcha da família soa como uma patética tentativa de repetir o voo do Hindenburg na era dos jatos que quebram a barreira do som.

O senso histórico de realidade falta a quem ignora a simbologia profunda da queda do Muro — que alguns preferem ler apenas como um acidente de engenharia civil — e a quem insiste em chamar os militares para cumprir uma missão que não é deles, para a qual não estão e nunca estiveram preparados, e ignora que o chamado à força e a intervenção é a sentença de morte para uma democracia nascente.

O que o livro de Ferreira conclui é que o que se enterrou em 1964, por culpa dos dois lados, foi a experiência liberal-democrática inaugurada com a Constituição de 1946. Repetir o erro seria mais do que uma farsa, uma irreparável tragédia.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade"(editora Barcarolla).

Maria Cristina Fernandes: Apenas uma prisioneira

Por que Dilma ficou à sombra da efeméride

Valor Econômico

No dia 31 de março a presidente Dilma Rousseff falou, pela primeira vez em público, dos 50 anos do golpe de 1964, ao assinar o contrato pela construção da segunda ponte sobre o rio Guaíba, em Porto Alegre. Citou o presidente "ex-exilado" e o outro que foi "preso várias vezes". Por fim, incluiu-se - "uma mulher que também foi prisioneira".

Entre os três, foi de Dilma que o golpe cobrou o maior pedágio. É a única cujo combate à ditadura foi punido com tortura. E, no entanto, a presidente preferiu se diluir num discurso desprovido de emoção.

Guardou-a para dali a dois dias durante inauguração da reforma do Galeão. A pretexto de homenagear os exilados, citou o 'Samba do Avião', composto por Tom Jobim antes do golpe. Mais uma vez, a guerrilheira que, depois de presa e torturada, engajou-se, no Brasil, pela redemocratização, tirou o foco de si.

Uma razão possível é que o pressuposto para a comandante-em-chefe das Forças Armadas falar em tortura é que seus subordinados hierárquicos a reconheçam. Como esse reconhecimento não existe, a menção à tortura levantaria dúvidas sobre a efetividade de seu comando.

Dois anos atrás, na instalação da comissão da verdade, momento em que reuniu todos os seus antecessores e falou mais demoradamente sobre a ditadura, Dilma também evitou a tortura.

Nem sempre foi assim. Em 2001, quando era secretária de Energia no governo do Rio Grande do Sul, Dilma deu um depoimento ao Conselho Estadual de Direitos Humanos de Minas Gerais, criado para indenizar os políticos torturados no Estado. E assim resumiu a experiência: "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim".

Desde a posse, uma das raras menções ao que passou no pau-de-arara veio no fim do ano passado quando, ao instituir o Sistema Nacional de Combate a Tortura, disse que, por tê-la experimentado, sabia o que representava em "desrespeito à mais elementar condição de humanidade de uma pessoa".

As razões para que uma candidata à reeleição tenha decidido permanecer à sombra no momento em que teria mais a falar do que qualquer de seus oponentes viriam à tona naquele dia da efeméride. As Forças Armadas aceitaram a investigação de suas instalações que serviram à tortura, no que Raymundo Costa, do Valor, apurou ser o primeiro passo para o perdão militar pelos crimes da ditadura.

Está claro que o aceite é uma tentativa de barrar as pressões pela revisão da Lei da Anistia, a começar por correligionários da presidente. Muitos deles manifestaram-se nas redes sociais contrariamente ao discurso em que Dilma diz reconhecer e valorizar os pactos que levaram à redemocratização.

Quando a pressão pela revogação da Lei da Anistia mover Congresso e Supremo Tribunal Federal é possível que Dilma não seja mais presidente e restem poucos a serem punidos.

Até lá, o título de comandante-em-chefe das Forças Armadas talvez possa ser honrado com a mudança do currículo das escolas militares que ainda exaltam o golpe.

O que parece ultrapassar o limite do mandato presidencial e de suas relações com as Forças Armadas é o avanço pactuado de que reclama uma fatia dos petistas.

Na maioria das vezes em que a presidente tentou avançar além do pactuado, foi obrigada a recuar. Vide a política econômica.

Os recuos e pactos a que se submete a ocupante do terceiro andar do Palácio do Planalto talvez expliquem por que desde que se tornou candidata, presidente e novamente candidata, a presidente nunca mais se sentiu tão à vontade com um microfone quanto naquela tarde de 2008 quando disse ao senador Agripino Maia (DEM-RN) que se orgulhava de ter mentido sob tortura.

Golpismo petista
O 'Volta, Lula' é fruto da trinca formada por candidatos petistas, financiadores e marquetagem. Representantes das três categorias confirmam que, a seis meses da eleição, o dinheiro que já deveria estar rolando é represado como forma de pressão para que o ex-presidente desaloje sua sucessora e assuma a candidatura.

Nos porões deste golpe plantam-se boatos sobre a saúde da presidente como saída para a incômoda pergunta que recairia sobre o ex-presidente. Por que votar em quem não soube apresentar um sucessor ao eleitor? A resposta é que Dilma desistiria porque não pode se recandidatar e não porque não queira.

Um ilustre representante dessa trinca foi apresentado aos leitores pela repórter Andréia Sadi, da "Folha de S.Paulo". É o deputado André Vargas (PT-PR), aquele que pediu um helicóptero emprestado do doleiro Alberto Youssef, a maior ponte já construída entre o tesouro da era tucana (Banestado) e aquele amealhado pelo petismo (Petrobras). O constrangedor discurso em que reconheceu o erro do empréstimo foi um golpe dentro do golpe.

Não foi o único. A pauta da Câmara destravada depois de mais de quatro meses foi uma demonstração de que a presidente começou a se acertar com o PMDB, principal entrave aos planos do PT de ampliar seus polos regionais de poder. Nem a ameaça de CPI tem sido um impedimento às votações.

Um sinal desse entendimento é a reaproximação entre Dilma e o agora ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, eterno sócio do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha.

Com a renúncia dos governantes que pretendem disputar cargos eletivos, começa a clarear o mapa das candidaturas estaduais. Nele se verão candidatos petistas muito mais dependentes da presidente do que o inverso. Por mais que sua popularidade ainda claudique, não há vantagem para Dilma em se amarrar a candidatos petistas desconhecidos em seus Estados como Alexandre Padilha, em São Paulo; Rui Costa, na Bahia; ou mesmo nomes já testados, como Lindbergh Farias. Nesses e em muitos outros Estados, os petistas prefeririam ser puxados pelo boeing lulista mas terminarão a reboque de uma presidente que multiplicará palanques estaduais em busca de votos. É uma rota de inevitável colisão com expoentes do golpismo petista.


Veja também:

Nelson Motta: Mãos sujas

PT responde às acusações relativas à Petrobras não negando, mas ameaçando investigar roubalheiras que podem atingir o PSDB em São Paulo

O Globo

O assunto pode ser árido e técnico, mas é oleoso e viscoso. Quem consegue entender como a Refinaria de Pasadena custou US$ 1,2 bilhão, não vale nem a metade, mas processa cem mil barris por dia, enquanto a Refinaria Abreu e Lima vai custar US$ 18,5 bilhões para processar cem mil barris no início e 240 mil quando estiver a pleno vapor?

Que crises econômicas internacionais, que conjunturas de mercado, que estratégias de negócios, que prioridades regionais e nacionais, que espessuras e viscosidades dos óleos, que certezas na impunidade e na estupidez alheia produzem as explicações oficiais para os prejuízos que, por incompetência da gestão, os acionistas da Petrobras tiveram nos últimos quatro anos?

Embora ex-presidente José Sergio Gabrielli diga que “o assunto é requentado”, o óleo está fervendo para ele e seus companheiros de aventuras, há um cheiro de queimado no ar, os poços de burocracia da empresa estão cheios de mistérios que começam a jorrar, Pasadena e Abreu e Lima são apenas dois focos de incêndio, estamos descobrindo que o petróleo não é nosso, é deles.

Enquanto isso, o PT tenta convencer o público que o clamor pelas investigações sobre as refinarias é uma campanha contra... a Petrobras. E responde às acusações não negando, mas ameaçando investigar roubalheiras que podem atingir o PSDB em São Paulo. Se desistir da CPI da Petrobras a oposição pode continuar roubando à vontade? Quem ainda aguenta isso?

Mas o mal já está feito. Na era do aparelhamento político, funcionários de carreira das estatais logo perceberam que aderir ao partido era a melhor forma de crescer na empresa, através de indicações “técnicas”, mas na verdade partidárias, com todas as suas distorções e consequências. Áreas sensíveis e importantes foram entregues em barganhas políticas a corruptos profissionais e a incompetentes que eventualmente dão mais prejuízo do que os ladrões.

A palma da mão manchada de óleo preto que os governantes adoram mostrar para os fotógrafos quando visitam alguma plataforma de petróleo se transformou em um ícone da sujeira e da lambança.

Chico de Assis: Ditadura de 64 nunca foi amena. Violência perdurou por 21 anos

Terror deixou uma sombra paranóica na sociedade que até hoje marca o comportamento dos brasileiros em público

Ayrton Maciel – Jornal do Commercio (PE

Entrevista

Não é verdade que a ditadura de 1964, no Brasil, foi mais amena do que as ditaduras que se seguiram nos anos 70 no Chile, Uruguai e Argentina. E é um erro se pensar que a “repressão violenta” somente se instalou no País com o decreto do Ato Institucional nº 5 (o AI-5), em 13 de dezembro de 1968. O regime foi violente em seus 21 anos.

“Ele apenas recrudesceu (a violência) a partir de 68, porque desapareceram todas as possibilidades de prática política na legalidade. Fui preso em julho de 1970 e torturado durante cinco dias no Dops, na Rua da Aurora. Oito meses depois, voltei a ser torturado no quartel da Aeronáutica, II Base Aérea”, revela Francisco de Assis Barreto da Rocha Filho (Chico de Assis), jornalista e advogado, 67 anos.

O terror ficou como uma sombra paranóica na vida de presos e torturados. “Até hoje, quando entro em um restaurante, nunca fico com as costas voltadas para a porta de entrada”, confessa a marca deixada pela ditadura, em entrevista ao Jornal do Commercio.

JORNAL DO COMMERCIO - Defensores do Golpe de 64 alegam que a violência do regime militar "não foi tão grave ou tão extensa" quanto em outros países da América do Sul, como Argentina, Chile e Uruguai. A repressão pode ser medida pela intensidade?

CHICO DE ASSIS - Essa violência foi agressiva e se estendeu pelos 21 anos de ditadura. Instaurada a ditadura em 64, ela foi muito agressiva de 1964 a 1968, tanto nas manifestações estudantis, que aqui em Pernambuco foram marcadas permanentemente pela proibição e pela violência, quanto também pelas prisões quase em massa que ocorreram nesse período. Aqui, particularmente tivemos o governador o mais progressista dos que estavam governando (antes de 64, Miguel Arraes), que se recusou a renunciar e foi preso em palácio, e o Estado sofreu uma violência das mais agressivas. Dezenas, centenas de trabalhadores rurais, mobilizados por Francisco Julião e Gregório Bezerra, estavam em Palmares esperando um sinal de resistência do governador, foram perseguidos e presos, e dezenas desapareceram. Essa conversa de que de 64 a 68 o golpe foi ameno, não é nada disso, ele apenas recrudesceu a partir de 68, porque aí desapareceram definitivamente as condições de se ter uma atividade política na legalidade. A partir daí, os que estavam em manifestações estudantis optaram por enfrentar o regime pela via armada. Eu fui um desses, e fui preso em 1970 e só sai da prisão em 1979, três meses antes da anistia que foi parcial, excludente e mesquinha porque tentou nos dividir, os que tinham se envolvido com os que não tinha se envolvido em ações armadas. Todos foram vitimas da repressão da ditadura.

JC - Ela foi logo pós golpe e se aprofundou ao longo do regime. O que você viveu e testemunhou nesse período?

CHICO DE ASSIS - Fui preso em julho de 1970, torturado durante cinco dias pela equipe comandada pelo facínora delegado José Silvestre, onde funcionava o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na Rua da Aurora (Recife). Depois da morte do estudante de Agronomia Odijas Carvalho, nosso companheiro militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), trucidado sob torturas, dois anos depois, eles transferiram os interrogatórios e torturas para o DOI-Codi (Departamento de Operação de Informação, do Exército), que começava a se instalar em Pernambuco, e se instalou ali no fim da Rua do Riachuelo, no final das instalações do Hospital Geral do Exército (7ª Região Militar) que servia de porão da tortura. Lá funcionava o serviço secreto do Exército, mas servia também de porão da tortura do (então) IV Exército. Lá foi morto também o estudante concluinte de Geologia, Ezequias Bezerra da Rocha, o primeiro preso, também militante do PCBR, morto estupidamente porque emprestou o carro dele a um perseguido do regime. Ele foi a primeira vítima fatal das que se sucederam.

JC - Os presos, normalmente, chegavam aos locais de tortura com capuz na cabeça para não identificar o local. Como vocês conseguiam saber que estavam em uma dependência da 7ª Região Militar, ao lado da Faculdade de Direito?

CHICO DE ASSIS - Os presos tinham por referência o carrilhão do relógio da Faculdade de Direito. Era através do badalar do carrilhão que os presos tinham referência (de onde estavam). Eu não fui tortura do no DOI-Codi, fui no Dops e depois no quartel da Aeronáutica, na II Base Aérea, oito meses depois de preso, e eu voltei a ser torturado estupidamente. Foi um clima de violência que se instalou e que se manteve durante os 21 anos de ditadura.

JC - A sua trajetória política, assim como muitos militantes, começou no movimento estudantil e já estava consolidada em 1964?

CHICO DE ASSIS - Estudei no Ginásio Pernambucano, na Rua da Aurora, à época chamado de Colégio Estadual de Pernambuco, visto como um dos melhores colégios da cidade, referência de escola pública, com professores admitidos por concurso de cátedra. Sou nascido no Recife, filho de casal de classe média, meu pai um fiscal de rendas federal e minha mãe uma professora, sem nunca ter exercido. Era um colégio que tinha uma efervescência política diferenciada dos demais, até porque tinha uma composição social muito misturada. Pela manhã os filhos das classes média e à noite muito marcada por alunos das favelas de de Santo Amaro. Foi o primeiro colégio a criar um grêmio estudantil. Meu irmão mais velho Antônio Barreto da Rocha era militante do PCB, que me influenciou muito, trazendo livros para casa. Ingressei na Juventude Comunista aos 15 anos de idade, do PCB, depois de ter lido Os Subterrâneos a Liberdade, de Jorge Amado (membro do Partidão), que conta a história dos comunistas em 35. Era uma militância que chamavam de "a esquerda festiva". Participava muito pouco de reuniões, gostava mesmo de estar na rua, na esquina da Sertã (centro do Recife), no Cine Trianon, onde tinha um café, onde se discutia os acontecimentos políticos. A direita depois começou a participar. Só a partir de 64 é que considero que a minha opção pelo Comunismo é que passou a ser real, como dirigente secundarista.

JC - Depois se afastou do PCB?

CHICO DE ASSIS - Em 64, já tinha muitas posições contrárias à linha do PCB, particularmente quanto ao caminho da revolução, que o Partidão dizia que admitia o caminho armado, mas era uma mera eventualidade. Predominava nas fileiras o pensamento de que o processo para o socialismo seria pacífico, sem nenhuma preparação especial. Divididos também sobre a composição das forças que iriam participar do processo revolucionário. O PCB achava que havia uma burguesia nacional que tinha caráter revolucionário. Caio Prado Júnior (escritor comunista) em seus estudos do livro A Revolução Brasileira destrói a tese da existência de uma burguesia nacional, a que existia tinha se formado em associação estreita com o capital financeiro internacional. Nós concordávamos com isso.

JC - Onde você estava em 1º de abril de 64?

CHICO DE ASSIS - Eu estava saindo da Agência Nacional, onde tinha o cargo de repórter auxiliar - hoje sou advogado, curso que terminei em 25 anos - e a agência funcionava no 8º andar do prédio dos Correio, na Avenida Guararapes, e a posição das tropas em direção ao Palácio (do Campos das Princesas) não era muito comum de quem ia defender o governo. Eu e meu irmão, que era diretor da agência, tínhamos estado com o governador Miguel Arraes às 23h30 da noite de 31 de março, no palácio, e ele nos disse que estava "tudo tranquilo, que o general-comandante do II Exército, Amaury Kruel, vai normalizar (resistir a Olympio Mourão Filho) e Justino (Alves Bastos, general-comandante do IV) se comprometeu em me apoiar, podem ir para casa que está tudo sob controle". Ou foi para nos tranquilizar ou para evitar um pânico generalizado. Os soldados passavam agachados e com as armas voltadas para o palácio. Na época, a comunicação era muito complicada. Ficamos acompanhando os telegramas da agência. Ao meio-dia, decidimos sair porque parecia que o governador estava sendo preso, ao invés de defendido. Ai, vinha a passeata com a maior parte de estudantes e trabalhadores da área de estivas (porto do Recife, muito ligados a Arraes), pela ponte Duarte Coelho, e eu me incorporei aos manifestantes até a esquina com a Avenida Dantas Barreto, quando sofremos as primeiras vítimas fatais do regime. Íamos ao palácio defender o governador. O Jonas Albuquerque, meu colega de escola e companheiro de poesias nos clubes literários, e Ivan Aguiar que era um estudante de Engenharia, atingidos por rajadas de metralhadoras. Foram as duas primeiras vítimas do regime que se instalava já deixando a sua marca de violência de forma expressiva no Estado. De 64 a 68, Pernambuco teve uma presença muito grande (ativismo político de resistência). E em Casa Forte tivemos o episódio degradante de Gregório Bezerra, através do facínora coronel (Darci) Vilocq que cometeu toda espécie de tortura contra o histórico militante. De 64 a 68, creio que foi o Estado que mais sofreu a violência do regime, nas ruas e nas perseguições. Tanto que as manifestações estudantis foram violentamente reprimidas aqui. Não se permitia as passeatas. No Ceará, em Fortaleza, para onde me transferi, tinha violência, mas havia atos estudantis que eles permitiam.

JC - Você participou de operações armadas?

CHICO DE ASSIS - Fizemos a dissidência do PCB, eu em julho de 68, porque defendíamos o caminho armado, enquanto o Partidão defendia o caminho pacífico (luta de massas). Tínhamos uma estrutura orgânica (no recém criado PCBR) que pressupunha um comando político-militar e um comando político. Eu participava mais do comando político, mas de vez em quando tinha treinamentos, numa perspectiva estratégica de todas as organizações que foram para a luta armada de que precisávamos ir para o campo, numa área estrategicamente definida, de difícil acesso, mas de muita movimentação social, o foco de guerrilha rural que iria depois transformar no exército popular para derrubar o exército da ditadura. Era uma coisa meio delirante, hoje vejo assim.

JC - Como começou a cair o PCBR?

CHICO DE ASSIS - O PCBR começou a sofrer primeiras baixas mais expressivas em janeiro de 1970, com uma parte de sua direção nacional caindo em janeiro, alguns foram presos aqui. Começamos a fazer um rodízio de direção. Fui designado a ficar aqui porque era o menos queimado, só respondia a um processo que me condenou a um ano de prisão. Alguns já estavam condenados à prisão perpétua, o Alberto Vinícius, Carlos Alberto Soares e João Baltar, que foi para o exílio e mora no Canadá até hoje, e eu fiquei para receber companheiros que estavam vindo do Rio de Janeiro, perseguidos depois da queda do comando por lá.

JC - Como se deu a sua prisão?

CHICO DE ASSIS – Em julho de 1970 fui preso em Afogados (bairro), uma das únicas que não foram resultados de delações e o abertura de companheiros sob tortura. Montei mal o aparelho, perto do club Sargento Wolff. Aluguei a casa com um quintal grande, para facilitar fugas, mas conhecia a área e ela era muito dominada pelos militares. Eu e Nancy Mangabeira Unger ocupamos o local como um casal, filhos de latifundiários, mais a Vera Rocha (cearense). Nosso vizinho do lado esquerdo era um coronel da Aeronáutica e o do lado direito era do Exército. Nossa presença despertou suspeitas (devido à movimentação na casa), e provavelmente foram os vizinhos que nos denunciaram. Vera ia ser a caseira de um próximo sequestro que íamos fazer, tínhamos definido o cônsul japonês. No primeiro momento, o cônsul americano, o que sustentei nos meus depoimentos (pós-prisão). Isso acabou me favorecendo, porque o cônsul passou a acompanhar os depoimentos, e a Nancy Mangabeira (irmã do economista Roberto Mangabeira Unger) tinha a dupla nacionalidade, o pai dela era norte-americano. Meu primeiro depoimento foi o único que consegui registra os nomes dos torturadores. Eu tive sete processos. Nos demais se limitavam a anotar “foi submetido a maus tratos”. Quando eles montaram a operação para nos prender, eles foram primeiro averiguar, dia 15 de julho. Era o delegado e torturador Carlos de Brito, quem começou minhas sessões de tortura. Ele fingiu ser funcionário da Celpe que foi medir o contador. Eu já era conhecido, embora não tão procurado. No dia seguinte, dia da padroeira Nossa Senhora do Carmo, já cercaram e metralhando a casa. Chamavam-nos de terroristas. Decidimos resistir, tentar sair do cerco. Saímos pelos fundos, atirando, com dois revólveres 38. Nancy foi atingida por bala fuzil, estraçalhou o polegar direito e estilhaçou-se no fígado. Ela sofreu várias operações para se recuperar. Aí, eu e Vera decidimos nos entregar para tentar salvar Nancy.

JC - E o processo de torturas começa a partir da rendição?

CHICO DE ASSIS – Já me levaram na porrada, me colocara dentro de uma Veraneio (camioneta), ensaiando o que iria viver nos cinco dias que se seguiram no Dops. No terceiro dia, foi uma sessão de 9 às 17 horas. Eu me guiei pelos horários do café. A diferença do Dops para o DOI-Codi é que no primeiro as dependências envelhecidas do prédio permitiam que os presos escutassem e até vissem a tortura de companheiros, por isso há testemunhas, enquanto no segundo a estrutura era mais de isolamento. O carrilhão da Faculdade de Direito é que permitia saberem onde estavam. Só vim a me sentir como um preso mesmo quando fui transferido para a (penitenciária) Barreto Campelo, em Itamaracá, que tinha todos os sinais de um campo de concentração, com cercas de arame farpado. À frente da penitenciária havia um fascista, o major (PMPE) José Siqueira, que depois foi deputado estadual, que vivia obcecado com a possibilidade de Cuba invadir a ilha para nos retirar e em pensar formas de nos perseguir. Uma guerra psicológica sistemática. Em Itamaracá, fizemos seis greves de fome.

JC – Mas, antes de irem para a Barreto Campelo, vocês passaram pela Casa de Detenção do Recife.

CHICO DE ASSIS - Sim, mas lá, apesar do contorno repressivo, não fizemos nenhuma greve. O diretor, coronel Olímpio Ferraz, da velha guarda da polícia, tinha vinculações políticas com a Assembleia Legislativa, reduto de Floresta (Sertão). Ele costumava dizer “com vocês eu não mexo, porque o problema de vocês é com a história”. É como se dissesse “vocês estão aqui hoje, amanhã eu não sei”. Acho que uma premonição, porque não estamos no poder, mas temos parcelas do poder nas mãos dos que eram “os terroristas”. Ele também já tinha sido reeducado pelo Gregório (Bezerra), que tinha passado seis anos preso lá. O coronel manteve a comida crua, que era uma das reivindicações fundamentais da gente (presos políticos), porque a comida da prisão era intragável. Feijão com tapuru, a carne era uma pelanca velha. Os presos comuns aguentavam porque tinha acesso à maconha. Com a comida crua, os prisioneiros políticos tinham as tarefas divididas para cozinhar e lavar. Tínhamos até acesso a livros, fazíamos grupos de estudos e de críticas de nossas práticas.

JC - Cinquenta 50 anos depois do golpe, mais de 40 depois do AI-5 e da fase dos "anos de chumbo (1968-1974), estamos em uma democracia plena?

CHICO DE ASSIS - Vivemos, hoje, numa democracia política plena. Não temos uma democracia social, não temos ainda uma democracia econômica, mas a democracia política nós temos, todos temos a liberdade de pensar e nos expressar, mas até hoje marcas profundas daquela época nós temos. Eu, particularmente, ainda hoje, não tenho tranquilidade - quando entro em um restaurante - de sentar em uma mesa com as costas voltadas para a porta da frente. Era uma prática que eu tenha para evitar o que aconteceu com dezenas de companheiros, presos de surpresa por policiais. É uma psicose que ficou como registro daquele período. Quando se aproxima qualquer indivíduo suspeito de um grupo que você está, a primeira coisa que vem à cabeça, principalmente daqueles que participaram (da luta armada), é a lembrança daquele período triste do nosso País.

JC - Quais as marcas de 64 que não foram ainda superadas pela sociedade, além da falta de esclarecimento sobre os mortos e desaparecidos?

CHICO DE ASSIS – Os resquícios nas estruturas institucionais de poder. O caso do operário Amarildo (no Rio, em 2013), que foi uma repetição literal do que faziam conosco (no regime militar) em todos os detalhes. Prenderam, sequestraram, torturaram, tentaram levar a um hospital, provavelmente para ver se o salvavam, como não salvaram foi dado como desaparecido. Tentaram acobertar com a mesma conversa da nossa época. Por exemplo, Rubens Paiva (deputado do Rio), foi preso, torturado e morto, depois disseram que numa transferência tinha sido sequestrado pelos terroristas. Com Amarildo, disseram que ele tinha sido sequestrado pelos traficantes. Foi preciso que um repórter tivesse a ideia de salvar um GPS que permitiu a descoberta da trama e o envolvimento de 25 policiais. Um fato como esse demonstra como sobrevivem resquícios da repressão nesses aparelhos (militares). A Lei se Segurança Nacional não foi ainda revogada.

Zeca Pagodinho e Marisa Monte: Preciso me encontrar

Graziela Melo: Becos da vida

Dobrei
os becos da vida
busquei
a infância perdida
no fundo do poço
na escuridão

Fugi do medo
das trevas
palmilhando
as tortuosas
trilhas
da emoção

Lavei
a alma na chuva
sequei
o pranto no vento
na branca
areia da praia
aqueci
o coração
caminhei
de encontro ao sol
espantando a solidão
pois
entre o céu
e a terra
existe um mar de paixão!

Graziela Melo